EntreContos

Detox Literário.

Borrões de café (Cainã Ito)

café

 

Era 22 de Janeiro de 1983. O vento soprava forte sobre o frio das cortinas nubladas.  A cafeteria lotada. Eu de forma rápida atendia a todos os clientes sem mostrar minha afobação pelo agito do movimento. Seria um dia rotineiro como barista, não fosse aquele jovem.
Entre todas as pessoas  ele prendeu minha atenção, me intrigou, ou melhor, não pude deixar de repara-lo. Era um cliente novo. Seu semblante era desconhecido, e olha que trabalhava lá há bons anos.
Sentava sozinho e transparecia muita calma, parecia não esperar ninguém. Não era empresário ou homem de negócios que atuavam na região. Aparentava pertencer a outro mundo.

O olhar era instigante. Observava a todos em sua volta. Ficava segundos analisando as pessoas degustarem do café, e quando voltava com os olhos sobre a mesa, abria seu pequeno bloco de anotações e ajeitava a armação do óculos.  Não demorava em esbanjar um pequeno sorriso para si mesmo, me fazendo perguntar se aquele riso seria maquiavélico, ou de algo engraçado que percebeu.
As canetas em suas mãos eram uma malabarista. Brincava, batia e girava sobre os dedos em um movimento constante e fluídico.  Acho que ele não se permitia deixar a caneta imóvel. Quando começou a escrever, seus pulsos curvados corriam sobre as folhas de maneira que meus olhos não conseguiam acompanhar.
O que escrevia? Seria um psicólogo? Eu precisava instigar meu lado Sherlock Homes  e saber o que era posto sobre aquele pequeno caderno.

Aguardei ansiosa qualquer pedido ou sinal dele. Já me estava desfocando do serviço, e não tardei a fitar o ponteiro do relógio. Será que ele não iria pedir nada?
Passaram-se alguns minutos e eis que finalmente ele levanta mão com a caneta entrelaçada sobre os dedos.

– O que vai querer Senhor?

– Um expresso, por favor

– Algo mais

– Não, muito obrigado.

O caderno estava fechado.

Ao preparar seu expresso, me questionava sobre a frieza que emulava. Pegava-me olhando sempre pra ele. Espiada inúmeras vezes, e nenhuma vez nossas retinas se cruzaram. Seu olhar estava sempre direcionado a um cliente. Certo momento o peguei fitando uma morena. Reparava no cabelo, pelo que percebi. Mas ele não a via como um desejo carnal, era como tentar entender o que se passava na mente dela. Cada vislumbrar dele  seguia de escrita.
Era hora do plano B: Levando o café em sua direção, fiz algo que fugia das normas éticas de uma barista:

“Jamais derramarás café sobre aqueles que desejas conhecer”

Eu cometi o pecado.

– Me desculpe senhor

– Tudo bem, acontece…

Ele diz sorrindo

– Seu caderno me deixe limpar ele. Acho que essa mancha não irá sair..

– Sem problema moça, é arte conceitual agora, tem até aroma.-

Disse brincando

Levo o caderno rapidamente ao balcão, ansiosa, abro as páginas. Ao folhear, meus olhos tentavam compreender suas escritas . Mas bendito seja esse rapaz, eu não entendia uma palavra da caligrafia. Deveria fazer de propósito para que ninguém pudesse ler ou saber o que redigia.

Seco bem as manchas de café e devolvo em suas mãos. Por dentro eu queria saber seu nome. Hesito segundos, mas solto:

– Seu nome…

– Jorge, e seu é?

– Amanda.

– Espero que a mancha de café não atrapalhe o que tinha escrito.

Finalmente meu olhar cruzou os seus. Minhas mãos estavam frias, o coração simulou um infarto dentro de mim. Por que ele instigava essas sensações? Será que tomei cafeína demais hoje?

– Não se preocupe. Às vezes precisamos de certos borrões na vida.

Eu não podia deixar a conversa morrer ali. Se não ele sairia da porta e talvez nunca mais o visse.

