EntreContos

Detox Literário.

Redavoice: Minhas Férias (Rubem Cabral)

Rio de Janeiro, 01 de Agosto de 515 D.F.G.

O que dizer sobre minhas férias, senão que foram perfeitas, fixecool e incriordinárias? Ainda no inicio de Julho, meu mainté, Tuomas, comprou-nos um hover novo; vermelho-bóson, ultimate modelo. Por sorte, meu fourné, Hiro, conseguiu uma licença-prêmio por desempenho supranormal, coisa rara de se obter em tal mês concorrido. Por tudo isto, decidimos estreiar o possante no dia seguinte e aproveitar para reproduzir em nossas férias um ritual antigo que Tuomi leu num flexnews, algo chamado piquenique.

Então, como combinado, Tuomi me despertou bem cedo; por volta das oito e me beijou a bochecha. Sorrindo, avisou que preparara panquecas de moramboesa; as minhas preferidas. Não gosto muito deste lance de beijar, já tenho treze, mas meus pais insistem em me tratar como um bebê que acabaram de receber das materfábricas. Deve ser porque Oleg está no serviço militar obrigatório para os XYY entre os dezessete e os dezenove e, desde o inicio do ano, sou o único filho em casa.

Desci ainda de silverjamas e Hiro já estava de pé também, malhando na academia do acesso da copa. É engraçado sermos uma familia assim; diferente. Digo, Tuomas é muito alto e másculo demais para ser um mainté típico, chega às vezes a constranger um tanto Hiro-san, que, como quase todo neoasiático, não é muito alto e é um tanto conservador. Eu, sinceramente, prefiro assim. Quase todos meus amigos têm seus maintés muito sensíveis e delicados, homens que gostam de se vestir com roupas sedosas, coloridas e transparentes, fofocar e cozinhar receitas incríveis que eles aprendem na expressnet. Já Tuomi é quase tão forte quanto Hiro e gosta de participar ativamente de tudo. Dele, herdei os cabelos claros e espero que a altura também. Do Hiro, herdei os bonitos olhos rasgados de samurai e o temperamento afoito (ao menos é o que meu mainté vive me lembrando).

Ultimamente meus pais têm andado meio agiloucos. Faz uns três meses que eles passam pelo menos umas duas horas diárias debruçados no convgen de sua suíte, escolhendo como será meu novo irmão. Ficam lá decidindo QI, propensão a doenças, cor dos olhos. Discutem quem fornecerá gametas para a conversão em óvulos e tudo mais. Penso que a grande questão será o custo de correções, pois um cemporcento pode ser ultra-onéreux hoje em dia. Eu sou noventa-e-oito e eles sempre me lembram que ainda pagarão por meu financiamento até eu completar quinze anos. Esqueci de comentar: meus velhos se beneficiaram duma lei antiga; quem concordasse em gerar um XYY e criá-lo, teria o direito de ter até mais dois filhos, daí nossa família ser tão numerosa. No entanto, penso que certamente fomos agraciados pelo Grande Pai: pois, talvez pela criação cheia de zelo, a doçura derramada de Tuomi e a firmeza de Hiro-san, eles quase não tiveram problemas com Oleg. Eu soube que muitas pessoas desistiram e entregaram seus XYY para serem criados pelo estado. Bem, não é fácil lidar com estes colossos, não há como culpar quem tomou tais iniciativas.

Comemos rapidamente nosso desjejum. Havia calda extraproteica em minhas panquecas e molho lowcal para Tuomi, que tem o metabolismo meio lento, talvez por ser um noventa-e-quatro. Hiro preferiu omelete de ovas de farmshark e começou a contar algumas piadas.

“Como diferenciar um Brasileiro de um Cubano?”, ele me pergunta.

“Sei lá. Pelo sotaque?”, eu respondo.

“Não. Porque para decidir qualquer coisa o Cubano precisará perguntar a opinião de alguma fêmea”, completa, explodindo em gargalhadas.

Tuomi o olhou de cara feia: além de ser uma piada preconceituosa, ele não aprova o uso de palavras de baixo calão à mesa, mesmo as mais fracas, feito “fêmea”, que se diz por qualquer topada. Hiro é meio boccavasino e até costuma falar aquelas duas palavras com “M” quando está irritado.

Meu mainté tentou mudar de assunto e me perguntou: “Então, Carlinhos, já tem treze anos e não arrumou algum namorado ou, como vocês dizem hoje em dia, um sexfreund? Tem aquele seu amigo cemporcento, o hipermelanínico, como é mesmo o nome dele? Abuu, Adamu?”

“Não vê que nosso menino é claramente um fourné, meu bem? Acho que o tal garoto não é compatível”, disse Hiro, distraído.

“Ele ainda não decidiu se será mainté ou fourné. E ele gosta de me ajudar em casa e tem muito jeito com crianças menores. Não é, filhotinho?”.

