EntreContos

Literatura que desafia.

Erros Induzidos (Lucas Rezende)

Parte I

Jazia escondido em meio aos arbustos o bleidr procurado vivo ou morto. Os cães farejadores comandados pelos domeinn não demorariam a encontrá-lo. Era apenas uma questão de tempo. Apertando com força o cabo de sua faca e controlando sua respiração para que não fizesse muito barulho, as imagens da luta na cabana voltavam aos seus pensamentos. Não podia controlar, a batalha fora intensa e o desfecho o pior possível.

Seu corpo estava preparado para a fuga, mas não sua mente, que era bombardeada com as informações que recebera. Ainda tentava organizá-las, como pode ser tão leviano?

O som da grama sendo pisada trouxe-lhe de volta à realidade. Um dos cães manipulados pelos domeinn estava chegando perto demais. Não podia deixar que fosse descoberto para depois começar a fugir, deveria aproveitar a vantagem de alguns metros que tinha. O fato de ser digitígrado o faria conseguir fugir dos domeinn com extrema facilidade, mas seus cães e felinos o conseguiriam alcançar, o que tornavam esses metros de vantagem essenciais. Seus pés eram como os de um gato ou um cão, não tinham pêlos e nem garras, eram apenas de estrutura óssea diferente. Uma característica em comum dos bleidr, bem como alguns ossos que sofriam crescimento desordenado e saltavam da pele em forma de espinhos. Mais frequentes na coluna e cotovelos.

Era agora ou nunca, precisava fugir. A cada segundo que passava sua vantagem diminuía. Ainda não sabia para onde fugiria, mas ali não podia mais ficar ou seria pego, e o que o aguardava não era um julgamento justo. Ele seria apenas mais uma tarde de serviço para o carrasco.

À sua frente estavam seus caçadores e possíveis algozes. Às suas costas, não muito longe de onde estava, a entrada da floresta que conhecia como a palma da mão. Caso atravessasse a floresta chegaria em sua tribo, na segurança junto de seu povo. Mas não queria que se envolvessem em seus problemas, a tensão já era grande o suficiente e o envolvimento de seu povo poderia gerar conflitos que com certeza desencadeariam uma guerra. Uma guerra que não teriam chance de vencer, não contra o grande poderio militar dos domeinn. As tribos dos bleidrs seriam massacradas.

Estava diante de um dilema. Viver e condenar seu povo ou morrer como criminoso. Na melhor das hipóteses poderia sobreviver em sua fuga e viver exilado, vagando pelos pântanos que existiam além do rio que demarcava o fim da floresta.

Pensando na possibilidade de conseguir fugir e se esconder nos pântanos, aguardar anos e voltar para fazer justiça. O bleidr encheu-se de otimismo e decidiu que podia aguentar alguns invernos longe de seu povo.

Respirou fundo e ainda meio agachado começou a andar o mais silenciosamente possível em direção a floresta. Após alguns segundos andando que mais se pareciam meses, um cão que o procurava notou sua presença e disparou em sua direção. Não perdendo tempo e agradecendo aos passos que tinha conseguido de vantagem, o bleidr também a toda velocidade correu para dentro da floresta. Os domeinn vinham logo atrás com suas hordas de animais controlados por suas vozes que soavam como canções entoadas por suas almas.

Adentrou apenas ao suficiente para que não fosse visto pelo lado de fora da floresta, o suficiente para que as árvores o fizesse invisível para um possível sentinela que não tivesse adentrado a mata e estivesse tentando cercá-lo. Tomou seu rumo para o lado sul da floresta onde caso chegasse vivo, poderia atravessar o rio e esconder-se nos pântanos. Corria por entre as árvores tentando despistar os cães que o perseguiam, não podia parar e lutar contra eles, pois seria facilmente cercado pelos domeinn que vinham logo atrás. Tentando cada vez mais retardar os seus perseguidores, fazia incontáveis mudanças de direção. A certa altura de sua fuga viu a sua frente algo que o deixou nervoso, um domeinn o havia cercado. Mas de onde surgiu? Como conseguiu interceptá-lo tão efetivamente? Não tinha tempo para tais questões e não podia parar de correr, pois os seus caçadores estavam em seu encalço. Após tantos ocorridos que o colocaram em tal situação, o destino sorriu para o bleidr. O domeinn que estava a sua frente era jovem, não podia ter experiência em combate, apesar de seu semblante confiante e com um ar de triunfo. O bleidr em fuga era um guerreiro em sua tribo. Com sua faca em mãos, cerrou o punho e investiu contra o jovem. Arremessou sua faca contra o jovem, certo de que se desviaria para depois derrubá-lo com um soco. Sua sorte fora apenas momentânea e acabava de colocar em suas costas mais uma morte. O jovem não agiu como o esperado, não conseguiu desviar-se da faca que perfurou-lhe a garganta. Neste exato momento o bleidr arrependeu-se amargamente, o domeinn que havia matado era jovem, jovem demais para ter sentido em sua vida o calor de uma mulher.

Por algum motivo, os cães pararam para inutilmente prestar socorro para o jovem que havia morrido antes mesmo de cair no chão. Ainda com a imagem perturbadora do jovem de rosto confiante e com tanta vida pela frente caído sobre seu próprio sangue, o bleidr já estava confiante de seu sucesso. Parou por alguns instantes para retomar o fôlego. Após alguns poucos minutos de profundas respirações e uma rápida prece pelo falecido, retomou sua rota até o rio.

Correndo em ritmo desacelerado, começou a perceber que seu infortúnio poderia ter se transformado na sua bênção. Teriam os seus caçadores parado para prestar socorro ao já desfalecido jovem no chão da floresta? Provavelmente não, o que faria mais sentido era deixar apenas um ou dois para checar o jovem e continuar a caçada. Já quase andando, o bleidr ouviu o gritar de uma águia. O som entrou em seus ouvidos como uma fria lâmina. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha e consigo pensou, “Ainda estão atrás de mim”. Pôs-se a correr novamente. Por um momento teve a esperança de que já tinha conseguido fugir, mas após refletir melhor, nunca parariam de seguí-lo. Iriam atrás dele até o inferno. Começava a sentir insegurança na sua escolha, os domeinn não parariam sua busca caso conseguisse chegar aos pântanos. Talvez tivesse sido melhor voltar para sua tribo e lutar contra a injustiça de que fora vítima.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho do rio, estava perto. Abandonou a ideia de voltar para casa, pois já chegara em seu destino. A reflexão e o alívio de estar à beira do sucesso em sua fuga tirou sua atenção por alguns instantes, instantes que foram cruciais para o desfecho de sua escapada. Sentiu uma forte pancada na sua perna direita que o arremessou ao ar. Ao cair no chão, caiu em cima de seu ombro, que saiu do lugar. Mas nada se comparava à dor aguda e inimaginável que sentia na perna, ela estava quebrada. Em sua desatenção, um bode controlado pelos domeinn o acertou com uma impiedosa e certeira investida. Sua fuga havia terminado, talvez sua vida também. Em meio aos seus gritos de dor e desespero, já podia ouvir os passos de seus perseguidores se aproximando. O bleidr havia sido capturado.

Parte II

Um passo no passado…

A passos firmes e determinados, Kaliska se aproximava da cabana. Localizada em um campo de grama alta e já secando com a aproximação do inverno, a paisagem era sombria. A neblina do alvorecer contribuía para que o clima ficasse mais carregado, contudo, indicava um dia de sol com o decorrer das horas. A cabana era velha e feita de madeira, as rachaduras e a inclinação desajeitada indicavam que aquela construção já vira muitos verões.

O bleidr trazia preso ao cinto seu par de facas, característico armamento de sua tribo. As facas permitiam-lhe movimentos velozes e amplos, apesar de serem pequenas e garantirem sua mobilidade, eram tão mortais quanto as cimitarras e sabres dos domeinn. As calças de couro cobriam suas pernas até a altura dos joelhos. Não podiam cobrir seus pés, pois o impediria de correr e a velocidade dos bleidrs na corrida era amplamente conhecida. No pescoço, o colar de penas, o símbolo do sucesso em concluir o seu rito de passagem para a idade adulta. As pinturas no rosto indicavam o motivo de sua vinda até a cabana, luta e morte. Com tinta negra cobriu toda a faixa dos olhos e sobrancelha, no resto de seu rosto e testa, listras verticais de tinta vermelha finalizavam a representação de guerra das suas intenções. Seus olhos que imitavam a cor da terra vermelha escondiam-se por entre os fios de cabelo negro que caíam em seu rosto e ombros.

O formato de seus pés permitia que desse passos extremamente silenciosos, davam-lhe a garantia de que sua chegada não seria percebida. Chegando a entrada da cabana, tentou observar por entre as janelas quebradas se sua vítima estava lá dentro. Não pode ver claramente, mas era certo que havia alguém lá. Não quis entrar pela porta, pois seria muito óbvio, estaria completamente vulnerável a um ataque e perderia o elemento surpresa. Contornando a cabana, Kaliska chegou à parte de trás onde havia uma janela e onde também pensou que entraria pelas costas de seu inimigo. Sacando as suas facas e dando um profundo suspiro, investiu em direção a cabana e com um salto com os joelhos e cotovelos á frente. Quebrou a janela que já não tinha vidros mais.

