EntreContos

Literatura que desafia.

Sob as Lápides de Sabara (Rodrigues)

Aconteceu no dia 20 de setembro de 2013. Antes de explicar o fenômeno fantástico ocorrido naquela data, transcrevo aqui alguns trechos de jornais da época que consegui coletar em hemerotecas e coleções poeirentas de veteranos de guerra. As informações são escassas e destaquei as mais importantes, organizadas na ordem dos acontecimentos:

“EXÉRCITO DA SÍRIA MASSACRA CIVIS REVOLTADOS. NOVA PRIMAVERA ÁRABE REUNIU MILHÕES DE PESSOAS. FORÇAS ARMADAS NÃO CONTAVAM COM A RECUSA DE ALGUNS SOLDADOS EM ALVEJAR CIVIS. MAIS DE VINTE MIL SOLDADOS FORAM FUZILADOS POR NÃO CUMPRIREM ORDENS OFICIAIS. DESERTORES FORAM DETIDOS E ELIMINADOS. ONGS INVESTIGAM PARADEIRO DOS CORPOS. GOVERNO ESCONDE NÚMEROS OFICIAIS. RUAS SUJAS DE SANGUE E PÓLVORA. SERÃO TEMPOS DIFÍCEIS, DIZEM ASTRÓLOGOS E VIDENTES”.

Foi um conflito violento. A Cruz Vermelha anunciou a guerra civil e a imprensa avançou nas investigações. Acuado, o Exército Oficial da Síria não podia mais executar os rebeldes abertamente.O número de desertores aumentou. Eles se organizaram criando um grupo autônomo, o Exército Livre da Síria (ELS), e entraram na luta como um braço armado civil.

Porém, um traidor deixou os insurgentes nas mãos do Exército. Em troca de 50 mil dólares em espécie, ele relatou em detalhes o percurso do grupo, que incluía uma série de levantes nos arredores das embaixadas locais. Inadvertidamente, os rebeldes se reuniram em frente ao Cemitério de Guerra de Damasco, na região de Sabara, ao sudoeste da capital. As forças armadas oficiais surgiram de repente e iniciaram o ataque com armamento pesado. Soldados livres e civis se refugiaram dentro do cemitério.

Os fatos ocorridos depois não poderiam ser simplificados com uma descrição objetiva. A literatura mais rica utilizada como fonte sobre os acontecimentos chama-se “Entre as Lápides de Sabara”, páginas de um diário anônimo encontrado nos escombros da cidade após a guerra. As linhas a seguir são parte deste famoso manuscrito e contêm descrições e minúcias daquele dia. Algumas cenas são fortes.

“É o barulho sem fim dos fuzis e das bombas. Os clarões que mancham o céu a todo momento e a poeira grossa que brota entre prédios e mesquitas. Parece uma viagem ruim de ópio. Antes fosse. A boca dos fuzis esfumaça mais do que comunistas cubanos. O sangue espirra no ar e rastros de morte comem o asfalto. Não me pergunte sobre os motivos de eu ter feito parte do chamado ‘20/09’. A resposta pode ser vergonhosa. Primeiro: a sensação de estar no meio de uma rebelião violenta é catártica. O poder de matar. O segundo? Uma mulher, claro.

Sempre tive ódio do governo e queria impressionar Adara. Ela não podia sair de casa, mas dava um jeito de pendurar uma bandeira do nosso grupo na janela enquanto seus pais saíam. Quando eu passava perto do seu prédio cinza e acabado, gritava meu nome e jogava flores na rua. Meu coração batia forte e eu atirava para o alto. Berrava o nome dela também. Soldados escarneciam”.

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O diário foi reorganizado na ordem dos fatos em sua primeira edição, conseguida com esmero em um sebo-móvel. Os dois parágrafos acima geralmente são utilizados com uma espécie de introdução. Algumas editoras publicaram o manuscrito da maneira como foi achado. Segundo Júlio Riveiros, na nota de introdução da recente edição lançada pela Letras em Fúria, “o caos encontrado entre as páginas do diário, que até mesmo sangue continha no papel, só poderia ser publicado em sua forma original, sem cortes ou edições. Ao lermos com rapidez o relato, sentimos um profundo desespero, tememos pelo personagem, assim aguardamos ansiosos pelo final do incidente”.

