EntreContos

Detox Literário.

Coisas que lembraremos antes de ver o pôr do sol (Fabio Baptista)

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Bungalow Bill secou o suor da testa, fixou o olho bom no céu e viu que o Sol já caia, brilhando como uma moeda de prata jogada em direção ao oeste. Gritou “eia!!!” e chicoteou os cavalos, aumentando a velocidade da diligência que erguia gordas nuvens de poeira vermelha ao rasgar a aridez do deserto. Dentro da cabine, Scott e Jessica Summers sacolejavam mais do que pipoca estourando num tacho de ferro. A menina abriu a portinhola do teto, subiu apoiando-se nos cotovelos, curvou a sobrancelha e perguntou ao cocheiro, com o vento enchendo sua boca de areia e desgrenhando ainda mais seus cabelos:

– Não dá pra ir mais devagar, Bill? Desse jeito nossas cabeças vão ficar chacoalhando até o Dia de Ação de Graças, sô!

– Dá não, senhorinha. Espia ali o sór. Se nóis num travessá esse descampado até escurecê, danou-se tudo. É só a danada da Lua dá as cara que começa a descê índio das montanha, subi índio do precípicio… começa a brotá índio até do chão! Inguar furmiga num pic nic, senhorinha. E nóis é o bolo!

Jessica voltou ao seu lugar, percebendo que seria inútil tentar demover o turrão Bungalow Bill de toda aquela pressa. Acariciou o rosto amuado do irmão e olhou pela janela, imaginando se realmente haveria tantos índios escondidos lá fora. Como conseguiriam viver num lugar daqueles, sem coisas básicas como poços, xerifes, casas com telhado, travesseiros e tortas de maçã? Seus pensamentos foram interrompidos por uma visão que era o amálgama perfeito entre o belo e o terrível – o chão desapareceu no lado direito da carruagem, cedendo lugar a um vazio vertiginoso que só terminava muito abaixo, num turbilhão de águas que parecia querer arrastar consigo as montanhas que o ladeavam. Depois do susto que a fez recuar emitindo um soluço, Jessica grudou o nariz no vidro empoeirado, contemplando o desfiladeiro com olhos mais verdes e preciosos que as esmeraldas de sua mãe. O abismo a encarava de volta.

E não estava com boas intenções.

Pouco à frente, homens começaram a brotar do chão. Não índios, como previra o cocheiro – capangas de Willy Coiote, o fora-da-lei mais temido do velho oeste, que ostentava uma lista de crimes tão extensa quanto o rio Mississipi e se gabava por ter a cara peluda estampada em cartazes de “Procurado Vivo ou Morto (de preferência morto)” pregados em todos os postes de Oregon ao Novo México. Subindo das escarpas onde aguardavam de tocaia, os malfeitores interpuseram-se na rota da diligência, forçando o velho Bungalow Bill a desviar, passando rente às encostas que margeavam sua esquerda, permitindo assim que outro facínora, de campana na colina, saltasse sobre a carruagem. Tudo sincronizado com pontualidade britânica. Jessica e Scott gritaram quando o estrondo causado pelas botas do vilão ressoou sobre suas cabeças. Gritaram ainda mais quando uma fuça barbuda projetou-se na portinhola e falou, com uma baba viscosa acumulando-se no canto da boca:

Buongiorno, bambini… vou ali resolver um assunto com o cocchiere e já volto pra gente prosear um bocadinho hehehehehe.

Era Willy Coiote em carne, osso e dentes cariados quem estava ali, instaurando o terror no coração das crianças. Bungalow Bill guiava os cavalos com uma das mãos, enquanto a outra tentava puxar a garrucha da cintura, mas a idade já não lhe concedia tanta destreza. Quando finalmente conseguiu sacar, recebeu um chute que fez seu braço estalar num “créc!” e a arma voar longe.

– Willy, seu miseráver! Mió disisti dessa sua trapaiada, mó de que meu patrão vai rancá suas tripa pela boca se ocê incostá um dedo nos fio dele. – Bill ameaçou, com o semblante contorcendo-se em dor.

Il tuo capo é um idiota, cocchiere. Achou que conseguiria me despistar com o velho truque da diligência solitária que não pode estar carregando nada valioso, tsc tsc tsc. Agora a menina é minha hehehehe!

– Isso eu num vô dexá cuntecê! Eu ti mato, seu fio duma cascavér desdentada! – Bungalow Bill largou as rédeas e se levantou para enfrentar o vilão.

– Me matar? – disse Willy, agarrando Bill pelo pescoço. – Acho que não, velhote. Pelo menos não antes de tomar um banho… hehehehe.

Corvos grasnaram, empoleirados num galho seco que se projetava nas encostas, enquanto o bom Bungalow Bill despencava num berro contínuo até o rio que corria, indiferente, lá no fundo do precipício. Tudo parecia perdido para os irmãos Summers, mas então um fio de esperança surgiu no horizonte. A personificação da lei, a estrela dourada que iluminava com chamas de justiça as trevas perpetuadas pelo caos, o último bastião de ordem que se erguia, inexpugnável, em meio a uma terra de ninguém. Cavalgando mais rápido que o vento e que a maldade dos homens, ali vinham o xerife Woody e seu inseparável amigo Rocky Guaxinim.

– Tem quatro capangas pelo caminho, parceiro. Temos que dar cabo deles antes de pegar o Willy – disse Rocky.

– Tá! – Woody concordou, cerrando os olhos com determinação.