Em seu interior a cabana era de apenas um cômodo, grande o suficiente para sua luta, grande o suficiente para sua vingança.

Da forma que havia imaginado, seu inimigo estava de costas. Mas não perto o suficiente da janela para desferir rapidamente junto de sua entrada, um golpe fatal. Tão imediatamente quanto a sua entrada, o visitante da cabana virou-se e confirmou o que o bleidr já tinha certeza. Era ele, Andhuil Jian, alto membro da justiça domeinn. Em dias já passados, mas não esquecidos, fora comandante de tropas no exército e também da polícia domeinn. Um homem acima de qualquer suspeita, a serviço da justiça e da verdade. Não era essa a certeza que Kaliska tinha. Andhuil não vestia os mantos dos oficiais da justiça, vestia sua armadura dos tempos de comandante. Uma armadura marrom e escura naturalmente, mas estava ainda mais escura pelos anos guardada em algum baú. A armadura leve e por baixo uma cota de couro endurecido fornecia uma boa proteção contra cortes, mas não era muito eficiente contra perfurações. O bleidr sabia disso e já tinha uma estratégia para batalhar contra o ex-comandante.

A forma física do domeinn já não era a dos seus anos de ouro á frente de suas tropas. Os olhos não escondiam como os anos foram cruéis, nem os cabelos grisalhos bem aparados á moda dos militares. Apesar de não mais poder executar com o mesmo vigor os seus movimentos de batalha, ainda não havia se esquecido deles.

Andhuil ficou surpreso com a entrada explosiva do jovem bleidr, entretanto, seu semblante não deixou de ser de confiança e tranquilidade.

– Creio meu jovem, que minhas palavras serão como folhas arremessadas ao vento. Você não quer ouvi-las estou certo?

– A única coisa que quero ouvir é o som da sua carne sendo rasgada. – rosnou o bleidr antes mesmo do último som sair dos lábios de seu mortal inimigo.

Juntamente com o movimento para sacar sua cimitarra da bainha, o membro da alta corte de justiça proferiu suas últimas palavras antes do início do embate:

– Então espero que consiga encontrar o que deseja em sua vingança meu jovem. E de antemão já afirmo, não encontrará…

– Irei descobrir isso quando seu sangue sujar o assoalho desta velha cabana, sua sereia maldita! – Kaliska parecia cuspir as palavras. Seu peito ardia em fúria e com o seu último insulto, partiu para o ataque. Facas em mãos e olhar fixo, com um largo passo abaixou-se e tentou uma estocada de baixo para cima em Andhuil. O alvo, seu estômago. O desejo de Kaliska era que o ex-comandante sangrasse e sofresse vagarosamente até sua morte. Sua fúria fez com que subestimasse seu oponente, que direcionou sua cimitarra para decepar sua mão, sem sucesso. Mas com o pé direito pisou na outra mão do bleidr e com o joelho esquerdo coberto com sua armadura leve, acertou o nariz e boca do jovem. A primeira gota de sangue a manchar o chão da antiga cabana, não era o do ex-comandante como Kaliska havia idealizado.

De cabeça baixa e um pouco desorientado, Kaliska era um alvo fácil. Andhuil segurou o cabo esculpido de sua cimitarra, e tentou um golpe que atravessaria as costas do bleidr e encerraria a peleja precocemente. O jovem, que ainda desfrutava da agilidade de sua idade, livrou sua mão que estava presa e rolou para o lado e levantou-se rapidamente. Ao observar o domeinn, em guarda, percebeu que já demonstrava os primeiros sinais de desgaste. Levando em consideração sua primeira investida e o golpe que recebera, se seu inimigo fosse dez ou quinze anos mais jovem teria quebrado seu pescoço. Se quisesse vencer a luta, teria que cansar seu adversário primeiro. Sem esquecer de não ser imprudente, Kaliska avançou de forma explosiva desferindo incontáveis e incessantes ataques que poderiam ser facilmente defendidos. Com o objetivo de esgotar as energias de Andhuil e se certificando que o próximo ataque sempre seria rápido o suficiente para que não houvesse espaço para contra ataques, o bleidr saltava e girava em torno do ex-comandante que demorava cada vez mais para defender-se dos cada vez mais velozes ataques do jovem. Defendendo e caminhando para trás, Andhuil sentiu a parede da cabana cada vez mais perto de suas costas. Já cansado e sem esperanças de sair vivo daquele lugar desafortunado, conseguiu defender-se uma última vez. Com o braço desviou a punhalada de seu peito, mas não teve fôlego e reflexo suficiente para impedir o soco que atingiu seu queixo. Quase que nocauteado, cambaleou para trás e se escorou na parede quando sentiu a dor de sua morte. Junto da dor o domeinn deixou escapar um gemido.

Logo após o golpe certeiro no queixo do domeinn, Kaliska arremessou sua faca no peito de Andhuil. A arremessou com tanta força e ódio que ficou de fora apenas o cabo da arma. O ex-comandante via a satisfação no olhar do jovem, o êxtase, mas o via apenas embaçado e então, as trevas. Estava morto Andhuil Jian.

No seu caminhar da vitória em direção ao corpo do ex-comandante para reaver sua arma, o jovem e vitorioso bleidr viu algo que chamou sua atenção. Um papel dobrado estava no cinto do domeinn, era uma carta. Sem controlar sua curiosidade, apanhou a carta e leu. A cada palavra que lia, o tornava mais ofegante. Ao final da carta, uma lágrima manchou a pintura do seu rosto. Não podia voltar no tempo e trazer de volta à vida o ex-comandante que de nada tinha culpa, também compreendeu o desfalecido quando antes de começarem o combate não tentou contar a verdade. Kaliska sabia que não acreditaria, estava cego de ódio. O som de latidos o deixaram alerta, um grito do lado de fora da cabana chegou-lhe aos ouvidos e gelou seu coração, “O selvagem matou o chefe Andhuil, peguem ele!”. Ele estava na cena do “crime”. Não poderia provar o que acabara de descobrir, a carta que estava em suas mãos nunca chegaria à corte caso houvesse um julgamento. Não podia provar sua inocência, mesmo que tivesse um julgamento justo, o alto escalão do reino domeinn daria um jeito de silenciá-lo. Sua única opção era fugir, correu em direção a janela pela qual entrara e saltou para fora. Correu por alguns metros e escondeu-se em um arbusto, seu destino era incerto. Sua vida estava arruinada e talvez a de seu povo também.

Parte III

Outro passo no passado…

Os primeiros raios de sol já invadiam o quarto. O que acordou o juiz da primeira corte foram os chamados do lado de fora de sua casa. Já sabia do que se tratava, a noite havia sido agitada.

Nas últimas semanas as propriedades mais afastadas da cidade-estado de Tertai estavam sendo atacadas, todavia os relatos de ataques cessaram com a implantação de patrulhas. As fazendas alvo tinham como localização a parte mais próxima das florestas. Com todas as probabilidades apontando como culpados os bleidrs, o juiz da primeira corte ainda dava-lhes o benefício da dúvida.

Desta vez tinha certeza de que era algo mais grave. Levantou de sua cama e foi até a porta para ver do que se tratava:

– Chefe Andhuil, passaram dos limites desta vez. E agora não restam dúvidas de quem é a culpa. – Era um soldado jovem, estava ofegante. Provavelmente vira correndo do local do ocorrido para avisar-lhe.

Andhuil Jian ascendeu ao cargo de juiz da primeira corte após ser comandante de tropas do exército bem como da polícia. Nos poucos anos que assumira o cargo, já havia deposto seis ministros por corrupção. Com o avanço da idade já não podia mais comandar as tropas domeinn, bem como não tinha mais fôlego para tal tarefa.

– Acalme-se garoto, respire um pouco. O que houve desta vez? – perguntou ao soldado ainda coçando os olhos e tentando despertar.

– Além do roubo dos animais como de costume, mataram um soldado da patrulha que implantou chefe. – o jovem parecia não ter ouvido o pedido do juiz para que respirasse. Estava muito impressionado e olhava para o seu superior quase que desejando um afago nos cabelos. Esta deveria ser a primeira vez que viu um cadáver.

De um momento para outro, Andhuil recebeu uma descarga de adrenalina que o despertou imediatamente.

– Está me dizendo que mataram um soldado da patrulha meu jovem? Isso é inadmissível. Vá à frente, irei o mais rápido possível. Antes de ir, indique ao meu cavalo o local exato que devo ir.

O jovem ainda ficou por alguns instantes parado na frente da porta do juiz antes de partir.

De volta dentro de sua casa, Andhuil se sentia um pouco perdido. Não fazia sentido simples ladrões matarem um soldado da patrulha. Levando em conta as semanas sem furtos, os autores do crime estiveram este tempo planejando a barbárie. Por mais que o jovem nunca houvesse visto um cadáver na vida, provavelmente a cena fora chocante para que estivesse em tal estado de desespero.

