EntreContos

Detox Literário.

Ela (Rafael Cruz)

Estou no meio da madrugada e não consigo fechar os olhos e simplesmente dormir. Sinto-me exausto, mas sem sono, e eu sei que o que me impede de relaxar completamente está aqui do meu lado.

Ela.

Ela dorme como um anjo, mas sabe que está longe de ter auréolas. Pelo contrário, mulher-diabo como Ela existe por aí aos montes, sempre levando para perdição aqueles que são sortudos o bastante, ou tolos o bastante, para se afogarem naquelas águas. Em seu rosto, um sorriso cansado e satisfeito de uma noite de luxúria que a consumiu do início ao fim. Claro, não deixo de pensar que, se ela quisesse, estaria de pé novamente, pronta para outra rodada infernal de gritos, arranhões e suspiros.

Ela é linda, mas é perigosa. Machuca. Mata. Mas mata de prazer, o que é bem pior do que uma morte comum. Você já imaginou coisa pior do que desejar morrer de prazer? Você pede, implora, faz de tudo, e, no final, você permanece lá. Vivo, com um sorriso bobo no rosto e uma lembrança que desafia a sanidade. Essa noite foi assim. Achei que seria uma noite qualquer num bar qualquer, como é de costume. Ela chega, linda e atrasada, como sempre, e eu já estou na segunda lata, como sempre. Resolveu sentar-se à minha frente, ao invés do meu lado. Seus olhos brilhavam exibindo uma paz que engana a muitos, mas não a mim. Embora uma mecha de cabelo esteja destacada caindo para frente, Ela está com o cabelo preso, amarrado atrás da cabeça, o que é algo novo, mas não deixa de ser bonito.

Ela me olha e sorri, abaixando a cabeça para o próprio colo. Dissimulada, finge vergonha da forma como eu a devoro com o olhar, mas está adorando. Não está usando nada decotado, e faz isso justamente porque sabe que eu me perco nos seios dela. Maldita. Venenosa, ela elogia minha aparência e brinca sobre o meu cabelo, armado e bagunçado de uma forma que chega a ser até atraente para se olhar. Eu emudeço e agradeço o elogio disfarçado. Caí no seu bote e ela sabe, e se prepara para o abate. Conversamos, rimos, sorrimos e brincamos e a noite foi caminhando despreocupada pelas ruas da Lapa. Ela está bem feliz, e isso é verdadeiro. No fim da noite, no fim da bebida e da comida, estamos ambos admirados e tranquilos com a fluidez daquele encontro. Encontro esse que demorou a sair, pois eu sempre recebia um não, mesmo que, às vezes [muitas vezes], partisse da minha própria insegurança em não convidá-la. Que importa agora?

Chamo um táxi e antes de dizer o endereço ao motorista, sou puxado pela camisa e recebo uma sugestão/convite para um lugar bem mais interessante. Demoro alguns segundos até associar o nome do lugar e percebo que ela já tinha tudo planejado desde o início. O táxi começa seu trajeto e ela me beija como uma mulher que se finge de virgem, mas que tem anos de experiência. Seu beijo é lento e cadencioso, e cresce como um movimento rápido de valsa. Nunca havíamos nos beijado, então há algum tempo até acertarmos o compasso. Sua língua baila um tango apaixonado enquanto a minha sapateia dança de salão. Acho que chegamos num acordo com um zouk bem provocativo. Que seja. Tanto faz. O beijo é atrapalhado pelo movimento do carro, mas isso não nos incomoda muito. Minha mão engatinha por sua perna, tentando limpar o vestígio algo vestido bonito qualquer. Ela é mais rápida e, num movimento certeiro, ameaça puxar o zíper da minha calça.

Apenas ameaça, mas não faz.

Eu fico louco.

Por cima da calça, sua mão acaricia um pênis que grita por ação e que endurece de uma forma tal que parece exalar vontade própria. Minha mão direita voa naquele seio formoso de tamanho médio, que só tem como bloqueio uma blusa estampada branca, fina, que é espetada por um par de mamilos pequenos, mas igualmente bem despertos.

O táxi para. Ela me olha. Seu rosto me hipnotiza e eu vejo a perdição em forma de mulher. Ela batalha na minha cabeça uma dominação que eu não sei nem ao menos manejar a arma. Perco a luta. Perco, e, pior, perco feliz. Saímos do carro e no instante seguinte, estamos entrando no quarto do motel. Cama bonita, cômodo bem arrumado, espelho no teto, hidromassagem. Sinto cheiro de menta no ar e verifico que existe vinho acompanhado de duas taças numa bandeja. A mulher não pestaneja e tira as sandálias enquanto caminha para a cama. Joga a blusa de lado, no chão, também. Solta os cabelos, que correm pelas costas nuas, e apontam para uma saia longa bonita, que está prestes a ser arrancada por mim.

