ATO 1
Capítulo 1- tiro na cabeça
Há aqueles dias que prometem mudar tudo na vida de uma pessoa. Pontos de inflexão. São aguardados ansiosamente. Por vezes temidos. Aqueles dias…
Era um desses dias para Lucas Costa. O homem saía do chuveiro em meio a uma névoa de vapor. O enorme banheiro da suíte, revestido em mármore cinza, demorava alguns segundos para ser atravessado.
Chegou, finalmente, ao espelho, um pouco embaçado pelo calor do banho. Era uma silhueta imponente: um metro e oitenta e três, um rosto de feições italianas, barba e cabelos bem-feitos, que chegava à meia-idade sem muitos defeitos. Lucas gostava de se cuidar. A pele bronzeada da praia de Ipanema. Braços e pernas bem trabalhados, conquistados com muito afinco na academia. Torso e abdômen definidos, os músculos cobertos por alguns pelos. Logo abaixo, a peça principal. Dezoito centímetros. E meio. Ou, pelo menos, era o que ele dizia para elas na hora H. Ninguém nunca questionou.
Um pequeno LED azul se acendeu no canto do espelho. Um aviso da assistente de IA que geria a casa. E daí se o espelho do banheiro precisava ter uma câmera embutida? Se alguém invadisse, a vista era boa.
Ele se enrolou na toalha e saiu, chegando ao mezanino que levava aos quartos. Contemplou a bela e ampla cobertura. Uma enorme varanda com hidromassagem e churrasqueira, uma sala em plano aberto, e o mezanino, ainda escuros. Eram umas cinco e pouco. A vista era espetacular, recuada um quarteirão da praia de Ipanema. Os primeiros raios de sol começavam a surgir no horizonte. Lucas desceu as escadas, passando por uma grande tela OLED — tecnologia um pouco antiga, já pedia uma substituta — afixada em uma das paredes revestidas em madeira de fronte a um sofá e pelos quadros de Paul Klee, herdados do pai. Chegou à cozinha. A IA comandava os eletrodomésticos. Todos, sem exceção, possuíam telas, e Lucas pagava caro para que não mostrassem anúncios.
— O café está pronto, patrão. — ele havia programado para ser chamado de patrão.
O homem retirou a xícara da cafeteira. Preparou um pão árabe com a pasta proteica recomendada pelo nutricionista. De toalha mesmo, foi até a varanda. Queria contemplar o dia que mudaria sua vida para sempre. O vento gelado da madrugada refrescava a pele ainda quente do banho. Era prazeroso.
Uma ocasião especial pedia uma vestimenta especial. Voltou ao quarto. As paredes revestidas com papel de parede cinza combinavam com o mármore do banheiro. A cama king-size era uma veterana. Se ela falasse, pediria um cigarro. Assim como o sofá, a hidromassagem e a mesa da cozinha. Vestiu um terno Armani com riscas discretas. Afastou um quadro da parede e digitou a senha do cofre embutido. Dentro de uma caixa prateada, um relógio Tag Heuer, edição limitada. Aquele era o momento certo para usá-lo. Agora estava pronto.
****
Mesmo os dias excepcionais podiam ter seus momentos menos gloriosos.
O sol já brilhava, prenunciando mais um dia de calor no Rio de Janeiro. Uma longa fila de carros bloqueava a passagem de Lucas com seu BMW. Um típico engarrafamento matinal na Zona Sul. O homem não se acostumava com aquilo, apesar de enfrentar o mesmo cenário todos os dias. “Calma, Lucas. Se tudo correr bem, você vai pro trabalho de helicóptero no próximo mês”, pensou, tentando lidar com a situação.
Lucas sempre ligava o rádio ao entrar no carro. Era um ritual, antes mesmo de colocar o cinto de segurança. Música era um elemento importante, capaz de dar o tom das ocasiões. Um metal antes de uma reunião importante dava confiança. Um bom Dance ou EDM na pista era a certeza de um Kenny G mais tarde.
Ligou na JB FM, procurando ouvir algo relaxante que o desconectasse. Foi uma surpresa desagradável ouvir a Cyndi Lauper berrando girls just wanna have fun. Suspirou. Mas deixou para lá. Nada seria capaz de estragar seu dia. Nem mesmo a pessoa esquisita que parecia tentar contato com ele do outro lado do para-brisa quando parou no sinal. Escondeu o Tag Heuer dentro da manga do Armani.
— Hoje tá ruim! — gesticulou com o polegar direito pra baixo, sem muita paciência. Aumentou, em seguida, o volume da música, para abafar o mundo lá fora.
Quando finalmente chegou, entregou as chaves do carro ao valete, como de costume. Mas, em vez de entrar, Ele parou por alguns segundos, contemplando a fachada espelhada.
O Edifício Manchete não era o mais alto ou mais imponente da cidade, mas desde o seu retrofit era um dos mais luxuosos. As empresas pagavam caro para alugar uma laje corporativa na praia do Flamengo, com vista privilegiada da baía de Guanabara e do Pão de Açúcar. Quem ocupava o último andar era a Rock, uma fintech nascida nos pilotis da PUC-RJ, de alunos de economia. Douglas Meirelles era o CEO e grande cabeça pensante do negócio. Bilionário mais jovem do Brasil, capa da Forbes 30 under 30. Os contatos que o parentesco com um ex-ministro da fazenda proporcionava ajudavam, certamente. Lucas Costa conhecia Meirelles de várias chopadas e eventos na PUC. entrou na Rock quando ainda era uma empresa júnior e logo subiu nos organogramas. Em pouco tempo, se tornou CFO, recompensa por um talento nato com os números e as finanças, ao qual ele era muito grato. Ele se via como uma das razões para o sucesso da Rock. Parecia operar milagres com orçamentos, balancetes e impostos. Mas certo dia, há cerca de um ano, o verdadeiro milagre aconteceu.
