EntreContos

Detox Literário.

Sem Descanso (Edson Marcos)

Quando encostou o cano frio do Smith&Wesson em sua têmpora direita, Phill perguntou-se qual seria a sensação de ter 0,38 polegadas de chumbo rasgando seus miolos.

Apertou o gatilho.

— “Clack!” — fez o cão do revólver contra o tambor vazio. Não tinha coragem para carregar o revólver. Não até que desvendasse o assassinato. Depois, nada mais importaria.

Secou o copo de uísque num gole só. Outra tragada, antes de enterrar o cigarro no cinzeiro abarrotado de bitucas. Um velho ventilador de mesa lutava contra a fumaça que preenchia o quarto escuro e abafado. Phill enfiou o rosto entre as mãos, sufocando sua angústia. O fumo e o álcool não preenchiam o vazio deixado por Ellen.

Phill Jones era policial em Nova Iorque. Há um ano investigava as atividades criminosas de Vincent Mangano, um poderoso gangster que controlava o submundo do crime na cidade. Durante as investigações, encontrou indícios de exploração de jogos de azar, agiotagem, tráfico, extorsão e outros. Contudo, não havia provas. A folha de pagamento de Mangano incluia políticos, policiais, empresários, gente influente de Manhattan. Protegiam seus esquemas ilícitos.

Dois meses atrás, Phill recebera informações sobre uma grande operação de tráfico de heroína. Grande parte da Força Policial de Manhattan foi mobilizada. A campana durou toda uma madrugada.  Enquanto isso, na Fifth Avenue com a 57th Street, os capangas de Mangano limpavam as prateleiras da Tiffany & Co.

Quadrilha rouba 500 mil dólares em jóias e diamantes. Polícia apreende caminhão carregado de trigo.” dizia o NewYork Times de 1º/10/1941, jogado sobre a mesinha de centro sob a garrafa de uísque vazia. Naquele mesmo dia, Phill encontrou sua esposa caida na sala de sua casa, assassinada. Ele prometeu jamais descansar até encontrar o assassino.

Phill caminhou até a escrivaninha e apanhou outra garrafa. Da janela, observou o movimento nas ruas da Times Square. A noite caía. Lentamente, o quarto foi tomado pelas sombras. Sem explicação, a temperatura do quarto caiu rapidamente. Phill sentiu calafrios. Quando virou-se, viu a coisa.

— DEUS! — gritou. Instintivamente atirou a garrafa contra o vulto, mas esta atravessou-o. A aparição tinha a cabeça coberta por ataduras, apenas o olho direito, boca e nariz estavam à mostra. Vestia uma camisola de hospital verde-enfermo. A perna direita ceifada, e os tons e nuances pálidos de suas formas denunciavam que não era deste mundo. Flutuava num canto do quarto onde a penumbra oscilava devido ao piscar melancólico das luzes néon. O espectro fixou seu olhar em Phill.

‘’Não descansar…’’

— Arg! — grunhiu. As pernas oscilaram e ele desabou. Quando ergueu os olhos estava sozinho. Arfante, vasculhou os cantos. A coisa sumira. — Deve ser esse maldito uísque barato! — concluiu.

Batidas na porta. Uma voz feminina;

— Phill!

— Beth? —reconheceu. Levantou-se, ajeitando a gravata.

— Phill! — comemorou Beth, atirando-se ao pescoço dele. Seu perfume inebriou-lhe os sentidos. Sabia quão sedutora era ela. Atendeu-a no corredor.

Beth tinha longos cabelos ruivos, olhos esmeraldinos, e pernas torneadas de dançarina. Mas Phill acabara de perder Ellen; não tinha olhos para outras. Também, Beth era a garota de Jack Rock, seu parceiro.

Phill estranhou o abraço. Porém, não havia ousadia, só desespero.

— Serei direta… — arquejou angustiada. — É sobre Ellen….

— O QUE SABE SOBRE ISSO? — indagou, segurando os braços dela tão abruptamente que ela grunhiu.

— Perdão Beth…

— Esqueça; preciso de ajuda!

— Beth? Phill? — interrompeu Jack Rock, irrompendo da escadaria. Phill soltou Beth imediatamente, tarde demais para disfarçar. — Atrapalho? — indagou Jack.

— Não!… — Beth antecipou-se. — Estava indo pro show, e resolvi passar para ver como Phill estava… Sinto falta de Ellen… — disfarçou. Beth parecia desconfortável com a presença de Jack. O porquê, Phill não entendeu.

Phill e Jack conheceram Beth no início da investigação. Era bailarina de Carmem Miranda no Copacabana Club, a mais badalada casa de show de NY. Também era a garota de Alberto Anastasio, o braço direito de Mangano, e seu principal matador. Jack sabia que Beth poderia lhe ser útil, e mesmo ciente do perigo, usou seu “charme cafajeste” para conquistá-la e extrair dela todas as informações possíveis.

Mas Jack também não resistiu aos encantos dela. Tornaram-se amantes.

Sabiam que cedo ou tarde seriam descobertos, e pior, que Anastasio não tinha compaixão com seus inimigos: cumpriu dezoito meses na prisão de Sing Sing por matar um estivador. Quando saiu em condicional, quatro das testemunhas de acusação desapareceram. Envolver-se com a garota dele significava usar sapatos de cimento no fundo do Rio Hudson.

— Jack é meu parceiro, Beth. Não temos segredos entre nós… – Beth engoliu à seco. Percebeu que recorrera à pessoa errada.

— O que há, docinho? — perguntou Jack. Beth tinha o olhar atônito.  Desabou vertendo lágrimas.

— Ela precisa de proteção, Jack… Corre perigo.

— Estou cuidando dela, Phill… — Jack a abraçou. – Tenho sido sua sombra desde que Ellen… – ele hesitou. — Desde que… Você sabe…

— Sei; não há como esquecer. — arquejou. — Novidades?

— Nada… — disse cabisbaixo. — Nas ruas ninguém abre o bico; temem mais Mangano do que à polícia. Mas apertando alguns vagabundos aqui e ali, logo acharemos algo.

— Tomara, ou nossos distintivos irão pra uma gaveta logo, logo! — Jack assentiu com um sorriso amarelo.

— Bem, preciso deixá-la no trabalho, não é docinho? — Beth relutou em sorrir.

— Adeus, Phill… — Beth o abraçou. Phill sentiu algo escorregar sorrateiramente para o interior do bolso de sua calça. — Desculpe incomodá-lo; é a saudade…

— Também sinto falta dela…

— Vou visitá-la em breve.

— Não diga bobagens!

— Não é isso; jurei nunca deixar faltar flores no túmulo dela… O buquê de rosas que deixei ao lado dela, lembra-se? — seu olhar desesperado parecia apontar uma direção. Phill captou. Jack desconfiou.

— Sim, lembro. Brancas. — Phill cerrou os olhos, recordando-se. Beth colocara carinhosamente as flores no caixão, antes que o lacrassem. — Eu agradeço… — disse Phill, enquanto Beth era acometida de um pranto silencioso.

Beth e Ellen eram mulheres de comportamento completamente opostos. Beth, sedutora e perigosa, a mulher fatal que todos os homens desejavam ter por ao menos uma noite; Ellen, recatada e doce, a perfeita esposa. Afeiçoaram-se rapidamente, pois se completavam. Conheceram-se num jantar na casa de Phill. Tornaram-se carne e unha desde então.

– Vamos docinho… — interferiu Jack. — Cuide-se Phill… — despediu-se, amparando a moça. Beth lançou um último olhar desesperançado para Phill, um clamor por socorro.

— Jack! — gritou. O parceiro se deteve. — Cuide dela, parceiro! — Jack assentiu com um sorriso, depois seguiu escadas abaixo.

Phil fechou a porta. Acendeu outro cigarro.

— Vejamos, Beth… — ao vasculhar o bolso; encontrou um bilhete. — Que mãos leves! — deduziu.

— “St Lawrence, Q18 n.°31” — leu. — Que raios será iss… — Um guincho horrível ecoou no quarto. Quando Phill olhou, o fantasma saltou sobre ele com garras famintas, alucinado.

— DEUS! — clamou num berro, cuspindo o cigarro. Instintivamente, protegeu-se com seus braços. O fantasma explodiu contra eles, desfazendo-se em névoa.

Arfante, Phill olhou alucinadamente à sua volta.

— Maldito uísque!… — com o coração retumbando, amassou o bilhete e o guardou no bolso. Pegou seu sobretudo, o revólver sobre a mesinha, e enfiou seu chapéu fedora na cabeça. Depois, disparou porta afora, pálido e apressado.

Saiu do Night Hotel. Seguiu em direção à Broodway. As palavras de Beth martelavam em sua cabeça. Retirou o bilhete do bolso. Olharia a mensagem uma última vez. — St Lawrence, Q18 n.°31 — decorou. Sentindo um arrepio na nuca, atirou o bilhete numa lixeira.

— Um endereço?… — refletiu. — O que esconde de Jack, Beth? — perguntou-se. Antes que enlouquecesse, decidiu perguntar a própria Beth. Temia por ela. Já falhara com Ellen; sua morte era um nítido recado para que abandonasse o Caso Mangano. Beth poderia ser a próxima.

O fantasma o seguia. Estava em becos escuros, no reflexo de uma vitrine, na marquise de um prédio antigo; as sombras o acolhiam como a um filho.