Eu respondi, somente para provocar, que seria um celibatário feito Jesus Cristo. Que não desejava formar família como fizeram os pais do Santíssimo, José e Mário.

A ideia de ter um filho sacerdote ou ultrateo fez meus pais ficarem sérios de repente e, enfim, terminamos o café e saímos.

Sentamos os três no banco traseiro do hover. Hiro já havia de véspera baixado a programação dos tempsats, então só teríamos bom tempo no percurso e até poderíamos ver a chuva caindo exclusivamente sobre as autofazendas no interior, conforme a previsão.

Hiro-san comandou a I.A. do hover dizendo: “Destino: Fortaleza, Ceará. Hotel AquaComplex Safari.”

O veículo levitou e seguiu pela estrada, rapidamente. Minutos depois, enquanto passávamos por algumas fazendas, pedimos que reduzisse a velocidade para que pudéssemos ver as incriraras nuvens cor de chumbo e a água descendo generosa sobre as copas das árvores verdinhas, formando múltiplos arco-íris ao refletirem a luz do dia perfeitamente ensolarado.

Tomamos o acesso da hidrostrasse em Vitória e, menos de três horas depois, aportávamos na islahecha do hotel.

As duas semanas a seguir, foram as melhores de minha vida. Praticamos mergulho e brincamos com tubarões, moreias e arraias gigantes. Clonotoys, naturalmente, pois há uma barreira de proteção ao redor da ilha. “Deixem os selvagens do lado de fora.”, feito diriam os membros do PaterConselho.

No inicio da segunda semana, Oleg voou desde o cerco ao Caribe até o nosso hotel e então nos divertimos a valer, montando leões e tigres toys. Digo, não o Oleg, pois não há tigre ou leão que possa caminhar com cento e setenta quilos de músculos sobre sua coluna. Ele limitou-se a nos seguir montado em elefantes ou búfalos africanos.

Trocamos de apartamento quando ele chegou, uma vez que o hotel dispunha de outros com várias adaptações para os XYY.

Oleg contou-nos sobre o seu trabalho monótono. Tendo que garantir que os degenerados caribenhos não trouxessem a corrupção genética ao mundo exterior. Mas não havia muito a fazer, ele comentou. Fora o comércio de alimentos e outros artigos, ninguém tinha permissão para entrar ou sair daquele lugar e nada escapava à censura dos bioscanners XX. Ao fim daquela semana, nosso gigante gentil teve que retornar a seu serviço. Terei saudades de meu irmãozão.

No último dia, munidos de uma cesta de palha, sanduíches, sucos e uma estranfeia toalha xadrez, fizemos o tal piquenique na praia. Até que foi interessante tentar comer com a areia soprando em nossas caras e se infiltrando na comida, mas acho que os antigos tinham uma ideia um tanto distorted sobre o que seria diversão.

E estas então foram as minhas férias. Nada tão luxcher quanto Titã, Marte ou Gaia, mas certamente passei ótimos momentos com minha muito feliz e grande família (que em breve ainda ficará maior).

Carlos Ruutu-Watanabe.

*fim da gravação* 

15 comentários em “Redavoice: Minhas Férias (Rubem Cabral)

  1. Lucas Rezende
    25 de setembro de 2014

    Cara, muito bom!
    Ótimos neologismos, texto fluído e descontraído. Que leitura mais boa!
    O tema é incriordinário (causaria suicídios em “Bolsonaros” da vida).
    Achei muito fera a “mudança” nos pais de Jesus (Que Mário?).
    Parabéns, Rubem.
    Assim que puder, leio os seus outros textos.
    Abraço!

  2. José Leonardo
    28 de agosto de 2014

    Sensacional. Merecia estender-se numa novela ou romance. É mesmo acima da média, e os neologismos elevam ainda mais o valor da sua composição. O tema em si, particularmente, não é do meu gosto, mas, na minha opinião, todos os outros elementos aqui superam qualquer empecilho quanto a gostos pessoais. Abraços e sucesso.

    • rubemcabral
      1 de setembro de 2014

      Obrigado, José. Eu gostaria, sim, de estender a história e o universo imaginado, que me parece meio inédito, ao menos no Brasil. Eu bolei algo como um grupo terrorista heterossexual, ou a paixão de Carlinhos por uma moça que ele vê uma única vez antes de ser capturada. Só estou tomando o cuidado de não polarizar as ideias. Pois não quero algo maniqueísta, do tipo, homo-mau, hétero-bom. Os pais do Carlinhos, por exemplo, são ótimas pessoas. Alguns dos terroristas são extremados e sem noção, etc.