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“Hoje o ELS vai se reunir com a frente popular e o Jabhat al-Nusra, considerado ‘o braço armado mais violento’ entre os desertores. Alguns protestaram contra essa aliança, mas acabaram aceitando. Antes passei na casa de Adara. Ela chorava e eu não sabia o motivo. Disse que tinha medo que eu morresse. Respondi que muitas vidas estavam sendo perdidas nas ruas. ‘Eu não sou especial. Sou só mais um’. Ela me chamou de insensível. Coisa de mulher. Seus pais chegaram e tive que ir embora correndo. Beijei sua boca. Ela puxou uma corrente que eu usava no pescoço e guardou no bolso do vestido. Me mandei.

Pensei em todos os civis. Fodidos por mais de 50 anos por aqueles tiranos. Marchei com ódio na direção do Cemitério de Guerra. Olhei de longe. Que coisa mais linda. As faixas e bandeiras pretas e vermelhas tremulando. Os fuzis, machados, facas e outras armas reluziam ao calor insuportável. O bafo dos sinalizadores, a fumaça de ervas, e os tambores rufando na multidão de guerrilheiros. Aquilo sim era revolução. Entrei no meio de todos gritando sentenças de ordem e palavrões. A mídia dizia que tínhamos arsenal ‘pesado’. Que piada! No máximo uns lança-foguetes comprados de uns americanos. Fui saudado por alguns, socado fraternalmente por outros. Unidos, atirávamos pra baixo e pra cima. Era o nosso jeito. Ali no meio, era como se eu pudesse levantar um tanque de guerra com uma mão só.

Formamos fileiras. Começamos a marchar e a cantar. Mas algo estranho aconteceu. A linha de frente demonstrou-se desorganizada, os soldados corriam em direções opostas. Nós, da cobertura, ficamos apreensivos e inseguros. O contingente virou um pandemônio. Nisso, um clarão estrondoso tomou conta do céu. Após alguns segundos de surdez e cegueira, estávamos no centro de um furacão de bombas e balas. Desgraçados! O Exército sabia do plano. Vi uma granada desmembrando um velho guerrilheiro. Me juntei a um grupo que ainda mantinha a calma. Corremos para dentro do cemitério. Que jeito irônico de escapar da morte.

Pessoas esmagavam-se na entrada principal. Pulamos os muros e os portões laterais.  A cada grito de desespero e explosão, corríamos mais. Rolei com um sujeito pra trás de uma fileira de lápides. Os campos santos e verdes tinham mais de 20 mil pequenos obeliscos. Todos de guerrilheiros mortos em diversas épocas e batalhas. Defuntos fabricados pela sanha ordinária do nosso governo e pela cobiça de nações exportadoras de armas. Vidas de jovens vendidas como almas-de-gato por uma velha pátria prostituta.

A máquina de matar do governo invadiu o cemitério com todo o seu contingente. Usaram seu arsenal mais poderoso. Covardes! Nem a Frente al-Nusra conseguiu contê-los. Homens com fuzis vinham em nossa direção. Era o fim. Nesse cenário de pesadelo, consegui enxergar um dos nossos caindo dentro de uma cova recém-aberta. Ninguém o ajudou. Ele começou a gritar em desespero. Segundos depois, seu corpo emergiu do buraco nos braços de um homem negro, seminu e com a pele completamente deformada. Vi os ossos de suas costelas à mostra, suas vísceras mofadas balançando. Levantava o nosso guerrilheiro para o alto, urrando ensurdecedoramente.

De repente, todos ficaram paralisados. Com um trovão, o céu escureceu e o sol avermelhou. As nuvens desceram, movendo-se como redemoinhos sombrios, envolvendo o cemitério. Uma revoada de abutres rabiscou pelo alto. Os pássaros agourentos pousaram ao redor dos muros, trocavam receitas. Ninguém entendia mais nada.

O Exército recuou assustado. Soldados tremiam sem condições de reagir. A cada passo para trás, mãos saíam da terra em sequência e derrubavam os militares. Uma multidão trôpega e argilosa de mortos-vivos começou a envolver o contingente, que atirava em vão para todos os lados. A carne morta dos ex-guerrilheiros sírios grudava-se em pescoços vermelhos e os rasgava. Ouvia-se gritos, murmúrios e tiros. A carcaças arremessadas voltavam a atacar viciosamente.

