EntreContos

Detox Literário.

Castelo de Areia (Ricardo Falco)

Castelo de areiaDentre todas as coincidências, aquela era a mais comum.

Encontrar Luzia ali, em meio a tantas outras pessoas, não era assim tão inesperado. Era um dia de sol, a praia estava lotada e ela sempre gostara de Sol e de praia. Conhecer o Rio de Janeiro sempre estivera em seus planos e, nesta época do ano, certamente aproveitava as férias para realizar tão antigo desejo.

Mais este desejo.

Reconhecera Luzia em meio às meninas que formavam uma roda na areia. Era a mais branca do grupo; mais até do que a areia. O contraste da pele com as longas e negras mechas de seu cabelo lhe dava um destaque todo especial. Um brilho.

Luzia era especial.

Sentou-se ao lado dela, como se ali fosse o destino de todos os passos que já dera na vida. Permaneceram calados; ambos. O vento movia lentamente as poucas nuvens no azulado céu e acariciava de modo intrínseco os pensamentos perdidos ali.

Lembrou-se da primeira vez que a vira nua. Inquietante miragem em meio ao devaneio etílico. O andar de cima da casa vazio, cada vez mais e mais distante da festa. O batuque eletrônico em sua exata ruptura ao fechar da porta. O verde mar convidativo daquele inesquecível olhar…

A ilha que trazia o horizonte para perto da praia.

Um vendedor de sorvetes tentava atrair a atenção do grupo com seus urros de praxe. Ver Luzia novamente lhe fazia delirar. Sentado ao lado dela, então, difícil acreditar… Queria poder gritar. Congelar aquele instante.

Derreter aquele gelo gigante.

Relembrar os momentos vividos; os incontáveis sorrisos perdidos. Refazer uma trajetória retórica, ensandecida. Retorcer o aço dos traços contidos no peito. Sonhar a respeito. Perder por direito o acesso ao descaso. Reter o fio da navalha que lhe inflamava a alma e ardia. Voltar para casa no rastro da espuma das ondas, tardias. Sua fortaleza…

Castelo de areia.

Ela, sereia, irretocável. Ele, ser ele, irrevogável. Em busca de perguntas, não respostas. Ter nas mangas as cartas dela. Reviver a vívida vida não vivida junto dela. Deter nas mãos os nãos dela. Ser forte o suficiente para ela. Por ela.

Às vezes sentir saudades, outras vontades.

Algumas meninas se levantaram, indo na direção do mar. Entre elas, Luzia. Das poucas que ficaram, apenas duas lhe fitaram. Quem era e o que fazia ali, perguntaram. Não sabiam da história de Luzia; não a viam. Nada havia.

Não sabiam de nada…

* * *

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30 comentários em “Castelo de Areia (Ricardo Falco)

  1. Leandro B.
    15 de janeiro de 2014

    Gostei, gostei.

    Parece que vou me surpreendendo com alguns textos mais poéticos. A sonoridade de algumas frases me encantaram. Gostei em especial dessa:”Reviver a vívida vida não vivida junto dela.”

    Meus sinceros parabéns.

  2. Pedro Luna Coelho Façanha
    14 de janeiro de 2014

    Assim como outros contos aqui, é bonitão, mas como participante do desafio, fica devendo.

  3. Raione
    11 de janeiro de 2014

    Bem bacana. Um tipo de prosa poética, as palavras que parecem associadas antes pela sonoridade, das quais depois se extrai o sentido. Uma praia ensolarada abrigando um fantasma também é algo incomum, positivamente incomum, e que permite ao final nos pegar desprevenidos.

  4. Paula Melo
    8 de janeiro de 2014

    Gostei bastante do conto,escrita simples e poética. Desenvolvida de forma gostosa de se ler.
    Mas confesso que não consegui descobrir quem é o fantasma da história.
    Mesmo assim,Boa sorte!!

  5. Mariana Borges Bizinotto
    2 de janeiro de 2014

    Amei a frase: “como se ali fosse o destino de todos os passos que já dera na vida.”
    Mas não encontrei nada de fantasma no conto e esse era o tema do desafio… 😦

  6. Weslley Reis
    29 de dezembro de 2013

    Nota-se claramente a tentativa poética do conto. A ideia fora bem executada, mas ao meu ver, deixou a desejar no desafio.

    É uma bela leitura, mas que não me agrada.

