EntreContos

Literatura que desafia.

O Livro de Elisa – Conto (Gustavo Araujo)

elisaElisa sempre teve a sensação de que os livros guardavam um segredo especial. Não um significado oculto nas narrativas, romances, aventuras ou fantasias, mas algo além, que estava escondido entre as páginas, na essência de cada obra. Não sabia bem o que era, mas um dia iria descobrir.

Disso tinha certeza. Ainda pequena, ouvia mamãe contar-lhe histórias para dormir. Cada castelo, cada princesa, cada ato heroico, tudo tomava forma com a voz suave dela, sempre sentada na poltrona ao lado da cama onde a menina se deitava. Era contagiante. Elisa logo aprendeu a pedir mais e mais, ávida por novos contos de amor e de coragem.

Um dia, porém, mamãe não apareceu. “Foi viajar”, explicou papai. Nunca mais voltou. Elisa ficou triste, mas como era só uma garotinha, logo mamãe virou apenas uma lembrança doce. Papai continuava a ler para ela, todas as noites. Elisa, porém, tinha pressa de aprender. Logo que papai percebeu isso, foi até o sótão e providenciou um quadro-negro. Iria ensinar-lhe as letras. “Está na hora de você descobrir o mundo sozinha”, avisou. Primeiro vieram as vogais, depois as consoantes. Em pouco tempo surgiram as sílabas e, depois de alguns meses, as primeiras palavras. E ela só tinha quatro anos de idade. “Garota prodígio”, ouvia papai dizer, passando-lhe a mão na cabeça, espalhando os seus cabelos.

Sozinha, Elisa começou a desbravar os horizontes literários. Deixava sua mente vagar por todo tipo de assunto. Tinha lá as suas preferências, é verdade, mas procurava ler de tudo um pouco. E o melhor era que em casa havia uma enorme biblioteca, com estantes em todas as paredes, tão altas que iam até o teto, abarrotadas com todos os tipos de livros que se pode imaginar. Mas nem mesmo aquela imensidão de páginas e publicações parecia ser suficiente para saciar sua sede de conhecimento. Por mais que consumisse livros e mais livros, Elisa sentia que algo lhe faltava.

Qual o verdadeiro segredo da leitura?

Quando Elisa tinha nove anos, papai lhe contou uma história muito interessante. “Filhinha, você sabe que normalmente são as pessoas que escolhem os livros que querem ler, não é?” A menina fez que sim com a cabeça. Então papai continuou: “só que nessa história, acontece o contrário. Um livro é que escolhe uma pessoa para que o leia, um menino, para ser exato.” Elisa ficou boquiaberta. Aquilo era algo impossível.  No final, ao ler o livro que o escolhera, o menino acabava compreendendo sua própria alma, e, assim, descobria o que a vida tinha lhe reservado.

Essa história tornou-se uma das favoritas de Elisa. Agora compreendia que era esse o segredo que todo livro guardava dentro de si. Quando um livro escolhia alguém, revelava a essa pessoa os mistérios da alma dela própria.

Desde então, é claro, Elisa pôs-se a imaginar se algum dia um livro a escolheria para que lhe mostrasse o real sentido de sua vida.

Frequentemente, ia à biblioteca da casa, na esperança de ouvir um sussurro, um chamado ou algo assim. Parava sozinha em frente às estantes e observava, atenta, os livros disciplinadamente enfileirados, como soldados em vigília. A organização era perfeita. Não havia nada fora do lugar.

Ela nunca escutou coisa alguma.

Certo dia, numa dessas ocasiões em que papai não estava em casa, a menina foi até a biblioteca. Como sempre, varreu os livros com os olhos. Como sempre, não houve qualquer sinal de chamado. Como sempre, Elisa soltou um suspiro de decepção enquanto fitava as estantes de um lado a outro. Só que naquele dia, ela percebeu, na quarta prateleira, à direita, algo inusitado. Entre todos os livros que remanesciam em pé, havia um – um único – exemplar deitado. Estava lá no alto, com sua lombada amarela pedindo atenção.

O rosto de Elisa iluminou-se na hora. Ela pôde jurar que o livro a chamava. Pouco importava se não conseguia ler o título. Aquele exemplar, dentre centenas, a havia escolhido. Um sentimento de urgência tomou conta dela. Precisava apanhá-lo, nem que para isso tivesse que quebrar uma das regras mais importantes da casa.

Elisa nunca, em nenhuma hipótese, podia pegar livros sozinha. “É perigoso”, dizia papai, muito sério. “As estantes são muito altas para alguém do seu tamanho. Os livros e as prateleiras podem cair sobre você e machucá-la. Então, sempre que quiser algo novo para ler, peça a mim.”

Mas aquela era uma ocasião especial. Nunca antes um livro a escolhera. E, se não aproveitasse aquela chance, talvez nunca mais isso se repetisse. Papai haveria de compreender a situação.

Junto às estantes havia uma escada de armar, dessas de ferro. Elisa carregou-a com toda a força que tinha até a estante em que o livro de lombada amarela aguardava por resgate. Abriu-a e, com passos vacilantes, subiu, degrau a degrau, até a altura da quarta prateleira, os olhos sempre fixos no seu recém descoberto tesouro. Quase no topo da escada, ela tinha sensação de estar no alto de um edifício de dezenove andares.

Só mais um bocadinho.

Teve a sensação de que o livro se projetava para fora da prateleira, como se dissesse a ela “estou aqui, por favor.”

Só então ela percebeu que havia calculado mal a posição da escada. O livro de lombada amarela não estava assim tão fácil de ser retirado.

Mas é só me esticar um pouco.

Com uma das mãos, agarrou-se na lateral da estante. Em seguida, estendeu o braço livre na direção do livro. Estava quase lá. Esticou as mãos o mais que pôde, os dedos agarrando o ar.

Quase…

Na ponta de um dos pés, Elisa balançou o corpo. Tinha certeza de que seria o suficiente para puxá-lo. Sim, o livro que a escolhera, com sua lombada amarela e título ainda ilegível. O único que estava deitado entre todos naquela biblioteca.

No instante derradeiro, contudo, perdeu o equilíbrio. Por reflexo, tentou agarrar-se às prateleiras, mas os livros, como uma parede de tijolos que se desmorona, vieram abaixo com ela, às dezenas.

“Elisa!” disse papai, chegando de supetão, entrando na biblioteca. Parou diante dela, abaixando-se. Passou a mão em seus cabelos e em seu rosto, examinando-a com a atenção de um cientista. Quando percebeu que ela estava bem, olhou a bagunça, aquele mar de livros esparramados uns sobre os outros, como escombros de uma construção demolida.

“Você não devia ter feito isso, minha filha”, vociferou. “Quantas vezes falei que pegar livros sozinha é proibido? Quer morrer?”

“Mas o livro…”, tentou dizer, a voz fina como a de um passarinho.

“Não quero saber, Elisa!” interrompeu papai, com o dedo em riste, próximo do nariz dela. “Não há desculpas para isso.”

Em silêncio, lutando para se controlar, ela começou a empilhar os livros. Papai balançou a cabeça negativamente.

“Eu arrumo isto. Pode deixar”, disse ele, tentando se acalmar. “Você não sabe o susto que me deu. Vá para o seu quarto.”

Com os olhos molhados, Elisa vasculhou a bagunça, em busca do livro de lombada amarela. Naquele mar literário, porém, não viu o menor sinal. Um sentimento de vazio inundou-lhe o coração imediatamente. Começou a chorar ali mesmo. Esperou alguns segundos por um abraço que não veio.

“Vá para o seu quarto, Elisa. Depois nós conversamos.”, foi tudo o que ouviu.

A menina marchou como papai mandara. Chegou ao seu quarto e subiu na cama, enterrando o rosto molhado no travesseiro com desenhos de dálmatas. Soluçando, com um misto de dor, vergonha e decepção, traduzido nos olhos que ardiam, entregou-se a um sono que não tardou a envolvê-la.

*************

A janela do quarto de Elisa estava aberta e quando a noite chegou uma leve brisa penetrou por uma fresta do lençol. Ela despertou com um pouco de frio. Ainda sentia os olhos embotados, mas saiu do quarto mesmo assim. Foi procurar papai.

bibliotecaPercorreu a casa toda, mas não havia sinal dele. Imaginou que ele ainda estivesse na biblioteca, arrumando os livros que ela tinha derrubado. Também não estava lá. Curiosamente, porém, tudo já estava em ordem. Nem parecia que algo havia acontecido. Todos os livros estavam rigorosamente no mesmo lugar, em pé e enfileirados. Não havia, porém, qualquer notícia do livro de lombada amarela. Elisa olhou e olhou. Ficou com dor no pescoço até, mas de jeito nenhum encontrou o que procurava.

Quando estava prestes a sair da biblioteca, notou algo estranho. A estante cujos livros ela derrubara estava um pouco afastada da parede. Não muito, mas o suficiente para que ela pudesse espiar. Talvez o livro de lombada amarela tivesse caído ali. Ao apertar os olhos, porém, Elisa não enxergou livro algum, fosse de lombada amarela, fosse de qualquer outra cor. Naquele espaço diminuto não havia nada, a não ser um buraco na parede.

Sim, senhor, um buraco na parede, grande como a roda de um carro. Elisa se assustou. Nunca imaginou que a estante pudesse esconder uma passagem como aquela. Desconfiou se papai não teria entrado por ali. Espremeu-se até a abertura e espiou lá dentro.

Sentiu um ar frio lhe envolver. Estava tudo escuro.

“Papai!”, chamou, um tanto receosa.

“Tem alguém aí?”, falou, um pouco mais alto. Em seguida, ouviu sua própria voz responder-lhe num eco “aí-í-í…”

Intrigada, Elisa foi até seu quarto e buscou uma lanterna. Era cor de rosa e tinha desenhos de florzinhas. Ela tinha ganhado de aniversário e achava que dificlmente a usaria. As pilhas não estavam muito boas, mas ainda funcionavam.

Voltando ao buraco atrás da estante, Elisa o iluminou. O facho revelou que o buraco, na verdade, era uma espécie de túnel, mais ou menos da mesma altura que ela. Depois de alguns metros, dava para ver, havia uma escada de madeira, prometendo acesso a algum lugar desconhecido.

Uma passagem secreta.

É claro que Elisa tinha receio do desconhecido, mas sua curiosidade era, talvez, tão grande quanto. Lembrou das histórias de aventura de que tanto gostava. Talvez pudesse só ver o que havia ali, adiante. Qualquer coisa, era só voltar correndo.

Foi o que fez. Segurando a lanterna com uma das mãos e apoiando-se na parede com a outra, avançou lentamente pelo piso de pedras e tijolos velhos. Ficou imaginando se aquele não seria um esconderijo de seu pai ou algo assim. Chegou à escada e começou a subir. Os degraus rangiam em protesto a cada passo. Elisa segurou o corrimão e jogou o facho da lanterna para cima. A escada era bem longa. Mesmo assim, ela seguiu, ainda espantada por jamais ter desconfiado da existência de algo assim em sua própria casa.

Todavia, agora já havia andado tanto que já tinha dúvidas se já não tinha ultrapassado os limites do lugar em que morava. Tinha a sensação, na verdade, de já ter subido uns cinquenta andares.

Julgou ouvir um sussurro. Olhou para trás, mas nada viu. Em seguida, cochichos roçaram-lhe os ouvidos. Parecia que pessoas conversavam em algum lugar próximo:

“Casa… Esconderijo… Estante… Ajuda…”

Por fim, Elisa chegou a uma parede feita de tábuas, dispostas verticalmente. Uma luz penetrava pelas frestas.

Como, se já é noite?

Ela espiou pela abertura. Viu o que parecia ser uma cama de ferro, mas foi só.

Empurrou as tábuas, desejando que se abrissem, como portas. Para sua surpresa, foi exatamente o que aconteceu. Um gemido de madeira fez surgir um espaço, do tamanho preciso para que ela pudesse passar.

Quando entrou, percebeu que estava no sótão de uma casa qualquer.

O local era todo de madeira escura, com grossas vigas que se cruzavam no teto coberto por telhas cor de chumbo. Junto a uma das paredes, reconheceu a cama de ferro, dessas de armar. Sobre ela, repousavam lençois dobrados cuidadosamente. O travesseiro amassado fazia supor que alguém tinha se levantado dali há pouco tempo. Fora isso, não se notavam quaisquer outros móveis, a não ser uma estante improvisada, com alguns livros e mudas de roupa. Uma janela, com um pedaço de pano velho que fazia as vezes de cortina, mal impedindo o sol de entrar, era o único contato com o mundo exterior. Ao lado, uma escada de degraus estreitos prometia acesso aos níveis inferiores da casa.

