EntreContos

Literatura que desafia.

Um Estudo em Nunca Fui Santa (Fabio Baptista)

Um Estudo em Nunca Fui Santa

I – Nos Embalos de Sábado de Manhã

Sherlock Holmes estava particularmente calado naquela ensolarada manhã de Sábado. Tentei puxar assunto duas vezes durante o desjejum, comentando, em uma das oportunidades, sobre as medidas propostas pelo governo para conter a alta do dólar e, na outra, a respeito de uma manchete qualquer do caderno policial. Em ambas as ocasiões recebi como resposta um grunhido anasalado que provavelmente queria dizer “não estou nem um pouco interessado” em alguma língua morta que apenas ele e mais um ou dois arqueólogos tachados como loucos pela comunidade científica conheciam. Pensei em provocá-lo uma terceira vez, perguntando seus palpites para os jogos do final de semana, mas julguei mais apropriado deixá-lo em paz em seu silencioso universo de elucubrações. Conhecia bem meu amigo e, como bom médico, já havia decretado seu diagnóstico assim que o vi sair do quarto com aquela cara amassada de quem reluta em abandonar o aconchego dos lençóis: tédio. Sherlock ficava mortalmente entediado quando lhe chegavam às mãos apenas casos banais, que qualquer detetive com QI pouco acima de 150 poderia resolver com algum esforço.

E, naquele começo de Maio, parecia que a banalidade era um pré-requisito para que os clientes tocassem o interfone do apartamento 221, condomínio Baker Street, São Paulo, capital. Holmes, ainda trajando seu velho roupão listrado, foi até a janela e por lá ficou, baforando demoradamente o cachimbo, com o olhar perdido em algum ponto da Praça da República. Fiquei à mesa, esvaziando uma xícara de chá atrás da outra enquanto terminava de ler o matutino. Pensava em seguir as recomendações que dava aos meus pacientes e caminhar um pouco tão logo concluísse a leitura, mas então Sherlock foi tomado por um ímpeto e falou de súbito, arqueando a sobrancelha, com o fogo do desafio queimando em seu olhar:

— Veja só, meu caro Watson: eis que o Sol finalmente resolveu dar as caras e jogar um pouco de sua luz dourada sobre as trevas do marasmo em que estávamos confinados!

— Como assim, Sherlock? Já amanheceu faz tempo… – falei, confuso com o que meu amigo queria dizer. O Sol já brilhava há muito no firmamento anil de parcas nuvens, compondo uma bela paisagem sobre os prédios revitalizados do centro. Estaria Holmes tão imerso em seus pensamentos que só naquele instante percebera isso?

— Não, Watson… ainda não amanheceu! Prepare-se, pois esse belo espetáculo da natureza terá seu prelúdio em 3… 2… 1…

Assim que terminou a “contagem regressiva”, o interfone tocou. Sherlock sorriu ao ver a incredulidade transparecendo em minhas sobrancelhas. Atendi ao quarto toque. O porteiro atrapalhou-se todo com o nome, mas, pelo pouco que consegui entender, deduzi que era uma mulher que procurava os préstimos investigativos de meu amigo. Mandei-a subir. Olhei para Holmes e sussurrei “como?”, apenas movendo os lábios e virando as palmas das mãos para o teto. Recebi novo sorriso irônico como resposta. Aquele maldito sorriso que nas entrelinhas dizia “elementar, meu caro… elementar!”. Aguardei à entrada e ouvi o salto alto de nossa provável cliente estalando nos degraus e depois no corredor. Logo a campainha tocou. Então abri a porta e não consegui pensar em mais nada, porque ali estava uma mulher daquelas cuja presença inibe completamente a capacidade de raciocínio aos homens.

Bonjumessiê Holmê? – Ela perguntou, com olhos castanhos marejados que eram quase uma súplica por carinho, amor, afeto, atenção… e ajuda na resolução de algum crime hediondo que a polícia não teve capacidade de desvendar, é claro.

— Não… infelizmente não. Eu sou o Watson. John Watson. “Messiê Holmê” é aquele ali de roupão listrado e cachimbo, empoleirado na janela igual um personagem de desenho animado… – disse, apontando meu amigo com o queixo, controlando a vontade de responder apenas “sou quem você quiser que eu seja, mademoiselle…”.

Messiê Holmê! Messiê Holmê! Me ajuda sivuplê!!! – Ignorou-me como se eu fosse um entregador de folhetos que a tivesse abordado na rua e correu em direção a Holmes, tomando a mão esquerda de meu amigo entre as suas e puxando-a gentilmente até o pescoço, talvez para que ele sentisse todo o desespero que pulsava em sua carótida. Pensei em dizer que era médico e poderia tomar seus batimentos com mais precisão que Holmes, mas apenas atirei-me ao sofá, resignado, para acompanhar de camarote ao desdobramento dos fatos.

— Em que um não tão humilde detetive como eu poderia ajudá-la, senhora…? – Holmes questionou, libertando a mão daquele “terrível” cárcere e dando um passo para trás.

— Márri, messiê Holmê. Márri Janinê. Esposa do milionariô Pierre Janinê… – ela respondeu, unindo as mãos em frente aos seios e fazendo bico, como uma menina que pede uma casa de bonecas aos pais.

— Interessante… – Sherlock Holmes ponderou, com uma leve malícia no olhar. Em seguida começou a andar ao redor de Marie e ao final de uma volta completa, continuou: – diga-me, Marie… em que posso ser útil à senhora, ou ao monsieur Janine?

— Ah, messiê Holmê… a pobrrre Márri acha que está sendo trrraidá! E se o malvadô Pierre Janinê estiver colocando um belo par de chifrrrês na minha testá, querro descobrrrir! – Lágrimas já escorriam por sua face de porcelana e eu não pude deixar de pensar “Deus do céu, que homem se arriscaria a perder uma mulher dessas?”.

— Ora, ora! Veja só, Watson… traição conjugal! Um assunto deveras edificante para a carreira de um detetive particular, não acha? Vamos começar a investigar agora mes… ei, mas que droga! Parece que meu relógiô parrou de funcionar! – Disse Holmes, zombando descaradamente do sotaque de nossa visitante, enquanto batia levemente com o indicador no vidro do Rolex-made-in-25-de-Março que trazia no bolso. – A senhora pode me dizer que horas são, por obséquio, mademoiselle?

— Hum… são… dez e meiá… – respondeu Marie Janine, após consultar a peça que lhe adornava o pulso.

— Nove e meiá! Bem na hora da senhora ir embórrá! – Holmes rimou, fazendo os olhos de Marie esbugalharem-se mais que os de Napoleão Bonaparte ao contemplar o contingente da Sétima Coligação estendendo-se no outro lado do campo de batalha.

— O-o quê, messiê Holmê? E a trrraição de Pierre?

— Ele é bonito? – Holmes perguntou, conduzindo Marie à porta.

U… ui… – a moça gaguejou, tão perplexa quanto eu.

— Ele é rico? Faz viagens de negócio?

— S-si… oui! Oui!

— Então ele te trai, caso encerrado. Não precisa agradecer, Senhora Marie – disse Sherlock, quase empurrando a mulher para fora. – Cuidado com os degraus, eu tiraria o salto se fosse você. Ah… e diga para a pequena Gleysianne não exagerar nos doces.

Bateu a porta na cara da estupefata Marie, que ameaçava incendiar nosso diminuto apartamento com as faíscas que saiam de seu olhar. Sherlock Holmes voltou caminhando tranquilamente pela sala, saboreando os segundos em que eu conseguiria resistir antes de me render à fatídica questão – “ok, como você fez isso?”. Todavia, lembro-me de nessa ocasião ter adiado a inevitável entrada nos pormenores, pois, naquele momento, a pergunta que mais me intrigava não era o “como?”, mas sim o “por quê?”. Afinal, mais cedo ou mais tarde as contas venceriam, a despeito do desprezo que Sherlock relegava aos aspectos monetários dos casos que pegava. E o divórcio de um milionário parecia bem interessante nesse sentido. Confesso que eu também levaria em consideração as “aptidões físicas”, por assim dizer, da mademoiselle Marie Janine. Sei que pode soar um tanto calhorda de minha parte, mas a verdade é que eu não perderia por nada a chance de ficar ao lado daquela mulher, principalmente numa fase propensa a crises de carência como o divórcio. Mas Sherlock dificilmente ponderava em suas decisões algo além da complexidade do mistério que precisaria desvendar. “Deus não dá asas à cobra”, pensei, quase em tom de auto-piedade.

— Holmes… parecia um bom caso. Ao menos no que tange o retorno financeiro… – falei depois de um tempo.

— Adoraria saber mais sobre sua definição de “bom caso”, meu caro Watson, mas não agora. Talvez durante o jantar. A propósito, o que acha de dividir comigo aquele lanche de pernil do restaurante que nunca fecha ali no outro quarteirão? Sempre tive a curiosidade mórbida de experimentar um desses.

— Confesso que não era bem o que eu tinha em mente, mas podemos arriscar. Meu estômago ainda está digerindo o desjejum, porém até a hora do jantar acredito que haverá espaço. Mas, Holmes… não mude o foco do assunto.

— Gosto dessa sua determinação, Watson! Contudo, meu bom amigo, sugiro que economize energia, pois jamais me convencerá que investigação de adultério seja compatível com um detetive da minha estirpe. Modéstia à parte, é claro. Sobre o aspecto monetário que você tanto gosta de lembrar valendo-se de uma indireta ou outra, creio que não seja algo com que precisemos gastar a já não tão abundante melanina de nossos cabelos.

— A data de vencimento do boleto do aluguel parece não concordar muito com essa sua teoria… – foi minha vez de abrir um sorriso irônico.

— “Entrega teu caminho ao Senhor, confia Nele, e o mais… Ele fará”! – disse Sherlock Holmes, surpreendendo-me com uma citação que não era muito de seu feitio.

— Ora, qual é essa novidade agora, Sherlock? Tornou-se religioso?

— Quem sabe, meu caro Watson… quem sabe!

— Religioso ou não, precisará de dinheiro na conta até o dia quin…

— Nada vai faltar, Watson! – Holmes me interrompeu, entonando uma voz triunfante. – Você verá em 3… 2…

Desnecessário dizer que o interfone tocou quase no mesmo instante em que o “um” terminou de sair de sua boca, sufocado com a fumaça do cachimbo. Atendi e o porteiro novamente atrapalhou-se com o nome da pessoa que procurava os serviços de Sherlock. Mandei subir, afinal, de que importava o nome? Abri a porta ao toque da campainha e recebi outra mulher, não tão “exuberante” quanto mademoiselle Marie Janine, mas que certamente ainda guardava muita beleza no alto de seus cinquenta e dois anos. A idade exata, evidente, soubemos depois. No primeiro impacto, mesmo com o rosto pálido transparecendo cansaço e intensa preocupação, não daria a ela mais que quarenta. Pequenos milagres da indústria dos cosméticos e da toxina botulínica. Trajava um vestido azul marinho que parecia valer pelo menos três vezes mais que o apartamento alugado e todo o humilde mobiliário que ela inspecionava de cima a baixo naquele momento.

— Desejo falar com o Senhor Sherlock Holmes… – a mulher falou, tirando as luvas, num tom de quem está acostumado a dar ordens, obviamente deixando implícito um “em particular” no final da sentença.

— Sherlock Holmes, a seu dispor. – Adiantou-se Holmes, fazendo uma reverência teatral.

— E o senhor é… ? – Dirigiu-se a mim, com um cartaz escrito “RETIRE-SE” estampado em seus belos olhos castanhos.

— John Watson, meu leal companheiro. – Holmes falou de imediato, antes que eu tomasse fôlego. – O melhor médico desempregado que a senhora poderá encontrar vagando pelo trânsito infernal dessa maravilhosa metrópole.

— Plantonista reserva, não desempregado… – corrigi, meio sem jeito.

— E os senhores são… – a mulher continuou a “entrevista”, confesso que, dessa vez, deixando-me um pouco constrangido com a demasiada extensão na pronúncia de “são” e com as palavras que, em sua imaginação, poderia estar utilizando para completar a frase.

— Parceiros! – Respondeu Sherlock.

— Profissionais! – Completei rapidamente. – Parceiros profissionais. Uma dupla.

— Entendo… – a madame concluiu, não desprovida de certo sarcasmo. – Sherlock Holmes e John Watson… esses nomes americanos são algum tipo de estratégia de marketing?

— Na verdade são ingleses. E são reais, não pseudônimos que utilizamos para ter mais credibilidade num cenário onde infelizmente tudo que é estrangeiro parece ser mais valorizado. É uma longa história, mas tenho certeza que a senhora não veio até aqui para ouvir sobre as peripécias ocorridas nos galhos de minha árvore genealógica, tampouco nas do Doutor Watson, estou certo, senhora…? – Holmes inqueriu, com um ar jovial.

— Oliveira. Martha Tenório Oliveira.

— Esposa do senhor Olavo Albuquerque Oliveira, eu presumo… – Sherlock afirmou.

— Exatamente – Martha respondeu, sem demonstrar surpresa com a dedução feita pelo meu amigo.

— E em que podemos ajudá-la, Senhora Oliveira?

— Espero contar com a ética profissional dos senhores, pois se trata de um assunto tão delicado quanto sigiloso. Ao menos para mim, evidente, pois, como logo entenderão, é minha honra que está em jogo aqui… – a voz de nossa cliente começava a ficar levemente embargada. Respirou fundo, recobrando a compostura e então continuou: – Tenho sérios motivos para acreditar, Senhor Holmes, que meu marido está me traindo. E gostaria que o senhor me auxiliasse a obter provas contundentes desse adultério, para que eu possa compensar, com uma gorda pensão, os anos de minha juventude jogados fora ao lado de semelhante cafajeste.

— Investigação de adultério, veja só que coincidência! Pouco antes de a senhora chegar, estava falando que esse é o meu tipo de caso preferido, não é mesmo, Watson? – Holmes parecia verdadeiramente animado. Pousou o cachimbo no criado mudo e aproximou-se de Martha Oliveira. – A senhora teria uma foto recente do seu marido?

Após breve hesitação, Martha tirou um celular da bolsa e deslizou os dedos nele por alguns instantes, entregando-o a Holmes em seguida. A tela exibia Martha abraçada a um senhor careca, aparentando lá seus sessenta anos, com uma praia, que mais parecia parte integrante do Jardim do Éden, reluzindo ao fundo.

foto_praia

Sherlock perguntou “Tahiti?” e Martha assentiu, após um amálgama de surpresa e hesitação visitar rapidamente seu semblante. Holmes fez menção de devolver o telefone às mãos da mulher, mas então olhou para a janela e assustou-nos com um grito pavoroso: “MEU DEUS DO CÉU, O QUE É AQUILO???”. Nossa atenção, não poderia ser diferente, voltou-se de imediato para fora do apartamento, mas não havia nada ali que pudesse justificar tamanho alarde.

— Jesus! Quase me mata de susto! O que foi isso, homem? – Martha esbravejou, levando as mãos ao coração.

— Mil desculpas, minha senhora… – Holmes falava agora com a maior naturalidade do mundo. – Pensei ter visto claramente o que poderia ser tomado como o início de uma explosão de dimensões bíblicas, mas creio que era apenas o reflexo do Sol na lataria polida do ônibus elétrico. Pois bem, aceitamos o caso! Precisarei visitar a casa da senhora, em busca de evidências que possam conduzir-nos ao rastro de uma eventual amante. Podemos aproveitar que o nosso bom Olavo só retorna de viagem na terça e agendar essa visita para amanhã, depois da macarronada. O que acha?

— Como sabe que o meu marido só volta na terça? – Martha questionou, dessa vez sem conseguir esconder o espanto.

— É o meu trabalho, senhora. E, assim como os mágicos, os detetives não devem revelar seus truques. Do contrário, tudo acaba perdendo a graça.

— Pois bem, que seja. Amanhã está ótimo. Aguardo-os às dezessete horas em ponto.

— Bem na hora do chá das cinco, meu horário favorito! – Holmes sorriu, com uma amabilidade que não lhe era costumeira.

Martha dirigiu-se à porta e eu a acompanhei. A mulher lançou um último olhar de reprovação aos livros que se apinhavam empoeirados na estante que já era mais cupim que mogno e saiu, ignorando-me completamente mais uma vez.

— Senhora!? – Chamei, lembrando-me de algo que julguei importante, quando ela já ganhava os primeiros degraus em direção ao térreo.

— Sim… – respondeu, sem conceder a dádiva de virar o rosto.

— O seu endereço, creio que Holmes tenha esquecido de pedir.

— Ora, penso eu que se um detetive não consegue descobrir esse tipo de coisa por si só, então não serve para o trabalho. – Terminou a frase já na metade do segundo lance da escadaria. E depois, prosseguiu com a descida, exalando ainda mais simpatia: – que lugar é esse que não tem um elevador sequer… valha-me Cristo!

II – Explanações Elementares

Quando voltei minha atenção à sala, Sherlock Holmes desaparecera. Foi tudo tão rápido que cheguei a pensar, num primeiro momento completamente desprovido de racionalidade, que meu amigo havia se atirado janela abaixo. Todavia, em um átimo o som emanado pelas cordas do violino tratou de afugentar tais pensamentos tétricos, provavelmente gerados pela vontade inconsciente que eu estava de lançar nossa esnobe cliente apartamento afora, auxiliando-a no árduo deslocamento em direção ao térreo. Sherlock tocava como se absolutamente nada tivesse acontecido e tenho impressão que assim permaneceria se a curiosidade não começasse a se revirar de modo tão incômodo em minhas vísceras, forçando-me a interrompê-lo em busca de maiores explanações acerca da distinção de tratamento dispensada às duas madames que nos visitaram aquela manhã.

— Surpreenda-me mais uma vez com seus poderes dedutivos, Holmes: o que estou pensando exatamente agora? – Um desafio bem colocado era sempre a melhor maneira de chamar sua atenção.

— Em comer o tal do lanche de pernil no almoço? No curvilíneo arrière da mademoiselle Marie Janine? Em tentar dominar o mundo? Ora, Watson! Como posso saber algo dessa natureza? Sou um detetive, não um adivinho com faculdades mediúnicas! – Fingiu falar sério, enquanto buscava a execução perfeita de um punhado de notas com complexidade avançada e beleza questionável (pelo menos aos meus ouvidos “pouco afinados”, como Sherlock gostava de afirmar quando divergíamos a respeito de uma música qualquer).

— Você sabe bem onde quero chegar, meu amigo. Tenho certeza que poderes paranormais são desnecessários nesse momento. – Afirmei, com a ameaça velada de não deixá-lo em paz até que me respondesse a contento.

— Por Deus, Watson… como se pratica boa música em tão conturbado ambiente? Como posso me concentrar na arte do violino quando suas charadas e meias palavras martelam meus ouvidos a ponto de eu não poder discernir um Fá de um Lá menor? No que você está pensando? Ora, o que mais pode ser senão: “por que você negou atender a Senhora Marie Janine e aceitou atender a Senhora Martha Oliveira, haja vista que se trata exatamente do mesmo caso, ou seja, investigação de adultério?”. Indo um pouco além nessa linha de raciocínio, creio que em sua opinião eu deveria ter aceito os dois casos e, consequentemente, ficado com o pagamento de ambas as pobres e indefesas mulheres traídas. Estou certo?

— Sim, era exatamente isso que eu estava pensando. – Sorri.

— Ótimo! Agora, com licença… tenho uma composição ávida por ser concluída.

— Holmes! – Saltei do sofá e tomei de supetão o arco, que já se encaminhava novamente ao encontro das cordas.

— Ah, meu caro Watson! Sua determinação por vezes me admira. Explicarei os pormenores que me conduziram às decisões e deduções que o intrigam. Por onde quer começar? – Com cinismo ele tentava disfarçar, mas a verdade é que Sherlock adorava essa parte. Era visível seu deleite enquanto unia as pontas dos dedos em frente ao peito e relatava as coisas que a ele eram corriqueiras, mas que a mim sempre soavam como uma mágica que por mais que fosse revelada, jamais perdia a graça.

— Pois bem, comecemos pela Senhora Marie Janine. – Retornei ao sofá, sem devolver o arco do violino, só por garantia. – Por que lhe recusou a prestação de seus serviços?

Mademoiselle Janine é uma charlatã, uma vigarista da pior estirpe. A história que contou é tão verdadeira quanto o que traz acomodado ao sutiã. Não se deixe levar por perfumes, decotes e saias que precisam ser ajeitadas a cada dois segundos para que não deixem revelar mais que coxas torneadas, Watson.  Aquela mulher estava mentindo até os ossos, meu caro.

— E como descobriu isso num lapso de tempo tão diminuto? Mal ela entrou em nossa sala e você já parecia saber…

— Na verdade, já sabia antes disso.

— Antes? Como? – Holmes regozijou-se com a interrogação desenhada em minha testa.

— Assim que a vi caminhar na rua. Confesso que meu primeiro sentimento foi o de preocupação a respeito da integridade física da moça, afinal, poucas vezes tive a oportunidade de acompanhar alguém caminhando de maneira tão desengonçada… por um momento fiquei em dúvida se eram saltos ou pernas-de-pau que ela calçava. Mesmo dessa distância pude perceber o desconforto da nossa bela Marie com as roupas que trajava. Calculei que, andando naquele ritmo, demoraria cerca de quinze segundos até alcançar nossa portaria, obviamente se não tivesse a infelicidade de se estatelar na calçada antes disso.

— Entendo… daí explica-se também a primeira “contagem regressiva”.

— Precisamente, meu caro Watson. – Sherlock Holmes assentiu, abaixando o queixo lentamente.

— Mas espere… na ocasião você disse que “o Sol deu as caras”, ou algo assim. Como pode ter afirmado isso se já sabia que Marie Janine era uma farsa? – Por um breve instante, tive a doce sensação vitoriosa de ter encontrado um ponto falho no raciocínio de Holmes. Porém, em um átimo meu utópico castelo de cartas desmoronou:

— A afirmação de que “o Sol finalmente resolveu dar as caras e jogar um pouco de sua luz dourada sobre as trevas do marasmo” foi direcionada à Senhora Martha, não à Marie – disse Holmes, com naturalidade.

— Não entendo…

— Por uma grande coincidência, as duas damas chegaram à nossa porta quase ao mesmo tempo. É como dizem sobre a procura por emprego: você fica meses sem ser chamado por ninguém, mas basta começar a trabalhar em algum lugar para que todos os outros estabelecimentos para onde enviou currículo comecem a ligar, oferecendo entrevistas e vagas com urgência de preenchimento. Por isso, meu amigo, tenho certeza que em breve você será disputado por todos os hospitais da cidade. Bom, mas continuando… Marie Janine veio de metrô. Martha, de BMW com motorista particular. Teriam tocado a campainha juntas, caso o chofer dos Oliveira não tivesse passado um pouco do portão. Ou quase juntas, se a digníssima Martha Tenório se dispusesse a descer do carro e caminhar alguns metros pela calçada. Porém, a milady Oliveira decidiu não conceder ao granito mal encaixado, que reveste o espaço entre a rua e nossa humilde recepção, a honra de ser pisado por pés tão nobres, dessa forma calculei que, dado o trânsito caótico que não falha nem aos Sábados, levaria cerca de quinze minutos para contornar o quarteirão. Tempo mais que suficiente para nos livrarmos da nossa primeira visitante. Assim foi fácil iniciar a segunda contagem, quando vi o veículo aproximando-se novamente, seguido por uma caminhonete com o Salmo 37 adesivado ao vidro dianteiro.