Mas, não. Ela não me deixa retirar sua saia. Pelo contrário: vira-se de costas para mim e abaixa a peça de roupa, revelando uma bunda que… cara… que bunda. É redondinha e, para bom observador, é possível presumir alguma academia regular. Ela permanece de costas para mim, me olhando pelo espelho próximo à cama. A feição é séria e os cabelos são arrumados para bloquear a visão maravilhosa daqueles seios nus. Então eu me aproximo por trás dela. Minha mão desliza pela sua cintura e para em sua barriga. Pressiono um pouco e a puxo para trás, enquanto a outra mão move-se para o peito esquerdo. Ela gosta. Em poucos segundos, está puxando o meu zíper da calça e manejando meu pau como se fosse um brinquedo. Beijo-lhe o pescoço alternando entre mordidas leves enquanto a pressiono com a mão direita e Ela empina a bunda suavemente. Por um instante, nos olhamos pelo espelho.

Ela tá desejando isso do fundo da alma. Eu também.

Conduzo seu corpo quente em direção à cama e ela não precisa de ajuda para ficar de quatro. Abaixo e, com dois dedos, retiro parcialmente a calcinha dela, que revela uma vagina que transbordava tesão. Eu estava longe de estar calmo, mas queria aproveitar cada momento. Passei um dos dedos por aqueles lábios molhados, seguindo em direção ao clitóris. Quando o encontro, sinto sua respiração vacilar por um segundo, o que é um ótimo sinal. Não há música no quarto e os únicos sons no momento são nossa respiração… e os gritos da mulher no quarto ao lado. Parecia estar bem selvagem ali. Meus dedos estimulam o clitóris dela como se tocassem algum aparelho divino, com precisão cirúrgica. Era algo que eu sabia fazer, e fazia bem. Então eu aproximo a língua. Começo a lamber, morder, puxar, chupar aquela vagina como se não houvesse amanhã. Talvez não houvesse mesmo, então eu teria aquela boceta de qualquer jeito, esta noite. Ela geme de leve e tenta segurar o meu cabelo, sem muito sucesso. Eu sei que ela queria que eu fizesse mais rápido, mais forte, mais fundo, mas eu estava só começando, então não havia pressa.

Ela move o quadril no meu compasso e, depois de algum tempo, cai para frente, com as pernas abertas. Eu não desperdiço tempo e não desgrudo a boca daquela fenda vigorosa. Eu parecia lamber como se fosse mel. E eu amo mel. Minhas mãos permanecem dedilhando como um guitarrista solando o seu próprio réquiem. As mãos dela, no entanto, prendem-se à cama e sua boca exala um “vai” que entra nos meus ouvidos e explode no meu peito. Eu retiro por completo sua calcinha e ela se vira de lado, me colocando entre suas pernas. Safada. Uma das minhas mãos se vê livre, mas logo se ocupa de penetrar aquele cu. Meu trabalho é triplo – que trabalho, aquilo é prazer – meu prazer é triplo. Eu já não respondo por mim. O calor entre suas pernas é infernal, sua respiração é forte e ela segura meu cabelo e me puxa como se sua vida dependesse disso. Seu quadril se projeta para frente e ela solta um suspiro que se prolonga num grito não muito alto, enquanto eu sinto uma força pressionar minha língua e meu pescoço. Ela goza e goza com gosto. Tenta abrir os olhos para ver a si mesma explodindo na minha cara, mas não consegue. A força é potente demais. Seus olhos se mantêm fechados e um sorriso surge revolto em seu rosto. A respiração vai voltando ao normal, mas bem devagar. Eu vou diminuindo a cadência, porque ela precisa respirar.

Eu também.

Ficamos naquela posição por algum tempo e eu percebo que tem um pouco do meu cabelo em seus dedos, o que é novo para mim. Ela não demonstra querer sair daquela posição, então eu espero… e depois sento na cama, ao seu lado. Ela não me olha. Sua mão esquerda repousa na minha coxa esquerda. Vou até ao banheiro e lavo o rosto, e aproveito parar molhar um pouco o cabelo. Bagunçado do jeito que tá, só vai servir para ela se segurar. Então eu vou para a cama e, no caminho, percebo que Ela já está se servindo de vinho. Encheu sua taça e já está enchendo a minha. Me olha e ri baixinho, arrumando o cabelo por trás da orelha. Entrega minha bebida, brindamos e bebemos em goles rápidos. Fome. Sede. Ela vai até o banheiro e fecha a porta. Eu vou para cama e sento na beirada.

