EntreContos

Detox Literário.

Max (Fabio Baptista)

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Max começou a correr, assim que ouviu o barulho da coleira. Com as patas desgovernadas pela euforia e uma profusão de unhas riscando o chão de cimento, acelerou na direção de Renata. Estancou ao chegar perto da dona, ficando imóvel por alguns segundos, como o cão de caça que não era. Em seguida, entregou-se aos latidos esganiçados, ao rabo balançando invisível igual asa de beija-flor e aos saltos estilo “golfinho ligado no 220”, como o vira-lata que era.

— Calma, Max… CALMA! – Renata ordenou, sem muito sucesso, enquanto finalmente conseguia fechar a tira de couro ao redor daquele pescoço que não parava de se mexer. – Isso… agora vamos dar uma volta.

Max tomou conta do banco do passageiro tão logo entrou no carro. Gostava de ir com a fuça na janela, com língua de fora e tudo mais que tinha direito, sentindo o vento bater forte nas orelhas. Ali, encerrado naquela casca de noz metálica financiada em 36 suaves prestações, sentia-se – do jeito primitivo, mas não menos intenso que os cães podem sentir – o rei do espaço infinito. A criatura mais feliz de todo o universo. No assento do motorista, Renata encarava a estrada, com a alma perdida em algum lugar do horizonte. Não parecia alegre como das outras vezes em que saíram para passear.

— Vem, Max…chegamos. – A moça falou em um longo suspiro, depois de puxar o freio de mão.

Era um lugar cheio de árvores, flores, capim alto e borboletas amarelas, difíceis de pegar. Max deslumbrou-se com os novos aromas e, principalmente, com a liberdade de um chão macio. Correu ao redor da dona, pulou e correu de novo. Embrenhou-se no mato, atrás de um passarinho que só conseguiria alcançar se criasse as asas que às vezes sonhava ter. Ficou tão entretido na caçada que voltou apenas depois de ser chamado pela terceira ou quarta vez. Farejou com alegria a ração que Renata tirava da mochila e despejava à sua frente, junto a um pote d’água enchido com uma daquelas garrafas transparentes com que gostava de brincar. Sentiu as mãos daquela que sempre lhe deu carinho deslizando em suas costas e tentou retribuir o amor, com uma lambida bem babenta.

Então percebeu que estava preso.

Renata disparou em direção ao carro, secando as lágrimas, sem olhar para trás. Max demoraria a perceber que ela jamais iria voltar. Mais tarde ele se lembraria – do jeito rústico, mas não menos dolorido que os cães podem lembrar – da primeira noite em que ficou longe da mãe. E uivaria, com a mesma tristeza amarga que uivou ainda filhote, sentindo-se abandonado numa caixa de papelão fria no fundo do quintal.

Amarrado àquela árvore, Max permaneceria até morrer de fome. Ou, talvez, até que os dentes e o desespero o livrassem do cárcere e o olfato tentasse conduzi-lo de volta para casa, encontrando a estrada depois do matagal e lá, a roda de um caminhão. Talvez.

Longe dali, o peso na consciência de Renata pouco a pouco cederia espaço ao alívio de não ter que ouvir Ricardo resmungar todo santo dia que o dinheiro dele não era “pra ficar sustentando cachorro”. Com o passar do tempo, convenceria a si mesma que a vida em meio à natureza seria de alguma forma benéfica ao cão, ou que alguém haveria de ter passado por lá e adotado Max, lhe dado banho, carinho, um novo nome e uma criança sorridente, de quem seria o melhor amigo pelos próximos vinte anos.

Em seu íntimo, cravaria a certeza de que havia agido da melhor forma e ficaria bem.

Ao menos até o marido eleger outro culpado pelo dinheiro que nunca sobrava o suficiente no final do mês.