Ainda tentando encontrar uma ligação que pudesse explicar o assassinato do guarda, o juiz já estava  trajado nas vetes oficiais dos membros do judiciário da sociedade domeinn. Camisa e calças azuis tinham por cima uma túnica branca que ia até abaixo dos joelhos. Ambos de um tecido fino e fresco ajudavam contra o calor forte da região. Ainda para proteger-se do sol forte, usava na cabeça um turbante azul escuro. Indicando sua alta posição, em cada pulso trazia um bracelete ornamentado. De um lado um esculpido com um touro e, do outro lado, uma coruja. Estas esculturas eram a representação da justiça. A coruja, sábia, julga. O touro, forte, pune.

Saiu de seu quarto e percorreu o corredor até a sala, onde em um belo cavalete de madeira estava sua cela. Com ela em mãos saiu para a entrada de sua casa.

Em comparação aos demais membros da alta sociedade domeinn, que ostentavam grandes mansões, a casa do juiz era bastante pequena. Depois dos portões, sempre vigiados por um par de guardas, uma entrada com um jardim e aos fundos o pequeno estábulo. Andhuil era contra o luxo excessivo dos poderosos, enquanto os lavradores passavam por dificuldades nos arredores da cidade-estado.

Chamou seu cavalo que estava no estábulo, colocou-lhe a cela e pediu que o levasse ao lugar indicado mais cedo pelo jovem que o avisara do crime. Quando falavam aos animais, as vozes dos domeinn pareciam entoar uma melodia que vinha do seu interior, que vinha de sua alma:

– Rápido meu amigo Maalek. – foi o que ordenou ao seu cavalo após montá-lo. Inclinou sobre o corpo do cavalo, e segurou-se no pescoço do animal antes que saísse a galope pelas ruas.

Os cavalos montados pelos domeinn não tinham rédeas. Os cavaleiros guiavam seus animais com suas vozes.

As ruas da parte mais nobre da cidade eram todas pavimentadas. As mansões tinham seus telhados chatos ou com abóbadas, sempre com plantas ou até mesmo pequenos jardins. A coloração sempre clara, na maioria das vezes branca, ajudava a manter ameno o clima nos seus interiores.

A caminho do lado sul da cidade-estado. Local onde ficavam a maioria das fazendas e plantações. Andhuil ainda pensava excessivamente no que faria para investigar o caso e solucionar a situação.

Após quase uma hora de viagem, o juiz já estava na zona periférica da cidade. As ruas eram de terra batida, a pobreza nítida. Apenas algumas casas tinham os tetos pintados de branco. A paisagem destoava completamente da beleza e do conforto da área mais próxima ao litoral.

Com o sol a pino, ao longe já podia observar uma pequena aglomeração. Foi tomado por um sentimento ruim. Até o presente momento, Andhuil apenas tinha os fatos em sua mente. Não tivera tempo de digerir bem a história. Estava tomando um choque de realidade.

Era uma propriedade bastante simples. Os donos muito humildes criavam porcos e plantavam batatas. Relataram que lhes foram roubados dois animais.

Contudo, o que lhe trouxera até ali estava mais adiante. Após ter trocado poucas palavras com os donos das terras, que estavam em seu casebre, o juiz desmontou de seu cavalo e foi caminhando até o pequeno contingente de soldados. A passos lentos e pensativo, chegou ao lugar onde a vida do guarda da patrulha noturna fora tirada.

– Notoriamente uma execução. – constatou Andhuil ao observar o cadáver estendido no chão.

Agora compreendia a expressão de desespero do jovem, que não estava no local, que lhe relatara o crime mais cedo. O guarda tinha uma faca cravada em sua nuca. A lâmina atravessou seu pescoço, e mostrava sua ponta alguns centímetros abaixo do pomo de adão do falecido. As pernas estavam surradas, provavelmente fraturadas. Até aí algo não muito assustador. O que impressionava, era a expressão de terror no rosto do morto. Com toda certeza fora torturado psicologicamente antes de seu assassinato. Deve ter ouvido incessantemente que iria morrer, e de que nada podia fazer.

No recinto havia sete guardas, todos da patrulha noturna. Seus rostos mostravam sua insegurança, afinal, poderia ter sido qualquer um deles. Qualquer um podia ser o próximo.

– O que faremos agora chefe? – indagou com a voz trêmula, um guarda que o olhava com a esperança de que os mandassem para casa.

– Quem encontrou o corpo? – perguntou Andhuil firme.

– Eu o encontrei chefe. – disse erguendo a mão um outro guarda. Ele era baixo e velho. – Era a troca de turno, não faltavam muitas horas para amanhecer.

– Entendo. Avisem a família do pobre coitado a respeito do acontecido. Levem meus sentimentos à pobre esposa e filho. A faca é certamente de um bleidr, suas armas são inconfundíveis.

– Ele era sozinho chefe. – disse ainda o velho.

– Então tirem a faca e me entreguem como prova do crime. Após isso, dê ao nosso bravo guarda um funeral apropriado. – após ditas suas ordens, Andhuil ia se virando para voltar ao seu cavalo, que ficara próximo ao casebre dos proprietários, quando percebeu a chegada de alguém que o animou.

– Saudações irmão. – cumprimentou o juiz em tom informal.

Era Faraj Al’Massud. Político jovem e de ascensão rápida, tornou-se um dos três ministros que comandam a cidade-estado com a ajuda de Andhuil. Vinha de uma família pobre e partilhava dos ideais de justiça do ex-comandante. O ajudara a depor corruptos após sua chegada ao cargo de juiz. Faraj estava acompanhado do soldado que avisara Andhuil do ocorrido.

– Faraj! – saudou seu amigo da mesma forma – O que lhe despertou a vontade de envolver-se com este caso?

– A justiça como sempre meu caro. – disse Faraj erguendo o punho cerrado e um sorriso ao canto da boca.

– Conheço seu espírito de guerreiro, sua ânsia por justiça. Contudo não tenho ainda uma ideia de como proceder. – Andhuil parecia realmente em dúvida do que fazer ou por onde começar.

Faraj ainda estava montado em seu cavalo, que era marrom e tinha o final das patas dianteiras brancas. Sua juventude saltava-lhe dos olhos. Brilhantes e vivos, eram negros e contrastavam com seus cabelos castanhos.

– Não podemos é ficar aqui, cogitando e especulando sobre o que aconteceu e o que devemos fazer.

– Também não podemos agir de forma precipitada Faraj, sabe bem disso. – Andhuil estava preocupado, era um caso extremamente delicado. As tensões entre as duas raças podiam se exaltar novamente. O que menos precisavam naquele momento era de retaliação, e uma retaliação iria com certeza reviver os confrontos. Com a retomada dos confrontos a guerra iria voltar e talvez não tivesse o fim “pacífico” que teve. O único fim que poderia existir para uma guerra era a obliteração.

– Já tem a prova do crime. Só precisamos do autor agora Andhuil. Vamos entrar nestas florestas e investigar as tribos mais próximas. Provavelmente o assassino estará em alguma destas tribos. Não terá saído de tão longe para intervir em assuntos dos quais nem tem conhecimento. – Faraj estava visivelmente empolgado e engajado na missão de encontrar o criminoso. – Não está ficando mole com a idade não é meu velho? – tinha um ar de provocação em sua voz, queria encorajar Andhuil.

– Sua juventude e paixão me motivam meu irmão. E você sabe muito bem que quando o assunto é o meu senso de certo e errado e os meus valores, eu sou de ferro.

– Então não se deixe enferrujar meu velho! – Faraj já tinha dado por certa a decisão de adentrar a floresta por parte de Andhuil.

O juiz chamou pelo seu cavalo, que veio trotando até onde estava. Montou e pediu para o velho guarda da patrulha:

– Enrole a faca em algum pano e me entregue. – disse estendendo-lhe a mão.

O velho prontamente sacou seu sabre e cortou um pedaço de suas vestes para enrolar a arma do crime. O velho tinha um problema em seu joelho, que o fazia mancar.

– Aqui chefe. – entregou o embrulho para Andhuil.

– Antes de partirmos quero que fique bem claro! – e engrossou a voz – Tenham cuidado com seus atos e suas palavras. Esta é uma incursão pura e unicamente investigativa. Não iremos fazer o serviço do carrasco. Conto com sua cooperação homens. – após dar as diretrizes, tomou a frente junto de Faraj e rumaram em direção à entrada da floresta.

Não era uma mata muito densa. As árvores da floresta eram altas e ofereciam madeira de boa qualidade. As tribos dos bleidr estavam ficando cada vez mais encurraladas floresta adentro com o “progresso” da cidade-estado dos domeinn.

Os domeinn tinham mapeado todas as tribos que encontraram quando descobriram a existência dos bleidr. Traçaram seu curso direto para a tribo mais próxima.