— E como sabia que as duas vieram aqui para falar com você? – Perguntei, já prevendo a resposta.

— Nesse prédio residem, basicamente: contadores aposentados, viúvas de militares, médicos desempregados… um rapaz punk que herdou o apartamento da avó e um outro sujeito que raramente é visto à luz do dia e com certeza precisaria de uma bombinha de asma caso se deparasse com uma mulher voluptuosa como Marie Janine fora da tela do computador. Dessa feita, a não ser que uma delas fosse uma boneca inflável ou então empresária musical, disposta a apostar suas fichas no Sid Vicious tupiniquim do 4º andar, concluí que eu seria a escolha mais provável.

— Poderia ser alguém vindo ao meu encontro, isso já lhe passou pela cabeça?

— Meu bom Watson… se bem me lembro, na última oportunidade em que você marcou encontro com uma mulher, ficou arrumado com quase um dia de antecedência e passou tanto perfume que os vizinhos por pouco não chamaram os bombeiros. Tendo isso em mente como referência mais recente, seria um tanto ilógico deduzir que o senhor aguardava alguém calçando esse… como é mesmo o nome?

— Crocs… – respondi, olhando para os meus pés e caindo na gargalhada.

— … esse “crocs”! Mas, se isso faz com que você se sinta melhor, incluirei a alternativa “encontro romântico de roupão e crocs” na minha próxima lista de possibilidades.

— Já estou bem melhor, Sherlock! – Afirmei, arrancando um raro sorriso descontraído do rosto de meu amigo. – Mas prossiga, por favor… ainda há muitos pontos obscuros em suas deduções.

— Muito bem… encerrando as conclusões sobre a vigarice de Marie Janine: o vestido que trajava era uma cópia bem feita de uma grife famosa, que careceria de um exame mais apurado para comprovar a falsificação. A verdade é que, ao contrário do número de dígitos grafados nas placas de preço, os tecidos pouco diferem entre uma peça original e uma de segunda linha. Meu trabalho, porém, foi facilitado pela etiqueta que a descuidada Marie esqueceu de colocar para baixo e ficou chamando a atenção como um holofote brilhando em sua nuca…

— Não notei esse detalhe… – disse, tentando me lembrar.

— É o que sempre digo, Watson. Você olha, mas não observa. Nesse caso em particular, notei que observou bastante, mas não exatamente à altura do pescoço… Enfim, não sou especialista em moda, mas, pelo que me lembro, o sobrenome da Senhorita Coco possui um “N” só, e não era isso que dizia a tal etiqueta. Somando-se o casaquinho de brechó do Largo da Concórdia ao estranhíssimo fato de uma suposta esposa de milionário desembarcar sozinha na estação República e ao sotaque que parecia extraído de um episódio de “Tom & Jerry”, não foi difícil chegar ao veredito: charlatã de quinta categoria.

— E qual seria o intuito dela com essa história?

— Difícil dizer com precisão – Sherlock deu de ombros –, mas apostaria em algo na linha de obter as provas do adultério, contra a verdadeira senhora Janine, para posteriormente realizar algum tipo de chantagem, mediante ameaças de divulgação na imprensa sensacionalista ou algo do tipo.

— Que coisa mais baixa! – Indignei-me, surpreendendo-me outra vez com o ponto em que podia chegar a canalhice do ser humano.

— Baixa, certamente. Desesperada, talvez. – Holmes refletiu. – Pensei no que poderia levar alguém a fazer isso. Seria uma elucubração sem fim, mas uma tatuagem no braço da senhorita Marie me deu uma boa pista. Vi algumas estrelas desenhadas, logo em seguida a um “nne”. O restante da palavra estava encoberto pela manga da blusa e acabou sendo revelado, quase em sua totalidade, quando lhe perguntei as horas: “leysianne”. As cores ainda estavam vivas, mas não tanto quanto em uma arte recente… um trabalho, não dos mais profissionais, realizado há cerca de três ou quatro anos, suponho. Logo desenhei em minha mente uma pequena ‘G’leysianne carente de condições financeiras para receber boa educação. E uma mãe fazendo de tudo para dar o melhor possível à filha, para que esta não precisasse repetir seus próprios passos. Aliás, com base na tendência inata que as crianças têm em copiar os pais e nos dentes da mademoiselle Janine, que mais pareciam uma lua em miniatura devido à quantidade de crateras, dei o conselho sobre os doces, ao me despedir da nossa bela vigarista.

— Muito bom! – Por menos que quisesse admitir, sempre ficava maravilhado com as explicações de Sherlock. – E sobre a Senhora Martha Oliveira, o que tem a dizer, meu bom amigo?

— Outra mentirosa contumaz. – Holmes sentenciou, lançando-me um olhar irônico que já previa minha reação.

— Ora! Então por que também não declinou de seu pedido por ajuda?

— Por uma diferença básica, meu caro Watson… Marie Janine, ou seja lá qual for o nome daquela moça que esteve aqui às dez e meia, estava mentindo até os ossos. Já Martha Oliveira mentiu descaradamente até o tutano! E é desse tipo de trapaceiro que eu gosto, doutor.

— Então ela também pretende aplicar um golpe baseado em chantagem? – Perguntei, intrigado.

— Não, de modo algum! Quero dizer… pelo menos não uma chantagem da mesma natureza que Marie Janine pretendia aplicar. Nesse caso é certo que ela é casada com o magnata dos tecidos, o Senhor Olavo Oliveira. Mas não tenho muitas certezas além disso. Diga-me, Watson… o que você achou da nossa cliente?

— Bem… creio que a motivação dela é bastante plausível. Somada a motivos que jamais vai confessar, é claro. Provavelmente está enjoada do casamento, talvez tenha ela também um amante. Uma comprovação de adultério lhe renderia uma boa arma nos tribunais e, mais que isso, uma boa desculpa para saltar do barco. Não que ela tenha me parecido a pessoa mais sincera do mundo, pelo contrário, mas não vejo os motivos que te levaram a concluir que está mentindo de modo tão acentuado. Assim como não consigo imaginar como você descobriu que o Senhor Olavo está viajando e retornará apenas na terça-feira.

— Watson, será que realmente lemos o mesmo jornal todas as manhãs? Às vezes desconfio que algumas páginas estão faltando quando o matutino chega às suas mãos! Há três semanas foi amplamente noticiado que o Senhor Oliveira faria uma demorada viagem à China, a fim de angariar novos clientes e fornecedores.

— Imagino que o “amplamente noticiado” tenha sido uma nota de rodapé no caderno de Economia… mas tem razão, Holmes, foi minha culpa não dado a atenção devida a esse fato tão importante. – Gargalhamos. – Mas e sobre o retorno? A data também estava no jornal?

— Não, não estava. Isso foi um golpe de sorte, devo admitir. – Holmes acomodou o violino no sofá e foi até a janela. – Enquanto verificava o celular da nossa convidada, chegou uma mensagem no whatsapp: “volto só terça, daí conversamos”, de “Olavo”.

— Então você nos distraiu aquela hora para fuçar no celular dela?

— Elementar!

— Isso é invasão de privacidade, Holmes! – Dei risada. – E o que mais você viu?

— Não muito, Watson. Bom… vi que provavelmente sua teoria acerca da senhora Martha ter um amante está correta. A menos que enviar “ainda sinto seu cheiro…”, acompanhado de carinhas amarelas mandando beijinho de coração seja moda hoje em dia.

— De quem era essa mensagem?

— Estava identificado apenas como “R.R”, sem foto. Ou seja, não faço a menor ideia… ainda.

— Desculpe, Holmes, mas não me convenci sobre a falsidade da nossa cliente. Pelo menos no que tange o pedido de investigação.

— Poderia dizer que foi devido ao fato de que dificilmente alguém na posição de Martha, com tamanho telhado de vidro, se exporia a esse tipo de conflito. Certamente haveria represálias em igual escala por parte do marido e ninguém sairia incólume dessa história. Também poderia mencionar o fato da aparentemente banal mentira sobre o local em que tirou a foto que me mostrou no celular…

— Então não era o Tahiti?

— Se não me falha a memória, e você sabe que ela não costuma falhar, vi formações rochosas e águas cristalinas idênticas àquelas, numa dessas revistas de turismo, enquanto aguardava para cortar o cabelo no falecido Seo Brito do Copan. E, salvo engano, o título da matéria era “O paraíso fica na Austrália”.

— Curioso… por que alguém mentiria sobre fato tão corriqueiro quanto o lugar em que passou as férias de verão?

— Impossível responder com certeza nesse momento. O que posso deduzir é que Martha nutre antipatia por essa foto em especial, pois foi sua escolhida para nos mostrar a figura do marido supostamente traidor. E, como costumo dizer: “o diabo mora nos detalhes”.

— Faz sentido, mas, pelo que você estava falando, também não foi isso que o levou a duvidar da veracidade dos argumentos de nossa nobre interlocutora.

— Não, Watson. Essas coisas contribuíram e confirmaram minhas suspeitas, mas a verdade é que eu senti o cheiro da mentira imiscuído à fragrância do Poivre de Caron, assim que Martha Oliveira cruzou essa porta. A suspeita de adultério é apenas uma isca, um fio condutor que nos levará ao que ela realmente quer que investiguemos, tenho certeza disso. De onde emana essa certeza? Pura intuição, meu caro. E a origem disso eu não saberia te explicar.

— Entendo… – menti. – Então, para variar, o que o motivou a pegar o caso foi o desafio de descortinar os fatos que estão momentaneamente escondidos nas brumas do horizonte…

— Não conseguiria definir com mais precisão ou mais poesia, meu caro Watson! – Num salto Sherlock tomou o arco de minhas mãos e, ato contínuo, levou o violino ao ombro. Depois completou, com uma piscadela: – ademais, nossas contas estão vencendo… e a bolsa da senhora Martha denotava alguém mais propenso a honrar com meus honorários do que a “Luis Vittom” da pobre Marie Janine.

III – Uma Noite no Plantão

Depois daquela breve conversa, Sherlock imergiu em seu universo particular de hipóteses, teorias, análises lógicas e notas musicais arranhadas. Assim permaneceu até que meu estômago começasse a resmungar. Estava prestes a convidá-lo para o tal lanche de pernil (concluí que seria melhor realizar essa arriscada aventura gastronômica antes do jantar, concedendo ao corpo uma boa margem para digestão e com isso minimizando a possibilidade de uma indesejável noite insone), mas então meu celular tocou. Era o meu “contato” na Santa Casa, com a oferta de cobrir o plantão que deveria ser realizado por ele naquela tarde. Aceitei, sem pensar duas vezes. Tomei um banho rápido e vesti meu jaleco branco genérico. Holmes havia largado o violino e embrenhava-se agora no mundo virtual do notebook. Despedi-me, dizendo: “até mais tarde, Sherlock… o médico desempregado está indo trabalhar”. Ele fingiu não ouvir. Na verdade, creio até que não tenha escutado mesmo, pois quando se concentrava de fato em uma tarefa, pouca coisa menos estrondosa que um terremoto de 8.5 na escala Richter era capaz de distraí-lo. Seja como for, saí de casa e caminhei até o hospital.

O Sol, que alegrara o céu durante toda manhã, foi encoberto por nuvens cor de chumbo, que borrifavam uma fina garoa sobre o concreto e trovejavam ameaças de tempestade iminente. A água acumulada começava a gotejar nas emendas incrustadas de limo do elevado e, dentro dos carros com vidros embaçados, os motoristas pareciam já se preparar para o inferno encharcado de bueiros transbordando e faróis apagados que estavam prestes a enfrentar. Tudo tão cinza. Apertei o passo, mais por ânsia de abandonar logo aquele cenário lúgubre que por medo da chuva.

Porém, chegando à Santa Casa, logo fiquei com saudade da calçada úmida, das buzinas e das caras apressadas e sem expressão que por ali transitavam – o caos do trânsito afigura-se como a linha de produção de uma fábrica japonesa ISO 9001 quando comparado à enfermaria de um hospital público. Uma vastidão de pessoas agonizando em macas improvisadas e bancos de madeira, à espera de um atendimento que tardaria a vir. Gente de todas as idades, cores e credos. A dor e a morte são irmãs despidas de qualquer preconceito, afinal. Invariavelmente um calafrio escalava minha espinha quando eu constatava a dura realidade na sétima maior cidade do mundo. E um desconforto ainda maior acometia meu espírito quando ousava imaginar como seria a situação em locais mais afastados dos grandes centros.

Desvencilhei-me de três pacientes que me agarraram pelo jaleco, implorando para que eu lhes atendesse ali mesmo, enquanto me dirigia à sala de registro dos funcionários. Peguei o livro de ponto e não era “John Watson” o nome que estava escrito na linha onde assinei. Disse a mim mesmo que era uma prática comum, que se eu não fizesse alguém iria fazer, que as pessoas lá fora precisavam ser atendidas, seja pelo médico que estava registrado como plantonista naquele horário, seja por qualquer outro que fosse capaz de lhes diminuir o desespero. Disse um monte de coisas à minha consciência, mas nenhuma delas fez com que eu deixasse de me sentir um vigarista. Lembrei-me da maneira contundente com que havia julgado “Marie Janine” há pouco e refleti se erámos lá tão diferentes assim. Porém, não sei precisar se feliz ou infelizmente, meus dilemas éticos não tiveram muito espaço para fincar raízes em meu peito, pois tão logo ocupei o assento do consultório, um calhamaço de senhas e prontuários foi despejado à minha frente.

Assinei mais duas vezes o livro de ponto naquele dia, em outros dois nomes diferentes. Atendi durante toda noite e varei a madrugada. Os casos de sempre: viroses, diarreias, gripes, infecções urinárias, pneumonias, amídalas inflamadas. E os imprevistos: um sujeito que quebrou o braço e deslocou a clavícula ao cair da laje durante a comemoração de um gol; um motoqueiro quase decapitado por linha de pipa com cerol; dois travestis que se esfaquearam, depois de brigar por causa de um maldito guarda-chuva; um bebê que já chegou roxo, com uma peça de Lego presa ao esôfago; um sujeito de meia idade, com uma garrafa de Coca-Cola entalada à outra extremidade do aparelho digestivo. Às oito da manhã do Domingo, recebi uma quarta proposta “indecente” para cobertura de plantão, mas eu estava exausto, física e emocionalmente. Recusei, mesmo mediante a promessa de um repasse de 100% dos dividendos, em vez dos 80% de praxe. Coloquei-me a caminho de casa e, ao passar pela fila de espera, notei que a quantidade de pacientes aguardando atendimento era a mesma do dia anterior, se não tivesse aumentado. Isso me trouxe uma sensação de impotência e, sobretudo, de culpa, por ir embora e largar todo aquele povo ali, abandonado à própria sorte. Sentimentos que se dissiparam, em um alívio tão egoísta quanto bem-vindo, quando ganhei a rua e senti o Sol, ainda tímido atrás das cortinas enevoadas, aquecer minha pele uma vez mais.

Sherlock Holmes não fez qualquer menção de ter notado meu retorno ao apartamento. Fazia pesquisas no notebook, exatamente da mesma forma que estava no dia anterior, quando saí. Não fosse humanamente impossível, poderia apostar que ficou ali sem se levantar para comer ou ir ao banheiro, durante todo tempo em que estive ausente. Disse um “bom dia” bocejado e não me recordo se obtive resposta ou não. Desabei no sofá, e por ali fiquei, em deliciosa excursão ao reino onírico, até as dezesseis horas. Teria ficado mais, não fosse Holmes cutucando minhas costelas com o arco do violino e dizendo, com a empolgação que só lhe fazia companhia quando estava às voltas com algum mistério:

— Watson, seu preguiçoso! Martha Oliveira e seus segredos, sejam eles quais forem, nos aguardam para o chá das cinco, vamos…

IV – Fotos Escondidas, Cartas Criptografadas e Preparativos para Festa

Chegamos à mansão dos Oliveira, caprichosamente às 16:59. O pesado portão, com uma fera que não consegui distinguir se era leão ou urso esculpida no metal ao centro e encimado por lanças que seriam empunhadas com certa dificuldade por Golias, abriu barulhento, sem que precisássemos tocar o interfone. Do outro lado o mordomo, trajando um terno pelo menos duas vezes mais fino e mais caro que o meu e o de Holmes juntos, nos recepcionou.

— Ricardo Rodrigues, seu criado. Tenham a gentileza de me acompanhar, senhores. Madame Oliveira vos aguarda. – Disse o homem de rosto angular que, não fosse a vestimenta formal e os cabelos brancos que brilhavam como fios de prata acima das orelhas, facilmente se passaria por um personal trainer recém-formado.

O sujeito com pinta de ator canastrão da novela das oito nos conduziu por um caminho estreito, que ziguezagueava em meio ao jardim da vasta propriedade. A trilha, de paralelepípedos encaixados com precisão asteca, era ladeada por rosas suntuosas, perfeitamente aparadas. O cheiro doce certamente almejava aludir a um dia sorridente de primavera, mas em meu peito avolumou-se a desagradável sensação de velório. Sensação essa que não melhorou ao adentrarmos a residência e sentir o cheiro, de ostentação desmedida e segredos mofados, impregnado às paredes. E só piorou quando encontramos Martha Oliveira, vestida com uma roupa tão branca e exuberante quanto as rosas que havíamos contemplado lá fora.

— Senhor Holmes, Senhor Wallyson… – Ela cumprimentou-nos, ao mesmo tempo em que dispensava o mordomo com um menear de mãos.

— É Watson, senhora… – Corrigi.

— Que seja. – Falou, com a cara de desdém esculpida pelo excesso de riqueza e pelo botox. Contornou a escrivaninha em que estava apoiada, tamborilou as unhas na madeira e então continuou: – cavalheiros, sei que já disse isso ontem, mas creio que valha a pena reforçar sobre o sigilo com que essa investigação deve ser conduzida.

— Pode ficar totalmente tranquila quanto a isso, Senhora Martha… – adiantou-se Holmes, enquanto analisava cada centímetro do escritório, certamente maior que nosso apartamento, com altíssimas estantes atulhadas de livros cobrindo quase todas as paredes.

— Assim espero. Pois bem, gostaria de combinar com os senhores que, para todos os efeitos, estão aqui investigando o sumiço de um colar. Foi assim, aliás, que me chegou aos ouvidos o nome “Sherlock Holmes”: devido ao sucesso que obteve na investigação do roubo das pérolas da Senhora Janel Mendonça.

— Veja só, Watson… e você achando que a Senhora Mendonça não foi generosa ao nos recompensar. Qual foi mesmo o termo que utilizou na ocasião? – Sherlock perguntou, tirando da estante um livro de capa vermelha.

— Mão-de-vaca… – Respondi, encarando Martha Oliveira e dando mais ênfase na última das três palavras do que deveria.

— Mão-de-vaca! Percebe agora o quanto você foi injusto com aquela simpática polonesa? Diga-me, Watson… quanto acha que vale essa propaganda boca-a-boca?

— Gosta de Immanuel Kant, Senhor Holmes? – Martha interrompeu.

— Nunca ouvi falar. – Creio que Martha tenha tomado como uma resposta irônica, mas o pior é que era verdade. Os conhecimentos de Holmes no campo da filosofia só superavam suas noções de astronomia. Pouca gente acreditava que certa vez ele ficou sinceramente surpreso quando lhe disse, por acaso, que a Terra girava ao redor do Sol. – Sei que não se julga um livro pela capa – ele continuou –, mas nesse caso específico é praticamente inevitável. Somente esse invólucro deve custar mais que todos os livros que chegaram às mãos do Doutor Watson durante a faculdade. Talvez mais até que as garrafas de cerveja que foram entornadas por ele no mesmo período. O título também é de chamar a atenção: “A Crítica da Razão Pura”. Provavelmente uma boa leitura… para quando eu estiver bem velho e não mais conseguir me levantar da cama. Mas vamos ao que interessa, Dona Martha… – disse Holmes, devolvendo o livro à estante – a senhora tem alguma suspeita específica, alguma “candidata” em potencial para o posto de amante do seu digníssimo esposo, o Senhor Olavo Oliveira?

— Não, específica não… mas você sabe como são os homens, Senhor Holmes. São atraídos pelo cheiro das mulheres jovens como abelhas por pólen. Certamente é uma mulher bonita, dessas de peito cheio de silicone e cabeça cheia de… futilidades.

— Uma modelo, talvez? – Arrisquei um palpite.

— Acredito que não, a menos que Olavo tenha mudado seus gostos. Ele sempre pareceu gostar de “ter onde pegar”… – Martha afirmou, e contraiu os dedos no ar, como se apertasse duas buzinas invisíveis à sua frente, num gesto totalmente contrastante com sua pose de duquesa. – Essas dançarinas, que vivem à base de clara de ovo para rebolar em trajes ínfimos nos programas de auditório, fazem mais o estilo dele.

— São informações muito vagas, Senhora Martha… – concluiu Sherlock. – Gostaria de investigar o escritório do Senhor Olavo, seria possível?

— Aqui estamos, Senhor Holmes… fique à vontade. Mas já adianto que revirei essas estantes de cabo a rabo e não achei nada além de algumas traças com predileção particularmente voraz por Eça de Queiroz e Érico Veríssimo.

— A senhora poderia nos dar licença durante a investigação? – Holmes perguntou, com uma naturalidade que deixou Martha desconcertada. Antes que nossa anfitriã encontrasse as palavras para exprimir sua indignação mediante o que com certeza tomou como disparate, Sherlock explicou: – desconfio que a senhora, por motivos perfeitamente compreensíveis, possa ter uma reação passional e tirar conclusões precipitadas caso eu venha a encontrar qualquer indício de prova que deponha contra seu marido. E isso poderia interferir no bom andamento do processo. Espero que entenda…

— Aguardo os senhores no saguão ao lado. Tenham cuidado, pois Olavo é meticuloso ao extremo e tem urticária quando algum de seus pertences é deixado fora de lugar. – Martha bufou, saindo do escritório a passos que pareciam querer perfurar o grosso tapete de motivos egípcios. Acompanhei sua trajetória com um sorriso de satisfação.

Holmes começou o trabalho, tão logo a porta fechou. Deslizou os dedos por uma longa fileira, de Dostoiévski a Foucault. Então abandonou a estante e voltou sua atenção à escrivaninha. Sacou a lupa do bolso interno do paletó e analisou minuciosamente o móvel. Em seguida, começou a abrir gaveta por gaveta, dando pequenas batidas no fundo de cada uma. Na terceira, um olhar de satisfação denunciou que havia encontrado algo interessante.

— O que foi, Holmes? Achou uma carta de amor perdida por aí?

— Ainda não, Watson. Mas encontrei isso… – disse, mostrando-me um porta-retratos com uma foto onde o Senhor Olavo aparecia ao lado de algumas mulheres, provavelmente suas funcionárias, em frente à mansão.

foto_mansao

— Não vi nada demais… – admiti, encolhendo os ombros.

— Se você tivesse analisado as fissuras dessa peça de madeira – falou, batendo na escrivaninha com os dedos em nó –, talvez encontrasse uma relação, Watson. Esse porta-retratos estava aqui em cima, recentemente.

