EntreContos

Detox Literário.

Fim de Noite (Rodrigues)

fim de noite

Eu não queria dizer, mas eu estou procurando namorado. Ideia da minha prima. Deixei minha filha com a minha irmã pra ir ao tal encontro. Não gosto disso, não. Mas minha prima é meio doidinha, arruma essas coisas. Às vezes ela vem aqui em casa, fica falando, falando…

– Ai, porque você não arruma namorado?

E blábláblá…

Gosto dela. É a única solteira, as irmãs todas casadas, com filhos, nunca têm tempo. Ela não… Nem era pra contar, mas o último namorado dela saiu corrido de lá. Naquela época ela usava tinta azul no cabelo, não levava desaforo. Ai, o cara era chato. Tomou um sopapo na cara que nunca mais voltou. Ela é roqueira. Usa aquelas camisetas com estampão de caveira, jaqueta de couro. Aí marcou esse… Encontro, jantar, sei lá o quê.

Me arrumei toda. Já que é encontro, vou pelo menos bonita. Vai ser em um restaurantezinho japonês. Ainda bem que foi na sexta, só posso sair de sexta. Nove e meia. Vamos ver no que dá.

Coloquei esse vestido verde. Gosto de verde, acho que combina comigo.  Fiquei me olhando no espelho um tempão. Tempo que eu não fazia isso. Passei batom vermelho, não muito chamativo. Minha tia Zélia dizia que… Ah, deixa pra lá. O vestido é justo, mas não muito apertado. Ainda tenho um corpo bonito, hum? Fiz as unhas, deixei aquele monte de louça na pia. Eu é que não ia estragar!

Antes de sair pensei em colocar uma flor no cabelo, mas achei brega. Ai, gente. Minha mãe é que fazia isso. Pecado, pecado. Três tapas na boca. To preocupada com a menina. Ah, vai ficar tudo bem. Poxa. Igual minha prima falou, se toda vez que eu for sair, ficar tão preocupada assim… Não me solto, nada dá certo.

Esse perfume é francês. Está guardado há meses. Usei a última vez no casamento da Cida. De repente me vi toda cheirosa, bonita. Quem é essa? Hahaha. Era hora de ir pra lá. Não adiantava me arrumar e chegar cansada, suada de tanto andar. Táxi! Não gosto que me enganem. Nem falei pra onde ia. Fui indicando. Vira aqui. Vira lá. Ficou meio bravo. Ah, que se dane! Tá muito caro.

Me atrasei 10 minutos. Charme, né? Quando entrei morri de vergonha. Os três na mesa me esperando. Já tinham até pedido a comida, aposto. Cheguei perto deles, dei um “oi” sem graça. O Jão se ofereceu pra colocar minha bolsa na cadeira. Puxou, assim. Que cavalheiro, hã? Bem que minha prima tinha dito. Não parava de falar dele pra mim. Tava até de saco cheio, já. Eu precisava ir até o banheiro. Nessas horas eu sempre suo, medo da maquiagem borrar. Voltei rápido. Só notei o cabelão da minha prima de costas. Dessa vez ela tinha usado um verde meio brilhante. Ela me olhou e falou daquele jeito dela.

– Não vai sentar, não?

Ela estava sentada do lado do amigo, um loirinho, Rafael. Chamava ele de Rafinha. E eu lá, mal conhecia o tal do Jão. O Jão, o famoso Jão. O amigo dela percebeu que eu estava meio sem jeito, deu o lugar pra mim. Ficamos eu e minha prima de frente pros dois.

A prima sempre falou muito rápido, parecia que falava batendo na gente. Puxou a toalhinha quente da mesa e começou a esfregar na mão. Eu olhei, fiz o mesmo, quando fui ver todo mundo tava fazendo o mesmo que nem bobo.