Ao atravessar a faixa mais estreita da floresta chegaram a uma pequena tribo. As casas ornamentadas que mais se pareciam cabanas tinham  o seu charme. Tinham penas e pinturas em suas paredes e o teto era de palha seca. A tribo era formada por um corredor destas casas. Eram todas diferentes umas das outras. Uma aldeia simples, mas encantadora. Uma fogueira ao fim do corredor assava a caça que serviria de almoço. Mais ao fundo, uma cabana maior. Ostentava um teto mais alto e um totem em seu topo. Era a cabana do chefe da tribo. Atualmente a tribo era separada pela faixa mais fina de floresta, mas já fora escondida nas profundezas da mesma. Antes do crescimento da sociedade domeinn bater-lhes à porta.

A pequena comitiva foi recebida cordialmente. As crianças vieram sorridentes e saltitantes cumprimentando os visitantes. Os adultos apesar de receosos, foram receptivos aos estranhos.

Andhuil estava cauteloso. Havia repassado em sua mente seu discurso por todo o caminho.

Os ânimos exaltados e a “festa” dos pequenos pouparam Andhuil do trabalho de pedir para falar com o líder da aldeia.

Da cabana grande que estava ao fundo, bem para trás da fogueira, veio caminhando um casal. Uma mulher que já não era tão jovem, contudo, sua idade parecia condizer com sua posição. O que causou estranhamento no juiz foi o homem que a acompanhava. Muito jovem para ser o líder daquela tribo.

– Sejam bem-vindos à nossa humilde aldeia. – pronunciou-se a mulher recepcionando os visitantes. – O que os trazem aqui. – apesar da cordialidade expressa em sua voz, a mulher tinha em suas feições muita cautela. Não conhecia o verdadeiro motivo da vinda dos domeinn, no entanto, era notório que não estavam ali para confraternizar.

Andhuil prontamente identificou características típicas de um líder na mulher que lhes falava. O jovem que a acompanhava ainda se mostrava um mistério. Não fazia cara de bons amigos e parecia um pouco nervoso, talvez incomodado com sua presença.

– Agradeço sua receptividade minha senhora. Um assunto delicado nos trouxe até aqui. Estamos investigando um assassinato.- Andhuil media suas palavras como se conta as gramas de ouro. – temos a prova de que o assassino – e baixou o tom de voz – é um de vocês, um bleidr.

Discretamente abriu parte do embrulho que trazia consigo, e mostrou a faca ornamentada suja de sangue para a líder da tribo. Imediatamente, como se tivesse cutucado um animal feroz enquanto dormia, o jovem rapaz que acompanhava a mulher explodiu:

– Besteira! – gritava – Vocês são gananciosos e querem tomar o que restou da floresta para confeccionar suas futilidades. Forjam um crime, nos culpam e vieram até aqui para escolherem alguém que possam punir!

O rapaz era alto e forte, sua barba ainda era falha e rala. Seus olhos quase que eram capazes de ferir alguém. Transbordavam em fúria e indignação. Estava completamente alterado. Usava as calças típicas entre os bleidrs, de couro e até os joelhos. Um manto bege cobria seu corpo.

– Voltem para o buraco de onde saíram sereias malditas! – ainda esbravejava enquanto caminhava em direção aos domeinn em ar desafiador. A mulher nada fez para impedir, nem tentou censurar o rapaz. Parecia impotente quando deveria controlar o jovem que estava para fazer uma besteira.

– Meça suas palavras seu animal selvagem! – Faraj sentiu-se ofendido e incitou seu cavalo em direção do bleidr – Retire o que disse, e rápido.

Faraj encarava respondendo ao desafio do rapaz, enquanto cerrava o punho no cabo da cimitarra que trazia junto à cela de seu cavalo. Andhuil já previa o confronto. A impaciência da idade dos dois poderia por em risco a paz entre os povos.

– Acalmem-se os dois. Viemos aqui apenas investigar, não estamos acusando ninguém. – disse olhando para os dois – Posicione-se minha senhora, contenha seu parceiro! – a expressão na face da mulher era de paralisamento. Não tinha vontade de parar o jovem rapaz que escolhera como parceiro.

O pedido do juiz para a líder da aldeia feriu o orgulho do rapaz. Abriu os braços jogando a manta que lhe cobria o corpo no chão. Seu tórax e abdômen eram definidos, dos cotovelos cresciam espinhos ósseos. Fruto do desenvolvimento desordenado dos ossos, uma característica em comum entre alguns bleidrs.

Soltando um urro avançou sobre Andhuil e seu cavalo. A força do rapaz era notável. Chocou-se com o juiz e sua montaria jogando-lhes ao chão. Ao cair Andhuil bateu a cabeça no chão. Meio desorientado, não conseguiu distinguir o que se sucedeu. Percebeu apenas Faraj tomando a dianteira da situação e ordenando a prisão dos líderes da aldeia. Os demais bleidrs nada fizeram para impedir. Os soldados que acompanhavam os domeinn eram treinados e mesmo em menor número, poderiam facilmente repelir qualquer ataque dos aldeões.

Com a cabeça balançando e observando a grama passar, Andhuil estava consciente novamente. Olhou em volta e se deu conta que já estava no caminho de volta a Tertai. A comitiva era liderada por Faraj. Sentiu orgulho de seu jovem amigo, conseguira contornar a situação e tirar-lhes da aldeia com vida e sem mortes. Sendo escoltada por apenas um guarda, a líder da aldeia caminhava livre e de cabeça baixa, parecia mergulhada em lembranças. Já o jovem explosivo estava desacordado e amarrado. Estava sendo levado no lombo do cavalo que Faraj usara.

– O que aconteceu Faraj!? – perguntou ainda tentando se situar.

– Ah! Então você resolveu acordar. – disse em tom zombeteiro – Os animais quiseram resolver da única forma que conhecem, na ignorância.

– Você não feriu aquelas pessoas certo meu irmão? – Andhuil estava preocupado com a situação. Os bleidrs viviam espalhados pela floresta, contudo, eram um povo muito unido. A notícia da prisão dos dois líderes de uma aldeia poderia gerar revolta.

– Não meu velho. Apenas os trouxe conosco para esclarecimentos. Quero saber o motivo de nosso enérgico rapaz aqui – deu um tapa nas costas do bleidr desacordado – ter nos agredido desta forma. Quem não deve não teme. Creio também que irão cooperar nas investigações do assassinato desta madrugada.

O orgulho e a alegria de ver tamanha capacidade no jovem que vira crescer, deram a certeza de que Tertai veria dias melhores em um futuro não tão longe.

A tranquila viagem de volta para a cidade foi interrompida por um ataque, era para ser um resgate. Do caminho pelo qual percorreram, a toda velocidade, veio um bleidr correndo. Com o rosto pintado e uma lança de madeira com ponta de obsidiana em riste atravessou o velho guarda que cobria a retaguarda da pequena comitiva. Jogando para o lado a lança e o velho que agonizava junto, sacou suas facas do cinto e investiu para tentar libertar a mulher.

– Prendam o animal! – gritou Faraj. Andhuil ainda estava “anestesiado” após sua batida forte de cabeça no chão. O jovem que os atacara devia regular na idade com o parceiro da líder da aldeia, um pouco mais jovem talvez. Não era forte e grande, mas era ágil e esquivo. Tinha cabelos negros caídos nos ombros e sobre os olhos, que eram da cor da terra vermelha.

A fúria do ataque limitou os pensamentos do bleidr. Foi contido e capturado facilmente pelos guardas da patrulha.

– Talvez tenhamos aqui o nosso assassino. Quem mata uma vez não tem problemas em matar novamente. – Faraj aproximou-se do jovem imobilizado no chão – Animais não pensam mesmo…

– Eu tenho um nome sereia de pernas. Meu nome é Kaliska! E exijo que soltem minha mãe. Ela de nada tem culpa. – o jovem segurava o choro. Sabia que agira sem pensar.

– Ela será solta se o que diz é verdade meu caro. – o tom de Faraj era acolhedor. Podia ver nos olhos do recém capturado uma dor que talvez conhecesse. – Ela pode não ser mais tão jovem, mas não é velha o suficiente para ser sua mãe.

– Minha mãe morreu no parto. Desde então ela me adotou e me amou como um próprio filho.

– Errou gravemente ao tirar a vida daquele velho homem meu caro. Teremos que prendê-lo. – disse Faraj com pesar.

O sol já começava a se esconder no horizonte quando Andhuil, Faraj e os guardas da patrulha chegaram em Tertai. Dirigiram-se ao presídio, que ficava na parte norte da periferia da cidade. Algemaram os líderes e os deixaram em uma cela provisória, onde ficavam os suspeitos. Kaliska foi levado ao subsolo, onde ficavam as celas para criminosos já condenados.

Na entrada na prisão, na portaria, Andhuil estava sentado ainda sentindo dores e enjôos. Faraj chegou para o juiz com um olhar assustado:

– Seja discreto meu velho. – o tom de sua voz era irreconhecível. Muito diferente do tom confiante e com ar de zombaria de costume. – Estava interrogando os selvagens meu velho. E não tenho boas notícias.

– O que descobriu irmão. – Andhuil estava assustado com a expressão de jovem ministro. – O que pode ser tão ruim a ponto de tirar-lhe a paz?

