Os espinhos da rosa que estampava o lençol ainda estavam cravados na carne depois que despertou. Vinda da janela entreaberta, a obscuridade no quarto parecia típica tanto da aurora quanto do ocaso, confundindo-a momentaneamente sobre as horas. Sensação perturbadora, a de perder-se assim no tempo, como no espaço. Talvez similar, embora menos desesperadora, à do mergulhador que se esquece para qual lado fica a superfície, ou do cataléptico enterrado vivo num planeta sem gravidade, sem saber em que direção deve cavar.
Escavou ou nadou na penumbra até a janela, que, totalmente aberta, revelou certa equidistância entre suas suposições e o horário real. Suspirou, e o fato de que, mesmo estando de férias do trabalho, aquele trecho do dia a entristecia comprovava sua tese.
Tinha uma tese sobre a melancolia humana: era inversamente proporcional ao tamanho da sombra que as pessoas projetavam ao sol. Daí as euforias matutina e crepuscular, quando todas as sombras são longas como as de girafas. Daí a depressão do meio-dia, hora sem sombra, cujo efeito enervante perdura, em média, pelas próximas três. Ninguém jamais atentava para a óbvia relação entre as duas coisas porque ela ficava invariavelmente oculta sob falsas origens, que eram um pouco como as falsas etimologias que tanto detestava. Ao novo vigor obtido através do descanso e à esperança no dia recém-iniciado atribuíam o otimismo experimentado pela manhã. À necessidade de, finda a pausa, voltar ao trabalho (que a esta altura já frustrou todas as expectativas matutinas), a consternação do meio-dia. E ao fim da jornada, a alegria do pôr-do-sol. Mas esta alegria, genuína, não é a mesma que nos acompanha durante a noite, em casa. A alegria noturna é sempre artificial, porque nossas sombras, em tais horas, são mantidas por luzes artificiais. Que só apagamos, aliás, para poder imergir naquele outro mundo de sombras, os sonhos.
Como de hábito, as réstias de seu último sonho iam-lhe sendo evocadas por fatos posteriores a ele. Na torpe silhueta de um rato estampado no rótulo do veneno sob a pia enxergou outro, muito maior, que inquietava seu sono já há algum tempo. Embora a noite exata do primeiro pesadelo lhe escapasse, lembrava-se do acontecimento real que lhe servira de mote.
Em sua opinião, baseada quase inteiramente em clichês de Hollywood, só havia duas grandes utilidades para um porão: refúgio eventual de tornados e esconderijo para judeus em tempos de governo antissemita. Como o clima ameno do Brasil e o abençoado fim do Terceiro Reich isentavam-nos, respectivamente, das duas necessidades, sempre achara um exagero que a casa possuísse tal cômodo, espécie de apêndice que, em vez de inflamar, infeccionava, juntando toda sorte de parasitas — dos literais aos metafóricos; do mofo às lembranças. E se havia sido por um dos metafóricos que descera até lá naquele dia, fora devido a um dos literais que nunca mais tinha voltado.
Fazia quase três anos, agora. Era manhã de reunião com pais de estudantes na escola onde lecionava. Em meio à enumeração das qualidades de seu aluno preferido para um casal de avôs orgulhosos, ela havia simplesmente se dado conta de que não conseguia mais lembrar o rosto da própria filha. Angustiada, tinha simulado um mal-estar e pedido para ir embora mais cedo. Dirigiu com uma pressa incomum, como se o rápido deslocamento no espaço também fosse conduzi-la para trás, no tempo. Em casa, revirou cada aposento do térreo atrás de fotos, embora desconfiasse que o marido havia discretamente, ao longo dos anos, varrido todas as evidências de seu desgosto para o apêndice, quem sabe planejando realizar a cirurgia de extração, um dia.
Tinha esperanças de não precisar ficar muito tempo por lá. Se há um clichê que os filmes de Hollywood exploram com acuidade é o de que porões emanam sempre um de dois sentimentos opostos: segurança (proteção de furacões ou de nazistas) e medo (monstros, assombrações, baratas ou, pior de tudo, ratos). Desempilhou caixas, despejou papéis, perturbou a paz de insetos que há gerações julgavam mítica a existência dos seres humanos. A certa altura, a bagunça em volta dela era tamanha que escorregou na capa plástica de um antigo livro didático e, para não cair, apoiou-se numa estante meio apodrecida, que veio ao chão junto com todo o lixo que comportava. O barulho da madeira contra o piso foi ampliado pelo silêncio subterrâneo.