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23 comentários em “Max (Fabio Baptista)

  1. Neusa Maria Fontolan
    5 de maio de 2015

    Tadinho…

  2. Claudia Roberta Angst
    6 de março de 2015

    Não goste, não gostei, lalalaa… Cantando para apagar a imagem do cãozinho abandonado. Não que eu seja uma defensora ativa dos animais, ainda prefiro que poupem as criancinhas, mas… O que me chocou foi ele ficar ali preso à árvore. Se fosse abandonado livre ainda vá lá. Tudo bem, fazer o quê, né? Manda logo o conto sobre o idoso maltratado, sufocado pela maldade de um neto entediado. Tô esperando qualquer coisa de você, agora.
    Bom conto. No entanto, prefiro os seus outros contos, mesmo odiando cada vez que tenho de admitir gostar de cada um deles. 😛

  3. Anorkinda Neide
    2 de março de 2015

    óooo um conto pequeno! Legal! 🙂

    Gostei, principalmente do tom inocente do conto todo, oferecido pela visão do cachorrinho. que dó! hehehe

    parabens, FB! 🙂

  4. JC Lemos
    28 de fevereiro de 2015

    Que tenso, cara!

    O conto é curto mas se sobressai pela qualidade. Em tão pouco espaço, você conseguiu estampar as emoções no texto, causando ódio e remetendo a situações do mundo real. Não gosto de maldades com cachorro, e a descrição de toda essa inocência me fez ficar mais mal ainda.

    Certamente você é um autor e tanto, cara. Consegue fazer bonito com muito pouco, e consegue comover. Boas ou más sensações, o importante é que vocês as causa. haha

    Abraços!

    • Fabio Baptista
      28 de fevereiro de 2015

      “Se chorei ou se sorri…” kkkkkkkk

      Valeu, JC! Acho que esse conto teve uma pegada meio “Vento que Passa”.

  5. mariasantino1
    27 de fevereiro de 2015

    Oi, Fábio!

    Li o conto antes, mas cheguei agora em casa. No fundo, no fundo eu imaginei que você ia pregar uma peça, mas achei gostosa a leitura de verdade. Baseado na foto e na descrição que você faz, até se escuta os ganidos e o arranhar dele aqui pertinho. Toda as descrições são bonitas, o rabinho agitado, a grama fofa sob as patinhas, a lambida babenta… Só não curti a corrida depois do abandono dele, queria mais.
    Abraço!

    • Fabio Baptista
      28 de fevereiro de 2015

      Pô, Maria… estou ficando meio previsível, né? Qualquer conto que eu posto (mesmo aqueles com foto fofinha) o pessoal já acha que tem maldade envolvida… kkkkkkk

      Vou mudar isso no próximo! Não vou pregar peça nenhuma no final 😀

      Valeu pela leitura (e por indicar o conto à Eliane!).

      Abração.

  6. Leonardo Jardim
    27 de fevereiro de 2015

    Gostei do conto. Curtinho e emocionante. Gosto muito de cachorro e tenho certeza que eles são muito mais espertos que muitos acham. Fora que praticam amor sem interesses como nenhum ser humano consegue.

    Não consigo entender como alguém consegue fazer maldade com um cachorro e se convencer de que “era só um animal”. Maltratar animais deveria ser hediondo como se fossem crianças ou idosos!

    Desculpa o comentário, mas essa foi a forma de expressar que o conto conseguiu seu objetivo.

    Parabéns, Fábio. Assim como os contos do Rubem, os seus sempre me agradam. Abraço.

    • Fabio Baptista
      28 de fevereiro de 2015

      Valeu, Léo!

      Como diz a Claudia, eu já não poupei as crianças, nem as meninas bonitas. Agora nem os cachorrinhos… kkkkkk

      Só falta um conto com idoso pra completar a lista de coisas que cutucam a ferida. 😀

      Grande abraço!

      • Claudia Roberta Angst
        6 de março de 2015

        Poxa, especializando-se na maldade!:(

  7. Eliane Verica
    27 de fevereiro de 2015

    Oi Fabio, por indicação da Santino vim ler seu conto e poxa… eu aguento todo tipo de história mas com cachorro é covardia kkkk. Gostei bastante da forma com que vc descreveu os pensamentos do cãozinho, na minha humilde opinião, o conto tá perfeito assim. Abç!