— Continuo não vendo nada demais…

— E quanto a isso, meu amigo… o que me diz? – Holmes puxou uma arma que estava na quarta gaveta.

— Uma 38, acredito eu. Não venha me dizer que tem alguma marca de batom por aí?

— Ah, Watson… como você é espirituoso. Mas a arma, penso eu, realmente não guarda vínculo algum com qualquer deslize matrimonial que o nosso bom Olavo Oliveira eventualmente tenha cometido. Só mostrei a título de curiosidade, pois sei que você, saudosista incorrigível, sente falta desse tipo de coisa desde a época do exército. Mas, continuemos…

Sherlock passou para a fileira do lado esquerdo e seguiu com seu ritual. E não demorou a que o olhar de satisfação voltasse a se manifestar, dessa vez brilhando com intensidade redobrada. Rapidamente Sherlock começou a empilhar no chão os cadernos, canetas e agendas que ocupavam aquele compartimento. Depois, com cuidado de neurocirurgião, removeu a tampa interna, revelando um fundo falso onde repousava uma infinidade de papeis dobrados, muitos deles enfeitados com desenhos de corações, estrelas e flores, que de imediato me remeteram aos bons tempos de cartas e bilhetes das primeiras namoradinhas, ainda no primário. Um saudosista incorrigível, Holmes tinha razão.

— Alguma delas tem escrito algo do tipo “Quer namorar comigo?” com quadradinhos para preencher “sim” e “não”? – Brinquei, mas logo uma ideia me ocorreu e a graça se esvaiu completamente, cedendo lugar à raiva.

— Fique calmo, meu bom amigo. Aparentemente o Senhor Oliveira só aprontou das suas com parceiras… de idade compatível, por assim dizer. – Holmes falou, como se tivesse lido meus pensamentos, enquanto passava os olhos pelas cartas. Quando cheguei perto, porém, vi apenas um emaranhado de letras aparentemente sem sentido algum.

— Você já conseguiu decifrar?

— Trata-se de um criptograma com complexidade nível: “Passatempos da Turma da Mônica”, Watson. Veja você mesmo. Essa é particularmente interessante…

carta_enigma_1

[Szmszr ctuhczr zekhfdl ldt odhsn.

Szmszr zfqtqzr, zmftrshzr d zmrdhnr…

 

Dkz cdrbnaqht. Dkz rzad.

Nr nkgnr… drszn bgdhnr cd lzkczcd.

Rdloqd drshudqzl.

Zfnqz zhmcz lzhr.

 

Bdqsn, zodmzr ldt zlnq onq unbd.

Dkd rdloqd ld d rtehbhdmsd.

Rdloqd rdqz…

Zfnqz zhmcz lzhr.

 

Sd zln.]

 

— Principalmente quando comparada a essa… – Sherlock continuou, entregando-me outra carta.

carta_enigma_2

[Zmsdr iz un zuhwzmn ptd drrz d z tkshlz bzqsz cdrrd fdhsn. Zr oqnbhlz uzh rd mnqlzk d mzn uzh rd rn oqz unbd mzn…

Rdfthmsd: sn fqzuhcz.

D ptdqn tlz anz fqzmz oqz mtl ezkz mzcz oqzr qduhrsz mdl oqz ozsqnz.

Rn zftzqczmn… enh gnlh oqz ezwd, ptdqn ud rd uzh rd gnlh oqz zrrtlh.]

 

Ao pegá-las, logo matei a charada. Acredito que se Holmes não me alertasse sobre a facilidade da solução, eu teria passado um bom tempo divagando acerca de palavras em outros idiomas e buscando formular algoritmos complexos para “quebrar” o código.

— O tom muda um bocado entre uma e outra, não? – Detesto admitir, mas muitas vezes fazia esse tipo de comentário ávido pela aprovação de Sherlock, como um garotinho que espera o dedão positivo do pai ao realizar alguma façanha do tipo tirar 10 na prova de matemática, ou andar de bicicleta sem as rodinhas.

— Não apenas o tom, meu caro… Mas guardemos essas duas para analisar melhor em momento oportuno. Agora vamos conversar com os empregados da casa.

Sherlock colocou as cartas no bolso, repôs o fundo falso e devolveu os pertences à gaveta. Depois se dirigiu ao saguão, onde Martha Oliveira nos aguardava com a cara de quem não nasceu para esperar, tampouco para ser contrariada.

— E então, encontrou alguma coisa?

— Absolutamente nada. Com exceção às traças, que parecem gostar também de um tal “Arthur Schopenhauer”. – Sherlock respondeu, aparentemente sem se preocupar em esconder que mentia descaradamente. – Agora, se a senhora nos permite, gostaria de conversar com alguns de seus funcionários. Há mais alguém trabalhando hoje, além do Senhor Ricardo Rodrigues, aquele mordomo tão… amável?

— Claro que sim. A poeira insiste em acumular-se mesmo aos Domingos e por aqui cultivamos o exótico hábito de comer diariamente. Dessa forma, carecemos de serviçais sete dias por semana. Não vejo como podem ajudar na investigação, uma vez que são extremamente simplórios, mal conseguem formular uma frase inteligível. Também, não há muito o que se esperar de… – Martha direcionou o indicador e o médio da mão direita ao antebraço esquerdo, mas acabou desistindo do gesto – … de pessoas com o nível social deles. Mas enfim, acredito que não conseguirei dissuadi-los, então me acompanhem…

Caminhamos até a cozinha (se é que um lugar daquele tamanho pode ser chamado de cozinha), sob a tutela da anfitriã e o olhar atento do mordomo. Ao chegar, nos deparamos com um contingente de seis “serviçais”. Uma limpava e temperava frangos sobre a pia, duas descascavam batatas e cebolas, outro par encontrava-se à mesa, executando um trabalho que não consegui identificar à primeira vista e a última mexia panelas no fogão, entre uma secada de suor e outra. Estavam tão concentradas, e aparentemente apressadas, em suas tarefas, que nem se deram conta de nossa presença até Holmes perguntar à Martha:

— Mais um jantar beneficente, Senhora Oliveira?

— Sim! Será nessa quarta. Já estamos trabalhando duro desde já para não passar por contratempos como da última vez. – Martha respondeu, demonstrando empolgação sincera. – Creio que ajudar os desafortunados seja uma obrigação moral dos que possuem mais capacidades e posses. Por isso tento fazer minha parte…

— Todos esses atos filantrópicos devem render uma bela dedução no imposto de renda, não? – Perguntei, sem conseguir segurar a língua.

— Compensações mais do que justas para aqueles que ousam empreender e fazer a economia girar, dar emprego e tirar pessoas da miséria, Senhor Wallyson. – Martha me cortou tão secamente que até perdi a vontade de corrigir meu nome outra vez. – Mas, vamos ao que interessa: ATENÇÃO! – A mulher ergueu a voz, direcionando-se às suas subordinadas. No mesmo instante, até as moscas que circulavam insistentes pelos arredores olharam para a dona da casa, então ela continuou: – esses homens estão aqui para investigar o misterioso sumiço de um de meus pertences. Peço que respondam ao que lhes for perguntado. Aquela que não colaborar, obviamente será considerada suspeita. Ah… e antes que eu me esqueça, essa pequena fuga da rotina não será aceita como desculpa para o não cumprimento do prazo de vossos afazeres. – Depois se direcionou a nós, dizendo num tom quase inaudível: – Aguardo-os no mesmo saguão de antes. Vou sair daqui, pois o cheiro de frango cru me enoja, valha-me Cristo!

Pensei em fazer uma piada sobre a falta de divulgação da Lei Áurea naquelas cercanias, mas achei melhor deixar pra lá. Holmes foi falar com as moças que descascavam os legumes, mas não o acompanhei. As duas que estavam à mesa, realizando algum tipo de serviço artesanal, me intrigaram mais, então fui até elas. Quando me aproximei, cumprimentando-as com um sorriso, percebi o que faziam: à frente das mulheres estava uma larga travessa, cheia de chocolate em estado pastoso. Ao lado, duas listas, com cerca de oitenta nomes cada. Com auxílio de uma colherinha de café, elas tiravam o chocolate do recipiente e o moldavam sobre a mesa, esculpindo letra por letra até que formasse uma peça inteiriça com cada um dos nomes presentes na lista. Matar hidras, capturar javalis e limpar estábulos era para os fracos.

— Deve dar um trabalhão isso aí, hein? – Eu disse, sem ponderar se a afirmação do óbvio ululante seria encarada com simpatia.

— Ai, moço… nem me fala… – A cozinheira respondeu em um longo e estafado suspiro. – Toda festa da patroa tem que ter esse chocolatinho, não tem jeito. E dá festa, hein? Só por Deus…

— Então essa é a lista dos convidados? – Novamente perguntava o óbvio, por puro impulso.

— É sim. Olha, hoje em dia elas tão até que pequena, viu? Já teve festa que veio trezentas pessoa aqui, lembra, Aucilene? – A outra concordou, com uma cara indignada. – Meu Deus do céu, quando olhei pros meus filhos vi o nome deles desenhado em chocolate na minha frente, fui dormir cheia de letra embaralhada na cabeça. Deus que me perdoe. Por mim eu comia era assim, ó… – Ela enfiou uma colher de sopa na travessa, tirou uma generosa porção de lá e me ofereceu.

— Caramba… acho que é o melhor chocolate que já comi na vida! – Falei, sem exagero. Nunca fui muito de chocolate, mas aquele era realmente espetacular.

— A patroa traz lá da França, Suéça, Suícia… um desses país aí que tá caindo avião toda hora, Deus me livre. A gente come escondido de vez em quando. Se a patroa pega nóis comeno, a gente tá lascada… né, Aucilene? – As duas riram em cumplicidade. – Mas agora a gente já tá até é enjoada…

— Engraçado como parece que uma hora ou outra acabamos enjoando de tudo, não? Por mais que um dia tenhamos gostado… – Divaguei, pensando alto.

— É, moço… a vida é meio esquisita. – Ela concordou, não sem uma certa melancolia, enquanto dava forma à penúltima letra do nome de um conhecido ator. – Né, Aucilene?

Prosseguimos com a conversa, até Sherlock Holmes puxar-me pelo braço. “Vamos, Watson… já sei qual será nosso próximo passo”, disse ele, com animação. Despedimo-nos rapidamente das senhoras que ali estavam e fomos ao saguão, encontrar nossa cliente, a Senhora Martha Oliveira. Ela estava completamente absorta, lançando com os polegares uma profusão de toques na tela do celular.

— Nosso trabalho aqui está encerrado, madame. – Sherlock falou, após pigarrear forçadamente com o intuito de trazer nossa anfitriã de volta à realidade. – Faremos agora uma… pesquisa de campo… e acredito que traremos resultados em breve.

— Ótimo! – Ela respondeu, sem tirar os olhos da tela do aparelho. – Assim que tiverem algo concreto, adiantarei parte do pagamento, de acordo com a relevância do que me trouxerem às mãos. Garanto que sei reconhecer um bom trabalho e recompensá-lo de acordo. Rodrigues… – chamou o mordomo, com a mesma entonação que os donos chamam seus cães – acompanhe o Senhor Holmes e o Senhor Wallyson até a saída. Até mais ver, cavalheiros.

Fiquei aliviado por sair da presença daquela mulher, de modo que o ar poluído da rua entrou revigorante em meus pulmões. Caminhamos a passos largos até a avenida, a fim de pegar um táxi de volta para o centro, com as solas de nossos sapatos estalando secas na calçada desnivelada do arborizado bairro residencial, enquanto a Lua nos espiava entre frestas de nuvens aveludadas. Quando tomamos distância segura da mansão dos Oliveira e, principalmente, dos olhos e ouvidos do mordomo, que ficara nos vigiando por detrás das grades do portão, perguntei a Sherlock:

— Então, Holmes… o que descobriu conversando com as cozinheiras?

— Coisas deveras interessantes, meu caro Watson. Elas ficaram receosas no começo, mas depois que comentei sobre um peculiar hábito de higiene da Dona Martha, que apenas um bom observador (e também quem limpa o banheiro da residência) poderia deduzir, parecem ter se afeiçoado a mim, e acabaram por falar tudo que eu queria ouvir. Até um pouco mais, talvez. – Meu amigo falou, tirando a luva da mão direita, para assoviar e chamar um táxi que por ali passava. – Falaram que até três semanas atrás, trabalhava na residência uma moça chamada Rosilene. Por acaso é aquela ao centro da foto que vimos há pouco no escritório, a que estava bem… próxima… ao Senhor Olavo Oliveira. No início descreveram-na como boa faxineira. Em seguida revelaram que era “meio avoada”, que só falava em poesias e às vezes até ficava escrevendo umas “coisas estranhas” durante o expediente. Depois me passaram uma aparentemente deliciosa receita de frango recheado.

— Pela naturalidade com que está falando, desconfio que você já suspeitava disso…

— Elementar. – Sherlock assentiu, com aquele jeito que apenas quem o conhecesse de longa data não tomaria como pedante. – Praça da República, por favor. – Ele disse, direcionando-se ao chofer. Ficou olhando pela janela do veículo por algum tempo, depois me perguntou, em tom jovial: –  está pensando o mesmo que eu, Watson?

— Que a Martha poderia ter nos servido ao menos um cafézinho?

— Ah, isso não teria sido de todo ruim! – Holmes deu risada.

— Que o “próximo passo” que você citou será conversar com a tal Rosilene? – Arrisquei, dessa vez falando sério.

— Não poderia ser mais certeiro, meu caro. Amanhã estarei ausente, buscando material para elucidar uma ou duas questões que ainda me são obscuras nesse caso, peças que não estou conseguindo encaixar no quebra-cabeça. Visitaremos a casa de Rosilene na Terça-feira, o que me diz?

— Por mim está ótimo. Aproveitarei o dia de amanhã para resolver algumas questões pessoais. Na Terça estarei livre, a menos que surja alguma entrevista. – Respondi.

— Então está combinado. – Sherlock animou-se. – Agora vamos ao lanche de pernil, hoje ele não nos escapa. Meu estômago resmunga como se eu não comesse nada há dias!

V – Um Pobre Cachorrinha

Meu celular tocou durante o trajeto, com uma nova oferta para “cobertura” de plantão. Pensei duas vezes, mas acabei aceitando. Já estava quase na hora, então passei rapidamente em casa apenas para pegar o jaleco e me coloquei em direção ao hospital. No caminho, comi uma coxinha gordurosa, exposta sabe lá Deus desde quando na vitrine, em companhia de um quibe ainda mais gorduroso, ovos coloridos e um pote de tremoço. Anos depois, uma gastrite crônica faria com que eu me arrependesse até o último fio de cabelo por cometer esse tipo de excesso quando mais novo, mas, à época, tais hábitos alimentares eram justificados pela “correria”. Atendi incontáveis pacientes naquele Domingo, virando até a madrugada de Segunda, em mais um plantão digno de filme de terror, em que precisei relembrar por diversas vezes o juramento que fiz na faculdade (e também o prazo de vencimento dos boletos que se acumulavam na estante) para ter forças e continuar.

Voltei para casa por volta das oito da manhã e Holmes já havia saído. Tomei chá, comi algumas bolachas e caí “desmaiado” na cama logo em seguida. Acordei a contragosto, pouco depois da uma da tarde, devido aos riffs furiosos e pouco afinados que o rapaz do quarto andar tentava extrair de sua guitarra. Saí para resolver meus assuntos particulares, que basicamente consistiam em cobrar meus “amigos” médicos pelos plantões e, com o dinheiro, comprar mantimentos e artigos de higiene pessoal. Precisava urgente de um prestobarba, pois já estava aderindo involuntariamente à moda do estilo “lenhador”.

Retornei ao entardecer, assisti ao noticiário vespertino e terminei o dia na internet, consultando as visualizações do meu currículo no site de vagas e discutindo no Facebook com um grupo que, a princípio, tinha as mesmas convicções que eu, mas, de tão radicais em seus posicionamentos acabaram me fazendo repensar e quase aderir ao “outro lado”, só de raiva. Concluí que ganharia mais se fosse dormir e me recolhi aos meus aposentos. Sherlock ainda não retornara, de modo que voltamos a nos ver apenas no desjejum de Terça-feira. Ele estava calado e melancólico, daquele jeito que por vezes me fazia diagnosticá-lo (somente em meu íntimo, é claro) com um tipo de transtorno bipolar aliado a um quase certo grau ameno de autismo, dada a sua genialidade e memória fotográfica absolutamente fora do comum. Algo similar a Asperger, talvez uma síndrome ainda mais rara, que provavelmente me renderia um belo estudo de caso para uma tese acadêmica. Certamente não era muito ético pensar esse tipo de coisa enquanto eu o observava comendo bolachas com requeijão, mas o que há de se fazer?

— Teve sucesso em suas investigações de ontem, Holmes? – Puxei assunto, mais para quebrar o silêncio que qualquer outra coisa, pois não fazia a menor ideia do que Sherlock tinha feito no dia anterior.

— Saí disposto a elucidar duas questões… – ele começou a falar, sem muita vontade. – Uma delas, resolvi rapidamente. A outra, justamente a que mais me intrigava e interessava, consumiu-me todo o restante do dia, sem que um passo sequer fosse dado. Em outras palavras: falhei miseravelmente.

— Se bem o conheço, logo encontrará a solução, seja lá qual for esse enigma que conseguiu esgueirar-se às sombras e fugir de seu entendimento durante todo o dia de ontem. – Falei com sinceridade, tentando animá-lo.

— O que mais me abateu, devo confessar, foi o fato desse mistério encontrar-se numa esfera da qual eu me julgava especialista. Um golpe duro no ego, desses que afastam o mal sorrateiro da soberba e geram resultados positivos na alma a longo prazo, é bem verdade… mas, como ainda estamos no “curto prazo”, é algo que ainda estou assimilando. – Disse ele, observando o farelo das folhas de chá que lentamente assentavam-se ao fundo da xícara.

— E qual seria essa esfera em que você pensava ser… e certamente é… especialista?

— A ciência dos venenos, meu caro Watson.

— Venenos? E o que isso tem a ver com…

Fui interrompido pelo interfone. O porteiro anunciou que uma senhora estava à procura de Holmes. Não consegui precisar se ele tentava dizer o nome da referida dama, ou se lia no caderno de esportes a escalação da seleção alemã. O fato é que mandei subir, a despeito do olhar vazio do meu amigo, que denotava uma disposição praticamente nula para atender novos clientes. Alguns minutos depois, tocou nossa campainha uma mulher atarracada, trajando um vestido de motivos floridos. Aparentava beirar os sessenta anos e estava completamente esbaforida – abanava-se e secava o suor da testa quando abri a porta.

Guten morgen! – Ela cumprimentou, com o cansaço das escadas exalando nas palavras de seu idioma nativo. – Minha Deus do céu, que falta faz uma elevador!

— É, todo mundo reclama disso… a senhora tem que ver como é ruim subir com as compras! – Brinquei, arrancando da minha caricata interlocutora um “não quero nem imaginar” manifestado em forma de longo suspiro. – Entre, por favor. Fique à vontade…

Ela entrou, sentou no sofá e ali ficou por alguns minutos sem dizer nada, para recuperar o fôlego. Holmes limitou-se a dizer um burocrático “bom dia” e não fez menção nenhuma de que iria aproximar-se para ouvir o que aquela mulher tinha a dizer. Assim, para contornar o mau humor do meu amigo, acabei sentando ao lado dela e fazendo as perguntas como se fosse Sherlock.

— Em que podemos ajudá-la, senhora… ?

— Schlesinger. Evelyn Schlesinger. – Ela respondeu, pronunciando o sobrenome como se um belo pedaço de strudel lhe estivesse preso à goela. Depois prosseguiu: – é o meu pobre Schweinsteiger… ele desapareceu há dois semanas, não sei mais o que faço, Senhora Holmes.

— Schua… Schwein… – jurei nesse momento que nunca mais ficaria bravo com o porteiro.

— Schweinsteiger…

— Schweinsteiger… é o seu marido, Dona Evellyn? – Perguntei.

Nein, nein, nein! Se fosse minha marido eu estava feliz com a desaparecimento! Schweinsteiger é meu cachorrinha. Tão querida ele, o senhora tinha que ver.

— Qual era a raça do… digo… da… Schweinsteiger, Dona Evelyn? – Eu olhava para Sherlock, tentando inutilmente instigá-lo a vir me socorrer.

— Uma poodle, Senhora Holmes. Três vezes campeão! Tenho aqui uma retrato dela, veja só… – Ela tirou da bolsa uma foto do cachorro (ou da cachorra), vestido com uma fantasia de carnaval ou algo do tipo.

foto_cachorro

— Ela estava com qual idade?

— Já estava velhinha o pobrezinha… ia completar dezoito mês que vem. Eu já tinha até encomendado a bolo de chocolate que ele tanto gosta.

— A senhora espalhou cartazes pela vizinhança? – Apenas perguntas óbvias vinham à minha cabeça.

Ia! Muitas cartazes, por todas as lados. Mas o verdade é que desconfio que meu Schweinsteiger foi sequestrada…

— Sequestrada? – Coincidentemente, no jornal do dia anterior havia passado uma reportagem sobre o surto de sequestro de cães, e animais de estimação em geral, que estava alastrando-se pela cidade.

Ia! E, aqui entre nós, Senhora Holmes: garanto que eu não tenho nenhuma tipo de preconceito, mas… acho que o sequestradora é o meu vizinha. Ela é judeu, sabe? E sei que ela não gosta de mim porque… bom, o senhora sabe. Ora, como se fosse meu culpa os traquinagens de mein Führer!

Poderia jurar que vi o braço da Senhora Evelyn Schlesinger levantando-se instintivamente para fazer a famigerada saudação do partido. Felizmente “ele” desistiu na metade do caminho e voltou a acomodar-se em seu colo. Isso, somado a resumir o holocausto com a palavra “traquinagem”, fez com que eu tivesse o ímpeto de abrir a porta e convidá-la, não tão gentilmente, a se retirar. Porém, lembrei-me de como Holmes agia nesse tipo de situação: salvo raras exceções, mantinha-se impassível, mesmo depois de ouvir os mais escabrosos absurdos. “Tento ouvir os relatos sem emitir juízo de valor, meu caro Watson. A avidez por julgamentos morais prejudica a capacidade de raciocínio”, ele me disse certa vez, quando o questionei a respeito do “sangue frio” (admito que a expressão que me veio à cabeça na ocasião foi “sangue de barata”) com que lidava com certas “linhas de pensamento” de seus clientes. Depois de muito refletir sobre o assunto, cheguei à conclusão que, para variar, meu amigo estava certo. E naquele momento eu poderia colocar em prática o que aprendi com ele.

— Entendo… – engoli seco. – E qual foi a última vez em que a senhora viu o cão, Dona Evelyn?

— Foi logo depois do Páscoa, Senhora Holmes. Estava tão feliz a meu Schweinsteiger, o senhora tinha que ver! Exagerou no quantidade de Ovo de Páscoa e foi tirar uma cochilo. Depois nunca mais vi o meu queridinha… que tristeza! – Nesse momento os olhos dela se encheram de lágrimas e, por menos que eu quisesse, acabei sentindo pena.

— E das plantas, a senhora tem cuidado? – Sherlock Holmes falou finalmente, levantando-se e caminhando em direção a nós.

