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“Norte Verdadeiro” – Resenha (Gustavo Araujo)

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A exploração polar é um dos nichos mais interessantes na literatura de aventura. Mesmo aqui no Brasil são diversos os livros que tratam desse tema, tão fascinante quanto distante de nossa realidade.

A razão para tanto é que as conquistas dos polos norte e sul foram permeadas por dramas pessoais que se alastram até os dias de hoje. A dimensão humana sempre conseguiu trazer o leitor para dentro da história, tornando-o cúmplice dos sonhos e anseios dos exploradores, companheiro de caminhadas em um ambiente hostil e testemunha dos aspectos perniciosos que envolveram as chegadas aos pontos extremos da Terra.

É nesse contexto que se desenvolve a premissa de “Norte Verdadeiro”, de Bruce Henderson, sobre a épica conquista do Polo Norte. Sem rodeios, o autor americano aborda a polêmica de mais de um século que envolve o assunto – e que parece ter fôlego para outros cem anos.

O conhecimento geral aponta que o americano Robert E. Peary chegou ao Polo Norte em 6 de abril de 1909. Ponto. Ocorre que outro explorador, chamado Frederick Cook, alegou tê-lo feito um ano antes, em 21 de abril de 1908.

É a partir desse conflito que Henderson inicia seu livro, contando a história da relação entre Peary e Cook. Peary é apresentado como um oficial da Marinha cujo desejo de se imortalizar beira a obsessão. Em fins do século XIX, ele empreende diversas expedições à Groenlândia e às latitudes mais elevadas, no intuito de marcar seu nome entre os grandes exploradores polares. Em todas as oportunidades, fez-se acompanhar por uma equipe de especialistas a quem coube coletar dados científicos e antropológicos. Cook, médico, estava entre os cientistas quando da expedição de 1891.

No entanto, Peary é uma pessoa arraigada aos velhos costumes do oficialato da Armada. Não se preocupa em aprender os costumes dos esquimós. Antes, os rechaça. Não vê problemas em subtrair dos nativos suas riquezas, ou mesmo levá-los de navio para a chamada “civilização” e exibi-los em museus, mesmo que isso lhes custe a vida por conta das doenças que logo lhes acometem.

Peary é um profissional na acepção mais burocrática possível do termo. Um homem que busca resultados. Cria uma rede de amigos influentes, que abrange até mesmo o presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, com o intuito de conseguir recursos para novas expedições. Para tanto, estabelece as bases de Clube que leva seu próprio nome. Mais do que tudo, Peary tem a convicção de que o Polo Norte lhe pertence por direito divino, não admitindo qualquer interferência na conquista que certamente virá.

Paralelamente, Cook é retratado como um sujeito preocupado com o bem estar dos demais, como alguém em quem se pode confiar, amigo, culto, socialmente responsável. Um homem bom e que é, em grande parte, usado por Peary como massa de manobra.

Após a expedição de 1891, quando se consideravam até mesmo amigos, Peary e Cook se afastaram. Enquanto aquele continuaria a levar expedições à Groenlândia, este se voltaria à exploração de montanhas e, por fim, se tornaria o primeiro homem no cume do Mt. McKinley, a mais alta montanha da América do Norte.

Cook, por um lance de sorte, viu-se em condições de lançar-se à conquista do Polo Norte, em 1907. Nem mesmo nesse momento deixou de agir como cavalheiro e avisou Peary, que ficou enfurecido e desde então iniciou uma campanha para desacreditar o rival. A amizade que um dia existira, se desvanecera. Peary partiu com sua própria expedição no ano seguinte, no encalço de Cook.

No início de 1909, Cook, que já havia sido dado como morto, ressurgiu das trevas do longo inverno ártico, afirmando ter chegado ao Polo na companhia de dois esquimós. Numa época em que a palavra de um homem valia muito, foi recebido como herói. Deixando seus equipamentos aos cuidados de um amigo no extremo norte da Groenlândia, para que seguissem de navio para Nova York no verão seguinte, empreendeu uma jornada por terra para a Dinamarca, a fim de adiantar seu próprio regresso a casa. Foi recepcionado por uma multidão naquele pais e também em nos EUA.

Poucos dias depois, Peary regressava do Ártico, afirmando ter sido ele, e não Cook, o primeiro homem no Polo Norte. Para o velho oficial, Cook mentira sobre a conquista. A fim de dar credibilidade às suas afirmações, Peary forjou interrogatórios com os esquimós que haviam acompanhado Cook e recusou-se a trazer os equipamentos do rival que haviam sido deixados na Groenlândia – equipamentos esses que poderiam ter comprovado as alegações do médico.

Aproveitando-se disso, Peary passou a desafiar publicamente Cook, exigindo provas da conquista, sabendo que o outro não conseguiria fazê-lo sem seus equipamentos. Escudado pelos amigos influentes, por seu próprio Clube, e por órgãos como o jornal The New York Times, e a National Geographic Society, que o patrocinavam, Peary conseguiu desconstruir a imagem de Cook perante a opinião pública. Mais do que isso, conseguiu, através de lobistas, que o próprio Congresso Americano reconhecesse sua precedência em relação a Cook no tocante ao Polo.

Mas a situação ainda ficaria pior para o médico. Com o intuito de vender livros, editoras o engaram produzindo entrevistas falsas e edições não autorizadas de seus escritos. Cansado e derrotado, Cook recolheu-se e nunca mais voltou ao Ártico.

A situação só mudaria muitos anos depois, já nos anos 1980, quando os relatos de Peary foram finalmente postos pela família à disposição de especialistas. Analisados juntamente com o que restara da documentação de Cook, foi possível constatar que Peary jamais chegara ao Polo. Suas descrições não batiam com o que realmente havia nas imediações do ponto extremo norte. Demais disso, observações emendadas em seus diários, somadas a cálculos inverossímeis, terminaram por colocar em cheque e, eventualmente, atestar a inverdade da conquista.

De todo modo, Peary jamais veria tal desdobramento. Morreria em 1920, amargurado pelo fato de persistirem dúvidas quanto à sua chegada ao Polo, apesar de toda a campanha articulada por seus aliados.

Cook morreria em 1941, depois de ter tentado a sorte no ramo de petróleo, o que lhe rendeu a acusação de gestão fraudulenta de recursos e a temporada de cinco anos na cadeia. Apesar do esforço de amigos, sua chegada ao Polo Norte em 1908 jamais seria referendada. Cook cairia no ostracismo e seria eventualmente ignorado, lembrado, por vezes, como um trapaceiro.

Em 1989, a National Geographic Society publicou um artigo reconhecendo o fato de que Peary não chegara ao Polo Norte. O New York Times preferiu se manter à distância.

Atualmente, não há consenso sobre o verdadeiro descobridor do Polo Norte. A tese mais aceita é que nem Peary, nem Cook lograram êxito na conquista desse ponto extremo. Somente em 1969 é que o homem colocaria indubitavelmente os pés nesse local, cabendo a honra ao britânico Wally Herbert.

Isso tudo torna o livro de Henderson um ótimo achado. A par do esforço sobre-humano acerca da conquista de uma das regiões mais inóspitas do planeta, o leitor é envolvido por toda essa atmosfera de disputa, em que os elementos clássicos dos melhores romances – como amizade, mistério, traição e redenção – são brilhantemente trabalhados.

Alguns trechos podem dar a impressão de que o autor emprega conceitos maniqueístas aos personagens principais, mas pesquisas em outras fontes demonstram exatamente que as características pessoais de Cook e Peary foram fielmente traduzidas para o papel. De todo modo, o livro não deixa de ser uma tentativa de reabilitar Cook, de colocá-lo em pé de igualdade com Peary, ressaltando as qualidades humanas que lhe sobravam e ao mesmo tempo faltavam em seu rival.

Mais do que um livro dedicado aos amantes da exploração polar, Norte Verdadeiro é uma obra para todos os apreciadores de uma boa história e que não deve ser perdida. Leitura compulsiva que vale cada momento.

3 comentários em ““Norte Verdadeiro” – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Pedro Luna
    21 de janeiro de 2014

    Muito interessante. Eu gosto muito da época de ouro da exploração ao gelo. Amundsen, Scott, Schackleton. São muitas histórias maravilhosas de coragem e superação e de muita rivalidade. Assim como com Cook e Peary, homens com o desejo de se tornarem imortais na história.

  2. Bia
    3 de janeiro de 2014

    Gostei muito da sua resenha, Gustavo, esse é o tipo de livro de que gosto, talvez pelo fato de que eu nunca chegue até a esse lugar. Então, vou conhecer pelo livro… Também gosto de filmes do tipo, tem a questão visual da coisa, mas ainda prefiro a leitura pra sanar isso… =) Vou procurar, com certeza!

    • Gustavo Araujo
      3 de janeiro de 2014

      É verdade, Bia. Não é exatamente essa uma das características mais interessantes dos livros? Transportar-nos até onde seria impossível? De qualquer forma, sou suspeito para falar. Também queria experimentar os lugares “ao vivo”. Por enquanto, porém, a imaginação supre a necessidade. Até quando, não sei, rs.

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Publicado às 3 de janeiro de 2014 por em Resenhas e marcado , , .