    • rsollberg
      28 de fevereiro de 2015

      Faço Coro, Eliane! Jogo baixo, sorrateiro.

      • Fabio Baptista
        28 de fevereiro de 2015

        É uma cilada, Bino! kkkkkkkk

    • Fabio Baptista
      28 de fevereiro de 2015

      Muito obrigado pela leitura, Eliane! Fico feliz que tenha gostado.

      Realmente esse negócio de mexer com cachorro é golpe baixo, cutucar a ferida!

      As lágrimas que foram derramadas em “Marley e Eu” e “Sempre a seu lado” que o digam! 😀

  8. Fabio Baptista
    27 de fevereiro de 2015

    Opa!

    Rubão, Sollberg, Sidão! Agradeço pela gentileza da leitura e do comentário.

    A primeira versão de “Amigos para Sempre” ficou com 1.350 palavras e não achei que conseguiria reduzir, então escrevi esse conto do Max, como “plano B” para o desafio dos pecados capitais.

    Acabei conseguindo chegar às 1.000 palavras em “Amigos para Sempre” que considerei um candidato mais forte no certame.

    Acredito que nesse aqui, apesar do aspecto emocional, perderia alguns pontos por enquadramento ao tema, pois provavelmente nem todos captariam a avareza como o grande mal por trás de toda a desventura do pobre Max.

    Abraço!

    • rubemcabral
      28 de fevereiro de 2015

      Pois escolheu bem! Este conto (MAX) é bonito e redondinho, mas não é páreo para o Amigos para sempre e seu narrador gente boa-sqn. “Max” é um bom conto, contudo.

  9. Edivana
    27 de fevereiro de 2015

    Não é uma atitude intragável? Por vezes, a necessidade de se desfazer de um animal é mais forte que a realidade, mas isso não justifica o abandono indiscriminado, absolutamente. O conto comove pois não nos deixa esquecer que o animal não tem grandes chances, e que o ser humano, no final, pouco se importa com eles, pois o tempo passa e as “feridas” se fecham.

    Abraços, moço!

    • Fabio Baptista
      27 de fevereiro de 2015

      Edivana!

      Só vi seu comentário depois que havia postado logo acima.

      Então, meu… esse negócio de abandonar o animal é praticamente o mesmo que uma sentença de morte. Às vezes a situação em casa torna insustentável (acho que eu poderia até trabalhar melhor esse aspecto no conto) a criação do bicho… mas então, o que fazer?

      É uma situação complicadíssima, mas concordo com você: não justifica o abandono discriminado.

      Abraços, moça! 😀

  10. Sidney Muniz
    27 de fevereiro de 2015

    Gostei do conto!

    Mesmo que previsível a atitude da dona de Renata, a partir de determinado momento, o que mais me deixou feliz nesse conto (feliz no sentido de: que boa leitura) foi acompanhar a maior parte do texto pelos olhos e coração do cão. Ficou muito boa essa parte, Fábio. O desfecho, como provavelmente era para o desafio é providencial e justificável, mas meu amigo essa estória mais trabalhada e com outro desfecho tem muito pano pra manga hein?

    Se for reescrever e criar algo mais sobre ela, por favor não deixe de avisar!

    Parabéns!

    • Fabio Baptista
      27 de fevereiro de 2015

      Realmente minha tentativa foi contar a história no PDV do cachorro!
      Legal que notou e gostou, Sidney! 🙂

  11. rsollberg
    27 de fevereiro de 2015

    Esse é o tipo de enredo que sempre me comove.
    Botou um animal no meio da parada mexeu comigo. Desde novo, nos filmes da sessão tarde,..

    Também estou com o Rubem, acho que foi escrito para o desafio.

    Ótimo conto! Singelo, triste e curtinho (mas eficiente).

  12. rubemcabral
    27 de fevereiro de 2015

    Que triste! Foi escrito para o desafio dos 7 pecados? Avareza, por exemplo?

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 27 de fevereiro de 2015 por em Contos Off-Desafio.