– Nossa luta por justiça meu velho, nosso sonho de uma Tertai mais justa e igualitária está muito longe. – olhando para os lados e baixando o tom de voz completou – Não posso dizer mais nada. Não é seguro. Preciso que me encontre amanhã, bem cedo. Antes do raiar do dia me encontre no casebre da propriedade que fomos hoje. Os moradores foram despejados e os pouco móveis que tinham foram confiscados. Vá com seu uniforme de comandante, futuramente precisaremos da sua reputação, dos homens que ainda lhe são leais. Tempos negros se aproximam de nós. Agora vá, não podemos ser vistos juntos por muito tempo.

Andhuil estava perplexo. Nunca havia visto seu amigo assim. Tinha total confiança em Faraj e sabia que ele nunca brincaria com algo tão sério:

– Tudo bem meu caro. – disse também com a voz baixa enquanto o abraçava – Você me orgulha a cada dia. Fico alegre em poder te chamar de irmão.

Faraj sorriu. O juiz levantou-se e caminhou para a saída do presídio. Chamou seu cavalo, montou e seguiu o conselho do amigo, foi para sua casa descansar. Talvez esta fosse sua última noite de sono tranquilo, ou nem tanto.

Ao ver Andhuil se afastar cada vez mais, sua expressão mudava. Tinha um sorriso curto, triunfante. Os olhos espremidos em exaltação. Levantou-se e caminhou até os fundos da recepção, onde estava Darid e onde ficavam as celas provisórias. Darid que havia avisado o juiz e Faraj sobre o assassinato do guarda da patrulha. Não havia guardas, Faraj ordenara mais cedo que lhe dessem privacidade.

– Darid, entregue as chaves. – disse estendendo a mão aberta. Darid estava sentado à mesa onde ficavam as chaves.

– Aqui Ministro.

– Entregue também sua cimitarra. – Faraj sibilava as palavras. Darid sem questionar obedeceu imediatamente, embora não soubesse das intenções do ministro. Apenas tinha o palpite de que não seria morto.

Com as chaves e a arma em mãos. Faraj caminhou até a cela do bleidr que os atacara mais cedo na aldeia. Abriu a cela e apertou-lhe a mão.

– Muito bom! Merecia um prêmio por sua atuação. – cumprimentou como que a um amigo de infância. A mulher na cela ao lado, líder da tribo e parceira do rapaz, desesperou-se e começou a chorar ao perceber que fora traída.

– Espero que cumpra com todas as suas promessas Faraj. Não serei ludibriado como bem sabe. – o bleidr sorria de orelha a orelha.

– Claro que sei… – riu – Claro que sei!

O ministro em um movimento rápido e imprevisto cortou a barriga do bleidr, que caiu no chão abraçando a ferida inutilmente em uma tentativa inocente de conter o sangramento.

– C-Como… – o bleidr não acreditava no que estava acontecendo – Sereia maldita! T-Traidor!

– Seus serviços não são mais necessários selvagem. – e cortou-lhe a garganta.

O rapaz caiu em meio a uma enorme poça do seu próprio sangue ainda com os braços na barriga. Darid estava imóvel, e a mulher havia parado de chorar. Os olhos da líder da aldeia eram uma janela para a solidão, pareciam os olhos de um morto.

– Esta aí não é perigo para ninguém, deixe-a a própria sorte. – ordenou a Darid recolhendo o cinto com as facas que foram apreendidas de Kaliska.

Após seu “acerto de contas”. Faraj desceu as escadas até onde estava preso Kaliska. O acesso ao subsolo era paralelo aos fundos da entrada do presídio, não tinham ligação.

Kaliska estava perdido em pensamentos e memórias, quando um homem aparentando um bom coração surgiu trazendo suas armas.

– Odeio injustiças meu jovem. – o ministro demonstrava compaixão. Estava provando ser um homem de muitas faces. – O juiz da primeira corte ordenou a execução de sua mãe e do parceiro dela. Sem mesmo um julgamento. Ele se acha a própria justiça e você é o próximo.

O jovem estava desorientado com tantos acontecimentos em tão pouco tempo.

– Como assim? Foram mortos? Sob qual acusação? – suas voz bem como seus olhos tremiam em desespero – Nem sequer houve uma investigação.

– Como disse, ele julga ser a personificação da justiça meu jovem. E como não podia ficar de braços cruzados e ver também você morrer injustamente, resolvi libertar-te.

– Por que está me ajudando? – perguntou Kaliska.

– Porque há algo em você que nos une. – pela primeira vez em muito tempo Faraj dizia a verdade. Havia algo no bleidr que o inspirava cumplicidade. Mas não era este o motivo da ajuda. – Imagino que anseie por vingança. Trouxe suas facas jovem, e também uma informação que irá agradá-lo.

– Por qual razão devo confiar em você? – Kaliska ainda desconfiava da bondade excessiva do ministro.

– Não confie se quiser. A escolha é sua, mas a informação que tenho é de ouro. Amanhã bem cedo o juiz da primeira corte se reunirá com alguns membros do exército. Ele planeja atacar as tribos em retaliação ao assassinato do guarda.

Kaliska queria mais que tudo vingar sua mãe adotiva. Fazendo isto poderia iniciar uma guerra, ou por fim ao mal entendido. A ideia era ótima.

– Aonde irão se encontrar? – indagou atando o cinto à cintura.

– Na cabana da propriedade onde ocorreu o crime. Você sabe como chegar lá? – Faraj queria certificar-se de que Kaliska iria encontrar o local. Já fora tão longe, agora nada podia dar errado.

– Sei muito bem onde é. – disse o bleidr seguro – Eu estava bem atento ao caminho.

– Muito bem. As escadas ao fim deste corredor o levarão a saída. Não se preocupe com guardas, eles estão comendo.

– Você é um homem justo e honesto. Espero que não tenha criado problemas para si me ajudando. – agradeceu sinceramente ao ministro e partiu.

Estava feito. Faraj obtivera sucesso em seu plano. Andhuil não teria fôlego nem forma física suficiente para parar o jovem em fúria. Agora precisava se encarregar dos preparativos finais.

Da forma como combinara com seu “irmão”, Andhuil chegou antes do sol nascer na cabana que estiveram no dia anterior. Logo na entrada do casebre, havia um papel dobrado, uma carta.

“Seu algoz está a caminho meu velho.

Nossa cidade não precisa de igualdade, justiça nem nada destas coisas. Precisa de um punho de ferro comandando-a. Precisa de um regente, um que tenha plenos poderes para tomar as decisões de interesse de todos. Precisa de um imperador. Nada melhor do que uma ameaça externa, uma ameaça de guerra para que todos percebam isso. E irão escolher para representá-los um filho do povo, eu. Não nasci em berço de ouro, portanto, serei escolhido facilmente para a função. Os bleidrs estão com os dias contados, vou extinguir essa raça de animais selvagens. Vou trazer de volta nossos tempos de ouro, quando tínhamos sob nosso controle todos os tipos de animais. Controlávamos ao nosso gosto. Nossas construções, nossas estradas foram todas feitas com trabalho animal. Hoje usamos apenas cavalos, cachorros e poucos outros para nos servir. Tudo para por fim aos conflitos entre nossos povos. Se eles não concordam com usarmos os animais para trabalhar por nós e servir-nos, então que pereçam. Que pereçam frente ao nosso poderoso, bem armado e organizado exército.

Não deixarei que seja esquecido, será um mártir. Será o símbolo da nossa luta contra os selvagens.

Descanse em paz meu velho,

Faraj Al’Massud“
Não podia crer no que seus olhos acabaram de mostrar. Fora traído por aquele que chamava de irmão. O plano de Faraj foi muito bem arquitetado. A esta altura, caso voltasse para alertar a todos seria tarde demais. Provavelmente Faraj já teria executado os prisioneiros e manipulado a todos para o apoiarem. O que podia fazer era tentar derrotar o jovem e convencê-lo de sua versão. Uma tarefa quase impossível já que não desfrutava mais do vigor de anos atrás. Entrou na cabana e ficou parado aguardando o bleidr. O dia cinzento o deixava triste, seu peito estava apertado. Talvez estes seriam seus últimos momentos de vida. Não queria morrer, apesar da idade, ainda tinha muito a viver. Um estampido o assustou, virou-se e viu que a hora havia chegado. Agora era tudo ou nada, viver ou morrer. Com as facas em mãos o bleidr o fitava com extrema fúria. Kaliska estava na cabana.

Final

A adrenalina e uma dor alucinante acordaram o bleidr. Estava na mesma cela onde um domeinn de bom coração o ajudara a fugir na noite anterior. Seu ombro estava no lugar, pode perceber que lhe fora dado atendimento médico. Ao tentar se levantar, a surpresa. Sua perna quebrada havia sido amputada na altura do joelho. A pancada foi extremamente forte, seu pé estava preso ao chão no momento do golpe.

Aos poucos recobrava a consciência, estava relembrando dos momentos que ficou caído na grama da floresta antes de desmaiar de dor. Lembrava-se que podia ver os ossos de sua perna saltando-lhe da pele, uma fratura exposta.