E espero.

Ela retorna com um ar renascido. Aproxima-se de mim, e me dá um beijo enquanto me masturba de leve, ainda de pé. E então ela senta no meu colo. Lentamente, está sentando de frente para mim, e se arrumando para aproveitar cada centímetro daquele pênis que adentra seu corpo. Não há o menor sinal de incômodo. Suas pernas cruzam-se atrás de mim, e uma das suas mãos prende-se ao meu cabelo e outra, às minhas costas. Aí ela começa. Devagar, rebola e serpenteia como uma odalisca. Seu olhar se mantém fixo no meu. Devagar, e depois mais rápido. Mais forte. Querendo que eu vá mais fundo. Ela tenta me beijar, mas seu próprio movimento a impede de fazer isso de forma certa. A boca ou o pau, ela deve pensar. É claro que escolhe o pau. Suas unhas encontram a pele das minhas costas e me arranham daquele jeito que todo bom amante sabe como é. Minha mão direita faz o mesmo movimento nas costas dela, enquanto a esquerda puxa sua cintura com força. Com mais força. Ela encosta sua testa na minha e ambos olhamos para baixo, maravilhados com aquele movimento de prazer. Ela me aperta como se quisesse que nossos corpos se fundissem num só. Não vai rolar, minha querida, mas você pode tentar, com certeza. A respiração se transforma em suspiro. O suspiro revela um gemido. O gemido se prolonga num grito e o grito se encerra num gozo. Ela grita e puxa meu cabelo para baixo, me fazendo olhar para cima e ver a nós mesmos afogados naquele mar de sexo. Ela também olha para cima, extasiada novamente naquela noite e eu, que já estava chegando ao meu ápice, não resisto àquele olhar, àquela boca aberta. Meu peito pega fogo, e fogo escorre como lava pelo meu pau.

E ficamos ali. Assim.

Imóveis. Acho que o tempo parou também, não sei. Não me importo.

Em um segundo morremos abraçados, apenas para retornar à vida num gozo compartilhado.

Não lembro bem o que aconteceu depois, mas nos deitamos. Sei disso. Estou no meio da madrugada e não consigo fechar os olhos e simplesmente dormir. Sinto-me exausto, mas sem sono, e eu sei que o que me impede de relaxar completamente está aqui do meu lado.

Ela.

7 comentários em “Ela (Rafael Cruz)

  1. Rafael Cruz
    5 de março de 2015

    Agradeço, de verdade, os comentários, mas ainda não pude respondê-los, por excesso de trabalho e outras questões pessoais. Mas eu prometo que respondo todos com o maior cuidado, logo assim que der.

    Já adianto que, sim, é um texto livre de qualquer amarra emocional, a não ser aquela criada pelo escritor e o texto. É um tipo de conto que eu não costumo escrever, mas que foi gerado por outras duas ou três experiências [contos mesmo] que gostei.

    Não pretende ir muito além do casual, mas pretende melhorar de técnica, com certeza. Agradeço os feedbacks. 😀

    De qualquer forma, obrigado mesmo pela leitura e pelos comentários e logo em breve eu retorno respondendo a cada um. Abraços.

  2. Leonardo Jardim
    3 de março de 2015

    Pois estão, quando terminei de ler, fiquei com a impressão de que faltou alguns coisa.

    No final das contas, o conto trata apenas de uma descrição de uma cena de sexo. A cena em está boa e bem descrita, embora tenha ficado um pouco cansativa do meio para o final. Na verdade, a parte mais excitante do conto é antes do sexo começar, porque depois acaba caindo em alguns clichês de contos eróticos (creio que seja complicado fugir muito).

    No fim, esperava que algo mais tivesse acontecido, algo que marcasse mais.

    Li os comentários dos colegas e concordou com o que disseram, na verdade explicaram melhor o que faltou.

    Continue escrevendo, lendo e aprendendo.

    Grande abraço!

