EntreContos

Detox Literário.

O Caso Fran (Günther Miranda)

Aquele ruivo estava em sua mesa funcional lendo seus e-mails na DH Capital (Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro) naquela manhã de 04 de novembro de 2013, escaldante, fazendo-o pensar no último final de semana, com sua esposa Lana e suas filhas em Gramado, sua terra natal, até que teve suas lembranças interrompidas pelo seu colega policial Gerson:

-Temos um problema.

-Sempre temos problemas… Aqui é um lugar que nunca chega uma boa notícia… Por isso somos policiais!

-Sem ironias. O delegado Matheus quer uma solução para o desaparecimento de uma mulher.

-É gostosa? Bonita? Tem dinheiro? O marido…

Gerson, de pouca estatura e parecendo ridículo dentro de um terno cor “azul calcinha”, franziu a testa e interrompeu Marlos:

-O marido dela é um famoso jogador de futebol do Fluminense, o “Kassita”. Olha só, o Fluminense é o time do delegado.

Marlos fechou a tela de suas mensagens e fotos enquanto Gerson sentava-se, deixando sobre a mesa papéis que ainda cheiravam o toner da impressora.

-Bem… Temos que trabalhar! Justificar nosso salário! O que temos aí?

Gerson começou a folhar os papéis e resumir suas informações:

-O nome dela é Francisca da Mata. Pai não declarado, mãe Geralda da Mata, nascida em 26 de fevereiro 1991 na cidade de Joinville. Ruiva, 1,70m de altura, seios e coxas fartas…

Marlos interrompeu:

-É a mulher do atacante…

-Isso mesmo. É determinação do delegado que nem o nome dele seja pronunciado.

-Tudo bem. Desaparecida onde?

-Local incerto. A amiga dela (folheia seus papéis)… Jussara Mendonça, moradora do Catete, foi a comunicante da ocorrência. Disse que tentava ligar para “Fran”…

-“Fran”?! Esse nome não me é estranho…

Gerson retirou a cópia da capa de uma revista masculina onde a desaparecida demonstrava-se parcialmente nua o que fez lembrar de onde ele havia visto o nome da envolvida.

-Lembrou?

-Essa revista é sua? Caramba: você é um homem evangélico e fiel a sua mulher, e apenas a capa da revista não ficou colada?!

Sorriram.

Gerson continuou:

-Como eu ia dizendo, desde o dia 21 de março, quinta-feira, Fran não respondia os telefonemas de Jussara o que a motivou no dia 27 ir à delegacia. Mas tem muito mais coisa aí…

-Como, por exemplo…

Gerson folheou outras páginas.

-Fran tinha um filho com o tal jogador que não foi registrado pelo pai… Ela movia um processo de reconhecimento de paternidade e pensão alimentícia.

-E?

-Aproximadamente seis registros de ocorrência por injúria, ameaça, lesão corporal denunciadas por ela contra ele segundo a Lei “Maria da Penha”.

-E começamos por onde?

-Vamos fazer o básico? IML, hospitais, manicômios?

-Vai você.

-Por que eu?

-Sabe que se eu entrar no Pinel eu não saio.

-Tá bom… E você?

-Vou conversar com a Jussara.

Depois de ter ligado para a amiga da vítima, Marlos chegava, suado dentro de seu terno, no prédio do alvo de suas perguntas.

Identificou-se ao porteiro daquele prédio luxuoso que, com um sorriso maroto, franqueou sua entrada no condomínio.

Chegou até a porta de Jussara, tocou a campainha e, após algum tempo, a porta abriu-se mostrando uma mulher alta, loira, encorpada, trajando um “baby doll” negro, transparente, que acentuava mais seus dotes.

Marlos pôde notar uma tatuagem no omoplata direito dela, com o dizeres sobre um coração: “Para o amor e para a dor”.

Marlos:

-Prazer, inspetor…

-Ainda nem transamos e já é um prazer? (sorriu) Entre.

Depois de fechar a porta do pequeno apartamento, o policial foi sentar-se de frente á linda mulher que ainda bocejava.

