EntreContos

Detox Literário.

A Herança (Charles Dias)

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Laura subiu o último lance de escadas da estação de metrô e emergiu em uma típica rua parisiense fora do circuito turístico, tranqüila, cercada de prédios sóbrios, elegante em sua discrição. O céu de outono estava carregado e o vento frio soprava para longe as últimas folhas amarelas das árvores. Caminhou com tranqüilidade por dois quarteirões até encontrar o prédio que tinha como destino. Apertou um botão do porteiro eletrônico, avisou de sua chegada e entrou quando o trinco da porta foi aberto com um ruído elétrico.

Era um escritório de advogados como outros tantos em Paris, com paredes cobertas de grossos livros e janelas altas com cortinas de cor clara. Uma secretária quinquagenária de vestido verde escuro a levou até a sala do advogado cinquentão de terno creme e gravata azul marinho.

– Mademoiselle Laura Nogueira Jodit, você foi chamada a este escritório de advocacia porque foi arrolada como a única herdeira da Mademoiselle Isabelle Jodit Margeau, sua parenta de quinto grau por parte da família materna, que faleceu há exatamente um ano na localidade de Allauch, distrito de Marselha. – Disse o advogado enquanto rompia o lacre de cera de um grande envelope pardo.

– Vocês têm certeza de que essa mulher era minha parente? Nunca ouvi falar dela e até onde saiba não temos nenhum parente vivendo na França. – Questionou Laura surpresa com o que acabara de ouvir.

– Sem sombra de dúvida, Mademoiselle. Continuando. Mademoiselle Margeau, solteira, cidadã francesa, lhe deixou como herança um pequeno chateau em Allauch onde residiu a maior parte de sua vida, um automóvel Citroen Sarracene de seu uso, um apartamento em Paris e a quantia de cinco milhões, quatrocentos e trinta e dois mil e setecentos euros. Há, no entanto, uma condição. A falecida lhe deixou uma carta que lhe será entregue tão apenas quando a senhorita estiver no apartamento supracitado, devendo então tomar conhecimento de seu conteúdo e na ocasião anunciar a este advogado sua decisão se aceita a herança ou abre mão da mesma em sua totalidade. – Concluiu o advogado, que voltou seus olhos para Laura sem nenhum traço de estranheza ou surpresa com o conteúdo do testamento que acabara de ler.

Enquanto o advogado dirigia e sua secretária no banco do passageiro falava num francês rápido ao celular, Laura no banco de trás olhava para a paisagem urbana enquanto ruminava aquilo tudo. E pensar que apenas três dias atrás estava preocupada com as contas do mês e tentava se convencer não pedir demissão do emprego que detestava. A vida realmente dava voltas, muitas vezes voltas inesperadas e por caminhos inimagináveis.

Antes de decidir seguir para o tal apartamento com o advogado, ligou para sua mãe para perguntar da tal Isabelle. Ela tinha uma lembrança vaga da meia irmã de uma tia avô que tinha um nome parecido e não foi com a família para o Brasil quando fugiram do nazismo que dominava a Europa. Diziam que era uma artista. Ninguém nunca mais soube dela e não havia mais ninguém vivo na família que soubesse da história.

– Há uma peculiaridade quanto a esse apartamento que deixei de mencionar, Mademoiselle Laura. O imóvel está fechado desde junho de 1940, quando sua parenta deixou Paris pouco antes das tropas nazistas invadirem a cidade. O imóvel está exatamente como ela o deixou há mais de setenta anos, intocado. – Disse o advogado novamente com aquele tom de nenhuma surpresa que começava a irritar Laura.

– Mas como isso é possível? – Perguntou Laura espantada.

– Os impostos e contas nunca deixaram de ser pagos, porque seria de outra forma?! – Respondeu o advogado surpreso com a pergunta.

O apartamento ficava em Pigalle, num grande e antigo bloco de apartamentos perto da bela igreja de Trinité, não muito longe do que outrora fora o distrito das casas de show e centro da boemia francesa desde o século XIX.