Tiros ecoaram no desfiladeiro quando as forças do bem e do mal se encontraram. Um dos bandidos foi atingido no peito e saiu rolando ladeira abaixo. Uma espingarda disparou certeira contra a cabeça do xerife, mas Woody esquivou no instante derradeiro e sentiu a bala zunir no ouvido e levar seu chapéu embora. A pontaria certeira de Rocky mandou mais um para o buraco e o gatilho veloz do xerife apressou o encontro de outro facínora com o coisa-ruim. O malfeitor restante ergueu os braços, derrotado.

– Vou amarrar ele, parceiro. Vai atrás do Willy que eu já te alcanço. – Disse Rocky Guaxinim, desmontando Silver.

– Tá! – Assentiu o xerife Woody, disparando em direção à carruagem sequestrada.

Porém, em manobra tão ágil quanto traiçoeira, o capanga tirou uma faca do colete e estocou a barriga de Rocky, que colapsou no canto com o xadrez da camisa empapando-se de sangue. O bandido correu para terminar o serviço, mas a Colt 45 de Woody foi mais rápida.

– Só um arranhão, parceiro. Só um arranhão. Continue sozinho, você tem que resgatar as crianças. – Sussurrou Rocky, apertando o corte para estancar o sangramento.

Woody travou diante do amigo ferido.

– Vai, xerife! Tudo depende de você! Vai! – gritou Rocky.

– Tá… eu vou! – a determinação voltava a encher o espírito e a transbordar no semblante de Woody.

O Sol já tingia as nuvens de vermelho quando o xerife alcançou a diligência. Uma brisa fria soprou do norte e, no alto das colinas, lobos começavam a uivar presságios de mau agouro. Willy Coiote escutou os cascos de Bala no Alvo, a lendária montaria de Woody, reverberando no chão rachado às suas costas. Já sentia na boca o gosto do duelo pelo qual tanto ansiava. Finalmente teria a oportunidade de mandar o xerife para sete palmos abaixo da terra. Largou as rédeas, subiu na carruagem e bradou, segurando a fivela do cinto com as duas mãos:

– Aqui estou, meu amico. Que tal resolvermos isso como homens de verdade, à moda antiga? – jogou as pistolas para o lado e cerrou os punhos em frente ao rosto.

Woody pensou em atirar e acabar de vez com aquele patife, mas não seria honrado alvejar um sujeito desarmado, por pior que ele fosse. Ficou de pé sobre Bala no Alvo e saltou para a diligência, que trepidava desgovernada, guiada apenas pelo bom senso dos cavalos. Scott e Jessica se abraçavam, na vã esperança que a escuridão dos olhos fechados levasse o medo e o perigo embora.

– Só há lugar para um de nós dois por essas bandas, sceriffo. Mas devo avisá-lo que já lutei contra homens muito maiores que você e nenhum deles saiu vivo para contar a história… hehehehe. Acha mesmo que pode me vencer?

– Acho! – disse Woody, investindo contra o malfeitor.

Mocinho e bandido engalfinharam-se na batalha mais feroz de todos os tempos, que, desafortunadamente, teve apenas as montanhas e os corvos como testemunha. Sopapos, cotoveladas e cabeçadas eram desferidos em profusão. Dentes podres voaram sob a morbidez rubra do sol poente. Willy era um adversário forte, mas o xerife Woody não podia perder. Um cruzado de direita levou o estômago do vilão até a goela. Um gancho de esquerda juntou maxilar à testa e derrubou o fora-da-lei da carruagem, fazendo-o rolar desacordado e untar-se até as ceroulas com a areia quente do deserto.

– Socorro, xerife!!! – o grito de Jessica soou abafado.

O herói abriu a cabine, agarrou as crianças e saltou pela outra porta, segundos antes da diligência despencar no cânion e se converter num amontoado disforme de lascas de madeira e carcaças de cavalos. Mais um dia salvo pelo indômito xerife Woody, mas ainda havia muito a se fazer. A justiça nunca tinha descanso naque…

* * *

– Chega meninos, hora do jantar. – Marta chamou da cozinha, interrompendo a brincadeira que transformava sua sala em uma locação cinematográfica de baixo orçamento.

– Ah… só mais um pouco! – Felipe pediu à mãe… olhando para o pai.

– Amanhã a gente brinca mais, meu amor. – Antônio afagou os cabelos do filho, que, cabisbaixo, guardava a arma de plástico e tirava o colete de cowboy. – Agora vai lá contar pra sua mãe o que o xerife Woody fez hoje, ragazzo.

O pai sorriu ao ver Felipe correr para a cozinha e relatar, com as palavras atropelando umas às outras, as aventuras que acabara de viver. Antônio era engenheiro, não ator. Mas quando chegava do trabalho, demonstrava uma versatilidade de Jack Nicholson encarnando piratas (arr!), robôs, mocinhas indefesas, paladinos, amazonas que encheriam Valerie Solanas de orgulho, vampiros que brilhavam no sol e monstros de verdade, alienígenas, exploradores espaciais e, seu cast preferido, pistoleiros do velho oeste. Sempre com atuações dignas de Oscar, ao menos aos olhos de seu filho – os únicos olhos que importavam.

Antônio colocava esses momentos numa caixa etiquetada “Coisas que merecem ser lembradas” e a guardava no lugar mais especial de sua memória. Nessas horas, invariavelmente deparava-se com o mais terrível dos paradoxos – quanto maior a felicidade alcançada, maior a angústia decorrente da certeza que, mais cedo ou mais tarde, ela irá embora. No fundo de sua alma sabia que a doçura e inocência, bem como a companhia constante do pequeno Felipe acabariam lhe escapando por entre os dedos, que as asas de seu anjo diminuiriam à medida que suas pernas crescessem e, sabia também, que não havia nada que pudesse fazer a respeito. Nada além de rezar para que o tempo não fosse muito cruel.

O tempo passou e não foi cruel, tampouco caridoso. Foi apenas o que é e sempre será – inexorável. Sem motivo aparente, as brincadeiras começaram a não ter a mesma graça e, pouco a pouco, o mundo desenhado na tela do videogame parecia cada vez mais interessante que aquele construído na imaginação. Os amigos da escola pareciam cada vez mais divertidos que o pai. Rocky Guaxinim e xerife Woody já não eram mais parceiros inseparáveis como foram um dia. E isso doía no coração de Antônio. Mas ainda não havia nada que pudesse ser feito.

Nunca haveria.

Novamente o tempo passou, porque, querendo ou não, ele sempre passa, e o engenheiro recebeu uma proposta de emprego no interior. Salário melhor, casa maior, ar puro, piscina, qualidade de vida. Amigos e parentes ficariam distantes, Marta sairia do coral, Felipe teria que mudar de escola. Para Antônio, esse último item era o que mais pesava no lado dos “contras” – tinha medo que o filho, que já estava mais para adolescente que para criança, o odiasse pelo resto da vida. Mas um homem precisa garantir o futuro da família e aquela era uma oferta irrecusável. Arrumaram as malas e foram encarar os desafios da vida nova, como desbravadores do oeste. Antônio ao menos encarava assim. Felipe não disse uma palavra sequer, durante toda a viagem.

Meses se passaram e o filho continuou sem se mostrar adepto de longos diálogos, quase sempre se limitando a conversar abrindo mão apenas de interjeições lacônicas e sons nasais. Marta dizia que era coisa da idade. Antônio começava a se irritar. Em seus sonhos mais secretos, desejava que Felipe voltasse a ser aquele garotinho que se babava todo ao imitar som de revólver enquanto corria em volta do sofá e que o tempo parasse por ali mesmo. Mas isso não aconteceria e a realidade precisava ser enfrentada. Numa noite qualquer, milhares de estrelas que jamais seriam vistas na capital cintilavam no céu como pequenos pontos de saudade, tristeza e juras de amor não cumpridas. Sentado na varanda, Felipe as observava. Antônio decidiu que era hora de tentar uma reaproximação.

– Isso que é céu, né Fê? Aquilo que a gente via era só propaganda enganosa… – Disse, sentando-se ao lado do filho.

– Hun…

– Tá triste, ragazzo?

– Hun hun…

– Tá pensando em quê, filho? É nos seus amigos? Você sente muita falta deles? Olha, eu sei como v…

– É, pai. Estava pensando nos meus amigos. Mas não do jeito que achei que pensaria depois que mudasse pra cá. Pensei que lembraria deles com saudade, que sentiria a maior falta. Mas não… não estou sentindo nada, pai. Nada. É como se todas as tardes de futebol, videogame e milk-shake depois da aula nunca tivessem acontecido e eu não sei… eu não sei, pai… se essa facilidade em esquecer as pessoas é boa ou ruim. Só sei que eu esqueci. E não estou me sentindo muito bem com isso.

A noite encarregou-se de cobrir o silêncio com seu véu de escuridão.

* * *

O bom, o mau e o feio se encaravam, enquanto a trilha sonora do faroeste macarrônico de Sergio Leone inseria hipnoticamente a paisagem árida do duelo na cabeça dos espectadores e despertava-lhes uma vontade angustiante de gritar “Atira logo!”. Para Antônio, não era apenas o filme que estava prestes a terminar quando Clint Eastwood finalmente puxou o gatilho.

– Já viu esse, filhão? Senta aí, eu volto do começo, vamos assistir juntos.

– Esse filme é muito parado.

– Esse filme é clássico!

– Hun… não tô a fim não, pai.

– Você tá é muito chato, isso sim. – Antônio desabafou em voz alta.

– Chato? Eu? Vou te falar o que é chato, pai… – As dinamites confinadas no peito de Felipe também começavam a explodir. – Chato é essa porra desse filme, cha…

– Olha a b-boca, moleque… – disse Antônio, gaguejando de raiva, com um zunido tomando conta de seus ouvidos.

– Você não queria que eu falasse? Agora eu vou falar, pai! Chato é esse filme, chato é você, chato é esse cú de mundo aonde a gente veio morar. Se você acha que é vida colocar a bunda no sofá e ficar assistindo dez vezes a mesma merda, está muito enganado. Isso é vegetar, pai. Vegetar! Eu não quero isso pra mim, você entendeu? EU NÃO QUERO ISSO PRA MIM!!!

Antônio partiu para cima do filho, com a intenção de dar-lhe a surra que nunca precisou dar quando pequeno. Mas agora Felipe estava mais para adulto que para adolescente, já não havia quaisquer resquícios do menino que se fantasiava de xerife e esperava ansiosamente o pai chegar do trabalho. Um soco. Antônio foi ao chão com o nariz quebrado e o coração tão seco e partido quanto o chão do deserto.

– Pai… eu não queria… me… me descul…

– Vai embora dessa casa. E não volta nunca mais.

Felipe voltou para a cidade e, por mais que tentasse, não conseguia esquecer o pai. Contou com a ajuda de Marta amiúde, em exaustivas empreitadas buscando perdão. Mas Antônio manteve-se irredutível e as tentativas de se desculpar foram rareando. O filho aceitou que conviver com a culpa era parte de seu destino – o vento ainda soprava e, de um jeito ou de outro, todos tinham que continuar vivendo.