Olhou pra trás e acenou pra garçonete. A menina veio trazendo quatro cervejas. Foi servindo a gente. Colocou um copo cheio de espuma na minha frente, eu adoro espuma. Mas não fico elogiando muito, nunca dou gorjeta mesmo. O Rafael ficou bem feliz, sorrindo, ele tinha um jeitinho delicado.

– Mas eu não bebo! Não pedi cerveja – o Jão falou antes de que ela servisse.

– Ai, ai, que não bebe, o quê? Não precisa fazer fita, Jão. Coloca aí pra ele, querida.

Minha prima fala mesmo.

Tinha sempre que fazer isso, né? Pedir cerveja sem ninguém saber e falar que pagava as primeiras. Coisa dela. Ah, aí depois, sempre alguém pede mais uma, mas a gente não fica bêbada. Minha prima diz que é pra “dar uma brisa”. Que besteira! “Brisa?!”. É boteco, agora?

Ninguém conversava. Minha prima tinha que ficar puxando assunto. Poxa, eu sou tímida. O Rafael só ficava balançando a cabeça, assim, “aham, aham, aham”, concordando com tudo que ela falava. E o Jão era tímido demais. Minha prima só ficava falando de política, isso sempre dá confusão! Mas gosto das coisas que ela fala. E o outro lá, só no “aham, aham, aham, aham”. Saco…

Comecei a ficar cansada, né? Olhei pro Jão, fiquei apontando pra ele e falei assim.

– Ei, você, você que não fala nada, aí. Fala alguma coisa, bicho, você está falando demais!

– É isso mesmo! Você fala muito, Jão! Não aguento mais ouvir sua voz!

Minha prima não perdeu a chance de zoar.

O Jão não sabia onde enfiar a cara. Ficou vermelho, parecia pimentão e olhou pra toalhinha. Quando foi pegar, o amigo da minha prima puxou da mão dele.

— E não vai disfarçar mexendo com esse pano, não!

— É bullying?! – o Jão respondeu assustado.

Aí todo mundo caiu na risada. A gente se soltou a começou a falar mais, de outras coisas. Também, depois dessa! A comida chegou naquelas barcas de madeira. A garçonete serviu a gente e perguntou se ia mais cerveja. Ê, cerveja! O Jão tava virando o copo, terminando de tomar. Levantou o braço todo desesperado.

– Traz, traz sim!

Ué, não disse que não bebia? Mas não liguei, eu também queria mais uma. Abre o apetite. Aí, já ninguém falava mais nada de novo, só comia. Cri, cri, cri… Que agonia! Dá impressão que estão te ouvindo mastigar. Só fomos nos olhar de novo quando veio mais cerveja. Bando de limpa-trilho. A moça serviu. A gente brindou antes de beber.

Fiquei olhando o jeito que o Jão bebia. Um cara legal tem que saber tomar cerveja e comer hot-dog com estilo. Tem cara que é estranho, sei lá. Mas ele não. Nem era galã, mas era bonitinho. Eu nunca gostei de bigode, mas o jeito que ele limpava o bigode depois de dar um gole era engraçado. Ele só ficava falando dos resultados esportivos. Número de esportes, não entendo nada. Minha prima me olhava com uma cara de poucos amigos, os olhos meio fechados como quem diz, “ih, esse aí…”. Ela era assim, fazer o quê?

Ele tinha o cabelo bem liso, umas entradas escondidas embaixo da franja, que formava um V de ponta cabeça na testa. Castanho claro. Não chegava a ser gordo, não, mas também não era magro. Cheinho. Era bem calmo, me deixava à vontade. Aí me dei conta, acho que eu fiquei muito tempo olhando. Acorda, acorda, ô! Puxei qualquer outro assunto e dei um apertão na coxa da minha prima. Ela riu escondendo a boca no guardanapo.

Fiquei satisfeita. Como cabe comida nessas barquinhas! Coloquei os hashis de lado e bebi uns goles da cerveja. O Jão ficava tentando falar com o Rafael, mas ele não dava muita bola. Fingia que dava atenção, mas depois desviava o rosto, ficava meio que pedindo socorro pra minha prima. Não gosto de gente assim, acho falso.