Temeroso, Phill chamou um táxi. Quando entrou no carro, o motorista estremeceu e expeliu vapor pelas vias aéreas. Um frio repentino tomou o interior do veículo.  Phill sabia o motivo.

Em minutos, estava no Copacabana Club.

Week-End In Havana”— dizia um cartaz. O italiano brutamontes na portaria tinha um semblante austero. O terno branco combinava com a temática do espetáculo.

— Olá, Frank! — disse Phill.

— Detetive Jones; Já ia fechar as portas…

— Casa lotada?

— Sim; convite?

— Aqui está… — sorriu irônico, sacando seu distintivo.

Frank retribuiu o sorriso.

— Desculpe; é o meu trabalho.

— Melhor do que limpar latrinas na prisão…

— E é pela ajuda no tribunal que o deixarei entrar. Não é uma boa noite para estar aqui…

— Estão aí?

— Estão; haverá confusão?

— É o meu trabalho, Frank… — disse, depois entrou. Caminhou entre as mesas. Mesmo com o salão lotado, Phill localizou aqueles os quais Frank se referiu.

Mangano dividiam uma mesa com Anastasio e duas exuberantes garotas. Ao seus redor, capangas. Quando a orquestra tocou “Rebola a bola”. As bailarinas entraram. Beth misturava-se aos vestidos, turbantes e leques coloridos.

— Ela é maravilhosa, não? — disse Jack Rock, aproximando-se.

— É… Escute; quanto ao que viu lá no hotel…

— Esqueça; sei que jamais colocaria as mãos nela… O que ela queria?

— É o que quero perguntar a ela.

— E aquilo que ela enfiou em seu bolso?

— Você viu?

— Não me subestime…

— Era um bilhete; dizia “St Lawrence, Q18 n.°31”. O que significa?

— Um endereço talvez. No Bronx há uma rua chamada Saint Lawrence. Verificaremos amanhã. — Já os viu?— desconversou, apontando Mangano.

— Sim; toda a corja. Preciso lhe contar algo… — contou sobre o fantasma. Jack não se incomodou.

— Deve ser o uísque! — Phil riu da conclusão do amigo. — Também costume ver coisas quando bebo aquela porcaria…

Phill riu.

— Vá cuidar de Beth…

— Sem besteiras, parceiro… — Jack disse. Phill deu uma piscadela. Carmem Miranda entrou em cena com seus balangandãs coloridos. Um homem aproximou-se de Phill.

— O chefe quer lhe pagar uma bebida… — disse um homem, segurando o braço de Phill, que o rechaçou com um solavanco hostil.

— Gastando seu dinheiro sujo, Vincent? — disse Phill ao aproximar-se da mesa. Tinha ódio nos olhos.

— Quanta simpatia, Jones! Já abandonou seu luto? —  Mangano vestia um risca-de-giz impecável. Ao lado dele, Anastasio exibia um sorriso cínico.

— Não; meu luto terminará quando você e seus carcamanos fritarem numa cadeira elétrica em Sing Sing…

Mangano gargalhou.

— Phill… Que hostil! Não quero discutir, até porque você não tem provas. Encontrou as jóias da Tiffany?

— Vejo uma agora, no dedo de sua garota… — A loira escondeu o anel de brilhantes.

— Saia e leve junto seus insultos, Jones; estamos nos divertindo…

— Divirta-se enquanto pode, Mangano… — Phill apagou o cigarro no copo de Anastasio. O matador levantou-se, a mão sob o terno. Phill agarrou violentamente seu colarinho e o empurrou de volta à cadeira. As garotas se assustaram.

O som de um tiro ecoou. A orquestra parou, a platéia, estremeceu. O tiro não saiu da arma de Phil nem das dos gangsters. Phill soltou Anastasio, alertando-se.

Gritos. No palco, Beth tombava com uma mancha vermelha no peito que não pertencia ao vestido.

— O piso superior! — concluiu Phill. A perfeita acústica do salão facilitou identificar a origem do tiro.

Phil subiu a escadaria.  Quando atingiu o final, foi recepcionado à bala. Abrigou-se e revidou o tiro.

— Praga! — estava descarregada. Um erro tolo. Sua obsessão pelo assassino nublara seus instintos. Cautelosamente caminhou pelo corredor de acesso aos camarotes, as passadas mansas, enquanto carregava sua arma.

Um vulto moveu-se no corredor mal iluminado. Mais tiros; cinco. Phill seguiu os pipocos. Quando dobrou o corredor à direita, apontou sua arma.

— FRANK! — Gritou.O porteiro assustou-se.

— Espere! — o grandalhão ergueu os braços. Já encarara a mira de uma arma diversas vezes. Encostada na sacada e ao alcance da mão, a provável arma do crime.