  7. Ryan Mso
    28 de dezembro de 2013

    O texto é de boa qualidade, mas ao fim eu me perguntei: “Espera, não é um texto de fantasmas? Será que estou lendo outra área do blog?”
    Daí fui ler os comentários e não via alguém comentando até que li o comentário de um cara que dizia o mesmo… Sendo assim, belo texto, mas no lugar errado, me parece…

  8. Pedro Viana
    27 de dezembro de 2013

    Apesar de vastamente conceituada, a narrativa foi arrastada. Na minha opinião, usar um tom poético para descrever pessoas e sentimentos é belo, romântico. Mas usá-lo para girar e girar em torno do mesmo eixo é um pouco exaustivo. Confesso que se esse não fosse um desafio de fantasmas, eu não saberia dizer onde eu os encontraria no conto.

  9. Frank
    25 de dezembro de 2013

    Muito bem escrito e poético numa história simples. Não é meu estilo predileto, mas como dá para ver pelos comentários, agrada a muitos.

  10. Gunther Schmidt de Miranda
    24 de dezembro de 2013

    Após ler uma série de observações sobre os comentários por mim postados neste concurso e suas respectivas respostas (infelizmente) concluí que fui tomado de certa pobreza de espírito. Em certos momentos nem fui técnico, muito menos humilde. Peço perdão a este escritor pelo comentário até maldoso por mim desferido. Sendo assim, apenas me resta ser breve: apenas não encontrei o fantasma e assim, ao meu ver, o texto fugiu do foco deste concurso. Mas seu esforço é louvável e deposito esperança em sua próxima obra.

  11. Ricardo Labuto Gondim
    20 de dezembro de 2013

    Conto clássico. Show de bola.

  12. Jefferson Lemos
    19 de dezembro de 2013

    Um conto simples, poético e muito bonito!
    Não faz muito meu tipo de leitura, porém é inegável que o conto é bem instante de se ler.
    Parabéns e boa sorte!

    • Jefferson Lemos
      29 de dezembro de 2013

      Peço perdão pelo “instante”. Eu tenho comentado pelo meu celular ultimamente, e o swype vive me “trollando”. O certo seria é “gostoso” de se ler.

  13. Caio
    18 de dezembro de 2013

    Olá. Curioso essa separação, quando entra a parte rimada o texto ganha muito. Mas o começo ainda existe, e não tá no mesmo nível, eu achei. Mas também não sei o que daria pra mudar. Não achei tão boa ideia ter rimas só numa parte, me fez pensar se não aconteceu uma rima ‘sem querer’ e você gostou e resolveu que iria investir nisso, mas só dali pra frente. Particularmente prefiro consistência ou que houvesse uma separação/motivação clara no próprio texto pra parar com a prosa normal e entrar a poética.

    Mas foi uma abordagem legal ao tema. Espero que ajude, abraços

  14. Marcelo Porto
    16 de dezembro de 2013

    Uma excelente leitura. Um momento de leveza no meio de tantas histórias de terror e medo.

    Me surpreendi relendo o texto, não para critica-lo e sim para saboreá-lo.

    Simples e direto. Afinal, quem é o fantasma Luzia ou o narrador?

    Parabéns!

  15. Pétrya Bischoff
    16 de dezembro de 2013

    Uma prosa deliciosa, onde as palavras embalam-se junto ao ar e ao mar, nos cabelos de Luzia. Senti uma melodia doce de piano. Tempo certo, talvez uma saudade. Penso, porém, que não seja tão fantasmagórico quanto seria a proposta, mas talvez minha visão esteja exigindo muito.
    Muito bom, parabéns! 😉

  16. Thata Pereira
    16 de dezembro de 2013

    Uma prosa linda. Apesar de simples, não penso que estendê-lo se faz necessário. As palavras se encaixam de maneira tão poética e linda! Perfeito!

  17. Ricardo Gnecco Falco
    16 de dezembro de 2013

    Um conto poético e expresso, que leva o leitor na velocidade da Luz(ia) de A até Z, passando/parando (ou seria “pairando”?) apenas pelo S.
    S de sentimento, de sexo, de saudade…
    Simples, e saboroso.
    🙂

  18. Felipe França
    15 de dezembro de 2013

    Ah! Mulheres… O que seria deste nosso mundo sem suas sensibilidades? O texto é poético e suave. Remete aqueles momentos inesquecíveis; particulares. (Sim… sou egoísta no amor hahaha). Parabéns à autora. Apenas gostaria de vê-lo um pouco mais estendido.
    Abraços.

  19. Gunther Schmidt de Miranda
    15 de dezembro de 2013

    Enfim um texto que nos ambienta… Mas, não encontrei o fantasma… Será que ele foi caçado e armazenado? Ou nunca exitiu?

  20. Inês Montenegro
    15 de dezembro de 2013

    “Bonito” é a primeira coisa que me lembro em relação a este conto. Expressa bem o sentimento dele por ela, e nada tenho a apontar à narração. Gostaria, apenas, de o ter visto mais desenvolvido.

  21. Cácia Leal
    15 de dezembro de 2013

    Gostei. Muito poético e suave. Um conto romântico! Doce e meigo!

  22. Bia Machado
    15 de dezembro de 2013

    Eu gostei do texto, por seu lirismo, seu vocabulário poético e pelas imagens que fui criando em minha cabeça… Se o conto não estivesse em um desafio com tema “fantasma”, acho que isso ficaria muito aberto, mas como li já procurando pelo “fantasma”, fiz o meu entendimento da coisa, rs. E ó… Acho que já li esse conto, em algum lugar do passado, rs. Acho.

  23. Ana Google
    15 de dezembro de 2013

    Puxa, que texto lindo! Um dos meus favoritos até o presente momento… Um lirismo na medida certa, senti-me na crista de um onda, imersa em beleza! É um texto sutil, que falou de menos, mas expressou demais! Tocou os sentimentos de modo profundo. O final é triste, mas ainda assim é lindo! O que na vida tem o final absolutamente feliz? Essa é a maior das belezas do texto, a crueldade da realidade… Meus sinceros parabéns!!!!!!!

  24. bellatrizfernandes
    15 de dezembro de 2013

    Em primeiro lugar, uau.
    Eu adorei o estilo. Fui atraída de uma forma quase magnética no começo do conto. Estava flutuando num rio tranquilo de correnteza poética.
    E então, eis que no 7º parágrafo me encontro com uma frase conflitante com a natureza do tom da escrita. O conto seguia uma linha tão romântica que, colocando como a primeira frase do parágrafo “Lembrou-se da primeira vez que a viu nua” acabou quebrando o encanto. Chame-me de virgem ou de amante da Disney, mas achei desnecessário. No fim, soubemos que eles transaram e mais nada. Então até onde sabemos, a história deles poderia se resumir a esse momento.
    O fim não foi aberto. Foi um rombo. Não tinha absolutamente NENHUMA resposta. Mas sinceramente? Quem precisa disso? Ficou óbvio – pseudo-óbvio – de que eles não viveram intensamente seu amor, que se separaram devido às dificuldades e alguma fatalidade a levou. O que foi isso? Porque? Porque ele podia vê-la? O que ela estava fazendo ali? Isso não importa. O final da história ainda seria o mesmo, mas não incentivaria nossas imaginações.
    Parabéns pelo conto, muito bom mesmo!

  25. Elton Menezes
    14 de dezembro de 2013

    Sobre o título… Belíssimo. Aprovado.
    Sobre a técnica… Fantástica. Texto apurado, com ortografia corretinha e uma prosa poética com metáforas maravilhosas, gostosas de ler.
    Sobre a história… Muito simples. Tão simples que chega a colocar em dúvida se cabe no tema proposto, porque em momento algum deixa claro se Luzia é mesmo um fantasma, e por que. O que houve? O que levaria o fantasma a estar ali? Embora muito bem escrito, o texto deixa muita informação no ar, como se temesse se aprofundar e perder o lirismo.
    Sobre o final… Totalmente aberto. Não esclarece muita coisa, mantém as dúvidas levantadas. Esperava algo tão intenso quanto o texto em si.

  26. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    14 de dezembro de 2013

    Já de início, adorei descobrir que era um conto curto. Não tem os meus adorados diálogos, mas a leitura foi prazerosa. A prosa poética agradou-me , mas sou suspeita quanto a isso. Tenho minhas desconfianças quanto ao autor, diria mesmo autora. 🙂 Boa sorte!

  27. Gustavo Araujo
    14 de dezembro de 2013

    O início nos traz a ambientação para compreensão do contexto. Por isso é direto, sem rodeios. Já da metade para o fim, o conto diz a que veio. Uma prosa poética fantástica, com o emprego de palavras que se encaixam perfeitamente, nos ecos, nos jogos de lá e cá, nas antinomias, na sofreguidão, na esperança, e na consternação. Por esse aspecto, é um texto muito bom, ainda que a história em si seja bastante simples. Uma leitura ótima.

  28. Marcellus
    14 de dezembro de 2013

    Não sei bem como classificar esse conto. O estilo do meio para o final não combina com o do início e me confundiu um pouco.

    Mas gostei da ideia e da descrição do momento. Talvez com algum outro tratamento, num estilo definido em vez desse meio-termo corrido, o conto se transforme em algo soberbo, polido. E se de alguma coisa valer minha opinião, seria melhor mudar a conclusão: “De nada sabiam…” ficaria muito melhor, então. 8-P

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado às 14 de dezembro de 2013 por em Fantasmas e marcado .