EntreContos

Detox Literário.

Viagem (Pétrya Bischoff)

Conforme sua respiração normalizava e a pressão na nuca diminuía, os olhos também desanuviavam. Saía, então, do transe que o embalava como que nas saias de negras velhas. A cantiga ia ficando cada vez mais ao fundo, distante. Mesmo o cheiro de cravo-da-índia era agora só uma lembrança. Lembrança de algo não vivido.

Havia sete deles ao seu redor, alguns de costas. Eram três os que o fitavam com olhar meio cego, meio além. Descompromissado.

Logo à sua esquerda, O PAPA lhe latia segurança, estava tudo certo. O rio flui calmamente e segue seu caminho como deve ser, como sempre foi. “Desligue sua mente, relaxe e flutue correnteza abaixo” – cantarolou.

Quis rir, ou riu. Pensou o quão idiota lhe parecia aquele homem-cão descendo o rio enquanto bebia uma xícara de chá das cinco com a rainha. Tolamente bizarro, na verdade.

Voltava então um embalo doce, não mais cantiga. Tchaikovsky em uma flauta-piano-assovio com algo que lhe remetia às nevascas russas e era morno e acolhedor. Quis adormecer, no entanto, sua atenção era agora d’O ENFORCADO, que se debatia debilmente à sua frente. Como que se deixando levar pela dor de ser.

Aquilo o entristeceu, o sufocou. Quis ajudar mas estava também atado, e quanto mais tentava sair, mais apertava o coração, a boca do estômago, o cravo preto em seu paletó. Seu braço esquerdo formigava e não mais sentia sua mão, que javia roxa, inchada e retorcida no chão, tal qual o coração daquele pássaro que há muito dissecara, em uma de suas peripécias infantis.

Escorrendo-lhe a face aquilo que traduzia toda uma dor singular, não dita em palavras, talvez por que ninguém o entendesse, ou por que não quisesse ser entendido. Quase só.

Uma rajada de vendo multicolor trouxe um aroma familiar e o libertou de suas amarras, quando isso já não importava. Quando estar estar ali era tudo de que se lembrava e tudo que poderia ser.

À sua frente e à direita A TORRE era golpeada por incessantes raios, onde, em queda constante, dois homens choravam aliviados da liberdade, sem mais querer tanto. Sem mais querer. Serenidade.

Aquilo não lhe levava a lugar algum. Cutucou o ser ao seu lado, A MORTE lhe sorriu amarelo amarelos dentes podres chacoalhantes. Imundos. Como de um saco de veludo negro saltaram cuspidos dois dentes-runa. TIWAZ e JERA prenunciavam bons frutos. Realização.

Isso lhe bastaria se não fosse sua mão-concha agora na roda, onde liam a borra-de-café. Bebericavam e liam. Olhos arregalados depois do gole. Ninguém bebia café. Gooooooooooole. Ainda morno. Suspiro e água na boca.

A mão-concha chegou até ele, que também bebericou. A IMPERATRIZ veio sem ser convidada e tomou-lhe a mão-concha, limpando a borra-de-café que, para ele não fazia sentido, e apontou enfaticamente para a linha da vida, que se bifurcava em um sinal de nascença. Um sinalzinho negro e insignificante que, de repente, começou a tomar grande proporção e cores e aromas.

Saía um fluído ectoplasmático azulado e opalescente. Jorrava. Era como um chafariz mágico e leitoso. Ele obserava atônito enquanto Deus se personificava à sua frente e acima de si. Deus. Era ele. Era o Eu. Sempre foi. Não como um espelho ou um gêmeo ou um zombeteiro. Era o próprio fitando-se fitar.

Nos olhos calmos da divindade as respostas das perguntas dos olhos sufocados do outro lado. Suas respostas. As mentes embebidas em serenidade conversavam inconscientes da realidade. Conversavam calafrios e suspiros. O que é realidade? Concordavam da plenitude. Que importância tem?

Uma única consciência consciente que em sua dualidade o universo poderia habitar. E habitava. E então, explodiu. Em gozo e luz. O LOUCO, enfim.

Santo Daime.

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26 comentários em “Viagem (Pétrya Bischoff)

  1. Weslley Reis
    26 de fevereiro de 2014

    Ótima escrita e dinâmica. Mas não aprecio tanta abstração, precisaria de um ponto firme, ao menos. Mas é coisa minha

  2. Lucas Guimarães
    26 de fevereiro de 2014

    Olá, Sygin! Bom conto!Propriamente um viagem, mas que consegue se manter coesa por uma boa escrita! Apenas não gostei do uso do caps lock, como já disse em outros contos, fica forçado, meio que joga na cara do leitor a relação entre o conto e o tema do desafio. Parabéns! Boa sorte!

  3. Pedro Luna
    25 de fevereiro de 2014

    Um bom trampo. Senti falta de história, mas isso é coisa minha. O conto é bem escrito. Ah, não curti os nomes em CAPS, assim como no outro conto que também utilizou esse artifício. No geral, um bom conto. 😉

  4. Frank
    25 de fevereiro de 2014

    Um conto muito doido…fiquei até pensando se após aquela bebida eu teria uma viagem dessas…rs. Também está com uma escrita primorosa. Parabéns.

  5. Felipe Rodriguez
    25 de fevereiro de 2014

    Só uma coisa, esse “Desligue sua mente, relaxe e flutue correnteza abaixo” é referência ao “Turn On, Tune In, Drop Out” do Timothy Leary?

    • Sygin
      26 de fevereiro de 2014

      Olá, Felipe
      Fico muito feliz em saber que te agradou meu conto^^
      Quanto ao trecho citado, é “Turn off your mind, relax and float down scream”, Tomorrow Never Knows dos Beatles 😉

  6. Felipe Rodriguez
    25 de fevereiro de 2014

    Achei muito bom, louco e sinestésico. As boas descrições me fizeram relaxar enquanto lia, algo que dificilmente consigo sentir em contos. Gostei desse descompromisso com a história e as construções poéticas. Só achei desnecessária a caixa alta nos arcanos. Foi o melhor que li até agora. E vou reler!

  7. Gustavo Araujo
    19 de fevereiro de 2014

    Bem escrito, com uma linguagem própria e fora do lugar comum. Brilhante, eu poderia dizer. O problema é que me falta “sustança” para apreciar um conto assim. É como estar diante de um quadro de Rafael, sem saber quem é Rafael, sem ter conhecimento da técnica. Prefiro contos que conectam o leitor de A a B, o arroz com feijão, questão pessoal mesmo. De todo modo, boa sorte no desafio!

  8. Pedro Viana
    19 de fevereiro de 2014

    Desculpe, sei que sua intenção foi provocar uma verdadeira “viagem” literária, mas comigo essa falta de linearidade não funcionou. Não quero dizer que seu conto foi ruim – porque há méritos na escrita e nas referências – mas sim que eu não gosto deste estilo narrativo. No começo pensei que se tratava de um sonho e por isso sustentei grandes esperanças, mas quando acabou, senti o desapontamento subindo a garganta. Mesmo assim, desejo sorte no desafio.

  9. Blanche
    19 de fevereiro de 2014

    Impecável e ousado. Todavia, sou chato e me senti distante da narrativa durante toda a leitura. O conto não funcionou comigo, mas parabenizo o(a) autor(a) pela criatividade e escrita primorosa.

  10. Tom Lima
    19 de fevereiro de 2014

    Belo, belíssimo!
    Tudo no lugar, gostoso de ler, com o tamanho correto e grande fluidez.

    Parabéns!

  11. Bia Machado
    18 de fevereiro de 2014

    Gostei do texto, dessa viagem, fugindo estilisticamente do lugar-comum. Funciona com o tamanho menor, não nos cansando também. Bom conto!

  12. Felipe França
    15 de fevereiro de 2014

    Aqui, percebe-se facilmente que o autor consegue concatenar as palavras de maneira a elevar as expressões ao máximo de seu simbolismo semântico. Contudo, o excelente trabalho não conseguiu me atrair. Não pelo fato da trama ser curta, mas creio que faltou algo a mais para fechar o ciclo de uma história de impacto. Felicito-te pela forma que se expressou e desejo muito boa sorte! Ao infinito… e além.

  13. Anorkinda Neide
    13 de fevereiro de 2014

    Achei a viagem louca demais.. não consegui acompanhar o sentido da coisa toda e então o final esclarece.. mas.. não retira a sensação de que o texto não funcionou pra mim.. lamento.

    Boa sorte ae!

  14. Thata Pereira
    10 de fevereiro de 2014

    A escrita é realmente muito encantadora, mas a história não me atraiu tanto.

    Boa Sorte!

  15. Rodrigo Arcadia
    9 de fevereiro de 2014

    Adorei o conto.
    Essa viagem literária foi bem caprichada, imagens e descrições boas. e o melhor, o leitor não se cansa ou perde interesse na leitura, a narrativa é agradável.
    Abraço!

  16. mhs1971
    9 de fevereiro de 2014

    Um bom conto. Uma viagem literária na imaginação figurativa.

  17. Paula Melo
    8 de fevereiro de 2014

    Adorei o conto, gostei como encaixou os elementos,ao ler tive a sensação de uma brincadeira gostosa de se observar (não sei se entendera,mas foi o que senti ao ler,rs). Sobre a escrita não tenho muito o que dizer,apenas ótima.

    Parabéns e Boa Sorte!

  18. Leonardo Stockler
    8 de fevereiro de 2014

    Ótimo! Achei bom o bastante para desejar que se prolongasse ainda por vários parágrafos. Meu conselho é o mesmo do Rubem Cabral: talvez concentrar-se em um arcano apenas. A escrita viajada, e alguns trechos impenetráveis, são realmente deliciosos. Gosto muito quando o texto se apresenta como um enigma. Talvez eu também sugerisse que você não desse uma resposta que resolvesse tudo no final. É que sou mais adepto da ideia de distribuir a explicação do conto ao longo dele. Então você pudesse fazer isso através da descrição de certas sensações. Gosto da trama não-linear (se bem que não há muito bem uma trama, né?), e acho que você poderia ter fritado ainda mais na linguagem, ousado ainda mais. De qualquer forma, parabéns!

  19. rubemcabral
    7 de fevereiro de 2014

    Gostei de muitos pontos do conto, embora não tanto de outros.

    Vejamos, está bem escrito, a “viagem” é interessante e o uso de algumas frases construídas com maestria foi certamente benvindo. A trama não-linear foi outra coisa que gostei. Não me agradaram muito os nomes em capslock e os múltiplos encontros com os arcanos, talvez ficasse mais interessante centrar-se em somente um ou em menos arcanos, para evitar a sensação de superficialidade de alguns dos encontros, não sei.

    Bom conto!

  20. Eduardo Selga
    6 de fevereiro de 2014

    O conto é atrevido e bom. Atrevido porque, felizmente, foge à regra da cartilha que reza o conto deve ter uma linearidade clara na qual se perceba nitidamente a tensão e a “cara” do personagem. Esse padrão seguido por muitos autores faz com que o texto, muitas vezes, se guie pelos padrões da chamada “vida real” a ponto de a presença da inverossimilhança externa ser considerada um defeito. Ou seja, se o evento do texto não é possível ocorrer na realidade, o conto não presta. Fosse assim, o que seria dos contos de fadas?

    O conto é bom na medida em que não há,propriamente dito, um conflito, e sim uma série de imagens psicodélicas sem aparente relação. Mas quando lemos no último parágrafo “Santo Daime”, a “loucura” passa a fazer sentido.

    A construção textual é sofisticada. Temos um providencial intertexto com o alucinado “Alice no País das Maravilhas” em “enquanto bebia uma xícara de chá das cinco com a rainha” (o chá do Capeleiro Maluco, a Rainha de Copas).

    O trato linguístico, que me parece o aspecto mais importante em qualquer conto literário (muito mais que o enredo), revela alguns pequenos primores como em “A MORTE lhe sorriu amarelo amarelos dentes podres chacoalhantes”, em que se põe lado a lado AMARELO E AMARELOS causando um belo efeito estético. Não é redundância nem repetição gratuita da palavra.

    Há uma construção bem curiosa, que transcrevo abaixo. A grafia d palavra “gole” é adoravelmente ignorada e passa a ser “Gooooooooooole”, causando pelo menos duas impressões possíveis, ambas legítimas: 1- a tentativa do autor em representar o café descendo pela garganta; 2- a repetição da letra O seria a representação dos olhos arregalados. Vejamos:

    “Olhos arregalados depois do gole. Ninguém bebia café. Gooooooooooole. Ainda morno. Suspiro e água na boca.”

    • Sygin
      7 de fevereiro de 2014

      Olá Eduardo,
      É impressionante e maravilhoso que tenhas conseguido absorver exatamente o que eu senti em cada trecho citado. Suas observações – tão bem emolduradas- inflaram meu ego. Muito obrigada pela leitura!

      Idem aos demais – Cláudia, Ricardo e Jefferson -, obrigada por sua leitura e comentários. 🙂

    • Jefferson Lemos
      7 de fevereiro de 2014

      Gostaria de dizer que sempre que vejo um comentário do Eduardo, eu leio. haha
      Seus comentários são épicos! 😀

  21. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    6 de fevereiro de 2014

    O texto prende a atenção do começo ao fim. As passagens esbarram em vários arcanos e os revelam um pouco, sem cansar o leitor.
    É uma viagem mesmo, Santo Daime. Boa sorte!

  22. Ricardo Gnecco Falco
    6 de fevereiro de 2014

    Uma viagem louca muito bem conduzida!
    Parabéns! 🙂

  23. Jefferson Lemos
    6 de fevereiro de 2014

    Não sei o que dizer sobre esse texto, apenas que gostei bastante!
    Parabéns e boa sorte!

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Informação

Publicado às 6 de fevereiro de 2014 por em Tarô e marcado .