Começou a tocar o celular do “Rafinha”. “Prepara que agora é a hora do show das poderosas…”. Ele ficou demorando pra atender, olhando a telinha, depois se resolveu, atendeu. Do nada, afastou a cadeira com tudo pra trás. Ficou com a mão na boca, cochichando. Pra que aquilo? Levantou e foi terminar o papo lá fora. Voltou olhando minha prima com cara de cachorro que caiu da mudança. Não entendi nada.

– Meu vô sumiu!

A gente disse que tudo bem, que não tinha problema. Que fosse resolver, achar o tiozinho. Levantou e saiu rápido. Achei muito estranha aquela história. Minha prima olhou pra mim e pro Jão desapontada. Fez um sinal pra eu acompanhar ela até o banheiro. O Jão olhou pra cima e deu um assovio longo de ironia.

– Que saco, de novo – ela falou.

Puxou uns papéis higiênicos.

– Esse cara é um merdinha, devia estar aqui nesse papel, aqui ó – ela falou brava.

– Calma, prima – eu falei.

– Sempre tem que fazer isso… Caloteiro de uma figa!

– Aaaa… Entendi. Quer que eu pague a dele? Eu recebi a parcela do…

– Não, não. Jamais, prima. Vamos lá, vamos voltar senão o Jão vai achar estranho isso.

Quando a gente voltou pra mesa… Cadê o Jão? A garçonete disse que ele tinha saído pra fumar.

– Ué, mas ele não fuma. Que caceta! – minha prima falou.

Não era possível dois calotes num dia só, né? Fomos pra rua. Vimos uma cabecinha atrás de um carro lá do outro lado. Lá estava o figura com um charutinho.

– Ué! Você não tinha parado? – minha prima disse.

– Ah, o quê? Só de vez em quando. É cubano, quer?

– Ah, bom! Achei que tinha nos dado o cano igual o…

– Cano? Eu não! Não quer?

– Vamos lá pagar, gente? Senão daqui a pouco vão achar estamos todos dando um golpe – eu disse.

Rimos. O charuto num cinzeiro. Acertamos a conta. Saímos. Acessei o aplicativo do celular, mas não tinha nenhum táxi perto. Esperamos. Vinte minutos, nada. O radar na telinha circulando o mapa em branco. O Jão pegou o charuto.

– Sai pra lá com essa fumaça, credo.

No tempo da escola eu fumava com as minhas amigas depois da aula, escondida no banheiro.

– Tem cigarro, Jão?

Eu ficava à vontade com o figura. Ele tinha, mas recusou. Minha prima me julgando. Peguei de uma vez do paletó dele e pedi o isqueiro. Acendi e traguei bem de leve. Nem tossi. Me senti menina de novo.

– Cigarra e charutinho. Pronto, agora duas chaminés…

Dei uma tragada mais forte e joguei fumaça perto dela, de brincadeira, mas ela emburrou e se afastou mais.

– To brincando, prima. Vem cá, poxa!

Reclamou. Ficou meio chatinha. Começou com conversa torta:

– Preciso chegar antes das onze, prima. Alimentar os bichanos.

– Poxa, prima. Que desculpa esfarrapada. Você já foi melhor – eu falei.

– É sério!

Com ela não tinha conversa.

Nisso um táxi passou. O carro meio esfarrapado, suspeito.

– Vamos nesse, não dá mais pra esperar – minha prima falou.

– Mas eu não terminei o charuto – disse o Jão.

Jão sem braço, né? Pensei.

– Tá, tá, chega! Vou sozinha. Jão, depois você pega outro, logo passa. Me liga quando chegar, prima!

Ela foi. Fiquei lá fumando com o Jão. Falando de preocupação, que o taxista podia não ser legal, que a noite era um perigo. Ele só me contrariando, falando que ia dar tudo certo. Sentamos num banquinho, pedi mais um cigarro.