Foi então que intuiu, fugazes feito batidas de coração, ruídos mínimos que pareciam originar-se nas próprias entranhas do terreno. Não cresciam no tom, mas em frequência. Algo naquele som a perturbou de um modo visceral, como o das bolhas do pesadelo em que a filha aparecia se afogando. Tão logo se deu conta da inquietação, a imagem de uma horda de ratos unindo-se para expulsá-la formou-se em sua mente, e hesitou quanto fugir dali ou continuar sua procura. O instinto mais vergonhoso venceu.
“Que merda de mãe deixa a filha na mão porque tem medo de rato, Artur?”, diria chorando ao marido mais tarde, já evadida do aposento hostil. “Que merda de mãe foge por causa de uma fobiazinha…”
“Não foi ela que você deixou na mão, foram só fotos”, contrapôs o marido, cujo tom de reprimenda ficava prejudicado pelos sucessivos beijos na testa. “Aliás, por que queria tanto ver a foto dela? Acha que ela se importaria se se esquecesse como é o seu rosto?”
“Mas eu sou mãe!” A objeção soou infantil. “Esquecer como ela era é o mesmo que… o mesmo que jogar tudo fora, o mesmo que desprezar tudo de maravilhoso que ela já significou para mim, e não só a outra parte…”
Artur esperou os espasmos do choro assentarem. Devagar, desaninhou o rosto da mulher e andou até a janela. Ficou assim por um tempo, ainda com o uniforme da concessionária, olhando as luzes da cidade evanescendo à medida que encontravam o céu. O estouro distante de um rojão o trouxe de volta à tona. Com movimentos incertos, ele tirou do bolso a carteira, e desta uma foto pequena, toscamente aparada nas extremidades, que entregou à esposa.
“Eu queimei todas as outras, depois da segunda carta. Mas não passa dia sem que me arrependa disso.”
No retrato, a menina de uns doze anos segurava-se com as duas mãos no terceiro balaústre da escadinha que dava para a varanda, a cabeça meio torta, a camisola da mãe cobrindo os tornozelos, olhando divertida para a câmera. Nunca tornou a esquecer seu rosto.
Depois daquele dia, Artur comprara o raticida e passara a levar a chave do porão sempre consigo. Para ela, o evento converteu-se em pesadelo recorrente, embora seu subconsciente tenha substituído a hipótese do exército de roedores pela de um único rato gigante, asqueroso, que parecia empenhado em esconder-lhe algo às costas. Suspeitava que fosse uma nauseante ninhada de filhotes, e agradecia a Deus por despertar sempre antes de conseguir vê-la.
O achocolatado em pó boiava na superfície do leite gelado, recusando-se à fusão. Não convinha fervê-lo num dia já tão quente. Ligou a TV. O canal a cabo exibia um documentário sobre códigos de guerra. Assistiu francamente interessada aos trinta minutos finais, apesar de, como convinha ao estereótipo da professora de redação, detestar matemática e o programa se voltar para coisas como criptografias de matriz inversa, análises combinatórias, algoritmos de assinatura digital… Achava fascinante a ideia de uma mensagem encriptada cuja esperança de decifração se perdera para sempre com a morte da única pessoa que sabia sua chave. Ouviu admirada a afirmação do narrador sobre o criptograma mais eficiente ser sempre aquele que sequer se assemelhava a um código, mas a uma mensagem ordinária, com o sentido manifesto eclipsando totalmente o latente, “para usar a terminologia onírica de Freud”. “Textos cuja superfície diz uma coisa que as profundezas contradizem de forma espetacular”. Riu da história do agente de inteligência da Gestapo que deixara de interceptar importante mensagem do comando Aliado porque o texto saíra impresso em letras vermelhas contra um fundo verde, e ele, sem o saber, era daltônico. “Mas os arianos não eram imunes a disfunções genéticas?”, ironizava o narrador. Deixou o próximo episódio reservado no guia de programação e desligou a TV. Começava algo sobre a vida dos lêmures.