Nein… nein… – Evelyn negou, visivelmente surpresa com a intervenção do meu amigo. – Sem a meu Schweinsteiger não tenho mais alegria para cuidar nem dos minhas plantinhas! Ainda com esse falta de chuva pra ajudar, estão morrendo de sede os coitadinhas. Mas… quem é a senhor? E como sabe dos minhas plantas?

— Sherlock Holmes, à sua disposição, madame. – Nesse instante, os olhos azuis de Evelyn arregalaram-se em minha direção. – Tomei a liberdade de observar seus joelhos e suas mãos, Senhora Schlesinger. Neles há arranhões e calos que, somados à postura encurvada que a senhora mantém ao sentar, denunciam alguém que passa certo tempo de joelhos num chão macio, realizando trabalhos braçais leves. Jardinagem, deduzi. Sobre o cachorro… a senhora disse que deu Ovo de Páscoa para ele?

Ia! – Evelyn assentiu, maravilhada com a profusão de palavras que saiam da boca de Holmes. – Ela adora chocolate! Mas dessa vez exagerou no dose…

— Senhora Evelyn, lamento dizer, mas tudo indica que a senhora tenha involuntariamente envenenado seu cão. – Sherlock afirmou, enquanto acendia o cachimbo.

— Envenenada? Como assim? – Ela levou as duas mãos ao peito e arregalou ainda mais os olhos, que já começavam a transbordar.

— O chocolate contém uma substância chamada… MEU DEUS DO CÉU… – o fogo da vida voltara a brilhar novamente no rosto de Holmes, tão súbito e poderoso como uma explosão de supernova.

— “Minha Deus do Céu”? Que nome esquisita…

— Teobromina… uma substância chamada teobromina. É inofensiva para os humanos, mas pode ser fatal para os animais, principalmente os de pequeno porte. Surpreende-me que o veterinário nunca a tenha alertado sobre isso, Senhora Schlesinger. – Holmes falava rápido, tomando Evelyn pela mão e a conduzindo até a porta sem que percebesse. – Suponho, pela quantidade de ouro que ostenta nas pulseiras, que a senhora seja uma mulher de posses. A simetria com que se veste, com que anda e se maquia; mais a organização sistemática com que armazena seus pertences na bolsa, permitindo dela sacar lenços e fotografias em questão de segundos, me levam a crer que seja extremamente meticulosa também em casa e que jamais deixaria tesouras de poda, regadores e pás jogados em qualquer canto, ou seja, muito provavelmente a senhora possui um quartinho fora de casa para guardar seus utensílios de jardinagem.

Ia… ia… – Evelyn estava atordoada. E eu também…

— Quando pressentem a morte, alguns cães tendem a se isolar… – Holmes continuou, já abrindo a porta. – Dessa forma, eu apostaria que a pequena Schweinsteiger, ao notar o irreversível estrago que a teobromina faria em seu organismo, decidiu morrer sozinha no quartinho da jardinagem. Como a senhora deixou de cuidar das plantas e não entrou mais lá, não sentiu o cheiro e não viu o corpo do seu animal tão querido. Vá verificar, Senhora Schlesinger… e se não for isso, nós vamos atrás do seu vizinho judeu. Até mais ver!

Sherlock deixou uma incrédula Dona Evelyn do lado de fora, baforou o cachimbo com entusiasmo e começou a trocar o roupão listrado pela roupa social ali mesmo, caminhando de um lado para outro da sala. Observei-o, atônito, sem fazer a menor ideia do que se passava, até que ele, já quase pronto, me encarou e disse:

— Ainda está aí parado, Watson? Creio ter descoberto algo um tanto diabólico, meu caro. Vamos, temos que visitar a Senhora Rosilene, a empregada que foi demitida da casa de Martha Oliveira. Embora, provavelmente… agora já seja tarde demais.

VI – Poesias e Esmaltes em Caixas de Sapato

Aprontei-me rapidamente. Com o tanto que Holmes me apressava, não poderia ser diferente. Descemos à rua e fiquei surpreso quando tomamos o caminho da estação do metrô e não do ponto de táxi, como era costume. Sherlock parecia ter ao dispor uma intrincada rede composta por toda sorte de prestadores de serviços, que lhe deviam gratidão eterna. Office-boys e motoboys salvos da estadia forçada que teriam na “Fundação Casa”, caso ninguém os inocentasse na última hora; comerciantes que tiveram primos, cunhados, filhos, esposas, ou eles próprios, livrados de encrencas dos mais diversos tipos; seguranças que obtiveram provas concretas dos maus-tratos que as ex-esposas dispensavam aos filhos, conseguindo assim a guarda das crianças; psicólogas que se desvencilharam da perseguição de pacientes que não souberam lidar muito bem com a projeção-afetiva e começaram a abrir mão de serenatas, perfis falsos nas redes sociais, encontros “por coincidência” pela vizinhança e outros métodos pouco ortodoxos (para dizer o mínimo) de cortejo; faxineiras que conseguiram colocar os maridos beberrões de uma vez por todas na cadeia; taxistas que só continuavam a dirigir e sustentar a família devido aos préstimos que Sherlock Holmes lhes concedeu em algum momento da vida. Os exemplos eram vastos. Às vezes eu brincava (confesso que não sem um pouco do famoso “fundo de verdade”) que ele deveria resolver alguns casos da companhia elétrica e também do senhorio do nosso apartamento alugado, para que essas contas não mais nos importunassem.

Dessa forma, era difícil que precisássemos utilizar o transporte coletivo, mas naquela manhã de Terça-feira, lá estávamos nós, descendo os incontáveis degraus da Estação Praça da República. Seguimos pela linha amarela, até a estação Butantã e de lá pegamos o ônibus intermunicipal, rumo a Osasco. Por sorte estava razoavelmente vazio, então paguei a passagem e segui para tomar assento ao fundo. Sherlock, no entanto, parou à catraca e deu início a uma inusitada conversa com o cobrador. Cerca de cinco minutos e algumas boas gargalhadas depois ele veio sentar-se a meu lado.

— Veja que falta de sorte, meu caro Watson… Wesley, o gentil cobrador com quem conversava, trabalha há apenas duas semanas nessa linha e nunca viu a Rosilene.

— Por que você perguntou da Rosilene para ele? – Fiquei intrigado.

— Ora… para encontrar pistas do lugar onde ela mora! Por que mais seria?

— Então nós estamos indo visitar a moça, sem saber exatamente onde é a casa dela, é isso? – Surpreendi-me. Às vezes meu lado racional falava mais alto e eu acabava ignorando que estava na companhia de um grande, senão o maior, detetive. – Não lhe ocorreu que talvez isso seja um pouco complicado?

— Watson, meu amigo… onde está seu senso de aventura? – Sherlock debochou do meu receio. – Havia, quando saímos de casa, dois meios para encontrar Rosilene: um fácil e outro difícil. Obviamente optei pelo difícil, que era justamente colher informações com o cobrador da linha por ela utilizada no trajeto até a casa dos Oliveira, quando ainda trabalhava lá. Porém, não tivemos sorte por esse meio e agora teremos que recorrer ao caminho mais fácil: consultar o oráculo!

— Oráculo? Do que está falando, Sherlock? – Meu humor não estava dos melhores, devo admitir.

— Aquela que tudo sabe, a maior e mais íntima confidente, de quem as mulheres nada escondem e tudo confessam, sem receios ou pudores… a manicure! – Holmes falou de um jeito tão teatral que acabou me arrancando uma risada.

— Fiquei na mesma… aos meus olhos essa busca ainda afigura-se como procurar uma agulha no palheiro. Como saberemos quem era a manicure da tal Rosilene?

— Antes de ontem, na conversa que tive à cozinha de Martha Oliveira, as empregadas além de classificarem Rosilene como “meio avoada”, conforme lhe contei na ocasião, também utilizaram a expressão “metida a besta” para defini-la. Quando questionei o porquê, responderam que ela, Rosilene, era muito vaidosa, “gastava dinheiro com manicure e tudo mais”. Também disseram que ela morava no Jardim Rochdale, para onde nos encaminhamos nesse exato momento. Acredito que não deve haver tantos salões de beleza por lá, o que restringe um bocado o nosso campo de pesquisa.

— As cozinheiras disseram mais alguma coisa?

— Hum… – Sherlock olhou para o teto, como se perseguisse algo importante que lhe fugia à memória. – Ah, sim! Agora me lembro. Segredaram também, com cochichos que quase poderiam ser tomados como invejosos, que Rosilene nutria uma paixão, muito bem correspondida, aliás, pelo patrão, o digníssimo Senhor Olavo Albuquerque Oliveira.

— Ora! – Admirei-me. – Isso põe fim ao caso! São as provas desse romance que estamos indo buscar ao final desse trajeto cheio de solavancos?

— Watson, essa não é uma investigação que tem o adultério como mote principal… – Afirmou Holmes, consultando as horas em seu relógio de bolso.

— Do que é então, Sherlock?

— Tudo em seu tempo, Watson. Tudo em seu tempo. Prometo que logo vou deixá-lo a par de tudo que sei acerca desse caso.

Sherlock não disse mais nada até o ponto final. Também não insisti, pois sabia que seria inútil. Desembarcamos em um pequeno terminal e logo nos pusemos no encalço das manicures do bairro. Ao contrário do que Holmes previra, o campo de pesquisa não era assim tão reduzido. Uma miríade de pequenos comércios pululava atrás das portas que davam nas calçadas estreitas em que caminhávamos. E quanto mais estreitas as calçadas e as ruas, mais crescia em meu peito a sensação que fiquei desde que descemos do ônibus, de que éramos vigiados e seguidos. Não compartilhei dessa impressão com meu amigo, para não criar alarde provavelmente desnecessário e também, confesso, por receio de soar preconceituoso com a região periférica em que nos encontrávamos. Adentramos, sem sucesso, cinco ou seis “salões”, até que finalmente encontramos alguém que conhecia uma Rosilene, que trabalhava de doméstica na “casa de família” de uns ricaços nos Jardins.

— Era eu mesma que fazia as unha dela, moço… – disse a manicure, arrumando suas lixas e esmaltes numa caixa de sapato. Pareceu ter ficado triste com a lembrança.

— E a senhora poderia nos dizer onde ela mora?

— A Rosi morreu, faz umas três semana já…

— Meus pêsames, Dona…? – Disse Holmes, não demonstrando muita surpresa com a trágica notícia.

— Iara. E o senhor?

— Eu sou Sherlock Holmes e esse é meu amigo John Watson.

— Oi? – A mulher perguntou, fazendo bico e enrugando o semblante como quem diz “não entendi patavinas”.

—Watson… – adiantei-me, estendendo-lhe a mão. – E Sherlock… – completei, apontando para o meu amigo.

— Ah… tá… e ‘cêis queria o quê com a Rosi? – Quis saber Iara.

— Estamos investigando justamente os motivos que possam ter levado Rosilene à morte, Dona Iara. A senhora poderia nos ajudar? – Sherlock perguntou.

— Acho que não tem muito o que investigar não, Seu Xeróx… – Iara respondeu, dando de ombros. – Ela veio aqui, numa quinta-feira se não me engano, chorando porque tinha sido mandada embora. Eu fiquei cás menina tentando consolar ela, mas a bichinha tava arrasada, coitada. Quando foi no Domingo… acordou morta. O pessoal fala que ela morreu do coração… morte bonita, né? Mas ninguém me tira da cabeça que foi de tristeza… – A manicure esticou o lábio inferior (o que fez seu queixo enrugar de um jeito engraçado) e meneou a cabeça, como que concordando com as próprias palavras.

— Ela chegou a comentar algo sobre as causas que a levaram a ser demitida, Dona Iara? – Holmes questionou, enquanto fuçava na caixa onde estavam guardadas as ferramentas de trabalho da manicure.

— Ah, ela falava que a patroa não gostava dela não… – disse Iara, visivelmente tentando disfarçar. – Falou que a “jararaca” armou um bote, que ofereceu uns chocolate-não-sei-da-onde pra ela e depois falou que ela comeu sem permissão. “Ela deixou, Iara! Ela que me deu!”… perdi a conta de quantas vezes ela falou isso naquele dia. Tadinha, tava desesperada.

— “Nunca fui santa”… isso lá é nome de cor? – Holmes estava intrigado, segurando um dos vidros de esmalte. Aparentemente ignorara tudo que Iara havia acabado de dizer.

— É, eles ‘tão lançando essas “cor” aí agora… “nunca fui santa”, “deixa beijar”, “sapo encantado”. É bobeira. Mas as cliente gosta.

— Presumo que era esse “Nunca fui santa” o preferido da Rosilene, não?

— Como o senhor sabe, Seu Xeróx?

— Eu vi uma ou duas fotos, com unhas pintadas com essa cor avermelhada destacando-se na paisagem. – O “Seu Xeróx” respondeu, devolvendo o esmalte à caixa. – Agora diga-me, Dona Iara… é pelo seu filho que a senhora tanto tem rezado?

A mulher arregalou os olhos e jogou a cabeça para trás, de modo instintivo. Uma reação típica de quem era surpreendido pelas deduções cirúrgicas de Sherlock Holmes. Depois de respirar fundo e tomar fôlego, Iara respondeu:

— É pelo meu filho sim, o Jonatas… mas… como o senhor sabe?

— Ao caminhar até aqui, passamos por uma igreja cuja entrada está em reforma. Reforma esta que revirou uma terra vermelha e argilosa que não vi em nenhum outro lugar da região. A mesma terra que está incrustrada na sua sandália, Dona Iara, em três tonalidades diferentes, sendo a última delas de aparência bem recente, o que me leva a crer que a senhora tem ido com frequência até lá, mesmo em dias que não tem culto.

— O senhor descobriu tudo isso só de olhar pro meu chinelo, Seu Xeróx? – Iara estava, compreensivelmente, espantada.

— Não vou negar que a foto daquele jovem acomodada entre a bíblia e o crucifixo ali em frente ao espelho também ajudou um bocado nos meus palpites. – Holmes foi até a penteadeira e pegou a foto. – Então esse é o Jonatas? Se me permite a curiosidade… o que houve com ele?

— Acidente de moto… – Iara respondeu, ficando com os olhos marejados no mesmo instante. – Ficou no hospital quase dois meses, entre a vida e a morte. Agora já saiu do coma, graças a Deus… mas os médico teve que amputar a perna dele. Ai, meu Deus do céu… que tristeza. O senhor não imagina como dói pra uma mãe ver o filho lá e não poder fazer nada. Agora que ele tinha arrumado emprego, meu Deus… agora que tava indo tudo bem na vida desse menino…

As lágrimas escorriam no rosto de Iara e tive impressão que um cisco havia caído no meu olho. Nos dois olhos, aliás. Nessas ocasiões eu me sentia de certa forma reconfortado, por ainda conseguir ficar triste. Sei que é algo bastante contraditório, mas, na condição de plantonista, já havia presenciado todo tipo de desgraça. No começo, um pedaço de mim morria junto com cada paciente que perdia, mas com o tempo fui me envolvendo cada vez menos, até que certa vez me surpreendi com minha própria indiferença frente à dor alheia que explodia em cores vivas bem diante dos meus olhos na “linha de produção” do Pronto Socorro. A repetição e o tempo parecem ter o poder de acabar com todos os sentimentos, para o bem e para o mal: as derrotas deixam de ser tão doloridas, ao mesmo passo que as vitórias já não têm o mesmo sabor de outrora. Por isso, quando eu me entristecia a ponto de verter lágrimas com o infortúnio de alguém que sequer conhecia, como naquele momento que seguiu o breve relato da manicure, uma parte da minha alma paradoxalmente se alegrava, pois a tristeza trazia consigo a confirmação de que eu ainda era humano. Sherlock, na esmagadora maioria das vezes, possuía um coração mais forte que o meu. Mas mesmo ele demonstrou abatimento com aquela história. Limitou-se a dizer:

— Sinto muito pela perna do seu filho, Dona Iara. Agradeço imensamente pela colaboração. Creio que já tomamos seu tempo em demasia…

— O senhor acredita em Deus, Seu Xeróx? – Iara interrompeu a despedida, com uma pergunta que teve o raríssimo mérito de deixar Sherlock Holmes desconcertado e sem resposta por alguns segundos.

— Eu acredito em lógica… em razão pura, Dona Iara. E a lógica me diz que a crença ou não em Deus pouco interfere, ou pouco deveria interferir, nos meus atos. Tampouco essa crença me seria útil nas investigações. – Holmes respondeu, olhando para o chão, como se refletisse consigo sobre as palavras que estava dizendo. Após breve pausa, completou: – a verdade mesmo… é que eu nunca havia parado para pensar sobre isso.

— Vocês são homens de bom coração. Homens de Deus. Mesmo não acreditando Nele… ainda. – Ela sorriu. – Olha, uma vez a Rosi me deu um desses poema, poesia, sei lá como chama. Eu achei bonito, mesmo sem entender nada… – Iara revirou a caixa de sapatos com os esmaltes e lá do fundo tirou um pedaço de papel, que estendeu na direção de Holmes. – Dá uma lida, Seu Xeróx. Ela gostava que a gente lia as coisinha dela.

Sherlock desdobrou a folha de caderno e leu seu conteúdo, sem disfarçar a admiração. Chegou a suspirar satisfeito no final e depois me passou o papel. Então eu também li aquele poema sem título, de versos simples e letra miúda.

E, de certa forma, tive impressão de ter visto a alma de Rosilene.

poema_rosilene

[Eu sou a rosa

Plantada num mundo que é concreto

E não jardim

 

Eu sou a rosa

E já não sei quantas pétalas

Restam ainda em mim

 

Eu sou a rosa

Sou caule e saudade

Sou perfume e furor

 

Eu sou a rosa

E nos dias frios

Mais espinho que amor

 

Eu sou a rosa

Que desabrocha pela manhã

E murcha toda tarde…

Que morre um pouco de cada vez

Em cada ônibus lotado,

Em cada injustiça,

Em cada ato covarde.

 

Eu sou a rosa

Sufocada no concreto

De um mundo que não tem cor

 

Eu sou a rosa

Sou caule, sou pétala e espinho,

Mas não sei se ainda flor…

 

ROSILENE]

VII – Respirando Antes do Mergulho

Assim que saímos do estabelecimento da manicure, o forte cheiro de lixo emanado por um córrego próximo invadiu nossas narinas. Mas nem tive tempo de manifestar qualquer desagrado, pois a impressão de que estávamos sendo seguidos converteu-se em certeza absoluta. Os mesmos homens que levantaram minhas suspeitas quando saltamos no terminal estavam ali, espreitando-nos do outro lado da rua, sem demonstrar qualquer receio de serem notados. Seguiam nossos passos com mais sincronia que nossas próprias sombras e isso incomodou-me sobremaneira, até que não pude mais deixar de comentar:

— Holmes, não quis falar antes para não levantar alardes desnecessários, porém julgo que a situação não deixe mais margem à dúvida: estamos sendo seguidos.

— Já havia notado, Watson. Esses distintos cavalheiros estão em nosso encalço desde o metrô. – Sherlock falou, com a mesma preocupação de quem comenta o resultado das eleições para primeiro ministro da Ucrânia. – A bem da verdade, estão a me seguir desde ontem. Despistei-os algumas vezes, mas devo reconhecer que são insistentes.

— Desconfia quem possam ser? – Perguntei, não sem uma boa dose de aflição.

— Tenho algumas suspeitas, mas teria que abrir um outro galho na atual árvore de investigações e não estou disposto a fazer isso. Pelo menos não agora. Uma alternativa seria ir até eles e conversar diretamente. Talvez sejam apenas sujeitos de bom gosto que apreciaram nossos ternos e estão encabulados para perguntar quem é nosso alfaiate.

— Não apostaria muito nessa hipótese, Holmes…

— É, eu também não. – Sherlock apertou o passo e eu o acompanhei. – Vamos, Watson… ouço as passadas deles cada vez mais próximas e confesso que estou um tanto destreinado na arte do pugilismo. Conseguiria derrubar dois, ou três… no máximo. Você também daria conta de dois, estou certo disso. Mas há outra dupla preparada para nos emboscar à entrada do próximo beco, e com esses teríamos sérios problemas. Então, acredito que seja melhor evitar o conflito, por ora. TÁXI!!!

Como se estivesse perfeitamente sincronizado, um conhecido taxista parou ao nosso lado, poderia jurar que com a porta detrás já escancarada, poucos metros antes de alcançarmos o beco onde Holmes previra que dois homens estavam de campana à nossa espera. Ele estava errado, pois era um trio que nos aguardava, sabe Deus com quais intenções. A adrenalina, gerada pela expectativa do conflito que por pouco deixou de ocorrer, ainda não havia baixado por completo quando entramos em casa. Já passava das cinco da tarde, mas naquele dia o Sol parecia disposto a matar saudades dos dias mais quentes do verão, de modo que cheguei mais suado que uma porca prenha caminhando às margens de um refrescante lago de magma.

— Muito bem, Holmes… – Comecei a falar, enquanto me livrava do paletó. – Que tal aproveitarmos que nossa integridade física manteve-se intacta para alinhar nossos conhecimentos acerca do caso “chifres da Martha Oliveira”?

— Que título mais vulgar, Watson! Tenho certeza que consegue pensar em algo melhor. – Sherlock repreendeu-me, não sem uma boa dose de razão.

— Você está certo, meu amigo… vou pensar em algo melhor. Ainda estou nervoso com aquele “quase confronto”. – Justifiquei-me, já deitando no sofá. – Mas, seja qual for o título, peço que por favor me deixe a par de suas investigações.

— Pois bem, Watson. Vamos aos pormenores. – Sherlock foi até a impressora e pegou alguns papeis que ali estavam. – No Sábado, quando Martha Oliveira esteve aqui, senti o “cheiro” da mentira, conforme lhe disse na ocasião. E, posso estar enganado, mas minha experiência diz que a linguagem corporal dela denunciou um tipo interessante de mentiroso: o criminoso contumaz que quer ser pego. Um traço interessante da psique humana, se me permite a observação. Enfim… trabalhei com a hipótese de Martha ter vindo aqui com uma premissa verdadeira: no caso, a desconfiança de traição. Um motivo escondido nas entrelinhas: motivo este que ela convenceu a si mesma ser o principal. Logo chegaremos a ele. Mas, em seu inconsciente, ela quer se confessar, quer ser punida, quer dar a chance para que alguém descortine os pecados esquecidos nas brumas de seu passado.

— Isso foi só intuição ou você teve alguma prova para embasar essa teoria, Holmes? Confesso que jamais pensaria em algo dessa natureza…

— No início, apenas intuição. Porém, naquela noite, enquanto você se divertia no plantão do hospital, eu revirei o acervo de diversos periódicos e encontrei indícios mais que concretos, que corroboravam minha tese. Veja essa notícia, Watson… imprimi e destaquei as partes mais interessantes com marca-texto, para facilitar. – Sherlock estendeu-me a impressão de uma coluna social de quase dez anos atrás:

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[23/07/2005

  1. Martha Tenório Oliveira, esposa do cada vez mais bem-sucedido Olavo Oliveira, não cansa de trabalhar por causas humanitárias. Enquanto o maridão cuida da Têxtil Oliveira, Martha percorre os quatro cantos do Brasil para acompanhar de perto o trabalho nas instituições de caridade que financia. Ontem, mal chegou de viagem e já correu para deixar tudo pronto para o jantar beneficente que organizou em sua badalada mansão nos Jardins. O evento, recheado de atores globais, foi um arraso. Perguntada se ainda tem fôlego pra mais, Martha respondeu sorridente: “Tem que ter, né! É cansativo, mas vale super a pena”.
  2. Betty Faria, Rubens Edwald Filho e Daniel Filho animam-se ao ver o tamanho do bolo de chocolate servido pela anfitriã Martha Oliveira.
  3. Durante o evento na casa do concorrente, porém “parceiro a toda prova”, Olavo Oliveira, Estanislau Afonso, o famoso (e enxutíssimo) “Lalau da Malharia” ficou o tempo todo de tititi com uma ruiva misteriosa. Estamos de olho, Lalau!]