Resolvi sair de trás das lápides e procurar um lugar mais seguro. No caminho, um general caído na grama tinha a vísceras sugadas por um grupo de zumbis, como um ninhada de porcos na mãe. Pulei e desviei de alguns mortos. Consegui chegar em um pequeno mausoléu. Chutei a porta em desespero. As trancas podres cederam facilmente. Entrei. Lá dentro havia um oficial e um guerrilheiro, lado a lado, tremendo e reforçando as entradas. Quebrei algumas madeiras e arrastei algumas pedras para ajudá-los, mas era tarde demais. Uma multidão de corpos errantes forçava as janelas do fundo.

Um deles estilhaçou os vitrais. Era alto, corpulento e dava passadas largas na nossa direção. Vestia restos de um terno barrento. Uma pútrida bandeira nacional se arrastava aos seus pés. Ele encarou o guerrilheiro rebelde, grunhiu e passou reto. Com a pele cravejada de vidros coloridos, postou-se na frente do oficial do exército. O que restava de sua mandíbula morta abriu-se em um sorriso trágico. Cravou a fíbula quebrada no estômago do oficial e, auxiliado pelos mortos que tinham descoberto o atalho, matou e digeriu o soldado em menos de dez segundos. Depois disso, o grupo me encarou por um momento. Gelei, mas não me fizeram nada. Saíram em marcha para fora do mausoléu. Por via das dúvidas, me fechei num caixão. Ouvi mil armas dispararem até a munição acabar. Depois, dois mil uivos de dor. Então veio a calmaria. Abri meu sarcófago.

Os campos estavam cheios de corpos mutilados, cápsulas de balas e fumaça. Não havia mais mortos-vivos. Caídos, pareciam ter voltado ao seu estado original, todos ao mesmo tempo. Os abutres já se encarregavam dos restos mortais oficiais. Alguns dos nossos homens subiam das covas, aparentemente vivos e comemorando alguma coisa. Os sobreviventes reuniram-se na frente do cemitério, só restavam uns 20 populares e alguns guerrilheiros do ELS. O céu começava a se abrir novamente e clarear os campos de morte. Alguns prestavam homenagens aos soldados-zumbis, rezando e fazendo penitências. Antes que os fanáticos começassem a imolação, peguei o caminho de casa.

Passei na frente do prédio de Adara. Estava completamente destruído. No meio de um quebra-cabeças confuso de cacos e telhas, vigas eretas indicavam que ali havia uma construção. Andei por cima dos restos e gritei seu nome várias vezes. Nada se mexia. Fiquei ali olhando por um tempo, chamando Adara. Revirei os entulhos e achei pertences jogados, eram louças estilhaçadas e roupas emboladas. Sentei desconsolado à beira da destruição. Lembrei do primeiro beijo que Adara me roubou. Bombas coloriram o céu. Bati em retirada”.

Cento e quarenta anos já se passaram desde o “20/09″. Embora existam muitas versões de autores oportunistas, esse foi um dos poucos relatos reais escritos sobre o evento. A Guerra Civil na Síria terminou quando um agente americano vazou informações oficiais de que os EUA vendiam armas tanto para o Exército Oficial quanto para a ELS. Além disso, o número de mortes ultrapassou a marca de um milhão, forçando a ONU e a Comunidade Internacional a realizarem um jogo de cena mais incisivo. Oficializou-se o cessar-fogo no país. O ELS tornou-se uma força armada sem precedentes, que organiza intromissões bélicas em conflitos do Oriente Médio. Hoje, são tão odiados pelo povo quanto o Exército Oficial era naquele tempo.

Do manuscrito “Entre as Lápides de Sabara” foram feitos livros, filmes, peças, seriados e até reality shows. Até hoje, o evento sobrenatural influencia a cultura no mundo inteiro. Na literatura, alterou o conceito de fantástico, ocasionando a criação do gênero Fantasia Realista. Estudiosos acreditam que tudo isso não passou de um delírio coletivo regado a muito ópio. Outros dizem que não passa de folclore. Nas redes sociais, páginas sobre a Guerra Civil analisam o evento com publicações diárias. A mais popular tem mais de três milhões de seguidores. Seu conteúdo satiriza a data com frases em caixa alta acima e abaixo de imagens cômicas. Os videntes estavam corretos, os tempos seriam difíceis.

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Este conto foi escrito por Rodrigues para o Desafio Literário de Setembro de 2013.

