EntreContos

Detox Literário.

Morte em Família (Pedro Luna)

Anos 70

Se existe uma história curiosa sobre brigas e competições dentro de uma família, certamente é essa aqui retratada.

A família Colares sempre foi uma família estranha. Morava em um antigo casarão no centro de Fortaleza, e embora o bairro estivesse se tornando cada vez mais um polo comercial, não muito apropriado para moradia, os Colares nem sonhavam em sair dali.

O patriarca era Edgar Colares, que veio do interior do Ceará para abrir um armarinho em Fortaleza. Muito jovem, conheceu Lucinda e logo eles estavam casados. Da união, nasceram os filhos, apresentados aqui por ordem de idade: Alceu, Alberto e Almir.

Os negócios de Edgar prosperavam com muita velocidade, e foi por isso que as brigas começaram. Os garotos muito cedo começaram a trabalhar com o pai, e assim passaram a competir desde pequenos pelo posto de sucessor no comando dos negócios. Alceu, por ser o mais velho, se achava no direito de ser o número dois. Alberto se gabava de ser mais inteligente, e Almir, bem, Almir queria ser o número dois apenas para não dar esse gosto aos irmãos. Apesar de ser o mais novo, era dotado de uma grande astúcia, reconhecida pelo pai em algumas ocasiões.

Os três irmãos cresceram no casarão como verdadeiros inimigos íntimos. E tudo piorou quando Lucinda achou que estava demasiado por fora do mundo de seu marido, que aquela altura já tinha três armarinhos no centro da cidade. Ela passou a trabalhar nos armarinhos, lugar onde os filhos já estabeleciam seus domínios territoriais. Lucinda então passou a ser vista como uma intrusa pelos próprios filhos. Era mais uma cabeça na corrida de sucessão. Edgar Colares não percebia que apesar de toda aquela prosperidade e trabalho duro, os membros de sua família nutriam sentimentos rancorosos uns pelos outros.

Logo os irmãos se tornaram adultos e tomaram seus rumos. Todos se casaram com belíssimas e jovens esposas e deixaram o casarão, para a satisfação de dona Lucinda, que não aguentava mais ver as suas crias nem pintados de ouro. Mas as brigas não ficaram para trás. Nos armarinhos, era comum encontrar um irmão discutindo com outro, ou ver dona Lucinda reprender um de seus filhos na frente de outros funcionários, apenas para humilhá-los. Distante dessa realidade, Edgar Colares vivia satisfeito, vendo normalidade em toda aquela competição. Apenas coisas que aconteciam no trabalho.

E morreu assim, sem realmente enxergar as coisas como elas eram.

Em seu enterro, houve a maior de todas as brigas protagonizadas pela família Colares. Dona Lucinda acusou os filhos de estarem felizes pela morte do pai, e que agora eles iriam mostrar as verdadeiras faces na batalha pela sucessão dos armarinhos. Os irmãos acusavam a mãe de ter se casado com o pai por interesse e que ela não sabia gerenciar nenhum tipo de negócio. As outras pessoas presentes no cemitério naquele dia ficaram horrorizadas com tamanho ódio. E não acabou por ali. Mais tarde, na reunião com o advogado da família, ficou claro que o testamento de Edgar beneficiava a mulher, dona Lucinda. Segundo o falecido, a mulher tinha total controle sobre os armarinhos, e os filhos deveriam apenas ajudá-la seguindo as suas vontades.

Foi um terrível alvoroço, mas não havia nada que pudesse ser feito. A discussão fora tão grande que se podiam ouvir os gritos há centenas de metros do casarão. Tudo terminou quando Almir sentiu o sangue subir na cabeça e disse que estava saindo daquela família, e que nunca mais queria ver nenhum deles. Disse ainda que nem quando estivesse morto queria tê-los por perto e garantiu que quando morresse, os irmãos e a mãe seriam proibidos de irem para seu enterro.

Apesar da derrota no caso dos armarinhos, Alceu ainda mantinha vivo seu espírito competidor, e enlouquecido por uma brutal vontade de se sobrepor aos irmãos, anunciou que ele era o mais velho, e ,portanto, seria ele que morreria primeiro, deixando os outros a ver navios, proibidos de comparecer ao enterro.

Alberto nada disse nesse dia, apenas se podia enxergar o mais puro ódio em seu olhar. Dona Lucinda assistiu a provocação dos irmãos e só pôde gargalhar o mais alto possível. Ela lembrou, com muita delicadeza, que ela já beirava os setenta anos, e que seria ela que teria o gostinho especial de não ver nenhum dos três agouros em seu sepultamento.

Naquela noite, a família havia sido desfeita. Cada um seguiu seu rumo. E será que eles iriam lembrar aquelas palavras proferidas em um momento tão conturbado?

Dois anos depois, Almir ficou doente. Não comunicou a ex-família e foi devastado rapidamente por um câncer de intestino. Quando faleceu, sua esposa tratou de enviar seu advogado de confiança para comunicar os irmãos e a mãe e dizer a última vontade de Almir.

Alceu não recebeu a notícia com muita animosidade, e quando o advogado narigudo lhe comunicou que o último desejo de Almir, registrado em cartório, seria o não comparecimento de seus irmãos e de sua mãe ao próprio enterro, Alceu quebrou o nariz do advogado com um soco.

Como seria possível? Almir era o mais novo, ele não poderia ter morrido primeiro. Ele havia trapaceado. Filho da…

Alceu não quis saber como agiriam a mãe e o outro irmão.  Ele decidiu que iria ao enterro de Almir, custasse o que custasse, pois não daria o gosto de vitória para o fedelho mais novo.

No dia do enterro, Alceu se disfarçou. Pôs um casaco e um gorro que escondia sua cabeça já meio careca. De óculos escuros, perambulou entre as lápides antigas do cemitério São João Batista como quem não queria nada, mas foi notado por um segurança disfarçado. O segurança, contratado da viúva de Almir, achou esquisito aquele sujeito de casaco em pleno calor de Fortaleza e decidiu abordar o sujeito. Alceu tentou se esvair da situação, mas o segurança lhe puxou o gorro da cabeça, reconhecendo o homem que ele devia procurar. Alceu foi expulso do cemitério e o advogado de seu irmão disse que se ele voltasse, eles chamariam a polícia.

Alceu explodiu em uma fúria doentia. Chegou em sua casa quebrando tudo e nem a esposa escapou de escutar poucas e boas. Passou os dias seguintes amaldiçoando o espírito de Almir e até visitou a casa de um médium, para tentar enviar uma mensagem negativa ao irmão. Ao invés disso, recebeu uma carta psicografada. Era Almir, dizendo estar se divertindo muito por ter passado o irmão para trás. Alceu chutou o saco do Médium e saiu enfurecido.

A esposa não soube explicar, mas de um dia para o outro, Alceu parou de se alimentar. Só levantava da cama para ir ao banheiro. Nem água bebia. Com o passar dos dias, sua aparência havia piorado bastante. A esposa tentou por muitas vezes chamar um médico, mas era impedida pelo marido. Quando assim o fez, Alceu ficou tão enfurecido que usou suas últimas energias para sair de casa.

Se escondeu em um hotel vagabundo no centro. Para pôr em prática o seu plano final: morrer.

Não tinha coragem de se matar enforcado, ou com um tiro. Então iria morrer de forma natural. Iria morrer de fome e sede, como um náufrago à deriva no mar. Seria difícil suportar a tentação de sair da cama e comer ou beber algo, mas era necessário. Almir havia vencido a disputa, mas Alceu não estava disposto a perder a segunda colocação no pódio. Iria morrer antes da mãe e do outro irmão, e assim poderia saborear do além, a indignação e o espanto dos dois. Só de pensar na cena, Alceu gargalhava e tossia, gargalhava e tossia, e assim ia definhando.

Enquanto Alceu morria silenciosamente, sua esposa fazia de tudo para encontrá-lo e até mesmo entrou em contato com Alberto e Lucinda, mas ninguém sabia de seu paradeiro. Foi somente após uma investigação muito minuciosa, no correr de alguns dias, que ela conseguiu localizar o marido em um hotel vagabundo localizado no centro, exatamente em frente ao cemitério João Batista.

Quando adentrou no quarto (a porta precisou ser arrombada.), o fedor era insuportável. Alceu jazia na cama, magro e abatido, mais parecendo um projeto de defunto que um homem. Suas cavidades oculares se destacavam no rosto emagrecido, e ele conseguiu abrir os olhos com muita dificuldade. A esposa explodiu em um choro espalhafatoso e correu para abraçar o marido, quase quebrando os ossos de Alceu.  Percebendo que o franzino marido não conseguia falar nada, ela o tomou em seus braços e passou a niná-lo. Prometeu que iria ajudá-lo a ultrapassar qualquer problema que ele estivesse enfrentando e se fosse uma doença muito séria, ela saberia apoiá-lo. Alceu gemia e tentava falar, mas a esposa fazia o sinal de silêncio e passava a mão em sua cabecinha, ninando seu bebê gigante e mal nutrido.

Alceu foi levado imediatamente para um hospital e passou alguns dias na emergência, sem poder receber visitas. Quando os médicos declararam uma notável melhora e a volta de suas habilidades vocais, Alceu recebeu uma visita da esposa. Estava enfurecido por ter tido a morte interrompida e queria sair dali imediatamente. A esposa não entendia aquela loucura toda e chorando muito, disse que se ele queria o divórcio, bastava dizer, mas que ele iria ficar sozinho, pois seu irmão Alberto havia atirado na própria cabeça alguns dias atrás e que sua mãe havia tido um ataque cardíaco ao saber.

Antes de sair do quarto, onde um abismado Alceu deixava a boca cair escancarada, ela ainda disse que tanto para o enterro do irmão, como para o da mãe, ele não havia sido convidado.

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20 comentários em “Morte em Família (Pedro Luna)

  1. Felipe Holloway
    29 de setembro de 2013

    O Diogo já meio que sintetizou tudo o que eu tinha a dizer sobre este conto. Os personagens caricatos e unidimensionais são mais dignos de uma anedota do que de um conto. Rendeu-me alguns sorrisinhos de canto de boca. Mas não muita coisa além disso. =/

  2. diogobernadelli
    29 de setembro de 2013

    “Se existe uma história curiosa sobre brigas e competições dentro de uma família, certamente é essa aqui retratada.”

    Ao abrir seu texto dessa forma, ou o autor confiava na boa qualidade da história, ou ele esperava que com sorte pudesse seduzir os leitores de um enredo não muito criativo. Eu fico com um pé atrás ao me deparar com manobras tão confiantes, pois elas no geral precedem a insatisfação do próprio escritor com sua obra, então tudo se traduz em uma tentativa de torná-la mais interessante. Quase despojada.

    Infelizmente, não me fisgou.

    O desenrolar, mesmo inspirando alguma complexidade, é tão linear, que os acontecimentos razoavelmente inesperados se comportam mais como a vegetação que acompanha uma rodovia reta. Enfeitam, mas não sugerem outro caminho.

    O autor ao menos demonstra habilidade. Uma história que merece ser reescrita com maior cuidado, com ctz.

  3. vitorts
    28 de setembro de 2013

    Gostei do mote, desse ar meio caricato para retratar a cobiça. Podia ter trabalhado mais com os personagens, no entanto.

    Bom texto!

  4. Fernando Abreu
    28 de setembro de 2013

    Achei viajante e bem escrito. Há pequenas falhas, mas nada que comprometa o todo. Interessante como a família pode ser analisada de uma forma tão controversa.

  5. Sandra
    28 de setembro de 2013

    Caramba que loucura! Eu buscaria uma mudança brusca para esse final (ele se vê com tudo da família! e já que mencionou a tal da psicografia do irmão mais novo… Ponha a ‘espiritada’ atrás dele!). Trabalharia melhor os personagens e, talvez, trouxesse esse irmão, o último, para mais próximo das vistas do leitor. E seria bem oportuno dar, um bocadim que seja, a voz a eles.
    Gostei da ideia.

  6. Bia Machado
    28 de setembro de 2013

    hahaha, me diverti com essa loucura toda! Só queria um pouco mais de caracterizações, alguns diálogos, quem sabe? 😉 Achei que poderia ter escrito mais, não sei, ou de repente fui eu quem ficou com aquela sensação de “pôxa, jura que acabou”? =)

  7. Maria Inês Menezes
    26 de setembro de 2013

    Quanta loucura em família!!!! Muito bom e interessante!

  8. Emerson Braga
    23 de setembro de 2013

    Imagens perturbadoras e, ao mesmo tempo, risíveis. Muito bom!

  9. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    21 de setembro de 2013

    Não gostei nada desse texto. Narrado em um estilo jornalístico-didático e sem dar voz aos personagens. Não conseguiu me prender, não consigo ler mais do que quatro ou cinco parágrafos soltos sem me cansar. Aquele parágrafo isolado logo no começo escrito “Anos 70” foi extremamente broxante para mim, ficou parecendo descrição de teatro. Fora isso, a linguagem é muito plana, sem invenções, sem nada que fuja do lugar comum, por isso eu disse o “didático”.

  10. Thais Lemes Pereira (@ThataLPereira)
    20 de setembro de 2013

    Jura que é armarinho e não hospício? Que bando de loucos!! Quando cheguei no meio, imaginei que ele iria morrer, encontrar o irmão e todos desvendarem o motivo de tudo isso ( uhul, finais felizes!! eca’ ) mas não me incomodei com esse fim. Aliás, gostei e muito! Parabéns!

  11. Lúcia M Almeida
    19 de setembro de 2013

    Humor negro interessante !

  12. Rubem Cabral
    19 de setembro de 2013

    Conto muito divertido, com jeito de causo. Precisa de um pouco de revisão, mas achei o mote maluco bem original.

    Aposto umas cervejas que sei quem é o autor!

  13. Gustavo Araujo
    18 de setembro de 2013

    Surreal, inverossímil até a medula – e talvez por isso, um conto ótimo de ler. Me peguei rindo várias vezes durante a leitura ante aos improváveis desdobramentos. Não é muito o meu tipo de leitura – essas que exigem uma boa dose de viagem -, mas não posso dizer que não gostei. Bem montado, bem contado.

  14. feliper.
    18 de setembro de 2013

    Gostei do conto, é bom. Apesar do tema, consegue ser leve e engraçado. Senti falta de uma caracterização mais detalhada dos personagens.

  15. Claudia Roberta Angst
    18 de setembro de 2013

    O conto prende a atenção do começo até o fim. O leitor fica querendo saber quem fim terá essa família de doidos competidores. Sinistro!

  16. Marcelo Porto
    18 de setembro de 2013

    Excelente conto!
    Uma narrativa nonsense e instigante!
    O autor demonstra um talento inegável em nos prender numa história absurda e politicamente incorreta.
    Com certeza este é um dos melhores contos do concurso.
    Parabéns!

  17. marcopiscies
    18 de setembro de 2013

    Um conto diferente e com um certo tom de humor negro. Foge bastante do convencional. Interessante =)

    Escrita muito boa também. Só fiquei um pouco perdido com os nomes dos irmãos no meio, e fiquei com preguiça de voltar pro início para saber quem era quem, mas isso não é nada.

    Muito legal!

  18. Reury Bacurau
    18 de setembro de 2013

    Hahahaha…muito bom! Quanta raiva por causa de um comércio! Realmente uma história tenebrosa! Parabéns, gostei muito!

  19. selma
    18 de setembro de 2013

    realmente tetrico, se essa era a intenção do escritor…hahah! tanto odio assim, pior que existe. acho bem escrito, merecendo algumas revisões. parabens.

  20. Arlete Hamerski
    18 de setembro de 2013

    Muito interessante seu conto. Parabéns!

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Informação

Publicado às 18 de setembro de 2013 por em Cemitérios e marcado .