-Então, policial, tem o mandado?

-Não, é apenas…

-Sou muito fiel às leis… (ela cruza aquelas enormes penas) Até mesmo porque dizem que a lei é dura.

Marlos ficou hipnotizado vendo aquelas pernas, mas seu fascínio foi interrompido pelo toque de seu celular anunciando uma mensagem de Lana.

Com isso, lembrou-se de sua missão:

-Bem… Estou aqui pelo desaparecimento de Fran. O que pode me dizer?

-Tudo que já disse na delegacia: ela sumiu.

-Ela tinha familiares, amigos, alguém que poderia recebe-la por alguns dias?

-Não. O pai ela nunca conheceu. A mãe faleceu alguns anos atrás. Era filha única…

-E amigos?

-Ela somente tinha a mim de amigos.

-Amigos ou amiga?

-(sorriu) Fran veio pro Rio para trabalhar em um restaurante de uns gaúchos em Copacabana… Mas sabe, mulher bonita aqui no Rio ganha mais trabalhando menos…

-Prostituição?

-Não: fazer gostoso para receber bem.

-Você era a cafetina dela?

-Não, a gente era colega! Sabia que a gente até fez um filme? “De bundas para o ar”. Ia até ter continuação mas ela começou a namorar o jogador…

-E como era esse namoro?

-Horrível: ele maltratava muito ela! Chamava ela de piranha… Batia… Ameaçava ela… Acho que ele…

-E como era a relação entre ele e o filho de Fran?

-Esculhambava o menino: nunca o reconheceu!

-E onde ele está?

-Pedro? Está com a minha mãe em Santa Maria.

-Rio Grande do Sul?

-Isso. Olha seu polícia…

-Marlos.

-Sabe, eu prefiro policiais á jogadores de futebol… Vocês nos protegem…

-Obrigado.

-Mas, acho que ele, o Kassita…

O ruivo a interrompeu:

-Matou?

-O senhor sabe que…

-Eu já sei muitas coisas… Obrigado pela sua atenção.

-Em verdade eu queria dar é tesão para você…

Novamente o telefone de Marlos tocou.

Dessa vez, o gaúcho desligou o celular.

Já era meio-dia e Marlos almoçava em sua mesa funcional, olhando atentamente a tela de seu computador, quando foi tomado de um susto: o delegado Matheus, um mineiro de forte sotaque, baixo e gordo, interrompeu sua aficionada atenção.

-Vendo filme de sacanagem a essa hora?!

-Não… (tentava desligar o programa) Veja bem… Isso é um indício do caso Fran.

-Isso é putaria! Mas tem bom gosto… Eu não sei quantas vezes eu já vi esse filme… Gostosa.

-Gostosa que joga em todas as posições contra qualquer adversário!

-Mudando de assinto, viu o noticiário de hoje?

-Não… Eu estava…

O delegado sorriu e respondeu sua própria pergunta:

-Eu vi. Jussara, a amiga e colega de filmagem da Fran, está agora, ao vivo, clamando por Justiça no prédio da Polícia Civil.

-Isso quer dizer o quê?

-Que a chefe de polícia já me ligou e quer abertura de inquérito por homicídio.

-Sem corpo? Isso vai dar ruim.

-Já deu. Cadê o Gerson?

-IML, hospitais… Fazendo o padrão.

-Até o final do dia quero respostas.

-Preciso falar com o jogador.

-Você pode falar até com o Papa! Eu quero uma solução para isso!

-Pode ser até quarta-feira?

-(com raiva) Não.

Enquanto Matheus voltava à sua sala, Marlos pensou: “Bem, vamos para Laranjeiras!”.

A tarde continuava quente como havia sido a manhã.

Identificou-se na sede do Clube Fluminense e foi até a área de treinamento dos jogadores acompanhado de um dos advogados do clube, Felipe.

Logo chegou “Kassita” à sala onde o ventilador bravamente combatia aquele calor infernal.

-Bom dia, policial.

-Bom dia.

Felipe:

-Olha só, Kassita, você não é obrigado a falar nada. Aliás, se não quiser a gente pára por aqui!

-Tudo bem, doutor. Eu não devo nada!

Marlos:

-Como era sua relação com a Fran?

-Uma porcaria: pra começar a gente não era casado. Ela não era 110%!

-Mais uma piriguete?

-Uma “Maria Chuteira”! 110% “Maria Chuteira”!

-E o filho dela é seu?

Felipe:

-Essa pergunta é irrelevante ao processo penal.

-Quem sabe disso sou eu, (tom irônico) senhor bacharel em Direito.

Kassita:

-Tudo bem, doutor. 110% não. Não era meu! Mesmo assim eu depositava todo o mês parte do meu salário. Até dei uma casa para ela em um condomínio na Barra.

-E por que deu isso para ela?

-Para ela parar de me incomodar: ela é 110% problema!

-Que tipo de problema?

-Todos! 110%!

-Alguma vez agrediu ela… Fisicamente… Ou com palavras?

-110% Nunca!

Felipe:

-Isso é outra causa que estamos trabalhando junto à DEAM (Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher). A intenção clara de Fran era chantagear Kassita tanto no clube como em sua carreira. Ele mesmo já realizou três jogos pela Seleção Brasileira.

Marlos:

-Entendo… Bem, mas, por que não se afastou dela?

-Porque ela é 110% gente fina ao mesmo tempo. Ela é assim tipo como eu, que veio lá de baixo.

Marlos apenas pensou: “E ambos usam o corpo para sobreviver na vida…”.

Kassita continuou:

-Olha só, eu fiz o máximo para ajudar a polícia mas eu tenho que voltar ao meu treino porque tô 110% empenhado no campeonato brasileiro, na Libertadores da América e na Copa.

-Nota-se. Obrigado.

Enquanto saía, Marlos pensou: “E eu estou 110% enrolado nesse caso…”.

Marlos já estava voltando à base da DH quando recebeu a ligação de Gerson:

-Oi.

-Companheiro, acabei de sair do condomínio da Fran. Adivinha o que eu descobri?

-Não faço ideia.

-Jussara fez a mudança da amiga. Sabe que dia?

-Muito menos.

-Cinco de março. Como ela faria o registro de ocorrência dia 27?

-Estranho… Ainda estou aqui em Laranjeiras… Passa aqui, temos uma campana para fazer…

Gerson demorou algum tempo até chegar a pé, ao outro lado da rua do bairro do Catete, em um bar vulgarmente qualificado como “pé sujo”, onde Marlos esperava seu colega naquela tarde de sol infernal.

-E aí, Marlos. Alguma novidade?

-Nada. Temos que saber se Jussara está lá.

Gerson abriu sua carteira, viu um papel, sacou seu telefone e discou.

Uma voz feminina foi ouvida no “viva voz”:

-Oi.

O policial rapidamente desligou.

Marlos:

-É ela. Como teve essa ideia?

-Quando a gente quer falar com alguém, liga-se.

-Irei me lembrar.

A noite havia chegado e a viatura, descaracterizada, testemunhava através dos restos de guardanapos e copos descartáveis que os policiais haviam se alimentado naquele estabelecimento, que apenas restaurava a má fama dos “pés sujos” cariocas.

Enfim, a loira saía do prédio com seus cabelos soltos, dentro de “tubinho” preto, bolsa prateada e sapatos de salto alto (que a deixavam maior que sua natureza).

Ela deu sinal para um táxi e não demorou muito para que dois parassem.

Jussara entrou no primeiro e logo Marlos exclamou:

-Siga aquele táxi!

Gerson:

-Tinha que usar essa expressão de filme “B” dos anos 50! É claro que vou seguir!

Transitaram sem serem percebidos até a Ilha do Governador.

Quase a perderam nas tortuosas ruas do bairro Jardim Guanabara.

Mas conseguiram vê-la desembarcar do veículo em frente a uma casa, de muro alto e azul, com dois homens de ternos pretos como cães atentos na porta de entrada.

A loira tirou de sua bolsa uma máscara com uma pluma vermelha, em tons pretos e prata. Vestiu-a, acariciou a face de um dos seguranças e entrou no recinto.