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45 comentários em “Sob as Lápides de Sabara (Rodrigues)

  1. feliper.
    30 de setembro de 2013

    Deixo aqui uma salve geral para todos que comentaram e leram, ou vice-versa, rs. Respondo milimetricamente com mais tempo depois. Abraço a todos! Valeu!

  2. Diogo Bernadelli
    29 de setembro de 2013

    Foi um dos primeiros que li: tanto que o fato de não o ter comentado é de espantar. Coisa que me exigiu uma segunda leitura — e isto é altamente positivo, salientando. É mais um conto que manifesta o trabalho (não confirmado) de dois autores. É visível a linha que divide o branco do negro. Um plano é ótimo; o outro, excelente. A leitura fluiu como uma torneira, cara, sobretudo na altura em que a narrativa alcança os segredos do diário.

    Eu apenas buscaria alimentar as ideias e dar à história as proporções que ela merece, certo?

    • feliper.
      30 de setembro de 2013

      Oi, Diogo. Obrigado pela leitura e comentário. Como meu trabalho exige leitura sobre temas relacionados ao conflito, com certeza poderei colocar mais informações e novas ideias nesse conto. Aliás, elaborar um novo. Não gosto muito de mexer em contos terminados. Mas pode até rolar.

  3. Felipe Holloway
    29 de setembro de 2013

    Cara, que texto! Que destreza na condução da prosa, que, se na introdução e no fechamento é pródiga em frases longas e expositivas (como convém, aliás, à vertente histórico-documental do jornalismo), no relato do soldado é ágil e enxuta como as balas que cruzam o cenário de um conflito armado. Eu VISUALIZEI cada frame do embate no cemitério, eu ME ARREPIEI com a descrição da revoada de pássaros que prenunciam com eficiência assombrosa o horripilante evento seguinte, eu realmente TEMI pela sorte do personagem — o que é totalmente absurdo, se considerarmos que o relato é narrado em primeira pessoa, mas que dá uma dimensão do que o conto fez comigo. Uma mistura incrivelmente bem-sucedida das duas segundas partes de Incidente em Antares e Reparação, e que também me remeteu a uma passagem fenomenal do romance As Benevolentes, de Jonathan Littell, que, com a tua permissão, reproduzirei mais abaixo. Não tenho muito o que dizer sobre este conto, exceto que é o melhor e mais criativo do concurso que li, até aqui. Top 3 fácil.

    Ao autor, meus admirados parabéns!

    • Felipe Holloway
      29 de setembro de 2013

      O trecho:

