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Detox Literário.

O Clube de Pipas – Conto (Gustavo Araujo)

Clube.de.PipasÍcaro estava entusiasmado. Era seu primeiro dia no Clube de Pipas. Tinha aprendido a empiná-las com seu pai, meses antes. Agora que fora aceito naquele famoso círculo, ia conhecer outros segredos, novas manobras.

Mal podia esperar para aprender técnicas especiais e métodos de construção inovadores.

Naquela manhã, porém, preferiu não chegar de mãos vazias. Assim, esmerou-se em construir uma pipa pequena. Tinha forma de um losango, com cores azuis e vermelhas se alternando. Com ela debaixo do braço, passou o portão do clube, onde se lia no alto: “Venha Voar Conosco!”.

Ícaro encheu o peito, todo sorrisos.

Não tinha caminhado dez passos dentro do Clube, até que escutou alguém chamá-lo:

— Ei, moleque!

Ícaro se virou, mas não pôde enxergar quem era. Fora ofuscado pelo sol.

— Pipas pequenas não são permitidas aqui — disse o mesmo sujeito. O tom de voz pouco amistoso, parecido com o de um policial de filme de sessão da tarde.

Ícaro olhou para o alto. Lá estavam diversas pipas, todas enormes, em forma de trapézio. Muitos dos garotos que as empinavam, apesar de próximos dali, pareciam não ter notado sua chegada, ou mesmo as boas vindas que acabava de receber.

— Outro novato? — perguntou um menino ruivo, com o rosto salpicado de sardas, aproximando-se. Trazia nas mãos um carretel, cuja linha comandava uma pipa vermelha, lá em cima, contrastando com o céu azul. — E com uma pipa fora do padrão.

— Qual o problema com o tamanho da minha pipa? — murmurou Ícaro, um tanto envergonhado.

— Está chegando agora e já está questionando as regras? — devolveu zombeteiro o primeiro sujeito.

Ícaro agora o enxergava. Era um garoto alto, de cabelos pretos cortados à escovinha. Também ele empinava uma pipa e falava mal tirando os olhos do céu, atento às manobras que executava. Era muito meticuloso.

— Sou o dono deste clube e as coisas têm que funcionar como eu mando — prosseguiu o menino. — Pipas pequenas não são aceitas. Ainda mais em forma de losango. Livre-se dela.

— Mas só por causa disso? — indagou Ícaro, analisando sua pipa detidamente, uma vez mais, para em seguida tentar uma justificativa. — Eu a construí à maneira de Pipadopoulus.

— Pipadopoulus não constroi pipas com qualidade — atalhou o escovinha.

Aquele comentário era quase um sacrilégio. Pipadopoulus era praticamente um deus na arte de construir pipas. E isso era a opinião geral de todos os meninos e meninas que empinavam pipas mundo afora.

— Mas você está errado! — disse Ícaro, levantando a voz, indignado com a ofensa ao seu ídolo. — É uma pipa ótima, ágil, que permite muitas manobras. Talvez até mais ousadas que as pipas de vocês.

— Garoto —, disse o menino sardento, que não devia ser muito mais velho que Ícaro. — Para começar, você não é capaz de distinguir as pipas que estão no céu. E além disso…

— Ei, pessoal! — gritou um menino gordo. Devia ter uns noventa quilos. Veio tropeçando, mas sem qualquer pipa. — Que tal se pegássemos mais leve com o novato?

— Negativo — ralhou o escovinha, o dono do clube. — Vocês sabem que eu não aguento mais ter que explicar as regras deste lugar para cada um que aparece por aqui. Sempre que alguém chega, vai logo querendo inventar coisas, sem saber o mínimo da história deste clube.

— Você sempre fica estressado quando alguém diz alguma coisa que o contrarie — disse o menino gordo, baixando a voz, um tanto acanhado. Suas roupas eram tão apertadas que a camisa subia a toda hora, deixando aparecer o umbigo.

— Está se doendo por ele? — perguntou o escovinha, com sarcasmo na voz. — Quem é você para defender esse pirralho? E quem é ele para falar mal da minha pipa?

— Mas eu não falei mal… — tentou justificar Ícaro.

— Jamais alguém teve uma pipa que voasse mais alto que a minha — interrompeu o escovinha, julgando-se a pessoa mais importante do mundo.

O menino gordo observava, puxando a camisa para baixo. Já conhecia aquele discurso de cor e sabia que precisava aguardar o final.

— Saibam que eu nunca tive que pedir a ninguém colocasse minhas pipas lá no alto — prosseguiu o escovinha. — Já ganhei prêmios e recordes, medalhas e troféus!

— É verdade! É verdade — confirmou empolgado o garoto sardento, que parecia louco pela aprovação do dono do lugar.

Ícaro estava atônito.

— Alguém pode me explicar que tipo de clube é este? — perguntou para ninguém em especial.

O garoto gordo estava prestes a dizer alguma coisa, quando o escovinha voltou a falar:

— O problema são essas pessoas que chegam cheias de ideias novas, como se tivessem descoberto um mapa do tesouro — disse cheio de si, apontando para Ícaro com o queixo, — não conhecem nada e se julgam empinadores de pipas. Quantos anos você tem moleque? Nove? Dez? Não importa, porque eu já tenho quatorze anos. Tenho muito mais experiência que você.

— Mas eu… — tentou atalhar Ícaro.

— Seja mais humilde — interrompeu o menino sardento com um ar fingidamente apaziguador. — Este é um lugar para quem quer aprender, entende? E você já chega se achando a última bolacha do pacote, com essa pipa minúsculas em forma de losango… É muita arrogância!

A observação fez o sangue de Ícaro ferver. Primeiro, a ofensa a Pipadopoulus. Agora, a ele mesmo.

— Arrogante? Eu? Por causa da minha pipa?

— Garoto — latiu o escovinha com impaciência, a voz inesperadamente fanha desta vez. — Pipas desse formato são ridículas, frágeis e incapazes de subir.

— Pois eu aposto que esta pipa é muito melhor do que a sua — respondeu Ícaro, assim, sem pensar.

— O quê? — espantou-se o escovinha. — Não me faça rir, por favor.

— Aceita um duelo? — propôs Ícaro, o fogo ardendo nos olhos.

— Você não teria chance — disse o sardento. — Não sabe com quem está lidando.

— Duelo! Duelo! — vibrou o menino gordo, pulando, chamando a atenção de outros membros do clube.

— Está com medo? — provocou Ícaro.

O escovinha virou-se, a expressão de raiva contorcendo seu rosto. Não estava acostumado a ser desafiado.

— Seu moleque impertinente! Vou acabar com você e com sua pipa!

— Se eu vencer, as regras mudam. De acordo?

— Você não vai vencer — intrometeu-se o sardento. Ele realmente tinha o costume de responder no lugar do escovinha.

Ícaro deu linha e correu, a pipa ganhando altura pouco a pouco. Logo, riscava o ceu descrevendo círculos e parábolas. No chão, dava puxões de quando em quando, sem tirar os olhos lá de cima, grudados nela como se tivessem raios.

— A pipa que voar mais alto é a vencedora — rosnou o dono do clube.

O menino gordo sentou-se em uma pedra e olhou para cima, protegendo a vista com uma das mãos. Outros membros recolheram suas pipas e se aproximaram. O dono do clube ser desafiado era algo completamente inédito.

A pipa em formato de losango de Ícaro deu várias piruetas, a rabiola parecendo um chicote. Quase ninguém acreditava que aquela pipa pequena, frágil e sem muita graça pudesse chegar perto da pipa em formato de trapézio do escovinha. Só o menino gordo que ficava murmurando “sobe, sobe!” parecia torcer pelo novato.

Ícaro era muito bom na arte de empinar. Seu pai o havia ensinado bem e, além disso, ele aprendera a técnica de Pipadopoulus. Lentamente, sua pipa começou a se aproximar da pipa do escovinha. Um sussurro desconfortável surgiu entre os que assistiam, agora mais de vinte membros. Percebendo a situação, o dono do clube começou a suar.

— Desista, moleque! — disse ele, os olhos fixos no azul e nos pontos coloridos lá em cima.

Ícaro preferiu ficar calado. Estava na cara que sua pipa era tão boa quanto qualquer outra. Tinha certeza de que logo o vento a levaria tão alto quanto a do escovinha. Alguns membros começaram a se cutucar e a apontar para o céu. Houve risos e um zum-zum-zum crescente.

— Calem-se! — exigiu o menino sardento. — Não estão vendo que é preciso silêncio?

— Por quê? Isso vai influenciar o vento? — perguntou o menino gordo, ainda sentado..

Houve mais risos.

— Você está maluco? — devolveu o sardento, furioso. — Está torcendo para o novato, é? Quer ser expulso com ele?

— Estou tentando me concentrar — disse o escovinha, levantando a voz, o suor escorrendo pelo rosto.

Então, o impensável aconteceu: a pipa de Ícaro atingiu a mesma altura da pipa do escovinha, exatamente lado a lado. Alguém deixou escapar baixinho um “ele vai ultrapassar”, para depois calar-se, envergonhado. O gordo levantou-se, puxou a camisa para baixo e sem se importar se falava alto demais disse:

— Vamos, vamos!

Em seguida, o escovinha e o sardento se olharam por uma fração de segundo e, no momento seguinte o dono do clube deu um puxão forte em seu carretel, cortando a linha de Ícaro.

— Ei, isso não vale! — protestou o menino gordo enquanto a pipa em forma de losango mergulhava sem controle em direção ao chão.

— Você perdeu, novato — disse o sardento, com um ar de triunfo na voz, como se ele próprio tivesse cortado a linha.

— Isso não foi o combinado! — reclamou Ícaro. — O desafio era para ver quem chegava mais alto!

— Sim, e você perdeu — respondeu o escovinha, tentando esconder um certo tremor na voz.