Marlos olhou para Gerson.

-Não tenho máscara para entrar aí.

Gerson ficou pensativo.

-Improvisar.

Ambos desembarcaram, foram até o porta-malas da viatura e Gerson abriu uma grande bolsa.

Perguntou, enquanto trocava de camisa:

-Quer ir de Zorro?

-Tem outra opção?

Depois de ter vestido uma camiseta cinza, colada ao corpo, (do tipo “mamãe quero ser forte quando crescer”), rasgou parte de uma camisa preta, fez dois furos, e amarrou aquela máscara improvisada na cabeça do ruivo.

Gerson despiu-se de sua calça jeans, trajando então uma de couro, calçou botas cano baixo e colocou sua pistola PT940, no coldre de tornozelo.

Marlos:

-Sempre sai da delegacia com isso tudo?

-A gente nunca sabe.

Ambos começaram a caminhar em direção da porta e, próximos da entrada, um dos seguranças os parou.

-Por favor, convites.

Marlos sacou uma fina carteira, apresentando sua identidade funcional e distintivo.

Segurança:

-Tem o mandado?

-Não

Gerson, tentando afeminar sua grossa voz, declarou-se.

-Já falei para parar com essa mania de dar “carteirada” em todo mundo! (deferiu um tapa no ombro do ruivo) Esqueci em casa os convites… Esse bofe sempre me apressa!

Segurança:

-Homens somente entram com convite.

Gerson bateu três vezes o pé ao chão, dando “chilique”:

-Isso tudo é porque sou gay?! A “mocreia” pode entrar sozinha, eu e meu amor não podemos… (grita) É isso? Isso é homofobia! Você é H-O-M-O-F-Ó-B-I-C-O!

-Calma minha…

-Minha nada: sou senhor! Senhor Gerson! Muito GAY! O juiz está aí? Eu quero falar com o juiz! O delegado tá aí? Eu sei que tá! Chama o delegado!

-Calma… Por favor… Desculpem o incômodo…

-Hum… (pisca para o segurança).

Os policiais já haviam entrado quando o segurança perguntou:

-Com licença, o senhor está fantasiado de quê?

Gerson, falando normalmente, respondeu:

-Bichona.

O interior da casa era de paredes brancas, suprimidas por cortinas vermelhas e pretas, uma grande sala cercada por pequenos cômodos que tinham os atos de seus ocupantes protegidos apenas por cortinas.

Todos pareciam esconder suas identidades; serviçais e convidados. Todos mascarados, com exceção de Gerson.

Garçons, de ternos brancos e máscaras negras, serviam petiscos e bebidas enquanto os convidados, envolvidos naquele bacanal, bebiam, comiam e expressavam suas taras protegidos atrás de máscaras, onde o virtuoso senhor demonstrava-se um devasso, e a aparente mulher casta, uma rampeira.

O ambiente era iluminado por luzes de vela, que eram sugadas, neutralizadas pelos panos em tons escuros; além de serem poucas, propositadamente, ainda eram apagadas pelos convidados.

Marlos:

-Algo me diz que encontraremos as duas aqui.

-Com todo mundo mascarado, como vamos achar a Fran?

-Ache uma e acha a outra.

-Beleza, eu vou pela direita.

-Por quê?

-Quero ir ao banheiro… Essa calça está me matando.

Gerson ia rapidamente ao banheiro enquanto Marlos começou a caminhar naquele ambiente escuro e perfumado.

Passando por pessoas que o faziam lembrar políticos, autoridades do Judiciário e tantas outras, ia vendo todos se divertirem, embalados pelo alto volume de música executada por violinos, celos e flautas.

Teve sua atenção tomada ao ver uma mulher ruiva, em um tubo preto, com uma máscara preta e prata, com uma pluma azul.

Reparou mais um pouco e viu, sobre o omoplata esquerdo, uma tatuagem: um coração com os seguintes dizeres: “Para a dor e para o amor”.

Pensou: “Eu já vi essa tatuagem…”.

Olhou a mulher de costas caminhar de forma lenta e sensual em sua frente.

Não tinha como pensar outra coisa além de “gostosa”.

“Gostosa foi a Jussara…”.

Marlos lembrou-se de quando transou com Jussara…

“Que loira linda… E aquela tatuagem…”.

Reviu a tatuagem próxima do ombro direito que decorava singelamente aquele corpo perfeito: um coração preto com os dizeres na cor branca da pele: “Para o amor e para a dor”.

Marlos ia tocar o ombro da ruiva quando ouviu Jussara sussurrar em seu ouvido, sentindo uma ponta fina em suas costas:

-Nem pense nisso. A gente só quer o seguro de vida. Já vendemos a casa da Barra e vamos nos mudar para fora do país.

-Não precisava acabar com a carreira do Kassita.

-Mais um jogador otário! Tem mais que se fuder!

Marlos viu Fran se virar e tentar correr entre os presentes.

O ruivo nada podia fazer…

Sentiu um cutucão com o objeto perfurador e a ordem:

-Vamos para um reservado,

Começaram a caminhar entre os convidados.

-Por que Jussara? O que é essa raiva toda?

-(grita) Eu não tenho raiva.

-Tem sim… É mais velha, mais acabada que a Fran. Viu nela a chance de se dar bem… Deve ter tentado alguma coisa com algum jogador de futebol e não conseguiu nada.

-Consegui contigo! Por que não conseguiria com um otário rico?!

-Por que puta e “puliça” se atraem… Mas nunca ia conseguir algo de um empresário… Acho que até tentou um golpe da barriga sem sucesso…

-Como sabe?

-Então ensinou direitinho para a Fran.

-Ela foi uma boa aluna… Mas ela estava se apaixonando por ele, e isso acaba com a carreira de qualquer piranha.

-É assim que se vê?

-Apenas negócios.

Eles já iam chegando a uma sala reservada, apenas encoberta por uma cortina nas cores rubro-negras.

Marlos abriu a cortina e viu correntes, chicotes, máscaras de couro e coleiras penduradas nas paredes vermelhas, iluminadas pelo fogo em uma lareira, com atiçadores mergulhados nas labaredas.

-Vai me matar aqui?

-Isso é um clube de sadomasoquismo… Ninguém irá ouvir seus gritos e se ouvirem, ainda irão bater palmas…

-Eu tenho mulher! O que ela vai pensar de mim eu morto aqui?!

-Aposto que não pensou nisso quando a gente transou em minha casa… Entre.

Ela cutucou o policial chegando a ferir levemente sua pele.

-Sabia que a camisa é cara?!

-Entre.

Marlos pensou: “Preciso ganhar tempo… Onde está o Gerson?”.

O policial indagou:

-Preciso saber algo: e o menino?

-Está com meus pais.

-E Fran? Não ficará com ele?

-Crianças na vida de prostitutas só causam problemas. Ele ficará bem: logo começará a receber a pensão do Kassita.

-E seus pais também, não é?

-Todos ficarão felizes.

Marlos pensou: “Só eu que não…”.

O policial acabou forçado pela ponta do objeto.

Jussara vai conduzindo o policial até ele ficar próximo da parede onde correntes com grilhões estão presas.

-Mãos ao alto, seu policial.

Marlos ironizou mentalmente: “Quem devia falar isso era eu…”.

-E como fará para escapar dessa?

-Eu fiz há seis meses um seguro de vida da Fran para mim, uma boa quantia. O suficiente para pagar a nossa fuga daqui e nos mandarmos para fora do país.

-Europa tem tratados de extradição.

-Nova vida, novas identidades…

Marlos interrompeu:

-E a profissão mais antiga do mundo… Continuará a “cafetinar” a ruiva?

-Talvez… Japão paga bem…

-E depois?

-O futuro só a Deus pertence… Vai logo, coloque as mãos nas algemas! Primeiro serão as chicotadas, depois as queimaduras a ferro quente e, sem querer, eu acabo te furando e assim você…

Ouviu a voz de Gerson:

-Atrapalho algo?

Ouviu o som de uma porrada e de ossos estalando.

O gaúcho deixou de sentir o objeto pontiagudo em suas costas; olhou para trás e viu seu colega já algemando a loira caída, e a pequena faca ao chão.

-Porra, Gerson, demorou!

-Tava dando meu telefone para um deputado federal…

-Espero que tenha sido só o telefone…

-Vou chamar apoio policial, vai atrás da outra.

Marlos pensou: “Agora só a falta a bonitona…”. Correu atrás da beldade de cabelos cor de fogo.

Eram duas horas da manhã do dia 05 de novembro de 2013.

Jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas lotavam a sala de reunião da DH que tinha em frente ao “banner” quadriculado as duas beldades, alvos de fotos e perguntas dos repórteres, enquanto, ao lado delas, o delegado Matheus posava orgulhoso nas fotos.

Ali próximo, uma repórter noticiava: “O desaparecimento da atriz, modelo e namorada do jogador Kassita, que teve um filho com ele e estava sumida desde o dia 21 de março, em verdade, com apoio de sua amiga, executava um plano de golpe de seguro de vida, prostituição…”.

Gerson olhou para Marlos, sorriu e disse:

-A gente mata o leão e ele que fica com a juba. Por que não desconfiou do jogador?

-Ele me pareceu ser gente boa… Não se recusou em responder minhas perguntas apesar das orientações do advogado… Não podia ser ele.

-E o que te fez pensar que era a Jussara?

-Foi muito amigável…

-Comeu?

Marlos apenas ficou em silêncio…

Gerson:

-Comeu sim… Infiel! Bem, as duas serão autuadas em falsa comunicação de crime e quando saírem da grade irão para fora do país…

-O Kassita terá a guarda da criança e disputar a Libertadores da América e Copa do Mundo… Todos felizes, até você…

-Eu? Por quê? Não entendi…

-Foi difícil bancar o homossexual lá na Ilha?

-(afinou a voz) Sabe bem… Mas não adianta dá mole pra mim que sou difícil…

Os policiais sorriram.

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24 comentários em “O Caso Fran (Günther Miranda)

  1. Pedro Luna Coelho Façanha
    5 de dezembro de 2013

    Achei cansativo demais. A parte com o Kassita falando foi quase uma tortura para ler. De positivo, só algumas sequências bem humoradas.

  2. Leandro B.
    5 de dezembro de 2013

    Achei a leitura um pouco divertida. Algumas situações humorísticas me agradaram, outras nem tanto. Valeu a leitura, mas achei um pouco longe do tema. Também acho que poderia ter um pouco menos de diálogos.

    E, sim, lembrei do Bruno.

  3. Marcelo Porto
    4 de dezembro de 2013

    Gostei do tom do conto, uma história com muito potencial, mas com o desenvolvimento descuidado.

    Os diálogos deram um bom ritmo, porém por serem bem rasos tornou a leitura cansativa. Caberia alguns parágrafos para contextualizar melhor a história e construir melhor os personagens.

    Não achei ruim, com um pouco mais de tempo o autor pode transforma-lo num excelente conto sobre o submundo do futebol, e em tempos de copa do mundo isso é uma grande oportunidade.

  4. Andrey Coutinho
    3 de dezembro de 2013

    Nesse desafio, resolvi adotar um novo estilo de feedback para os autores. Estou usando uma estrutura padronizada para todos os comentários (“PONTO FORTE” / “SUGESTÕES” / “TRECHO FAVORITO”). Escolhi usar esse estilo para deixar cada comentário o mais útil possível para o próprio autor, que é quem tem maior interesse no feedback em relação à sua obra. Levo em mente que o propósito do desafio é propriamente o aprendizado e o crescimento dos autores, e é isso que busco potencializar com os comentários.

    Além disso, coloquei como regra pessoal não ler nenhum comentário antes de tecer os meus, pra tentar dar uma opinião sincera e imediata da minha leitura em si, sem me deixar influenciar pelas demais perspectivas.

    Dito isso, vamos aos comentários.

    PONTO FORTE
    Divertido, bem humorado, bem bolado. Personagens críveis e história verossímil. Dei umas risadas lendo.