      “Um Scharführer aproximava-se e saudou Ott. “Herr Untersturmführer, não há nada aqui.” Ott estava nervosíssimo. “Vasculhem mais! Tenho certeza de que estão escondendo alguma coisa.” Outros soldados e Orpo retornavam. “Herr Untersturmführer, olhamos, não há nada.” – “Vasculhem, já disse.” Naquele instante ouvimos um grito agudo ali perto. Uma forma indistinta corria pela ruazinha. “Ali!”, gritou Ott. O Scharführer mirou e atirou através da cortina de chuva. A forma desabou na lama. Os homens correram em sua direção, tentando enxergar. “Imbecil, era uma mulher”, disse uma voz. – “É você que está se chamando de imbecil!”, ladrou o Scharführer. Um homem revirou o corpo na lama: era uma jovem camponesa, com um pano colorido na cabeça, e grávida. “Ela simplesmente entrou em pânico”, disse um dos homens. “Não precisava atirar desse jeito.” – “Ainda não está morta”, disse o homem que a examinava. O enfermeiro do destacamento aproximou-se: “Levem-na para casa.” Vários homens a levantaram; sua cabeça pendia para trás, o vestido enlameado estava colado na enorme barriga, a chuva fustigava o corpo. Foi carregada para casa e depositada sobre uma mesa. A não ser por uma velha chorando num canto, a isbá estava vazia. A moça agonizava. O enfermeiro rasgou seu vestido e a examinou. “Está fodida. Mas está prestes a parir, e com um pouco de sorte ainda podemos salvar o bebê.” Começou a dar instruções aos dois soldados ali presentes. “Providenciem água quente.” Saí sob a chuva e fui me encontrar com Ott, que fora até os veículos. “O que está acontecendo agora?” – “A moça vai morrer. Seu enfermeiro está tentando fazer uma cesariana.” – “Uma cesariana?! Ficou maluco, caramba!” Voltou a subir a ruela chafurdando até a casa. Segui-o. Ele entrou bruscamente: “Que porra é essa, Greve?” O enfermeiro segurava uma coisinha sangrenta embrulhada num pano e terminava de amarrar o cordão umbilical. A moça, morta, jazia com os olhos esbugalhados sobre a mesa, nua, coberta de sangue, rasgada do umbigo até o sexo. “Funcionou, Herr Untersturmführer”, disse Greve. “É possível que sobreviva. Mas temos que achar uma ama-de-leite.” – “Enlouqueceu!”, gritou Ott. “Me dê isso!” – “Por quê?” – “Me dê isso!” Ott estava branco, tremia. Arrancou o recém-nascido das mãos de Greve e, segurando-o pelos pés, esmagou seu crânio na quina do forno de argila. Depois jogou-o no chão. Greve espumava: “Por que fez isso?!” Ott também berrava: “Você teria feito melhor enterrando-no na barriga da mãe, imbeciloide! Deveria tê-lo deixado tranquilo! Por que o fez sair? Não era suficientemente quente ali?” Girou nos calcanhares e saiu. Greve chorava: “O senhor não devia ter feito isso, o senhor não devia ter feito isso.” Fui atrás de Ott, que vociferava na lama e na chuva diante do Scharführer e alguns homens reunidos. “Ott…”, chamei. Atrás de mim ecoou um chamado: “Untersturmführer!” Olhei: Greve, com as mãos ainda sujas de sangue, saía da isbá com o fuzil apontado. Esquivei-me, ele caminhou na direção de Ott. “Untersturmführer!” Ott virou a cabeça, viu o fuzil e começou a gritar: “Que é, seu veado, que quer ainda? Quer atirar, é isso, vá em frente!” O Scharführer berrava também: “Greve, em nome de Deus, abaixe esse fuzil!” – “O senhor não devia ter feito isso”, gritava Greve, continuando a avançar para Ott. – “Vá em frente, imbecil, atire!” – “Greve, pare imediatamente!”, vociferava o Scharführer. Greve atirou; Ott, atingido na cabeça, voou para trás e caiu numa poça, fazendo um grande estrépito. Greve mantinha o fuzil em posição de mira; todo mundo havia se calado. Só se ouvia a chuva castigando as poças, a lama, os capacetes dos homens, o colmo dos telhados. Greve tremia como uma folha, fuzil no ombro. “Ele não devia ter feito isso”, repetia estupidamente. – “Greve”, eu disse mansamente. Com ar feroz, Greve apontou o fuzil na minha direção. Abri muito lentamente os braços sem dizer nada. Greve voltou a visar o Scharführer com o fuzil. Por sua vez, dois soldados apontavam seus fuzis para Greve. Greve mantinha o fuzil apontado para o Scharführer. Os homens poderiam abatê-lo, mas nesse caso ele decerto também mataria o Scharführer. “Greve”, disse calmamente o Scharführer, “você fez uma grande besteira. Ott era um lixo, tudo bem. Mas você está realmente na merda.” – “Greve”, eu disse. “Abaixe a arma. Caso contrário, vamos ser obrigados a matá-lo. Caso se renda, testemunharei a seu favor.” – “Estou fodido de qualquer maneira”, disse Greve. Não parava de apontar para o Scharführer. “Se o senhor atirar, levo alguém comigo.” Desviou novamente o fuzil na minha direção, bruscamente. A chuva escorria do cano, bem diante dos meus olhos, corria no meu rosto. “Herr Hauptsturmführer!”, chamou o Scharführer. “Concorda que eu resolva isso à minha maneira? Para evitar outras baixas?” Fiz um sinal afirmativo. O Scharführer voltou-se para Greve. “Greve. Dou-lhe cinco minutos. Depois iremos atrás de você.” Greve hesitou. Em seguida abaixou o fuzil e chispou para dentro da floresta.

      • feliper.
        30 de setembro de 2013

        Sensacional. Se o tempo me permitir, lerei o romance.

    • feliper.
      30 de setembro de 2013

      Oi, Felipe. Obrigado pela leitura e comentário. Muito interessante a sua opinião a respeito do conto. Aproveitei uma pesquisa recente que tinha feito a respeito da guerra civil para tentar enquadrar a história no contexto. Fico feliz que tenha gostado e votado nele, isso é uma das coisas que me faz continuar com os rabiscos.