— Martha Oliveira promove jantares “beneficentes” – desenhei aspas imaginárias no ar – em sua residência, isso nós já sabíamos. Não estou entendendo seu ponto, Holmes…

— Está um tanto afoito, meu caro Watson! Isoladamente, essa notícia de fato não quer dizer nada, mas coloque-a lado a lado com essa… – Holmes passou outra folha às minhas mãos. – Compare os conteúdos e as datas. E me diga o que acha.

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[27/07/2005

Empresário ligado à CPI é encontrado morto em Higienópolis

Na noite de ontem, Estanislau Siqueira Afonso, 62, foi encontrado morto em sua residência, situada em bairro nobre da capital. No quarto do industrial, conhecido como “Lalau da Malharia“, não havia sinais de violência.

A polícia divulgou boletim informando que tudo leva a crer que o óbito ocorreu por “causas naturais”, mas não descarta a possibilidade de queima de arquivo. Os funcionários da casa serão interrogados na tarde dessa quarta-feira.]

 

— Sim, agora me lembrei desse evento. O caso do tal “Lalau da malharia” repercutiu por um tempo, mas não conseguiram encontrar nada e acabaram concluindo que foi morte natural mesmo, ataque cardíaco se não me falha a memória. Acredito que nesses quatro dias entre o jantar e a morte ele deve ter feito um bocado de coisas… bom, eu pelo menos teria, se tivesse todo aquele dinheiro. Desculpe, mas não consigo ver relação alguma entre as duas notícias, Holmes. – Respondi, devolvendo as impressões para Sherlock, que me encarava sorrindo como se já previsse minha resposta, como de praxe.

— A polícia pensou da mesma forma, Watson. E qualquer um que analisasse apenas esses eventos, desconsiderando o fator histórico, também chegaria às mesmas conclusões. Felizmente não é meu caso… e continuei indo um pouco mais a fundo. – Sherlock me passou outros dois papeis. – Veja essas matérias, datadas alguns anos depois das primeiras…

coluna_social_2

 

[24/04/2008

  1. Os jantares beneficentes promovidos pela socialite Martha Oliveira são sempre um show à parte, com estrelas globais desfilando por todos os lados. Nessa terça-feira, porém, todos os holofotes concentraram-se em Joel Machado, o empresário com pinta de galã que vem conquistando clientes e investidores com a mesma facilidade que conquista os corações das beldades desavisadas sobre sua fama de mulherengo. “O Olavo (Oliveira) é uma grande inspiração para mim e é uma honra participar desse jantar maravilhoso aqui na casa dele e poder estar ajudando as crianças carentes” (sic), disse o bonitão, mostrando ter muito mais tino para os negócios e para as mulheres que para o microfone.
  2. As modelos investiram no visual antes do jantar na casa de Martha Oliveira. As três afirmaram que toda essa produção nada tinha a ver com a presença de Joel Machado na festa. Acreditamos.]

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[29/04/2008

Milionário morre em acidente na Rod. Imigrantes

Joel da Silva Machado, 36, faleceu na madrugada de ontem, após colidir contra a parede do túnel na altura do Km 72 da Imigrantes. Segundo testemunhas, o promissor empresário do ramo têxtil dirigia em alta velocidade e teria dormido ao volante. A polícia ainda investiga as possíveis causas. Imagens das câmeras de segurança foram divulgadas.]

 

— Começo a entender, Sherlock. Mas, ainda assim… parece-me muito mais uma grande coincidência que qualquer outra coisa.

— Quando uma sequência de eventos repete-se com tal sincronia, eu começo a ver mais padrão que coincidência, Watson. Esses foram dois casos, outros três bastante similares estariam em suas mãos, não tivesse acabado a tinta da nossa impressora. As mortes foram “pontuais”, sempre de grandes concorrentes de Olavo Oliveira, que fez seus negócios deslancharem cada vez mais. Some-se a morte da desafortunada Rosilene, que segue rigorosamente os mesmos passos, conforme relatou-nos a manicure ainda hoje: ocorreu entre quatro e cinco dias depois de ter contato com Martha Oliveira. Teria que ser uma coincidência colossal, meu amigo… – Holmes expôs os argumentos que ninguém em sã consciência poderia discordar.

— Faz sentido, Sherlock… claro que faz sentido. Mas, pergunto-lhe: como Martha poderia fazer tal bruxaria? Um veneno, suponho… mas nunca ouvi falar de uma substância que só age depois de quatro dias no organismo, deixando a vítima em perfeitas condições nesse período… – Eu falei, absolutamente perplexo, tentando puxar na memória alguma coisa similar que tivesse visto na faculdade ou no exército.

— Essa foi exatamente a dúvida que tentei sanar, sem sucesso, nas minhas pesquisas de ontem, Watson. Levantei a hipótese de que Martha utilizava como arma o veneno extraído de algum animal exótico. Algum animal exótico da Austrália, para ser mais preciso… o vínculo do local com os crimes a teria levado a gaguejar e mentir, quando lhe perguntei se era uma praia do Tahiti que resplandecia ao fundo da foto que me mostrou no celular.

— A Austrália tem alguns animais bem venenosos, estava vendo um documentário esses dias. Deu até medo de ir para lá. Mas acho que iria mesmo assim.

— Exatamente, Watson. – Holmes concordou. – Um desses, em especial, é a chamada “vespa-do-mar”, uma água-viva cujo veneno é capaz de matar um adulto em dois minutos. Uma substância tão exótica que, acredito eu, jamais seria detectada nos exames de perícia dessas terras. Se eu tivesse que elencar métodos para matar alguém com 100% de certeza e sem deixar vestígios, esse veneno seguramente estaria no topo da minha lista.

— Mas deve dar um bocado de trabalho obter essa substância, não?

— Certamente. E deve custar uma fortuna também. Porém, pelo que pudemos notar, esse não parece ser um empecilho para os Oliveira. – Sherlock acendeu o cachimbo e dele tirou uma longa baforada. – O que não estava encaixando na história, era a questão do tempo decorrido entre o envenenamento e a morte. Claro que a água-viva é apenas um palpite, mas, qualquer que fosse o veneno, não há muitos registros de substâncias que demorem tanto a agir, conforme você bem observou, Watson. E eu fiquei às voltas com essa questão, que acabou sendo elucidada, pelo menos assim imagino, pela inesperada visita da Senhora Evelyn Schlesinger nessa manhã.

— Notei que você ficou eufórico naquela hora, mas não entendi o motivo. E ainda não entendo…  – confessei.

— A teobromina, presente no chocolate, é mortal para os cães, mas inofensiva para os humanos. Porém, ela demora cerca de quatro dias para ser eliminada pelo corpo. Obviamente eu teria que fazer muitos experimentos para chegar numa conclusão mais apurada, mas a única coisa cientificamente possível que consigo enxergar para resolver esse enigma é: a combinação da teobromina com um tipo específico de veneno, trabalhemos com a hipótese da água-viva, gera um efeito “bomba-relógio” no organismo humano… – Os olhos de Holmes estavam fascinados, como há muito eu não presenciava.

— Uma bomba-relógio colocada num míssil teleguiado… – comentei.

— Como assim, Watson?

— Ora… o chocolate moldado com o nome do convidado. Creio que dificilmente alguém faria a desfeita de recusar um agrado com esse nível de personalização. Sem contar que o sabor é inigua…

— Martha Oliveira serve chocolates com os nomes dos convidados? – Sherlock interrompeu-me, extasiado e surpreso ao mesmo tempo. – Em momento algum lhe passou pela cabeça que talvez esse fosse um detalhe importante a ser compartilhado, Watson?

— Holmes, nós estávamos à mesma cozinha! Será que essa parte ficou visível somente aos meus olhos? – Não que eu seja vingativo ou guarde mágoa, mas meu ego jamais deixaria passar a rara oportunidade de “vencer” Sherlock num duelo de observação e análise de pormenores.

— Isso fecha perfeitamente o ciclo, Watson!

Nesse momento, o zelador passou um envelope carmesim por debaixo de nossa porta. Fui buscá-lo, enquanto Holmes fumava e balbuciava para si próprio suas hipóteses e conclusões. Não vou negar que um calafrio me percorreu o corpo quando abri e vi o conteúdo. Levei-o até Sherlock, que permaneceu em silêncio depois de ler.

convite_jantar

[Prezado Sherlock Holmes,

 

Aguardo-o no jantar beneficente amanhã, às 20hs, na minha casa.

Boa oportunidade para avançar nas investigações…

Traga também o Sr. Wallyson, se assim preferir.

 

Martha Oliveira]

 

— Temos festa para ir amanhã, Holmes… alguma dica em especial para aproveitarmos melhor o evento?

— Não sei se isso pode ser categorizado como uma boa dica, mas creio que seja prudente reservar espaço no estômago durante a refeição principal, pois ouvi dizer que o mousse de chocolate servido na sobremesa é de matar…

Caímos na gargalhada e acompanhamos os ponteiros do relógio arrastando-se preguiçosos até o dia seguinte.

VIII – O Último Jantar

Terminamos a conversa do dia anterior com Homes relatando suas suspeitas sobre os possíveis patrões dos homens que estavam nos seguindo nos arredores do salão da manicure. No notebook ele me mostrou algumas outras “coincidências” interessantes, que ocorriam tempos depois dos famosos jantares promovidos por Martha, envolvendo os convidados que ali costumavam aparecer: demissões em massa, quebra de empresas, superfaturamento de determinadas ações na bolsa, desvalorização de imóveis que voltariam a valorizar exponencialmente meses depois, como mágica. Sherlock concluiu que ali nos jantares reunia-se um tipo de “Clube de Bilderberg” do terceiro mundo. Sem tanto poder quanto o original, é verdade, mas ainda assim com o potencial de causar um bom estrago na economia e na vida dos cidadãos comuns. Os homens com cara de poucos amigos que estavam em nosso encalço seriam apenas um aviso, do tipo: “cuidado onde vocês estão metendo o nariz”. Meu primeiro ímpeto foi duvidar, achar que não passava de teoria da conspiração criada pela mente inquieta de Holmes, mas, assim que vi a casa dos Oliveira brilhando como uma coroa incrustrada de diamantes adornando a cabeça de uma dessas rainhas élficas que povoam os livros de fantasia, não duvidei mais de nada.

Ali, melhor que em qualquer dicionário, podia-se ver a definição das palavras luxo, poder, riqueza… e chatice. Carros que eu pensava existir apenas nos filmes do James Bond e do Homem de Ferro, à minha frente, estacionados no amplo gramado. Homens altos, de queixo quadrado, impecavelmente trajados, acompanhados por mulheres que só vemos na televisão e nos sonhos. Todos pareciam felizes, todos sorriam, como se não existissem mazelas no mundo. Ali, pelo menos, não existia. Não sob a luz projetada pelos lustres de cristal. Às sombras, porém, segredos ocultavam-se. E Sherlock foi de encontro a eles sem me avisar, pois quando me dei conta, estava sozinho em meio àquela gente bonita de rostos plastificados. Senti-me tão deslocado quanto um esquimó na selva amazônica, mas pensei: “já estou aqui mesmo” e resolvi aproveitar. Comi diversos tipos de canapés (um melhor que o outro, por sinal). Esvaziei a taça de espumante por mais vezes que consigo lembrar. Esse último fator fez com que minha timidez se dissipasse um pouco, o que me levou a puxar conversa com uma jovem atriz que rodeava a mesa, tão sozinha… aparentemente vivendo o dilema transcendental de comer mais um salgadinho ou não. Para minha surpresa, a conversa começou a fluir muito bem (creio eu que a moça também havia abusado um pouco da champanhe) e ela dava gostosas gargalhadas ao final das minhas piadas sem graça. Tudo ia bem, até que a expressão “plantonista reserva” fosse trazida à baila. Daí ela foi embora e só voltei a vê-la tempos depois, interpretando um papel menor na novela das sete.

— Vamos, Watson… é chegada a hora de atualizar a Senhora Martha com os resultados de nossas investigações até o momento. – Sherlock Holmes aparecera de repente.

Fomos até o escritório do Senhor Olavo, onde Martha nos aguardava, sentada à escrivaninha em um vestido tão reluzente que parecia feito de pura safira. Sua expressão estava perdida em algum lugar no meio do caminho entre o tédio e a tristeza. Sua voz também não soou das mais calorosas, quando disse:

— Pois bem, alguns dias já se passaram desde nosso primeiro contato. Creio que foi tempo mais que suficiente para conseguirem algum progresso.

— Tem razão, Senhora Martha. – Sherlock adiantou-se. – Na verdade, o caso já está praticamente concluído.

— O que quer dizer com isso, Senhor Holmes? Seja mais claro. – Exigiu Martha, apoiando os cotovelos ao móvel e entrelaçando os dedos à altura do queixo.

— A senhora estava certa quanto às suas suspeitas. Realmente o Senhor Olavo Oliveira, seu marido, nutre, ou melhor… nutria… um caso extraconjugal.

— Interessante… – disse Martha, sem demonstrar qualquer tipo de sentimento. – O senhor tem provas concretas do adultério? Posso saber quem era a destruidora de lares? Uma dançarina, conforme eu suspeitava?

— Não sei se ela dançava, Senhora Martha. A única profissão que posso afirmar com certeza é a de faxineira. – com a afirmação, Holmes arrancou uma expressão fingida de surpresa do rosto de sua interlocutora. – Creio que a senhora a conhecia, afinal ela trabalhou em sua residência algum tempo. Falo da Senhorita Rosilene, dispensada dos serviços há três semanas. – Sherlock fez uma pausa, aguardando que Martha dissesse alguma coisa, mas, diante do silêncio, ele continuou: – e nas investigações, descobri algo além do adultério…

— E o que foi, Senhor Holmes? – Agora os olhos de Martha reluziam mais que o vestido.

— Descobri bilhetes de amor e de ameaça. Estão na terceira gaveta à sua esquerda, aliás. Parece que Rosilene, findado o namoro, passou a chantagear o Senhor Olavo, usando como arma uma suposta gravidez. Depois disso, tudo me leva a acreditar que ela tenha sido assassinada.

— Valha-me Cristo! Nunca imaginaria que Olavo fosse capaz disso… – Martha falou, numa atuação digna de Meryl Streep.

— Tenho fortes convicções de que não foi Olavo o autor do crime…

— Não? E quem teria sido então, Senhor Holmes?… – Agora a Senhora Oliveira afundava na cadeira, enquanto lá fora as risadas ecoavam abafadas.

— A mesma pessoa que forjou a carta de ameaça. Uma falsificação de péssima categoria, se me permite dizer. Além de não conseguir imitar muito bem a caligrafia, destoou completamente do estilo da Senhorita Rosilene… que escrevia muito melhor do que o falsificador, provavelmente de modo preconceituoso, supunha. – Holmes movimentara as peças e estava pronto para dar o xeque-mate. – A mesma pessoa, Dona Martha… que matou, com um veneno exótico, pelo menos quatro concorrentes diretos do seu marido. Ou, sendo mais claro… a senhora.

— O senhor me saiu melhor que a encomenda, detetive. – Martha girava o corpo de um lado para o outro na cadeira. Exibia um sorriso debochado, mas estava visivelmente incomodada. – E, como lhes disse no Domingo, eu sei reconhecer um bom trabalho e recompensá-lo de acordo…

Então Martha Oliveira puxou a arma da gaveta e apontou-a em nossa direção.

— Holmes, por favor me diga que você tirou as balas daquele revólver antes de entrar aqui e desmascarar essa mulher que já matou pelo menos cinco pessoas… – Falei, analisando os cursos de ação que poderia tomar para preservar minha vida.

— Isso até me ocorreu, Watson… mas julguei que seria desnecessário. Acho que eu estava errado. – Seria irônico ouvir Sherlock admitir um erro e não poder viver mais que dois minutos para aproveitar. – Martha, esse método não é muito de seu feitio… vai manchar todo seu belo tapete se nos matar desse jeito. – Holmes direcionou a palavra à nossa “anfitriã”, tentando ganhar tempo.

— Felizmente não sou uma mulher tão conservadora quanto pareço, senhores. Sei muito bem me adaptar às circunstâncias. – Ela gargalhou. – E minha festa já não faz tanto sucesso quanto fez um dia. Talvez no fundo a culpa seja minha, pois enjoar de mim não foi exclusividade do meu marido. Acho que deve ter algo errado comigo, afinal. De todo modo, algo dessa natureza certamente servirá para me trazer de volta às colunas sociais. Não é disso que a mídia gosta hoje em dia? Sangue…

Martha Oliveira puxou o gatilho, com a arma apontada em minha direção. Atirei-me ao chão, na tentativa de desviar-me do projétil. Uma tentativa que seria tão desesperada quanto inútil. Mas não houve estrondo. Nem sangue. A arma estava descarregada.

— Holmes, isso é hora para brincadeiras? Não disse que as balas ainda estavam no tambor? – Esbravejei, levantando do chão e tentando retomar a compostura.

— Eu não as tirei de lá, Watson…

— Então, quem… ?

— Eu descarreguei a arma. – Disse Olavo Oliveira, entrando no escritório. – Martha… o detetive me colocou a par de tudo que ocorreu enquanto estive fora e, em nome de Deus, por que matou Rosilene e não a mim?

— Desculpe me intrometer no assunto familiar, mas creio que a cláusula do acordo pré-nupcial que diz, resumidamente: “Em caso de morte do Senhor Olavo Albuquerque Oliveira, todos os bens serão divididos entre os filhos” responde bem a essa questão. – Disse Holmes, citando a parte bem-sucedida de sua pesquisa realizada na Segunda-feira.

— Senhor Holmes… – Martha deu uma risada debochada. – Reconheço que o senhor seja um bom investigador e se destaca no domínio das análises frias de provas, evidências e afins. Porém, da natureza humana… vejo que não conhece nada. Eu nem me lembrava dessa tal cláusula. A bem da verdade, confesso que sequer me dei ao trabalho de ler meu contrato nupcial…

— Então por que, Martha? – Olavo insistiu.

— Porque eu te amo, Olavo. – Martha começou a chorar nesse momento. – Porque eu sempre te amei, desde o primeiro momento que te vi, quando nossos pais se encontraram em minha antiga casa, para negociar tecidos e jogar tempo e dinheiro fora com as cartas. Porque eu gosto de você de um jeito que me dói até a alma. De um jeito que eu não queria gostar de ninguém, Olavo. E também te odeio, de um jeito que não queria odiar ninguém. Mas eu gosto. Mas eu odeio. Mas eu amo. Por isso você ainda está vivo… por mais que eu quisesse te matar. A morte seria pouco, Olavo… seria fácil para você, difícil para mim. Por isso tentei te incriminar, para que você sofresse e não eu. Por amor, ódio, urgência, vingança, justiça. Por um monte de coisas…

— Você me ama, Martha? Como pode dizer isso? – Olavo fez um gesto indignado e deu continuidade à tragicomédia, sem se importar com a nossa presença. – Você desandou a ter casos com jardineiros, motoristas, professores de academia… agora, pelo que sei, é a vez do mordomo. Como ousa dizer que me ama dessa forma?

— E o que mais eu poderia fazer, Olavo? Se depois de poucos anos de casamento você deixou de me procurar, se você prefere a companhia dessas meninotas à da mulher que esteve por trás de todo seu sucesso? Não teria eu também o mesmo direito, Olavo? De buscar aquecer meu corpo e meu coração em outros braços? O que mais me restava? Hein!? O que mais resta a uma mulher que tem filhos que esqueceram o telefone de casa e um marido que vive fazendo viagens e atracando-se à socapa com um contingente eternamente renovável de jovens beldades? Diga-me, Olavo…

— Você está louca, Martha…

— NÃO OFENDA MINHA INTELIGÊNCIA, OLAVO!!! – Com aquele grito, Martha parecia ter colocado anos de raiva para fora. E juro que fiquei mais assustado do que quando ela puxou a arma. – Eu sempre soube de tudo, seu cafajeste! Sempre!

— Se você sempre soube de tudo, Martha… então por que não matou as outras? POR QUÊ??? – Foi a vez de Olavo se exaltar.

— Nietzsche diz que “a felicidade do homem é o ‘eu quero’, enquanto a felicidade da mulher é o ‘ele quer’”. Sempre pensei nisso, Olavo. Quando li pela primeira vez, discordei com todas as minhas forças, mas depois percebi que estava apenas lutando contra uma verdade que não me era agradável. É injusto, Olavo. Extremamente injusto. Vocês homens, mesmo que velhos e acabados, ainda estarão felizes ao lado de uma bela mulher, mesmo com a consciência que ela está ali tão somente pelo dinheiro. Já as mulheres, morrem um pouco a cada olhar que não mais se direciona a elas, Olavo. A cada pequena rejeição que vão se tornando mais e mais frequentes com o decorrer dos anos. Eu aceitei isso, Olavo… aceitei o melhor que pude. Conformei-me com a triste constatação de que para manter um casamento, faz-se necessário se passar por cega, surda e muda algumas vezes.

— Martha… – Olavo disse em tom apaziguador.

— DEIXA EU TERMINAR!!! – Calaram-se até as traças. – Até onde sei… as “outras” eram modelos, atrizes, dançarinas da TV, com corpos esculpidos em academias. Um tipo diferente, talvez requintado, de prostituição, mas, em última instância, ainda prostitutas. Essas eu podia aceitar, Olavo. Sabia que para seus olhos elas eram tão somente pedaços de carne. Mas então veio aquela tal Rosilene… uma… uma…

— Uma o quê, Martha?

— Ora, você bem sabe… uma mulatinha desqualificada! Duvido que a achasse bonita, Olavo! Como você pôde se apaixonar por uma negrinha daquelas?

— Que mulher abominável você se tornou, Martha…

— E você o que é, Olavo? Traindo-me bem debaixo do meu nariz. Trocando bilhetinhos como se ainda estivesse sentado às carteiras da quinta série. Bilhetes cifrados com aquele código ridículo. E a ofensa máxima que você poderia cometer… me presentear com um esmalte barato, pedindo que eu o usasse para que ficasse “jovial”, quando em segredo você queria matar saudade da outra, durante nossas férias. Isso me humilhou demais, Olavo. Isso eu jamais vou aceitar ou perdoar… – Martha voltou a se sentar e a chama de fúria que queimava em seu olhar apagou-se. Para sempre. Depois de um tempo, ela continuou, quase sussurrando: – na verdade… acho que o que mais me doeu foi a inveja que senti da sua capacidade de ainda poder se apaixonar por outra pessoa, Olavo. Eu tento isso há anos… e não consigo. Simplesmente não consigo…

Martha Oliveira sacou um chocolate do bolso e enfiou-o à boca de uma só vez. Olavo correu até ela e os dois choraram abraçados. Um abraço que só poderia ser dado por um casal que um dia já se amou como se o destino de todo universo infinito dependesse disso. Por almas que um dia já estiveram entrelaçadas pelo amor. O amor brutal, que deixa marcas e cicatrizes, que começa em beijos, desaparece cedendo lugar à indiferença, para depois voltar de súbito e terminar em lágrimas. O amor que por vezes parece querer nos matar.