  3. Brian Oliveira Lancaster
    28 de agosto de 2014

    Texto maraviwonderfull. Engraçado como sabemos que é futuro, mas tem um tom de “1984”. A história é relativamente simples, mas ornamentada com situações abstratas. Fiquei imaginando se o colosso se referia um autômato. Nem todos curtem FC, ainda bem que alguns ainda mantém o espírito. Interessante como associamos um estilo ao nome da pessoa.

    • rubemcabral
      1 de setembro de 2014

      Milobrigados, Brian. Fiquei muito contente com o fidebequi (rs). O colosso Oleg e os XYY da história são soldados geneticamente modificados, como formigas-soldados, por exemplo. São bem mais altos, fortes e pesados que um humano comum. Em minha imaginação pensei em algo como uns 2,40m de altura e uns 170 quilos, em média.

  4. Claudia Roberta Angst
    28 de agosto de 2014

    Uma delícia ler essa brincadeira de neologismos. Eu diria mais: que é luxcher! Narrativa divertida. Gostaria de passear por uma hidrostrasse, mas que ninguém de ache muito estranfeia. Acertou em cheio na quantidade de palavrinhas novas, sem comprometer o entendimento do surpreso leitor. Parabéns!

    • rubemcabral
      28 de agosto de 2014

      Obrigado por ler e comentar, Claudia. Seria unpossível achá-la estranfeia! Fiquei palavraslos!

      P.S.: outro dia eu disse que a máquina de café aqui do trabalho estava kaffeebohnenlos, o que rendeu algumas risadas. Às vezes invento algumas também em inglês, usando “wise”: vegetarianfoodwise speaking that restaurant is not bad… Outro dia escutei um britânico falando: Those Excel files are not complex. I mean: VBA-wise speaking.

  5. Anorkinda Neide
    27 de agosto de 2014

    Nossa, que bonitinho!!! rsrsrs
    Adoro criar novas palavras, degustei todas elas aqui.. muto bom!
    🙂

    • rubemcabral
      27 de agosto de 2014

      Obrigado, Neide. Eu gosto muito de inventar palavras. Só tentei não exagerar, de forma a não dificultar o entendimento. O tal mundo do futuro seria muito globalizado: os pais do Carlinhos têm ascendência finlandesa e japonesa, e a maior parte dos neologismos vem do inglês, francês, alemão, português lusitano e italiano.

      Obrigado outra vez! Abraços.

      • Anorkinda Neide
        27 de agosto de 2014

        inglês, francês, alemão, português lusitano e italiano.
        que sopa de letrinhas, hein!!!
        kkkkk
        achei nada dificultoso. Legal!

  6. mariasantino1
    27 de agosto de 2014

    Quando li Admirável mundo novo, muitas coisas me fizeram rir, outras refletir (era esse o propósito do autor, é claro). Eu gosto muito de quem cria e mantém a “peteca” da criação. Naveguei na história, as entrelinhas são instigante e me faz querer saber mais. No livro do Huxley o termo “família” é nauseante, e aqui no teu conto, as fêmeas são consideradas palavras de baixo calão. Ai ai… Que medo! Abraço!

    • rubemcabral
      27 de agosto de 2014

      Obrigado por ler e comentar, Maria. Fiquei envaidecido por meu conto evocar de alguma maneira o Admirável Mundo Novo (um de meus livros favoritos).

      Ah, um spoiler: os palavrões mais pesados (com “M”) – não citados na redação do Carlinhos – são: mulher e mãe.

      Obrigado outra vez. Abraços.

  7. JC Lemos
    27 de agosto de 2014

    Show! Tu tem uma facilidade tremenda em escrever qualquer coisa, mas dá pra perceber que ficção é o ponto certeiro. Gostei, e fiquei imaginando se seria essa uma parte do seu conto que foi escolhido para a antologia Boy’s Love. haha
    Parabéns!

    • rubemcabral
      27 de agosto de 2014

      Obrigado por ler e comentar, Jefferson! Pois é, feito você notou, FC é especialmente fácil pra mim. 😀 Em verdade, o meu conto da Boy’s love foi uma adaptação de uma FC distópica que eu havia escrito. Originalmente tal história tinha um homem conservador, de uns 30 anos, e uma garota de uns 19, ela, uma idealista com ideias perigosas. Para a tal antologia, tornei a moça num rapaz e acrescentei mais alguns detalhes (ou seja, trapaceei).

      Este conto corrente surgiu depois que eu escrevi uma FC sobre um futuro só com mulheres. Daí, depois tentei bolar um só com homens em contrapartida. Este quase miniconto é relativamente leve, enquanto “O Dia da Inclusão” (o das mulheres), é bem mais “pesado”.

      Abraços.

    • rubemcabral
      27 de agosto de 2014

      Ah, amanhã eu leio e comento o seu conto e os demais, Pois aqui já está meio tarde…

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Informação

Publicado às 27 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .