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Detox Literário.

“A Peste” – Resenha (Bia Machado)

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Este foi um dos livros que separei lá, no início de 2013, para ler. Isso mesmo, 2013. Comecei, avancei umas dez páginas… E parei. Naquele momento, não estava conseguindo me concentrar e nem “achar graça” na história. Mas não desisti. Aproveitei para lê-lo agora, em fevereiro, mês de livros clássicos no Desafio Literário do Skoob. E hoje chego ao final, não com o sentimento de obrigação cumprida, mas de felicidade, por ter retomado a leitura em um segundo momento, um momento que foi mais bem aproveitado. Comecei uma leitura, terminando-a com a sensação de que, apesar do tema complicado, valeu muito a pena, totalmente.

E como essa segunda tentativa foi diferente! No dia em que consegui tirar um tempinho para ler, foram-se cinquenta e poucas páginas fácil, fácil. Mas, com a correria que esse mês sempre representa para mim, acabei lendo o restante de 20 em 20 minutos, no horário de almoço. Mas não reclamei. Era bom pegar esses minutos e mergulhar na narrativa de Camus.

No livro, acompanhamos a vida dos habitantes de uma cidade chamada Orã. Muito boa a narrativa, traçando um panorama de como essas pessoas vivem ali e mostrando que, na verdade, esse cotidiano não difere muito do cotidiano de qualquer cidade de igual porte. Certamente, com isso, seu desejo é o de nos aproximar dessas pessoas, que muito em breve irão passar por dias bem complicados: os dias da peste.

Em destaque, temos o protagonista Rieux, um médico. É por meio de seu cotidiano que começamos a acompanhar o avanço da epidemia. Em sua vivência, é Rieux quem vai ter os primeiros contatos com a peste, um dos poucos que a admite como tal, pois as autoridades tendem a não querer enxergar que a situação é bem mais complicada do que parece, ou do que eles desejam ver. Impressionante como tudo o que é contado em “A Peste” parece real, perfeitamente possível de acontecer, completamente verossímil.

Apaixonei-me pelo texto de Camus. Quero ler outros livros dele. É um autor que descreve bem, que se atém a detalhes, mas que faz isso com propriedade, sem cansar, pelo contrário, usando isso a seu favor, para nos cativar. Fora que, em algumas partes, mesmo sendo um texto narrativo, havia ali muito de poético. Curti muito as questões filosóficas abordadas também, bem presentes nos diálogos.

Há todas as razões para “A Peste” ser considerado um clássico. Recomendo muito, muito mesmo. Apesar da edição frágil da Bestbolso, achei a tradução muito boa, diretamente do francês, um ponto editorial bem trabalhado.

Pela primeira vez, os separados não tinham aversão a falar dos ausentes, a usar a linguagem de todos, a examinar a sua separação sob o mesmo enfoque que as estatísticas da epidemia. Enquanto, até então, tinham subtraído ferozmente o seu sofrimento à desgraça coletiva, aceitavam agora a confusão. Sem memória e sem esperança, instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. A peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes.” (p. 173)

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3 comentários em ““A Peste” – Resenha (Bia Machado)

  1. mariasantino1
    5 de junho de 2014

    Olá! Que coincidência. Peguei esse livro para ler um dia desses depois que um amigo o chamou de depreciativo. Antenei logo que deveria ser aquela narrativa com algo que choca. Não conclui a leitura (ainda), mas as folhas voam e estou gostando.
    .
    Gosto do J.M Coetzee e suas críticas sociais e foi por esse motivo (também) que peguei o livro para ler.
    .
    Espero que ao concluir a leitura, possa sentir algo parecido ao que você sentiu. 😉 Um abraço. Até breve.

  2. rubemcabral
    1 de março de 2014

    O trecho recortado é muito bom. Eu nunca li Camus, tinha impressão que seria chato, porém agora fiquei curioso.

    Às vezes um livro denominado “clássico” cria uma aura de livro difícil sem necessariamente sê-lo, vide “Metamorfose” e “O processo” (este último eu comprei agora em alemão para entender o que dizem que se perde na tradução, mas o dicionário tá sempre de sidekick).

    Por eqto só não superei meu trauma com os escritores russos e suas obras gigantescas, rs.

    Obrigado pela resenha!

    • Bia Machado
      1 de março de 2014

      É verdade, Rubem, senti isso do “peso de clássico” na época em que li “A Metamorfose” e também “O Retrato de Dorian Gray”. E quanto aos escritores russos, por enquanto ainda li apenas os contos e textos mais curtos (“Notas do Subsolo”, do Dostô, e “O Inspetor Geral”, do Gogol), dos quais gostei muito. Tenho aqui “Crime e Castigo” e “Anna Karenina” me aguardando, mas estou sem muito ânimo pra eles agora, rs. Um que estou querendo ler, também curto, é “A Felicidade Conjugal”, por causa da leitura de “Na Natureza Selvagem”, o protagonista cita-o várias vezes e achei interessante.

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Informação

Publicado às 28 de fevereiro de 2014 por em Resenhas e marcado , , .