-Desculpe a intromissão, mas o que o Sr anota no seu caderno? Observei que você não para desde que entrou aqui

Ele me olhou surpreso, mas abriu um singelo sorriso amigável.
– Eu escrevo sobre pessoas, gosto de traçar perfis a partir daquilo que meus olhos conseguem captar de primeira, ou então de segunda…

Curiosa e xereta como sou, decidi continuar:

– Muito legal, e quem seria a pessoa neste local, alvo de sua analise?

– Bem, “o alvo” que você se refere  acabou por borrar as minhas últimas escritas.

Eu! Quem poderia imaginar? Desde o começo. A observadora era observada, vejam só! Mas e agora? Eu falo ou espero ele falar? Ah, acho que estou fazendo papel de ridícula aqui com essa cara de tonta, vou voltar ao meu serviço.
-Sinto muitíssimo mesmo por você perder toda sua anotação.

– O senhor vai querer mais alguma outra coisa senhor Jorge?

-Não, muito obrigado.

Dou meia volta, tensa. Não teria coragem de olhar para trás. Ele estaria me observando agora? Quem sabe se perguntando como essa louca conseguiu esse emprego? Quando estava perto do meu esconderijo/balcão, eis que ouço ao fundo” olha aí, eu achei que ficou mais “fluídico”

– Amanda
Viro-me em sua direção

– Eu preciso sim de um favor, poderia me emprestar uma caneta? A minha está falhando.
Ora ora, que cara de pau. Um jovem que tanto escreve, só carrega consigo uma caneta? Bem, peguei uma caneta e fui até ele.

– Aqui está Jorge.

-Muito obrigado Amanda, mas essa não serve.

– Desculpa, mas eu entendi que queria uma caneta certo?

-Sim, mas não de tinta azul. Teria uma vermelha?
Um jovem que tanto escreve, só carrega consigo uma caneta? Bem, vou pegar aquela. Ninguém usa aqui mesmo
– Aqui está, mas por que vermelha? Vi que  o Senhor só usa azul neste seu bloco.

Ele retira o óculos, e olhando diretamente pra mim diz:
– Porque o vermelho é  a cor que falta para contrastar com esse café, que por tanto tempo anseio que manche minhas páginas

Ela fecha lentamente o caderno borrado, pondo sobre o colo. Direciona o olhar sobre a cabeceira. Lágrimas caem sobre o chão, ao ver o retrato. Na foto vestia branco, contrastando com ele, de preto, no altar.

“- Quando minha tinta falhar Amanda, descubra novas cores. Os tons sobre as folhas mudam, mas a escrita jamais”

Amanda disse lacrimejando em voz baixa :

– Eu descobri novas cores Jorge. É a Violeta,  nossa filha. Mistura do seu azul com meu vermelho.

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18 comentários em “Borrões de café (Cainã Ito)

  1. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Gostei. Achei bonito esse encontro, mas penso que ele pode ser melhor trabalhado, no sentido de sanar os erros gramaticais, e a coisa meio corrida do final, foi um salto muito grande, abrupto mesmo, confunde alguns. Esse casal merece uma reorganização do texto e o leitor também, rs. Boa sorte!

  2. Thata Pereira
    11 de julho de 2014

    Eu adorei esse título. Muito antes de ler o conto. Achei lindo. E poxa, o texto inteiro é. Gostei muito. É uma construção bastante poética, principalmente porque muitas palavras rimam durante toda a construção. Gosto quando isso acontece nessas histórias mais adocicadas, acho que casa muito bem. Confesso que precisei ler o final duas vezes para entender, mas… que lindo! ❤ rsrs'

    Boa sorte!!

  3. tamarapadilha
    8 de julho de 2014

    Não me prendeu. Alguém classificou como morno. Eu diria que começou quente, mas… acabou esfriando e esfriando. O café demorou muito para ser tomado e não ficou legal. No começo foi tudo tão detalhadinho, mas o final muito rápido, sem compreensão, sem contar os erros. Boa sorte.