— AFASTE-SE DA CARABINA, FRANK!

— NÃO! A arma…

BANG! — Um tiro calou Frank. Ele se contorceu, grunhiu, e tombou. Atrás dele, Jack empunhava seu revólver, ainda fumegante. Uma mancha vermelha crescia no terno branco do porteiro.

— Desgraçado! — Jack amaldiçoou. O braço esquerdo estava ferido.

— Praga, Jack; por que atirou nele?

— O quê? Ele atirou em mim, e ia pegar a carabina! — Phill lançou-lhe um olhar repreensivo.

Jack apressou-se em explicar

— Vi quando Frank subiu as escadas. O safado descarregou um revólver tentando me acertar, Phill… Vai encontrar a arma no outro corredor. Maldição, Phill, duvida de mim? — vociferou, mostrando o braço empapado em sangue.

— Desculpe-me, parceiro… Vá ver como está Beth; eu cuido disso aqui… — Phill acendeu outro cigarro. As pessoas iam se amontoando ao seu redor. Da sacada, viu Mangano sair. Anastasio acenou e abriu um sorriso sarcástico.

A noite foi cansativa. Chegaram mais policiais, peritos e a imprensa. Jack, inconsolável, ficou ao lado do corpo, esperava a conclusão da perícia. Amaldiçoava o nome de Frank a cada segundo.

— Como está?

— O tiro pegou de raspão. Estou bem…

— Se foi Anastasio o mandante, armou tudo com perfeição…

— Sei disso; centenas o viram aqui; colunistas tiraram fotos… Não será suspeito, principalmente da transação desta madrugada…

— Transação?

— Melhor não saber, Phill…

— Diga logo, homem…

— Mangano irá negociar a droga roubada do DP. — Os olhos de Phill brilharam. Jack referia-se a centenas de quilos de heroína furtados da sala de evidências do Departamento de Polícia de Manhattan. Alguém facilitou a entrada dos ladrões. Milhões de dólares em heroína.

— Isso é coisa pesada…

— Beth me contou…

— Beth nos colocou naquela furada, Jack… — falava da transação no Brooklin. Desde aquela operação, Phill era suspeito de cumplicidade no assalto à joalheria e no furto da droga. Desvendar aquele caso seria sua redenção.

— A informação é quente; por isso Beth está morta. — arquejou. — Mangano está indo para o píer em West Harlen neste instante; armazém 03.

— Preciso verificar antes de acionar o Departamento…

— Então vamos! URG! — Jack desabou na cadeira novamente. Perdera muito sangue.

— Fique aqui, Jack; não está em condições…

— Eu não deveria ter lhe contado. — Phill confirmou despediu-se. Em dez minutos, estava no Harlen, e já se esgueirava pelo beco na rua portuária. Sentiu um calafrio familiar.

— Praga; agora não, assombração! — sussurrou. Um vento gélido arrastou papéis pelo beco escuro.

Seu coração disparou ao ver o fantasma barrando seu caminho.

— Não, agora não… — A aparição vibrava, como que fora de sintonia. Raivoso, apontou para algo atrás de Phill. Um tiro no beco. O impacto nas costas fez Phill despencar numa poça de d’agua. Ouviu passos. Apanhou seu Smith&Wesson, mas sem forças, deixou-o cair. Escutou o atirador engatilhar a arma atrás de sua cabeça.

— Não, ainda não… Prometi não descansar… — murmurou enquanto sua visão embaçava. — O fantasma lhe estendeu a mão, depois, se desfez em névoa. Phill ouviu o segundo disparo. Tudo escureceu.

O bip do monitor cardíaco foi a primeira coisa que Phill ouviu ao abrir os olhos. Mesmo desorientado, reconheceu o quarto de hospital Sentiu vertigens quando apoiou-se na cama, seu braço esquerdo falhou. Despencou rumo ao piso, levando consigo os fios e monitores de sinais vitais. Logo chegaram as enfermeiras.

Isso foi há um mês.

Quando Jack irrompeu pela porta do quarto no Bellevue Hospital, Phill sentiu-se aliviado.

Jack ficou perplexo ao vê-lo; a cabeça coberta de ataduras. Apenas seu olho direito, boca e nariz estavam descobertos. A roupa verde-enfermo só deixava o visual mais incômodo.

— Vim assim que pude, Phill. Como está?

— Como uma assombração!

— Quê?

— Nada. Estou bem, considerando ter dormido por dois anos…

— Eu vim todos os meses, parceiro…

— Obrigado… Sabia que podia contar meu único e melhor amigo. — Jack sorriu. Entregou-lhe roupas novas.

— Vamos? — Jack perguntou apressado. Phill assentiu, também tinha pressa. Jack desolou-se quando Phill apanhou as muletas.

—Não é tão ruim assim..