“Peter!”, alguém chamou lá de baixo enquanto subia, a voz um pouco mais alta que um cochicho.

Elisa não conseguiu se mexer. Uma sensação de urgência, algo inexplicável, tomou conta dela.

“Peter, você está aí?”, chamou a voz novamente. Parecia ser uma menina, os passos cada vez mais próximos.

“Pet…”

A menina a viu. Aliás, era impossível que fosse diferente. Elisa ficou parada. Não havia para onde fugir. Tampouco adiantava gritar.

“Como você entrou aqui?”, perguntou a garota que chegava, ainda falando baixinho. Era bastante magra, um pouco mais velha que Elisa. Seus cabelos pretos estavam presos por uma fivela. Usava um vestido curto, cor de rosa, e seus sapatos pareciam bastante usados.

“Eu… Não sei… Vim procurar meu pai…”, murmurou Elisa, ainda surpresa.

“Você estava escondida?” indagou a menina, as mãos na cintura, o olhar bastante inquisitivo. “Ou entrou aqui por alguma passagem secreta?”

“Bem, eu… Queria ver onde o caminho iria me levar e…”

“Jamais pensei que encontraria mais alguém aqui no anexo. Fico feliz por te ver aqui também!”, disse a garota, sorrindo, um sorriso muito bonito, ainda que ligeiramente triste.

“Venha, sente-se aqui ao meu lado”, sugeriu ela, apontando a cama de ferro. “Como é o seu nome?”

“Eu me chamo Elisa.”

anne.1“Muito prazer”, disse, estendendo a mão. “Eu sou Ana.”

As duas meninas se olharam por um instante, sem saber como continuar a conversa. Até que Ana falou:

“Bem, espero que você mantenha segredo sobre o resto de nós.”

“Nós?” perguntou Elisa.

“Sim… Eu, Pim, mamãe, Margot, o Sr e a Sra van Pels, além de Peter, que é o filho deles, e do Sr Pfeffer”, esclareceu Ana, contando nos dedos enquanto dizia os nomes.

“Oito pessoas?”, indagou Elisa, um pouco incrédula.

“Por favor, fale baixo. Ainda é dia!”

Elisa fez cara de quem não entendeu. Ana continuou falando:

“Se bem que hoje é domingo, dia de recebermos visita, já que não podemos sair.”

“Como assim, não podem sair?”

“A guerra, Elisa. Esqueceu? Talvez não seja problema para você, mas nós, se sairmos, podemos ser presos e levados para os campos e…”

Ao dizer aquilo, a expressão de Ana endureceu. Ela lutou com as palavras, mas não conseguiu dizer mais nada. Por fim, enxugou os olhos com as costas das mãos, olhou para o teto e depois tentou sorrir, a vista molhada de tristeza

“Há quanto tempo vocês estão escondidos aqui?”, indagou Elisa, sentindo desconforto com o silêncio.

“Quase dois anos”, respondeu Ana, com um fio de voz. “Sobrevivemos graças à boa vontade de Miep, Bep, do Sr Kleiman e do Sr Kugler.

Elisa mordeu os lábios. Dois anos era muito tempo se escondendo.

“Conte-me Elisa. O que você faz lá fora?”, perguntou Ana, tentando mudar de assunto.

“Lá fora… Eu… Bem, eu vou à escola, brinco com minhas amigas, eu…”

“Você tem muitas amigas?”

“Tenho… Quer dizer…”

“Amigos… É o que mais me faz falta aqui. Não há nada para fazer, senão ler e escrever. Por sorte, Bep me traz alguns livros.”

“Ah, mas eu também adoro ler!”

“E escrever?”

“Bom, escrever é um pouco difícil…”

“Se você gosta de ler, é bem provável que goste de escrever também. Veja o meu caso: meu sonho é me tornar jornalista. De tanto ler, acabei percebendo que eu adoro escrever.”