A medicina domeinn era avançada, mas não a ponto de operar sua perna. Conheciam uma vasta gama de medicamentos e faziam pequenos procedimentos cirúrgicos, contudo, não poderiam salvar sua perna e optaram por decepá-la. O curativo feito na sua perna amputada era de extrema habilidade. Sua perna e ombro doíam, provavelmente o efeito dos medicamentos passara.

– Sou inocente! Tirem-me desta jaula maldita! Existe um traidor entre vocês! Posso citar nomes! Tirem-me daqui! – Kaliska sentia-se gritando no deserto, ninguém ouvia, ninguém respondia. O arrependimento consumia sua mente, seus esforços para tentar sentir-se inocente eram inúteis. Queria sentir-se manipulado, induzido ao erro. Todavia, nada tirava de sua mente as vidas que tirou em nome de uma vingança que não existia. Sua fúria não era em vão, só fora canalizada no alvo errado.

O pobre velho que mancava, estava apenas tentando ter uma velhice tranquila. O jovem que matou em sua fuga, tinha tanta vida pela frente quanto ele próprio. O que mais lhe doía era ter matado o juiz da primeira corte, ele poderia ter sido seu aliado caso tivesse conseguido acalmar seus pensamentos.

Kaliska havia caído na armadilha de Faraj, todos caíram, e agora seu povo tinha seu destino selado. Todos iriam morrer. Nada podia fazer, sua mais forte habilidade perdeu-se no desfecho trágico de sua fuga.

O conformismo já começava a alojar-se, já havia feito tudo o que podia. Sem chances de fugir, permaneceu deitado pedindo em suas preces, perdão ao seu povo, à sua mãe, e aos mortos que deixara como rastro de suas últimas horas de vida. Um legado vergonhoso.

Um funeral foi organizado para o eterno ex-comandante das tropas domeinn, ex-comandante da polícia e juiz da primeira corte, Andhuil Jian. No centro de Tertai, em frente ao palácio do Ministério de Governo.

O palácio era grandioso, tinha todo o exterior pintado em relevo, grandes abóbadas no topo de suas torres e pequenos jardins como teto das construções mais baixas. Um grande prazer para os olhos.

Sob uma pira de madeira e palha seca, todos prestavam suas últimas homenagens ao adorado juiz. Um homem justo e humilde que inspirava admiração de todos. A esmagadora maioria dos habitantes de Tertai estavam em frente o palácio, unidos por um sentimento de medo.

No interior do Ministério, na câmara onde eram feitas as audiências entre os poderes de Tertai, estavam reunidos os homens mais poderosos da cidade-estado. Os três ministros, incluindo Faraj, o comandante do exército, o da polícia e os dois juízes da primeira corte. Com a morte de Andhuil, seu suplente assumiu seu cargo.

– Meus caros não podemos deixar que hajam da forma que bem entenderem! – Faraj discursava com eloquência – Eles respondem com violência e morte a nossa tentativa pacífica de justiça. Eu estava lá, quando avançaram sobre nós como cães famintos avançam sobre um pedaço de carne. Não fossem os bravos homens que nos acompanhavam, estariam velando hoje este jovem que vos fala!

Faraj tinha todos em suas mãos, ninguém duvidava de suas palavras. Todos estavam perplexos com a situação.

– Estes animais querem destruir nossa sociedade civilizada, deveriam unir-se a nós ao invés de semear a guerra. Após o fim da guerra, sempre estivemos abertos ao diálogo. Sempre quisemos a paz entre os povos. – O jovem fazia rodeios para conquistar seus ouvintes antes de fazer sua proposta irrecusável. – Não estamos mais seguros, esta é a verdade. Não podemos mais baixar nossas guardas em relação a estes animais. Por mais que doa minha alma, condenar algumas pessoas inocentes que possam existir naquelas tribos, nossa única saída é a guerra. Percebam meus caros, que não podemos apenas nos defender ou criar muros em volta de nossa cidade. Devemos erradicar este mal enquanto ele ainda não cresceu. Iremos viver enclausurados em nossas casas? Com medo? Não… Nós iremos à luta, vamos destruir aqueles que são contra a justiça, aqueles que são contra a paz. Foi preciso morrer nosso mais idolatrável ícone de justiça, considerava-o como um irmão de causa. Não deixarei que tenham levado Andhuil de graça. Que ele se torne um mártir, e um marco da nossa ascensão. Da nossa dominância nestas terras, da nossa vitória contra estes seres primitivos que desejam apenas a desordem. Então eu lhes pergunto, iremos a guerra?

Os rostos dos que ouviam Faraj estavam perceptivelmente engajados em seus ideais, e enfurecidos pela perda de alguém que tão bem conheciam, e que era tão bem quisto.

– Nossas tropas estarão em forma e prontas para o combate logo pela manhã, se todos assim concordarem. – O homem que se prontificou tão rapidamente era  Montah Arshan, comandante das tropas domeinn. Pele negra, experiente e forte, sucedeu Andhuil no cargo. – Não bastasse nossa superioridade numérica, nossas táticas e equipamentos são extremamente superiores.

Faraj queria mais, não bastava apenas aniquilar os bleidrs, queria se tornar um semideus em Tertai.

– Concordo com você comandante Montah, mas não basta. Precisamos nos fortalecer como “nação”. Somos extremamente burocráticos, precisamos centralizar o poder. Há muito ainda a ser descoberto neste mundo. Não creio que estejamos sozinhos com nossos irmãos de além mar. Nossas leis nos impediriam de nos defender de um ataque, por exemplo. Até que nos reuníssemos e aprovássemos a mobilização das nossas tropas, nossas praias e portos já teriam sido tomados. A prova de que somos vulneráveis tivemos esta manhã. Um dos membros do governo de nossa sociedade foi assassinado, e por um selvagem qualquer.

– Então o que sugere ministro Faraj? – Indagou Montah.

– Sugira que façamos uma eleição. Uma que defina um imperador para esta cidade-estado. O imperador deve ter plenos poderes para defender os interesses, e a segurança de nosso povo. Dissolveremos o ministério. Os ministros serão regentes para assuntos de menos importância e cuidarão da economia. O poder militar permanecerá o mesmo, sempre subordinado dos governantes de Tertai. O judiciário agirá por conta própria e só deverá prestar contas à coroa. O imperador deve ser de confiança, o suficiente para que possa sobrepor as ordens e decisões dos demais poderes quando necessário. Quem se candidata a tamanha honraria? – Já estavam todos envolvidos. Faraj tinha certeza que o escolheriam. Ele era o ministro mais querido do povo, era de família pobre e seria amplamente aceito pela população.

– Creio que só haja um homem com tais qualidades. Apenas uma pessoa nesta câmara tem completa capacidade de assumir tamanha responsabilidade. Você Faraj. – disse de forma calma e convicta o ministro mais velho de Tertai. Gan’Ith Barkun era velho e gordo, raspava os poucos cabelos que tinha nas laterais da cabeça. – É com total certeza que afirmo que ninguém discorda de minha opinião. – disse enquanto olhava um por um os demais membros presentes. – Também digo, com muita propriedade, que este seria o desejo de Andhuil.

Faraj nunca imaginou que seria tão difícil conter seu sorriso, estava em completo êxtase. Tinha confiança no seu plano, mas não imaginara que seria tão simples, que fluiria tão perfeitamente e sem contratempos.

– Estão certos disso? Há tantas pessoas mais competentes e experientes que eu nesta câmara. – dizia Faraj em falsa modéstia.

– Somos todos velhos e de imagem desgastada publicamente. Nossos cidadãos precisam de um rosto novo e jovem. E ninguém melhor que você, um filho do povo, para assumir esta nova e promissora era de Tertai. – Gan’Ith olhava depositando em Faraj, todas as esperanças do povo daquela cidade no novo imperador. – Estamos quebrando todos os protocolos em nome da segurança, estamos todos de acordo com a criação do posto de imperador? E com a ocupação do mesmo por Faraj?

Em uníssono, todos os presentes concordaram sem mais perguntas.

As ambições do jovem se concretizaram, era agora Imperador de Tertai. Nada estava mais em seu caminho, podia executar seu último ato. A última ação de seu plano, antes de poder desfrutar de uma vida de luxo e incontáveis prazeres como imperador.

– Meu primeiro decreto como imperador, é que tragam de volta o que nunca deveríamos ter deixado. Ordene que preparem nossa frota, partirão mesmo que durante a noite para a ilha de Siki. Tragam de volta nossos animais, eles são a prova de nossa superioridade. Retirem-se agora, por favor, preciso de alguns momentos sozinho para refletir. Muitas coisas aconteceram nas últimas horas em nossas vidas, e não tenho experiência da idade dos senhores, para lidar com naturalidade com minha nova e colossal responsabilidade.

– Como quiser Faraj. Iremos providenciar a partida de nossos navios, e o retorno de nossos animais. – disse Montah enquanto saía junto com os demais presentes. – Tem o tempo que precisar. Não se esqueça que precisa discursar para aquela multidão, imperador.