O amor cruel.

Mas, ainda assim, o amor.

Fomos embora e só ouvimos falar de Martha Oliveira quatro dias depois, em nota de falecimento desprovida de destaque ou glamour, relegada ao rodapé de uma coluna social qualquer.

IX – Linhas Tortas

Não muito tempo depois desses eventos, chegou às nossas mãos um cheque administrativo, emitido pelo Senhor Olavo Oliveira. A princípio pensei que havia me enganado com a quantidade de zeros presentes ali. Precisei contar duas vezes, apontando cada dígito com o dedo como se fosse uma criança aprendendo a ler no pré-primário, para acreditar no que estava vendo.

— Parece que o Senhor Olavo ficou bem satisfeito com seu trabalho, Holmes…

— Nosso trabalho, Watson. Metade da quantia impressa nesse cheque é sua por direito. – Respondeu Sherlock, às voltas com uma nota que insistia em sair desafinada das cordas do violino. – Mas, de fato, trata-se de um valor considerável que, salvo engano, quis dizer nas entrelinhas “obrigado e fiquem longe dos meus negócios, com o bico bem fechado”.

— Verdade, também tive essa impressão. Não é nada que nos deixará milionários, mas já será suficiente para um bom rendimento mensal numa aplicação bancária. Ou até mesmo para darmos entrada no financiamento de um apartamento próprio…

— Tem razão, meu caro Watson… mas na verdade, eu estava com outros planos em mente. Planos que exigem o emprego da quase totalidade do montante que você está olhando deslumbrado até agora, doutor. Portanto, precisaria de seu consentimento para…

— Para o quê? – Pensei por algum tempo, tentando completar a lacuna, sem fazer a menor ideia do que meu amigo poderia estar pensando. Então, de súbito me veio um estalo. – Por Deus, Holmes… você não está pensando em…

Sherlock apenas sorriu.

* * *

— Ai, meu Deus do céu, Seu Xeróx… eu não tô acreditando…

Foi tudo que Iara conseguiu dizer quando lhe entregamos o número do protocolo para atendimento no Hospital Albert Einstein, onde uma perna mecânica com tecnologia de ponta, totalmente quitada, aguardava por Jonatas, o filho acidentado. Ela chorou e nos abraçou, depois chorou de novo. E nos abraçou mais uma vez.

— Dona Iara… – Holmes começou a falar, quando o fluxo de lágrimas e assoadas de nariz diminuiu. – Gostaria de deixar bem claro que isso é tão somente uma troca de favores. Devo admitir que meus conhecimentos no universo dos esmaltes e apetrechos de manicure em geral são extremamente limitados. Dessa feita, espero contar com a senhora sempre que precisar de informações nessa área. E a troca de favores também estende-se ao nosso Doutor Watson aqui, caso um dia ele resolva fazer as unhas ou ter cuidado estético de semelhante natureza…

— Pode vir quando ‘cêis quiser! – Iara afirmou, agora com gargalhadas misturadas ao choro. – Anjos de Deus sempre são bem-vindos aqui. E é isso que vocês são, acreditem ou não: anjos de Deus. Na hora em que vocês passaram naquela porta a primeira vez, eu já soube…

Conversamos um pouco mais, tomamos um café que Iara fez questão de preparar e então fomos embora. Em completo silêncio, eu sorria. Sorria com o rosto inteiro, como há muito não fazia, com a mais doce sensação de dever cumprido avolumando-se no peito enquanto caminhava pelas calçadas estreitas em direção ao ponto de táxi. Lembrei-me de uma pequena história, que apesar de não recordar a origem (algum gibi lido, nos tão distantes quanto puros anos da infância, talvez), ficou gravada na minha memória: “Hoje eu vi uma criança sorrindo. Isso me deixou feliz. E, em seguida, fiquei feliz por ter ficado feliz…”. Era melhor assim: ficar feliz por ficar feliz, que ficar “feliz” por ficar triste, como foi da primeira vez em que visitamos a manicure e soubemos do infortúnio de Jonatas. Afinal, a felicidade trazida pelo amor ao próximo, mesmo que irremediavelmente fugaz como as luzes de um farol que se perdem no mar em meio à neblina de um destino inexorável, nunca deixaria de ser a melhor maneira de fazer com que lembrássemos, fazer com que sentíssemos, que ainda éramos humanos. Demasiado humanos.

— Nossas contas continuam no vermelho, mas devo admitir que foi extremamente gratificante praticar essa boa ação. – Eu disse, logo depois de nos acomodarmos no banco detrás e passarmos o itinerário ao chofer.

— Nossas contas não estão no vermelho, Watson.

— Não foi isso que me disse o extrato que tirei na internet essa manhã…

— O extrato ainda não está considerando o cheque que nos foi enviado pela Senhora Evelyn Schlesinger, meu caro.

— Ora, então ela acabou nos pagando? – Admirei-me com a notícia.

— Sim. Enviou um telegrama que chegou ontem à noite, dizendo que o cão, que até agora não sei se era macho ou fêmea, realmente estava morto no quartinho de ferramentas. Agradeceu nossa ajuda, que possibilitou a ela a oportunidade de “dar uma enterro digna ao pobrezinha da Schweinsteiger”. Anexo ao telegrama estava um cheque, não tão generoso quanto o do Senhor Oliveira, é verdade… mas farto o suficiente para que eu consiga passar alguns meses tocando violino sem ouvir suas lamentações sobre as datas de vencimento dos boletos, meu caro Watson.

Demos uma boa risada e nos distraímos com a paisagem urbana que se estendia no outro lado da janela. Quase perto de casa, voltei a falar:

— Está pensando o mesmo que eu, Sherlock?

— Que talvez Deus, ou ser onipotente similar, tenha nos usado como marionetes para atender as preces da boa Iara? Que com simples ovos de páscoa o Senhor Baskerville poderia ter se livrado do cão que atormentava sua propriedade? Que seria interessante acompanhar o que sairia de um diálogo entre a falecida Martha Oliveira e a Senhora Evelyn “não sou preconceituosa, mas…” Schlesinger? Ora, Watson! – Sherlock fingiu-se indignado, batendo aos joelhos com alarde. – Como posso saber se estamos pensando a mesma coisa? Se sou mesmo um anjo, como afirmado há pouco pela nossa nova consultora, certamente não possuo o dom de ler pensamentos!

— A bem da verdade, também pensei em todas essas coisas durante o trajeto! – Respondi, sem conseguir conter o riso. – Mas agora especificamente, o pensamento que me ocupava a mente era outro: como são intrincados os caminhos da vida!

— De fato, Watson… são mesmo deveras emaranhados. – Holmes concordou, assumindo um ar melancólico que durou alguns instantes. Em seguida, a velha empolgação voltou a preencher seu semblante. – Esse emaranhamento e a prática de boas ações deixaram-me esfaimado, meu bom amigo!

— Topa dividir um lanche de pernil?

— Elementar!

— Vou até desligar o celular, para que ninguém me chame para cobrir plantão. Hoje não adiamos esse lanche por nada. Partiu!

— “Partiu”? – Sherlock torceu o nariz para a expressão.

— É uma gíria da internet, Holmes. Você precisa se atualizar…

— Ora, Watson… já estou um pouco velho para esse tipo de coisa. Mas, por que não tentar, não é mesmo? Partiu!

Finalmente comemos o tal lanche de pernil. Os ingredientes pareciam estar ali desde que o tal sanduíche fora mencionado pela primeira vez, mas até que estava bom, não vou negar. Porém, no mesmo dia, coincidência ou não (embora, como dizia Holmes: “a mesma situação que ocorre com propriedades similares por mais de uma vez, começa a afigurar-se mais como padrão que como coincidência”), tivemos uma abnominalgia-salmonélica-aguda, vulga “dor de barrida de proporções cataclísmicas”.

Mas essa última parte eu achei melhor omitir no meu caderno de anotações, ao transcrever o caso que, hoje penso que bobamente, intitulei: “Um Estudo em Nunca Fui Santa”.

…………………………………………………………….

Este texto foi baseado no tema “Traição”, sujeito ao limite máximo de 50.000 palavras.

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50 comentários em “Um Estudo em Nunca Fui Santa (Fabio Baptista)

  1. Gustavo Castro Araujo
    13 de maio de 2015

    Quando vi o limite generoso sugerido pelo Rick Falco, fiquei imaginando quem seria o feliz agraciado. Fosse alguém com pouca intimidade com o riscado, teríamos a maior sessão de tortura literária de toda a existência do EC. Se, por outro lado, caísse nas mãos de alguém experiente, o resultado poderia ser muito bom.

    Felizmente, os dados rolaram para o bem. Nosso megalomaníaco-narcisista-neurótico-auto-intitulado-reacionário-porém-adorável Fabio Baptista soube utilizar tanto o tema como o limite de modo bastante inteligente.

    A começar pela abordagem do assunto. Traição é um fato intrinsecamente ligado à vida detetivesca, de modo que nada melhor do que uni-los de plano. Melhor ainda foi a alocação de um personagem clássico repaginado-mas-nem-tanto no centro da maior metrópole brasileira.

    Como disse o Rafa Sollberg, inevitável a comparação com o Xangô de Baker Street do Jô Soares. Lá, entretanto, o detetive surge no Rio de Janeiro, ainda na época do Império. Aqui, ao contrário, aparece nos dias atuais de uma São Paulo caótica (desculpem o pleonasmo). Tanto na história do Jô como nesta, porém, é mantido o ar aristocrático do velho Sherlock, dando margem a situações bem divertidas, exploradas com um timing perfeito.

    Aliás, é preciso admitir que o autor sabe como poucos utilizar-se de ironias e observações sarcásticas, o que rende muitas risadas, deixando a leitura agradável e fluida.

    O que poderia ter sido melhor foi a trama em si. Refiro-me ao mistério. A parte investigativa ficou de acordo com o esperado, mas não consegui comprar o motivo pelo qual a Sra. Oliveira procurou Sherlock e Watson. Segundo entendi, ela queria ser descoberta como autora dos assassinatos dos concorrentes com o uso de chocolates envenenados — o caso clássico do psicopata que deixa pistas para ser encontrado e, assim, ver encerrados seus dias criminosos. Poxa, só isso mesmo? Então qual a razão do Sr Oliveira ter aparecido vivo ao final da narrativa? Foi desnecessário, acho. Aliás, o diálogo entre marido e mulher no arremate do conto não ficou muito legal. Achei um tanto piegas, na verdade…

    O que me parece é que “o contar”, isto é, a maneira de escrever, está melhor do que o enredo visto de longe. A fluidez da leitura, ao menos para mim, comprova isso. A cada parágrafo é possível apreciar a descrição que se faz da maneira de Sherlock se portar e pensar. Isso ficou dez! Visto como um todo, contudo, o mistério pareceu um pouco oco.

    O que me faz pensar assim é a maneira magnífica como foram descritas as divagações de Watson (aliás, Wallyson ficou muito engraçado). Na verdade, para o meu gosto literário, os trechos passados por ele como plantonista são os melhores do texto. Ali é possível perceber como o autor sabe mergulhar na psique das pessoas, sabe explorar dilemas, divagar, enfim, preencher o personagem com humanidade, dando-lhe qualidades e defeitos. De fato, as digressões sobre (in)sensibilidade em relação às pessoas que esperam horas (às vezes dias) por um atendimento demonstra muito bem esse dualismo. Melhor ainda são os trechos em que Watson confessa ter ficado contente por ver que ainda se importava – e depois, num paralelo, quando constata que o melhor mesmo é a felicidade autêntica. Fantástico. A dimensão humana desse personagem suplanta o ar leve e caricato do Sherlock, mostrando-se para mim como o ponto alto – bem alto, na realidade – do conto.

    Enfim, se eu pudesse fazer alguma sugestão ao autor, seria que investisse nessas questões que envolvem relações interpessoais. Ironia e sarcasmo são interessantes, mas falar do que nos torna verdadeiramente humanos é ainda mais. Nem todo mundo que escreve tem esse dom. Talvez seja o caso de aproveitá-lo.

    Parabéns pelo conto, pelo capricho e pela disposição em apresentar o melhor possível.

    Dimitri na veia!

  2. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    29 de abril de 2015

    Merecidíssimo primeiro lugar! Se pudéssemos votar só em 10 contos, indicando a colocação de cada, na minha votação o seu seria o primeirão! Gostei demais! Que trabalho!

  3. Thales Soares
    29 de abril de 2015

    Sabe… foi por causa deste conto que eu quase desisti do desafio!
    50.000 palavras? Meu deus…………….

    Achei que jamais conseguiria ler. E o tema então? Algo que não me empolgava nem um pouco….

    Resolvi dar uma chance ao monstro, e comecei a ler ontem. EU estava torcendo, desde o inicio, para ser algo ruim, e eu abandonar a leitura mais cedo, e falar aqui nos comentários que era ruim e não aguentei ler até o final.

    No entanto, tive uma surpresa enquanto lia…. eu estava preso! A leitura foi muito prazerosa! O tamanho, que estava me espantando desde o inicio, de repente começou a me agradar!! As fotos ilustrativas, as personagens cativantes, tudo contribuiu para o conto.

    Parabéns. Você soube usufruir bem de seu limite exagerado

  4. Tamara padilha
    28 de abril de 2015

    Palmas, palmas, palmas. Foi cansativo ler tudo de uma vez mas que conto fantástico. Aposto que você, scritor já lançou algum livro, ou está no caminho. Você escreve bem demais. Adorei o poema da Rosilene, Rosa. Bem realista, ilustrativo da vida de muitas pessoas que vivem por aí. E que fim. Você não deixou nenhuma ponta solta, deve ter demorado muito para escrever algo assim. Uau! Fiquei o conto inteiro pensando em nove ou dez, mas nesse fim decidi que você merece um grande dez. P.s: adorei e ri muito com o sr. xeróx, deu o humor que o oconto necessitava. Acho que sempre que ouvir falar em Sherlok eu lembrarei de Xeróx. Ah, talvez tenha sido um pouquinho forçado a história de eles comprarem a perna para o filho da dona Iara, mas foi uma atitude muito boa.

  5. Swylmar Ferreira
    28 de abril de 2015

    O texto atende ao tema e está dentro do limite estipulado.
    Muito longo, até que está bem escrito, linguagem objetiva.
    É um conto interessante mas tão longo que acabou se tornando maçante, quase uma noveleta.

    Parabéns!

  6. Andre Luiz
    28 de abril de 2015

    Já sem me estender muito, tenho que dizer que você foi um exímio escritor neste belíssimo conto digno do saudoso Doyle. Nosso Holmes brasileiro convenceu e muito. Este caso certamente é muito bem feito, cheio de pormenores(como aquele cão da senhorita Schlesinger… Tadinho…) e tudo mais. Já li diversas histórias do detetive londrino e posso afirmar com certeza que você soube traduzir a linguagem daquela época e história para os dias autais, modificando os cenários e tudo mais sem deixar que detalhes(como o gosto de Holmes pelo violino, o senso crítico-empírico apurado de Sherlock e a característica cômica/esquisita do detetive)escapassem ao conto. Não encontrei nada que tirasse sua merecida nota dez. “Um estudo em Nunca fui santa”, para mim, é um maravilhoso texto. Parabéns!

  7. Wilson Barros Júnior
    28 de abril de 2015

    Seu conto é um Sherlock completo. Em um conto de Sherlock não poderiam faltar suas “adivinhações” nem a suposição de que ele e Watson são amantes. Os truques com a Marie Janine e a Martha, foram muito bem bolados por você, principalmente o do whatsapp, parabéns. A fidelidade a Conan Doyle é espantosa, realmente Watson impressionou-se com o fato de Holmes não saber que a Terra girava em torno do Sol. O truque do veneno foi muito interessante. Pirmeira qualidade.

  8. Wender Lemes
    28 de abril de 2015

    Olá! Você deveria publicar este conto como um livro, amigo, é da qualidade de um Arthur Conan Doyle do enredo ao humor (humor inglês perfeitamente misturado ao brasileiro). Imaginar o trabalho que deve ter tido para confeccioná-lo me faz pensar que nenhum outro conto merece mais a primeira colocação deste certame que o seu. Faço então minha parte para que isto ocorra. Parabéns!

    P.S.: restou uma pulga atrás da orelha… se Watson e as empregadas comeram do chocolate em seu preparo, seria o veneno adicionado à mistura em outro momento? Mais uma questão para o nosso amigo Xeróx.

  9. Jefferson Reis
    28 de abril de 2015

    Finalmente terminei de ler esta “epopeia”! Quem, em sã consciência, sugeriu um limite máximo de 50.000 palavras? Por sorte estou em férias, rsrsrs.
    Digo, entre envergonhado e perdido, que nunca li nada sobre Holmes. Ou melhor, acabo de ler. Faz algum tempo que um belo volume com vários casos do detetive chama por mim na livraria, mas nunca tenho dinheiro o suficiente para comprar todos os livros que desejo. Comprarei, seu dúvida, depois de ter lido Fitzgerald e Joyce.
    Gostei bastante do conto de Dolly. Não pude comparar em nada com Conan Doyle, é verdade, mas me intriguei com os mistérios e dei boas gargalhadas. Histórias de detetives, quando bem escritas, funcionam como terapia, ao menos para mim.
    Achei interessante a estadia de Holmes e Watson no Brasil. Os trechos do médico nos hospitais brasileiros são um diferencial. O uso de imagens durante a narrativa foi algo legal também. Conheço alguns livros de mistério que trazem fotografias e imagens de páginas de internet. O livro “Filme Noturno” é um deles, bem “interativo”.
    Uma coisa que me incomodou, e que já comentei nesse desafio, é que, quando leitor desse tipo de ficção, espero ter a oportunidade de solucionar o mistério, ou, ao menos, poder acompanhar o investigador. Alguns trechos não me permitiram isso. Não pude, por exemplo, deduzir que a manicure estava frequentando a igreja, porque a informação da reforma e da sandália suja de terra chegou muito tarde. Isso me fez perceber que o interior do salão não foi muito bem descrito. A imagem do rapaz acidentado deveria ser previamente citada. Falhas assim acontecem mais vezes no conto.
    Outra coisa que me incomodou foi a forma como as duas cozinheiras se abriram com Watson quando ele e o senhor Sherlock Holmes investigavam na cozinha. A patroa malvada entra trazendo dois desconhecidos que estão investigando o sumiço de uma joia, e qualquer resposta errada pode fazer com que uma delas se torne suspeita, e só bastam algumas palavrinhas trocadas com o gentil estranho para elas reclamarem do serviço e da patroa. Talvez eu esteja exagerando, mas em uma situação dessas as pessoas tendem a controlar o que falam.
    Preciso elogiar a brincadeira com Suécia e Suíça. Gargalhei. Fiquei um tempinho brincando com o trava-língua “Escócia, Suécia, Suíça”.
    Estou curioso sobre a autoria desse conto, gostaria de ler outros do autor ou da autora.

  10. Pedro Luna
    28 de abril de 2015

    Cara. Muito bom. A melhor coisa do conto é o senso de humor. Bolei de rir com o MEU DEUS DO CÉU, quando Sherlock achou ver a explosão. E o que dizer da carta convidando o doutor Wallyson? Hahaha, bem foda. A história é legal, e o conto é muito bem escrito, do nível romance mesmo, agradável de ler.

    Agora, pelo amor de Deus, nunca mais poste algo assim aqui cara. Eu acho sim que é desestimulante você escrever algo tão bom e ter que ler uma pessoa dizendo que o conto grande não é bacana. Mas realmente não é. Para ler no PC, dessem formato de barra de rolamento, pior ainda.

    O único ponto fraco foi o diálogo final entre Martha e Olavo. Acho que ficou mais longo do que precisava. Um desabafo gigante da Martha sobre a diferença dos mundos masculinos e femininos. Foi o único momento que encheu o saco. O resto foi massa, viu. Achei bacana as deduções do Holmes, o ”seu Xeróx”, e a inserção das imagens. Grande trabalho, literalmente.

  11. Rodrigues
    28 de abril de 2015

    Hahahaha, o conto (pode ser considerado um conto?) assusta por causa do tamanho mas consegui ler tranquilo, de uma vez só, e confesso que sou incapaz de escrever algo assim, extremamente profissional. Achei a adequação da dupla de detetives no centro velho de SP uma boa ideia, consegui enxergar os lugares e esse lanche de pernil é do Estadão, hahaha. Foda. Bom, não é o meu tipo de história preferido, pra falar a verdade, nunca li na sobre o Holmes, só um filme. portanto, obrigado pela introdução, pois agora fiquei interessado. A escrita está primorosa, essas clientes de várias etnias são a parte mais interessante, foi o que mais me ligou ao texto, e a trama não poderia ser melhor desenvolvida, coisa de quem entende mesmo do assunto. Fora isso, gostei das citações da cultura pop, das notícias de jornais e de humor mais do que cativante que permeia todo esse texto nos levando linha a linha até esse desfecho inesperado. Meus sinceros parabéns!

  12. mkalves
    28 de abril de 2015

    Como tinha deixado para ler por último esse conto, temia não conseguir terminar a tempo. Mas a leitura foi tão divertida que devorei rapidamente as quase 20 mil palavras. Acho que não lia esse tipo de história desde a adolescência e adorei a experiência. Até lembro de ter achado um ou outro porém pouco críveis ao longo da leitura, como o taxista tão prontamente à espera de Holmes e Watson, mas a impressão logo se dissipava. Achei a cena do suicídio de Martha bem piegas, assim como seu discurso, mas não havia nenhuma necessidade de grandes e complexas revelações da alma humana nessa história. Estará no meu top3.

  13. rsollberg
    28 de abril de 2015

    Cara, um contão! Valeu a pena ter todas essas linhas.

    É inevitável não se lembrar do “Xangô de Baker Street”, mas as conexões iniciais vão sendo desfeitas após os primeiros parágrafos, e logo fica bem perceptível o estilo peculiar do autor. ´Consegui identificar várias tramas, o que não é nenhum pouquinho fácil de inserir em apenas um conto: o Caso de Martha, o caso de Marie, o caso da Senhora do cachorro meio-campista da seleção alemã, da Manicure e o do próprio problema do aluguel, sem contar na renovação de da crença do caro Watson na bondade/felicidade.

    Os personagens foram muito bem construídos, inclusive os secundários. Adorei a brincadeira com o Kant e a crítica da razão pura – o imperativo categórico de Holmes. Seu jeito fanfarrão e ao mesmo tempo meticuloso, que nos faz lembrar imediatamente do Dr. House (confessadamente inspirado no detetive original)

    Curti muito o estilo do Watson: “discutindo no Facebook com um grupo que, a princípio, tinha as mesmas convicções que eu, mas, de tão radicais em seus posicionamentos acabaram me fazendo repensar e quase aderir ao “outro lado”, só de raiva.” Kkkkkkk. Seus pensamentos vão ditando o ritmo do conto, algumas vezes profundo, “A dor e a morte são irmãs despidas de qualquer preconceito.” outras vezes descontraído, até mesmo como um alivio cômico para a tensão do momento: “Seria irônico ouvir Sherlock admitir um erro e não poder viver mais que dois minutos para aproveitar.” (apostaria todas as minhas fichas que esse autor entende muito de roteiro, aliás, esse conto teria tudo para virar um spec)

    Analogias bem construídas, observando as características dos personagens: ““olhos de Marie esbugalharem-se mais que os de Napoleão Bonaparte ao contemplar o contingente da Sétima Coligação estendendo-se no outro lado do campo de batalha.”

