EntreContos

Detox Literário.

Inocência (Rodrigo Ferreira Silva)

O garoto, sentindo-se solitário e triste, caminhou sorrateiramente pelo corredor, subiu as escadas e abriu a porta que dava para um quarto amplo, e começou a desligar e ligar a luz no interruptor. As luzes oscilavam, enquanto a criança ria com uma alegria que condizia com sua idade, quando de repente não acendeu novamente. Em seu rosto, surgiu uma expressão de frustração igual quando um brinquedo se desmonta. Aquela casa parecia estar abandonada há muito tempo, porém, apesar de seus móveis antigos, ela ainda mantinha um brilho novo e limpo. Ocasionalmente, alguns murmúrios eram ouvidos ao longo do corredor com papel de parede vintage e carpete de madeira, e, por incrível que pareça, aqueles sons não deixavam o garoto assustado, na verdade, tinha um efeito contrario, o fazia sentir-se menos solitário. Algumas vezes, enquanto perambulava pela casa, a criança se assustava quando uma porta batia sozinha, ou uma luz acendia-se sem que fosse ela quem tivesse apertado o interruptor. De qualquer modo, ele sabia que logo seus pais o buscariam e o levariam para casa, e então ele poderia contar para seus irmãos e amigos sobre aquele lugar assustador no qual ficou durante o dia inteiro. Quando se é criança, a inocência serve como uma espécie de escudo contra certas coisas do mundo, que se perde ao aproximar-se da idade adulta; não existe o medo em alguns casos, e sim a curiosidade, a vontade de descobrir algo novo. Para o garoto, aquele dia estava sendo muito divertido, e o sol já podia ser visto se pondo através do grande vitral na sala de estar, a noite se aproximava.

Visitando todos os cômodos da casa, que eram muitos, ele não se cansava. Apenas continuava correndo de um lado para outro, esperando encontrar algo interessante atrás da próxima porta. A maioria dos quartos, banheiros, salas e cozinhas estavam realmente abandonados, mas tinha um quarto em especifico que murmúrios mais fortes e claros podiam ser ouvidos. A criança, ao se aproximar da porta desse cômodo, começou a andar na ponta dos pés, acreditando haver pessoas conversando ali dentro. Tocando a maçaneta, e empurrando levemente a porta que rangia, ficou desapontado. Não havia nada, e os murmúrios foram cessando devagar. O garoto sentia-se como se estivesse sendo observado, e pela primeira vez, durante aquele longo dia, sentiu medo e tristeza, sem entender o motivo. Conforme andava no quarto, a voz foi diminuindo, e então o silencio caiu sobre o local; apenas o barulho do vento chacoalhando os galhos das arvores do amplo quintal eram ouvidas. A luz da lua estava cheia e pálida, e enquanto o garoto observava-a do vidro da janela quadrada, atrás dele, a porta se abriu, batendo contra a parede branca. Enquanto virava-se em direção a entrada, o reflexo no grande espelho da parede prendeu seu olhar; ao lado da cama, uma menina de uns doze anos e longos cabelos pretos, o observava com curiosidade. O garoto por sua vez não sentiu medo, mas sim um conforto, como se aquela presença fizesse desaparecer o sentimento de solidão que a grande casa lhe causava.
-Filha, o jantar está pronto! – uma mulher parou no umbral da porta e ficou observando a garota que estava imóvel, olhando para o espelho, como se estivesse hipnotizada. – O que você esta olhando?
Levantando delicadamente o braço magro, ela apontou o indicador para o objeto que refletia seu quarto e, com dificuldade articulou a seguinte frase:
-Mamãe… Quem é ele? – Seus olhos não se moviam ou piscavam.
A mulher sentiu angustia e medo, pois, não havia ninguém ali.

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26 comentários em “Inocência (Rodrigo Ferreira Silva)

  1. Frank
    15 de janeiro de 2014

    Bem escrito. Mas não me cativou. Boa sorte.

  2. Paula Melo
    14 de janeiro de 2014

    Gostei da ideia central do conto,mas não consegui sentir a trama do conto ( questão de gosto,ok?)
    Apesar do conto ser pequeno achei ele um pouco cansativo,poderia ter muito mais mistérios e desenvolvimento.

    Boa Sorte!