— Fico feliz por você… — Jack recolheu as malas, enquanto Phill arrastava-se em direção ao carro. — Isso vai melhorar?

— Talvez…  — Phill sorriu. — Sabe, lembro-me de certa vez colocar o revólver na cabeça e me perguntar qual seria a sensação de sentir uma bala rasgando meu cérebro, e devo dizer: não é nada boa; não mesmo! — riu; a boca deformou-se. — A bala entrou pela região occipital e arrastou meu cérebro quando saiu pelo meu olho direito. —  explicou. — Foi-se o olho, a capacidade de enxergar cores, parte do tato no lado esquerdo e o movimento da perna esquerda. Todo o lado esquerdo do meu corpo funcionava mal agora.

No caminho para sua casa, no Queens, conversaram sobre os últimos dois anos. Phill perguntou sobre o Caso Mangano. Jack disse que Mangano desapareceu sem deixar vestígios, e Anastasio assumira os negócios.

Jack percebeu que falava sozinho enquanto percorriam a Via Expressa Queens Midtown. Passavam diante do Cemitério Calvary.

Jack estacionou diante dos portões do cemitério.

— Quer visitá-la?

Phil Assentiu.

Em instantes caminhava pelo jardim de pedras brancas. Centenas de lapides, crucifixos e anjos. Sentiu-se em paz. Sorriu diante da estátua de um santo. Algo o fez recordar-se do bilhete.

— Jack; se lembra daquele endereço no bilhete de Beth?.

— Claro; eu mesmo verifiquei a rua Saint Lawrence no Bronx, mas não encontrei os números. Não sei que tipo de charada aquela garota nos deixou, Phill.

— Eu acho que sei… — disse.  A plaqueta na estátua dizia: “Saint Martin”.

— Preciso lhe contar uma coisa, Jack.

— Diga…

— Enquanto eu estava em coma, aconteceu algo estranho.

— Mais estranho que levar um tiro na cabeça e sobreviver?

— Muito mais. A principio pensei ser um sonho. Nele, revivi meu último dia antes do coma. Foi como se voltasse no tempo e observasse a mim mesmo.

— Parceiro,  tem certeza que está bem…

— Estou; no sonho, via o mundo como agora, sem cores, cheiro ou gosto. Não conseguia tocar nada. Usava estas ataduras na cabeça e a roupa desbotada do hospital. Depois percebi que não era sonho; meu espírito deixara meu corpo e voltara no tempo para descobrir quem assassinou Beth. — outra estátua: “Saint Francis” dizia a plaqueta.

— Você era um… Fantasma?

— Era. Sei disso porque o meu eu do passado podia me ver, do jeito como eu me via.

— Phill, desculpe, mas você não deve estar…

— Aqui!… — Phill disse diante de outra estátua.

— Saint Lawrence! — Jack leu na placa.

—   “Saint Lawrence Avenue” — disse Phill.

Jack rangeu os dentes.

— Não era o endereço no Bronx.

— As alamedas do Calvary; todas têm nomes de santos. — Phill parou diante de uma lápide. — Ellen Mary Jones!

— Quadra 31, número 18! — disse Jack. Phill ergueu sua muleta; a pancada derrubou Jack sobre o vaso de flores. Imediatamente Phill saltou sobre ele, e apanhou o revolver sob o paletó.

Jack arrastou-se, encostando-se na lápide de Ellen.

— Como sabia, maldito aleijado? – murmurou Jack, limpando o sangue que escorria pela testa.

— Não estou louco, desgraçado. Fiz uma promessa a Ellen. Mesmo em coma, eu não podia descansar enquanto não descobrisse o assassino. Dentro de mim algo dizia isso. De alguma forma, meu espírito voltou para aquela noite. Vi quando você me seguiu no beco, e quando atirou em mim pelas costas. Só Deus sabe o quanto me segurei para não matá-lo assim que o vi, miserável!

— Os diamantes da Tiffany, Jack… Devem estar aí junto com a Ellen…

— Beth deve ter colocado-os junto com o buquê de rosas. Mas porque ela faria isso?

— Vingança por eu ter me associado a Mangano, e também porque acreditou que quando Mangano soubesse do sumiço das pedras, me mataria, e ela ficaria com tudo. Beth, tornou-se um estorvo. Por isso a matei.

— Então não foi Frank?

— Não; Frank apareceu de um lado,e você de outro. Eu não tinha saída, então fiz uma. Atirei em mim mesmo e no idiota…

— Como foi se meter nessa lama, Jack?

— Sinto muito Phill; Anastasio descobriu meu caso com Beth, e teria me matado, não fosse eu oferecer-lhe um acordo.

— Associar-se a Mangano. Ter alguém na polícia era muito vantajoso pra ele… O furto da heroína, a pista falsa no Brooklin e o roubo na joalheria; aposto que está nisso também…

— Perdão, Phill

— E Ellen, seu desgraçado?

— Beth viu Anastasio entrar em minha casa na noite do assalto à Tiffany. Espiando, me viu esconder os diamantes na lareira. Passamos a noite juntos. No dia seguinte, Beth se fora, levando juntos os diamantes enquanto eu dormia. Eu a segui por uns dias. Ela foi até a sua casa. Beth tinha as provas para incriminar Anastásio, e queria ajuda de Ellen para contar a você.

— Éramos amigos, Jack…

— Sua mulherzinha ia abrir o bico, Phill! Você perdoaria seu parceiro? Phill ficou em silêncio. Calou-se, com ódio nos olhos. — Não foi Anastasio, nem Mangano; eu matei a vaca!

— DESGRAÇADO! — Phill explodiu. O tiro acertou a lápide. Errou de propósito.

— Levante-se! — ordenou Phill, apontando-lhe o Colt. — Você vai pra cadeia.

— Espere Phill; os diamantes… — tentou argumentar em desespero. —Posso dá-los a você…

— Não quero  suas pedras malditas… De pé! — Jack assentiu. Enquanto levantava-se, sua mão correu ligeira pelo tornozelo. Havia outra arma.

Numa fração de segundos, tudo aconteceu. O primeiro tiro atingiu a perna direita de Phill, o segundo, o braço esquerdo. Jack errou, estava atordoado. Phill não sentiu dor; eram partes quase mortas, mas o impacto lançou-lhe ao chão, e enquanto caía, Jack disparou um terceiro tiro.

Phill atirou. O primeiro tiro, no braço, fez Jack largar o Colt. Os outros três, no peito. Jack não se moveu mais.

Estava terminado.

Phill sentiu uma pontada, e uma vertigem. Encontrou terceiro tiro; coxa esquerda. Sua artéria femoral cuspia sangue aos jatos. Uma escuridão familiar o envolveu lentamente. Phill sempre desejou que quando o fim chegasse, pudesse ver o rosto suave de Ellen.

Então ele a viu, bem ali ao seu lado, sorrindo.

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24 comentários em “Sem Descanso (Edson Marcos)

  1. Frank
    15 de janeiro de 2014

    Acho que lembro de alguém dizendo que faria um conto “mix” desses. Bem bacana.

  2. Cácia Leal
    15 de janeiro de 2014

    Adorei! Gostei muito, principalmente do tom policialesco! Parabéns!

  3. Weslley Reis
    15 de janeiro de 2014

    A trama é boa. A ideia de fantasma, como já citada, foi diferente da maioria. Porém, achei os dialogos forçados o que acabou me distanciando do conto. De todo modo, parabéns.

  4. Raione
    11 de janeiro de 2014

    Escrita praticamente livre de deslizes, boa ambientação e boa história, bem tecida, embora pelo alcance da trama e pela limitação do espaço não consiga envolver adequadamente o leitor e se aprofundar. Bem interessante a ideia de misturar fantasma e viagem no tempo, mas essa mistura não me pareceu totalmente justificada.

  5. Caio
    10 de janeiro de 2014

    Olá. Gostei do elemento novo do seu fantasma, ficou criativo. No começo eu tava muito incomodado com o forçado das falas – e de tudo, na verdade -, mas quando aceitei que era só pra entreter, que era pra ser plástico mesmo, minha leitura engrenou. Não acreditei em nada, mas tava entretido. Assim, eu prefiro ter mais que entretenimento nas coisas que eu leio, mas ao mesmo tempo é uma habilidade boa de se ter, escrever algo fácil de ser lido. Teria que ver outras coisas suas pra dizer se a falta de realismo (que eu, particularmente, acho que existe) nas personagens e nas falas é algo seu com o gênero noir apenas ou se é um ponto a melhorar em geral, acho que você podia se responder isso melhor do que nós aqui às cegas. Espero que ajude de algum jeito, abraços

  6. Gustavo Araujo
    8 de janeiro de 2014

    Não me incomodou o fato de os temas dos desafios terem sido misturados. Antes, achei engenhosa a ideia. Creio até que o autor soube como concatenar a trama, de modo que os assuntos antes ventilados não apareceram de maneira forçada. Claro, sobressai-se a temática noir, com uma apresentação muito boa, bem escrita e engenhosa. Infelizmente, a limitação imposta pelas regras do desafio faz com que não seja possível dar ao enredo a profundidade necessária. Resultado disso é a antecipação, a visualização do “culpado” ainda na metade do conto. Achei bem encaixado o fantasma – que nada mais era que uma imagem do próprio protagonista, tentando avisar a si mesmo sobre os perigos que o rondavam. O cemitério foi bem lembrado como cenário em que tudo se resolve. Enfim, é um bom conto. Sofre, porém, com a falta de profundidade dos personagens. Talvez, sem a limitação, isso possa ser resolvido. Parabéns ao autor.

  7. Paula Melo
    5 de janeiro de 2014

    Gostei bastante do texto,bem estruturado e desenvolvido,mas não me agradou a mistura de temas,se o tema fantasma estivesse mais em foco,quem sabe. Mas valeu pela coragem em mesclar os temas.
    Boa Sorte!!

  8. Pedro Viana
    3 de janeiro de 2014

    Misturar todos os temas dos desafios, misturando elementos de viagem no tempo e fantasmas, num enredo noir que tem como um dos cenários um cemitério, foi uma sacada muito boa e eu bato palmas. Acho, porém, que “fantasmas” deveria ter tido mais destaque do que noir. De qualquer modo, valeu a intenção. O conto é bom, gostei da agilidade narrativa, apesar de não ter me surpreendido pelo final.

  9. Ana Google
    2 de janeiro de 2014

    Vamos lá! Em primeiro lugar, queria te parabenizar pela trama! O enredo envolve o leitor. Contudo, esse é mais um texto que parece ter sido aproveitado do desafio Noir, o que sinceramente não me agradou. É como se o fantasma tivesse sido inserido no texto propositalmente, de modo forçado, ficando em segundo plano. Se fosse no desafio passado, esse conto até poderia ter sido colocado como um dos meus favoritos, mas sinceramente não nesse desafio!

    Outro ponto importante, é que o texto carece de uma revisão mais atenta, o que atrapalha a leitura. Em alguns momentos, também a narração ficou um tanto corrida, o que confunde o leitor.

    No mais, é um ótimo conto!

    Parabéns!!!

  10. Gunther Schmidt de Miranda
    31 de dezembro de 2013

    Faltou alguns detalhes e uma grande mistura. Não gostei. Boa sorte.

  11. Thata Pereira
    31 de dezembro de 2013

    É uma boa história, mas a execução não me agradou. Fico em dúvida se algumas partes poderiam ser cortadas ou desenvolvidas melhor. É um acontecimento atrás do outro, muitos personagens. Muita coisa para assimilar, me senti perdida. Isso pode ter acontecido por conta do limite de palavras imposto.

    Boa sorte!!

  12. Ricardo Gnecco Falco
    31 de dezembro de 2013

    Um conto despretensioso, porém criativo. E, sem imaginação, ninguém se torna escritor (de ficção).
    Abraço e boa sorte!

  13. Inês Montenegro
    30 de dezembro de 2013

    Precisa de uma revisão que elimine as gralhas.
    Os acontecimentos do enredo parecem coser-se uns aos outros, sendo a continuidade entre eles visível, mas fraca. Os diálogos entre as personagens não parecem naturais, e o twist final não surpreende, visto que o leitor suspeita de Jack logo desde o início.
    Gostei da ideia de o fantasma ser ele próprio, mas o modo como isso aconteceu poderá ser melhor desenvolvido.

  14. Pedro Luna Coelho Façanha
    30 de dezembro de 2013

    Achei o tema do mês pouco explorado e com certeza tem mais valor como policial do que como conto fantasmagórico. Texto bacana, parabéns.

  15. charlesdias
    30 de dezembro de 2013

    Até o aparecimento do fantasma pensei que tinham colocado um conto perdido do desafio de novembro (Noir) entre os contos de fantasmas … risos. Sinceramente, ficou parecendo mesmo que um conto para o desafio passado foi adaptado com a inclusão de um fantasma para ser inscrito esse mês … a aparição está muito deslocada, forçada.

    Duas outras coisas que me incomodaram:

    1 – O fantasma ficou esperando o fim da conversa entre os personagens (num encontro muito coincidente para meu gosto) para atacar o protagonista … estranho.

    2 – Na época em que se passa o conto ainda não existiam monitores cardíacos.

    Seria um conto muito melhor aproveitado como policial que do jeito que está forçado para o gênero fantasmas.

  16. Leandro B.
    30 de dezembro de 2013

    Antes de tudo, o conto apresenta uma grande capacidade criativa dirigida. Associaram-se elementos dos outros desafios de maneira bem satisfatória para elaborar a história. Acima de tudo, o clima Noir foi muito bem construído. Não sei o motivo, mas tive a impressão de que a história daria uma boa adaptação cinematográfica, talvez em um curta.

    Existe um ou outro erro que a revisão não cobriu, mas nada que atrapalhe muito a leitura. Fica a dica de uma última revisão no material original.

