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Literatura que desafia.

Olhai os Lírios do Campo – Resenha (Gustavo Araujo)

 

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Resenhar um clássico não é tarefa fácil. Corre-se sempre o risco de cair na mesmice ou de cometer uma heresia, deixando de se apontar o que é consenso. Tratando-se de alguém como Érico Veríssimo, essa tarefa é ainda mais cruel, já que o autor gaúcho pertence ao panteão dos maiores escritores nacionais.

Começando pelo que é notório: “Olhai os Lírios do Campo” é de fato um livro belíssimo. A história de Eugênio e Olívia é tocante, verdadeira, daquelas que acontecem todos os dias com alguém conhecido. É como se o autor nos contasse fatos que realmente aconteceram. Eugênio é médico, casado – um casamento de aparências – com uma mulher rica. Recebe um telefonema do hospital: Olívia está prestes a morrer. No caminho até lá, recorda sua vida até aquele momento.

Mais do que na história pessoal de Eugênio, mergulhamos na sua psicologia. Érico Veríssimo, ao escrever o romance, diz-se, sofreu a influência de autores como Katherine Mansfield e Sommerset Maugham. Por conta disso, dotou seu protagonista de questionamentos vários, de uma humanidade sem par, tornando o leitor cúmplice de suas crises existenciais, de seus dilemas, desejos, decepções e remorsos.

É isso que torna “Olhai os Lírios do Campo” um livro fascinante. Eugênio é real. É você, sou eu, somos nós, com nossos medos e segredos mais íntimos revelados por uma prosa arguta, que nos desnuda sem qualquer cerimônia. Seríamos capazes de trocar o verdadeiro amor em nome da ambição?

Na primeira metade do romance, a questão nos desconforta. Eugênio recorda a infância, a vergonha que sentia do pai, os dias no internato e a faculdade, onde se sentia inferiorizado, apesar do amor por Olívia, sua colega de turma. Nesse contexto, o casamento com a filha de um magnata da alta sociedade porto-alegrense surge como uma tábua de salvação. Não é surpreendente a escolha do protagonista: entregar-se a uma vida vazia e frívola, em troca de conforto e riqueza; ser um coadjuvante da esposa, conviver com pessoas que só pensam em dinheiro e em promoção pessoal. E a todo tempo, sentir o martelar da saudade de Olívia e a vergonha por tê-la preterido, restringindo seus encontros a ocasiões esporádicas.

Naturalmente, a possibilidade de Olívia morrer faz com que Eugênio reavalie suas prioridades. É quando o romance entra em sua segunda metade. É quando, infelizmente, perde a força. Não que Érico Veríssimo tenha perdido a mão. A perícia ao narrar continua intacta. O uso das palavras permanece irrepreensível. O problema é o rumo que a história toma.

A impressão que se tem é que há uma lição de moral em cada entrelinha, do tipo que se encontra em livros de auto ajuda atualmente: o que realmente interessa na vida? O sucesso no trabalho ou o amor dos filhos? Dinheiro ou felicidade? É justo pensar apenas em mim ou o correto é buscar o bem estar de todos?

Diante de um fato marcante, Eugênio leva a cabo os planos que até então vinha adiando de modo covarde. Mesmo com receio e sempre perseguido por indagações fantasmagóricas, decide que sua existência deve ter algum significado especial, verdadeiro, não mais centrado no individualismo.

Lançado em 1938, o romance reflete o embate entre as correntes políticas da época, tomando partido evidente por uma delas. Isso me decepcionou um pouco. Não pela opção do autor, mas pelo fato de não ter permitido ao leitor o direito de escolha. Não é, por isso, uma obra isenta e equidistante. Antes, soa incomodamente maniqueísta.

Concluindo, pode-se dizer que “Olhai os Lírios do Campo” é uma história de superação contada de forma magnífica, a história de alguém que descobriu que para encontrar o verdadeiro sentido da vida é preciso coragem. Dito desta forma, o romance mereceria nota dez – de fato, para muitos, é o melhor livro de Érico Veríssimo –, mas na realidade, visto sob o prisma atual, o texto tem muito de panfletário.

Posso até concordar com algumas das conclusões a que Eugênio chega, mas não deixa de ser inquietante o fato do autor ter defendido determinada corrente política sem espaço para o contraditório. Nesse aspecto, pode-se dizer que o livro, ainda que escrito há quase oitenta anos, segue atual, eis que nega qualquer virtude a quem vive do outro lado do rio, conduzindo o leitor por um labirinto ricamente construído, mas com paredes apertadas e destino bem definido. Sem direito a meia-volta. Sem dar ao leitor o direito de pensar por si.

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12 comentários em “Olhai os Lírios do Campo – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Claudia Roberta Angst
    27 de janeiro de 2015

    Li o livro há um bom tempo, mas lembro que gostei bastante. Triste, bonito, melancólico, tocante e com um final frustante. O autor foi tão habilidoso com as palavras que pude entender a passividade da Olívia. Foi muito bom ler sua resenha e recordar desta obra. Quem sabe eu releia algum dia neste ano? Mais uma coisa para a listinha de 2015. Parabéns pela resenha muito bem elaborada.

  2. Denise Cristine
    26 de janeiro de 2015

    Oi amiguinho! Depois de ler a resenha, decidi o meu carnaval: Olhai os Lírios do Campo rsrsrrs No momento estou tentando terminar Cem anos de solidão. Mas está arrastado…. gostei muito mais de O amor nos tempos do cólera. Bjs….

  3. Roberta Letícia
    22 de janeiro de 2015

    Eu me recordo vagamente da história, pois o li há um bom tempo… Mas lembro da mesma sensação… a primeira parte lida intensamente, enquanto a segunda custou mais a passar. Aceito de bom grado sugestões de livros Guga!!

    • Gustavo Araujo
      22 de janeiro de 2015

      Obrigado, Rô! Se quiser fazer sugestões também, sinta-se à vontade 🙂

  4. Ricardo Gnecco Falco
    22 de janeiro de 2015

    Ainda não li, Anfitrião (o livro, não a resenha!)… Mas, confesso, agora fiquei com vontade! 😉
    Abração e obrigado por me instigar!

    • Gustavo Araujo
      22 de janeiro de 2015

      Valeu, Rick! Não deixe de compartilhar suas impressões! Abs!

  5. Eduardo Selga
    21 de janeiro de 2015

    É uma das tantas obras brasileiras que ainda não consegui ler. Érico tem uma característica que me atrai muito num autor, por considerá-la difícil de se atingir plenamente: o humano é mostrado sem artificialidades (Graciliano Ramos é outro com esse traço) em toda a sua dimensão. Há uma obra dele, pouco lembrada, em que isso salta aos olhos e emociona: “O Prisioneiro”.

    • Gustavo Araujo
      22 de janeiro de 2015

      Obrigado pelo comentário, Eduardo. Também gosto muito do Érico. “O Tempo e o Vento” segue no topo da minha lista há anos. Obrigado também pela sugestão de “O Prisioneiro”. Certamente irei procurá-lo.

  6. Maria Santino
    20 de janeiro de 2015

    Olá, Gustavo Araujo!

    É a primeira vez que leio uma resenha escrita por você (tenho que remediar isso). Gosto quando há criticas, quando há pareceres sem Spoiler e sobretudo quando o resenhista instiga quem está lendo. Eu gostei dos únicos dois livros — “Clarissa” e “Incidente em Antares”– e o conto “As Mãos de Meu filho, que li do Érico Veríssimo (que vergonha!). Digo isso porque gostaria de poder discutir com você sobre suas impressões, principalmente a parte que não foi bem aceita e essa comparação feita. Espero poder fazê-lo algum dia, haha!