  3. Pedro Luna Coelho Façanha
    12 de janeiro de 2014

    Muito curto. Cadê a história? Não gostei. :/

  4. Leandro B.
    12 de janeiro de 2014

    Então… É bem escrito, com descrições cuidadosas que ajudam a entrar no mundo proposto… o problema é que o texto se direciona para a ‘surpresa’ do final, é todo construído para o impacto, só que esse impacto não acontece. O leitor já entende o que está se passando logo no começo.

    Atualmente todos esperam por uma reviravolta desse tipo, graças a filmes como “o sexto sentido” e “os outros”. Como, então, surpreender o leitor? Não sei! Deixo esse pepino para o autor.

    De todo modo, bem escrito. Parabéns.

  5. Raione
    11 de janeiro de 2014

    Realmente, impossível não lembrar do filme Os outros, impossível não pensar que é o enredo do filme em uma versão de miniaturista. A gente suspeita logo do menino por ele estar sozinho numa casa tão arruinada. A reflexão que começa com “Quando se é criança”, ainda que condizente com o título, me pareceu mal colocada, uma tentativa pouco eficiente de mascarar a situação, de torná-la mais natural. Concordo que o conto poderia estar mais desenvolvido.

  6. bellatrizfernandes
    8 de janeiro de 2014

    Foi um bom texto, no geral, mas, apesar do seu tamanho diminuto, os parágrafos estavam grandes e cansativos.
    O final foi um pouco batido e a utilização da criança como narrador já foi bem explorada – talvez, fora do desafio onde os olhos já estão cansados, tivesse feito mais sucesso.
    Parabéns pelo conto e boa sorte na votação!

  7. Weslley Reis
    8 de janeiro de 2014

    Ao meu ver, o texto não foi lapidado. Tem uma boa escrita, uma proposta batida, mas que poderia ter ido além se bem tratado.

  8. Cácia Leal
    7 de janeiro de 2014

    Gostei bastante. O modo como você começou, eu até suspeitei que o garoto fosse o fantasma, mas a maneira como foi mostrado isso foi interessante. Acho que o conto mereceria uma continuação, um pouco mais do que houve, talvez. Mas parabéns!

  9. Gustavo Araujo
    4 de janeiro de 2014

    Minha sugestão é: tenha coragem de ir além. O texto está bem escrito e a ideia, apesar de batida, pode render frutos se desenvolvida com vontade. Do jeito que está, o conto reflete apenas um momento, oferecendo ao leitor nada mais do que a confirmação de algo de que já se desconfia nas primeiras linhas.

  10. Ana Google
    4 de janeiro de 2014

    O conto é lindo e a saca é perfeita. Porém, ficou parecendo algo como um esboço. Esse texto poderia, definitivamente, ser melhor trabalhado. Tenho certeza que o autor tem potencial pra isso!

    Parabéns e boa sorte!

    • Ana Google
      4 de janeiro de 2014

      saca = sacada

  11. Tom Lima
    31 de dezembro de 2013

    Concordo com todas as palavras da Bia.

    Vale a pena ser mais trabalhado.

  12. Ricardo Gnecco Falco
    31 de dezembro de 2013

    O autor deu o seu recado, mesmo que “invisível”… 😉
    Boa sorte!

  13. Bia Machado
    30 de dezembro de 2013

    Gostei, me lembrou muito “Os Outros”, mas diferente da primeira vez que assisti a esse filme, no caso do texto as pistas já me fizeram constatar quem era o fantasma. Nada contra contos curtos, mas acho que este poderia ser mais longo, ter mais detalhes, ser mais lírico, mostrar ainda mais a peculiaridade infantil, fazendo com que a gente se apegasse mais ao personagem central… Espero que você se anime para trabalhar nessas questões, seria uma boa! 😉

  14. Inês Montenegro
    29 de dezembro de 2013

    A forma narrativa pareceu o estilo utilizado em contos para crianças – não necessariamente infantilizados, o que é uma distinção importante. Os parágrafos grandes não incomodaram, devido à pequenez do conto no seu todo, mas atenção a isso, que provavelmente tornar-se-à problemático em textos maiores.
    Quanto ao enredo, é uma ideia que eu sempre gosto de ver trabalhada, contudo, o twist é perceptível logo pelo leitor, o que retira o embate do final.