Subiram ao quarto andar do prédio. Diante de uma pesada porta de madeira com um “4A” de latão polido incrustado a secretária entregou para o advogado dois envelopes que tirou da valise que levava. De um deles o homem retirou uma pesada chave de bronze.

– Aqui está a chave que abre o apartamento, Mademoiselle, e a carta lacrada de sua parenta. Segundo as instruções do testamento, a senhorita deve entrar para conhecer o local e ler a carta, enquanto aguardamos aqui. Quando sair deverá declarar se aceita os termos do testamento ou não. – Disse o advogado lhe entregando a chave e o envelope pardo.

Laura destrancou e empurrou a pesada porta, imediatamente suas narinas foram tomadas pelo cheiro inconfundível de poeira antiga. O lugar devia ser bem ventilado senão sentiria cheiros piores, pensou. A porta dava para uma ampla sala de estar com janelões, cortinas de brocado e pesados móveis de madeira escura. Sobre a grande mesa coberta por um tapete amarelo e cristaleiras, uma miríade de objetos de decoração em porcelana. Havia quadros nas paredes e encostados nos móveis e paredes, pilhas de jornais, revistas e livros. Um grande candelabro de bronze com lâmpadas de filamento pendia do teto. Testou o interruptor e incrivelmente as lâmpadas acenderam enchendo o lugar com uma luz mortiça e amarelada, como do pôr-do-sol.

Mal entrou no cômodo frio, sentiu a porta sendo fechada às suas costas pelo advogado. Com a carta na mão Laura estava mais curiosa em ver o que havia nos outros cômodos que as palavras que o papel continha. Entrou por um corredor a direita e abriu a primeira porta com que se deparou, um banheiro com banheira, algumas roupas dependuradas. A porta seguinte dava para uma pequena cozinha onde a mesa posta para o café da manhã há tanto tempo acumulava uma grossa camada de poeira. No final do corredor havia um pequeno hall onde um avestruz empalhado a observava com expressão curiosa com seus olhos de vidro, sobre ele um robe de seda vermelha atirado lá com displicência. Abriu a porta a esquerda e encontrou um quarto de vestir com uma profusão de roupas de época em grandes guarda-roupas com as portas escancaradas. A porta da direita dava acesso ao quarto do apartamento de paredes recobertas de papel de parede florido, um enorme janelão com cortinas outrora douradas, uma grande cama desarrumada, num canto uma pesada penteadeira de madeira em estilo rococó coberta de cosméticos, revistas e escovas de cabelo. Uma lareira de mármore lindamente esculpida e sobre ela um enorme quadro retratando uma mulher linda reclinada num sofá com um deslumbrante vestido rosa, sem dúvida Isabelle com vinte e poucos anos. Grandes espelhos de cristal. Sobre um móvel uma vitrola e muitos discos.

Laura estava fascinada. Parecia ter voltado ao passado e imaginava que se abrisse a janela veria velhos calhambeques passando pelas ruas. Riu. Nunca imaginaria que algo assim pudesse acontecer, nem mesmo em seus devaneios mais inspirados Como aquele lugar era diferente do seu pequeno apartamento moderninho e funcional, com decoração minimalista, que agora parecia tão sem personalidade e alma como aquele lugar fascinante.

Com cuidado abriu o envelope para ler a carta deixada pela sua parenta desconhecida. Apenas uma folha de papel, uma carta curta escrita com letra bonita e floreada.

“Minha querida Laura,

Infelizmente, não foi possível que nos conhecêssemos enquanto ainda estava viva devido a circunstâncias além do meu controle.

Deixei com o advogado um gravador onde lhe explico o que precisa fazer nesse apartamento, exatamente hoje. Mas será preciso que você passe essa noite sozinha aqui, acompanhada apenas pela minha voz.

Se aceitar me ajudar tudo o que tive será seu e também conhecerá minha triste história, basta sair e dizer ao advogado que passará a noite aqui. Se não aceitar, basta sair sem dizer nada e seguir seu caminho como se nunca tivesse tomado conhecimento de minha existência. A escolha é sua, minha querida. Sinceramente, espero que esteja disposta a ajudar essa sua parenta desconhecida, esquecida.

Carinhosamente,

Isabelle Jodit Margeau”

Assim que terminou de ler, Laura teve certeza de que aquela era a coisa mais estranha que já lhe acontecera em toda sua vida. Sem dúvida aquela sua parenta era louca, não havia outra explicação. De qualquer forma iria ficar. Nunca fora supersticiosa ou acreditara em fantasmas, e sua magra conta bancária e grandes sonhos ainda por realizar soaram mais alto.

No hall do apartamento o advogado e sua secretária aguardavam impassíveis, juntamente com um homem baixinho e magro que tinha nas mãos cadeiras de desdobrar. Assim que ela disse que passaria a noite no apartamento, o advogado lhe entregou um gravador digital, a secretária lhe passou uma sacola de supermercado com algumas garrafas de água, refrigerantes, sanduíches e uma lanterna. Então disse que aquele homem era secretário do seu escritório e que ficaria no hall para confirmar que ela sairia mesmo somente ao amanhecer, cumprindo assim a condição imposta no testamento.

Laura trancou a porta do apartamento, colocou as sacolas sobre a única poltrona livre e apertou o botão de play do gravador. Uma música antiga e agradável tomou conta do ambiente, que pareceu brilhar por ressoar depois de tanto tempo um som que já lhe foi tão natural. Então Laura ouviu pela primeira vez a voz melodiosa de sua desconhecida e excêntrica parenta.

“- Bem vinda ao meu saudoso apartamento de Paris, minha querida. Você não pode imaginar como fui feliz nesse lugar, que tive de abandonar às pressas para fugir da sanha dos porcos nazistas. Poderia ter ficado, mas não aguentaria ver Paris dominada por aqueles bárbaros. Depois da guerra nunca mais quis voltar porque a Paris que encontraria não era a mesma que deixei, então preferi minhas memórias. Primeiro quero lhe apresentar esse lugar que em breve será todo seu, lhe contar algumas histórias, revelar alguns pequenos segredos. Ainda temos algum tempo antes que você me ajude com o que tanto necessito.”

Por algumas horas Laura se deliciou com as histórias da mulher enquanto explorava o velho apartamento. Soube de seus amores e desilusões, sonhos e conquistas. Ela tinha sido uma dançarina de sucesso na capital francesa, amiga de muitos artistas famosos, aproveitou o máximo que pode dos melhores anos de sua vida e daquela cidade mágica. Tão diferente de sua própria vida que se limitava a trabalhar demais ganhando aquém do que merecia, meia dúzia de amigos desinteressantes, três aulas semanais de Jiu-Jítsu e horas intermináveis na Internet.

Era próximo da meia-noite quando a voz de Isabelle mudou de tom, ficando mais grave e soturna. Nesse momento Laura estava sentada na beira da cama desfeita.

“- Minha querida, procure não se assustar com o que agora lhe mostrarei, você está perfeitamente segura. Ao meu sinal volte seu olhar lentamente em direção ao espelho junto da lareira.” – Então ela começou a recitar palavras estranhas que para Laura soou como latim e alguns minutos depois ordenou que voltasse seu olhar.

Laura obedeceu e voltou lentamente os olhos em direção ao espelho acreditando que se tratava apenas de algum jogo de imagens que houvesse no quarto e a mulher se aproveitava para fazer algum suspense antes de lhe mostrar.

Quando seus olhos alcançaram o velho espelho de cristal e viu a figura pálida da mulher do quadro sobre a lareira, com o mesmo vestido, encarando-a com os olhos vazios, um medo frio como água gelada preencheu seus sentidos como nunca antes em toda sua vida. Imediatamente começou a tremer e sua boca ficou seca. Somente não desmaiou porque a aparição no espelho lhe sorriu vaga e melancolicamente.

“- Sim, minha querida, sou eu mesma, ou melhor, meu espírito que está confinado nesse mundo. Por isso preciso de sua ajuda, para poder ir para onde quer que os espíritos vão. Já faz um ano que estou vagando por esse apartamento e preciso de sua ajuda, terrivelmente” – disse a voz de Isabelle no gravador – “Não apenas eu, mas todos nós”.

Então várias outras aparições começaram a se juntar a ela no espelho, muitos ela reconheceu dos quadros e fotos que havia pela casa.

“- Éramos jovens e audaciosos. Acreditávamos que poderíamos fazer o impossível. Queríamos mais do que a monótona realidade tinha a nos oferecer. Então nos voltamos para o oculto. Tornamos-nos exploradores do sobrenatural. Apesar de nossa dedicação, por mais tempo que gostaríamos conseguimos apenas alguns poucos resultados duvidosos de comunicação com espíritos” – Narrou Isabelle em tom triste – “Há uma caixa de madeira embaixo de alguns livros sob a penteadeira, minha querida, pegue o álbum de fotografias que está lá dentro, há algo importante que preciso lhe mostrar”.

No álbum havia fotos das sessões de ocultismo de Isabelle com seus amigos, naquele mesmo apartamento. As últimas fotos foram as que mais chamaram a atenção de Laura devido a presença de um estranho, um homem alto e magro, de cabelos claros em desalinho, olhar frio e expressão dura.

“- Não me lembro quando ou como Dimitri se juntou ao nosso grupo, um russo que fugia da perseguição comunista às práticas ocultistas. Ele era um tanto estranho, calado, mas conhecia muito do oculto. Rapidamente passou de membro a líder do nosso grupo. Com ele conseguimos coisas espantosas, algumas que nem imaginávamos serem possíveis. Ele foi nossa perdição.” – Lamentou a voz gravada de Isabelle.

No espelho as aparições continuavam a encarar Laura. Não eram exatamente como reflexos de pessoas vivas, mas imagens esmaecidas e algo indistintas, não se mexiam ou mudavam de expressão, parecendo mais estarem em um estado constante de câmera lenta. Realmente aquelas aparições eram tanto difíceis de entender como de descrever.

“- Tudo aconteceu numa noite de outono há exatamente setenta e cinco anos, minha querida. Era para ser uma sessão de comunicação com os espíritos como outras tantas que havíamos feito. Simplesmente não tínhamos como saber que naquela noite estaríamos nos condenando a vagar por esse apartamento após nossa morte.” – Disse Isabelle, sua voz triste na gravação ecoando por aquele local empoeirado que guardava tanto lembranças alegres como uma tragédia inimaginável para aquelas pessoas. Então ela contou o que aconteceu naquela noite fatídica, como o misterioso Dimitri os fez participar de um ritual obscuro que na verdade lhe daria longevidade enquanto seus espíritos ficariam aprisionados no limbo espiritual que permeia o mundo dos vivos.

“- O que preciso que faça, minha querida, é realizar o ritual que libertará nossas almas. Mas não se preocupe, é um procedimento absolutamente seguro. Em nenhum momento você está sob nenhum risco. Bastará seguir minhas instruções e em pouco tempo você terá tudo o que foi meu, enquanto minha alma e as dos queridos amigos estarão livres para prosseguir para onde quer que almas como as nossas vão quando desencarnam.” – Disse a voz da parenta de Laura em um tom suplicante.

Enquanto arrumava a grande mesa da sala de estar seguindo as instruções de Isabelle, Laura pensava em como tudo aquilo parecia loucura. Nem ao menos conseguiu entender porque não saia dali e deixava para trás toda aquela sandice. No fundo sabia que algo mais forte a fazia acreditar em tudo aquilo, mesmo que em nível subconsciente. Estranhamente não sentia medo, mas vontade de ajudar aquela mulher e seus amigos.

O mais difícil foi posicionar os espelhos em torno da mesa. Temeu que o barulho atraísse a atenção dos homens que aguardavam no hall, mas deviam estar cochilando porque pareceram não tomar conhecimento.

Quando finalmente terminou não pode deixar de se assustar quando viu nos espelhos as aparições. Homens e mulheres jovens de feições tristes e olhares distantes, vestidos com roupas de época, obrigados a confiarem seus destinos a uma estranha que não tinha familiaridade alguma com assuntos envolvendo os mitos e rituais do oculto.

“- Agora faça exatamente como lhe direi e em breve tudo estará terminado e você não nos terá mais assombrando esse lugar. Não se esqueça de que o que testemunhará será tão somente uma lembrança do passado distante, um momento no tempo que ficou congelado por um ritual proibido. Não perca a concentração e, principalmente, o sangue frio, minha querida” – Disse Isabelle em tom carinhoso, mas ao mesmo tempo grave.

Laura abriu o velho livro que encontrou guardado num compartimento secreto no quarto indicado por Isabelle. Era um livro muito antigo, manuscrito em latim, com ilustrações um tanto perturbadoras onde seres humanos, inteiros ou em pedaços, demônios e animais estranhos se dedicavam a atos inarráveis.

“- Tum denique interficiere, cum iam nemo tam inprobus, tam perditus, tam tui similis inveniri poterit, qui id non iure factum esse fateatur …” – Começou a recitar Laura se esforçando para repetir exatamente o que ouvia na gravação de Isabelle. Imediatamente o ambiente começou a ficar como que esfumaçado e então aconteceu algo que parecia saídos de um filme. Diante de seus olhos o tempo começou a voltar, permitindo que testemunhasse sua chegada ao apartamento, uma longa sequência de nasceres e pores do sol com o lugar vazio, a fuga de Isabelle, suas festas, encontros e reuniões mediúnicas. Então se viu como espectadora do fatídico ritual que selou os destinos daquelas pobres almas.

Lá estava Dimitri com o olhar arredio e voz baixa destoando do grupo alegre e cheio de vida. Ao seu comando começaram o ritual sob a luz mortiça das lâmpadas, entoando estranhos encantamentos antigos e proibidos. A voz de Dimitri foi aos poucos ganhando profundidade e ficando mais alta. Então ele entregou punhal de aspecto ancestral para o rapaz à sua esquerda, que cortou a palma da mão esquerda e a pressionou sobre um a folha de pergaminho coberta de escritos e símbolos estranhos no centro da mesa. O mesmo se repetiu por outras onze vezes ao longo da mesa. Quando o punhal foi entregue de volta para Dimitri, ele fez um longo corte na própria mão esquerda, se levantou, e sem deixar de entoar as estranhas palavras com ela desenhou um estranho símbolo sobre o pergaminho ensanguentado.

Então algo inesperado aconteceu. Dimitri ergueu os olhos diretamente para Laura.

– “O que você faz aqui, cadela de outro tempo?!” – Vociferou o homem.

Laura não sabia o que fazer ou dizer. A voz de Isabela a havia abandonado e de alguma forma sabia aquilo não era para estar acontecendo.

– “Se enquanto vivos não puderam desfazer o que fiz essa noite, não será enviando dos anos por vir uma mortal ignorante que poderão fugir de seu destino maldito!” – Gritou Dimitri enfurecido, deixando todos ao seu redor apavorados.

Laura observava a tudo atordoada quando a aparição de Dimitri ficou diferente, mais real, e o homem saltou com destreza sobre a mesa e investiu contra ela, jogando-a sobre um sofá, o punhal ameaçadoramente próximo de sua garganta. Após a surpresa inicial, a garota se vez valer da faixa preta de Jiu-Jítsu e facilmente arremessou o enlouquecido Dimitri contra a maciça cristaleira, fazendo-o gemer de dor. Mas o golpe não foi suficiente e ele investiu novamente com o punhal em riste. O homem era forte e violento, mas lutava com um bêbado, sem técnica alguma. Um segundo golpe aplicado com destreza o fez girar no ar antes de desabar no chão com um estrondo. Laura soube que algo ainda mais improvável estava acontecendo quando uma poça de sangue começou a surgir sob seu corpo.

O mesmo redemoinho que levou Laura ao passado a trouxe de volta ao presente numa velocidade aterradora. Novamente estava sozinha na sala, nos espelhos os espectros começaram a desaparecer com sorrisos de agradecimento nos lábios. Acenou nervosamente antes de se abaixar e virar o corpo, era Dimitri vestido com um terno moderno, jovem como nas fotos, o punhal cravado no peito, o rosto congelado numa expressão de ódio. Então diante dos seus olhos o corpo começou a se desfazer como se fosse de areia e em segundos desapareceu sem deixar vestígios.  Laura não conteve um grito de pavor.

– “Não era para ter sido dessa forma, mas foi melhor assim. Você não apenas salvou a todos nós como livrou o mundo desse demônio. Sinto muito por isso ter acontecido.” – Disse a aparição de Isabelle sem mover os lábios – “Juro de todo coração que não imaginava que o maldito viria para tentar nos impedir. Estou tão orgulhosa de você e ao mesmo tempo triste por não tê-la conhecido melhor. Você tem mais dentro de você do que pode imaginar. Obrigada e adeus minha querida.” – Disse enquanto também desaparecia como fumaça que espalhada pelo vento.

Laura estava petrificada. Sabia que era inútil tentar entender o que havia acabado de acontecer. Batidas fortes na porta fizeram seu sangue gelar e o coração bater ainda mais rápido.

“Mademoiselle, são seis da manhã, e uma vez que cumpriu o que previa o testamento pode sair quando desejar, a aguardarei para acompanhá-la ao escritório” – Ouviu dizer o secretário do escritório de advocacia que havia ficado no hall do prédio.

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21 comentários em “A Herança (Charles Dias)

  1. Carlos Relva
    15 de janeiro de 2014

    Gostei do conto. Muito bem escrito. A história também é curiosa e misteriosa, fazendo-me ler com interesse. Só não entendi como os fantasmas conseguiram preparar a papelada da herança se, além de etéreos, estavam confinados no apartamento. A ideia do russo atacar a personagem principal foi divertida, apesar de que estava certo que alguns percalços atrapalhariam o ritual. Um grande abraço e boa sorte!

  2. Paula Melo
    14 de janeiro de 2014

    Gostei do conto, mas confesso que fiquei um pouco decepcionada com o final corrido.
    O Autor(a) tem uma ideia maravilhosa em mãos,só basta desenvolver um pouco mais.

    Boa Sorte!

  3. Weslley Reis
    14 de janeiro de 2014

    O texto estrava transcorrendo maravilhosamente bem. O problema foi o clímax. Pra mim a cena de ação ficou muito atabalhoada e o final repentino que fez um grande conto deixar de alçar voos maiores

  4. Caio
    12 de janeiro de 2014

    Olá. A construção pacata do texto é meio que o único problema, mas é um grande, eu acho. Se for ver, é uma história que, apesar da narração charmosa e boa de ler, tá um pouco em fase de rascunho. O enredo, eu digo. Os furos sendo corrigidos em cima da hora – quando fala do jiu-jitsu soou muito evidente que era pra poder usar em breve -, a falta de profundidade nas pessoas – todo mundo é exatamente o que aparenta ser; eu fiquei esperando a vó se revelar uma manipuladora e amaldiçoar a protagonista de algum jeito, mas não, era só uma velhinha boa mesmo… – e o desenvolvimento sem complicações – quer dizer, o único conflito aparece de repente e é resolvido na mesma hora, no caso o vilão – tornou o geral do conto fraco, mesmo com os positivos que tem. Minha impressão foi essa, as ideias foram sendo jogadas e improvisadas sem grande pensamento ou planejamento. Acho que se você se concentrar na próxima obra em construir a totalidade do enredo antes, ou depois de terminado e resolvido que enredo vai contar voltar, revisar e reescrever pra que o final exista desdo o começo, vai sair um grande conto. Espero que ajude, abraços

  5. Raione
    11 de janeiro de 2014

    História bem escrita e bem contada, leitura agradável. Um dos pontos fortes é a ambientação. Também penso que o conto ganharia com um maior desenvolvimento, que a parte dos golpes de luta é meio ridícula, que o final é muito feliz e apressado, que a escolha pela Laura é um tanto injustificada. Acho que o gravador deveria ser abandonado logo quando as assombrações se tornam visíveis, porque assim como está parece um pouco esquisito, os fantasmas como ilustrações do que é dito. Catando piolho: “Roupas de época” é um termo que eu não usaria, não por estar incorreto ou algo assim, mas por ser uma fórmula genérica, melhor “roupas dos anos X” ou descrever as roupas, se for relevante em algum aspecto.

  6. Pedro Luna Coelho Façanha
    11 de janeiro de 2014

    Gostei dos personagens. Quanto ao texto, começou bem, mas depois se tornou um pouco cansativo para mim. Se for reescrever, talvez seja legal dosar o texto para que nunca deixe a peteca cair. No entanto, foi sim um bom trabalho.

  7. Leandro B.
    11 de janeiro de 2014

    Gostei. Acho que esse texto também tem um charme infanto-juvenil.

    A leitura fluiu muito bem. A questão da herança e de passar a noite numa casa mal assombrada me pareceu mais uma homenagem do que um clichê. Além disso, não esperava que o final se encaminhasse para a volta no tempo (achei que a vovó tentaria tomar o corpo de Laura). Claro que se pode questionar porque um feiticeiro poderoso tentaria lutar no corpo a corpo com uma faca, não tendo técnica nenhuma para isso, mas a coisa funciona, novamente, dentro de uma perspectiva infanto-juvenil.

    O clímax, contudo, ficou corrido, como mencionaram alguns colegas.

    Percebi pouquíssimos erros de revisão. Nada que tenha me atrapalhado na leitura.

    Bom conto. Parabéns.

  8. Cácia Leal
    7 de janeiro de 2014

    Gostei muito do conto. Muito bem escrito e ambientalizado. Parabéns ao autor! Encontrei apenas um pequeno erro de digitação, caso você queira arruma. Veja o trecho : “O homem era forte e violento, mas lutava com um bêbado, sem técnica alguma.” Acredito que você queria dizer “como um bêbado”.

  9. Gustavo Araujo
    3 de janeiro de 2014

    Este conto tem o melhor início dentre todos os do desafio. Minha opinião, claro. A ambientação está muito boa, assim como a construção dos personagens. Tudo soa crível, sombrio e misterioso. Sim, há clichês, mas o gênero “fantasma” é um clichê em si próprio, não é verdade? Bem, até o trecho em que Laura se depara com o espírito de Isabelle no espelho eu li num fôlego só – no fundo minha mente já querendo eleger esta história como uma das melhores deste mês. Quando a velha senhora revelou o motivo da presença de Laura no apê, eu fiquei um pouco decepcionado, afinal, não esperava que tudo aquilo se devesse a um problema com rituais ocultos. Mas, vá lá… O conto estava bom demais e não seria isso a impedir a valoração positiva da trama. No momento em que Dimitri reconhece a presença de Laura, vinda do futuro, eu pensei “opa! ficou bom de novo!” Só que… não. O conflito ter se resolvido à base de golpes de jiu-jitsu foi ultra-broxante (seria como “Inception” tendo sua trama solucionada com uma história de luta-livre pastelão). Putz, fiquei realmente decepcionado com isso. E o finalzinho, em que todos vivem (e morrem) felizes para sempre, também foi água com açúcar demais. Em suma, na média o conto é bom, só que com o devido desenvolvimento, principalmente com um final bem diferente deste, pode ficar excepcional. Sugiro ao autor que pense nisso. Esta é uma trama na qual realmente vale a pena trabalhar e, quem sabe, inscrever em um concurso desses que dão prêmios em dinheiro 🙂
    Boa sorte!

  10. Ana Google
    3 de janeiro de 2014

    Hmmm, o texto é bom, mas o final ficou extremamente corrido! Isso de certa forma me decepcionou, pois perdeu o ritmo ao final do conto.

    De qualquer forma, parabéns pelo texto!

    Observações: “sobre um a folha de pergaminho” – correto: “sobre uma folha de pergaminho”. Outro ponto: sei que é triste, mas trema não existe mais, ok?

    Abraço!