Uma ligação direto de Brasília. Era da diretoria do Banco Central. Um projeto secreto. A nova fase do PIX precisava de um sistema back-end confiável e rápido, que pudesse lidar com as novas funcionalidades da plataforma. Nos anos 2030, seria capaz de maravilhas, como crediários a prazo, um sistema de criptografia ao portador, quase um cheque eletrônico, e sistemas de recompensas aleatórias ligado a assinatura de um carnê, só para dizer algumas. Seria o maior projeto da história da Rock. Teriam que contratar mais pessoal e colocar projetos secundários em espera. Era uma jogada arriscada, mas se funcionasse, levaria a empresa a outro patamar. E parecia estar funcionando. Uma comitiva do BACEN estava chegando para assinar um pré-contrato naquele dia.
Lucas andou confiante pela calçada. Pisou no pequeno degrau que antecedia a porta com a confiança de Átila, o Huno, ao esmagar a cabeça de um inimigo ao final de uma batalha.
Lucas saiu do elevador assim que a porta se abriu. Encostado em uma das compridas mesas sem divisória, ocupadas por computadores com, pelo menos, dois monitores cada, um homem tão bem-vestido quanto o próprio. Terno Hugo Boss, um enorme Rolex dourado no pulso esquerdo. Na mão direita, segurava um copo de café onde se via a logo verde-musgo do Starbucks. Barba e cabelo curtos, mas arrumados. Um rosto um pouco redondo.
— Olha só, chegou o cara — Gabriel da Silva era um velho conhecido de Lucas nos tempos das festinhas da PUC. Embarcou também na ideia da startup. A convivência na empresa mostrou aos dois que tinham muitos gostos e interesses em comum, e viraram melhores amigos em pouco tempo. Por falta de habilidade e de contatos, não subiu tanto como o amigo, mas, pelo menos, alcançou uma gerência operacional.
— Eu? Não sou isso tudo, não — Lucas apontou para o copo na mão do amigo — e essa viadagem aí? Tá mudando de time?
— Ah, Comprei pra provar
— E concluiu que era uma merda? — O sarcasmo era um dos passatempos preferidos de Lucas.
— Obvio! Mas, vamos falar de coisas importantes — Gabriel mudou o tom de voz, quase sussurrando — já viu a nova secretária do Meirelles?
— A letícia? — Lucas fez uma cara de aprovação — gostosíssima
— Fala baixo, porra! Mas sim, uma loiraça. Peitos maravilhosos, e aquela bundinha… — nova mudança de tom — mas porra, na aba do Meirelles é foda!
— Ihh, vai arregar? Se tu não pegar, eu pego. Até semana que vem tá na minha cama.
— Você que sabe. Eu não tenho as mesmas proteções que você aqui. Ah, esqueci de avisar. Você-sabe-quem já está na sua sala…
O semblante de Lucas mudou. Sua voz se alterou.
— Puta que pariu! Chegou cedo hoje. E você enrolando pra avisar. Tenho que ir antes que ela bagunce as minhas coisas.
Lucas andou rápido, atravessando o espaço aberto ocupado pelas mesas compridas. O Rolex se fixou em seu pensamento. Nem sabia que Gabriel tinha dinheiro para comprar aquilo. Obviamente, queria chamar atenção, ainda mais em um dia especial e com carne nova no pedaço, mesmo que fingisse que não Mas Lucas estava confiante que ver a nova secretária no banco do carona de seu BMW sossegaria o amigo. Era uma amizade competitiva, mas Lucas gostava disso. O estimulava a se superar.
Ao mesmo tempo, aquela presença na sala, sem sua supervisão, era incômoda e deveria ser resolvida. A enxaqueca recorrente das últimas semanas começava a reaparecer.
Ao entrar na sala, Lucas notou logo a familiar silhueta feminina, encaixada de forma justa no uniforme da empresa: saia lápis justa, com um corte atrás, e camisa social branca. Camila Pires era gerente do setor financeiro. Uns trinta e cinco anos, pele bronzeada, o cabelo ondulado tingido com luzes. Mexia em algumas pastas em sua mesa.
— Já está fazendo bagunça?
— Bom dia pra você também, senhor Costa — Camila respondeu, cínica, como era de costume. Já se cansara das peripécias de Lucas há muito tempo. O conhecia bem. Bem até demais. — estou trazendo os relatórios do financeiro pra você assinar. Estamos tendo problemas no servidor e tá uma loucura.
— Porra, logo hoje — Lucas sentou-se na cadeira. Tirou o paletó, pendurando-o no encosto. Desabotoou as mangas da camisa e começou a coçar os pelos do antebraço. — cadê a menina do TI?
— Marina está desde a madrugada mexendo nisso. Você sabe, rodamos essa porcaria toda em COBOL. Claro que volta e meia ia dar problema.
— Eu sei. Mas modernizar o código todo ia ficar caro pra caralho — levou a mão a cabeça e falou baixo, para si mesmo — puta que pariu, minha dor de cabeça tá piorando.
— Você é tão profissional, Lucas. Quanta finesse — Camila era uma das poucas pessoas que conseguiam desarmar Lucas. Virou-se e já ia saindo — enfim, os relatórios estão em ordem cronológica, como você prefere.
— Obrigado — ele se resignou — o que eu faria sem você aqui? É por isso que não posso te demitir…
Ela parou imediatamente após a fala, sob a moldura da porta. Virou-se de volta, e o olhou fixamente nos olhos. A cara mais séria do mundo.
— Você sabe que não pode.