  4. Claudia Roberta Angst
    29 de setembro de 2013

    Apesar da originalidade de ligar o tema proposto aos acontecimentos da atualidade, confesso que não sou muito fã do tom informativo, de jornal. Bem escrito, sem dúvida, mas não me despertou muito interesse.

    • feliper.
      30 de setembro de 2013

      Oi, Claudia. Muito obrigado pela leitura e comentário. Busquei dar uma explicação sobre os acontecimentos como um simples referencial. Realmente pode parecer didático demais, mas não foi a intenção.

  5. Martha Angelo
    29 de setembro de 2013

    Curti! Uma forma muito original de abordar o tema! Ótimo texto! Só achei um pouco corrido demais, o final não muito bom…mas ainda assim, dos melhores que li por aqui!

    • feliper.
      30 de setembro de 2013

      Oi, Martha. Muito obrigado pela leitura e comentário. Resolvi não me alongar muito ao final para enfatizar a história do soldado, que eu sabia que era o melhor do texto. Por isso o corte meio abrupto.

  6. vitorts
    28 de setembro de 2013

    Ótimo conto! Nem me dei conta do tamanho do texto, de tão rápido que li. Muito boa a ideia de usar o conflito da Síria. Sendo um pouco chato, a única coisa que não gostei tanto foi do último parágrafo. De resto, está dez!

    • feliper.
      30 de setembro de 2013

      Oi, Vitor. Muito obrigado pela leitura e comentário. Cara, esse final eu sabia que ia causar um certo burburinho, mesmo. Mas fazer o que… É a parte mais difícil para mim. Sensacional o seu conto.

  7. Fernando Abreu
    28 de setembro de 2013

    Está bem escrito, pensado. Há ali nas linhas em itálico uma história com potencial para um conto maior. Há um tédio no didatismo, como disse o Geraldo aí embaixo. Achei médio, pois parecem dois conto em um: um bom e o outro ruim.

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura, Fernando. É complicado esse negócio do didatismo, muitos poderiam reclamar de abstratismo, mas preciso rever isso, mesmo. Abs!

  8. Sandra
    28 de setembro de 2013

    Quanto à escrita, não há como negar sua qualidade. A ideia de abarcar esses elementos da atualidade, esse terror, e trazê-la como cenário do tema proposto é bem ousada e interessante. Mas o ‘problema’, que deve ser de minha parte, é o distanciamento entre mim e as lentes do narrador, principalmente, em partes que não estão em itálico. Deu vontade de pular os momentos de informação e mergulhar na história mais próxima do personagem.

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura, Sandra. Desculpe pelo distanciamento.

  9. Bia Machado
    28 de setembro de 2013

    Desculpe, mas não consegui me envolver com a narrativa. Não sei o que é, talvez a coisa seja comigo, pois tantos comentários positivos, e eu não consegui ver isso tudo o que viram. Está bem escrito? Bem provável, mas eu senti falta de uma “emoção a mais” que não deixou que eu me cativasse com a história, não sei explicar.

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      Oi, Bia. Obrigado pelo comentário e leitura. É complicado, mesmo. Alguns reclamaram bastante dessa parte e do didatismo, também. Preciso rever.

  10. Rubem Cabral
    27 de setembro de 2013

    Interessante a proposta do conto, está bem-escrito também. No entanto, achei o texto corrido e o testemunho do soldado não soou verdadeiro (no sentido de parecer ser o testemunho de um soldado rebelde. Talvez com um pouco mais de pesquisa sobre a cultura local poder-se-ia reforçar a narração, tornando-a mais crível). O final fechou o conto de forma muito canhestra, deveria ser repensado.

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      Oi, Rubem. Valeu a leitura e comentário. Realmente, o soldado poderia ter uma voz mais sincera com a inserção de alguns elementos da cultura local. O conto será atualizado ao longo do tempo, como sempre faço com meus textos. Até que fique perto de algo que eu considero “redondo”, rs. Abs

  11. Maria Inês Menezes
    26 de setembro de 2013

    Adorei! Impactante muito bem construído!

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Maria.

  12. selma
    25 de setembro de 2013

    achei muito bom, bem escrito, não gostei da historia.