  11. Tom Lima
    31 de dezembro de 2013

    Vou ser chato. Ela parece ser faixa preta em Judo, lançando Dimitri pra lá e pra cá. Ela, como faixa preta em Jiu Jitsu, teria atacado o braço com o punhal, tentando deslocar alguma articulação.

    Mas isso não diminui o conto.

    Parabéns!

  12. Ricardo Gnecco Falco
    31 de dezembro de 2013

    Herança de família, Nazismo, ocultismo, viagem no tempo, Gunther dando parabéns ao autor… Um “samba do crioulo doido” que, de alguma forma bizarra, acaba fazendo algum sentido.
    Bom desenvolvimento. Gostei.
    “Um bom texto. Parabéns.”
    . 😀 .

  13. Bia Machado
    30 de dezembro de 2013

    Gostei do conto, mas achei algumas passagens muito corridas, principalmente a parte final. O final também me incomodou um pouco, mas isso é coisa minha, achei que ficou algo fraco, destoante com grande parte da narrativa. Gostei das personagens e da forma como foi feita a ambientação. Parabéns.

  14. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    30 de dezembro de 2013

    Conto bem executado com primorosa ambientação e cuidadosa caracterização das personagens. Algumas ideias caíram no lugar comum, mas não se perderam totalmente. Também fiquei curiosa quanto ao real parentesco entre as duas mulheres. A luta com fantasmas foi um tanto forçada, mas se Laura estivesse morta também (estava?) poderia ser mais coerente. Boa sorte!

  15. Thata Pereira
    30 de dezembro de 2013

    ** SPOILER **

    Adorei. Estava esperando que fosse revelado qual o parentesco de Laura e Isabelle. Comecei a imaginar algo como “parentes em uma outra vida”, já que Laura não sabida da existência da mulher. Ela é corajosa. No lugar dela eu sairia correndo, gritando, sem pensar suas vezes.

    Como já disseram o final ficou corrido. Vou confessar que gosto das coisas bem mastigadas, eu sou uma lenta. rs’ Laura morreu? Do jeito que está, entendi que ela morreu. E curti, muito! Coitada! Espero ser a próxima parente de outra vida a receber essa herança (sem os fantasmas…) rs’.

    Boa sorte!!

  16. Inês Montenegro
    29 de dezembro de 2013

    Imaginei que o fantasma da velha senhora apareceria, mas não os moldes em que o faria. Gostei do conto: da ambientação, da construção das personagens, da narrativa, e do próprio enredo. Julgo apenas que o fim correu demasiado rápido, ficando a ganhar com um maior desenvolvimento.

  17. Jefferson Lemos
    29 de dezembro de 2013

    Gostei do conto, achei bem escrito. Mas fiquei meio sei lá com o final, e no decorrer do conto, as coisas aconteceram muito rápido. Concordo que o conto tem capacidade para algo muito maior.
    Parabéns e boa sorte!

  18. Ryan Mso
    28 de dezembro de 2013

    Faço das palavras do Marcellus as minhas. Gostei do conto, bem escrito e com certeza fluido, li “sem pausa”, porém, senti que a história pede um “limite” maior. Assim sendo, parabenizo ao autor.

  19. Pedro Viana
    28 de dezembro de 2013

    Estiloso, assim eu defino esse conto. O que gostei: ambientação, personagens bem construídos, detalhes cuidadosos e uma trama que, a princípio, parece promissora. O que não gostei: clichês (passar a noite na mansão mal assombrada, ver o vilão virar pó, você é a escolhida e a única que nos pode salvar e alguns outros), clímax rápido demais para valer a pena e um final “e viveu feliz para sempre”. Como nota-se, o conto me dividiu em prós e contras, mas mesmo assim merece parabéns!

  20. Gunther Schmidt de Miranda
    28 de dezembro de 2013

    Um bom texto. Parabéns.

  21. Marcellus
    28 de dezembro de 2013

    É um conto bem escrito, fluido, mas com uma história que parece ser muito maior que o limite imposto pelo desafio. Boa sorte ao autor!

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Publicado às 28 de dezembro de 2013 por em Fantasmas e marcado .