Lucas ficou sozinho na sala, enfim. Respirou um pouco. Ainda tinha um dia de trabalho, mas precisava lidar com a dor de cabeça. Podia ser só estresse. Talvez passasse quando começasse a se concentrar nos relatórios. Contou até três, respirou fundo, e abriu a primeira pasta.
****
A rolha voou da garrafa de champanhe, com a espuma esbranquiçada escorrendo e melando a mão de Meirelles, o CEO, sob efusivas palmas dos outros presentes. Ele cuidou para que o líquido não alcançasse o Patek Philippe em seu pulso. A grande antessala do gabinete do CEO era decorada cafonamente em tons de branco e dourado, quase uma imitação de algum hotel em Dubai. Estavam presentes os executivos do Banco Central, o conselho deliberativo, Meirelles, Lucas, e alguns gerentes operacionais, além de alguns funcionários. O CEO, de pé, na cabeceira de uma longa mesa oval, que apoiava as garrafas de champagne dentro de baldes de gelo e algumas bandejas de canapés, chamou a atenção do grupo e iniciou seu discurso. Seus olhos brilhando tanto quanto sua testa que entrava pelas laterais do cabelo, uma calvície que o minoxidil já não conseguia remediar:
— Hoje é um dia histórico para nós! Subimos a um novo level. A Rock, que comecei de forma tão humilde e com tanto sacrifício, não brigará mais nem com as fintechs da Faria Lima, mas sim com os grandes players de Wall Street!
Efusivos aplausos.
— Mas nada disso — continuou — seria possível sem o trabalho mágico de nosso CFO, que conseguiu projetar um budget tão impressionante e ousado, que pode nos possibilitar todo o resto. Se alguém merece os aplausos hoje, é esse rapaz.
Lucas, agradecendo os aplausos, tentava se fingir de humilde, como se aquela chamada fosse inesperada.
— Muito obrigado, mas não sou só eu que mereço. Não fiz nada sozinho. É um prazer enorme fazer parte dessa família que me dá tanto orgulho.
Lucas observou os presentes na sala. Era aplaudido e aclamado por todos. Gabriel gritava “bravo”, feliz pelo amigo. Marina, exausta após o dia mais estressante de sua vida, mal se aguentava em pé, quanto mais aplaudir. Mas, para ele, não importava muito. Ossos do ofício, ela já deveria saber. Até mesmo Camila o cumprimentava, aplaudindo com um sorriso discreto.
O olhar de Lucas se perdeu um pouco pela sala, até se achar na saia da nova secretária. Aquelas pernas bem torneadas, cobertas delicadamente por uma fina meia-calça, que saíam por debaixo do pano bem justo. As curvas do quadril, onde a saia se encontrava com a blusa branca, translúcida a ponto de ver o sutiã branco por baixo, os cabelos loiros, perfeitamente escovados, que caíam sobre os ombros e enquadravam o jovem rosto como a moldura de um belo quadro.
Imaginou ela mais tarde, sem a saia, a meia calça, a blusa, o sutiã e o que mais tivesse de pano, encaixada sob seu corpo, após ser facilmente seduzida por seu prestígio corporativo, suas mãos fazendo drift por todas as curvas daquele corpo em uma cama do Motel Vip’s, o melhor da cidade. Isso, se não a levasse para o seu próprio quarto. Mas precisava se concentrar, terminar o discurso, antes que fosse tarde demais e tivesse que disfarçar o volume na calça.
— No mais, eu diria que…
Não conseguiu terminar. Uma dor agudíssima irradiou em sua cabeça, quase como se tivesse levado um tiro. Igualmente agudo era o tinito em seu ouvido. Não conseguia se manter em pé. O corpo balançava, as pernas tremiam. A dor não permitia nenhum pensamento. Enquanto caía, via as imagens borradas e cada vez mais escurecidas de seus colegas. Já no chão conseguiu ver Camila se debruçando por sobre seu corpo, a voz trêmula, chamando seu nome e perguntando o que acontecera. Inutilmente, já que ele não conseguia pronunciar uma única palavra. Viu também a secretária nova correndo, em desespero, em direção ao corredor, chamando por ajuda. Em um último fio de pensamento, antes de apagar tudo, ainda ruminou: “que vergonha, não tenho mais nenhuma chance com ela”.
Capítulo 2 – O milagre da medicina
Lucas acordou, ainda grogue. Tentava olhar em volta, os olhos ainda embaçados. Sentia um cobertor pesado sobre seu corpo. Aos poucos, se deu conta que estava deitado em uma maca, em um quarto de hospital meio escuro. Os fios dos eletrodos presos ao seu peito limitavam seus movimentos. A luz vermelha do monitor de oxigenação preso em seu dedo indicador iluminava a penumbra. Tentava recobrar sua consciência. Nada fazia sentido naquele momento. Só recordava-se do champagne estourando e dos aplausos, como se fossem há um minuto atrás.
O silêncio foi quebrado por uma figura alta, negra, que abria a porta de correr. Lucas percebeu que estava em um centro de terapia intensiva. Não era bem um quarto onde estava, e sim um box. Através da porta, observou vários outros boxes como o que ocupava. Pacientes idosos, moribundos ou em coma em cada um deles. O homem vestia um uniforme azul e um Crocs branco. No braço, um smartwatch. Uma figura tão serena como imponente. Não disse nada. Apenas deu um passo para trás, liberando a passagem. Apresentou-se um médico idoso, calvo, muito magro. Um jaleco branco e um estetoscópio pendurado no pescoço. Apresentou-se, com uma voz tranquila. Doutor Salvatore Keller, neurologista.
— Como vai, Lucas? Como se sente?
— Não sei… o que aconteceu? — Ele ainda estava grogue — não lembro direito do que houve.
— Você ficou desacordado por dois dias. Teve sorte de ter recebido um atendimento rápido. Tem tido muitas dores de cabeça ultimamente?
Lucas estranhou o conhecimento do médico sobre as dores de cabeça.
— Tenho tido, sim. Mas é normal pelo ritmo de trabalho, não? Como sabe?
— Sua colega, Camila, veio com você na ambulância. Ela fez seu check-in. Comentou sobre sua enxaqueca recorrente — o médico fez uma pausa — estava bem abalada. Ela é sua secretária? Assistente pessoal?
— É… sim….não… mais ou menos. Bem, o que aconteceu?
O dr. Keller fez uma expressão solene, lançando sobre Lucas um olhar sério.
— Infelizmente, não trago boas notícias. Preciso que se prepare.
— Pode falar, doutor. Não tenho medo de doença — disse em tom sarcástico, recobrando um pouco mais a energia — meu corpo é uma máquina perfeita.
— Bom, não é isso que os exames mostram, infelizmente — Keller fez uma pausa — Lucas, você provavelmente tem uma doença autoimune bastante rara. A ressonância magnética que fizemos detectou uma encefalite bastante importante.
O sorriso de Lucas cedeu — como assim?
Os exames de sangue complementares indicarama presença de autoanticorpos, produzidos pelo seu próprio sistema imune. Eles muito provavelmente estãoatacando os neuroreceptores de NMDA do seu cérebro, provocando a encefalite. Parece ser um caso bem agressivo de EDAI, encefalopatia degenerativa autoimune.
O semblante de Lucas mudou. Contraiu um pouco as pernas. Encolheu-se sobre a maca. Em meio ao choque, só conseguiu soltar a frase mais clichê do mundo.
— Isso é grave, doutor?
— Infelizmente, é bastante grave. Administramos uma pulsoterapia de metilprednisolona. É o que diminuiu a inflamação e te possibilitou despertar. Mas não deve ser suficiente. Infelizmente, se a doença progredir como os casos documentados na literatura médica, seu estado mental pode deteriorar progressivamente. Poderá ter lapsos de memória, esquecer nomes, datas e rostos. Perder a coordenação motora, a capacidade de andar, e até de ir ao banheiro. A visão e a audição se deteriorarão progressivamente. Nos estágios mais avançados, o sistema nervoso autônomo pode ser seriamente comprometido, inibindo a respiração e o ritmo cardíaco, levando ao óbito.
— Quanto tempo eu tenho? — Lucas gaguejou, estremecido.
— Se realmente for confirmado o diagnóstico, cerca de quatro a seis meses.
— Não tem tratamento?
— Há tratamentos experimentais, mas não há nada comprovado. De qualquer forma, dada a aparente gravidade do seu caso, aconselharia a buscar o que puder.
— Como o que?
— Bem, eu comando uma equipe multidisciplinar. Estamos conduzindo uma pesquisa, com um tratamento experimental, para alguns casos extremos. Selecionamos estritamente os pacientes. Acredito que você se encaixe nas condições que procuramos — o doutor tirou um cartão de visitas branco do bolso, e colocou sobre a maca — Marque uma consulta, se te interessar.
— Bem, preciso pensar um pouco. — ele estava desanimado. Passava a mão direita suavemente por sobre os pelos do antebraço esquerdo — ainda estou processando a situação. E se não der certo?
— Se não der certo, infelizmente, teremos que discutir cuidados paliativos. Tem alguém para estar do seu lado nesse momento?
— Não, sou solteiro e meus pais moram no exterior — demonstrou levemente certa tristeza e abatimento, o que devia ser mais raro dele externar do que a própria doença.
— E Camila?
— Não, Camila… — Lucas deu um sobressalto — nossa relação é estritamente profissional. Não posso envolvê-la nisso.
Os dias passavam lentamente naquele box de UTI, mas a memória ficou como um borrão, uma coisa só. Lucas dormiu pouco, incomodado com os bipes do monitor e as eventuais intercorrências dos outros pacientes. A comida era insossa. Não mexeu no celular. Tentou se distrair com alguns filmes, mas não conseguiu prestar atenção. Viu algo no noticiário sobre estudantes da UFRJ sendo vítimas de crimes na ilha do Fundão, mas não deu bola. Já era desgraça demais na sua própria vida. Perdera o chão, o sentido, o moral.
Saiu do hospital após cerca de uma semana.Só então lembrou de mandar mensagem para Camila. Disse que estava bem. Não deu detalhes.A dose cavalar de corticoides paravam a inflamação e davam um pouco de ânimo, mas também ansiedade. Devia ir pra casa descansar, mas quis aproveitar o que poderiam ser seus últimos dias na terra.
A brisa gelada da praia do Flamengo atravessava a camisa social branca. O paletó Armani e os sapatos jaziam em uma lixeira do parque adjacente. Talvez algum morador de rua os aproveitassem. Seria melhor assim. Lucas odiaria ver aquela obra de alta-costura sendo engolida pela terra junto de seu corpo. Bem, não veria, tecnicamente. Mas o pensamento ainda era doloroso. Os postes do aterro já se acendiam, iluminando os últimos banhistas e os corredores na ciclovia. Lucas, apertando a areia com os dedos dos pés, pensava na injustiça que o destino o reservara. Logo agora, que concluíra o feito mais impressionante de sua carreira, que se tornaria importante e alcançaria o reconhecimento que sempre almejara.
Ele observava as pessoas seguindo suas vidas, tranquilamente, enquanto via-se condenado por uma obra do acaso. Um possível castigo divino que não entendia por quê, afinal havia gente pior no mundo. Não era nem um pouco justo. Fitou, por longos segundos um casal, sentado sobre uma toalha, que brincava com seus dois filhos pequenos na areia. Não se interessava muito em ter uma família. Não era bem seu estilo de vida. Mas era cruel que o destino lhe tolhesse a escolha. Sentiu uma angústia profunda. Era coisa nova para Lucas. Raramente se sentia triste. Não tinha motivos para tal.
Andou pela areia. Aos poucos, o som das pessoas, do vento, de seus pensamentos iam sendo desligados um a um, até sobrar apenas o mais profundo silêncio em sua mente, entrecortado pelo ocasional marulhar das ondas.Sentia, agora, apenas as águas da Baía de Guanabara resfriando seus pés, encharcando a calça social. Pensou em se jogar. Sumir nas águas salgadas. Morrer afogado parecia doer menos.
Passaram-se longos segundos, até que o barulho de um jato decolando no aeroporto Santos Dumont o despertou. Viu aquele monstro de metal subindo, contornando delicadamente o Pão de Açúcar, cujo topo era iluminado pelos últimos raios de sol. Uma tocha de pedra marrom. Uma cena belíssima. “talvez seja bom ainda ver essa cena algumas vezes”, pensou. Respirou fundo, pegou o cartão de visitas branco no bolso da calça. Observou-o por longos segundos, ainda dentro da água.
DR SALVATORE KELLER
Neurologia * Neurocirurgia
Rua Voluntários da pátria, 157
(21) 5555-8989
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Lucas desceu do Uber em uma esquina movimentada de Botafogo. Estava respeitando, muito a contragosto, a recomendação médica de não dirigir. Estranhou o prédio sem janelas, de poucos andares e nenhum nome na fachada. Mas o número estava certo. Tocou o interfone, e a porta abriu imediatamente, sem nenhum questionamento. Lá dentro, uma sala vazia, silenciosa. Muito limpa e bem iluminada. Paredes de gesso acartonado branco e madeira falsa, típicas de clínica. Um pequeno jardim de inverno com trepadeiras de plástico no canto. As luzes fluorescentes eram tão brilhantes que pareciam rivalizar com o sol lá fora, mas era difícil saber com exatidão, dada a falta de janelas.
Lucas, sentando-se em um sofá branco, pôs-se a pensar, olhando para a televisão desligada afixada na parede. Não sabia o que ouviria ali, se uma sentença de morte ou uma ponta de esperança. Tentou se manter confiante, mas era engolido pela impotência do desconhecer o futuro. Impotência. Coisa que Lucas temia com todas as forças. Queria controlar tudo, queria poder tudo, queria possuir tudo. E estava no caminho certo antes da doença se intrometer.
O devaneio durou pouco, sendo interrompido por um enfermeiro, alto, moreno, um tanto intimidador, um uniforme hospitalar azul que parecia bastante fora do lugar ali. Ele parecia um pouco com a figura do hospital. Estranhou.
— Senhor Costa? Siga-me até o elevador, por favor.
Lucas se levantou buscando manter as costas eretas, de forma a não ser apenas a segunda pessoa mais alta naquela sala. Encarou-o e o seguiu até o elevador. Após saírem, caminharam por um corredor igualmente branco e insípido, até uma porta, que para nenhuma surpresa, também era branca. Lia-se nela o nome do médico e diretor da clínica.
— Aqui, senhor — guiou o enfermeiro, erguendo o braço.
Keller quase que sumia atrás da mesa. Os cabelos brancos faziam uma volta pelas têmporas, coroando o couro cabeludo manchado e nu no topo da cabeça.
— Sente-se, Senhor Costa. Fique à vontade
— Pode me chamar de Lucas, doutor. Gosto do meu nome.
— Como queira. Que bom que pode vir hoje em um dia que a clínica está vazia, assim teremos mais tempo para conversar.
Lucas se ajeitou na cadeira, um pouco mais relaxado. Não parecia ser ele quem precisava de cuidados paliativos ali.
— O hospital mandou o restante dos meus exames, certo?
— Claro, já os vi. Realmente, é um caso complicado.
— Então, não tem o que fazer?
— Bem, para tratar os autoanticorpos anti-NMDA, seria preciso fazer uma grande limpeza no seu corpo. Faríamos um tratamento imunoterápico, com ciclos de anticorpos monoclonais para limpar o seu sangue.
— Isso resolveria o problema?
— Não, mas traria um grande alívio dos sintomas. O problema é que é temporário. Se a sua medula óssea continuar produzindo os linfócitos que fabricam os autoanticorpos, a doença volta e a degeneração do seu cérebro continua. Então, poderíamos tentar um autotransplante, através da edição genética das suas células-tronco, para que sua medula produza linfócitos saudáveis.
— Me parece bem complicado — Lucas estava um tanto cético.
— E é. O problema é que não é um transplante comum. Precisamos realmente matar toda a sua medula, em um nível muito maior que os tratamentos convencionais. A quimioterapia a ser usada é extremamente neurotóxica, e pode gerar uma inflamação até pior que a própria doença no seu sistema nervoso central.
— Então, de um jeito ou de outro, eu vou virar um moribundo. — ele não consegui esconder o desânimo — Então, pra sofrer tanto e ter o mesmo fim, não é melhor ir pelo caminho dos cuidados paliativos?
— Ainda não terminei — Dr. Keller se ajeitou na cadeira, debruçando-se sobre a mesa e apoiando nela os cotovelos. Passou a falar mais baixo, como se contasse um segredo — é por isso que marquei essa consulta em um dia em que o consultório estava vazio. Há uma chance de te salvar, mas é um tratamento bastante caro e experimental. Você seria parte de uma pesquisa bastante secreta que estamos desenvolvendo.
— Eu topo qualquer coisa, doutor. — Lucas assumiu um tom sério e determinado.
— O tratamento consiste em um transplante temporário de todo o seu encéfalo para um corpo provisório sintético. Assim o trabalho em seu corpo original poderia prosseguir sem nenhum dano. Já obtive sucesso com alguns pacientes acometidos por outras doenças terminais. Mas com o seu caso específico seria a primeira vez.
Lucas ficou espantado. Arregalou os olhos.
— É sério? Dá pra fazer isso?
— Impressionante, não? A ciência está avançando rapidamente. Agora, com as técnicas que desenvolvi, consigo separar o cérebro desse corpo quando ele não serve mais ou precisa de reparos mais complexos. Há tempos, já se pode substituir partes defeituosas por próteses biônicas até melhores que os membros naturais. Trocar o corpo todo seria, naturalmente, o próximo passo. Um verdadeiro milagre.
Lucas ouviu atentamente a explicação. Não sabia se acreditava. Era bizarro demais. Mas, talvez, a única esperança. Conformou-se.
— Se não tem outro jeito…
— Bem, mas tenho que alertar dos riscos. É um corpo diferente do seu, então pode gerar algum estranhamento, pela aparência e características que você já está acostumado no seu corpo e não vai encontrar nesse. É o que se chama de disforia. Mas oferecemos acompanhamento na clínica para isso.
— Ah, corta essa, doutor — Lucas adotou um tom jocoso. — o que eu posso estranhar? Ele é feio? Estranho? Baixinho talvez… ah, já sei: tem o pinto pequeno.
— Não tem pinto.
Keller não tinha um traço de ironia sequer em sua voz. Falava sério. Lucas fechou a cara, recuou-se na cadeira e inclinou a cabeça ligeiramente, da mesma forma que um cachorro que tenta entender o que seu dono faz. O silêncio reinou por alguns segundos.
— Como é que é? — A voz que saiu era mais grossa que a de um locutor de rádio.
— É um corpo feminino, Lucas. Infelizmente, corpos masculinos demonstraram, nas primeiras tentativas, ter um maior risco de rejeição, pelo nível mais elevado de testosterona. Mas lembre-se: é temporário, e é sua única chance de voltar à sua vida normal.
— Mas doutor… virar mulher? — Lucas estava resignado. Colocou as mãos contra a região do púbis, instintivamente. A voz afinou com a aflição — que loucura é essa?
— Veja bem, Lucas — Dr. Keller se levantou da cadeira, andando até uma estante com alguns livros acadêmicos, pondo-se de costas para o paciente. — o seu corpo é apenas uma ferramenta, um avatar, com o qual você interage com o mundo. O que importa mesmo é o seu ser, sua identidade. Isso, pelo que a neurociência entende, está no seu cérebro. Você pode ser desconectado do corpo, mas não vai deixar de ser você por isso. Não é empolgante? Já ouviu o mito do barco de Teseu? É a mesma coisa — ele se virou para Lucas, olhando-o nos olhos — pense nas possibilidades: vida eterna, plugar o cérebro em uma simulação, a cura da disforia de gênero para as pessoas trans. O futuro, sem os limites corpóreos, é muito promissor!
— E se não der certo? Eu fico preso nesse corpo novo?
— Bem… há sempre essa possibilidade. Nada é completamente livre de riscos. Mas não é melhor ter uma esperança? A medicina está muito avançada hoje em dia. Não se preocupe — Keller tentava ser persuasivo, de forma sutil — Sabe, tem pacientes que gostaram tanto do corpo novo que não quiseram regressar. Fica sempre a critério deles.
Lucas se levantou e se dirigiu à porta, com muito menos confiança do que tinha quando entrou na sala. Parecia uma criança acuada.
— Eu… eu não sei se eu consigo fazer isso. É muito radical para mim.
— Eu entendo perfeitamente. À primeira vista, parece assustador — o doutor disse com muita calma e cortesia — pense com calma, Lucas. É o que posso te oferecer. Se mudar de ideia, sabe onde me encontrar.
Mais tarde, naquele dia, Lucas chegou em seu apartamento. Já era noite. Não acendeu as luzes, nem comeu nada. Sentou-se no sofá. Respirou. Olhou para o chão escuro por longos minutos.
O breu apenas foi quebrado quando ligou a televisão. Uma reportagem passava no Globo Repórter sobre a longevidade em uma vila no interior do Japão. Novamente, o acaso parecia lhe mostrar, ironicamente, um futuro inalcançável. “tá maluco, deixar de ser homem pra viver mais alguns anos”, pensou.
Levantou-se e andou lentamente até a estante. Pegou um álbum de fotografias de sua infância. Talvez algumas lembranças felizes o animassem. Sentou-se novamente. Folheando o álbum de trás para frente, passou por sua formatura no Colégio Santo Agostinho, suas viagens a Orlando, suas festas com amigos que não via há décadas.
A viagem pelo passado era acolhedora. Sentia-se um pouco melhor. Viveu, realmente, uma vida confortável. Não se envergonhava daquilo. Para ele, era apenas uma circunstância. Uma feliz coincidência. Não se via como privilegiado. Afinal, teve que batalhar muito para chegar na posição que conquistou. Seu sucesso, imaginava, era merecido.
A nostalgia, porém, deu lugar novamente à angústia ao virar a página e chegar em um de seus primeiros aniversários. Viu-se bastante criança, com uma roupa colorida, no colo da Tia Lurdinha, que o segurava com dificuldade devido à idade avançada. Lembrou-se de sua morte difícil, acamada, sem falar e sem reconhecer seus familiares, sendo acompanhada por um cuidador 24 horas por dia. Uma das primeiras vezes que encarou a morte na vida. Foi confuso. Triste. “Esse sou eu em seis meses”, pensou. O coração acelerou com a adrenalina.
Pensou em voltar à praia do flamengo no dia seguinte. Ver aquele pôr do sol o quanto pudesse, principalmente depois que não aguentasse mais ir aos happy-hours no Baixo Leblon.
Ainda com a memória da tia, olhou para a imagem do senhor japonês de 104 anos na tela. Sua voz encoberta por uma dublagem em português. Tudo se embaralhou na cabeça. A paz que ele buscava nas lembranças não foi alcançada. A mente rodava, mais rápido do que nunca. A tia morta. O pôr do sol. O velho japonês. A tia, o sol, o velho. A tia, o sol…
Pegou o telefone. Ligou para o Dr Keller.
Capítulo 3 – Preparação
O Nosso Bar era um rooftop elegante, com vista para a Praça Nossa Senhora da Paz. Calmo e sem música alta, dá pra conversar tranquilamente. Fora, inicialmente, um restaurante, modificou suas atividades após dificuldades financeiras causadas por um incêndio. O espaço era pontilhado por cadeiras e mesas coloridas e suas paredes brancas eram iluminadas por LEDs igualmente coloridos. Não era o lugar costumeiro para Lucas e Gabriel esquentarem a noite antes das baladas. Não dava a impressão de ser um lugar onde as mulheres se impressionariam com um relógio Hublot ou Tissot, um perfume Carolina Herrera ou a chave de um BMW.
— Que porra de lugar é esse? — Gabriel, sem conseguir esconder o descontentamento, cumprimentava o amigo. Chegou cedo. Sentado em uma mesa, bebia lentamente uma margarita. Usava um blazer esporte por cima da camisa social branca.
— Um lugar mais tranquilo — Lucas se sentou. Olhou para o garçom — uma caipirinha, por favor?
— Por que um lugar tranquilo? Para morrer de tédio?
Lucas tentou deixar a situação um pouco mais confortável. Falou em um tom sereno.
— Bem, eu queria conversar um pouco. Acho que estou precisando.
— Vai me pedir em namoro? — Provavelmente, Gabriel percebeu que estava sendo um estraga prazeres e tentou melhorar o clima também. Lucas reagiu com um sorriso contido. Respondeu de forma igualmente leve.
— Se tem alguém aqui querendo namorar outro homem, com certeza não sou eu — deu uma pausa de alguns segundos, com uma respiração longa. Seu semblante mudou. Apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Eu fui no médico ontem. Acho que estou com um problema meio complicado.
Gabriel riu. Deu de ombros.
— Ihhh… pegou uma paradinha de alguma piranha.
—Não, cara. Eu… tenho algo na cabeça. Talvez precise de um tratamento mais pesado.
— Como assim — finalmente, Gabriel percebeu que o amigo falava sério. Falou mais baixo, quase sussurrando — câncer? — Olhou para o garçom, erguendo a taça vazia — traz outra?
— Não… não sei. Vou ser direto. Acho que preciso tirar um sabático. Sair por aí, esquecer um pouco esse susto, processar as coisas.
— Não brinca — Gabriel voltou ao tom jocoso — as mulheres do rio de janeiro não são mais o suficiente pra você? Porra, logo agora que você está por cima da carne seca…
— eu sei. Mas é rápido. Alguns meses. Eu faço essa viagem, esfrio a cabeça, faço o tratamento, volto pronto pra outra. O que você acha?
— Bem, se é o que vai te ajudar… faz o que você achar melhor. Era só isso que você queria me dizer?
****
Lucas entrou em casa. Fechou a porta e ficou alguns segundos parado, com as costas contra ela. Um pouco arrependido por ter marcado a conversa com Gabriel. Se sentiu estúpido por ter pensado em algum momento que seria produtivo. Dentro daquela cabeça só devia ter pensamentos sobre álcool e sexo. Bem, não que ele fosse diferente, mas não se considerava tão fútil. Ainda tinha alguma substância. Pensava, por exemplo, em negócios, dinheiro, e tinha ambição. E era essa ambição que, mesmo nesse momento de dificuldade, lhe moveria. Estava na hora de colocar o plano em prática.
A ideia era voltar para a empresa, na forma feminina que assumiria. Todos pensariam que ele estaria viajando, em outro continente. Poderia, imaginou, espionar seus colegas. Saber quem conspirava contra ele, quem realmente o defendia. Saberia coisas que talvez não passassem por ele. Poderia ganhar poder, seria imbatível. Talvez, se tornasse o novo CEO. O homem deu um longo suspiro antes de prosseguir.
O primeiro passo seria redigir um e-mail, que enviaria para a mailing list da empresa. Dizia que, por motivos de força maior, adiantaria suas férias e ficaria alguns meses ausente e, enquanto isso, selecionaria algum representante externo, um neutral party, para tomar conta de seus interesses. Agradecia a compreensão. Atenciosamente, Lucas Costa.
Pairou com o dedo por sobre o botão Enter por alguns segundos. Se enviasse, não teria mais volta. Resolveu apertar de uma vez. Ficou com medo de que, se pensasse demais, desistisse.
Agora, precisava das bases dessa persona. Um endereço, um CPF. A clínica ajudaria a cuidar disso. Era parte do contrato. Proteção total da identidade dos pacientes. Optou por terminar de escolher o nome quando já estivesse com o corpo novo. Queria algo que julgasse coerente com a aparência, que ainda desconhecia. Mas, de qualquer forma, estava engatilhado.