    SUGESTÕES

    Ainda precisa de alguma revisão (uns errinhos aqui e ali). Do jeito que está, o texto tá mais com cara de roteiro de peça do que propriamente de um conto. Melhor do que ficar em cima do muro é converter ele para um lado ou para o outro (enxugar e transformar o texto num roteiro propriamente dito, ou adicionar mais elementos descritivos e ação entre os diálogos para ficar como um conto mesmo).

    TRECHO FAVORITO

    “-Com licença, o senhor está fantasiado de quê?

    Gerson, falando normalmente, respondeu:

    -Bichona.”

  5. Alana das Fadas
    2 de dezembro de 2013

    Também li o texto inteiro com a ideia do goleiro Bruno…
    Não gostei da narrativa, com muitos diálogos, bastante cansativa! Ficou devendo em muitos pontos…

  6. Felipe Falconeri
    2 de dezembro de 2013

    O texto parece uma mistura entre o que há de pior de filmes B, novelas das sete e livrinhos de piadas rasteiras. Isso tudo costurado por um pré-adolescente com mais hormônios do que imaginação.

    Inacreditavelmente ruim.

  7. fernandoabreude88
    2 de dezembro de 2013

    Achei meio confuso e truncado pra ler. Gostei da ambientação no Rio, a mistura com o futebol e as putas, pegou um climão meio crônica policial antiga. Acho que com uma melhor organização das informações e alguns cortes, ficaria redondo, pois a história tem potencial.

  8. Agenor Batista Jr.
    30 de novembro de 2013

    Uma distração a mais não fosse a total falta de ligação com o tema. Mas como nossos comentários obrigatoriamente devem se fixar ao Desafio proposto, descarto de imediato, o conto das minhas considerações. No entanto, se o colocarmos no nicho de “contos policiais divertidos” teremos, então, um texto leve e livre de mortes escabrosas, bem-humorado e de fácil digestão. Não o classifico como obra literária mas valeu pela leitura rápida e sem a pretensão de forçar o leitor ao exercício de criatividade para tornar os personagens psicologicamente “enquadrados”. Seja lá isto o que se queira.

  9. emptyspaces11 (@emptyspaces11)
    29 de novembro de 2013

    Nossa… Muitos diálogos. Talvez precisasse de um pouco mais de descrição. Não que eu não goste de diálogos, mas fica tão corrido que cansa. E bem… Também lembrei-me do caso do goleiro…

  10. rubemcabral
    29 de novembro de 2013

    Divertido em algumas partes, mas meio maçante em outras. Alguns diálogos soaram muito clichês. O texto precisa de alguma revisão.

  11. charlesdias
    29 de novembro de 2013

    Um vasto apanhado de clichês com um copia/cola do “De olhos bem fechados” … final previsível. Apenas as risadas na entrada dos policiais no clube valeu a leitura do conto. Boa tentativa, mas não deu certo como noir ou como humorístico.

  12. Thata Pereira
    25 de novembro de 2013

    O excesso de diálogos não me incomodou, o que incomodou foi o modo como foram apresentados, talvez porque não estou tão acostumada com falas tão diretas. O humor presente no texto também me rendeu bons momentos, mas quebra todo o noir. Mas tinha noir? Para mim não, mas até que curti o conto.

  13. Marcellus
    25 de novembro de 2013

    Como comédia, o conto é bom. Mas como “noir”…

    Ao contrário do pessoal, gostei dos diálogos, não achei excessivos. Faltou descrição (o que é bem diferente) e revisão (“mandado”? “rampeira”?). Mas tem material para ser trabalhado, sem dúvida. Boa sorte!

  14. Gustavo Araujo
    21 de novembro de 2013

    É…. Bruno na veia. Pode até não ter sido a intenção, mas é impossível não relacionar. De todo modo, o conto é fraco. Há boas passagens, principalmente aquelas que revelam o lado cômico da situação. Eu também ri, inclusive com a caracterização-chavão do Gerson como homossexual. Mas receio que isso é pouco para um conto noir. Para mim há necessidade de um clima mais pesado, com personagens melhor construídos e descrições mais elaboradas. Se o desafio fosse sobre sátiras, este conto seria forte candidato. Como não é, ficou devendo.