O tempo passou, porque ele sempre passa. Mas não eternamente.

Não para os homens.

* * *

O telefone ecoou na kitnet, sobrepujando o ruído incessante dos carros, mendigos, prostitutas e boêmios desempregados, que se estendia como um pano de fundo invisível na madrugada do centro da metrópole. Seja onde for, ligações às 3 da manhã nunca trazem boas notícias. E essa não foi exceção.

– Alô…

– Oi… oi, filhote…

– Oi, mãe… tá tudo bem? – Perguntou Felipe, já sabendo a resposta. Alguma coisa não estava nada bem, ele só não sabia ainda o que era. Mil coisas passaram por sua cabeça, enquanto o frio do porcelanato irradiava-lhe dos pés ao último fio de cabelo.

– Seu pai…

– Não, mãe… não me fala que ele morreu… não…

– Não, filho… ainda não. Vem pra cá, Felipe. Vem depressa.

Ele foi.

Antônio estava internado. Câncer. Nada a fazer além de receber morfina e esperar pela morte, que não dava impressão que iria se atrasar. Felipe começou a chorar assim que entrou no quarto e viu seu velho herói naquele estado deplorável, apenas pele e osso, cheio de fios e tubos conectados por todos os lados e orifícios. Deus do céu, quanto tempo tinha se passado. Quanto remorso não escorria pelo seu rosto junto às lágrimas. Sentou-se ao lado da maca e segurou a mão do pai.

– Pai… me perdoa, pai…

Os olhos de Antônio brilharam, repletos de ternura, ao ver o filho.

– Eu te perdoo, meu filho querido. Claro que eu te perdoo. Só lamento ter sido um idiota e não ter feito isso antes. Vem cá, dá um abraço aqui no seu pai, ragazzo

Respondeu tirando a máscara de oxigênio. A presença de Felipe lhe trouxe um último sopro de vitalidade que revigorou corpo e alma. Pai e filho compartilharam um longo abraço e o ar do quarto ficou carregado de amor e redenção. Depois, dada a escassez do tempo, conversaram somente sobre coisas que mereciam ser lembradas.

– Pai, por que você gostava tanto de faroeste?

– Essa é boa… – Antônio sorriu. – O culpado é o seu avô. Um sujeito troncudo, que falava alto, gesticulava sem parar. Vivia com o semblante fechado, mas tinha um coração que não cabia no mundo. Você ia gostar dele. Aliás, não tinha quem não gostasse dele. Trabalhava em dois empregos para sustentar a família, quase não parava em casa. Mas sempre que podia, me levava para assistir a “sessão bangue-bangue”, dois filmes pelo preço de um. Por Deus, como eu adorava. Como eu adorava. Ficava ali sentado, comendo pipoca que a sua vó fazia e a gente levava pro cinema numa caixa de sapatos. Numa caixa de sapatos! Olhava para o meu pai e via uma criança deslumbrada, que se esquivava das flechas junto com o John Wayne. Depois voltávamos pra casa e brincávamos de cowboy até a hora da janta. Aquilo era mágico, filho. Mágico.

– Eu sei como é, pai…

– Sabe? Você se lembra?

– Se eu me lembro? Como eu poderia me esquecer? Eu era o xerife Woody! O xerife Woody! A estrela da justiça, o gatilho mais rápido do oeste. Não havia índio apache, Willy Coiote, Paco Loco, nem Bilbo Bafo de Onça que fosse páreo para a gente, pai. Aquilo marcou minha infância. Minha vida. Ficou impregnado na minha alma como as lembranças mais doces que alguém poderia sonhar em ter.

– Como era mesmo o nome do desenho do Woody? – perguntou Antônio enquanto secava uma gota de felicidade líquida que lhe escapava no canto dos olhos.

Toy Story.

Toy Story! E o nome daquele jogo de videogame?

Red Dead Redemption?

– Não, esse aí tinha muito botão. Aquele outro, mais simples.

Sunset Riders?

Sunset Riders! Lembra quando a gente matou o chefão? Minha mão suava tanto que o controle até escorregava. Saímos correndo comemorando, abraçamos sua mãe e ficamos pulando em círculos por uma meia hora. Ela não entendeu nada.

– Lembro. Ah, como lembro! – Felipe gargalhou.

– Queria ter te acompanhado mais, ragazzo. Ter tentado me interessar pelas coisas que você se interessava, ter aprendido a jogar o tal do Red Dead não-sei-o-quê, ter ido atrás de você ao invés de tentar te puxar pro meu caminho, não sei. Deus do céu, queria poder viver tudo de novo, filho. Uma vida só foi muito pouco pra me dedicar à você e à sua mãe. Muito pouco…

– Foi a melhor vida que eu poderia ter, pai. A infância mais bonita que um menino pode querer. Eu que cresci e fiquei besta, estraguei tudo. Mas agora nós estamos aqui, juntos de novo, pai. Eu te amo. Obrigado por tudo. Obrigado…

O coração de Antônio desenhava uma cordilheira na tela verde do monitor cardíaco. Rocky Guaxinim e xerife Woody, os cowboys mais intrépidos que já caminharam por essas bandas, reuniram-se novamente, para desespero dos malfeitores. Montaram Bala no Alvo e Silver e cavalgaram na direção do Sol, que agora se ocultava atrás das nuvens, delineando uma trilha alaranjada para o oeste desconhecido. Compartilharam o silêncio que só os parceiros inseparáveis podem compartilhar, enquanto as montanhas ao redor ficavam cada vez menores e mais espaçadas.

Menores e mais espaçadas, até tornarem-se uma tranquila planície…

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38 comentários em “Coisas que lembraremos antes de ver o pôr do sol (Fabio Baptista)

  1. Gustavo Araujo
    19 de novembro de 2014

    Ótimo conto. Sou suspeito para falar, na verdade. Gosto de narrativas que causam esse tipo de emoção — essa sensação que só relações interfamiliares (e às vezes de amizade) podem provocar.

    No início torci o nariz para a grande quantidade de clichês, mas depois, ao perceber que tudo se tratava de uma brincadeira de pai e filho, percebi que era proposital e essa constatação caiu como um bálsamo.

    O trecho que se segue ficou um pouco acelerado, mas isso se justifica pela limitação imposta pelo desafio. De todo modo, o conto recupera a pegada na parte final, em que o verdadeiro “showdown” acontece, a hora da verdade, de olhar para trás e ter a real noção do que foi a história de Felipe e o pai.

    O conto passa uma mensagem que em outras situações poderia parecer piegas e batida, a de que devemos aproveitar o tempo com aqueles que nos são caros. Graças à habilidade do autor, esse recado é passado de maneira natural e, devido à metáfora do monitor cardíaco com o relevo do velho oeste, bastante poética, um contraponto bem interessante com a carga emocional do momento.

    Enfim, um conto de fôlego, com uma pegada emocionante. Do jeito que eu gosto. Parabéns.

    • Fabio Baptista
      20 de novembro de 2014

      Fala, Gustavo!

      Agradeço a leitura, imaginei que você gostaria desse. Tem uma pegada bem diferente do “Homens de Preto” kkkkkkkk

      Estou pensando seriamente em transformar essa história em algo maior. Acho que todos os elementos de um romance estão aí, só falta agora o 90% das transpiração para colocar no papel.

      Até a Copa eu termino… 😀

      Abraço!

  2. Thiago Lopes
    23 de maio de 2014

    Só não gostei da marcação do dialeto caipira. O resto está tudo ok! Sem contar que é engraçado. Adorei o trabalho com os clichês

  3. vitorts
    18 de maio de 2014

    De início fiquei incomodado com o clichê e o tom caricato demais da passagem no velho oeste. Depois, entendi que era uma fantasia infantil, e não poderia ser escrito de outra maneira.

    Como alguns comentaram, peca por causa do tema do desafio ser apenas coadjuvante, não protagonista. No entanto, o drama familiar foi muito bem construído. Imagino que a limitação de caracteres tenha sido um baita problema. Deu para notar mudanças muito abruptas na trama que tenho certeza que o autor teria se demorado mais caso fosse permitido.

    No geral, bem escrito e com umas belas descrições. Gostei particularmente do paralelo entre o relevo e as marcações do cardiograma.

    Boa sorte no desafio!

  4. Woody Green
    12 de maio de 2014

    Bá tarde, gente boa!

    Aqui é o Bungalow Bill, tô escreveno em nómi do patrão Woody Grin, mó de que ele tá muito ocupado comentano uns tar de uns conto por aí e dando uma coça nos desaforado que fôro pidi fiado lá no salun.

    Premero eu quiria gradecê a preocupação de todo mundo comigu… só que não! Tá loco, sô! Num teve um fio de Deus pra dizê “coitado do Bungalow Bill”! Eita cambada de gente com coração peludo! Mas vaso ruim num quebra… só fiquei um poco moiado e tussi, mais que úrtimo fiote de ninhada de cadela manca, por uns cinco dia. Só que agora já tô pronto pra ôtra e quando eu topá caquele Coiote miseráver, vô rancá os dente dele co cano da garrucha! Ah se vô!

    Mas na verdade eu vim aqui dizê que o patrão gostô muito dos comentário que ocêis fizéro, das sugestão pra miorá os diaglo… dilágo… di… ah, que palavrinha mais difícir, sô!!! Pra miorá as conversa e tudo mais. E ele falô que gradece dimais todo mundo que leu e gostô e também quem leu e num gostô! (Esse patrão tem um coração di ôro, num guarda mágoa di ninguém!)

    Incrusive, pra quem num gostô, ô acho que fico fora do tema, ele falô que vai até mandá uns bandolêro atrais docêis, prá eles falá pessoarmente como que tá gradecido e num guardô mágoa!

    Pros hómi que gostaro, o patrão vai mandá umas dançarina lá do salun.

    Pras muié, essas flôr de formosura, ele falô que vai mandá umas torta de maçã que a patroa faiz (coisa de premera!), ô intão, o cochêro caoio mais boa pinta dessas banda… eu!

    Ocêis iscóie. 😀

    Bão, já mandei prepará as torta… 😦

    • JC Lemos
      12 de maio de 2014

      Mas esse tal de Bungalow Bill já manja até de internet?!
      Esse cabra é bom mesmo!

      • Bungalow Bill
        22 de maio de 2014

        A gente tem que si modernizá, né?

        Inda mais que o patrão adora fazê nóis trabaiá cum coisa que num tem nada a vê cunósso serviço.

        Eu memo, pur exempro, fui contratado pra sê cochêro… já trabaiei de babá dos fio dele (o piázinho ranheta e a minina desaforada), já fui leão de chácra, servi café, atendi telégrafu, saí qui nem doido pra comprá mio quando a patroa tava grávida, pra mó das criança num nacê cum cara de espiga…

        É um acumulo de função danado, sô!

        Mas enquanto ele num mi pidi pra dançá Can Can no salun, nóis vamô levano…

  5. Bia Machado
    11 de maio de 2014

    Gostei, sim, principalmente do final, muito bem sacado! Lindo mesmo. Algumas falas não me soaram muito naturais lá pelo meio (não digo as primeiras, porque explica-se estarem em uma encenação). Achei que o tema ficou um pouco fora, mas com certeza foi uma boa leitura. Parabéns pela ideia, adoro histórias desse tipo, rs.

  6. Davi Mayer
    5 de maio de 2014

    Muito bom o conto. Saiu do lugar comum. Gostei muito do inicio, mas já suspeitava que não terminaria a historia daquele jeito. O texto fluiu muito bem. O final foi o que se espera de todo drama.

    As figuras de linguagem foi um talento a parte.

    Parabéns.

  7. Marcellus
    5 de maio de 2014

    Gostei do conto. Muito mesmo. Quem não tem suas rusgas com o pai, o avô, o tio, o irmão?

    É bem escrito, tem bom enredo… mas volto ao problema principal: o tema do desafio foi coadjuvante.

    De qualquer forma, boa sorte ao autor! E parabéns pelo texto!

  8. Swylmar Ferreira
    4 de maio de 2014

    Gostei muito do conto, muito mesmo. Apesar do tema faroeste passar ao largo , achei muito bem desenhada a narrativa com um final bem emocional, a alegoria comparativa no monitor cardíaco foi sensacional. Sei como doí perder um grande herói.
    Parabéns! Boa Sorte

  9. Leandro B.
    3 de maio de 2014

    O conto me incomodou bastante, mas de uma forma positiva. A passagem do velho oeste clichê (que, aliás, está muito bem descrito, exceto por alguns exageros infantis que se explicam logo depois) para o drama familiar foi uma pancada e tanto.

    O fluxo narrativo é ótimo, mas foram as descrições que realmente me pegaram. Os personagens são extremamente convincentes. Achei um conto muito, muito bom. Mas não tenho certeza se o definiria como um excelente conto com a temática de velho oeste.

    No mais, um ótimo trabalho. Parabéns por ele.

  10. rubemcabral
    30 de abril de 2014

    Eu gostei bastante: achei bem escrito, comovente sem ser piegas, divertido. Só achei o tema do desafio um tanto pálido, mas, como disse, achei o conto muito bom.

  11. Felipe Moreira
    30 de abril de 2014

    Não quero parecer suspeito, mas me encantei com o Felipe. Eu não esperava essa revelação do conto. Pensei mesmo que fosse completar-se nessa linha cômica que não passava de uma brincadeira dentro de casa. Muito bom. O conflito, o questionamento, a incerteza do Antônio em relação ao filho… Nossa, bem escrito. Só acho que o limite do conto não ajudou nessa grande história.

    O diálogo no final é comovente. Está de parabéns. Ainda estou começando as leituras, mas dos que eu li, esse é meu favorito.

    Boa sorte.

  12. R. Sollberg
    28 de abril de 2014

    Deixa eu tirar um cisco aqui do meu olho… Parabéns, muito bacana. Envolvente, delicado sem ser piegas, atual! Você usou bem o faroeste como pana de fundo e mesclou bem com referências contemporâneas. O mote, em si, não é tão original, mas estórias sobre pai e filhos bem contadas não se esgotam jamais.
    Agora, vê se me dá licença pois vou dar uma abraço no meu pai.

  13. Hugo Cântara
    25 de abril de 2014

    Um bom conto, o meu preferido até ao momento.
    A narrativa fluiu muito bem, o diálogos foram muito bem conseguidos. Gostei das falas do velho Bill e do Coiote.
    A escrita foi simples (no bom sentido), com momentos bonitos que conquistam o leitor. Só não gostei tanto de algumas repetições de palavras nos diálogos.
    O fim foi óptimo e emotivo, com o autor a escolher a analogia perfeita entre as montanhas/planície e o monitor cardíaco.
    Parabéns pelo conto e boa sorte!

    Hugo Cântara

  14. Thales Soares
    25 de abril de 2014

    Bom… no começo eu não estava gostando muito do conto. Me pareceu uma história muito normal, com os personagens de Toy Story… depois fiquei feliz quando tudo mudou de rumo (apesar de eu já estar esperando por isso).

    Entretanto, o gênero deste texto em nada me agrada. Não estou falando do faroeste (que é tema deste desafio… se eu não gostasse nem estaria participando), mas sim do drama. É um gosto pessoal meu, e por isso não apreciei sua obra. Mas com certeza está escrita magnificamente bem, e o autor sabe disso. Eu não apreciei porque não faz meu estilo, só isso…

    Gostei das diversas referências, acho que isso é algo que enriquece bastante uma história. Eu também prefiro jogar Sunset Riders do que Red Dead Redemption. Sou um jogador old-school.

  15. Claudia Roberta Angst
    24 de abril de 2014

    O legal foi iniciar a leitura sem me dar conta que era uma brincadeira de criança. Fiquei mesmo imaginando o abismo olhando de volta e ameaçando no seu silêncio. Tenho ideia fixa por abismos. Gostei das imagens muito bem trabalhadas, dos diálogos e da narrativa em si.
    Cu como tu não tem acento. Não sei quantas vezes falei isso na vida. Não custa frisar isso mais uma vez.
    O final foi o que mais me pegou, comoveu e encantou. Poético e bem dosado. Parabéns. Boa sorte.

    • Claudia Roberta Angst
      29 de abril de 2014

      Olha só, por causa de um acento, acho que descobri quem é o autor deste conto. Hummm…interessante. Boa sorte.

      • Bungalow Bill
        12 de maio de 2014

        Êta, lasquêra!

        Será que o patrão andô escreveno “butico” errado aí pelas rede sociar?
        Ô será que aquele cuzinhero novo, que vive dexando os bife már passado lá no salun, acabô dano cá língua nos dente?

  16. Thata Pereira
    24 de abril de 2014

    Gostei muito! Um conto realmente muito bonito. Frases finais perfeitas!

    Estava gostando muito do conto no começo, principalmente por conta dos diálogos. Fiquei me perguntando como o autor continuaria prendendo minha atenção, pois já havia visto que faltava muito para acabar o conto. Então veio a surpresa, mas confesso que eu já esperava que algo do tipo fosse aparecer, não me incomodei e até gostei. Com Felipe sendo expulso de casa, novamente me perguntei como o autor seguiria com a história. Fiquei esperando um daqueles finais felizes, onde os dois brincariam juntos no tapete da sala mesmo depois de velhos (rsrs). Quando a mãe liga para o filho e ele diz “o pai morreu…” foi a única parte que não me soou convincente. Levei em consideração quando li as experiências que sofri ao saber que pessoas queridas haviam falecido. Eu evito usar a palavra “morte”, “morreu” nessas horas. Mas cada um é cada um…
    Pensei, desde então, que o tema faroeste não voltaria, acabou voltando com a pergunta do filho e relato do pai sobre seu gosto. No final, pensei que o pai sobreviveria e talvez foi uma sacada proposital, até ler as duas últimas frases. Encantada!

    Boa sorte!

  17. Fabio Baptista
    23 de abril de 2014

    No geral, gostei.

    A cena de ação é recheada de clichês, mas, como observou o colega Eduardo, tratava-se da representação de uma representação. De qualquer forma, não costumo me importar muito com o uso de clichês, desde que bem trabalhados, dificilmente um texto hoje em dia conseguirá ser 100% original.

    Faltou uma vírgula aqui:
    – Chega meninos, hora do jantar

    A palavra “aonde” sempre me soa estranha, mesmo quando empregada corretamente como parece estar aqui:
    – chato é esse cú de mundo aonde a gente veio morar

    Talvez com um pouco mais de palavras fosse possível criar um apego maior aos personagens, deixando o final mais cativante. Mas talvez acabasse só enchendo linguiça, não temos como saber 😀
    Pra mim, ficou bom dessa maneira.

    Gostei da abordagem diferenciada (e aqui talvez caiba a pergunta – o texto é 100% aderente ao tema “Faroeste”? Espero que mais ninguém queira me matar depois dessa! kkkkk), dos diálogos que soaram bem naturais e também da maioria das imagens que foram criadas (como a da pipoca, destacada em outro comentário), embora acredite que algumas poderiam ser limadas sem grande perda, levando consigo alguns “como”, “que”, “tal” que sempre acabam vindo junto.

    A associação do monitor cardíaco com as montanhas foi muito inspirada, fechando bem o conto.

    OFF: Putz… eu pulei comemorando com o meu primo quando matamos o fdp do Richard Rose no final de Sunset Riders (não lembro se era Mega Drive ou Super Nintendo).
    kkkkkkk boa lembrança! 😀

    Red Dead Redemption eu não joguei.

    Abraço!

  18. Rodrigo Arcadia
    23 de abril de 2014

    Gostei, gostei. achei que o texto inteiro acabaria na ação da primeira parte e eis que, aparece a segunda parte e que por sinal, me chamou mais atenção. e olha as referencias que existem no decorrer da história? E se encerra com um bonito final. Isso, aí bom, mesmo.

    Abraço!

  19. Eduardo Barão
    22 de abril de 2014

    Achei brilhante. Extremamente bem escrito e ambientado.

    A relação entre pai e filho é comovente e o tema foi muito bem trabalhado dentro do contexto proposto. Meus sinceros parabéns.

  20. Anorkinda Neide
    22 de abril de 2014

    Eu gostei da primeira parte… bem caricata, mas é isso mesmo q eu estava esperando do tema faroeste.. hehehe
    Nao tava entendendo pq o xerife só diz Tá! hiuahua foi uma boa sacada, muito boa!

    Mas não me agradei tanto da descrição melosa do pai sobre infancia e tals…
    O ultimo parágrafo está lindo, com a analogia eletrocardiaca…!
    Parabens!
    Boa sorte no desafio!

  21. Vívian Ferreira
    22 de abril de 2014

    Adorei o conto! Original e bem escrito, foi o que mais gostei até agora. Gostei da parte do faroeste com todos os elementos do gênero, a postura tão comum do pai que não sabe lidar com a mudança do filho e as analogias do fim. Parabéns ao autor e boa sorte!

  22. Ricardo Gondim
    22 de abril de 2014

    Muito bom. Inteligentemente construído. Gostei demais.

  23. Eduardo Selga
    21 de abril de 2014

    Em literatura existem pouquíssimos valores absolutos, pois felizmente não é uma ciência exata. Digo isso porque o presente conto está salpicado, em sua primeira parte, dos cansados clichês do western, mas funciona maravilhosamente. Por quê? Porque é a representação de uma representação, ou seja, é uma encenação entre pai e filho, na qual eles imaginam a cena descrita da primeira parte. E num caso desse, as marcas de representação de gênero precisam estar bem visíveis, na medida em que a intencionalidade do pai é, além de divertir-se (e divertindo-se retorna à infância com o seu próprio pai, avô do menino), incutir na criança os conceitos maniqueístas de bem e mal.