    Ótimos diálogos. Um belo exemplo de como passar informação ao leitor sem ser enfadonho ou didático. O sarcasmo do Detetive com seu parceiro, que está sempre um passo atrás, sombreando o seu admirado, mostra a importância de falas bem elaboradas para a construção do personagem. A explicação para concluir que a Marie Janine era uma farsante foi sensacional, da etiqueta Chanel até o sotaque aprendido com o Tom & Jerry. Fora algumas frases impagáveis: “Quando foi no Domingo… acordou morta”

    Dolly, você sabe muito bem ambientar sua história, como na parte que descreve a iminência da tempestade no transito caótico e a mudança para o hospital público.

    Para não dizer que só falei de flores, falarei de chocolates recheados com animais exóticos… A única coisa que não curti foi o diálogo final de Olavo e Martha, ainda que eu ache que a intenção do ator tenha sido dar uma cara mais novelesca, penso que foi além da medida. Muita explicação para o clímax, que já era esperado – fácil de deduzir depois te tanto observar o Sherlock. Nem o alemão bigodudo conseguiu salvar a coisa toda.

    Bem, refleti muito sobre a nota deste conto. Após demorados minutos, decidi que ele está um pouco acima dos meus outros preferidos. Sendo assim, esse texto estará recendo (argh) o meu primeiro e provável único 10 do certame.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  14. Bia Machado
    28 de abril de 2015

    Bem, finalmente concluído! E agora sei por que dividi em duas partes: o enredo não me fisgou totalmente. Acho que é inquestionável a complexidade da trama, tiro o chapéu, pois escreveu uma história, e além disso, uma história de mistério, em tão pouco tempo, isso não é para qualquer um. Bem, ainda fico em dúvida se já havia um esboço da história, que acabou sendo aproveitado aqui, ou se foi exclusivo para o EC, e o que mais me deixa na dúvida é que o tema, “Traição”, está em segundo plano. Sim, a investigação está lá, o motivo para ela também, mas traição não está sendo o ponto principal aqui, para mim há outras partes mais relevantes. Por exemplo, adorei a Iara, o Watson, então! E chegou um momento em que eu não estava nem aí para a investigação, isso acabou ficando em segundo plano e eu queria mais era saber do Sherlock repaginado, do Watson em seus plantões e da Iara, tão divertida rebatizando o Holmes, rs.
    Aliás, esse texto não é um conto, porque tem a história do Watson, dos plantões, verdade seja dita, acho que sempre fui mais para o lado dele do que do próprio Sherlock, nos livros que li do Doyle.
    Do que gostei: do inusitado, de alguns momentos caricaturizados, de várias situações engraçadas, como a troca de nomes (Xeróx, Wallyson…), mas algumas partes também me soaram forçadas, sem graça, como um excesso de humor, se é que isso é possível. Gostei da repaginada no Holmes. A sacada com a cor do esmalte, por exemplo, também gostei, e esse sanduíche me deu até fome, hahaha.
    Fique atento à revisão, alguns errinhos apareceram, um excesso de advérbios de modo (absolutamente, exatamente, provavelmente etc…), também tem um “certeza absoluta” que não caiu bem na minha leitura, mas é um vício pouco percebido…
    Emoção: 1/2
    Enredo: 1/2
    Criatividade: 2/2
    Adequação ao tema proposto: 1/2
    Gramática: 1/1
    Utilização do limite:1/1
    Total: 8 (7 + 1 de bônus pela tarefa realizada, não deve ter sido fácil!)

    • Bia Machado
      1 de maio de 2015

      Oi, Fabio, só um esclarecimento a respeito do meu comentário sobre não ser um conto, mas sim uma novela: só o fiz porque me lembrei da discussão a respeito do que era conto, do que era novela, lá no grupo, e também porque sabia que isso não ia influenciar em nada a votação dos outros. Se os comentários estivessem abertos, eu não faria isso. E daria a mesma nota, com certeza, sem desmerecer por ser novela etc., até porque gostei muito da parte que é só do Watson. Como segui os mesmos critérios para o seu conto seguidos para os outros, analisei da mesma forma nos critérios. Me senti segura em tirar um ponto na questão de emoção, enredo e adequação ao tema porque realmente pensei dessa forma. No caso da emoção, talvez influenciada pelas histórias de Sherlock que eu já li: elas não me cativam o tanto que eu gostaria, e você parece ter incorporado o detetive! =) Sempre admiti que não curto tanto a narrativa do Doyle, sou muito mais a Agatha Christie, sempre fui, e são estilos muito diferentes… E aí o seu texto, apesar de muito bem escrito, é inegável, pra mim não funcionou. Talvez eu tire esse critério da emoção no próximo desafio, porque é certo que não é legal, penso eu, deixar que o critério “gostei/não gostei” influencie, por isso fiz diferente nesse desafio. Mas quando somei os pontos e vi o 7, não achei que fosse justo com o trabalho e a qualidade que você teve ao escrever, ao aceitar esse desafio. Por esse motivo o bônus, rs. Mas não poderia chegar ao dez, visto que gostei mais de outros textos que do seu e olha só, de novo o conceito “gostei/não gostei” influenciando nas notas… É, é complicado… Mas por favor, não fique pensando que o fato de ter escrito uma novela pesou no meu voto, porque não pesou. De qualquer forma, parabéns!

      • Fabio Baptista
        1 de maio de 2015

        Bia, eu entendo perfeitamente seu ponto.

        E, sinceramente, também considero esse texto aqui uma novela (ou até um “mini-romance”). Não pelo tamanho em si, mas pelas ramificações da história (creio que seja esse seu critério para diferenciar um e outro também).

        Mas se a gente for analisar ao pé da letra, encontraremos poucos contos “puros” nos desafios.

        O negócio do “gostei/não gostei”… eu tentei eliminar (ou ao menos amenizar) isso das minhas avaliações, mas não deu muito certo. Nesse desafio eu acabei voltando com esse critério com mais força. Não sei dizer se é mais ou menos justo, mas enfim…

        Agradeço de coração pelos seus comentários e se me permite a sugestão, não tire o quesito emoção das suas avaliações! 😀

        Abraço.

      • Bia Machado
        1 de maio de 2015

        “Mas se a gente for analisar ao pé da letra, encontraremos poucos contos ‘puros’ nos desafios.” – Como assim, tem tantos assim fora da estrutura? Exemplos, por favor, agora fiquei curiosa, rs… Quanto ao “Emoção”, vamos ver… Talvez não o tire, mas dê um valor menor, como Gramática, que coloquei apenas 1 ponto, para não desmerecer o texto quanto a isso, rs… 😉

  15. André Lima
    28 de abril de 2015

    Um conto muito bem construído e que não foi massante. Num primeiro momento, quando vi o tamanho do conto, desanimei e, por conta disso, foi o último conto que li. Mas a história foi me lembrando bastante o estilo de Jô Soares, em O Xangô de Bakerstreet. Me prendeu até o final, embora este não tenha sido um GRANDE final que a história com 50 mil palavras merecia.

    Achei um bom conto.

  16. Felipe Moreira
    27 de abril de 2015

    Dividi a minha leitura desse conto em duas partes. E agora sei que fiz bem, porque provavelmente teria cahado cansativo se terminasse de uma vez na última noite.
    Hoje cedo eu estava remoendo algumas coisas sobre essa história enquanto almoçava, lembrando de alguns detalhes e projetando informações que eu mesmo pudesse oferecer ao longo da leitura. Não tive muito sucesso, achei que fiquei isolado como o John, mas gostei bastante do que li. Aliás, eu não pude controlar o fato de ter imaginado eles dois, ainda que brasileiros de sampa, da mesma maneira que a dupla da série britânica. Talvez seja porque a série tenha me marcado bastante não só por ser recente e competente, mas também por ser contemporânea, tal qual “Nunca fui santa”.

    Posso me vangloriar um pouco sobre a parte do chocolate e olhe lá. Dali eu tive que aguardar as revelações do Sherlock sobre as matérias a respeito da família, os negócios da família e etc. Não esperava um crime passional. Gostei muito da dinâmica entre eles dois e a narrativa é limpa, sensacional. Acho que sei quem escreveu esse conto.

    Devo dizer, o trabalho merece uma nota máxima, a meu ver, não apenas pelo texto em si, mas pelo trabalho desenvolvido e o cuidado que ele teve em ser também carregado de bom humor com as imagens. Muito bom mesmo. Foi divertido ler sobre Iara, cujo desfecho ganhou um fim emocionante. Xeróx foi muito bom. HAHAHA

    Já Martha, imagino que ela tenha subestimado Sherlock demais. Só de pensar que os Oliveira poderiam evitar essa sequência de tragédias se visitassem Marrakesh com frequência. Não falo da cidade, e sim da casa de swing em São Paulo. =P

    Parabéns pelo trabalho, sir.

  17. Eduardo Selga
    27 de abril de 2015

    Devemos considerar talentoso um autor que consegue criar um personagem que é a cópia quase exata de outro, mundialmente conhecido? Sherlock Holmes se inclui na categoria dos personagens eternizados da literatura, como Dom Quixote, Hamlet, o Coronel Buendía, de Cem Anos de Solidão, dentre muitos outros. Reaproveitá-lo de modo esteticamente relevante implica não fazê-lo de modo literal, ou melhor, agregar a ele um forte traço individualizante.

    Tentando dar uma resposta à pergunta, para os que consideram boa literatura a simples mimese, sim, é um fato positivo o modo como o protagonista deste conto foi montado, porque ele parece verossímil. Mas não com o real (ele é quase um médium), e sim com um personagem preexistente. Para os que não desconsideram a relevância da mimese mas entendem que é preciso ir além do efeito de imitação, a coisa muda um pouco de figura.

    A respeito disso, seria interessante ler, o argentino Jorge Luis Borges escreveu o conto “Pierre Menard, autor del Quijote”, em que ele cria um narrador disserta sobre um tal Menard (personagem ficcional), cuja intenção não teria sido construir um novo Quixote e sim construir O QUIXOTE. Ou seja, não pretendia copiar o original, antes fazer melhor do que Cervantes ao recriar a obra dele, ainda que copiando palavra por palavra. A diferença estaria no entrelinha de um texto escrito no século XX em relação ao outro do XVII. Fica a sugestão de leitura.

    No Sherlock Holmes deste conto onde está o Sherlock Holmes original? Na linguagem, sem dúvida. Esta é altamente cerimoniosa, acompanhada de gestos característicos do original inglês e de deduções “mediúnicas”. Nesse sentido um é o outro. Mas há um detalhe: não estamos na Londres do século XIX, e sim na São Paulo do XXI.

    Isso influencia em quê na distinção de um personagem relativamente ao outro? Em minha opinião, esse é precisamente o ponto: o procedimento do(a) autor(a) consistiu basicamente em transferir o detetive da Inglaterra e implantá-lo no Brasil, sem nem mesmo assemelhar-se a um brasileiro. Não houve acréscimo ou decréscimo de persona, de psique, de aspecto físico -apenas transferência.

    E deveria haver diferença? Voltamos então ao primeiro parágrafo. Sim, acredito que deveria. Sir Arthur Conan Dolly “criou” uma versão muito próxima do personagem de Sir Arthur Conan Doyle.

    Os personagens são construídos dentro de uma proposta bem definida: o clichê, o personagem-tipo, pois representam certo comportamento, real ou estereotipado. A criminosa é a rica má; temos a alemã que “fala engraçado”; a mulher que, por ser pobre, “fala errado”. Com isso foram conseguidos vários momentos de humor.
    E isso é bom, certo? Afinal, o que há de errado em rir um pouquinho? Se não fosse um humor próximo ao Zorra Total, ou seja, carregado de estereotipia, nada de errado.

    Talvez para tirar um pouco a carga britânica do protagonista o(a) autor(a) optou por uma estratégia inteligente na construção dos espaços ficcionais: as referências reais, além de “recortes” de jornais, nomes de bairros, praça e outras citações conseguem situar o leitor num espaço urbano brasileiro e paulista. Isso causa a sensação de realidade, de mimese. Mas a sisudez britânica do protagonista permanece intacta. Isso significa que o leitor não suspende a descrença (quando se usa a mimese a intenção é essa), pois sabe que o detetive é uma colagem. Mas sem dúvida leva o texto até o fim por ser “divertido” em função dos personagens-tipo, da boa condução textual e das imagens.

    O texto foge ao gênero conto. Ele possui mais de um núcleo dramático e certamente as narrações do Watson no hospital são completamente dispensáveis se quisermos que o texto seja conto. Por causa desse enorme desvio, e outros menores, não estamos diante de um conto.

    Isso é importante? Acredito que num certame em que estão concorrendo textos na categoria contos, e não novela ou embrião de romance, isso não só é importante: é fundamental.

    Conto, novela e romance são GÊNEROS NARRATIVOS FICCIONAIS diversos entre si. Agora quero mencionar uma qualidade do texto: a mescla de GÊNEROS TEXTUAIS. Sustentado a narrativa, e como disse reforçando a ideia de mimese e de verossimilhança, temos uma boa saída: o uso de “notícias” de jornal, bilhetes e poema, além, é claro, dos textos visuais. Isso funcionou muito bem, deu dinâmica ao texto. Acredito mesmo que será copiado doravante.

    O desfecho foi decepcionante. Prosseguindo na opção do clichê, optou-se por final com uma carga de melodramaticidade absolutamente exagerada, novelesca (no sentido midiático da palavra) e incompatível com o glamour da vilã, pois um dos códigos da alta burguesia é evitar espetáculo que exponha intimidades em público. E o comportamento da madame foi público (o detetive e seu ajudante não fazem parte da família, nem há grau de proximidade). Ela diz, dentre outras frases: “— Porque eu te amo, Olavo. – Martha começou a chorar nesse momento. – Porque eu sempre te amei, desde o primeiro momento que te vi […]”.

    Além disso, a entrada triunfal do marido na última cena (” — Eu descarreguei a arma. – Disse Olavo Oliveira, entrando no escritório”), formando a famosa triangulação, é tipicamente extraída de filmes e novelas, sem acrescentar muita coisa ao embolorado esquema.

    GRAMATICIDADES

    Não consegui entender o motivo pelo qual os substantivos “Maio”, “Sol”, “Sábados”, “Domingos” e “Segunda” foram grafados com inicial maiúscula.

    No trecho “[…] a mulher falou, tirando as luvas, num tom de quem está acostumado a dar ordens […]” o correto seria ACOSTUMADA.

  18. Anorkinda Neide
    26 de abril de 2015

    Olha, teve tanto tanto tanto texto que tema traição fico ofuscado.
    Claro que todos já lhe parabenizaram pelo empenho, pela dedicação.. se vê que és fã de Xerox Holmes (nunca mais falarei o nome correto…kkk) e tb de House, acredito, pq ficou uma mistura dos dois personagens na personalidade do detetive…rsrsrs (meu filho que me deu essa opiniao , na verdade 😛 )

    Na real, achei cansativo demais… li por partes, um pedaço a cada dia..rsrrs mas mais pro final me interessou mais. O texto está bom, claro, mas pegou demais nas ironias sarcásticas, ficou sem graça, pra mim. Com exceção do final do penultimo capitulo, com a mulher sacando um chocolate…kkk rachei!!
    Por mim, poderia terminar ali..com um breve epílogo…mas o lance da doação pra prótese do rapaz me desgostou bastante, achei piegas ao extremo. rsrsrs

    Mas é isso.. parabens pelo empenho, pelo texto e pela criatividade.
    Abração

  19. Pétrya Bischoff
    26 de abril de 2015

    Ah, cara, nada a declarar além de que o conto está impecável! Durante todo o texto vislumbrei um Sherlock Robert Downey, Jr. pelas mãos e mente do próprio Sir Arthur. Está perfeito nas descrições, na narrativa, na escrita, na linha de raciocínio, nos mistérios, nos diálogos casuais. Só tenho que parabenizar o autor e desejar boa sorte!

  20. Gilson Raimundo
    25 de abril de 2015

    Uma excelente homenagem ao perspicaz detetive e seus fãs, maravilhosa sua adaptação e m terras brasileiras. Confesso, no começo foi entediante, meu caricato mas depois melhorou. Os casos se entrelaçando, as pistas desvendadas pareciam até escrito pelo criador do personagem, os diálogos as vezes misturavam conversas com opiniões, o que confundia um pouco. Achei que o grande deslise foi no trecho do “Último Jantar”, me pareceu novelesco demais, padrão mexicano de pastelão. Felizmente salvo novamente por um fim espetacular. Você soube muito bem explorar o tema, poderia ter criado um romance e olha que ainda poderia utilizar umas três mil palavras. Parabéns mesmo.

  21. vitor leite
    25 de abril de 2015

    muitos parabéns, gostei muito deste texto, está escrito com uma linguagem muito trabalhada, por quem sabe!, e a trama desenvolve-se de um modo muito interessante, que queres ler sempre o próximo capítulo para ver o que vem… surpreendente! muito bom e parabéns.

  22. Tiago Volpato
    24 de abril de 2015

    É inegável o que você construiu aqui. Não sei se você juntou isso tudo durante o desafio ou já tinha tudo mais ou menos pronto, só posso imaginar o trabalho que deu. O tamanho do texto pode ser um pouco intimidador, vou ser franco, só li porque tinha que ler e ainda fui pulando alguns parágrafos, não pelo texto em si, que está muito bem escrito, mas pela mídia que vos fala. Um texto desse tamanho na web é um pouco complicado. Acredito que se eu o pegasse impresso seria outros quinhentos. Enfim, você construiu uma história bastante sólida, com vários detalhes, sem falar em todas as imagens que você inseriu nele. Tá de parabéns.

  23. Leonardo Jardim
    24 de abril de 2015

    ♒ Trama: (5/5) difícil não dar a nota máxima. A trama foi toda amarrada do início ao fim. Sento como se estivesse lendo um conto do próprio Sir Arthur Conan Dolly. Não fosse o linguajar atual e a ambientação tupiniquim, ainda estaria com uma ponta de dúvida. Aliás, essa atualização ficou muito legal. Teve tudo o que um conto de mistério deve ter e com um toque de humor brazuca. Parabéns!

    ✍ Técnica: (5/5) muito boa. Peguei um ou dois problemas de pontuação que não tive tempo de anotar, mas nada grave. Ótimas metáforas, ritmo narrativo e diálogos afinados. Um trabalho de profissional.

    ➵ Tema: (1/2) então, é um conto de mistério com um toque de traição e não um conto de traição. Tenho seguido essa linha no desafio e isso tirou um ponto nesse quesito.

    ☀ Criatividade (1/3) não é a primeira vez que trazem o “maior detetive de todos” para o Brasil (Jô Soares já tinha feito) e o texto é mais um texto de mistério.

    ☯ Emoção/Impacto: (4/5) fiquei muito feliz com o resultado. Li toda a enorme extensão do conto com muita facilidade. Fiquei satisfeito em resolver o enigma “nível turma da Mônica” e gostei do final, embora tenha achado o drama do casal muito “novelesco”.

    Destaques:
    ● Gostei da referência do título (Um Estudo em Vermelho / Nunca fui Santa).
    ● Seu Xeróx (eu ri)

    ● Decifrando a primeira carta:
    “Tantas dúvidas afligem meu peito.
    Tantas agruras, angústias e anseios…
    Ela descobriu. Ela sabe.
    Os olhos… estão cheios de maldade.
    Sempre estiveram.
    Agora ainda mais.
    Certo, apenas meu amor por você.
    Ele sempre me é suficiente.
    Agora ainda mais.
    Sempre será…
    Te amo.”

    ● Decifrando a segunda carta:
    “Antes já vo avixano que essa e a última carta desse geito. As procima vai se normal e não vai se só pra você não…
    Seguinte: to grávida.
    E quero uma boa grana pra num fala nada pras revista nem pra patroa.
    Só aguardano… foi homi pra faxe, qrero ve se vai se homi pra assumi.”

    • Leonardo Jardim
      29 de abril de 2015

      Retificando: do próprio Sir Arthur Conan Doyle* (acabei sendo induzido pelo excelente trocadilho do pseudônimo rs)

    • Leonardo Jardim
      29 de abril de 2015

      Mais um: Senti* como (ah, corretor do celular)

  24. Fil Felix
    23 de abril de 2015

    Conto que prima pela boa escrita, não cansa (apesar do tamanho) sendo bastante leve, também (apesar de algumas palavras e/ou frases mais travadinhas). Por se tratar de mistério, também se destaca por deixar todas as pontas fechadas, sistematicamente. Desde o prato de pernil comentado no começo (e comido ao final) ao Jonatas, que ganhou a prótese. O modo como as personagens foram mostradas, principalmente as mais caricatas, também merece destaque, tudo bem teatral e com um certo alívio cômico.

    Masssss, e isso acho que todos vão comentar: o tamanho. Por mais que o limite sugerido tenha sido 50 mil, acho que a decisão por um conto tão longo no desafio foi bastante arriscada. Primeiro porque muitos podem simplesmente não ler, ou largar pela metade e comentar/ votar. Segundo, e acho que o mais essencial, acho que faltou um pouco de tato em relação ao desafio como um todo. Chega um ponto em que se torna um pouco…. cansativo, ler tantos textos (na base dos 40), e encontrar com um desse tamanho, desencoraja.

    No mais, gostei muto de como colocou imagens no meio dele, acho que nunca vi por aqui. Achei tendência.

    *Obs: num trecho, recomendo trocar “dois travestis” por “duas travestis”.

    • Fil Felix
      23 de abril de 2015

      Obs²: o título é muito bom kkkk amo esse estilo, me lembra do Nelson Rodrigues (Viúva, Porém Honesta) ou de filmes como Matou a Família e Foi ao Cinema.

  25. Carlos Henrique Fernandes Gomes
    22 de abril de 2015

    Que pessoa generosa! 50.000 palavras! Graças à Deus, Buda, Alá e Iemanjá esse presente caiu nas suas mãos! Muito obrigado por me proporcionar deliciosa leitura! Quando precisar de serviços confiáveis nesse ramo, já sei onde procurar; é só pegar o metrô e em meia hora estou lá!

  26. Cácia Leal
    21 de abril de 2015

    Puxa!!! Quase 20 mil palavras é um pouco exagerado para um conto, vc não acha? Deu cerca de 55 páginas de word! Isso dá quase um romance (ou novela, dependendo de sua definição para romance). E, texto grande reuqer comentário igualmente grane!
    De qualquer forma, a leitura foi prazerosa e fluiu bem, embora os diálogos tenham dado um ar cansativo demais. Vc escreve muito bem.
    Interessante as ilustrações, uma mistura de informação visual que colaborou bastante para uma boa e clara leitura.

    Por que vc não criou seus próprios personagens? Por que criar uma história de Sherlock Holmes? Talvez o conto merecesse personagens próprios. Está muito bom. Parabéns!