Voltou à cozinha, lavou o copo sujo, guardou-o no armário. Aprumou quadros sem necessidade, andou a esmo pela casa vazia. “O paradoxo das férias é que passamos metade do ano ansiando por elas, e a última metade delas desejando que acabem de uma vez”.
Parou em frente à estante de livros no escritório. Talvez fosse uma boa hora para retomar o Pirandello interrompido, mas não estava com paciência para as metaficções do italiano. Hesitante, decidiu-se pela coletânea de contos de Luiz Vilela. O livro achava-se no terceiro compartimento de baixo para cima, ensardinhado entre obras maiores. Tão ensardinhado que precisou puxá-lo de um tranco, lançando ao chão os dois volumes que, pela ordem alfabética do nome do autor, o ladeavam.
Devolveu os Papéis Avulsos de Machado de Assis à estante. Quando tentou fazer o mesmo com a edição ilustrada da Alice de Lewis Carroll, algo caiu do interior. Apanhou. Eram páginas manuscritas, dobradas ao meio de forma assimétrica. Reconhecendo a caligrafia, sentiu o coração confranger-se. Achava que, como tudo o mais que remetia à filha, aquilo estivesse sepultado no porão. Ignorava se guardar a carta num livro “homônimo” da autora havia sido ideia sua ou do marido. Agora, não conseguia pensar em abrigo mais apropriado — pelo título como pelos jogos matemáticos e o escapismo fantasioso que tanto agradavam às duas Alices.
Sentou-se na varanda com a carta. A primeira de três. (Três, em nove anos…) A carta que encerrara as investigações da polícia. (“Ela é maior de idade. Se fugiu por conta própria, não é rapto.”) A carta sobre a qual havia chorado noites seguidas — e que, com o tempo, acabou por decorar. Cada odioso erro gramatical. Cada sublinhado nas palavras ofensivas. Cada supressão e acréscimo de caracteres em termos que nem seus alunos do primário escreveriam tão errado. Na época, não sabia o que lhe doera mais intensamente: se a repentina, precipitada e egoísta decisão da filha de fugir com uma seita de andarilhos ou todo aquele desprezo pelas coisas que a mãe mais prezava. Desdém que, sabia agora, sempre a fizera adotar o comportamento dos pais como padrão invertido, escolhendo o ateísmo à crença, os números às letras, a aventura à vida pacata.
Releu o manuscrito como quem retoma um antigo exercício de autoflagelação. Às linhas vencidas do texto correspondiam outras, antigas, que se rompiam na sutura em sua alma. O teor corrosivo não atenuara, a dor foi igual.
Exceto pelo último trecho.
Algo no parágrafo de encerramento lhe soou diferente. Havia ali uma familiaridade que destoava do resto por ter como matriz um acontecimento… recente demais. Tornou a lê-lo em voz alta.
“Você achava que me conhecia. Coitada. Sempre consegui te enganar dizendo uma coisa e pensando exatamente o contrário. Bastava só você prestar atenção. Se tivesse feito isso, já teria sido uma boa mãe. Teria.”
Dizer uma coisa e pensar exatamente o contrário. Não era a definição que o narrador do documentário fizera do criptograma perfeito? Alice adorava códigos matemáticos. Seria possível que…?
Tomada de uma ideia poderosa, maior que sua própria dor, buscou no escritório uma caneta. Durante as três horas seguintes transcreveu, numa resma de folhas à parte, tudo quanto lhe parecesse codificado na carta. Tentou acrósticos, palíndromos, ler palavra sim, palavra não, linha sim, linha não… Muitos anos depois, se lembraria da urgência com que se lançara à tarefa como sendo a mesma que a tinha impelido a atirar-se na água para resgatar Alice, no sonho do afogamento. Se pelo menos o alívio de uma realidade que se sobrepõe à outra também tivesse se repetido…
A solução do criptograma, surgida quando resolveu atribuir novos significados (ou falsas etimologias) às supostas incorreções ortográficas, juntando letras faltosas e excessivas às iniciais dos termos sublinhados, pareceu-lhe fugidia, como num sonho:
“Papai me prendeu num segundo porão”
Deslizou até a escada, o papel apertado na mão que já não tremia. Só uma nuvem encimava a casa, como a consciência de um túmulo. Com os dedos da mão livre, tocou o terceiro balaústre.