  4. Pétrya Bischoff
    3 de julho de 2014

    Ah, esses romances… Nunca fui guria suficiente para me agradar deles.
    Não entendi a última frase dele no “que por tanto tempo…”, ele a vigia escondido? Ela o desconhece ao entrar na café.
    A mim não tocou, boa sorte com oa demais.

  5. Marcelo Porto
    3 de julho de 2014

    Gostei do conto!

    Uma boa história de amor, sem sobressaltos e sem desrespeitar a inteligência do leitor. Singela e com um final encaixadinho.

    Parabéns!

  6. Thiago Ténorio Albuquerque
    30 de junho de 2014

    Achei o texto morno e as falhas na grafia atrapalharam um bom bocado.
    Não me atingiu, espero que consiga com outros.
    Boa sorte.

  7. Brian Oliveira Lancaster
    24 de junho de 2014

    Quando gosto do texto, costumo ignorar errinhos, visto que podem ser consertados. O tom “conhecendo um estranho no café” me conquistou. Apenas o final deu um pulo inesperado, talvez se fosse utlizado o (…) ficaria melhor. Opinião pessoal.

  8. Anorkinda Neide
    24 de junho de 2014

    Ah… tão romantiquinho 🙂
    Mas com muitas falhas, nem tô falando de gramatica e ortografia, pq outros comentarios já envolvem isso…
    Eu estranhei por um bom tempo da historia, o fato de q a moça tão atarefada, pudesse reparar em tantos detalhes e pudesse ainda refletir neles.. não há condições! rsrsrs
    todo o diálogo é tb formal demais e truncado. e o final bem bonito, mas corrido.. foi muito depressa pra cena do retrato de casamento, confesso q demorei pra entender esse trecho.
    Eu acho que uma linguagem coloquial ficaria melhor nessa historia tao bonitinha!

    Abração

  9. Tiago Quintana
    23 de junho de 2014

    Um romance leve e agradável. Infelizmente, as questões ortográficas (como a falta de pontuação) me distraíram muito da leitura. Acho que a transição de tempo no final (pelo que entendi, o conto na verdade é Amanda relembrando seu primeiro encontro com Jorge, e o trecho final em itálico é no tempo presente) poderia ser marcada com mais clareza.

  10. Jefferson Reis
    23 de junho de 2014

    “Minhas mãos estavam frias, o coração simulou um infarto dentro de mim.”
    PARABÉNS por essa construção.

    É uma pena, uma pena mesmo, que o texto seja tão despretensioso em relação ao bom uso da Língua. Os inúmeros erros atrapalham muito a qualidade da narrativa, que se inicia tão bem e causa tao boas sensações. REVISÃO URGENTE DETECTADA!

    Não gostei do desfecho, é confuso de uma forma negativa. Eu esperava algo mais simples e natural, como é a introdução e parte do desenvolvimento.

    De qualquer forma, gostei do estilo de escrita.

  11. Edivana
    20 de junho de 2014

    Um romance, fofo!
    Mas faltou melhorar a cena do pedido/entrega da caneta, “Bem, vou pegar aquela” – fiquei me perguntando onde estava a mencionada – e o final que também me deixou perdida, tive que reler para entender, se é que o fiz. Abraços.

  12. Cristiane
    19 de junho de 2014

    Olá,

    Apesar das falhas no uso da Língua seu texto começou interessante retratando um cotidiano leve e agradável. Infelizmente o autor não soube escolher bem o desfecho.

    Me desculpe a franqueza mas o final foi muito ruim. Fiquei muito confusa, li várias vezes, voltei em outros pontos do texto e continuei na dúvida. Eles foram casados e em nenhum momento ela percebeu quem era ele? Não se encaixa, ao menos na minha visão de leitora.

    Desejo sorte no desafio!