    O que me parece que enfraqueceu um pouco o conto foi a previsibilidade de um acontecimento chave: O envolvimento de Jack com o assassinato de Ellen ficou bem claro desde o início. Sei que em um conto curto é difícil manter esse tipo de mistério (poucos personagens para explorar), mas parece muito claro que o leitor deveria se surpreender junto com Phill. Vou ser extremamente intrometido e dizer que talvez eu preferisse, como leitor, que você fizesse o contrário: Deixasse CLARO que Jack estava envolvido desde o início. Como o conto está em terceira pessoa, você teria total liberdade para trabalhar a perspectiva dos outros personagens. Jack pensaria em como calaria Beth logo no começo. Poderia, ainda, mostrar como, desesperado, ele improvisaria a armação em cima de Frank. Isso se aplica também à Beth: ela já apresentaria, explicitamente, que esperava a morte por culpa do conhecimento do envolvimento de Jack, etc. Digo isso porque não adianta tentar “enganar” o leitor em um espaço tão curto. Acho que a surpresa do seu conto deveria vir de COMO Phill descobriu que seu parceiro estava envolvido (a viagem no tempo de seu próprio espírito) e não QUE seu parceiro estava envolvido.

    Tive a impressão geral de que no último desafio de Noir esse foi um erro bem comum. Meu também, inclusive. Pode ser que a coisa não funcione também com a minha sugestão, mas pode ser um exercício diferente.

    Outra coisa que me incomodou um pouco foi o didatismo do texto, especialmente quanto à revelação de Phill ao final. A revelação poderia sim ser apresentada, mas de outra maneira. A impressão que tive é que o (a) escritor(a) não quis arriscar, deixando claro os elementos que utilizou no conto (fantasmas e viagem no tempo), especificando o amalgama de temas que mobilizou. O próprio Phill poderia questionar mais o que aconteceu, perguntando-se sobre Deus, vida após a morte, se ele realmente vira o próprio fantasma ou se foi algo que seu subconsciente embutiu em sua memória, etc. O didatismo ocorre, ainda, para explicitar que se trata, também, de um texto Noir, como quando o (a) autor(a) define Beth como uma “mulher fatal”. Achei isso desnecessário.

    No início, não gostei muito da apresentação da aparição. Foi abrupta demais, não acho que se criou um clima propício para seu surgimento. Em outros momentos o (a) autor (a) apresentou de maneira muito mais satisfatória o fantasma.

    Por fim, depois de tanta coisa escrita, quero deixar bem claro que eu gostei bastante da história. Talvez por isso eu tenha sido um pouco mais crítico.

    Bom conto, parabéns ao(a) autor(a)

  17. Lúcia M Almeida
    30 de dezembro de 2013

    Gostei de ler seu conto, de fácil assimilação. Parabéns!

  18. Edson Marcos
    29 de dezembro de 2013

    Bem legal a mistura de temas dos desafios passados, sinal de que tudo é possível quando se escreve um conto. Um bom exercício de imaginação, e me pareceu bem despretensioso. Você deve ter se divertido escrevendo-o não?. Boa sorte!

  19. Jefferson Lemos
    29 de dezembro de 2013

    Essa mescla de temas foi uma jogada legal, mas acabou não me agradando.
    De qualquer forma, parabéns e boa sorte!

  20. Bia Machado
    28 de dezembro de 2013

    Gostei dessa mescla toda na narrativa, embora tenha me parecido mais longo do que deveria, mas achei que o tema do mês ficou em segundo plano, enfim… O finalzinho, achei bonita a descrição da cena. Parabéns!

  21. Ryan Mso
    28 de dezembro de 2013

    Outro bom conto, gostei da “mistura” como frisado por outros colegas, mas notei também que o “fantasma” da coisa ficou um pouco deslocado com todo o resto. Mesmo assim, parabenizo ao autor pelo trabalho.

  22. Marcellus
    28 de dezembro de 2013

    Particularmente, o conto não me atraiu. Achei um pouco confuso, uma colcha de retalhos de desafios passados com o presente.

    Mas foi um bom exercício, o autor tem potencial. Boa sorte!

  23. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    28 de dezembro de 2013

    Interessante a mescla de temas durante a narrativa. Para mim, prevaleceu a trama policial, o lado noir. O fantasma ficou meio desbotado.
    O conto foi bem trabalhado, embora um tanto longo demais para mim. Gostei do final, até com uma pontinha de romantismo. Boa sorte!

  24. Tom Lima
    28 de dezembro de 2013

    Tem a questão da previsibilidade.
    Quando Jack fica desconfortava com Beth agente logo desconfia dele. Essa foi a parte que não gostei.

    A parte boa foi a mistura. Fantasmas, noir, viagem no tempo… foram bem colocados juntos, interagindo e se completando. Gostei bastante disso.

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Publicado às 28 de dezembro de 2013 por em Fantasmas e marcado .