O título causava espasmos de satisfação em Faraj. Após todos terem saído, o Imperador de Tertai soltou o que tanto se esforçou para segurar, risos. O jovem gargalhava sozinho, vivera para a chegada deste momento. Quando uma voz falou-lhe direto aos pensamentos.

Tínhamos certeza que conseguiríamos, mas impressionou-me a facilidade com que tudo ocorreu.

– Também pensei isso minha cara, subestimei minha genialidade, Sahara. – Faraj dizia colocando o braço sobre a mesa, quando de dentro de sua manga saiu uma serpente negra. De escamas que tinham a aparência de uma rocha, cresciam-lhe dois “chifres” de cima de seus olhos profundamente amarelos. – Não me lembro mais da sensação de montar um cáguila, era criança quando montei pela última vez.

Sou uma serpente Faraj, não me agrada a ideia de ficar muito longe do chão. Não entendo o motivo de desejarem tão ferrenhamente poder voar. Ainda mais nas costas de tão horrendas criaturas que são os cáguilas. – a serpente que Faraj chamava de Sahara falava direto à sua consciência. Lendas poetizavam como os primeiros domeinn aprenderam a se comunicar com os animais. Segundo estas, foram com estas serpentes negras que ensinaram. A espécie não tinha nome, já que cada uma escolhia um nome para si própria. A habilidade de comunicação foi aprendida com as serpentes, a manipulação foi fruto de sua evolução. As serpentes negras eram seres extremamente inteligentes e de consciência, seres milenares.

Acho que antes de discursar aos infelizes que estão esperando, devia falar com o selvagem. Saia discretamente pelos fundos, afinal vocês tem a dor da perda em comum. – a serpente demonstrava extrema intimidade com Faraj.

– Melhor ir agora, caso contrário ele morrerá e não terei conversado com ele. Irei avisar aos velhos decrépitos que me retirarei por algum tempo, antes de discursar aos meus súditos. – Faraj não escondia sua verdadeira personalidade de sua íntima companheira.

Abriu a porta e deparou-se com Montah, pediu que avisasse aos demais que não estava muito bem. As reviravoltas recentes o deixaram tonto e enjoado, com ternura solicitou que acalmasse a multidão até que voltasse.

Sem questionamentos, o comandante concordou que Faraj ficasse por algumas horas repousando. O imperador disse que sairia pelos fundos, se deitaria em sua casa e retornaria o mais breve possível.

Após ter ludibriado facilmente o comandante, Faraj já na parte de fora dos fundos do palácio, chamou por seu cavalo. Montou e rumou para o presídio.

Kaliska já estava desejando a morte, cogitava poder salvar seu povo com a sua vida. Iria propor que o executassem em troca de deixaram os bleidrs em paz. Assumiria toda a culpa, mesmo do assassinato que não cometeu.

Ouviu os passos nas escadas, mas não se mexeu, pouco importava quem era. O visitante bateu nas barras da cela, Kaliska não queria se virar. Após algumas batidas com mais vigor, o visitante resolveu chamar o bleidr:

– Não seja rude com quem o ajudou, vire-se.

Kaliska virou-se e sentiu um misto de surpresa, esperança e dúvida.

-Você! O que faz aqui? Irá me ajudar novamente? Fui traído. Fui enganado. Sou inocente, tire-me daqui. – Kaliska retomava as esperanças, a visão daquele jovem rapaz que o ajudara o fez querer viver novamente.

Faraj sorriu. Achou graça na inocência do selvagem, ele ainda não sabia quem ele era.

– Me pedindo isso fica muito claro que não sabe quem sou. – disse Faraj em tom de desaprovação.

– Claro que sei, foi você que me ajudou a fugir. Mas devo te alertar, há um traidor entre vocês. Alguém que quer derrubar sua cidad… – A ficha caiu. Quem estava diante dele, ali naquele exato momento era o homem que traiu o juiz. – Você é…

– Faraj Al’Massud. – interrompeu o imperador – Vim aqui por conselho de uma amiga. – Faraj dizia enquanto acariciava a serpente enrolada em seu braço por baixo da manga.

– Maldito! – irrompeu em fúria o bleidr tentando se levantar e caindo logo em seguida – O que fiz para merecer isto? – e chorou.

– Você não, seu povo. Seu maldito e selvagem povo. Vermes inúteis. Inferiores e brutais. – o domeinn rangia as palavras por entre os dentes cerrados com fúria – Inerente à minha vontade, vim partilhar da minha dor, já que também perdeu sua mãe. Na verdade as duas. – Faraj estava mais calmo – A diferença, é que não perdi minha mãe, não a tiraram de mim. Eles destruíram, obliteraram, humilharam e dilaceraram a minha mãe.

Sabe, quando nosso povo descobriu a existência do seu, foi por acaso. Encontraram uma tribo durante a extração de madeira. Foi um alvoroço. Missões diplomáticas foram enviadas, relações foram criadas. Tudo corria na mais perfeita harmonia, até que seus líderes espirituais nos acusaram de bruxaria. Diziam ser obra dos espíritos malditos o nosso dom. Muitas tentativas de esclarecimento foram feitas, presentes de boa fé foram entregues. No auge do desespero para evitar os confrontos, até um cargo de confiança foi oferecido, um cargo de ministro. Todavia, nada adiantou. Começaram a nos ameaçar, disseram que se não parássemos de controlar os animais com nosso dom maldito, haveria guerra. Diziam também que era inadmissível que usássemos os animais como fonte de trabalho. Nunca maltratamos animal algum, sempre os oferecemos conforto e comida. Nunca os fizemos trabalhar excessivamente, trabalhavam em turnos de acordo com a intensidade do serviço, de quatro, cinco ou seis horas. Nunca mais que isso. Mas não era o suficiente. A guerra se deu início com o abatimento de um cáguila que sobrevoava a floresta, o soldado que o montava morreu na queda. Um pequeno regimento foi enviado para esclarecimentos, os bleidrs nos acusaram de vigiá-los com nosso dom maldito, os ânimos se exaltaram e a tribo foi dizimada. A partir daí, iniciou-se a carnificina. Não foi travada nenhuma grande batalha, eram feitas emboscadas. De ambos os lados eram cometidos assassinatos, mantidos prisioneiros. As tentativas de diplomacia sempre falhavam, esbarravam na espiritualidade de seu povo e no orgulho do meu. Até que a guerra chegou a mim. – Faraj parou por alguns instantes, engoliu seco e prosseguiu.

– Eu era uma criança, inocente e feliz vivendo no campo com meus pais e irmão. Em uma manhã de outono, não estava frio. Eu brincava dentro de casa quando ouvi meu pai gritar do lado de fora, minha mãe entrou em desespero e chorando. Ela dizia “Vai ficar tudo bem”, mas nunca ficaria. Deve ter sido muito difícil, olhar nos olhos do filho e mentir. Meu irmão aquela altura já estava morto, ele cavalgava pela nossa plantação quando uma lança atravessou sua costela. Meu pai, como um bom homem, saiu em defesa de seu lar e família. Ele estava sozinho e era apenas um fazendeiro, os selvagens em maior número o derrotaram e espancaram. Agora Kaliska, que vem a parte da história que molda meus atos. Eles entraram em nossa casa, arrastaram minha mãe pelos cabelos até onde meu pai estava todo ensanguentado. Levaram-me junto, não reagi, mesmo que o fizesse não adiantaria. Nossos cães estavam lá também, vivos, mas presos, nosso cáguila estava morto. Eles estupraram minha mãe, um de cada vez. Não bastasse tamanha humilhação e selvageria, eles a batiam o tempo todo “Chore sereia, chore!” Eles diziam. Você acha que acabou? Acabou de começar. – Faraj não conteve as lágrimas, mas continuou – Eles obrigaram meu pai ordenar nossos cães matar minha mãe, caso contrário me matariam da forma mais cruel e vagarosa possível. Gritavam o tempo todo “Agora filho dos malditos, agora sereia de pernas” meu pai chorava feito criança, minha mãe estava pronta para se sacrificar pela sua cria. Foi quando ele ordenou. Minha mãe tentou aguentar, tentou não demonstrar medo ou dor, mas não conseguiu. Ela gritava e agonizava enquanto nossos cães, nossos animais de estimação, dilaceravam sua face. Essa é a morte mais horrível que uma pessoa pode ter, eles riam enquanto minha mãe morria. Às vezes quando me deito ainda ouço um misto de rosnados, latidos, gritos e risadas. Com a minha mãe morta, enforcaram meu pai com o que sobrou das entranhas dela – Faraj quase vomitou – e me amarraram em uma árvore para morrer de fome.

Kaliska estava com o estômago embrulhado, não tinha comido nada fazia bastante tempo. A história terrível e brutal o feriu psicologicamente, imaginava a cena de horror que Faraj descrevera. Conseguia visualizar a mulher sendo destruída pelos cães. Ficou chocado, não podia condenar Faraj. Sua revolta era justificada, mas matar inocentes não era o caminho a seguir.

