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Novembro de 63 – Resenha (Gustavo Araujo)

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O tema “viagem no tempo” é tão batido quanto fascinante. Muito já se escreveu e ainda se escreverá sobre isso e é claro que nem mesmos os grandes nomes da literatura conseguem se manter afastados de algo tão magnético.

É o caso de Stephen King com “Novembro de 63”.

Jake Epping, o protagonista, é um professor em Lisbon Falls, no Maine. Cansado, divorciado antes dos 40 anos, mas ainda capaz de se sensibilizar com a história de vida e superação de um de seus alunos, o velho Harry Dunning, que quando garoto teve a família assassinada pelo pai bêbado.

Certo dia Jake é chamado por um conhecido, Al Templeton, dono de uma lanchonete nas imediações. Al está morrendo e faz uma confissão a Jake: existe, nos fundos da lanchonete, um portal que leva ao ano de 1958. Mesmo desconfiado, Jake aceita conferir essa “toca de coelho” e, claro, surge na mesma Lisbon Falls, só que de 48 anos antes.

Regressando ao presente, Al explica a Jake o óbvio: é possível alterar o curso dos acontecimentos. De imediato, Jake pensa na hipótese de salvar a família de Harry Dunning. Al, porém o alerta que embora possível, a obstinação do passado em manter seu curso natural pode ser um problema, até porque um ato, mesmo isolado, acaba provocando alterações em cascata, o chamado “efeito borboleta”, levando a uma realidade imprevisível.

Outro detalhe: a passagem leva sempre à mesma data em 1958. Não importa quantas vezes o portal seja utilizado, o viajante sempre chega à Lisbon Falls no mesmo dia. Cada viagem é um recomeço.

Enfim, Al explica o motivo da revelação quanto à toca de coelho. Ele quer que Jake salve John Kennedy, que no curso conhecido da história morreu assassinado por Lee Harvey Oswald em 22 de novembro de 1963. Al tentou fazer isso, mas o passado, teimoso, o impediu, fazendo com que um câncer agressivo o atingisse. Al não tem dúvidas, porém, de que salvar a vida de JFK significaria evitar a guerra do Vietnã e o sacrifício de milhares de jovens americanos e também asiáticos. Por isso, pede a Jake Epping que volte no tempo e salve o presidente.

Jake reluta mas naturalmente acaba aceitando a missão. Terá que passar, assim, pelo menos cinco anos no passado.

Evidentemente, sua primeira preocupação ao voltar novamente a 1958 é salvar a família de Harry Dunning da fúria assassina do pai do garoto. É esse, talvez, o momento mais emocionante do livro.

Fugindo, Jake, que agora assume o nome de George Amberson, termina se fixando na cidade de Jodie, no Texas, onde espera conseguir sossego para estudar sobre Lee Oswald e decidir sobre a melhor maneira de se livrar do (talvez) futuro assassino de Kennedy. Em Jodie, Jake/George consegue um emprego de professor em uma escola de ensino médio.

A partir daí o leitor acompanha a saga de George que, conquistado pela atmosfera de Jodie, passa a ter dúvidas se levará a cabo a missão de acabar com Oswald, ou se simplesmente irá permanecer ali, onde estabelece raízes, faz amigos e é feliz.

Não é spoiler dizer que, de um jeito ou de outro, Jake/George segue para Dallas e passa a planejar a morte de Oswald. Mas o passado, sempre ele, teima em dificultar as coisas, criando obstáculos e até mesmo colocando em risco a vida de George e daqueles que o cercam até o momento derradeiro.

O livro de Stephen King é um calhamaço de mais de 800 páginas. A leitura, porém, é fluida, do tipo que faz avançar sem maiores percalços. Claro, a história poderia ser (bem) enxugada, mas não deixa de ser interessante ver o retrato bastante abrangente e vívido que o autor traz do passado, sem parecer saudosista, piegas ou nostálgico demais.

Entretanto, alguns aspectos me incomodaram. Para falar deles, é inevitável cair nos spoilers. Por isso, se você não deseja saber como termina a história, pare de ler esta resenha agora 🙂

Muitos trechos soam forçados, inverossímeis até – e isso numa história que já parte de uma premissa, digamos, fantástica. Um bom exemplo disso é quando Sadie, a namorada de George, desconfia dele por causa de uma música que ele está cantando. Ou por causa das gírias que ele deixa escapar.

Outra coisa que não gostei foi da presença dos homens dos cartões amarelo, vermelho, verde, preto e ocre na toca de coelho. Achei totalmente desnecessário. Eles foram apresentados como uma espécie de guardiões, mas na verdade estão ali apenas para que Stephen King possa explicar ao leitor alguns aspectos mais intrincados das viagens no tempo. Para mim, isso quebrou uma parte do encanto.

Agora, o que realmente provocou aquela reação de “nada a ver…” foi que salvar Kennedy significou levar o mundo à beira da extinção, com guerras, bombas nucleares, terremotos e um quase-holocausto. Difícil – para não dizer impossível – comprar essa ideia.

De qualquer maneira, no cômputo geral, o livro é muito bom. Prender o leitor por mais de 800 páginas é um feito e tanto. E, apesar dos plot holes, o final é excelente, perfeito para uma história que nos absorve com tantas variáveis. Consegue, em suma nos deixar pensando sobre qual seria o momento para onde nós mesmos gostaríamos de retroceder e, enfim, mudar o que aconteceu.

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Um comentário em “Novembro de 63 – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Rodrigues
    20 de julho de 2014

    Boa resenha!

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Informação

Publicado às 17 de julho de 2014 por em Resenhas e marcado , , .