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Selma.

  13. Marcelo Porto
    24 de setembro de 2013

    Achei a proposta interessante, principalmente pela atualidade do assunto. Talvez com um pouco mais de tempo a história se tornasse mais consistente, do jeito que está me pareceu que foi fechada precocemente para entrar no concurso.
    Vale se debruçar novamente e tentar aparar as arestas. Tem potencial.

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      É verdade, Marcelo. Com uma pesquisa mais apurada e mais tempo para a criação o conto ficaria bem melhor. Obrigado pela leitura e comentário. Abs!

  14. Emerson Braga
    23 de setembro de 2013

    Repleto de elementos envolventes, esse conto merece parabéns! Muito bom!

    • feliper.
      1 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Emerson.

  15. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    22 de setembro de 2013

    Texto um tanto oportunista, procurando inserir-se em eventos correntes para maior impacto. Infelizmente faltou alguma coisa. Parece-me que o mal deste texto é o mesmo de outros por aqui: o didatismo. O autor parece tratar o leitor como uma pessoa incapaz de seguir a narrativa se ela não tiver sinalizações claras. Pode até ser verdade que muita gente boiaria, mas ao descer no nível de um leitor inepto, o autor cria um texto em conflito consigo mesmo. Não se pode servir a dois senhores: ou bem temos uma história complexa, que será tachada de “confusa”, “pedante” ou “prolixa” (não com essas palavras) por leitores que não conseguem compreendê-la, ou temos uma história rasa, feita para leitores que se enrolam até com um simples anacoluto. Isto fica claro neste texto, que tem um trecho bom (o que está em itálico, correspondendo ao suposto diário do combatente sírio) e um trecho que dilui e perverte o que havia de bom no elemento principal. Se o autor inscrevesse apenas uma versão ligeiramente mais polida desta citação central o seu texto seria impactante e ganharia o meu voto. Do jeito que ele fez, me frustrou.

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Oi, José Geraldo, obrigado pela (tortuosa) leitura e pelo comentário. rs. Não acho o texto oportunista, já que eu apenas utilizei uma pesquisa recente que tinha feito para criá-lo. Por outro lado, concordo com a parte que você cita o didatismo, eu sempre fui contra textos explicadinhos demais. O ponto aqui foi simplesmente uma tentativa de localizar o leitor dentro do episódio, mas percebo que não fui lá muito feliz. Obrigado pelos elogios sobre a parte do relato. Espero que continue lendo meus contos. Abs!

  16. Thais Lemes Pereira (@ThataLPereira)
    21 de setembro de 2013

    Bem bolado e entusiasmante. Adoro essa mistura e você soube muito bem trabalha-la. Parabéns!

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Thais.

  17. Lúcia M Almeida
    19 de setembro de 2013

    Gostei muito ! A reunião de fatos atuais com o futuro transformou-se em um excelente conto !

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Lúcia.

  18. feliper.
    18 de setembro de 2013

    Texto preciso e bem construído. Fica a dúvida: como seriam as imagens postadas nas redes sociais?

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Cala boca, imbecil. Que comentário mais safado.

  19. Gustavo Araujo
    18 de setembro de 2013

    Interessante como fatos cotidianos podem ser (bem) explorados. Ótimo conto, com um desenvolvimento muito bem montado. Ainda que presente a fantasia, há muito de verossímil na narrativa. Poucos erros – seria injusto apontá-los. No geral, uma leitura excelente.

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Gustavo. A intenção foi realmente essa, misturar para situar o leitor dentro do conflito.

  20. marcopiscies
    18 de setembro de 2013

    Uma salva de palmas. Que conto único. Reúne tudo de bom: um personagem cativante, um drama, uma reviravolta, suspense, medo. Muito bom mesmo!

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Muito obrigado pela leitura e comentário, Marco.

  21. Reury Bacurau
    18 de setembro de 2013

    Muito bem escrito! A utilização de fatos da atualidade dá um toque especial! Ótimo trabalho!!!

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Reury.

  22. Arlete Hamerski
    18 de setembro de 2013

    Sensacional! Extremamente criativa essa visão futurista do nosso presente.

    • feliper.
      2 de outubro de 2013

      Obrigado pela leitura e comentário, Arlete.

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Publicado às 18 de setembro de 2013 por em Cemitérios e marcado .