    Algumas observações: verifique o que vc escreveu na frase: “quando lhe chegavam às mãos apenas casos banais, que qualquer detetive com QI pouco acima de 150 poderia resolver com algum esforço”. O QI acima de 150 é de quase gênio!!! Acima de 140 é classificado como “superior superior”; o QI médio da população é de 100. Então, se vc desejava retratar uma pessoa não muito inteligente, deveria dizer que ela tem um QI de 90.
    Se essa Marie Janine não fala bem o português, a ponto de falar de si na terceira pessoa, ela não teria a capacidade de referir-se à traição como sendo “um par de chifres”. Isso soa artificial. Ok, ela é uma charlatã, mas acho que poderia ser revisto esse assunto. E, de qualquer forma, não entendi o porquê de essa mulher fazer parte da trama. Não serviu pra nada, poderia apenas ter sido mencionada, de leve, para mostrar que Holmes “escolhe” seus clientes.
    “por um momento fiquei em dúvida se eram saltos ou pernas-de-pau que ela calçava.” Calça-se pernas de pau (sem hífen, pois caiu em desuso com o novo acordo ortográfico, e, a propósito, mão-de-vaca e boca-a-boca também não levam mais hífen)?
    Adorei a descrição: “O Sol, que alegrara o céu durante toda manhã, foi encoberto por nuvens cor de chumbo, que borrifavam uma fina garoa sobre o concreto e trovejavam ameaças de tempestade iminente”.

    Suas notas:

    Gramática: 9
    Criatividade: 10
    adequação ao tema: 10
    utilização do limite: 10
    emoção: 9
    enredo: 10

  27. Marquidones Filho
    21 de abril de 2015

    Fiel ao estilo de escrita original de Conan Doyle de fato, além da interessante “adaptação” ou “fusão” com o ambiente de São Paulo, muito embora eu tenha sentido que algumas coisas tenham ficado deslocadas e sem sentido.

    A história é muito boa, como já disse, fiel às histórias originais, apesar de não ter lido muito. Devo confessar que não gostei mais por duas razões: ser uma adaptação e ser longo.

    Fora isso, é um ótimo conto. Suspeitas à parte, é um ótimo fanfic. Parabéns.

  28. Rafael Magiolino
    20 de abril de 2015

    Bem, vou ser sincero aqui. Sei que ainda é dia 20 e teria mais uma semana para ler, mas a questão é que não terei tempo de terminá-lo. Além de trabalhos acadêmicos, imprevistos me surgiram, tanto pessoais quanto no site que administro.

    Por isso comentarei o que li, que foi até a parte II. O autor pensou muito bem a respeito de uma história de Sherlock Holmes em um mundo alternativo. As descrições ficaram boas, assim como a escrita, e a ideia me remeteu muito a um enredo digno de Conan Doyle. Gostei muito da narração, ficando fielmente ao estilo compatível com a personagem.

    No mais, lerei o restante da noveleta mais para frente, quando tiver tempo de sobra.

    Abraço e boa sorte!

  29. Virginia Ossovski
    19 de abril de 2015

    Uau ! Sir Arthur ressuscitou e ninguém me falou nada ! Eu sou suspeita pra falar, adoro Sherlock Holmes, e esse conto ficou impecável ! Li quase tudo de uma vez, e fiquei roxa de inveja da habilidade do autor em ressuscitar Holmes e Watson com tanta maestria, criando uma trama mais que perfeita e digna deles. Meus parabéns !!

  30. mariasantino1
    19 de abril de 2015

    OZQZADMR ODKN SDWSN, ZTSNQ(Z)!

    Primeiro o momento descontraído (se sé que existe algo sério em minhas palavras). —>> O titulo sugere algo com a Marilim Moorone (pensei que seria algo relacionado com a primeira personagem), mas daí você nomeia uma cor de esmalte (eu ri disso). As mensagens criptografadas nível turma da Mônica dizem o seguinte: 1º carta >>>> Tantas dúvidas afligem meu peito/ Tantas agruras angústias e anseios…/Ela descobriu, ela sabe / Os olhos… Estão cheios de maldade/ Sempre estiveram/ Agora ainda mais/ Certo, apenas meu amor por você/ Ele sempre me é suficiente/ Sempre será…/ Agora ainda mais/ Te amo. >>>>> 2º cartinha com erros de concordância e grafia para mostrar o preconceito da Dona Martha em relação à Rosilene >>>>> Antes já vô avixano que essa é a ultima carta desse geito/ As procima vai se normal e não vai se só pra você não/ Seguinte: To grávida e quero uma boa grana pra num falar nada pras revista nem pra patroa/ Só aguardano… Foi homi pra faxê quero vê se vai sê homi pra assumi. >>>>> Muito legai isso, e só descobri pela posição da letra “e”,percebendo que ela está próxima do “d” então matei e fui “puxando” as demais letras do alfabeto deixando uma debaixo da outra, assim: A=Z,B=C, C=D, D=E, E=F, F=G… e assim sucessivamente — Sua letra manuscrita também dá spoiler (sei que sabe disso 😉 ). Imagino o trabalhão que foi escrever dessa forma, porque só pra colocar essa mensagem acima eu já me embananei toda. O amigo Briam Oliver Lancaster deixou uma mensagem também no texto dele no último desafio (Pecados Capitais), acho que vai virar moda e nem sei como o pessoal lá do grupo ainda não começou a falar assim com esse código (fora que eu acho que você vai responder pra todo mundo assim… Será divertido acompanhar isso). Enfim, respeito seu trabalho, seu esforço em arquitetar toda a estética com reportagens, Fotoshop e trama em si, com incremento do veneno e cuidado para não deixar os personagens sobrando. Não quero atrapalhar sua disputa com a minha (rasa) avaliação, então serei sincera como tenho sido, mas no quesito da nota, me vejo de mãos e pés atados não podendo dar nota menor que nove (09).
    Agora as impressões.

    Não entendo o motivo de se usar personagens já criados, de se fazer essa Fanfic tupiniquim (que não é ruim, pelo contrário, é boa). Vi sua crítica em dizer que só o que é de fora tem valor, mas, se você deseja mesmo saber minha opinião, os personagens criados por você aqui são ótimos, bem caracterizado, com boas tiragens (essa me fez gargalhar >>>> Tudo ia bem, até que a expressão “plantonista reserva” fosse trazida à baila. Daí ela foi embora[…]), ótimos diálogos e situações (algumas coisas não funcionam bem comigo, me irritam até, mas esqueçamos isso). Porém, como tais personagens já existem, muitas passagens foram medonhas, (com todo respeito). Nunca imaginaria o Watson como médico do SUS (embora a ideia seja boa), fora que as situações se repetem e ainda insere lições de moral nada sutis. Também não imaginei ele falando desse modo ou fuçando na net. Quando Jô Soares usou os mesmos personagens (ou eles ainda bem jovens) no “Xangô de Baker Street”, ele teve cuidado em inseri-los numa época de acordo com o decurso dos demais escritos da série, o que para mim é o mais correto, porque se respeita a criação do autor. Mas você mistura termos como alfaiate com Whatsapp causando um efeito de “mistura” que minha cabeça mole estranha e não consegue gostar (ainda, talvez). Se sente sim o clima de “Um estudo Vermelho” – Um dos meus preferidos –, e novamente deixo os parabéns pela competência e ousadia da ideia, mas por não conseguir me desvencilhar de certa rigidez, digo que seu escrito, sem ter qualquer referência aos personagens já criados, ou talvez com alguma justificativa para se usar os nomes deles, seria muito melhor. Conan Doyle os criou para ser ele mesmo, e vi a mesma coisa de sua parte, uma vez que o parceiro do Sherlock me pareceu o som da sua voz (e o que não é nas criações dos autores se não um pouco de si mesmo?). O desenrolar com a confissão da Martha Oliveira e aparição do Olavo me lembrou Agatha Christie (o que também é bom), mas descambou para um dramalhão com a confissão dela e depois o tom de drama retornou com o bom ato dos dois para se amarrar a personagem que estava sobrando (e disso, eu não gostei).

    Abraço!

    • mariasantino1
      19 de abril de 2015

      ops: Marilyn Monroe* Ah! O Dolly me lembrou aquele verdinho bizarro da net. KKK

  31. Jowilton Amaral da Costa
    19 de abril de 2015

    É um bom contão. Nota-se que o autor(a) é caprichoso. Pensei que o texto seria baseado no filme antigo Nunca Fui Santa, pesquisei e vi que não tinha nada a ver. O conto é bem conduzido, os diálogos são excelentes, e as deduções do Holmes são muito bem feitas. Boas sacadas, como a da carta criptografada que não foi traduzida para os leitores. Cada letra que aparece deve ser trocada pela letra que vem depois na ordem alfabética, o a é b, o b é c, o c é d, assim por diante. Achei uma boa trama, mas, a estória em si, o mistério, não me encheu os olhos. Boa sorte.

  32. Jefferson Lemos
    13 de abril de 2015

    Olá, autor(a)! Tudo beleza? Os dedos estão descansados de tanta digitação? hahaha

    Sobre a técnica.
    Não há o que dizer. É profissional. Pelo menos ao meu ver. Você soube amarrar a trama e revelar os segredos no momento certo. Eu já desconfiava da mulher, claro, mas o que aconteceu para chegar até o finalmente, agradou-me bastante.

    Sobre o enredo.
    Muito bom. A essência de Sherlock Holmes estava ali, bem visível, mas com um roupagem diferente, demonstrando a capacidade e o estilo do autor. Gostei do trocadilho do nome e de como ele foi inserido na trama. As colagens também ficaram muito boas, dando mais veracidade ao texto. Um trabalho e tanto e você saiu muito bem!

    Sobre o tema.
    Bom, o tema é comum, dá para se trabalhar muito bem e tudo mais… Mas o que deu na cabeça da pessoa que sugeria 50000 palavras para esse texto? Que loucura, cara. haha

    Nota.
    Técnica: 9,0
    Enredo:8,0
    Tema: 7,0

    Parabéns pelo ótimo trabalho e boa sorte no desafio!

  33. José Leonardo
    11 de abril de 2015

    Olá, autor(a). Há muito o que se falar do presente texto, mas pretendo não me estender além do necessário. Primeiramente, me espanta positivamente que, em tempo tão pequeno, você tenha arquitetado toda esta trama e desenvolvido sua ideia em aproximadamente 19 mil palavras (!) — mesmo se já estivesse parcialmente escrita antes do certame, isso não tira em nada o brilho. Mais duas considerações sobre o limite: 50 mil, em termos de conto, vejo como inaceitável (e agradeço ao autor pela sensatez de dispor seu texto “somente” em 19.000); e, quanto a descontar ou não na pontuação devido à extensão ou assemelhar-se a novela, não sou a melhor pessoa para fazê-lo, pois certamente quase nenhum conto que escrevo o é por definição ipsis litteris, portanto, minha nota não será influenciada pela extensão/classificação.

    Outra surpresa foi o rigoroso apuro ortográfico/gramatical. Não percebi erros, talvez raríssimos casos mais ligados à digitação. As subtramas foram sabiamente pensadas; os elos firmados às vezes por coisas minúsculas que (claro) não passam despercebidas pelo bom e velho Holmes e seu assistente célebre. Diálogos entre Holmes e Watson ocupam boa fatia do conto e são muito bons, bem elaborados em sua maioria. Preciso repetir: é extraordinário o esforço conseguido para amarrar a trama, os microdetalhes e tudo mais — além de ter uma escrita que não é simplista — em cerca de 20 dias. E as ilustrações? Sensacionais. Imagino quão trabalhosas confecções (ou manipulações de documentos publicados anteriormente), além das folhas manuscritas com poema e mensagens codificadas.

    No entanto, se me permite, traço outros pontos: o conto, se posto sobre um plano cartesiano, seria apresentado como uma parábola: a parte inicial não é tão boa como as seguintes (até o sotaque afrancesado ficou um tanto pedante…); da segunda à sétima, há crescimento e apogeu; mas nas duas últimas (falando como alguém que ficou sumamente empolgado com o enredo e esperava um desfecho digno ao esforço da elaboração dramática), uma queda considerável. Aquela motivação para os crimes, os quais extremamente bem pensados e arquitetados por você, Conan Dolly, ficou aquém, muito aquém. A entrada de Olavo na cena, hum… A discussão entre ele e a esposa se contrapõe quanto à qualidade do colóquio Holmes-Watson. Se bem que a filantropia da dupla inglesa pode redimir coisas…

    Finalizando, autor(a): é um conto extraordinário não somente pelo tamanho, mas pela trama delicadamente traçada e o paralelismo com o “real” Sherlock de Conan Doyle, seu xará, ainda que, a meu ver, contenha alguns importantes (ou seja, não descartáveis) poréns.

    Abraços e boa sorte neste desafio. Digo mais: EU JAMAIS ESCREVERIA ALGO TÃO BOM.

  34. Neusa Maria Fontolan
    11 de abril de 2015

    Bom… O que dizer sobre? Admirada por você ter elaborado em tão pouco tempo, diga-se de passagem, uma grande história onde as tramas não se perdem pelo caminho.
    Li aqui nesse mesmo desafio, contos ótimos, mas li também contos que por mais que eu tentasse não consegui chegar a informação que o autor quis passar.
    Parabéns, principalmente por sua determinação e capacidade de criar.

  35. Ricardo Gnecco Falco
    9 de abril de 2015

    Avaliação dos Aspectos:

    Gramática – 10
    Criatividade – 10
    Adequação ao tema – 8
    Utilização do limite – 10
    Emoção – 9
    Enredo – 10

  36. Brian Oliveira Lancaster
    8 de abril de 2015

    E: Foi absolutamente IMPOSSÍVEL não ler esse texto inteiro sem “ver” os personagens como Martin Freeman e o Cumberbatch, na fantástica série atual. Esta noveleta me parece ter sido escrita para alguma coletânea e por coincidências multidimensionais veio a calhar no tema e limite dado (devia estar a muito tempo arquivado, esperando por uma oportunidade dessas, tamanho empenho). Nota 10.

    G: Pode parecer injusto a comparação com outros textos deste desafio e tenho sérias dúvidas se o autor pegou um tema em que não se encaixava (muitos aqui pegaram um assim, me incluindo). Mas não posso e nem devo fechar os olhos à imensa habilidade do autor com o enredo e palavras bem colocadas, a fim de guiar o leitor pela estrada de tijolos amarelos de Baskerville. Adendo: não sei o motivo, mas detesto a palavra “elucubração” – enrola a língua e dar um ar de coisa imprópria. As trocas de ares/histórias dos personagens foram muito boas para o andamento do texto, afinal, é coisa pra caramba. Diálogos bem divertidos. De onde raios você conseguiu extrair aqueles jornais e criar uma conspiração em cima deles? Fantástico! Elementar! Nota 10.

    U: Essa frase do cap. 2 ficou estranha: “foi minha culpa não dado a atenção devida a esse fato tão importante.” E a última frase, na ânsia pelo término do texto, escapou um erro bem bobo, quase imperdoável vendo o cuidado com o restante “dor de barrida de proporções cataclísmicas”. Barrida? Putz, autor! Puxão de orelha master num texto desses! Mas não posso deduzir a nota APENAS por isso. Nota 10.

    A: Impressionante. Senti-me vendo um episódio da série Sherlock – e daria um belo episódio. Envie seu texto para o pai do Doctor Who. Nota 10.

    Vou inaugurar o fator “Arri” do Égua aqui, pois este texto exige: levei em conta todo o esforço dos autores, saindo de seus lugares-comuns, e dei notas de acordo com gostos pessoais e outras avaliações, levando em conta tamanho e empenho. Então não me sinto mal por dar um 10 bem redondo aqui (afinal, o de 200 palavras também mereceu esse 10). Cansa um pouco? Cansa. Mas compensa cada minuto.

    Média: 10.
    Tempo de Leitura: 1h

    • Brian Oliveira Lancaster
      13 de abril de 2015

      Se a chave para o texto não fosse o desenho da grávida, não teria descoberto que o código se baseava sempre na letra seguinte. Elementar, meu caro!

      —————-
      Carta 1:

      Tantas dúvidas afligem meu peito.
      Tantas agruras, angústias e anseios…
      Ela descobriu. Ela sabe.

      Os olhos… estão cheios de maldade.
      Sempre estiveram.
      Agora ainda mais.

      Certo, apenas meu amor por você.
      Ele sempre me é suficiente.
      Sempre será…

      Agora ainda mais.

      Te amo.

      —————-
      Carta 2:

      Antes já vo avixano que essa é a ultima carta desse geito.
      As procima vai se normal e nao vai se so pra voce nao…

      Seguinte: to gravida.

      E quero uma boa grana pra num fala nada pras revista nem pra patroa.

      So aguardano… foi homi pra faxe, quero ve se vai se home pra assumi.

  37. simoni dário
    8 de abril de 2015

    Incrível autor! Você foi sempre assim ou posso ter esperanças que vou aprender essa arte um dia? Espetacular, não tem outro termo melhor pra definir! A única coisa que não combina com a dupla de detetives (dos quais sou fã) é o cenário, mas que acabou ficando divertido e parece que era essa a intenção. “Seu Xeróx” ficou muito bom, dei gargalhadas quando li. Adorei o final, digno e criativo.
    Parabéns, um dos meus preferidos!

  38. rubemcabral
    7 de abril de 2015

    Ótimo conto! História bem-bolada, divertida e ágil. Bem escrita também; só vi umas besteirinhas: cafezinho (não tem acento), tem um “vista” que deveria ser “visto” e o “Ja” do alemão se escreve com “j”, ah, sendo bem chato: “Guten Morgen”, com “M”, pois todos os substantivos são escritos com maiúsculas em alemão, “holocausto” eu talvez escreveria com “H”, já que se fala do evento da 2a Guerra e não de outro holocausto qualquer.

    Achei muito criativo o uso das imagens e gostei muito das cartinhas cifradas, e já tinha sacado que a segunda era falsa. Inclusive o alfabeto da segunda inclui o KYW e o da primeira não, fora que não havia acentos na primeira.

    Parabéns!

  39. Ricardo Gnecco Falco
    7 de abril de 2015

    Muito bom, autor(a)! 😉
    Soube utilizar muito bem o (amplo) espaço que lhe foi concedido pelo proponente do tema e do limite para esta obra (aliás, se eu pego este louco que sugeriu 50.000 palavras para um desafio literário repleto de trabalhos a serem lidos e analisados… Acho que mando o dito cujo comer um daqueles chocolatinhos australianos da Sra. Oliveira!)
    Além da gostosa sensação de percorrer uma inusitada rota situada ali entre uma Londres antiga e uma São Paulo atual (com base na boa sacada dos nomes dos personagens principais e do linguajar utilizado), existe todo um frescor narrativo que fizeram estas duas horas valerem (e muito!) a viagem!
    Parabéns pela obra!
    O Watson (gostei mais de Wallyson!) traduz com maestria (e mão firme, de médico!) a voz do narrador/autor e é facilmente acolhido pelo leitor. Sua relação com o “seu Xeróx” (ri muito aqui!) ocorre de forma quase que simbiótica. Ou seja, a história ficou com uma dupla de protagonistas fenomenal.
    E, o mais surpreendente foi a primazia do trabalho; o cuidado com a revisão (das milhares de palavras, só encontrei um – UM!!! – descuido. E ainda muito provavelmente erro de digitação apenas. Aqui: “— Imagino que o “amplamente noticiado” tenha sido uma nota de rodapé no caderno de Economia… mas tem razão, Holmes, foi minha culpa não dado a atenção devida a esse fato tão importante.” –> acho que faltou um “ter” antes do “dado”).
    Isso sem falar na coragem de assumir uma missão dessa tendo tão pouco tempo para criar (e escrever MUITO). Parabéns de novo!
    As inserções ilustrativas também deram um brilho ao trabalho (você fez montagem no photoshop, ainda por cima?!?!?), provando que assumiu este desafio como um guerreiro ao estilo Mel Gibson de azul! Se me permitisse assumir por alguns instantes a personalidade de seu protagonista, diria até que você não trabalha; ou no mínimo é funcionário público (ok, ok, baixou um pouquinho do preconceito da Sra. Schlesinger agora); pois haja tempo para criar tanto assim!!! (PS: copiei e colei o nome da Sra. Schlesinger – de novo!. Definitivamente, o porteiro do prédio não pode ser culpado pela hesitação em – tentar – pronunciar tal nome. Aliás, voto na criação de uma lei contra o pronunciamento de palavras em alemão no Brasil. Principalmente, de nomes de jogadores de futebol da seleção daquele país…).
    Tenho um amigo (que de vez em quando escreve por aqui também) que iria adorar ler este trabalho; pois, adora este estilo de história e escrita. Então, se você autor(a) não for o Rodrigo Magalhães, vou mostrar seu trabalho para ele!
    Bom… Posso ficar escrevendo aqui até chegar perto das 19.000 palavras, mas jamais o faria com tamanha qualidade como você. Então, fica aqui mais um Parabéns(!) e um enorme e imaginário “jóinha” estilo WhatsApp (na velocidade 5 do crééééu, como o Sr. Sherlock fez no celular da cliente).
    Gostei bastante!
    Um abraço,
    e boa sorte no Desafio!

    Paz e Bem!

  40. Claudia Roberta Angst
    7 de abril de 2015

    Fui a primeira a ler este conto. Talvez não a primeira a comentar, mas a primeira a enfrentar este conto gigante. Projeto de romance?
    Bom, devo dizer que gostei da leitura, mesmo sendo demorada. Como conto, eu cortaria algumas passagens como, por exemplo, a rotina de trabalho do Watson.
    O conto está bem escrito, com passagens bem divertidas e inteligentes. Sou fã de Agatha Christie e Conan Doyle, então gostei da narrativa.
    Citar Nietzsche quase no final, provocou em mim curiosidade e logo depois uma certa frustração, dado o peso digamos machista “a felicidade do homem é o ‘eu quero’, enquanto a felicidade da mulher é o ‘ele quer’”, E olha que eu gosto do filósofo bigodudo.
    Pouca coisa escapou à revisão, o que é um grande mérito devido ao tamanho deste conto. Acho que vi “papéis” sem acento e um verbo no infinitivo no lugar errado.
    O final achei meio melodramático. não sabrinesco, mas uma versão de Maria do Bairro. Além da quase santificação dos dois personagens, doando a prótese para o filho de Dona Iara. Aliás, “Seu Xeróx” me fez rir.
    Por fim, gostei do conto, das imagens manipuladas para ilustrar a narrativa e não poderia nunca dar uma nota baixa depois de presenciar um trabalho extenso assim, bem realizado. Boa sorte!

  41. Alan Machado de Almeida
    5 de abril de 2015

    Sherlock Holmes é britânico , certo? Acho que o governo não poderia conter o dólar, pois é moeda de outro país. Atente para esses detalhes. Gostei da ironia do “qualquer detetive com QI pouco acima de 150 ” 150 é um QI alto e me fez pensar o quanto a personagem / escritor (revelado depois como Watson) era inteligente intelectualmente ou estava cercado de pessoas com QI elevado (o decorrer da leitura me fez ficar com a segunda opção). Gostei do surto inusitado de Sherlock e do diálogo com um pouco de humor entre Sherlock e Watson.

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Publicado às 5 de abril de 2015 por em Multi Temas e marcado .