— Você trapaceou! — acusou o gordo.

— Ora, quem está falando? — disse o dono do clube, levando a mão ao peito, como se interpretasse alguém indignado. — Você mal sabe cruzar duas varetas…

— Mas ele está certo — defendeu Ícaro, atirando o carretel no chão. — Você trapaceou porque viu que eu iria vencer.

Alguns garotos que assistiam à cena falaram alguma coisa, discutindo a validade da manobra. Vozes aqui e ali se sobressaíram: “não pode…” disse alguém; “é, mas no fim a pipa de losango não foi mais alto”, respondeu outro; “mas e cerol?”, indagou um terceiro.

— O fato é que você não venceu, novato — atalhou depressa o sardento, tentando encerrar o assunto e fazer com que os demais membros se calassem. — Sua pipa de meia tigela caiu e a dele continua lá em cima.

Ícaro já não suportava mais aquela intromissão.

“Pipas de losango parecem boas…”, comentou alguém no meio da aglomeração. “Pipadopoulus, não é?”, indagou outro. “Aqui ninguém tem…” Só se ouviam as vozes.

— Você quebrou as regras — disse Ícaro, olhando direto para o dono do clube.

— Regras? Aqui quem faz as regras sou eu — respondeu ele, bancando o professor. — Este é o meu clube. Eu venci. E se você não está satisfeito, sabe onde onde fica a saída.

Contrariado, Ícaro recolheu a linha e dirigiu-se para a sua pipa, agora repousando ali próxima, toda suja de terra. Colocou-a debaixo do braço e saiu pisando duro. O sardento se aproximou com um sorriso zombeteiro no rosto. Certamente, iria falar alguma coisa para provocar, só para ganhar ainda mais aprovação do dono do clube. Antes que pudesse abrir a boca, porém, Ícaro o encarou e disse:

— Você é… Você é um… Ah, quer saber, deixa para lá… Não vai adiantar nada.

Lentamente, o menino da pipa de losango foi se afastando do grupo que havia se formado. Estava com raiva. Aquele clube havia sido uma decepção tão grande que ele tinha que se esforçar para não chorar.

— Ícaro, espere! — gritou alguém.

O menino voltou-se e viu o garoto gordo vindo na sua direção.

— Vou com você — disse ele, a voz trêmula. — Este clube é não serve para nada mesmo.

O escovinha e o sardento se olharam e caíram na risada.

— Muito bem — debochou o dono do clube, colocando a mão na barriga, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo e ele estivesse perdendo o fôlego — Vá embora! Já vai tarde!

— Quem precisa de alguém como você aqui? — completou o outro, forçando o riso.

O gordo não olhou para trás. Continuou caminhando ao encontro de Ícaro enquanto os dois meninos riam cada vez mais às suas costas. Ninguém reparou, contudo, quando os outros integrantes do clube, aquele pessoal que até então havia assistido ao desafio, começou a se mexer. De um momento para o outro, as conversas foram cessando. Todos tomaram suas pipas e enrolaram as linhas. Um a um, começaram a caminhar no mesmo rumo de Ícaro.

Só então o escovinha e o sardento perceberam que estavam ficando sozinhos. A graça desapareceu, os risos sumiram.

— Ei, aonde vocês vão? — gritou o sardento.

Não era preciso responder. Estava na cara que todos iam embora dali.

— Se abandonarem o clube, não poderão voltar — ameaçou o escovinha, a voz trêmula, denunciando o medo de ficar só.

Ninguém deu a mínima atenção. Todos seguiram Ícaro e o menino gordo, passando pelo portão do clube, aquele mesmo onde se lia no alto “ Venha Voar Conosco!”.

Estava na hora de fundar um novo clube, um que admitisse qualquer tamanho de pipa. Iria ser muito melhor, todos tinham certeza.

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Este conto foi escrito por Gustavo Araujo, autor deste blog.

A Arte é de Pedro Paiva.

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4 comentários em “O Clube de Pipas – Conto (Gustavo Araujo)

  1. Brian Oliveira Lancaster
    21 de novembro de 2016

    Cotidiano de crianças sempre traz uma nostalgia geral, aquele nó na garganta de tempos que não voltam mais. Talvez por isso muitos gostem desse seu estilo mais dramático, atual. Gustavo já fazendo chorar desde 2010 (fórmula do sucesso!).

  2. Evelyn Postali
    19 de novembro de 2016

    Amei esse conto. Me identifiquei com o Ícaro e com o gordinho. Nessa vida, não devemos mesmo dar voz para a ignorância. Alimentar monstros não é saudável. Melhor mesmo é fundar um clube diferente. Parabéns pelo conto.

  3. Adalberto Adans Adamowski
    21 de outubro de 2013

    Muito bom este conto, nos remete ao tempo em que éramos crianças, e pensávamos apenas em soltar pipa, jogar bola etc… texto bem conciso com personagens marcantes, vou contar para o meu filho a noite.

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Informação

Publicado às 22 de setembro de 2010 por em Contos Off-Desafio e marcado .

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