Faraj prosseguiu:

– Na manhã seguinte, Andhuil me encontrou. Ele era jovem e viril, o homem mais sensato e justo que conheci. Ele encontrou uma família para mim, bem como me ajudou a entrar para a política. Um pena que foi preciso que ele morresse. Não seria possível atingir meus objetivos de forma diferente, ele era popular demais, sem dizer que ele iria contrariar meu plano.

– Afinal que plano é esse? – Kaliska podia pressentir uma tragédia, nada menos horrendo que a história descrita por Faraj poderia ser esperado. O imperador iria devolver em dobro a dor de suas chagas de infância. – Irá repetir com cada família bleidr o que foi feito a sua?

– Nunca saberá, não sou tolo o suficiente para lhe contar meu plano. Adeus Kaliska, que encontre paz em seus pensamentos, afinal de contas, nunca tive nada contra você. Poderíamos até ter sido amigos em outra realidade. Você será executado pela manhã. – disse enquanto caminhava para a saída.

– Faraj! Volte aqui! Não pode lançar sua vingança em inocentes! Faraj o que vai fazer!? – era tarde demais.

Kaliska teria uma noite de desespero. Agarraria e sacudiria as barras de sua cela, gritaria e amaldiçoaria Faraj com toda sua fúria. Queria poder lutar contra o exército domeinn, mesmo sem uma perna poderia ajudar. Cada gota de suor que derramasse naquela noite, seria uma fração de esperança. O bleidr morderia as barras e quebraria alguns dentes. Kaliska violentaria seu corpo e a cela a noite toda, fruto de seu desalento e pavor da morte. Durante toda a noite não iria conseguir esquecer ou ignorar o medo de partir. Faraj talvez sem intenção proporcionou a Kaliska a tortura mais cruel. A dor física seria causada por ele mesmo, mas sua mente fora deturpada e violada. Pela manhã, seria decepado frente a milhares de cidadãos de Tertai. Em seu último suspiro, desejaria a segurança de seu povo.

No caminho de volta para o Ministério, Faraj passou pelos portos e viu que os navios estavam prontos para partir para a ilha de Siki. Lembrou-se de quando vira os animais sendo embarcados para exílio na ilha. Fruto de um acordo entre os povos para o cessar da guerra.

Chegando ao ministério, Faraj não fez questão de não ser visto. Entrou pela porta da frente, passou pelos cidadãos que ali estavam a espera de um pronunciamento dos governantes de Tertai. Eles ainda não sabiam que acabara de passar por eles seu Imperador.

– Como se sente alteza? – perguntou Gan’Ith fazendo uma discreta reverência.

– Por favor, Gan’Ith, pode me chamar pelo nome. – Faraj voltara com seu teatro.

– Todos devem reconhecer sua autoridade de agora em diante, e o exemplo deve vir de cima alteza. – o velho tinha um sorriso malicioso, tinha pleno conhecimento de que estava em um cargo que lhe oferecia autoridade. Estava apenas abaixo do imperador, mesmo tendo como iguais os integrantes dos demais poderes de Tertai. Gan’Ith não perdera tempo e já bajulava o jovem imperador.

– Serei breve com eles meus caros. – disse Faraj virando para discursar ao povo. – Cidadãos de Tertai, todos sabem que nosso amado juiz foi vítima de um crime covarde. Ele foi assassinado, por um bleidr.

No meio da multidão era possível ouvir gritos como “Matem todos eles”.

– Estes animais selvagens semeiam discórdia desde que o encontramos. Eles não aceitam nosso dom, dizem sermos “malditos”. Alguém aqui se sente amaldiçoado? Tenho certeza que não. Não irei me delongar muito. Todos sabem as atrocidades que estes animais já cometeram, todos sabem do que são capazes. Agora como prova de seu desejo de guerra e desordem, assassinaram nosso símbolo de justiça.

Enfim, em nome da segurança de nossa cidade. Pela segurança de vocês, cidadãos de Tertai. Os poderes desta cidade-estado encarregou-me de protegê-los de tais perigos. – Faraj elevava sua voz conforme avançava em seu discurso. – Para tal tarefa, foi dado à mim plenos poderes para proteger o meu povo de qualquer ameaça. Saúdem seu eterno protetor… – em alto e bom tom, Faraj proclamou-se com orgulho e firmeza – Imperador Faraj Al’Massud!

A multidão foi à loucura. O discurso breve de Faraj, acalentou os corações apertados dos plebeus e nobres de Tertai. Estavam todos temerosos frente à situação, o jovem imperador aproveitou-se deste sentimento, e os acolheu como uma mãe faz com o filho em uma noite de pesadelos. Passou-lhes uma sensação de segurança, de proteção. O povo imediatamente entoou um estrondoso canto “Salve Faraj! Salve Faraj!”.

– Tão fácil quanto respirar Faraj. Lembro-me de quando fui dada a você de presente. Você era uma criança assustada e introvertida, ao descobrir suas feridas, sofri junto e fiz da sua luta minha luta. Passamos por maus bocados na sua eterna missão de me esconder. Serei sua eterna e fiel companheira. Estou tão feliz quanto você por termos chegado tão longe. – a serpente falou direto à mente de Faraj.

“Eu também Sahara, eu também” imaginou Faraj.

A incursão do exército domeinn pela manhã na floresta, iniciaria uma perseguição sem fim. Tribo após tribo encontrariam apenas cabanas vazias e fogueiras apagadas. O Imperador em fúria ordenaria a derrubada de toda a floresta. Os bleidrs desapareceram como fumaça. O que parecia uma vitória fácil e certeira, escapou por entre as mãos de Faraj. Sua vingança não seria concretizada. Os bleidrs previram a invasão como se sempre soubessem, como se tivessem sido avisados. Mas nada poderia tê-los alertado, traição era impossível, todos os domeinn partilhavam da dor da perda de Andhuil. Todos queriam vingança. Faraj tinha certeza absoluta de que contagiara todos com suas mentiras. Talvez tenham sido avisados por um espírito. Um espírito que desejava a segurança daquele povo, talvez até mesmo um espírito de um bleidr. O espírito, de Kaliska.

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6 comentários em “Erros Induzidos (Lucas Rezende)

  1. Silvana
    2 de setembro de 2014

    Lucas… to emocionadíssima com o seu talento, que me era tão desconhecido (afinal, sou uma tia suuuuuuuuuuper presente, né… SQN)! Cara! Que cabeção! Parabéns!!! Orgulho total!
    pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla pla !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • Lucas
      6 de setembro de 2014

      Obrigado tia Nana!!! De verdade.
      Esse é só o primeiro que eu escrevi 😉
      Tenho muitos projetos ainda, to escrevendo a continuação desse.
      To tentando divulgar saca, se puder ajudar vai ser de GRANDE ajuda.
      Meu cabeção está se mostrando útil hahahaha
      Saudades Nana, dos meus priminhos candangos também 🙂
      Abraços

  2. Giih
    2 de setembro de 2014

    Legal Lucas
    Parabéns , estou feliz por você !

    • Lucas
      2 de setembro de 2014

      Obrigado amor 🙂

  3. rubemcabral
    1 de setembro de 2014

    Olá. Não li tudo, ainda. Só li a parte I. Gostei do universo construído, me pareceu bem distinto da maioria das fantasias épicas que já li.

    Na parte I, contudo, é preciso fazer alguns ajustes. Em especial, há uma quantidade exasperante da palavra “jovem”. Há alguns pequenos erros de concordância também.

    “O domeinn que estava a sua frente era jovem, não podia ter experiência em combate, apesar de seu semblante confiante e com um ar de triunfo. O bleidr em fuga era um guerreiro em sua tribo. Com sua faca em mãos, cerrou o punho e investiu contra o jovem. Arremessou sua faca contra o jovem, certo de que se desviaria para depois derrubá-lo com um soco. Sua sorte fora apenas momentânea e acabava de colocar em suas costas mais uma morte. O jovem não agiu como o esperado, não conseguiu desviar-se da faca que perfurou-lhe a garganta. Neste exato momento o bleidr arrependeu-se amargamente, o domeinn que havia matado era jovem, jovem demais para ter sentido em sua vida o calor de uma mulher.
    Por algum motivo, os cães pararam para inutilmente prestar socorro para o jovem que havia morrido antes mesmo de cair no chão. Ainda com a imagem perturbadora do jovem

    (moço, rapaz, garoto, de pouca idade, rapazola, rapazote, menino, adolescente, púbere, “filhote” (dependendo do contexto), etc.)

    “o suficiente para que as árvores o fizesse invisível”

    Depois volto para ler mais. Abraços.

    • Lucas
      2 de setembro de 2014

      Olá Rubem Cabral
      Muito obrigado pela sua avaliação, vou trabalhar no que disse.
      Minha proposta é exatamente criar algo diferente das histórias de elfos, dragões e magos que existem hoje.
      Espero que goste do restante da história.
      Mais uma vez agradeço as sugestões. Se tiver algo publicado no blog me mande o link no meu email para eu ler 😉

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Informação

Publicado às 27 de agosto de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .