EntreContos

Detox Literário.

Algo Assim (Felipe Holloway)

Tinham se conhecido no enterro da bisavó. A família era dessas tão numerosas que um membro pode ir do berço ao túmulo sem nem desconfiar que certa celebridade seja parente, não sendo justo, portanto, falar em árvore genealógica, mas em bosque. Mas um bosque de árvores espaçadas, que ultimamente só se reuniam nos lutos. E que também vinha sendo podado desde a implementação, há vários anos, de um acordo não-verbal que limitava o número de filhos que se podia ter sem sofrer o desprezo dos outros galhos a 1,7.

— Que nem a China.

— O quê?

Ele ficou surpreso de que a observação não tivesse ficado só na sua mente, enquanto percorria os rostos da multidão vestida de preto, a maioria dos quais encimada por cabelos brancos ou por cabelo nenhum.

***

Este conto faz parte da coletânea “Devaneios Improváveis“, Primeira Antologia EntreContos, cujo download gratuito pode ser feito AQUI.

27 comentários em “Algo Assim (Felipe Holloway)

  1. Gustavo Carneiro
    16 de fevereiro de 2014

    Olha, Felipe, nem sei como encontrei esse site de vocês. Muito menos como esse conto foi o primeiro que escolhi para ler. Mas fiquei muito feliz por ter sido isso o que aconteceu. Você é um ótimo escritor. Essa história vai se desenvolvendo naturalmente e nos deixando em conexão com os personagens. A passagem temporal também nos deixa um pouco ansiosos para cada outra morte/encontro que ocorrerá. Parabéns pelo prêmio! Ganharam mais um visitante regular. 🙂

    Gustavo
    http://gustavofsc.blogspot.de/

    • Gustavo Carneiro
      17 de fevereiro de 2014

      E eu nao vi meu comentário e o reescrevi, agora tenho dois aqui! :/

      • EntreContos
        17 de fevereiro de 2014

        Sem problemas, isso mostra o quanto vc gostou do conto 😉

  2. gustavocarneiro
    16 de fevereiro de 2014

    Não sei como cheguei aqui nesse site de vocês… E aqui fui clicando e clicando e por acaso o primeiro conto que escolhi para ler foi este. Olha, Felipe, você é um ótimo escritor. Nos envolvemos com os personagens e com o seu desenvolvimento. Parabéns pelo prêmio.

    Gustavo
    (http://gustavofsc.blogspot.de/)

  3. Denise Cristine
    5 de dezembro de 2013

    Curioso. Não o conto. Mas o que aconteceu comigo quando terminei de ler. Não consegui parar de ler os comentários sobre o conto. rsrsrs
    Depois ainda li:
    “Este conto foi escrito por Felipe Holloway para o Desafio Literário de Setembro de 2013, tendo se sagrado campeão.”
    Confesso que não li os outros (e não quero ser injusta) mas esse conto já começa com aquele gostinho de primeiro colocado.
    Parabéns!

  4. Felipe Holloway
    30 de setembro de 2013

    Opa, só passando pra agradecer a leitura, comentários e votos dos colegas. Fiquei bastante tempo sem escrever narrativas curtas e, sendo sincero, estava muito inseguro quanto ao desempenho deste conto junto aos leitores. O feedback positivo me deixou extremamente feliz, sobretudo agora, com a divulgação do resultado (Marco e Thais disseram que o conto está entre os melhores que já leram nos últimos tempos, cara. Não tem dinheiro que pague isso.) =) Óbvio que há muitos pontos em que preciso melhorar, mas gostaria de ressaltar que o motor propulsor do progresso está exatamente nisto aqui: a troca de impressões, de sensações, o apontamento dos equívocos e acertos, a extração da essência de todas as idiossincrasias. Nunca nos daremos por satisfeitos com o que quer que escrevamos (e os senhores sabem bem disso), nem este pode ser o objetivo de quem se propõe a escrever. Mas a experiência literária de cada leitor está aí para mostrar que, como naquelas estátuas da Grécia antiga nas quais falta um braço ou os dois, é possível, sim, haver beleza na incompletude. Muito obrigado mesmo, gente.

    Sobre as influências, hahaha, certíssimos, vocês. Rubão, o conto do Verissimo foi realmente uma inspiração muito forte (eu AMO Bandeira Branca), mas, acredite ou não, a ideia inicialmente me ocorreu como rescaldo da trama da trilogia Before, do Richard Linklater, que eu idolatro. Sobretudo o segundo filme, Before Sunset. A paixão despertada quase por acaso, nas entrelinhas de um diálogo que os personagens mantêm enquanto caminham meio a esmo, e que é interrompida de forma brusca, para só ser retomada nove anos depois, também por acaso, num momento em que mesmo a vida, os sonhos e o mundo tendo tornado ambos seres humanos tão distintos, menos idealistas e mais amargos, se percebe a sobrevivência latente daquela docilidade. Também extraí alguma coisa de uma experiência pessoal, quando, sabe Nietzsche por qual motivo, fui deixar currículo numa funerária e acabei sendo o único ouvinte de uma moça que estava acompanhando o velório do avô, na capela defronte, frustrada por não conseguir (ou por dever) chorar. Vou tentar ser menos “identificável” no próximo concurso, prometo, hahahaha

    Abração, muchachos!

    • Felipe Holloway
      30 de setembro de 2013

      Ah, é, talvez também desse pra perceber que era eu pelo pseudônimo, quase idêntico ao do personagem Juan Dahlmann, protagonista de O Sul, um dos mais lindos contos do Borges. 😉

  5. Bia Machado
    28 de setembro de 2013

    É, muchacho, tá ótimo isso, hehe. Muito bom de se ler e rendia um livro, facinho.

  6. vitorts
    28 de setembro de 2013

    Sensacional! Já tinha minhas suspeitas, mas o autor se entregou com o lance da coluna partida. E agora, com o Rubem falando no Veríssimo… hahahaha

    Adorei os diálogos. Usam de algo que o Tarantino disse certa vez fazer em seus filmes: permear as falas contendo acontecimentos importantes à narrativa com uma boa dose de cotidiano, de forma que a diluição torne o retrato orgânico.

    Está de parabéns, muchacho!

    • Gustavo Araujo
      28 de setembro de 2013

      Quando eu li, pensei em falar do Veríssimo, mas desisti, imaginando que poderia dar muito na cara…

  7. Fernando Abreu
    28 de setembro de 2013

    Criativo, inteligente, vale mil leituras! (sim, parece aqueles frases que são colocadas nas capas dos filmes) Não tenho o que falar, está ótimo, ótimo mesmo. #partiuvotar

  8. Sandra
    28 de setembro de 2013

    Não desgrudei do riso… em momento algum. Boa narrativa. Vale a releitura.

  9. diogobernadelli
    27 de setembro de 2013

    Se fosse o concurso um dedo, este conto seria o anel do seu tamanho. (Mesmo que não revelada, muitos já puderam visualizar a cara do autor.)

  10. Rubem Cabral
    27 de setembro de 2013

    Lindo conto, com todo jeitão do mestre L. F. Veríssimo. Aliás, parece-me inspirado no “Bandeira Branca”, do já citado autor: http://socialistamorena.cartacapital.com.br/bandeira-branca-por-luis-fernando-verissimo/

    • Rubem Cabral
      27 de setembro de 2013

      Ah, claro, sei quem é o autor, haha.

  11. selma
    25 de setembro de 2013

    muito bem escrito, colocado, levado adiante. não poderia fazer nenhuma critica. apenas não gostei.

  12. feliper.
    24 de setembro de 2013

    Ótimo conto. Os diálogos são espertos e divertem, fora as inúmeras coisas que se aprende lendo-os. Gostei da relação entre os dois, gostei de tudo. Vou reler. Bonzão, mesmo.

  13. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    22 de setembro de 2013

    Fantástico justamente por não ser fantástico. Você usou (e abusou) do tema com profissionalismo e sem censura. Não há muito que elogiar, apenas dizer que nada há a criticar.

  14. Raione LP
    22 de setembro de 2013

    Muito bom: irretocável, acho.

  15. Gustavo Araujo
    21 de setembro de 2013

    Certa vez assisti a uma entrevista do autor de novelas Manoel Carlos. Tá bem, admito, não é assim algo tão bacana de se revelar em público… Mas o fato é que ele disse, a certa atura, que não há nada que atraia mais o público do que uma história de amor. Na ocasião, achei um pouco piegas, exagerado, até, mas hoje creio que ele estava certo.

    A história narrada neste conto é primorosa, e é, ora, uma história de amor, daquelas que nos fazem torcer para que os protagonistas terminem juntos. No desenrolar da narrativa é fácil nos pegar pensando, “ai, meu Deus… E agora?” E, como toda boa história de amor, o fim é muito difícil de aceitar.

    Excelente conto.

  16. Thais Lemes Pereira (@ThataLPereira)
    20 de setembro de 2013

    A única coisa que eu posso te falar é que gostaria de dividir esse conto com outras pessoas. Foi uma das melhores coisas que já li nos últimos tempos! Parabéns! Gostaria muito de ler outros textos da sua autoria, se for possível!

  17. Claudia Roberta Angst
    18 de setembro de 2013

    A narrativa desenvolve-se com leveza e humor mesmo nos revelando a ideia da finitude humana, da pouca importância que temos no todo da vida. Palavras muito bem escolhidas e tecidas com maestria.

  18. Arlete Hamerski
    18 de setembro de 2013

    Além de um ótimo conto, sua escrita faz a gente pensar no desperdício do tempo e das relações. Gostei muito.

  19. Marcelo Porto
    17 de setembro de 2013

    Perfeito.

  20. Emerson Braga
    17 de setembro de 2013

    Sabe, acho que a Literatura, como arte, tem que funcionar como catarse. quando nos percebemos, nos enxergamos, quando sentimos empatia por um texto é porque ele nos atingiu em cheio, nos despertou sentimentos, nos tocou. Seu texto está escrito com maestria, desde a forma ao conteúdo. Parabéns!

  21. Reury Bacurau
    16 de setembro de 2013

    A escrita é primorosa e a história me fez pensar: o tempo deve ser aproveitado…rs. Gostei muito. Parabéns!

  22. marcopiscies
    15 de setembro de 2013

    Um dos melhores contos que li nos últimos tempos. Não sei se você gostaria de alguma crítica construtiva aqui, mas não vai conseguir de mim. Tudo está excelente, da escrita à história. Quase chorei, rs.

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Informação

Publicado às 14 de setembro de 2013 por em Cemitérios e marcado .