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Detox Literário.

Metabolismo – Conto (Diogo Bernadelli)

metabolismo

– 1 –

O Dia Seguinte

“Quanto tempo eu conseguiria viver longe da bebida, sem que ficasse completamente maluco?” — pensou Rodolfo Bettega, acomodado em seu C3, o orgulhoso símbolo do seu sucesso como corretor de imóveis e que acabara de estacionar ali. Seu banco de couro, entretanto, estava longe de fazê-lo se sentir confortável. “Este aqui é um mundo louco. Só mais esta venda, então você pedirá férias. Esta venda.” Foi quando olhou para a calçada oposta, em frente ao imóvel à venda — objeto da venda, sua mente acrescentou —, e avistou algo que azedou o café um pouco ralo que ingerira naquela manhã quente.

— Maldita vizinhança! — Desceu do carro e bateu a porta surdamente. Começou a atravessar a rua em marcha rápida. — Se usassem a própria lixeira, fariam menos esforço do que se tentassem tirar do lugar uma duna de areia!

Havia um saco encardido sobre a calçada, do tipo que sujeitos carregam sobre costas mais encardidas ainda. Porém, porque só isso não seria o suficiente para tirá-lo do sério, o saco estava jogado exatamente em frente ao Objeto da Venda.

Suspendeu o pano de saco, sentindo o peso de tudo de desinteressante que havia lá dentro, e jogou-o na primeira caçamba de lixo que encontrou, como se daquela forma estivesse se vingando dos canalhas que decidiram estragar seu dia. Quase estragar, disse consigo. Fez o mesmo com um sanduíche semicomido, depois do cuidado de apanhá-lo pela parte revestida com o guardanapo — e ignorar as gotas vermelhas e ressecadas no pavimento fissurado da calçada. Tinha concluído que aquela porcaria era obra de um provável mendigo bêbado.

Dez minutos depois, em frente ao prédio, oferecia a mão que trabalhara em tudo isso ao casal que pusera em sua agenda para as 7h30 da manhã. Ao que lhe cabia, ser tirado da cama cedo não era problema. E, de uma maneira ou de outra, o casal atrasou-se dez minutos e culpou o trânsito por isso. O sujeitinho com roupa esporte e um relógio Casio de pulseira branca disse que procuravam o lugar certo para um negócio familiar. E a mulher (sua esposa, Rodolfo decidiu que seria sua esposa, e ela apresentou-se como Bruna) ampliou a noção de “negócio familiar” para uma “confecção de uniformes em tecido leve” — seja lá o que fosse aquilo. O jovem promissor Sr. Bettega só queria vender a porcaria, justificando da melhor maneira possível os quase R$ 5.000,00 pelo metro quadrado daquela estrutura caquética, e cair fora. E encher a cara. E encher a cara e acordar de férias no Waikiki. Era um maldito viciado, em termos simples um alcoólatra de primeira, e concluíra que qualquer esforço a fim de se pensar diferente fortaleceria ainda mais a ideia oposta.

— Pois temos a sala ideal para uma confecção! — mentiu.

Em instantes, conduzia-os por um corredor inundado por uma luminosa poeira em suspensão. Porém, alguns passos adiante, ele tornava-se escuro como um canto genuíno de casas assombradas. “Tenho certeza de que coloquei uma lâmpada ontem” — pensou, depois de experimentar o interruptor sem que a mágica acontecesse. Viu com o olho da mente vadios bêbados esgueirando-se à procura de um lugar para dormir e, na manhã seguinte, furtando as lâmpadas. Mas o ambiente parecia completamente vazio e sem qualquer sinal de arrombamento. E, por outro lado, aquele prédio ainda lhe causava arrepios. “Ele espanta seus próprios vadios” — pensou, ainda incerto do porquê, mas sem notar qualquer abalo em sua convicção.

“Vender, ir embora e beber” — repetia na cabeça seu mantra esquisito. “Meu Deus, eu ACHO que estou DEFINITIVAMENTE ESTRESSADO!”

Pararam sob a porta que trazia o número 05. Sala 05. Rodolfo notara a maneira como Eduardo e Bruna desfilaram cautelosamente, enlaçados um ao outro, depois de cruzarem o espaço da finada recepção, vazio e… aquecido. Como se caminhassem no raio imediato da respiração de algum animal. Talvez já estivessem tremendo, quando finalmente penetraram a penumbra do corredor. Se eles o encarassem de frente, concluiu Rodolfo, notariam o tique nervoso que tornava seu sorriso em algo maligno.

— Aqui, é esta aqui! — Aproximou-se da última porta, selecionando apressadamente no molho de todo o conjunto comercial a chave etiquetada. Pensava, “Fodam-se vocês, se não quiserem comprar este lixo. Ontem fiz 400 mil em vendas, e a comissão é mais do que suficiente para me afastar por um mês da imobiliária.”

E depois, “ELE ESPANTA seus vadios. Já notou como o mato no quintal é seco e não se vê nem a droga de um rato por aí? E os iogurtes, hein?”

Empurrou a porta e ela enroscou-se em uma casca de sujeira ou qualquer coisa assim, sendo necessário o ombro para completar o arco de giro. No interior da sala havia bastante luz infiltrando-se pela basculante para torná-la mais agradável. Mas, de alguma maneira, isso estava longe de acontecer, mesmo que estivesse ela dirigida para o norte.

— Eu não falei? É excelente e amplo! — disse Rodolfo, reunindo mais esforço para enrijecer o sorriso do que para abrir a porta. — E todas as salas do edifício contam com copa, banheiro e uma pequena cozinha.

Deu licença para que o casal cruzasse lentamente a porta.

— Por que todas as outras salas estão vazias? Por que nenhuma delas foi vendida ou alugada ainda? — perguntou-lhe Bruna. Bruna Eu Penso Tão Rápido.

Cretina.

— Por-que — soletrou ele — as outras três salas que estão o-cu-pa-das passaram por reformas e, antes que os antigos ocupantes retornem, estamos aguardando o reajuste contratual. Sabe? Cláusulas e acordos. As pessoas os leem e dizem se concordam. Então, elas voltam. — Fez uma pausa. Calculou que na verdade o último inquilino saíra dali três anos atrás, depois de reclamar pelo sumiço constante dos seus iogurtes da geladeira e dos peixes do aquário, que acabava reabastecendo na semana seguinte. — Acreditem, a procura é grande e as visitações nas últimas semanas cresceram.

Estalou os dedos.

— É tão… velho. — Bruna viu-se arrancando uma escama do revestimento acrílico da parede, com uma razoável careta. Abaixo da casca surgiu algo vermelho, semelhante a uma artéria seca.

Os olhos de Rodolfo cresceram para aquilo [ELE OS ESPANTA ELE OS COME] e o jovem disse a primeira coisa que lhe ocorreu, procurando evitar que houvesse tempo de um pensamento errado se articular na cabeça da mulher:

— Muito bem, senhora Bruna. Nós, corretores, adotamos uma escala que mede tecnicamente o grau de conservação de qualquer edificação. Ela vai do a ao h. O prédio está no nível d, o que é uma coisa bastante boa e justifica o preço que estamos pedindo. — Exagerou na tentativa de soar convencido, na verdade procurando conter o tremor da voz. O mato seco, os ratos, os iogurtes, os peixes. — Isto significa que o grau de depreciação do edifício todo não passou dos 10%.

Então, ele olhou para Eduardo. Talvez um exemplar dos Eduardos não-fale-assim-com-a-minha-mulher, uma espécie não muito rara de maridos.

— Bem — adiantou-se Rodolfo, agora pouco ligando para aquela venda —, eu daria uma boa olhada na Sala 05, até decidir qualq…

A lâmpada acima de suas cabeças estourou, uma das lâmpadas que Rodolfo de maneira prudente rosqueara ontem. Encolheram-se com cacos nos cabelos. Eduardo envolveu sua mulher pela cintura, encarando o teto onde a pera de vidro explodira. Antes que o prédio absorvesse os ecos provocados pelo grito de Bruna, a porta do banheiro da Sala 05 bateu, rachando uma das vistas de madeira. Cascas de pintura começaram a despencar como folhas secas, e debaixo do revestimento o vermelho vivo começou a pulsar no interior de artérias grossas e lentas, em partes do teto e das paredes. Uma brisa agitou suas roupas e seus cabelos, mesmo que a única basculante não estivesse aberta, cessando na mesma brusquidão com que havia aparecido. Era morna, gasosa e fedida, como o cheiro expelido por um corpo faminto.

Rodolfo deixou sua pasta cair, espalhando sobre o chão matrículas xerocadas e contratos em branco — emitiu um chiado quando as folhas começaram a amarelar e secar diante dos seus olhos. Subitamente, esteve contente e seguro por uma coisa apenas: por estar mais próximo da saída.

Só houve tempo para um passo instintivo e largo, antes que a porta da Sala 05 batesse e encerrasse o Casal Cu Dolorido lá dentro. Antes que ela batesse com um sonoro Boft! e ele tivesse o último vislumbre de Eduardo apertando ainda mais sua incontrolável Bruna, ambos observando-o cair fora. Pena, ele pensou, ela tinha uns peitos legais.

Imediatamente outro pensamento o deixou alerta: ele precisava sair de verdade dali. Precisava sair, cruzar a porta que se comunicava com a rua são e salvo.

Foi o que ele fez.

Bruna e Eduardo gritavam no fundo do corredor, a maçaneta da sala agitando-se loucamente, ao passo que também às suas costas outro ruído, este menos orgânico e mais parecido com blocos de tijolos rígidos se desprendendo do lugar… chovendo… soava. Como se a Sala 05 contraísse e inflasse igual a um grande coração, limitado por sua física de tijolos.

“Eu não estou louco! Eu não estou louco! Eu não estou louco!”

A respiração entrecortada dilatava seu pescoço, que por sua vez encharcava de suor o colarinho da camisa e a gravata.

Agora o ruído de mastigação era cristalino, dentes poeirentos e velhos batendo um no outro no fim do corredor, moendo e despedaçando. Não ouvia mais qualquer sinal de Bruna e Eduardo, e teve vontade de vomitar.

— Eu preciso fazer uma ligação! Emergência ou qualquer coisa assim!

Disse, saindo para a luz do dia e simultaneamente tateando o bolso do celular. Sentiu a testa ser imediatamente aquecida. Jamais havia gostado tanto da luz do sol.

A porta às suas costas bateu. Rodolfo emitiu um guincho de porco, deixou cair o celular e sua marcha evoluiu para uma corrida genuína até o carro, fazendo a fralda do paletó voltear acima do traseiro e cacos de lâmpada caírem da cabeça.

— Ligar para a Emergência, ligar para a Emergência, ligar para a Emergência!

Um velho com sua sacola de feira interrompeu a marcha artrítica para vê-lo passar. Rodolfo entrou no carro e deu partida, a boca e a mente sedentas. “Pouco tempo”, pensou ele na resposta, “pouco é o tempo que preciso longe do álcool pra ficar maluco.” O velho, por sua vez, aprumou o chapéu e recomeçou a caminhar, dando bom-dia alguns metros adiante a uma figura estática, sem notar que aquilo era um telefone público.

– 2 –

O Dia Anterior

Cambaleava em algum ponto de Curitiba. Tinha febre tifoide e morreria dentro de duas semanas, caso não fosse morrer hoje. O fardo que realmente precisava carregar superava o peso daquele saco encardido, suspenso sobre o ombro, cheio de cacarecos e lixo (“coisas que viram grana”, ele repetia) apanhados nas ruas. A biqueira de sua bota, o couro esfarrapado e descascando feito uma fruta esturricada, subiu, trazendo atrás de si os cadarços soltos. Antes que o calçado tornasse a descer, uma gota de sangue do seu nariz atingiu o chão em cheio e foi seguida pelo ruído de uma cusparada em um oleado de caminhão. Ele ignorou a coisa toda. Era assim que seus dedos tentavam segurar sem muita intenção qualquer coisa análoga a uma vida, e era assim que ela caminhava.

Um cachorro tão esfarrapado quanto suas botas, e igualmente pelado, acompanhava de perto e obedientemente o seu rastro ondulante.

O homem ouviu atrás de si um ronco. E antes que descobrisse se tratar do motor de um jipe, algo lançado à calçada produziu o som de carne embrulhada em papel de seda. Seu ombro livre subiu e ele bateu as pálpebras — as quais naquela altura estavam tão engorduradas, que foi um feito interessante não terem produzido o barulho de chineladas —, enquanto o automóvel passava ao lado, queimando os pneus e depois freando.

Girou sobre as botas velhas para conferir o que fora atirado. O saco bateu na anca quando ele interrompeu o movimento — as vísceras de lata reclamaram. Era a metade de um sanduíche gordo, embrulhado no invólucro amarrotado do Tropical Banana.

— Não coma tudo agora, se não estiver a fim! — Pela potência da voz, o sujeito imaginou que seu dono estaria com a cabeça, ou por que não metade do corpo, projetada do jipe. Dava-lhe as costas e continuou assim. — Guarde para mais tarde, se achar que deve!

Em um ponto atrás dele, o veículo respondeu furiosamente ao pé que se afundou no pedal, levando consigo todo o escândalo de jovens embriagados em direção ao Centro Cívico. O mendigo fantasiou, meio fora da realidade, que se não houvesse uma reta perfeita para lá, aquele jipe alinharia o caminho.

— Não, não… — Então falou para o cão que o fitava após levantar o focinho do pacote. — É todo seu. Bom apetite com esse negócio aí.

Ficou quieto e esperou cessar uma nova onda de dor, que chacoalhou suas entranhas de cima a baixo. Abriu um único olho e ergueu a sobrancelha.

— Quer ouvir uma história bacana, Só Osso?

Como o cão não disse nada, reunindo toda sua atenção no ato de rasgar o papel colorido do sanduíche, o mendigo prosseguiu:

— É que de repente lembrei uma história que acho que vale a pena contar. É sobre a Segunda Guerra, todo mundo gosta de histórias da Segunda Guerra. — Nesse momento ele interrompeu seu discurso, dobrando-se sobre o estômago e ocultando temporariamente uma careta de dor. O saco despencou imediatamente para os seus calcanhares, e ele não se importou com o ruído de algo duro se partindo lá dentro. Ensaiou um sorriso, que era só pelos e teatro. Enquanto falava, mais sangue rolava da barba para cair na calçada. Na manhã seguinte um sujeito ficaria bem perto de percebê-las, mas não o faria. — Sabe como o brilhante comando dos Aliados trouxe a democracia de volta pra Alemanha? S-s-ssssabe? Depois de socar a dinamite bem fundo e esperar que explodisse o cu da Alemanha, os Aliados começaram a importar pra lá mesas de pingue-pongue! Eu… ouvi… meu Deus, que dor!… ouvi dois sujeitos espertos conversando sobre isso em frente ao Hotel Nikko… — Peidou, um peido quente e doente, então abriu os olhos. — Toda essa ladainha sobre bombas só pra eu soltar a minha.

Só Osso não o ouvia mais.

Deixando para trás o sanduíche e sua embalagem parcialmente destruída, tinha disparado em uma corrida pela calçada. As unhas crepitavam no cimento. Uma figurazinha decadente, afastando-se na poça da lâmpada alaranjada suspensa sobre as cabeças dos dois. Dos três. Um gato gordo entrava nesta história para tirar Só Osso do sério.

“Ih, bosta” — foi o que o homem primeiramente pensou, em crescente aflição.

“Eu não posso correr atrás de você” — na segunda vez. “Não com esta dor aqui.”

— Só osso! Volte aqui! Pelo amor de Deus, Só Osso, não me faça correr atrás de você! — E quando gritava seu nome, algo como Soh-ço saía da boca. — Dói demais, seu cachorro burro!

Mas correu, e correu imaginando em que condições seu cachorro se defrontara com o bichano. Talvez duas retinas acesas no escuro, aquele tapete de células dentro do globo ocular emitindo uma luz amarelo-esbranquiçada, um estimulante como os que poriam o pau de um velho a apontar o norte. Ficou bravo, porque tinha sido deixado falando sozinho, e Só Osso sabia o quanto o aborrecia falar sozinho.

O saco ficava para trás, a uns cinco passos do sanduíche arruinado — e mais perto das gotas de sangue, formando um pequeno sistema solar sobre a calçada.

O cachorro desapareceu por um buraco na cerca de madeira.

— Bosta! — exclamou o homem, sentindo um grande anzol em chamas fisgar seu estômago. Graças a Deus não comera o sanduíche, ou agora ele estaria vomitando sobre as botas. Arfava.

Ouvia seu cachorro burro, que finalmente começara a latir, tendo ânsias de chutar seu traseiro pelado até que o cu grudasse na goela. O animal entrara na passagem lateral de um prédio térreo feio, pelo qual eles tinham cruzado, mas sem darem maior atenção. Lembrava-lhe uma coisa quadrada dos anos de 1950, que ele às vezes via nas revistas que enfiava em seu saco.

Enquanto caminhava para a cerca de madeira — encarando o buraco pelo qual gato e cachorro se enfiaram —, decidia que ela era baixa o bastante para que pudesse apoiar o queixo e espiar o terreno. Mesmo assim, aquilo lhe causaria dor.

— Cachorro burro! Seu merdinha de um cachorro burro!

Foi quando ouviu Só Osso não latindo, mas emitindo um grito quase humano. Ele venceu rapidamente o restante da distância, deixando de notar duas coisas; sua dor e as calças frouxas que ameaçavam cair até as canelas.

— Só Osso! — Olhou por cima da cerca de tábuas estreitas, esperando enxergar qualquer coisa. Mas o espaço apertado entre o prédio e o muro estava escuro como o sovaco do diabo. E em algum ponto da escuridão, Só Osso tornou a gritar. Só conseguiu discerni-lo quando o dispositivo anticrime do prédio vizinho, acionado pela movimentação, estalou sua luz esbranquiçada. — SÓ OSSO!!!

Só Osso estava metade entalado no duto de ar-condicionado… dois metros e meio acima do chão. As patas traseiras chutavam o ar, feito um pato fora d’água. Ele gania e, neste momento, o homem petrificado do outro lado da cerca distinguiu algo escuro que fluía da extremidade do cano, encharcando o que Só Osso possuía de pelos e gotejando no chão.

— Jesus! — gritou.

Porque aquilo era Só Osso sangrando. O cachorro gemeu mais uma vez, e com a cabeça lá dentro da tubulação o grito adquiria um timbre metálico. O mendigo começou a chorar.

— Espere aí, meu amor! Espere aí, papai já está indo!

A luz anticrime apagou. O homem galgou o pé direito no buraco que um tijolo a menos no muro causara e passou a perna esquerda por cima de uma tábua com ponta. Esperava encontrar uma ripa do outro lado como apoio… e foi exatamente no que seu pé pousou, só que mais abaixo do que imaginara.

— Papai está indo! Papai está indo!

E foi quando ouviu. Um ruído quebradiço de mastigação, o ruído de ossos se esmigalhando entre dentes duríssimos. Só Osso deu um último grito, então se calou completamente — escutava-se apenas o desesperante som espesso do sangue jorrando sobre o cimento rachado. A luz anticrime reacendeu com novo estalo.

— SÓ OSSO!! — gritou o homem, com ambas as pernas passadas ao lado da cerca, como se guiasse um cavalo. — Só Osso! Só Os…

Nesse instante, a tábua fina à sombra do seu traseiro projetou-se, atingindo-o em cheio, para cima e avante! Empurrando para dentro as suas calças velhas. Se houvesse alguém na rua, veria um pedaço de madeira encaixado de forma errada naquela cerca, 15 centímetros acima da calçada, sustentando na ponta um homem de 60 quilos.

— UuaaaaaAAAAH! AAAAAAAHH!! — uivou, quando aquilo decolou de encontro às suas entranhas apodrecidas pelo tifo. Arregalou os olhos para a lua e crispou os punhos. Um sujeito competente poderia tirar música dos tendões que espichavam o seu pescoço.

O sangue escorria em regatos pela tábua, como a tinta de uma lata muito cheia. O homem tinha aberto os braços e só se mantinha lá em cima pelo mesmo motivo que o sorvete se mantém no palito. A luz de segurança do comércio vizinho tornou a se apagar.

— JESUUUS!!! SOCORRO!

A tábua subiu mais, suspendendo o corpo debatidiço do sujeito. Um ruído de tecido se rasgando e lama pisoteada preencheu o ar parado da madrugada. O sujeito desceu alguns centímetros com um tranco. Então, um tijolo, vindo sabe-se lá de onde, apenas com a certeza de que caíra do prédio escuro, golpeou sua careca dura — o baque foi seguido pelas batidas do tijolo rolando. Depois, pelo silêncio.

A luz anticrime se reacendeu. Teh-qui!

A ripa, suja de sangue, moveu-se para o lado, transportando o sujeito empalado. Ela não simplesmente se dobrara sob o peso do homem; o sarrafo fez aquilo deliberadamente. Jogou-o para o corredor escuro entre o prédio e seu vizinho, então retornou ao seu lugar ao lado das outras com um barulho de palmada. Um soldado coordenando sua posição. Quase ao mesmo tempo, o sangue escorrido sobre aquela peça de madeira começou a penetrá-la, transmitindo a ideia de água espirrada em uma frigideira. Transmitindo a ideia de estar nutrindo um organismo exageradamente sedento.

Enquanto isso o gato abandonava esta história, sem quaisquer notícias, fossem elas favoráveis ou nada animadoras.

4 comentários em “Metabolismo – Conto (Diogo Bernadelli)

  1. Bruna
    31 de março de 2014

    Diogo, me empresta o LOVE do Stephen King?

  2. Rodrigues
    26 de fevereiro de 2014

    Cara, que conto bom. Não sei como expressar direito o que senti enquanto lia. Essa relação entre a estrutura maldita e os personagens da cidade, passando pelos miseráveis e pelos remediados, cria um universo decadente e macabro que torna esse texto único. As descrições meticulosas da destruição dos organismos, a mastigação da carne e dos ossos dão um tom ˜gore˜ à criatura fantástica criada. Muito original. Valeu!

    • diogobernadelli
      27 de fevereiro de 2014

      Muito obrigado, Rodrigues. Fiquei curioso em saber como se traduz em palavras essa sensação indefinida que a leitura transmitiu. Hahaha!

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Publicado às 20 de fevereiro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .
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