    E esse extremo exagero do pai, que precisa o tempo todo marcar o território, lembrando estar no “velho oeste”, gera humor, uma das características do jogo lúdico. O interessante é que esse efeito humorístico não se estabelece entre pai e filho (eles levam tudo muito a sério), e sim no receptor do texto, o leitor, quando este se dá conta da encenação. E ao acontecer isso, o autor põe o leitor no bolso. Conquista-o e cria nele um sentimento de boa vontade para tudo o mais que virá na narrativa.

    Outra marca desse humor, na primeira parte, está na linguagem do cocheiro. Na tentativa de criar a ideia de que ele é um caipira norte-americano, o pai usa um “caipirês” próprio do interior de algumas partes do Brasil, misturado com a variedade linguística urbana não prestigiada. Assim:

    “MIÓ DISISTI dessa sua TRAPAIADA, MÓ DE QUE meu patrão vai RANCÁ SUAS TRIPA pela boca se OCÊ INCOSTÁ um dedo NOS FIO dele”.

    O término do conto é uma alegoria muito bem construída, em que a cordilheira é formada pelos sinais cardíacos e a morte é marcada pela transformação dela em planície. Porque, claro, quando o coração para o sinal se mostra uma linha reta. E o afeto entre pai e filho é demonstrado pelo reentrada em cena, nessas “montanhas”, dos personagens da primeira parte.

    Isso é trato linguístico. E estilístico.

  24. Martha Angelo
    21 de abril de 2014

    Lindo texto, comovente! Parabéns!

  25. Pétrya Bischoff
    21 de abril de 2014

    Muito bom. A primeira parte me incomodou por tantos clichês, até revelar a brincadeira. O filho fascinado pelo pai que, na adolescência fica “rebelde” para depois amadurecer e sentir o peso de suas decisões realmente emociona. A narrativa é agradável e o final deixa um nó na garganta. Parabéns!

  26. Brian Oliveira Lancaster
    21 de abril de 2014

    Pura nostalgia! Sunset Riders… Nossa, que lembrança. E que final hein? O início é um pouco travado, mas me cativou pela emotividade da segunda parte.

  27. Jefferson Lemos
    21 de abril de 2014

    Achei bem legal esse texto. Algo mais sentimental, um drama vivido vezes e mas vezes nessa roda que gira sem parar.

    X-men, Papa-Léguas, Guardiões da Galáxia, Toy Story… essas foram algumas das referências que consegui pegar no texto. Acho que essa primeira parte do faroeste ficou bem legal, e a forma como mudou depois, foi suave.

    Uma forma diferente de abordar o texto, e merece os parabéns pela originalidade. Está bem escrito e no geral eu gostei da história.

    Espero que outros possam apreciar, e lhe desejo boa sorte no desafio!

    “Wyrd biõ ful ãræd”

  28. Thiago Tenório Albuquerque
    20 de abril de 2014

    Achei muito bom. A primeira parte do texto, a que descreve a brincadeira entre pai e filho, em certos momentos me fez rir desbragadamente (devido aos clichês tão marcados, semelhantes a shows de marionete da década de cinquenta) e tive que esperar alguns instantes para retomar a leitura. Da segunda parte para frente eu simplesmente não pude para a leitura até o final. Identifiquei-me muito com o texto. A relação afetiva entre o western e o pai remeteu-me a alguns lances de minha própria. Um texto que realmente me prendeu. O que mais gostei, até agora, nessa edição.
    Parabéns e boa sorte.

  29. Tom Lima
    20 de abril de 2014

    Toda vez que lia Rocky Guaxinim pensava em Rocket Racoon. 🙂

    A ideia é muito interessante.
    Mas acho que faltou algo, algo que não sei explicar.
    Acho que eu não consegui me aproximar dos personagens como deveria nesse tipo de drama. O que pode ter sido causado pelo limite de palavras.

    Enfim, ideia interessante, ótima execução.

    Boa sorte.

  30. mariasantino1
    20 de abril de 2014

    “sacolejavam mais do que pipoca estourando num tacho de ferro” 🙂 Sempre presto atenção nas analogias e gosto quando são bem usadas.

    Adorei a primeira fala do cocheiro. 🙂 (complementando após o término da leitura… Todos os diálogos são bons dimas dá conta sô!)

    Cara! Nem terminei de ler e já amei o que foi descrito.

    O xerife, compenetrado só pronuncia monossílabos, para não perder a concentração é? Rsrs. Adorei.

    Bem, eu fiquei meio que decepcionada, mas não por perceber a brincadeira, não só com Toy Story, foi o fato da queda da narrativa, estava fluida, estava graciosa e depois caiu, entretanto, a parte do diálogo com o pai no finalzinho me fez voltar a gostar do texto.

    Em resumo achei bacana, ousado e a escrita me lembra alguém que já li e que gosta de brincar com verdade e fantasia geralmente envolvendo o pai doente e se chamando de Felipe. Gostei do texto retirando o meio.

    Boa Sorte no desafio. 😉

    • mariasantino1
      20 de abril de 2014

      Ressalva: Gostei de todos os diálogos nas brincadeiras do Antônio com o Felipe 😉

  31. Sérgio Ferrari
    20 de abril de 2014

    Eu não vou conseguir ler com bons olhos movimentações nos EUA se não foram bem bizarras. É difícil tirar o faroeste dos eixos normais, este não prendeu a leitura

    • Bungalow Bill
      12 de maio de 2014

      Mas a história cuntece no Brasir, sô! (O patrão que mandô falá… eu nem sei o que é Brasir…)

      Bão… acho que já sei com quem que os bandolêro vai proseá por premero.

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Publicado às 20 de abril de 2014 por em Faroeste e marcado .