– Mas, menina. Depois sua prima vai brigar comigo – ele falou.

– É? E você que-não-bebe-mas-bebe-e-que-não-fuma-mas-fuma?

– Hahaha. Boa. Merece mais um cigarro então.

– Esse é light, né?

De repente começou a ventar. Ele fez uma cabaninha em volta do isqueiro, colocou a mão em cima da minha protegendo do vento, aí consegui acender. Fiquei meio sem graça. Que mão grande. Dava umas duas da minha. Olhei pra baixo, fiquei calada, olhando as pedrinhas do asfalto.

Ele levantou. Pediu pra descer com ele até um barzinho, ali na rua mesmo. Queria uma água. Não tinha ninguém no boteco, às moscas. O Jão ficou parado na frente do balcão, assoviando pro atendente que esfregava um pano úmido na testa.

– Que é? – o atendente falou.

– Boa noite. Você me vê um copo d’água?

– Tamo fechando.

Entrei na conversa.

– Que educado.

– O que?

– Nada não. Tem alguma bebida doce, aí?

– Doce? Só vinho e catuaba…

– Catuaba? Meu tio Netão dizia que isso… Ah, deixa pra lá!

– É cubano? – disse o atendente.

– É! Coloca aí pra mim no copinho plástico a dose de catuaba.

– Cigarrinhos da ilha…

Uma mulher veio resmungando, esfregão na mão, jogando água no piso. Pagamos, fomos bebendo dividindo o copo. Os dois meio tremendo. Ele deu um passo pro meu lado, me abraçou. Deu uma sensação boa. Frio é que eu não sentia mais! Eu podia ficar ali o dia inteiro, bebericando, sentindo ele pegar as minhas costas todo cuidadoso. Gosto desse tipo de frio na barriga. Ele deu o último gole, a brasa laranja brilhando. Me puxou pelos ombros e…

– Olha, um táxi! – falei.

E me senti uma anta.

Ele quase deu uma volta nele mesmo. Ficou todo atrapalhado, tonto, nem conseguia me olhar direito. Entrou rápido no carro, depois saiu, quase levou um capote. Veio até mim sem jeito. “A gente nem se despediu, né?”. Apertou meu ombro, me deu um beijo demorado rosto. Foi embora.

Me perdi, quanta coisa. Fiquei andando em círculos um tempo, um monte de pensamento junto. As ruas pareciam uma esteira sem fim. Cheguei em casa nem sei como. Minha irmã mandou mensagem, a menina estava bem. Dormindo, já. Guardei as coisas, fui pro quarto e me joguei na cama. Morta. Deitei de meia-calça mesmo. Que frio! Me enrolei no cobertor e nos travesseiros. O perfume do Jão e a catuaba me revirando a cabeça. Não teve jeito, acabei tirando a meia-calça e todo o resto. Voltei ao restaurante deserto. Bebemos feito loucos e nos beijamos. Nossos dedos desceram até o vão de um beco escuro… Que imaginação! Dane-se. Fazia tempo que eu não relaxava tanto.

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2 comentários em “Fim de Noite (Rodrigues)

  1. Fabio Baptista
    20 de janeiro de 2015

    Cara, que leitura deliciosa!

    Teve um gosto de crônica, no bom sentido.

    Fiquei com medo que desse alguma merda com a prima (e o taxista) ou a filha (que ficou com a irmã) e acabasse estragando o clima “feel good”. Provavelmente dessa forma a história geraria sentimentos fortes, pois já havia me apegado à protagonista, e o resultado seria igualmente bom.

    Mas porra… de vez em quando é bom ler alguma coisa em que tudo acaba bem! 😀

    Parabéns.

    • Rodrigues
      20 de janeiro de 2015

      obrigado por ler meu conto, Fabio! Pois é, às vezes eu dou uma chance pros personagens, hahaha.

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Publicado às 19 de janeiro de 2015 por em Contos Off-Desafio e marcado .