Dali a uns dias, marcou um horário com um corretor de imóveis. Disse que seria o fiador de uma conhecida que viria trabalhar na cidade e precisava alugar um apartamento. Visitou um quarto e sala em Copacabana, na Rua Siqueira Campos. O local era bem diferente de onde ele morava. Mais caótico. Barulho de trânsito, das pessoas e das lojas na rua. O apartamento era minúsculo, mal decorado, com manchas de umidade e mofo mal cobertas com tinta branca barata nos cantos das paredes. Lhe dava ojeriza. Mas, pensou, ajudaria a entrar melhor no personagem. Não faria sentido que sua representante compartilhasse o mesmo endereço, ou mesmo que tivesse status social comparável. Resolveu fechar o contrato. Ao sair, parou sob a soleira. Observou o local por alguns segundos. Aquela seria sua casa nos próximos meses. Fechou a porta lentamente, com bastante cuidado.
****
— Que bom que chegou, senhor Costa. Quase tudo pronto — o dr. Keller o esperava no corredor, fora do elevador. Mesmo esquema: mesma sala de espera vazia, mesmo enfermeiro. Mas o destino era diferente. O terceiro andar tinha alguns quartos e uma bancada de enfermagem. Uma ala hospitalar em miniatura. Ao final do corredor, uma grande porta dupla metálica. As paredes em tom marfim, o chão azul. O doutor abriu a porta de um dos quartos, fazendo sinal para Lucas entrar.
— Fique à vontade. Terá algumas horas para se aprontar.
Lucas, ainda um pouco tenso, tentava processar tudo aquilo. Quanto mais o momento se aproximava, mais parecia surreal. Entrou no quarto em silêncio. Percebendo a preocupação do paciente, Keller tentou intervir.
— Acha que te acalmaria um pouco se eu explicasse novamente o procedimento? Para te assegurar que é seguro?
— Pode ser — respondeu, seco.
Logo, a penumbra do quarto foi quebrada pela luz do aparelho de TV. Um vídeo com uma animação 3d de um corpo humano, com destaque para o cérebro, começou a rodar.
— Então, Lucas. Vamos abrir sua caixa craniana com a ajuda de um equipamento robótico. Não se preocupe, é extremamente preciso. Não fica cicatriz nenhuma. Depois, desconectamos seu encéfalo da medula espinhal. Usamos um nano-bisturi a laser para seccionar os neurônios, com muito cuidado. Em seguida, transferiremos o encéfalo para o corpo provisório, religando neurônio a neurônio, em seu determinado lugar. É um processo demorado, e talvez você precise de uma sedação por alguns dias, enquanto o seu cérebro e o corpo se habituam um com o outro. Dentro de alguns meses, revertemos o procedimento. Se sente mais calmo agora?
— Acho que sim — mentiu. Mas não queria parecer covarde.
— Olha só. Pense nisso como uma fase. Um estágio no processo para alcançar, talvez um dia, a imortalidade. Em pouco tempo, terá seu corpo de volta, novinho em folha.
Lucas respirou fundo, ainda desconfortável.
— Acho que… preciso de um tempo sozinho para me preparar.
— Claro, sem problemas — o doutor saiu, desligando a televisão. O homem, agora, se viu só naquele quarto escuro. Respirou fundo. Meditou sobre as palavras do médico. “É temporário”, repetiu mentalmente várias vezes.
Foi até o banheiro. Olhou o rosto no espelho por vários minutos. Quis reparar em cada detalhe. Cada poro, cada fio de barba. Os pequeníssimos vasos sanguíneos no branco dos olhos. Queria lembrar, para conferir quando recebesse de volta.
Em seguida, lentamente, seu olhar se desviou para baixo. Queria aproveitar o pouco tempo restante para se despedir daquele corpo. De algumas partes, em especial. Despiu-se. Colocou-se sob o chuveiro. Tomou o banho mais demorado de sua vida.
Quando o enfermeiro voltou, estava deitado, o avental médico colocado. Ele pegou seu braço muito delicadamente, apesar da corpulência. Lucas sentiu uma leve pressão quando foi introduzido o cateter periférico em sua veia cefálica. Em seguida, foi requisitado a abaixar seu avental. O enfermeiro, então, colou alguns eletrodos em seu torso. Depois, foi orientado a se deitar em uma maca. Foi levado, finalmente, até o final do corredor.
A maca atravessou a porta metálica. Lucas se surpreendeu ao ver que adentrara um centro cirúrgico completo. O prédio era muito maior do que aparentava pela fachada. Seu coração palpitou um pouco ao ver as grandes luzes redondas pendendo do teto. Foi colocado na mesa, a cabeça embaixo de um grande robô, com vários braços pontudos mirando ameaçadoramente para ela. Um feixe de laser traçava uma linha vermelha em sua testa. Ao virar para o lado direito, além de ver as várias telas na parede, que auxiliariam no procedimento, ainda desligadas, notou uma maca. O cobertor verde cobria a óbvia silhueta de um corpo humano. Fios e tubos saíam por debaixo dele, se conectando a monitores e máquinas. Aquilo o deixou um pouco mais espantado.
A observação foi interrompida por Keller, usando uma máscara cirúrgica e segurando uma seringa, preenchida por uma substância branca e leitosa. Propofol.
— Fique tranquilo. Está em boas mãos. Vai sentir uma ardência no braço agora — o médico injetou a seringa no acesso, Junto dele, o enfermeiro e mais uns dois assistentes que ainda não tinham se apresentado. Eles amarravam seus braços nos suportes da mesa. Lucas, agora, estava com o coração saindo pela boca. O monitor cardíaco não deixava esconder. Mas não iria ser fraco a ponto de desistir de última hora. Keller colocou a máscara em seu rosto. O mundo foi, aos poucos, ficando mais distante.
— Respire fundo agora, Lucas — o doutor estava inabalável — conte comigo: 10, 9, 8…
FIM DO ATO I
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