EntreContos

Detox Literário.

Mellitus (Andrey Carvalho)

1

A vida é mesmo estupidamente irônica. Em questão de segundos, a mais exultante e nostálgica memória pode se tornar a mais dolorosa chaga. O gesto espontâneo e doce se retorce e transforma-se em um segredo pesaroso. A esplendorosa rosa dos tempos, enfim, murcha, e dela só restam os espinhos.

Aqueles eram outros tempos, mais fáceis e inocentes. Eu ainda era um novato na força, trabalhando na divisão de tráfego do LAPD. Lorraine era uma moçoila sem igual; energia e juventude transpiravam de seu corpo esculpido de dezenove anos. Nosso romance era pueril, e por que não dizer estúpido.

À revelia dos detalhes sobre minha saúde, Lorraine me surpreendeu com uma suculenta torta de morango em meu aniversário. A verdade é que até ali, por puro desleixe, não havia revelado a ela minha inconveniente condição de diabético. E pior: fazê-lo numa ocasião como aquela iria despedaçar os sentimentos da pobre moça, que não parava de falar sobre o empenho que empregara em preparar aquela guloseima.

Apenas sorri, e comi a torta com gosto.

Aquela era a coisa mais doce que eu havia experimentado em toda minha vida. Talvez por isso, nunca consegui deixar de associar aquele sabor à doçura de Lorraine. A candura da mulher acompanhava a de seus caprichos culinários em todas as datas comemorativas: aniversário, Dia de São Valentim, Natal… até mesmo o bolo do nosso casamento foi feito segundo aquela receita, que havia ganhado um significado especial. Depois de cada prenda açucarada, dos elogios e dos beijos, havia a inevitável ida ao banheiro, seguida pela picada da agulha. Não era só a insulina que corria: a cada aplicação, também o remorso pelo segredo guardado circulava em minhas veias.

2

O álcool era uma companhia certa todos os dias após o expediente. A outra era Rick Clemens, meu parceiro de equipe do DEA. Juntos, estávamos investigando um esquema bilionário de tráfico de entorpecentes que tomara as ruas devassas de Los Angeles. Os turnos de trabalho árduo eram invariavelmente sucedidos por curtas, mas eficientes sessões de sublimação nos bares da cidade. Naquele dia em especial, fizemos uma parada no Red Devil para apreciar uma combinação irresistível: whisky e jazz.

Não esperamos o espetáculo começar para molhar a garganta, no entanto. Rick bebia com entusiasmo e fazia imitações do nosso chefe de setor. A energia e juventude do rapaz eram quando muito contagiantes, mas na maior parte do tempo, fastidiosas para um policial gasto e carrancudo como eu.

Em dado momento, senti um desconforto profundo. Conhecia bem aquilo: era a maldita crise de hipoglicemia. Pedi licença a Rick e me dirigi ao banheiro sem delongas. O ambiente era de uma imundice inigualável. Prendendo a respiração, dei uso à seringa de insulina e a descartei, evadindo-me tão logo pude daquele chiqueiro.

Quando voltei à companhia de Rick, o rapaz estava completamente hipnotizado pela beleza de Luna Sinclair, a exuberante vocalista que encantava o Red Devil com sua voz ao mesmo tempo macia e amarga. Enquanto Rick se perdia nos olhos esmeraldinos e nas madeixas douradas da cantora, minha vista involuntariamente delineava as curvas sinuosas escondidas por debaixo daquele vestido preto, cuja escuridão contrastava com sua alvíssima pele. Aparentemente, os anos de respeito e fidelidade a Lorraine não haviam ainda sepultado meu entusiasmo pela beleza feminina em geral.

“Isso sim é que é mulher, hein, Vincent?”, comentou Rick, entre uma música e a outra, sem tirar os olhos da moça.

Fitei Luna de cima a baixo como se procurasse a resposta. Por um momento, tive a impressão de que ela havia percebido meus indiscretos olhares. E mais: se não passasse de uma quimera, sonhei também que correspondeu ao meu olhar, com prazer.

Talvez fizesse parte da performance. Talvez.

“Se é.”, respondi.

3

As visitas ao Red Devil tornaram-se corriqueiras. Nossa fixação pela misteriosa cantora muito agradou a Mikhail, o dono do bar, que se dedicava ao ofício de nos deixar completamente embriagados e extrair até o último tostão de nosso salário.

A regularidade também serviu de pretexto para a casual conversa que nos introduziu a Luna.

“Vocês estão sempre por aqui, cavalheiros”, comentou a loira, escorando-se no balcão próximo a onde estávamos sentados, já depois de sua apresentação.

“Esse é um bom lugar”, respondeu Rick, tentando, com moderado fracasso, imprimir naturalidade à fala. “Rick Clemens, prazer”, continuou ele, apertando a mão da mulher.

Vi em seus olhos o ímpeto de levar aquela delicada mão aos seus lábios, mas o leve tremelique nas pernas denunciou que a vergonha havia vencido sua luta interior.

“Luna Sinclair, mas vocês já devem saber disso. E o seu amigo é…”

“Vincent Miles, prazer”, falei secamente, e voltei a me concentrar no whisky. Mulheres como aquela são problema, e o cotidiano no DEA já preenchia minha cota diária de problemas.

Daí em diante, as sessões de Jazz passaram a ser sucedidas por sessões de conversa fiada entre Rick e Luna. Eu sequer fingia interesse, apenas assentindo quando a mim se dirigiam.

“Vincent é sempre assim?”, perguntava Luna.

“O que ele tem de taciturno, tem de confiável e experiente. Não há melhor policial para se ter como parceiro”, respondeu Rick.

Não esperava aquela espontânea declaração.

“Ah, então é assim…”, disse Luna, e direcionou a mim um penetrante olhar.

“O garoto está exagerando”, revelei. “Sou apenas um cão velho e cansado, amaldiçoando diariamente a meia década que me separa da aposentadoria”.

Os dois sorriram.

4

À medida em que nos aproximávamos do cartel, ficávamos também mais próximos e íntimos de Luna. Era como se a voz sedutora e o sorriso alucinante da cantora nos revigorasse do estresse e dos perigos diários que enfrentávamos nas ruas traiçoeiras daquela cidade.

Naquela noite, fui sozinho ao bar. Já era tarde quando estacionei o carro e vi Luna sair pela porta dos fundos do Red Devil. Ao perceber minha chegada, ela se aproximou. Abri o vidro do carro.

“Você está atrasado, senhor Miles”, disse, em tom jocoso, se apoiando na janela e colocando à minha vista o voluptuoso decote do vestido.

“Hoje foi um dia puxado. Rick viajou a serviço. Estou trabalhando por dois”, respondi, tentando desviar o olhar daqueles seios perfeitamente firmes e rotundos que quase pulavam das vestes da mulher.

“Oh, Rick não está por aqui?”, fingiu decepção. “É uma pena”.

Para vencer a ansiedade do momento, tirei um cigarro do bolso e o coloquei na boca. Tateei o casaco em busca do isqueiro, sem sucesso.

“Perdeu seu fogo, detetive?”, Luna falou, enquanto se inclinava em minha direção e acendia meu cigarro com seu próprio isqueiro.

Aquele contato fez com que o perfume da mulher invadisse o meu olfato. Era uma fragrância ao mesmo tempo deliciosa e agressiva, amarga e profunda, bastante diferente do cheiro adocicado e, por vezes, enjoativo da colônia a que Lorraine dava preferência.

Deixei-me levar por aquela sensação, e quando me dei conta, já estava em um quarto de motel com Luna. A loira assinava meu corpo todo com a marca do seu batom vermelho à medida em que me despia, como quisesse afirmar seu domínio sobre cada pedaço de mim.

“Não sabia que homens da lei também curtiam isso, Vincent”, disse, sorrindo, ao perceber minhas cicatrizes causadas pela aplicação da insulina.

Só então percebi que ela também tinha picadas por todo o braço. Eu conhecia bem o aspecto daquelas feridas: aplicação intravenosa de opiatos.

Em dado momento, ela serpenteou até o meu ouvido e sussurrou: “Você tem algemas, senhor policial?”

Acorrentado na cama por ferramentas do meu próprio ofício, descobri prazeres nunca antes imaginados naquela noite. Luna Sinclair era Afrodite reencarnada, uma deusa de êxtase e concupiscência.

5

Nos dias em que Rick ficou ausente, fiz relevantes progressos no caso do cartel de drogas. Infiltrei-me em um dos pontos de venda e extraí de um viciado a informação de que haveria um evento VIP no Diamond Club, uma boate conhecida por atrair todo tipo de atividade ilícita. Com algum esforço, consegui um contato que me garantiu acesso àquela solenidade.

Quando meu parceiro retornou, tive que mantê-lo no escuro sobre tudo. Ele certamente iria insistir em me acompanhar, o que poderia estragar meu disfarce. Além disso, quis deixar algumas das atividades que tive de desempenhar fora dos registros, ao menos por uns tempos. Se as coisas saíssem do controle, não afundaria a promissora carreira do meu colega.

Adentrei o clube por conta própria. A música era tão alta que eu não conseguia ouvir meus próprios pensamentos. Por todos os lados, homens suspeitos e mulheres sedutoras conversavam, bebiam, ingeriam comprimidos escusos e fumavam como chaminés.

Em meio à confusão, procurei meu suspeito, e não tardei a encontrá-lo: Vladimir Nardov, o traficante russo que comandava a operação da máfia naquela cidade de anjos caídos. Tentei me aproximar furtivamente, sem levantar suspeitas. Há anos o DEA buscava provas conclusivas o suficiente para prender Nardov. Aquela era uma oportunidade de ouro.

O que eu não esperava era que Nardov estivesse acompanhado por um rosto familiar: Luna Sinclair, a lasciva cantora de jazz, andava de braços dados com o figurão, e por vezes sussurrava em seu ouvido. Não pude conter o meu espanto ao ver a mulher naquele lugar. Minha reação foi reciprocada por Luna, que ao avistar-me de longe e perceber que eu a observava, falou alguma coisa ao seu acompanhante e veio em minha direção.

Temendo ser descoberto, bati em retirada. Estava confuso e não tinha ideia de como reagir à situação. Seria Luna amante de Nardov?

Voltei ao carro com a mente fervilhando e o coração batendo forte. Poucos minutos depois, consegui distinguir a silhueta de Luna a se aproximar do veículo.

“O que está fazendo aqui, Vincent?”, ela perguntou.

“Você é que me deve essa resposta”, retruquei. “Não fique aí fora, alguém pode nos ver”.

Ela ficou calada. Parecia sinceramente transtornada com o flagrante. Olhou para um lado e para o outro, e entrou no veículo.

“Vincent, me desculpe. Eu só…”

“Olha, eu não tenho nada a ver com quem você está saindo ou não”, interrompi. “Não existe nada entre nós. Mas vou te dar um conselho: esses caras estão com os dias contados. Saia de perto deles se não quiser se dar mal também”.

A mulher mordeu o lábio e ficou visivelmente apreensiva. Eu conhecia muito bem aquela expressão típica de uma pessoa esmagada entre seus próprios segredos.

De repente, seu celular começou a vibrar.

“Eu tenho que ir. Sinto muito”, ela falou. Chegou a colocar a mão na maçaneta da porta, mas pausou longamente. Por fim, virou-se e se jogou em meus braços, num abraço forte e caloroso. Pude sentir suas lágrimas a derramarem-se sobre meu ombro.

Depois daquele estranho gesto, Luna simplesmente saiu, e me deixou mais uma vez na companhia dos meus angustiantes pensamentos.

Dirigi sem rumo pela noite. As ruas de Los Angeles me eram mais claustrofóbicas e desoladoras do que nunca. Só parei quando um cidadão praticamente se jogou na frente do carro.

“Filho da puta! Louco! Tá querendo morrer?”, gritei enquanto freava bruscamente, rasgando o silêncio da madrugada com o cantar dos pneus. Só então percebi que o homem era Rick.

“Onde diabos você estava? Passei o dia todo rodando essa cidade atrás de você!”, falou Rick, entrando no carro.

Aquele encontro era totalmente inesperado. Eu ainda não tinha preparado uma história para encobrir minha ausência; pretendia pensar nisso assim que chegasse em casa.

“Eu… bem…”, comecei a gaguejar, o que só deixou meu parceiro ainda mais confuso e desconfiado.

“Que cheiro é esse?”, disse Rick, fungando.

Aquela pergunta fez um frio subir à minha espinha de imediato. O perfume forte de Luna havia impregnado o interior do carro.

“Ah, isso… Eu mandei lavar os bancos do carro e passaram esse aromatizante. Gostou?”

Rick continuava a fungar e procurar a origem do cheiro. Por fim, abaixou-se e enfiou a mão debaixo do banco em que estava sentado. De lá, retirou uma espécie de embalagem improvisada.

“O que é isso, Vincent?”, perguntou, muito sério. Eu não fazia a menor ideia.

Rick puxou um canivete e perfurou o pacote. Um pó branco vazou e inundou o ar. Depois de olhar, incrédulo, para o conteúdo daquele misterioso invólucro, meu parceiro sacou sua pistola e apontou para mim.

“Que merda você pensa que está fazendo, garoto?”, perguntei.

“Vincent, você vai começar a explicar o que isso está fazendo no seu carro, ou eu vou ter que prender você”.

“Não é o que você está pensando!”, tentei argumentar, mas a verdade é que eu não tinha como explicar aquilo.

“Tenho todo o tempo do mundo. Mas primeiro, passe a sua arma para cá”, disse ele, incisivo, ainda com sua Beretta mirando minha cabeça.

“Tudo bem, tudo bem, mas se acalme e abaixe isso”, disse. Levantei o casaco e levei as mãos lentamente ao coldre. Por algum motivo, minha Glock não estava lá.

“Onde você deixou sua arma?”, perguntou Rick, já ficando nervoso.

“Droga! Alguém pegou minha arma. Só pode ter sido aquela mulher! É isso”

“Que mulher?”

“…Luna”, admiti, por fim, já tentando desfazer aquele mal entendido.

Rick ficou surpreso com aquela menção. Contei para ele sobre a infiltração e meu encontro com Luna no Diamond. Ele ficou perplexo.

“Eu não acredito em você, Vincent”, disse ele, por fim. “Acho que está inventando tudo isso”.

Seus olhos expressavam um misto de decepção e ódio. Reconheci naquele olhar a negação: era preferível a ele acreditar na mulher que o havia encantado do que no seu próprio parceiro. Diria que eu estava querendo confundi-lo. Que eu tinha ciúmes. Diria tudo isso. Mas identifiquei o tremelique em suas pernas, e mais uma vez percebi que havia se acovardado. Abandonou o carro, confuso.

“Segunda-feira coloco tudo no relatório. Você que se vire com a corregedoria”, ameaçou, e abandonou o carro.

6

Parado em frente à porta do apartamento de Rick, eu calculava a melhor maneira de convencê-lo de que estava cometendo um terrível engano. Bati na porta várias vezes, sem resposta. Decidido a não perder a viagem, cheguei a experimentar a maçaneta, que inesperadamente revelou estar a porta destrancada.

A parca luz que iluminava o ambiente vinha do quarto de Rick. Na sala, tudo estava escuro e silencioso.

Gritei por Rick. Nenhuma resposta.

Ainda na sala, reparei um item destoante: minha Glock 19 estava jogada no sofá. Um sinistro presságio começou a tomar conta de mim. Apanhei a arma e corri para o quarto.

A porta estava entreaberta. Após um mero empurrão, ela escancarou-se e revelou uma cena de horror aos meus olhos. Rick estava completamente nu, preso à cama por algemas. Em sua testa, um orifício de projétil de arma de fogo, a cama e a parede atrás de si permeadas pelo escarlate do seu sangue. Corri ao seu auxílio, mas já era tarde demais. Ele não tinha pulso. Meu parceiro havia sido friamente assassinado.

Mal havia digerido aquela realidade, ouvi o som das sirenes do lado de fora. Quase que simultaneamente, o telefone começou a tocar.

Esperei três toques e atendi, sujando o aparelho com o sangue que já encardia minhas mãos e toda a minha roupa. Uma voz ao mesmo tempo macia e amarga falou do outro lado da linha.

“Me desculpe, baby”.

7

A primeira coisa que fiz após cumprir nove anos na Penitenciária Federal de Atwater pelo homicídio de Rick Clemens foi procurar Luna. Agora como um condenado cumprindo pena em liberdade condicional, desempregado e divorciado, não haviam perspectivas para o futuro; mas ao menos as injustiças do passado poderiam ser corrigidas. Essa tinha se tornado minha raison d’être desde o dia do incidente.

O primeiro lugar que investiguei foi o Red Devil. Mikhail não era mais o dono: o bar havia sido vendido para um italiano casmurro chamado Silvio. Quando perguntado sobre Luna, o homem não soube responder. Sequer conhecia alguém com aquele nome.

Também fiz uma busca no antigo apartamento da cantora, agora habitado por uma senhora mexicana e seu filho cego. Nem ela, tampouco os vizinhos haviam ouvido falar na moça antes.

Já desesperado, recorri ao último lugar em que havia qualquer resquício de esperança de encontrá-la: o Diamond Club.

A boate estava vazia àquela hora do dia. Ainda assim, logo na recepção, um homem calvo vendia drogas para um rapagão que tinha o dobro da sua altura. Em posse do material, o viciado deixou o lugar, eufórico com a aquisição.

“Posso ajudá-lo?”, se dirigiu a mim o homem calvo.

“Eu estou procurando por uma mulher chamada Luna Sinclair. Magra, loira. Ela costumava frequentar o lugar com os russos”.

O homem coçou a cabeça.

“Eu trabalho aqui há vinte anos, e nunca ouvi sobre nenhuma Luna com os russos”.

Frustrado, eu já estava deixando o lugar quando o homem me chamou a atenção.

“Ei, espere um pouco”.

Virei-me. Ele investigou minha face com notável interesse.

“Você… eu me lembro de você. Já faz muito tempo. Quanto, dez anos? Você costumava andar por aqui bastante, não é?”

Estranhei aquela colocação.

“Você deve estar me confundindo com outra pessoa”, respondi. E voltei ao carro.

8

Dei ignição no motor e ajustei o retrovisor. Pelo espelho, percebi que havia alguém sentado no banco traseiro. Era Luna. A mulher não parecia ter envelhecido um ano sequer, e usava o mesmo vestido preto.

“Quanto tempo, Vincent”.

Emoções guardadas por longos nove anos vieram à tona todas de uma vez e me apertaram o peito. Para piorar a situação, comecei a ficar tonto: havia esquecido de aplicar o maldito remédio, e a hipoglicemia já teimava em atacar. Revirei os meus arredores em busca da maleta com as seringas de insulina.

“Você está procurando por isso?”, disse ela, mostrando uma seringa em suas mãos. Depois, puxou-me o braço e injetou a substância. A fraqueza provocada pela crise hipoglicêmica me impediu de resistir.

Após a aplicação, minha vista começou a ficar turva. Havia vultos por todos os lados na periferia da minha visão, e ouvi um som semelhante ao de um trem em alta velocidade se aproximando.

9

Quando recobrei a consciência, estava dentro do meu apartamento, deitado em minha cama. Teria sido um sonho? Não, a picada da agulha no braço denunciava que os últimos acontecimentos haviam sido reais. Alguém me colocara ali. Mas quem?

“Bom dia, Vincent”, disse uma voz masculina. “Dormiu bem?”

Das sombras surgiu uma silhueta familiar: era Rick Clemens. Meu parceiro, que deveria estar morto, estava ali de pé, dentro do meu próprio quarto, me dirigindo a palavra.

“Rick!? Que merda é essa?”, gritei.

“Ah, então você não percebeu ainda”, disse Rick. Luna entrou então no quarto, e ficou lado a lado com Rick.

“Não é possível”, sussurrei, num quase engasgo. “Vocês armaram pra mim? Forjou sua própria morte por causa dessa cadela, Rick?”

Os dois começaram a rir.

“Forjei minha própria morte? É isso que você acha que aconteceu?”, zombou Rick.

“O que você está dizendo?”

“Eu estou morto, Vincent”, disse Rick. “Tão morto quanto sempre estive, desde que você atirou na minha cabeça”.

“Não… eu não atirei em você. Você sabe disso! Foi essa vadia!”, gritei, apontando para Luna.

“Ah, então foi Luna que me matou?”, questionou Rick, levantando uma sobrancelha. “Como isso é possível… se ela sequer existe?

“Como assim? Ela está bem aí, do seu l…”, engoli a palavra ao perceber algo surreal: Luna havia inesperadamente desaparecido. Olhei confuso para Rick, e percebi que em sua testa havia um orifício de bala do qual sangue escorria, como quando o encontrei morto em seu quarto. Apesar disso, ele continuava de pé, falando.

“Você pretende continuar a se esconder da culpa? Vai insistir nessa fantasia de que foi tudo uma armação? Quando pretende parar de mentir para todos e para si mesmo?”, desafiou o homem morto.

Eu estava alucinando. Só podia ser isso.

“Aquela vagabunda deve ter colocado alguma coisa na seringa!”, esbravejei.

“Mais uma vez colocando a culpa na sua amiga imaginária?”, persistiu o morto. “Você colocou alguma coisa na seringa. Você vem colocando alguma coisa nas seringas há muito tempo”.

“É só insulina. É para a minha diabete!”

“Diabete?”, agora era Luna que falava. Rick havia evaporado no ar. “Querido, você nunca foi diabético”.

Um desconforto terrível tomou conta de mim. A hipoglicemia estava atacando de novo.

“Droga!”, me debati e tive espasmos por todo o corpo. “Eu preciso… da… insulina!”

Luna sorriu, e sentou-se do meu lado na cama.

“Está tudo bem, baby. Eu tenho a sua insulina”.

Ela colocou minha cabeça em seu colo e puxou meu braço. Estendeu uma mão para Rick, que havia aparecido novamente ao seu lado. Ele lhe entregou uma seringa.

Logo que a agulha perfurou meu braço, um alívio imediato reinou sobre o meu ser. Mas Luna não parou. Rick entregou outra seringa para ela. E depois outra.

Aquele alívio foi aos poucos se transformando num prazer inigualável. Lembrava os orgasmos que Luna havia me proporcionado no motel, mas a sensação era ainda mais intensa. E não parou por aí.

O gozo incessante logo se transformou em uma paz plena. Luna e Rick já não importavam mais. Meu corpo e consciência foram se unindo a um vazio tranquilo; edênico… e doce.

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25 comentários em “Mellitus (Andrey Carvalho)

  1. Pedro Luna Coelho Façanha
    5 de dezembro de 2013

    Curti os personagens e acho que eles foram o ponto alto. A trama não me empolgou muito. Mas no geral, foi um bom texto. Parabéns.

  2. Felipe Falconeri
    3 de dezembro de 2013

    De início fiquei incomodado com a falta de conhecimento que o autor demonstra sobre a doença do protagonista. Diabéticos não podem comer um monte de doces e depois injetar insulina para tudo ficar bem. Assim como também não podem sair enchendo a cara todo dia. Além disso, a falta de insulina causa hiperglicemia, não hipoglicemia e os sintomas de ambas são muito diferentes.

    A trama ficou um bocado superficial e teve algumas passagens bem forçadas. A forma como Rick descobre a droga no carro, por exemplo. A única maneira de alguém sentir o cheiro de um pacote de cocaína debaixo do banco de um carro é tendo um faro canino.

    Por fim, não gostei do final. Nesse tipo de desfecho, em que descobrimos que tudo se passou dentro da cabeça do personagem, as alucinações normalmente são compostas por elementos distorcidos da realidade. Clube da Luta e A Ilha do Medo são bons exemplos disso. Mas se toda a história for só uma maluquice sem sentido, então faz parecer que tudo o que foi construído foi perda de tempo, não serviu para nada.

    Também existe a possibilidade da trama ter realmente existido e a alucinação ser apenas uma maneira que ele encontrou de lidar com a realidade depois de ter saído da cadeia. Mas também seria um desfecho ruim.

    É isso. Infelizmente, não gostei. 😦

  3. Alana das Fadas
    2 de dezembro de 2013

    Gostei do texto. O final me surpreendeu, mas fiquei com um gostinho de querer que na verdade o final acabasse com a armação entre ambos, Rick e Luna, seria mais plausível. Embora surpreendendo, o final real não me convenceu, ficou destoante. Detalhe para a troca em relação à hipoglicemia, já que não caberia insulina nesse caso específico, mesmo em se tratando de outra coisa. De qualquer forma, parabéns ao autor!

  4. Thata Pereira
    2 de dezembro de 2013

    Gostei muito do conto, até chegar no final. Comecei a esperar outras respostas e até gosto quando sou surpreendida, mas as alucinações para mim não ficaram… como posso dizer? Convincentes.

  5. Bia Machado
    2 de dezembro de 2013

    Eu gostei do conto, e apesar de ter compreendido o final, e até aceitado que fosse assim, acho que poderia ser melhor. Foi muito corrido, destoando do restante do conto. Quanto aos erros apontados pelos que já comentaram, é isso aí. Mas entendo também o que você explicou. Talvez baste apenas algumas alterações, pra ele ficar “redondo”. 😉

  6. Fernando Abreu
    1 de dezembro de 2013

    Eu achei cativante o protagonista, assim como Luna e o parceiro de trabalho. O texto está bem escrito, a leitura flui, mas achei a saída final muito estranha. Além disso, o vício do policial poderia ter sido melhor explorado. Já que tudo era uma viagem entorpecida, o texto poderia ter viajado mais nas descriçōes, na loucura, mesmo. Aí sim esse final faria sentido.

  7. Agenor Batista Jr.
    1 de dezembro de 2013

    O celular quebrou o encanto com que minha leitura vinha se desenvolvendo assim como a tal hipoglicemia que necessitava de insulina. Sou diabético e a hiperglicemia não causa tantos sintomas como a “hipo”. Associei, então, a uma “fissura” decorrente da falta de droga: a crise de abstinência. Fora os erros médicos, o conto descamba para uma “viagem” alucinógena e desnecessária. E os nove anos perdidos? Foram alucinações também? Se o conto todo assim o foi então justifica-se tantos tropeços no enredo. À parte os pequenos erros gramaticais, percebe-se um autor que escreve bem e poderia usar este talento para coisas menos complicadas. Foi uma leitura razoável.

  8. Rodrigo Sena Magalhaes
    30 de novembro de 2013

    Gostei. O clima noir, a ambientação, os diálogos e o personagem principal foram bem construídos, mas concordo com o comentário de Gustavo. Mesmo assim, está entre meus favoritos pela forma geral do conto.

  9. Claudio Peixoto dos Santos
    28 de novembro de 2013

    Não gosto desses nomes “americanizados”… tô meio chato hj, mas ficou fraquinho. Sorry…

    • Vincent Miles
      28 de novembro de 2013

      Meio injusto, tendo em vista o setting da história e o próprio tema do desafio, mas tudo bem. Pra você é obrigatório que toda história se passe no Brasil e tenha protagonistas brasileiros? Abraços.

  10. rubemcabral
    25 de novembro de 2013

    Eu gostei, até do final. Mas, caramba, que escorregada feia essa da “hipoglicemia” + insulina, não? Quem não tem um conhecido ou parente que em crise de hipoglicemia vai desesperado atrás de chocolate, goiabada e similares? Insulina nesses casos seria um passaporte para levar um lero com Jesus! 😀

  11. Masaki
    23 de novembro de 2013

    Gostei muito do conto! Uma trama bem envolvente que prende a atenção. Destaques também para alguns nomes de personagens como por exemplo: Luna Sinclair e Vladimir Nardov. Há algumas passagens que foram meio “atropeladas”, todavia isto não tira em nenhum momento os créditos do autor. Parabéns!

  12. Gustavo Araujo
    23 de novembro de 2013

    Interessante como eu, ao começar a ler a história, imaginei que tudo de passava nos anos 40. Quando surgiu o “celular” na jogada, confesso que fiquei um pouco decepcionado. Isso não foi culpa do autor, claro. Eu é que criei essa expectativa por conta da atmosfera do conto.

    Gramaticalmente encontrei poucos erros. Além do “houveram”, já apontado, também vi duas vezes “À medida em que”, quando o correto é “À medida que” ou “Na medida em que”. De todo modo, não dá para negar que o autor sabe desenvolver suas ideias e envolver o leitor na trama. Em suma, é alguém que sabe escrever.

    Até o quarto final da narrativa eu estava gostando muito. De verdade. Todo o clima criado, a fraqueza do policial, a atração pela mulher misteriosa e a traição da mesma, além da investigação instigante. Estava parecendo um noir da gema e por isso eu apreciava cada linha. O problema é que tudo se resolveu de forma muito fácil: todos as questões, todos os dilemas, nada mais eram do que alucinações provocadas por drogas. Poxa, o autor criou um universo policial bacana pra caramba e depois acabou com tudo, de repente, dizendo que era só um sonho do protagonista… Foi meio broxante para mim, confesso. E essa sensação se potencializou porque até então o conto vinha MUITO bem.

    No fim, as alucinações até explicam por que o protagonista falava “hipoglicemia” quando o correto seria “hiperglicemia”, ou por que ele, policial experiente que era, acabou alterando a cena do assassinato de Rick e bisonhamente se incriminou. Sim, as alucinações explicam isso, mas deixam a ver navios os leitores que, como eu, esperavam ver solucionada a participação da Srta Sinclair no esquema das drogas, ou por que ela se associou ao mafioso russo.

    Enfim, se é para fazer uma analogia, este conto é como uma daquelas sobremesas que a gente se farta de comer, de tão boa, só que deixam um gostinho estranho no final.

    • Vincent Miles
      23 de novembro de 2013

      Esse gostinho que se sobrepõe ao doce no final teria um quê de amargo? É uma analogia oportuna. 🙂

      • Gustavo Araujo
        23 de novembro de 2013

        Amargo, não. Isso seria equivalente a dizer que ficou ruim. Não foi isso que aconteceu. Talvez tenha ficado apenas abrupto demais. Para continuarmos com a analogia dos doces seria como interromper um doce de chocolate com um gole d’água.

  13. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    22 de novembro de 2013

    Então, há algumas contradições como as já citadas, mas pode ter sido proposital. Confesso que fiquei um pouco confusa, sem saber se o indivíduo era mesmo diabético ou se era tudo alucinação. Se eram drogas ou insulina mesmo o que ele se aplicava. Não sei, vou meditar a respeito. Boa sorte.

  14. Marcelo Porto
    21 de novembro de 2013

    Gostei muito do conto.

    Lá pelo meio, quando o celular é citado quebrou o meu ritmo. Não sei se foi a ambientação que eu tinha na mente, imaginava a historia lá pelos anos quarenta e cinquenta. A partir daí o clima ficou meio anacrônico. Mas nada disso tirou o prazer da leitura.

    Ainda não digeri o final, vou voltar depois pra ver se continuo achando um dos melhores que li até o momento.

    Um excelente conto.

  15. charlesdias
    21 de novembro de 2013

    Um conto com enredo promissor … que não deu certo. No final o resultado foi fraco e ficou meio confuso o final. Incomodou as várias contradições e o bloco do começo que fiou totalmente deslocado em relação ao restante do texto. Boa tentativa, mas para mim não deu certo, sorry.

  16. Marcellus
    21 de novembro de 2013

    Muito bom conto! Gostei especialmente do final, que não consegui prever.

    Nem os pequenos erros já apontados tiraram o prazer da leitura. Parabéns!

  17. Lúcia M Almeida
    21 de novembro de 2013

    Gostei, muito bem escrito, desfecho bom !

  18. Ricardo Gnecco Falco
    20 de novembro de 2013

    Doeu minha testa, mas valeu a leitura! 😉

    PS: A Luna é mesmo uma delícia!

  19. Jefferson Lemos
    20 de novembro de 2013

    Até que ficou legal.
    Não sei se gostei da história, e a descrição dos personagens e os nomes também, me lembram o de um outro conto do desafio.
    Enfim, vale a pena a leitura.
    Parabéns!

  20. Lorena Prado
    20 de novembro de 2013

    Então… algumas considerações a fazer. Hipoglicemia acontece quando o nível de açúcar no sangue está baixo, logo a insulina é desnecessária, ou melhor, é muito perigosa nesse momento. Então, não seria o caso do personagem ir atrás da sua injeção de insulina e sim procurar algo doce para normalizar o nível de açúcar no organismo. Seria interessante fazer uma pesquisa mais apurada antes de tratar de um problema de saúde específico.
    ” não haviam perspectivas para o futuro” – o verbo HAVER no sentido de EXISTIR é sempre empregado no singular. Não HAVIA perspectivas…
    Fiquei confusa quanto ao final. Ele estava se drogando sozinho e todo o resto era somente uma alucinação? Enfim, a ideia é boa, a narrativa até que corre sozinha, mas as falhas me deixaram meio empacada na leitura. Boa sorte.

    • Vincent Miles
      20 de novembro de 2013

      Obrigado pelo comentário, Lorena.

      A impessoalidade do “haver” realmente passou desapercebida nesse trecho por algum motivo, mesmo tendo usado o verbo corretamente em outros casos, como em “Havia vultos por todos os lados na periferia da minha visão”. Ainda tenho que passar um pente fino no texto durante a edição.

      ÁREA DE SPOILERS, AOS QUE NÃO LERAM O TEXTO AINDA, NÃO CONTINUEM LENDO O COMENTÁRIO!

      ————————————

      Sobre o porquê dele buscar a insulina durante as crises hipoglicêmicas… existe um motivo. Achei que o final tinha deixado claro o suficiente (também não quis explicar o final DEMAIS porque tira um pouco a graça para o leitor de reinterpretar o texto), mas fico triste em saber que não aconteceu na sua leitura. 😦

      Tenho em mente que são mutos contos no desafio, e que o nível de atenção empregado na leitura de cada um não costuma ser o mesmo do que ocorre numa leitura desinteressada e sem prazo, mas ainda assim, vou estudar a possibilidade de dar uma alterada e deixar a explicação mais clara.

    • Vincent Miles
      20 de novembro de 2013

      (mas pensando bem, você tem razão. crises hiperglicêmicas seriam mais apropriadas, ainda que no final das contas não seja propriamente nem um, nem outro… já fiz a alteração no meu manuscrito, fica aí a errata 😛 )

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Publicado às 20 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .