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Detox Literário.

O Logaritmo do Gato – Conto (Gustavo Araujo)

gato2Heitor aguardava com aflição. Sentado no banco de madeira, espremido naquela sala minúscula de paredes descascadas, agasalhava-se com o paletó marrom de pontas puídas, seu favorito. O rosto estava contorcido pela insônia.

A barba cerrada e os cabelos num arremedo de penteado traduziam horas de amargura.

Ele podia imaginar a cena: em instantes, a porta de ferro, logo à frente, se abriria lentamente, com um gemido de protesto. Por trás dela, a figura de um médico de expressão bondosa cuidadosamente ensaiada, vestindo um guardapó branco, o convidaria a passar para a ala seguinte. Sem escolha, Heitor se levantaria e, com passos trêmulos, atenderia o chamado.

Tratou de abanar a cabeça tentando espantar as imagens borradas de seu futuro imediato. Encolheu-se num abraço solitário sob a lâmpada de luz branca que piscava acima de sua cabeça. Não pôde evitar que uma lágrima de raiva lhe escapasse dos olhos, perdidos agora no infinito de seus devaneios. Pressionou as têmporas com a ponta dos dedos. Trinta e quatro anos de idade. Não era sua hora, ele tinha certeza. No entanto, o papel alaranjado com o timbre da autoridade estatal que recebera dias antes não deixava dúvidas: aquela era, sim, da data de sua apresentação.

Ninguém deve ter pena de si mesmo, disse em voz alta, levantando-se, como se proferisse um discurso para a sala vazia. Encarou novamente a porta de ferro à frente, solitária testemunha de sua agonia. Com as mãos sob o queixo, os cotovelos apoiados nos joelhos trêmulos, sentiu a aspereza da barba mal feita. Analisou a mão esquerda calejada e girou a aliança que trazia no dedo anular. Recordações explodiram em seu rosto, mas ele tratou de afastá-las. Cruzou os braços e fechou os olhos.

Sacou do bolso um pedaço de papel e uma caneta velha. Rabiscou rapidamente o algoritmo que desenvolvera meses antes, só para confirmar o que já sabia. Sua hora definitivamente não era aquela. Por isso precisava ser forte, verdadeiramente forte.

O suor escorreu-lhe pelas têmporas, mas ele não se importou em enxugá-lo.

*****

Em 19 de fevereiro de 1973, um grupo de cientistas liderados pelo físico norte-americano William McCarthy, do MIT (Massachusset’s Instititute of Technology), e pelo biólogo geneticista israelense Gerald K. Foster, da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, logrou demonstrar de maneira prática que o tempo, como previra Albert Einstein, era uma ficção.

Com a aplicação de postulados da mecânica quântica a amostras do DNA de um gato recém nascido, segundo explicaram, determinaram com precisão o tempo de vida do animal, prevendo o instante em que doenças e defeitos genéticos surgiriam levando a cobaia, por fim, a óbito.

O estudo foi publicado na Nature de abril daquele ano.

“É o fim do mito de Schrödinger”, comemorou à época um emocionado Dr. McCarthy, ao comentar a matéria em um programa de TV, citando o experimento mental do físico austríaco. “Agora podemos dizer se o gato está vivo ou morto antes de abrir a caixa.” Enfatizou bem a palavra “antes” erguendo o dedo indicador e em seguida ajeitando os óculos de aros grossos que usava.

Mais comedido, o Dr. Foster tratou de traduzir o entusiasmo do colega para a plateia boquiaberta: “O tempo, para qualquer indivíduo, animal ou vegetal, átomo ou partícula, equivale a um rolo de filme” – explicou, – “hoje estamos em um quadro; amanhã, no seguinte. Só que tudo, na verdade, já foi rodado. O filme da nossa história está pronto desde que nascemos.”

Diante do silêncio da assistência, ele arrematou: “Nossa experiência conseguiu demonstrar que é possível visualizar o que ocorre muitos quadros adiante, como se déssemos um salto.”

Em pouco tempo, a Teoria Foster-McCarthy transbordou dos círculos científicos e acadêmicos para os meios religiosos e filosóficos, trazendo, inevitavelmente, questionamentos sobre as consequências éticas da descoberta.

Clandestinamente, entretanto, cientistas chineses e norte-coreanos iniciaram pesquisas com recém nascidos humanos, no intuito de confirmar a tese de que se poderia antever o tempo de vida do próprio homo sapiens sapiens. Resultados promissores levaram ao vazamento das experiências para a imprensa ateando fogo às discussões sobre a legitimidade do homem em “brincar de Deus”, para usar o clichê jornalístico da época.

Nessa época, porém, a explosão demográfica já era uma realidade, não sendo raros os conflitos gerados por conta de escassez de água e de petróleo, do avanço dos desertos e da falta de alimentos. Nesse cenário, a Teoria Foster-McCarthy acabou sendo útil para que as nações mais poderosas do planeta estabelecessem as bases do viria a ser conhecido como “planejamento social”.

A ideia ganhou corpo na Grã-Bretanha, por intermédio do chamado Hobbes Act. Tratava-se, na verdade, de um conjunto de leis que atribuía ao Estado o controle das informações sobre a linha da vida de cada súdito da Coroa. Reservando para si o conhecimento da data da morte de cada pessoa, o Governo poderia adotar políticas de incentivo educacional e profissional, privilegiando determinados indivíduos em detrimento de outros. Essa política, defendeu o então Primeiro Ministro Terence Howard diante de um Parlamento lotado, permitiria ao Império obter dividendos em diversas áreas estratégicas. Subverteu-se, dessa forma, o conceito do Leviatã, eis que a vida de homens e mulheres passou a ser controlada em prol do Estado e da coletividade.

Evidentemente, houve quem protestasse: “Marx, afinal, venceu”, mas essas vozes foram condenadas ao vácuo do desprezo no momento em que os Estados Unidos decidiram investir pesado no assunto e adaptar, para a sua própria realidade, a engenharia coletiva que se desenhava na Europa. Como de costume, os norte-americanos, aperfeiçoaram o sistema desenvolvido pelos britânicos e, por meio do chamado Laplace Act, estabeleceram que os direitos e deveres para cada pessoa deveriam constar de um contrato individual que regeria toda e qualquer vida, do nascimento do indivíduo à data da de sua morte, passando por aspectos educacionais e profissionais.

Em outras palavras, o Estado, por uma seleção genética previamente conhecida, garantia aos indíviduos o acesso à educação e às profissões mais adequadas às suas capacidades. As pessoas, em contrapartida, deveriam acatar a vontade do ente estatal, visando ao desenvolvimento coletivo.

Apesar de alguns protestos remanescentes, em poucos anos, a sistemática adotada na América do Norte espalhou-se pelos demais países do globo, com o aval da Organização das Nações Unidas.

*****

— Falemos sobre Sartre — disse Heitor, elevando a voz, para a sala de aula completamente tomada. O alvoroço reinante deu lugar à surpresa entre os estudantes, a maior parte adolescentes na faixa dos quinze e dos dezesseis anos de idade. Ninguém esperava aquilo, afinal, de acordo com o calendário semanal, esperavam trigonometria.

Além disso, falar sobre Sartre era ilegal. A doutrina do livre arbítrio, também conhecida como indeterminismo, do qual o filósofo francês havia sido um dos maiores expoentes, era considerada subversiva pelo Estado e havia sido banida dos currículos escolares. Nenhum tipo de referência devia ser feita a ela, nem mesmo para indicar eventuais falhas. Para as autoridades, os argumentos dessa corrente deveriam ser simplesmente desprezados e esquecidos. Mencioná-la, na verdade, equivalia a endossar um discurso contrário ao interesse coletivo. Falar de Sartre era o mesmo que louvar um criminoso.

Heitor, em todo caso, já esperava aquela reação. Sabia que flertava com o ilícito. Encarando os alunos, lembrou-se por que decidira fazer aquilo. O algoritmo. Respirou fundo. Agora era tarde para mudar de ideia.

— As escolhas de cada um de vocês não são predeterminadas — disse, tentando esconder a insegurança que lhe fazia a voz trêmula.

Alguns alunos mexeram-se nas carteiras, nervosos com as palavras. Um leve leve murmúrio surgiu. Todos sabiam que falar naquele tipo de assunto era ilegal. Ouvir talvez fosse também.

— Imutável é apenas o que já foi vivido, acreditem — prosseguiu Heitor, elevando a voz, silenciando novamente o ambiente. — Tudo o que está à frente é passível de mudança. Eu…

Como se lhe faltassem palavras, retirou os óculos e os limpou com a camisa.

— O que quero dizer — continuou, enfim — é que vocês têm a liberdade de mudar completamente as suas vidas daqui por diante. Que são donos dos próprios narizes. Que podem escolher o que quiserem como futuro. Nada está amarrado, nada foi escrito.

— Você está louco! — gritou um aluno, levantando-se no fundo da sala.

— Quer ser preso e nos levar juntos? — indignou-se outro.

Houve, porém, quem saísse em defesa do professor. Logo, a sala inteira estava discutindo. Alguns estudantes levantavam os braços, pedindo para serem ouvidos. Outros pediam calma. Outros, ainda, digitavam mensagens de texto em seus celulares. Alguns ensaiaram um aplauso, outros fizeram menção de deixar a classe.

Heitor, que até então assistia a tudo, calado, subiu no tablado e, diante do quadro negro, começou a escrever. O logaritmo. Em poucos segundos, traçou a fórmula que havia desenvolvido.

— Vocês precisam aprender a pensar! — disse, voltando-se para a classe, novamente em silêncio, martelando a ponta do dedo indicador no crânio, tão forte que era possível ouvir o choque dos ossos. — A matemática comprova o que estou dizendo.

*****

Apesar do avanço proporcionado pela Teoria Foster-McCarthy, a nenhuma pessoa era dado saber a data de sua morte. Esse conhecimento permanecia restrito ao Estado.

Seguindo as premissas do planejamento social, conforme estabelecido em contrato, caberia ao Estado notificar cada indivíduo quando o fim de sua vida se aproximava. Não se fazia referência ao dia preciso da morte, especificamente falando, mas à data em qua pessoa deveria comparecer a uma Câmara de Passagem. Nesse tipo de local, procedimentos de suicído assistido seriam levados a efeito, de molde a pôr fim à existência de cada um. “De modo digno, célere e brando”, como constava do documento de notificação, reconhecível por sua cor alaranjada e pelo selo da autoridade estatal.

A razão para a morte – ou para a passagem – assistida, segundo os defensores do Laplace Act, era evitar sofrimentos inúteis e desnecessários. O indivíduo, dessa forma, dava fim à sua vida imediatamente antes que doenças incuráveis ou incapacitantes – previstas desde o nascimento – o acometessem, antes que ataques cardíacos ou isquemias o derrubassem, antes que, afinal, deixasse de produzir e se tornasse um fardo para a coletividade.

*****

Heitor estava sentado no canto da sala. Sob sua cabeça, a luz branca ainda piscava.

Vencido pelo cansaço, imaginou como seria o fim, como seriam seus instantes finais. Assim que passasse à ala seguinte, acompanhado do médico de guardapó branco, alguém lhe convidaria a deitar em uma cama reclinável. Em seguida, seus braços e mãos seriam atados à grade lateral por tiras de borracha. Repetindo um discurso decorado, o médico, então, lhe explicaria o funcionamento do sistema. Bobagem. Qualquer pessoa sabia como funcionava. Essa conversa só serviria para que os auxiliares prepararassem o restante do equipamento, monitores, agulhas, tubos e sensores.

No final, depois de tudo acertado, ele próprio pressionaria um botão vermelho ao alcance da mão direita – afinal, era destro. A pressão, primeiramente, liberaria uma forte quantidade de tiopental, que o levaria a um sono profundo. Em seguida, de modo automático, uma dose altíssima de cloreto de potássio invadiria sua corrente sanguínea. Em poucos segundos, a solução atingiria seu coração, provocando a parada irreversível.

Isso seria tudo. Logo após, seu corpo seria levado a uma sala de incineração. Um forno a mil graus centígrados daria conta do recado, reduzindo sua existência a cinzas que seriam descartadas na natureza sem qualquer cerimônia. Tudo muito simples, rápido, eficiente, limpo e indolor. Sem longas horas de espera, vigílias ou sofrimento.

*****

Quando um grupo de piratas cibernéticos chamado Herdeiros de Heidegger, conhecido pela sigla HH, realizou um ataque ao banco de dados do Ministério da Engenharia Demográfica (MED), houve quem acreditasse que o sistema de planejamento social pudesse ruir.

Com o intuito de comprovar a existência de falhas, os invasores conseguiram acesso a informações sobre o calendário de apresentação de sessenta e quatro pessoas, divulgando, antes do Estado, dados confidenciais sobre nascimento e morte desses indivíduos.

Na realidade, não se chegou aos nomes das pessoas especificamente, mas os códigos de identificação pessoal permitiram confirmar que, em relação a doze desses indivíduos, as convocações haviam sido determinadas muito antes, anos até, da data prevista da morte.

O Estado, por meio de um pronunciamento sem demora do MED, condenou o ataque, acrescentando que o vazamento de informações secretas traria nada mais do que insegurança à sociedade. Além disso, os dados tornados públicos seriam referentes a uma versão antiga, incompleta, do banco de dados. Por essa razão estaria havendo uma “ aparente confusão” a respeito da data de apresentação de alguns dos indivíduos. Para esses, arrematou o assessor de imprensa ministerial, os dados atualizados justificariam a convocação na época realmente ocorrida.

As explicações do Estado, longe de restabelecer a tranquilidade, serviram como combustível para que grupos defensores do livre arbítrio – desde há muito condenados ao limbo político – voltassem a convocar protestos de forma muito rápida. Apesar de coibidos por forças de segurança, passaram a culpar o Estado, em todas as frentes, de manipulação de informações pessoais. As acusações mais graves diziam respeito à eliminação de indivíduos indesejados, de contestadores e de adversários políticos.

O MED manteve-se em silêncio, preferindo não polemizar. Esperava-se que o assunto fosse esquecido em pouco tempo e que tudo voltasse à normalidade. Contudo, o HH promoveu novos ataques, revelando outros dados sigilosos, rapidamente desmentidos.

A fonte dos terroristas, como passaram a ser denominados, seria, alguém de dentro do sistema. Pelo menos eram esses os boatos. A população, de todo modo, já saía às ruas, exigindo a liberação de todo tipo de informação pessoal em poder do Estado e a correção imediata dos erros.

*****

O ruído seco do ferrolho trouxe Heitor de volta à realidade. Seu coração acelerou e ele se pôs de pé. A hora havia chegado, enfim. Cenas de sua vida cruzaram-lhe a mente em uma fração de segundo – a infância, o casamento, a graduação, a filha. Tudo seria descartado em poucos minutos.

Coragem.

Heitor abotoou o paletó, endureceu o rosto e passou as mãos no cabelo, como quem se prepara para um momento solene.

Dedos pequenos surgiram na parte mais baixa da porta de ferro, fazendo-a abrir com um rangido. A luz penetrou naquela escuridão, revelando a presença de uma criança. Uma menina que vestia uma blusa amarela e segurava com firmeza um ursinho velho.

Isabel.

A garotinha entrou a toda velocidade na sala em que Heitor aguardava.

Oh, meu Deus! Minha filha, minha filhinha!

— Papai! — gritou, correndo na direção dele, os braços abertos, o urso caindo num filete d’água que escorria no chão.

Heitor ergueu-a, como ela gostava. Fitou-lhe o rosto redondo, os olhinhos pequenos, o sorriso rasgado. Abraçou-a imediatamente. Rodopiou com ela várias vezes, até ouvi-la rir de tontura. Não conteve os choro. Beijou-a e acariciou-lhe os cabelos perfumados. Com o canto dos olhos, notou sua esposa, Gabriela, na porta, assistindo à cena, em meio a lágrimas que lhe desenhavam riscos no rosto bonito. Uma felicidade imensa tomou conta dele. Não esperava mais as ver. Nunca mais, na verdade.

— Papai, vamos para casa? — pediu Isabel, com sua voz rouca de passarinho.

Uma sombra cruzou-lhe o rosto. Esperava nunca mais ver suas meninas, como gostava de chamá-las. Tinham partido há tanto tempo… No entanto, ali estavam elas, prontas para testemunhar sua passagem… Um ato cruel do Estado, ele percebia.

— Eu… — começou a dizer Heitor.

— É hora de voltar para casa, querido — disse Gabriela, enxugando os olhos com as costas das mãos.

— Mas, a convocação… — disse ele, buscando no bolso o papel alaranjado.

— Não existe mais convocação — interrompeu-lhe Gabriela, rindo, sucumbindo novamente à emoção. — Tudo mudou. As passeatas… As revoltas… O logaritmo… O Estado admitiu os erros e…

Heitor olhou em volta. Isabel ainda estava grudada em sua perna, rindo, insistindo em puxá-lo para fora dali.  — Vamos, papai!

À sua frente, Gabriela parecia mais linda do que nunca, o semblante melancólico refletindo o sentimento de perda que ele também vivenciava.

Mal podia crer naquilo. Uma segunda chance. Testemunharia a filha crescer, tornar-se adulta, casar-se, dar a seus netos a luz. Nada de médicos em guardapós brancos. Nada de passagens assistidas. Ele iria para casa, com sua mulher e filha. Isso era só o que importava. Seu futuro havia sido modificado. Uma nova vida o aguardava fora daquele lugar infame. Nada era predeterminado.

*****

O Dr Coutinho já estava cansado. Os cabelos brancos que lhe caíam sobre os óculos revelavam a vida fatigante que levava. Trinta e nove anos fazendo sempre a mesma coisa. Era muito tempo.

Examinou o arquivo que tinha nas mãos com atenção. O indivíduo a que acabara de acabara de assistir na câmara era um caso grave de perturbação mental. Pelo menos era o que constava no relatório de triagem ao qual ele se dedicava agora, enquanto tomava um café quente e sem açúcar:  “(…) ataques recorrentes de delírios.”

O médico virou algumas folhas e analisou os dados de identificação do convocado: “professor de álgebra”. Em seguida voltou ao relato da triagem: “(…) acredita viver outra realidade; fala insistentemente em esposa e filha; dá-lhes nomes; descreve situações corriqueiras e emociona-se com elas; torna-se agressivo ao ser questionado sobre o destino da suposta família, acusando as autoridades de manipulação de informações, sequestro e assassinato.”

O Dr Coutinho coçou o queixo e releu a passagem. Doenças incapacitantes, como era o caso de esquizofrenia precoce, eram previstas desde o nascimento. Por esse motivo, o indivíduo era convocado para a passagem assistida antes do aparecimento dos sintomas. Isso toda pessoa sabia. Porém, o que nos últimos tempos ganhara força a tese de que eventos traumáticos podiam acelerar o processo, levando ao surgimento da moléstia antes do que se previra e, evidentemente, a uma convocação antecipada. Especialmente se a pessoa passava a emitir opiniões polêmicas demais.

Atrás do relatório, uma folha de caderno arrancada, trazia uma série de apontamentos. A caligrafia à mão livre provavelmente era do paciente. O médico passou os olhos até deter-se em um trecho.

“(…) Por que motivo o Estado não aceita minha argumentação? É a terceira vez que suplico. Minha esposa e filha não podem ser convocadas ao mesmo tempo. Isso é um erro evidente. Ambas gozam de plena saúde. Qual a probabilidade de serem acometidas por um mal qualquer? Pelo mesmo mal? (…) Obtive dados históricos junto ao Controle Demográfico e apliquei as premissas da Teoria FMC na linha do tempo em relação às combinações possíveis das bases do DNA – A, C, T, G e U. O resultado foi a fixação de um padrão, um logaritmo que completa matematicamente a Teoria FMC. (…)No caso de minha esposa e filha, a data de apresentação não coincide com o cálculo , como se pode ver a seguir  (…).

O Dr. Coutinho folheou o restante dos documentos. Não havia sinal de qualquer fórmula matemática. Em seguida, riu consigo mesmo e balançou a cabeça. Também ele esteve a ponto de acreditar na história, talvez até porque quisesse. Deixou a pasta de lado, sobre a mesa e mexeu o cafezinho pela oitava vez.

Foi quando o assistente júnior da equipe médica apareceu na pequena sala trazendo-lhe uma série de papeis para assinar. Sempre assim, a burocracia gerada por aquele tipo de atividade era estafante.

— O que é isso? — perguntou lá pelas tantas o Dr Coutinho, analisando um pedaço de papel diferente dos demais.

— Esperava que o senhor pudesse dizer. Estava no bolso do paletó do último assistido.

Números e letras haviam sido escritos em forma linear. Aparentemente, algo incompreensível.

— Fruto do delírio, evidentemente — disse ao jovem médico, enfim. — Deixe que cuido disso.

Guardou o papel cuidadosamente em seu bolso. Talvez fosse interessante para o HH.

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Este conto foi escrito por Gustavo Araujo, autor deste blog.

2 comentários em “O Logaritmo do Gato – Conto (Gustavo Araujo)

  1. Evelyn Postali
    21 de janeiro de 2017

    Nossa… Tenebroso! Eu surtei com esse conto. Mergulhei nessa distopia. Me lembrei de 1984, mas um pouco pior, eu creio porque aqui, tem-se aquela sensação de que o perigo é mais contundente, tem uma pitada de terror. Gostei da forma como tudo se mesclou – a parte da história, a história do personagem, e uma terceira história dentro da história. Terminei o conto com uma certeza: independente de ele ter delírios, a sociedade na qual ele vivia, definitivamente não era saudável. Tem sempre uma verdade na loucura, não?
    Muito bem escrito. Uma excelente reflexão, porque não deixa de nos trazer para o que temos hoje, uma liberdade velada, disfarçada.
    Parabéns pelo texto!

  2. selma
    26 de setembro de 2013

    a forma como esta escrito me prendeu até o final, muito interessante. gostei muito!

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Informação

Publicado às 21 de fevereiro de 2011 por em Contos Off-Desafio e marcado .