  13. Claudia Roberta Angst
    19 de junho de 2014

    Já comentadas as falhas da linguagem, não repetirei o sermão …rs. O final, ah, o final, o que foi aquilo? Claro, achei poético, romântico, mas não sei se entendi bem. Era real, era parte da história que o moço estava escrevendo? Lerei pela terceira vez para tentar compreender. Pode ser óbvio para o autor, mas para mim algo ficou escondido pela mancha de café.
    O conto lembrou-me de um outro que escrevi para o desafio dos fantasmas. A mesma ambientação, no caso era uma mocinha escritora e tinha até o nome JOrge, mas era menção a Jorge Amado. Por isso, simpatizei com o seu texto, como se fosse primo do meu. Eu gostei, mas precisa rever alguns pontos e ligar as pontas soltas. Boa sorte!

  14. Anna
    18 de junho de 2014

    Olá. Bom, os probleminhas na escrita me incomodaram um pouco e acho que esperei mais profundidade nas personagens, também. A ideia é legal, criativa. Gostei. Mas tem potencial para ser melhor desenvolvida. Achei o final meio confuso, mas pode ser só eu que não sou muito esperta mesmo.

  15. Rafael Magiolino
    16 de junho de 2014

    Não gostei muito. Apear da situação do início parecer um tanto cotidiana, diferente do que tenho visto nos últimos textos que li, o enredo não me prendeu.

    Apesar dos erros já citados, achei a escrita fácil de ser compreendida, mas não compreendi muito bem o final.

    Com mais calma será possível reescrever o texto e deixá-lo muito mais rico.

    Abraço!

  16. Fabio Baptista
    16 de junho de 2014

    Não gostei.

    A narrativa não envolve, nem cria belas imagens como o tipo de enredo pedia.
    O final é corrido e confuso… li duas vezes e continuo na dúvida se entendi direito (ok… talvez, ao contrário do que afirmei em outro comentário, eu seja burro mesmo! kkkkk)

    Alguns apontamentos:

    – de repara-lo >>> ficou estranho… parece mais “consertá-lo”
    – O que vai querer Senhor? >>> O que vai querer, senhor?
    – Um expresso, por favor >>> faltou ponto final
    – Algo mais >>> faltou “?”

    >>> A falta de vírgulas e pontos segue nos demais diálogos

    – analise >>> acento

    – Ora ora, que cara de pau >>> reação um tanto estranha…

    Sugiro, além das correções gramaticais, tentar criar algumas figuras de linguagem que encham os olhos do leitor. Duas ou três, dado o tamanho do texto, já estaria de bom tamanho. E tentaria deixar o final mais claro também.

    Abraço.

  17. Eduardo Selga
    15 de junho de 2014

    O texto apresenta muitos problemas de acentuação, uso de vírgula, paragrafação, cacofonia (de forma – deforma), regência verbal ( “Observava a todos em sua volta”). No conjunto, eles prejudicaram muito a realização do conto, não obstante apresente algumas construções frasais muito boas (“Minhas mãos estavam frias, o coração simulou um infarto dentro de mim”).

    Ambos os personagens têm muito mais a oferecer, pois são ricos do ponto de vista emocional e psíquico. Mas o(a) autor(a) optou por um sumarismo que não se coaduna com a profundidade esboçada.

    Também o enredo pede um melhor desenvolvimento. A porção final do conto ficou extremamente corrida, de tal modo que pareceu muito mais um equívoco de quem escreveu do que tentativa de causar efeito estético. Digo isso porque a “correria” pode ter sido a intenção do impacto decorrente do choque de duas velocidades narrativas em dois tempos narrativos diferentes. Mas, acredito, não funcionou bem.

    A alteração sem motivo dos tempos verbais (não dos tempos narrativos) é outro elemento a depor contra o texto.

    Apesar da solução final ser um tanto melodramática, acredito que o problema maior não seja esse, e sim o tom trocadilhesco: Violeta, a filha do casal e também nome de cor, é a “mistura do seu azul com o meu vermelho”.

  18. mariasantino1
    15 de junho de 2014

    Oow! Um mundo no fim do conto. rs.
    .
    Gostei, me incomodou as mudanças no tempo verbal.
    .
    Fiquei pensando aqui nesse fim, a passagem da leitura do caderno e as cores. Senti um gosto de QUEROMAIS, isso é bom.
    .
    Boa sorte.

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Publicado às 15 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .