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Detox Literário.

Dona Yolanda e seus Quatro Passarinhos (Thiago Prada)

Dona Yolanda cantava junto com os passarinhos na varanda da casa, uma senhora ancestral naquele bairro, que diziam já ser companheira de Deus em eternidades vividas, arrumava cada uma das gaiolas dos seus 4 passarinhos, a quem ela dera os nomes de seus filhos que nunca tivera:

Joãozinho, um canário inquieto que era malabarista dentro da gaiola, em que a criançada ficava no portão da casa olhando as proezas do canarinho, dando risada e aplaudindo.
Tonho, o mais alegre dos passarinhos e mais comilão de todos, era o que mais dava trabalho para as economias da casa, porém, era o que mais conversava com sua dona, nas frias tardes de inverno, onde a existência quase findava na inércia.

Marcos, o mais escuro dos quatros e desconfiado, tinha sido encontrado pequeno e alimentado, havia entrado para a família como um estrangeiro que jamais havia se acostumado inteiramente à casa.
E, por último, Cara-Fechada, pois era o passarinho mais enigmático, que fitava o nada como se compreendesse os mistérios da prisão da gaiola, na dualidade entre a segurança da boa vida e a incerteza do vôo.

Os passarinhos eram tão famosos quanto a própria Dona Yolanda, ninguém sabia ao certo da sua família, diziam que ela havia sobrevivido até aos próprios netos, que os passarinhos eram, na verdade, anjos ou demônios que davam a vida eterna para Yolanda, seu rosto era uma máscara de esfinge impenetrável, suas rugas e cabelos brancos eram os vales desérticos de um reino perdido, que apenas sorriam como chuva de primavera ao brincar com seus passarinhos. Estes conviviam em constante disputa como qualquer família, Cara-Fechada brigava com Tonho e Joãozinho por tanta festa, ignorando suas filosofias de pássaro aprisionado, Marcos não se entendia com ninguém, Tonho e Joãozinho disputavam a atenção da dona, e esta sempre se divertia, a ignorar as penas voando quando algum dos passarinhos se estrebuchava todo dentro da gaiola.

Numa tarde de verão, quando as crianças foram ao portão da casa para assistir ao show diário de Joãzinho, encontraram o local na parede vazio e se desesperaram, a notícia veio logo depois: o passarinho tinha uma doença de velho mesmo sendo jovem, seu corpo estava atrofiando e ele nunca mais poderia dar cambalhotas para fazer rir as crianças, deste dia em diante, Joãozinho ficava no canto mais iluminado do jardim, no chão da gaiola, aquecendo os músculos atrofiados na gaiola, amargando a saudade e vontade de rodopiar pela gaiola como uma bailarino, depois de um tempo, perdeu a visão de um olho e ficava imóvel a maior parte do tempo, rememorando os seus dias de astro a luz do dia, ouvindo os aplausos e risadas das crianças apesar disso, Joãozinho resistia bravamente por amor a sua dona, ainda disputando a atenção com Tonho.

Este, durante dois anos, tornou-se o rei da casa, exasperando Cara-Fechada em seu canto e procurando conquistar a confiança de Marcos, até que um dia sobreveio na casa uma escuridão inesperada e em três dias Tonho era enterrado no jardim da casa de Dona Yolanda, aos prantos desta.

Durante três dias, Dona Yolanda conversou com Deus, procurando que moléstia havia atingido seu passarinho, rezando pra que ele se curasse, benzendo e dando remédios milenares, mas no segundo dia Tonho desfaleceu de seu puleiro rumo ao chão da gaiola, enfraquecido e doente, enquanto dona Yolanda, sentindo a alma morrer junto com o passarinho, o aconchegava nas mãos como uma criança, sentava na sua cadeira de balanço e cantava canções de ninar para embalar seu pássaro. Ao fim da tarde do terceiro dia, Tonho respirou em sua mão pela última vez, e a alegria da casa estava terminada.

Dona Yolanda, entristecida e mais velha do que jamais parecia ser, agora encurvada e vestida de preto, guardou seus passarinhos dentro da casa, com medo que o mundo pudesse roubar seus amores, que a morte, ouvindo os cantos de seres angelicais, a filosofia de pássaros que viam os enigmas da existência, pudesse adentrar aquela casa novamente.

Mas, naquele mesmo ano, Joãozinho, depois de muito lutar contra os músculos atrofiados, findava sua existência de astro aposentado e inválido antes da hora. As crianças do bairro fizeram uma procissão pelo bairro por causa da alegria que o passarinho lhes havia dado, enquanto Dona Yolanda aos prantos na cadeira, envelhecia finalmente, perdendo a eternidade e se aproximando da humanidade. Com pompas de astro global, Joãozinho foi enterrado ao lado de Tonho, como velhos rivais que agora voariam juntos no além.

Dona Yolanda, redrobrava os esforços para com os dois passarinhos restantes, perdida na tristeza da partida de dois amores, carente de saudades desconhecidas pelos moradores do bairro, usando seu vestido preto de viúva alada, cerrou as cortinas da casa e seus passarinhos restantes agora habitavam a escuridão da casa, tomando banho de sol somente pela janela.

Um dia, nesses dias em que nada poderia acontecer, Marcos, que nunca aceitara a perda da liberdade mas havia envelhecido, gordo e manso, dentro da gaiola, piava com uma dor em sua pata, Dona Yolanda num misto de pânico e piedade, por ver seu passarinho sofrer e pensar que poderia ter algo sério, abriu impensadamente a gaiola de Marcos, e este, num delírio de liberdade, fugiu da casa de dona Yolanda, enquanto ela desesperada gritava no jardim a partida de mais um passarinho.

Todos os moradores do bairro se prontificaram a aprontarem suas armadilhas para caçar o fujão, mas ela se recusava, afundada na tristeza do abandono, chorando sua idade imensa pelos olhos, encurvada e enfraquecida, sentindo seus laços com o mundo se cortarem pouco a pouco. Ficava agora sentada no banco do seu jardim, suspirando, olhando ora para a terra, onde havia enterrado dois de seus passarinhos, ora olhando para o céu, onde havia partido o terceiro, sem nem olhar para trás, sem despedida, um adeus, apenas a partida fulminante.

Cara-fechada, em sua gaiola na parede mais externa da casa, ainda filosofava sobre a morte e adeuses, sobre a saga de uma casa cheia de alegria e uma senhora que finalmente parecia que um dia morreria, assombrada pelos dias felizes e pela tristeza do silêncio da casa.

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Informação

Publicado às 24 de novembro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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