    Foi bom ler sua resenha. Parabéns e obrigada por ela.

    Abraço!

    • Gustavo Araujo
      21 de janeiro de 2015

      Obrigado, Maria. Creio que a resenha tenha ficado mais amarga do que o pretendido, rs. Eu gostei do livro, apesar dos pesares. O Érico escreve de maneira muito envolvente e a construção que ele faz do Eugênio é algo a que todos nós, aspirantes a escritor, deveríamos atentar. Obrigado mais uma vez 🙂

      • Maria Santino
        22 de janeiro de 2015

        Hey! Acho que demorei mais do que esperava para terminar a leitura, mas não me arrependo nenhum pouco, pois o livro é maravilhoso 😀

        Curto histórias de amor, mas não aquelas “meia boca” que você fecha o livro e já se esqueceu, ou pior, bate um arrependimento tremendo de ter perdido tempo. Concordo que o Genoca (Eugênio) foi muito bem construído, mas… Putz! A Olívia? Que mulher! Ele abordou alguns tipos de amor no livro, e esse que a Olívia possuía é de uma singularidade que é difícil de encontrar. O melhor foi sentir. Ela o amava sem o sentimento de posse, preferia que ele visse com seus próprios olhos e se curasse dos seus fantasmas. Quando os dois se reencontram e ela diz “Ainda bem que você sofreu”, eu fiquei muito mais encantada com ela do que já estava e essa frase em uma das cartas dela é perfeita “Porque só valem as experiências que fazemos com a nossa própria carne.” Gostei de tudo, desde a primeira mostra da vida do Eugênio, com a parte da calça furada, passando pelo embate entre ser pobre e o desejo em não se tornar um produto do meio, cordeirinho como o seu pai, à parte da adolescência (me lembrou o Sinclair do livro Demian de Hermann Hesse, onde o personagem também entra em conflito com o mundo claro e escuro, o sagrado e profano, assim como o Genoca). São ótimas as reflexões dele diante do pai (Augusto – Ah! O conto, “As mãos de Meu filho”, me faz lembrar essa relação). O Autor toma cuidado para não deixar artificial, e acho que por isso cativa tanto, porque o Genoca não é perfeito, sente medo, erra, tem sentimentos mesquinhos. Um exemplo é quando ele está descendo a ladeira com seus novos amigos do curso de medicina e o pai (alfaiate mal vestido – ótima sacada.) vem subindo e os dois se encontram, depois vem a culpa, os olhares à mesa de jantar, o oferecimento de uma fazenda nova de tecido ao filho como se estivesse se desculpado de ser pobre (sei que não vou esquecer isso), a primeira operação também é marcante.
        Concordo que a narrativa muda, até porque entram mais personagens, e os conflitos também são outros. mas achei ótimo a relação: médico-humanização. As tiradas como sempre fazem rir “Médico de gente pobre é como mulher de beco: faz tudo” e as outras passagens acerca de política que sempre instigam.
        Mais uma vez obrigada. Vou ficar de olho nas resenhas, mas sou neofóbica, então volto quando tiver outro clássico por aqui. 😉
        Abraço!

      • Gustavo Araujo
        22 de janeiro de 2015

        Excelente comentário! Realmente, Olívia é tão bem construída quanto Eugênio. Esse amor incondicional, sem apego, sem posse, que ela nutre por ele é de fato encantador, mas também um pouco frustrante. Ainda me pego inconformado com a passividade dela 😦

        Gostei muito da sua resenha – sim, é uma resenha, mais do que um comentário. Fique livre para enviar suas impressões sempre que quiser. Falar de livros é quase tão bom quanto escrevê-los.

        Quanto à leitura de clássicos, acredito que devemos buscar as variações. Um livro popular, um obscuro, um bestseller, um clássico. É o que eu tento fazer. Nem sempre funciona, rs

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Publicado às 20 de janeiro de 2015 por em Resenhas e marcado , , .