    • Leonardo Jardim
      3 de março de 2015

      faltou *alguma* coisa
      *concordou* com o que disseram

      Como só tenho conseguido ler e comentar no celular, esses erros são infelizmente inevitáveis 😦

  3. Anorkinda Neide
    2 de março de 2015

    Eu li um dia desses e não comentei… o autor está lendo os comentários? kd vc, autor? hehehe

    Vc escreve bem, parabens.
    Mas o conto é pornográfico e ponto. É isso?
    Então tá..hehehe
    Não tenho costume de ler os pornôs, não tem nada além da descrição da transa? humm q pobreza.
    Aconteceram ae duas transas com um cara inexperiente. e ponto.
    Não entendi pq ele considera Ela tão perigosa (esperei ver algo incrivel acontecendo no sexo, mas nem…) então o caso é a penas a inexperiência mesmo dele…ou ele é evangélico? então acho q isso deveria ficar claro no texto… como o titulo assim: a primeira noite de um homem…hehehe
    teve um lance de q eles se encontravam já a bastante tempo e nunca tinham ido pra cama, pq? desenvolva…
    hehhe

  4. Fabio Baptista
    1 de março de 2015

    Fala, Rafael!

    Então, concordo com muitos pontos mencionados pelo Sidney.

    O que mais me incomodou foi a falta de uma noção exata de tempo. Ora parecia ser narrado no presente (e não estou me referindo às intervenções no início e no fim, com ELA já deitada dormindo), ora num passado super-recente (como era o caso, certo?) e outras vezes num passado remoto.

    Acho que o conto ficaria melhor se narrado num passado remoto. Tipo um sujeito amargurado relembrando a melhor foda da vida, ou algo assim. Dessa forma que foi colocado, ficou parecendo um virjão que nunca tinha visto a parada ( (|) ) e se apaixonou logo de cara. Não teve aquele impacto de “pqp, de todas as mulheres que passaram pela minha vida, ELA foi a que nunca esqueci”.

    Acredito que se o conto seguisse essa linha, meio Whatsername (Green Day) teria um impacto maior.

    As cenas de sexo são descritas à contento, embora meio exageradas algumas vezes. A comparação com mel, por exemplo, achei bastante inadequada.

    No geral, o conto é quase um filme pornô: um encontro ao acaso, sexo, e uma mínima reflexão permeando todo o enredo.

    Não gostei.

    Abraço!

  5. Sidney Muniz
    27 de fevereiro de 2015

    E aí Rafael, beleza?

    Bom, meu caro, o conto erótico é interessante mesmo com as idas e voltas, que a mim soaram um pouco cansativas, mas para o casal deve ter sido bem prazeroso, certamente.

    Eu senti que algumas descrições foram boas, outras um não me agradaram tanto pela maneira menos polida (e quem disse que sexo tem que ser polido, não é mesmo?) mas bem, eu por exemplo ao ler um cara que gosto muito com relação a esse tipo de cenas, que é o Jô Soares, não sei se já leu algo dele, mas curto muito a forma como ele trabalha as cenas de sexo, não fica polido, tampouco repleto de palavras mais pesadas ( em alguns momentos penso que a palavra “pau” ser substituída ou simplesmente alguns trechos do conto não necessariamente precisariam estar aí. Não sei, eu que sou chato mesmo. Algumas cenas repetidas demais me tiraram o foco da narrativa. Talvez por culpa minha.

    revelando uma bunda que… cara… que bunda. – Acho que esse trecho, esse “cara” quando intercala com o leitor de maneira mais explicita acabou ficando fora da narrativa.

    sua respiração vacilar por um segundo, o que é um ótimo sinal. Não há música no quarto e os únicos sons no momento são nossa respiração – Cuidado com algumas repetições, nesse caso respiração, mas a outras que senti não serem propositais, já que num texto como esse, devido a intensidade da narrativa essa pode ser uma ferramenta utilizada.

    Começo a lamber, morder, puxar, chupar aquela vagina como se não houvesse amanhã. Talvez não houvesse mesmo, então eu teria aquela boceta de qualquer jeito, esta noite – Há algo com relação ao tempo, uma indefinição, “essa noite, aquela noite… em alguns momentos senti que o autor se perdeu um pouco nesse ponto.

    Ela tenta me beijar, mas seu próprio movimento a impede de fazer isso de forma certa. – Achei essa passagem muito bem sacada. Deu para visualizar a imagem.

    extasiada novamente naquela noite e eu – aqui você colocou “naquela noite” – só para ilustrar.

    Bom, é um conto que com um pouco mais de trato, não necessariamente de sentimentos, mas quem sabe se nos passar mais as sensações algumas vezes, sem que isso só seja processado com as palavras “gozo” “gozei” etc… é por aí, se é que me entende. Acho que o texto pode causar mais.

    Um forte abraço e parabéns pelo talento que se evidencia em muitos trechos da narrativa.

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Informação

Publicado às 27 de fevereiro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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