  15. Pedro Viana
    28 de dezembro de 2013

    Uma ideia promissora que poderia ter sido melhor aproveitada. Assumo que sou conto-racista e não dou valor a minicontos, mas reconheço que seu conto é bom, mas poderia ter sido melhor se fosse maior. Além disso, achei a linha narrativa um pouco apressada. Sem mais.

  16. Ryan Mso
    28 de dezembro de 2013

    Boa ideia, execução não tão boa… Como frisado por outros colegas, a escrita podia ser mais “espaçada”. De qualquer forma, ainda assim eu gostei do texto, e parabenizo o autor por ele.

  17. Caio
    28 de dezembro de 2013

    Olá. Realmente, respire mais, separe mais não só os parágrafos, mas as frases também. Gostei da ideia e foi bem montada, mas a pouca construção e suspense deixou o conto sem muito impacto. Se desafie a desenvolver mais da próxima vez, esse nasceu de uma ideia simples, mas ainda há jeitos de se construir em volta de uma ideia simples uma obra mais completa. Você podia ir dando dicas de como o menino morreu, por exemplo, enquanto ele explora a casa. Digamos que ele morreu afogado, aí ele sente sempre um cheiro de água de piscina pela casa toda, sente uma dificuldade de respirar às vezes, sabe, coisas assim, não precisa nem ser muito explícito. Só pense maior, eu diria. Espero que ajude, abraços

  18. Edson Marcos
    28 de dezembro de 2013

    A idéia surge, e empolgados, colocamos no papel. Aí alguém lê e nos diz “parece com aquele lá…” Esquenta não: hoje em dia dificilmente você terá uma idéia que não se pareça com algo que já foi feito. Os parágrafos são grandes, mas não me incomodoram, já que a leitura foi rápida. Gostei do conto. Apesar de curto, tem qualidade. Boa sorte!

  19. Marcellus
    27 de dezembro de 2013

    Gostei do conto e partilho da opinião dos colegas: já sabia quem era o fantasma desde o começo do conto. Mas isso não diminuiu o prazer da leitura, porque entendi que a intenção do autor era justamente essa: mostrar o outro lado.

    Precisa de algumas revisões, mas nada muito sério.

    Boa sorte!

  20. Gunther Schmidt de Miranda
    27 de dezembro de 2013

    Boa qualidade, objetivo alcançado apesar de ser um texto curto. Boa sorte.

  21. Assombro
    27 de dezembro de 2013

    Boa tarde! Obrigado a todos pelas criticas construtivas! E realmente, após publicar o conto e ler os comentários, percebi que errei em algumas partes! Em relação a criança estar em uma casa abandonada esperando seus pais virem busca-la, eu quis passar que ela não sabia que estava morta e o tempo não fazia diferença alguma, com isso manteve sua inocência infantil em relação as coisas.

  22. Thata Pereira
    27 de dezembro de 2013

    Tão pequenininho… não me incomodo, mas fiquei com o sentimento de “cabia umas coisas bem bacanas aí!”. Algo, além disso, que pudesse quebrar esse clima de “Os Outros”. Sei que as comparações são chatas, mas é preciso esperar por elas.

    Também descobri logo que o menino era o fantasma. O que me entregou foi o fato de que ele estava em uma casa abandonada e logo os pais iriam buscá-lo. Espera! Os pais sabiam que ele estava sozinho em uma casa abandonada? E deixaram? De qualquer forma, achei bem interessante essa “espera eterna” do pobrezinho.

    Não gosto de parágrafos muito grandes, ainda mais que o conto é curtinho. Dá a impressão de “carregado”.

    Boa Sorte!!

  23. Alan Machado de Almeida
    27 de dezembro de 2013

    O único defeito é que as vezes eu sentia que o texto pedia uma quebra de paragráfo. Tirando isso a história tá bem legal. Ao estilo Os Outros.

  24. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    27 de dezembro de 2013

    Um conto deliciosamente curto e que cumpriu muito bem sua missão. Leitura agradável e ao contrário do Jefferson não me dei conta logo de quem era o fantasma. Boa sorte!

  25. Jefferson Lemos
    27 de dezembro de 2013

    Achei a história muito legal, mas nas primeiras frases eu já sabia que ele era o fantasma. rs
    Um texto pequeno, mas de boa qualidade.
    Parabéns e boa sorte!

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Informação

Publicado às 27 de dezembro de 2013 por em Fantasmas e marcado .