  15. Claudia Roberta Angst - C.R.Angst
    20 de novembro de 2013

    Alguém leu o conto e não se lembrou do caso do goleiro Bruno?
    Grande quantidade de diálogos, o que me agrada, mas também revela uma certa preguiça de caracterizar melhor o cenário e os personagens. Haja imaginação para que o leitor possa criar todo o enredo na sua mente. Narrativa interessante, vale o ingresso e a paciência para esperar o jogo começar. Será adiado?

  16. Jefferson Lemos
    20 de novembro de 2013

    Como já foi dito, lembrei do caso do goleiro Bruno.
    Alguma coisa não colou para mim, faltou algo mais na história, e os muitos diálogos travaram um pouco a imaginação.
    Enfim, eu não gostei, mas espero que outros possam gostar.
    Parabéns!

    • Gunther Schmidt de Miranda
      20 de novembro de 2013

      Agradecido pelas críticas e pelos votos.

  17. Lúcia
    20 de novembro de 2013

    Assim como o Ricardo Falco comentou, eu também lembrei muito do caso do goleiro Bruno, mas achei interessante 🙂

    • Gunther Schmidt de Miranda
      20 de novembro de 2013

      Agradecido pelas críticas.

  18. Masaki
    19 de novembro de 2013

    Achei a troca de diálogos entre os personagens muito interessante. Há momentos hilários (juro eu dei risada). Entretanto, a trama perdeu-se um pouco diante da vivacidade das falas. Descobri, com certa facilidade, o autor (a) do crime. Mas como disse o nosso amigo, Ricardo, vale o ingresso.
    Ps: Sendo de São Paulo, vejo como o Rio de Janeiro é grandioso no cenário literário. Quando digo isto; faço a inclusão de escritores, histórias, leitores entre tantos outros “es” e “as”.
    Por fim… parabéns ao autor!

    • Gunther Schmidt de Miranda
      20 de novembro de 2013

      Agradecido pelas críticas.

  19. Ricardo Gnecco Falco
    19 de novembro de 2013

    Show de bola, Gunther! Como disse, valeu o ingresso! Abraço e boa sorte no Desafio!
    😉

  20. Ricardo Gnecco Falco
    19 de novembro de 2013

    Hmm… Não sei bem como comentar este conto. No começo, achei legal a ideia. Depois, fiquei com o caso do Goleiro Bruno (FLA) na mente, como se o autor tivesse bebido (se embriagado, na verdade) na fonte. Depois, achei que fosse um autor-rubro-negro (tá certo isso? Digo, os 3 traços…) que quisesse imputar a culpa do referido caso aos tricolores (principalmente por causa da sexualidade, digamos, “purpurinada”, retratada no conto).
    Contudo, por último, achei que o autor exagerou na quantidade de diálogos para conduzir a narrativa de sua obra. Apostou demais na imaginação dos leitores, deixando que os mesmos fizessem os cruzamentos imaginados. Na gíria futebolística: o autor “passou a bola” para os leitores; desprezando o fato que os grandes atacantes, em sua grande maioria, têm na verdade é fome de bola!
    Mas, vale o ingresso! 😉

    • Gunther Schmidt de Miranda
      19 de novembro de 2013

      Caro Ricardo. Sou uma pessoa não torcedora que qualquer time de futebol. O que tentei colocar em pauta foi: Há homicídio sem corpo? Como iniciar um procedimento policial de homicído por pressão popular? Não se trata apenas do Goleiro Bruno, mas tantos outros… Outro ponto de crítica foram os diálogos; como realizr questionamentos sem a fala? Como inquerir o envolvido e até mesmo o suspéito sem a conversa detalhada? Aos meus olhos isto é impossível. Mas, na gíria futebolística, todo o chute à gol pode dar certo… Agradecido pela crítica.

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Publicado às 19 de novembro de 2013 por em Noir e marcado .