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Detox Literário.

A Lagarta – Conto (Rodrigues)

alagarta

Nada melhor do que uma manhã nas beiradas da praia para refrescar. A areia vinha com o vento, coçava o corpo de Carmem enquanto ela girava e fazia uma dança formidável. Decidiu sentar-se no calçadão e ficar olhando os pedestres, os cachorros e urubus. Eram sete horas da manhã e uma fome apertava-lhe o estômago. Pequenos raios de sol ousavam iluminar a paisagem, um deles caiu perto de sua perna esticada. Um domingo como aquele não podia passar em branco. Ela queria fazer alguma coisa. Só fazer alguma coisa…

Resolveu levantar e dar uma caminhada. Sua camiseta grande caía pela cintura como uma saia e sua bermuda jeans era curtinha e batida. Alguns homens olhavam suas pernas com gula, ela retribuía os olhares, gostava do desejo. “Que safada!”, diriam. Já outros, “que metida!”. Carmem virou a Rua 2 e entrou na Rua G., ali passara bons momentos pulando amarelinha e jogando queimada. Tentou subir na árvore, mas caiu no chão e raspou os braços. Ao se levantar, percebeu uma mãe com seus dois filhos gordinhos saindo de casa. O garoto menor, apressado, empurrou o portão sem muita força, deixando-o semiaberto.

Carmem esperou até que eles sumissem no fim da rua, olhou para os lados, para o alto, foi até o portão e invadiu o quintal. Tudo ali parecia tão limpo. “Que família organizada”, pensou a menina. Abriu a porta da cozinha e olhou para a mesa, havia três lanches meio murchos e, para cada um, uma xícara fervente de chocolate. Curiosa, meteu a mão no pão e abriu. “Urgh! Mortadela?”, falou. Abriu a geladeira e encontrou uma porção de frutas e legumes nas gavetas e algumas vasilhas de alumínio. Retirou uma delas, abriu em cima da mesa. Eram pedaços de carne de vários tipos: porco, boi, frango, etc. “Agora sim!”. Já foi comendo ali mesmo, lambuzando a mão e os lábios e sujando o chão.

Deixou um resto na vasilha e colocou novamente na geladeira. Em um compartimento abaixo das gavetas, meio escondido, viu uma caixa plástica vermelha. Doze cervejas geladinhas fizeram seus olhinhos faceiros brilharem.

“Tssss”. Abraçou o engradado, abriu a primeira lata e subiu as escadas, chegando até uma sala ampla. A sede era tanta que virou num gole só, com a segunda lata, fez o mesmo. “Que foda…”. Só tomou tento na terceira, bebericando devagar. Acendeu a luz, abriu o armário e encontrou uma porção de CDs. Fuçou, fuçou, até achar uma caixinha rosa onde se lia: DANCE 90’s. Colocou no aparelho e começou escutar, tinha uma pequena lembrança daquele tipo de som. As batidas eram frenéticas, refrões repetitivos e muito eco. Não aguentou, desatou a dançar no meio da sala como uma tresloucada.

Já estava na quinta lata quando achou uma garrafa de vinho em uma portinha do armário. Puxou a rolha frouxa. “Plop”. Lembrou-se da maneira que seu pai bebia. O velho misturava vinho com cerveja e ficava andando pela casa com aqueles copos vermelhos e espumantes na mão. Carmem adorava aquilo. A garota fez a mistura explosiva, mas deixou o copo no chão, queria mesmo era dançar. Abaixava-se para dar umas goladas, o som tornava-se melhor. Súbito, deu um passo em falso e caiu, acabou chutando o copo e avermelhando o chão do recinto. “Que merda!”, gritou. O pior é que acabava de escutar um barulho de portão, os donos da casa estavam voltando. “Que merdinha!”.

Bebinha de tudo, esfregou o pé no melado do piso para tentar esconder a lambança. Pegou o que restava das latinhas no plástico, umas quatro ou cinco. Trancou a porta da sala e se escondeu em um canto onde não poderia ser vista pelo vidro da porta. Agachada, entornou mais uma cerveja. Com o controle remoto, ficava trocando as músicas do CD.

No andar de baixo, atônita, a família estranhava o som. “Tuts, tuts, tuts, tuts”. Ninguém lembrava de ter deixado nada ligado. Viram a cozinha da mesma forma como deixaram, mas um dos lanches estava diferente. “Alguém mexeu na minha mortadela!”, berrou um dos meninos. A mãe abriu a geladeira, viu o chão sujo. “Alguém mexeu no meu frango!”, berrou. Ao se abaixar deu por falta do engradado. “Minha cerveja!”. A mulher subiu as escadas e deu de cara com a porta fechada.

Era impossível ver quem estava lá dentro, a mãe chutou a porta e forçou a maçaneta, mas nada de abrir. Um dos filhos disse para que quebrassem vidro e abrissem por dentro, mas a mãe proibiu. “Quer se cortar?”. Ficaram se olhando, sem reação. A mãe abriu a gaveta e puxou uma faca, colocou as crias para trás como uma pata, pegou o telefone e discou para a polícia:

– Emergência.

– Alô, invadiram minha casa, não sei quem é, mas invadiram!

– A senhora tem parentes com problemas com álcool, narcóticos ou remédios?

– Não, não! Vem logo, por favor! Por favor! Aqui é na Rua G., no Nova Delhi!

– Senhora, a senhora teve alguma briga recente, senhora? Ex-marido violento, vizinhos?

– Sou viúva!!! Pelo amor de Deus! Manda uma viatura pra cá!

– Bom, vou abrir um chamado, mas como não é tão urgente vai ficar aqui na lista de ocorrências, ok?

– Não é urgente! Um ser invade minha casa, rouba minha cerveja e está agora na minha sala ouvindo Corona! E não é urgente!? Seus bostas!

– Bom, senhora, pedimos que verifique quem é para depois estar fazendo a denúncia!

– MEU DEUS! Estou ouvindo tiros lá em cima! Pegaram um dos meus filhos!

– Nesse caso vamos localizar a viatura mais próxima e mandar até aí o mais rápido possível.

– AAAAAAAAAAHHHHHH!!!

(tu…tu…tu…)

Morando na cidade há sete anos, a mãe sabia como fazer a polícia funcionar. Após uns 15 minutos ouviram a sirene. Foram até o portão, dois policiais desceram do carro em uniformes cinzas. A mulher avisou que a coisa era lá em cima. Eles entraram na casa e subiram as escadas. Gritaram para que abrissem a porta. Nada, apenas o som dançante. Com um solavanco, arrombaram a porta. Entraram. Havia uma porção de latas jogadas pelo chão e a garrafa de vinho estilhaçada na parede. Carmem dormia no chão, pés e cabeça em duas almofadas. Deram-lhe tapas na cara. Assustada, a moça acordou ainda bêbada e disse com moleza: “o que vocês vão fazer comigo, hein?”. Depois que falou, acariciou o braço de um dos policiais.

 

“Vocês não podem tocar, sequer tocar, em mim, viu?”, deslizava as palavras da boca. Os dois fardados entreolharam-se confusos. A menina apalpou um dos policiais, como se o revistasse, lançou as mãos perto de sua coxa e roubou um maço de cigarros. “Policial fumando! Que feio, hein!?”.O homem pegou-a pelo braço, mas ela deu-lhe um tranco e se desvencilhou. Passou pelos dois como uma lagarta trêbada e desceu as escadas. Acendeu o cigarro no fogão, correu pelo jardim do quintal e saiu da casa. Cambaleando, passou meio torta ao lado da família, que esperava ao lado do portão. Olhou pra eles e deu risada, figurava com o cigarro na mão esquerda e a mão direita na cintura. Dava tragadas profundas.

A menina se foi, mole, quase caindo. Virou à esquerda e continuou sua fuga, chegou ao calçadão e foi se misturando com o povo. Todos a olhavam, a camiseta suja de vinho e a bermuda toda molhada. Carmem soltava fumaça, seu rosto estático mirava o mar. Atravessou a turba e pulou na areia da praia, sentiu o calor queimar seus pés e apertou o passo até chegar à beira do mar. O sol rachava a paisagem e ondas delirantes topetavam o ar. Ela sentou-se em um monte de areia e ficou olhando os turistas, as barracas, o fala-fala e a sujeira na areia. A cidade continuava maravilhosa.

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Este Conto foi escrito por Rodrigues. A publicação neste blog foi devidamente autorizada pelo autor.

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6 comentários em “A Lagarta – Conto (Rodrigues)

  1. Felipe Rodriguez
    7 de janeiro de 2014

    Fala, Jefferson! Blz? Valeu a leitura! Abraço!

  2. Marcellus
    6 de janeiro de 2014

    Cachinhos Dourados carioca. 🙂

    • Felipe Rodriguez
      7 de janeiro de 2014

      Hehe. Sacou, Marcellus. Esse conto foi feito para um concurso da CF (Comunidade Contos Fantásticos) em que o tema era subverter algum conto de fada. Foi o primeiro conto que publiquei por lá, e este que você leu passou por várias alterações. Valeu a leitura!

  3. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    6 de janeiro de 2014

    Gostei bastante da narrativa, até simpatizei com a mocinha-bandida. O leitor prende-se à história dinâmica de um momento único da personagem. Parabéns.

  4. Jefferson Lemos
    6 de janeiro de 2014

    Ótimo conto. Esse tipo de escrita que relata momentos e coisas que simplesmente acontecem, me faz lembrar Neil Gaiman, ele costuma fazer muito isso. rs
    Parabéns pelo conto!

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Publicado às 5 de janeiro de 2014 por em Contos Off-Desafio e marcado .