“Alice…”
O sol quase se punha, e embora sua sombra se estendesse por vários metros, soube que, dali em diante, o meio-dia seria para ela uma hora eterna.
Pingback: Resultados do Desafio Tema Livre | EntreContos
Não é toda vez que descobrimos a autoria do conto logo no primeiro parágrafo, ou será que é, Sr. autor? rs’ Sou suspeita para falar que é belo, como tudo que você escreve…
Boa Sorte!!
Muito boa a narrativa, a tensão crescente, os detalhes que parecem querer fazer a gente se distrair, ao mesmo tempo em que parecem querer fazer com que a gente aos poucos vá descobrindo e tendo a certeza do que há por trás disso tudo (quase como uma criptografia, um anagrama, rs). Infelizmente, não posso dizer que gostei de tudo, pois o final, principalmente ele, me incomodou, pois ele é mais do que aberto, a meu ver, ou talvez por ser abrupto, não sei explicar. Só digo que essa foi a sensação dessa minha leitura. Talvez eu quisesse mais explicações, mais resolução para alguns porquês, os motivos do pai, uma construção maior da rotina da família. Céus, isso dava uma novela, um romance, e se o autor assim o quisesse, bem poderia ser publicado pela Caligo! =) Mas essa é a minha querência no momento, talvez em outra leitura eu me satisfaça com o conto na forma como ele se apresenta aqui, nesse post. De qualquer forma, parabéns pelo trabalho!
Cara, eu li esse conto com uma sede, ansiando pelo próximo parágrafo mais pelo lirismo da narrativa que pela estória. Primeiramente, pensei que a guria havia se afogado, depois, que havia fugido/sido sequestrada e morta e, quando, após a leitura da carta o conto acaba, fiquei sem entender nada. Fui, então, aos spoilers dos amigos leitores. Ah!, ela realmente estava presa no porão! Hmmmmm. Reli o conto e entendi.
Gostei de tudo, o que mais me causou aflição foi não ter assimilado de primeira haaha’ Parabéns e boa sorte 😉
Hey! Gostei da ousadia 😛
Acho que serei o do contra aqui…
Gostei do texto, sim. Porém isso ocorreu, numa proporção bastante desbalanceada, muito mais pela qualidade da escrita do que pela história.
Só uma frase pareceu ter escapado na revisão:
“aquele trecho do dia a entristecia comprovava sua tese”
Acho que faltou um “e” ou uma vírgula em algum lugar aí (ou eu não captei o espírito da frase mesmo).
As figuras de linguagem são muito boas (e aparentemente denunciam a autoria! :D), algumas beirando a genialidade, como a dos insetos, destacada pela amiga Maria Santino e “Os espinhos da rosa que estampava o lençol (…)” que abre o conto, destacada pelo amigo Eduardo Selga.
Porém, algumas (apesar de criativas) me soaram um pouco exageradas, como a do cataléptico enterrado vivo. Ok, isso remete à própria Alice, enterrada no porão, mas achei desnecessário duas metáforas para se explicar a mesma sensação (ficaria apenas com a do mergulhador). A reflexão sobre as sombras também me pareceu inserida meio na marra, para que pudesse retornar no desfecho e justificar “A Hora Eterna”.
Fiquei com a sensação que a técnica foi utilizada de maneira gratuita, para dar carne a uma trama muito simples. Só a técnica pela técnica acaba ficando cansativa e os 2/3 iniciais da história se arrastam.
O final, com a perspectiva da resolução do mistério, melhora, ganha em dinâmica. Porém não me senti resolvendo a charada junto com a protagonista. Acho que o texto ganharia muito se conseguisse aplicar uma solução estilo (Deus que me perdoe) Dan Brown, onde o leitor consegue ver as peças do quebra-cabeça sendo montadas, não apenas o autor dizendo “A solução do criptograma foi…”.
Fiquei na dúvida sobre como a carta recente foi parar na estante. O pai levava o livro da Alice para a filha ler?
O final aberto não me desagradou, acho que não caberia narrar o resgate.
Em resumo – muito bem escrito, mas não me conquistou dessa vez.
Abraço!
Perfeito o conto. Uma linguagem maliciosa, uma tristeza infinita, um desfecho cruel! Parabéns.
Demais. Muito bem escrito e conduzido.
Adorei essa sacada “Talvez similar, embora menos desesperadora, à do mergulhador que se esquece para qual lado fica a superfície, ou do cataléptico enterrado vivo num planeta sem gravidade, sem saber em que direção deve cavar.”
A tese da sombra também é ótima.
As analogias são fantásticas:
“espécie de apêndice que, em vez de inflamar, infeccionava, juntando toda sorte de parasitas — dos literais aos metafóricos; do mofo às lembranças.”
Parabéns e boa sorte no desafio.
Oh.. agonia bem feita!!! poxa!!!!!
Faça o favor de escrever o salvamento da garota! afffffffffff :p
Muito bom, muito inteligente!
Confesso q li trezentas vezes o final e mais umas duzentas o conto todo…
e gostei imensamente de fazer isto!
Entendi que há 9 anos, a garota está enclausurada. E fazia três anos que a mãe teve o incidente no porão, onde ouviu os barulhos, sem nada desconfiar… mas o sonho com o rato queria lhe avisar…
Olha, meus parabéns!
ahh lembrei… que a primeira coisa que eu queria comentar era o papo todo sobre as sombras.. mas depois me concentrei no porão e esqueci…
Esse trem dá poesia, viu?! 🙂
ahh lembrei de outra coisa que eu queria comentar… um erro gritante do conto!
Uma mãe jamais se esquece do rosto do filho(a)
sem chance
invente outro motivo para q a mulher visite o porão :p
não importa qt tempo passe, a mulher jamais esquece o rosto do rebento.. salvo se for atacada pelo alemão Alzheimer!
É mesmo, acho que o intervalo de tempo do sumiço da moça é maior do que eu pensava. No entanto, não invalida em nada a ignorância da mãe quanto ao paradeiro de Alice… Como a personagem de Lewis Carrol, a menina caiu em um buraco (porão), no oco da fantasia – doente do pai. Cada vez que leio, acho mais interessante.
Poiésis e techné. A construção poética aliada à competência narrativa. Falando não especificamente deste conto, para que ambos os elementos estejam presentes não é necessária a filigrana, o excesso vocabular de alguns textos que se pretendem poéticos. Porque a poesia está muito menos na palavra em si (muitas carregadas de um simbolismo já exaurido) que em sua contextualização sintática.
Entrando no conto, é em função do que afirmei acima que “Os espinhos da rosa que estampava o lençol ainda estavam cravados na carne depois que despertou” é uma construção poética. Não é tanto pelo emprego de “espinhos da rosa”, imagem clichê em literatura, normalmente associada ao sofrimento causado pelo amor, e sim pelo fato de que essa rosa “estampava o lençol”. O que fere não é uma metáfora, nem a planta em si: é uma estampa. É esse estranhamento que gera a sensação poética. Todo o texto segue esse entalhe na palavra.
Quando um texto literário é uma virtuose estilística, como o presente conto, certas questões canônicas relativas à regras de produção textual deixam de ter tanto valor. É como se a excelência da arquitetura de uma casa nos fizesse relevar a segundo plano um outro cômodo mal desenhado.
Digo isso em função de que se o pai não deixa clara sua motivação para a atitude por ele tomada, isso é de importância menor no conto: a orquestração textual vale mais. O conto ganha com a presença dessa sombra. Afinal, num conto tão carregado de significados, é preciso que o leitor construa suas pontes e encontre os seus.
Parabéns.
Na dificuldade comentar este conto aqui, peço ajuda aos universitários que, se fossem tão inteligentes quanto os do Silvio, não poderiam me ajudar. Faz-se necessária uma revisão na educação brasileira, inclusive na minha. Bem, é isso, é isso que um conto de fantasmas como esse – mesmo sem a presença dos ditos-cujos de flanelas brancas – faz com a gente. Parece reavivar uma vontade de exprimir o que deixamos de lado a um tempo atrás, torna-nos livres, sei lá. Por mais que seja rico em teoria e descrição, nos levando a perguntar se estamos numa pegadinha entre a unidade e a pluralidade, traz indagações. Como é que o cara consegue colocar numa história tão boa e forte, que só não me ganha todo pelo desfecho, essa história das sombras, a bela imagem do trabalhador vendo o céu (claro, o céu é a escuridão) tocar o fim das luzes da tarde e o cotidiano – morbidamente entediante e personificado pelos ratos que molham as tarefas domésticas (pia, porão, chocolate)? Me parece que esse autor fez um acordo com seus sonhos ou algo do tipo. Ótimo conto!
Será que Alice ainda está viva? Viva, todos esses anos, escondida no porão de um porão? Seria possível que a mãe não percebesse?
Não sei, só sei que o último conto enviado ao desafio estará entre meus favoritos.
O uso do nome, Alice, foi realmente muito adequado. Submundos e matemática.
Gostei tanto deste conto, que já vou me intrometendo…rs. O intervalo de tempo é de três anos, não é tão grande assim. Casos famosos de jovens aprisionadas em porões por seus pais ou outros algozes revelaram uma completa ignorância dos mais próximos. As pessoas acreditam no que querem que seja a verdade.
O trecho: “(…) ruídos mínimos que pareciam originar-se nas próprias entranhas do terreno.” sugere para mim que Alice ainda está viva e aguardando ser resgatada pela mãe.
Também acredito nisso!
Vou reler o conto com mais cuidado para encontrar outras sutilezas.
Relendo, parece que o intervalo de tempo foi maior mesmo. O que não altera o teor do conto, muito pelo contrário, aumenta a densidade do sofrimento materno. O caso mais famoso – o austríaco Josef Fritzl manteve a filha, Elisabeth, presa durante 24 anos no porão. Chocante, mas aconteceu.
Excelente!
Confesso que até o meio achei cansativo, mas o terceiro ato justifica completamente a exposição detalhada da melancolia da narradora.
Reli o desfecho algumas vezes, e isso é muito bom!
Parabéns, vai para o pódio!
Olá. Bom, gostei muito da sua forma de narrativa. É profunda, intensa, vai construindo aos poucos a cena na mente do leitor, além de você ter conseguido, de forma intencional ou não deixar a impressão de que se tratava de uma criança, a filha sumida e que ela realmente tinha sumido, sido morta, sequestrada, e não fugido. Uma coisa que me chamou atenção foi o seguinte trecho: “tanto da aurora quanto do ocaso,”. Seria ocaso mesmo ou foi um grande erro de ortografia?
Boa sorte.
É “ocaso” mesmo.
ocaso = momento em que o sol se põe
“tanto do nascer quanto do pôr do sol”
Abraço!
Nossa! O que você fez comigo? Estou zonza, o que foi isso?
.
Adorei seu domínio narrativo, você tece lentamente a trama na cabeça do leitor e alinhava de uma maneira que me deixou embasbacada. Eu não senti sobras, tudo o que você ofereceu teve um propósito, tudo amarrado. As sombras que retornam no fim, foi uma bela sacada.
.
Ri dessa frase: “perturbou a paz de insetos que há gerações julgavam mítica a existência dos seres humanos” e dessa também: “Mas os arianos não eram imunes a disfunções genéticas?”, ironizava o narrador.
.
Gostei tanto da forma que você me conduziu que me sinto ainda imersa, mesmo após o término da leitura.
.
Parabéns mesmo pelo seu domínio (sabe o que quer repassar e o faz sem pressa)
.
Um Abração!
Uau! Comecei a leitura achando que era mais um conto em prosa poética, muito bem escrito, com imagens bem elaboradas e…Nossa, fui sugada para dentro da narrativa e quase fiquei trancada no porão. Não vou nem falar do seu talento que isso seria uma redundância bem chatinha. Adorei. Boa sorte só para mim, tá? No alto do pódio, com certeza, é o seu lugar. Abraço.
Gostei bastante, exceto do final. O que era uma história triste (mas escrita de maneira tão bela!) sobre uma mãe tentando conviver com a dor da filha que a desprezava a ponto de fugir, repentinamente tornou-se uma história de suspense (sem resolução) sobre um pai que, sem razão aparente no texto e sem nenhuma indicação disso até então, mostrou-se uma espécie de psicopata.