Elisa viu no mesmo instante que o rosto de Ana se iluminava. Era claro que falar naquele assunto a deixava feliz.

“Quando estou debruçada sobre meus cadernos, todas as minhas preocupações e tristezas desaparecem. Sinto-me livre. Sabe, Elisa, eu agradeço a Deus, todos os dias, por ter-me dado esse dom.”

“E sobre o que você escreve?”

“Minha maior fonte de inspiração é a nossa vida aqui no anexo secreto. Mas não quero parar por aí. Quero escrever mais e mais. Quero continuar viva mesmo depois que eu morrer.”

“Oh, não seja negativa!”

“Não estou sendo negativa, Elisa. Quero que as pessoas lembrem de mim nos séculos por vir, pelo que escrevo. Talvez eu tenha algo a dizer mesmo àqueles que nunca encontrarei. Não sei se tenho talento para tanto, mas esse é o meu maior desejo.”, disse, olhando para baixo, um tanto encabulada.

A paixão com que Ana falava deixou Elisa radiante. Por um instante, ela perguntou a si mesma se não seria esse o verdadeiro segredo dos livros.

“Nunca confessei isso a ninguém”, murmurou Ana. “Quer dizer, somente a Kitty.”

“Kitty?”

“É, Kitty. Minha melhor amiga. A quem conto tudo. Minhas frustrações, meus medos, minhas alegrias.”

“Ela também vem te visitar hoje?”

Ana sorriu docemente.

“Não… Hoje, não…”

Elisa deu de ombros.

“Venha. Quero apresentá-la a Pim.”, disse Ana, segurando-lhe pela mão.

“Quem é Pim? Outro amigo?”

Ana prendeu o riso com a mão.

“Bem, na verdade, Pim é meu pai”, disse ela. “É a melhor pessoa do mundo. A mais corajosa, bondosa e compreensiva. Muito diferente de mamãe, aliás. Para você ter uma ideia, é graças a ele estamos vivos até hoje. Nós e os van Pels, além do Sr Pfeffer.”

Elisa lembrou-se de seu próprio pai. A bronca que ele lhe dera, por causa da bagunça nas estantes, parecia sem qualquer importância.

“Pim vai adorar conhecê-la, Elisa. E você certamente vai gostar dele também. Vamos lá!”

Quando começaram a descer os degraus do sótão, porém, ouviram que alguém falava muito alto. E, pelo tom de voz, não era algo amistoso. Ana segurou Elisa pelo braço e fitou-a com um ar apreensivo. Elisa fez menção de perguntar alguma coisa, mas Ana gentilmente colocou  a mão em sua boca, calando-a. Depois sussurrou em seu ouvido: “acho que nos encontraram…”

Pé por pé, retornaram ao sótão. Ana segurou Elisa pelos ombros e disse baixinho, os olhos inundados outra vez. “Não sei como eles descobriram nosso esconderijo, mas logo estarão aqui… Oh, meu Deus… Vão nos levar todos…”

“Mas eles não podem me levar”, protestou Elisa.

“É claro que não… Espere, já sei. Volte pelo caminho por onde você veio. Aposto que ninguém sabe dessa passagem.”

Elisa assentiu, percebendo a apreensão de Ana.

“Por que você não vem junto?”, ofereceu, com toda a sinceridade que tinha.

“Eu… Eu não posso deixar Pim sozinho. Ele não iria resistir. Vá, por favor. Rápido!”

Elisa forçou a parede de madeira, que cedeu o bastante para que ela pudesse passar. Observou o túnel por onde tinha vindo. Antes de entrar, olhou para Ana e percebeu as lágrimas desenhando caminhos no rosto magro da menina.

No andar de baixo, alguém gritava. Havia agora muito barulho. Coisas quebradas, louças ao chão.

“Aqui, Elisa”, disse Ana estendendo-lhe um objeto. “Guarde para mim.”

Parecia um caderno. Elisa apertou-o contra o peito e disse: “Vou protegê-lo com todas as minhas forças!”

Em seguida, fechou a abertura atrás de si. Logo, tudo ficou escuro. Não conseguia encontrar a lanterna. Na ausência de qualquer iluminação, não temeu por si, mas por Ana, por Pim e por todas as pessoas que se escondiam naquela casa. Sentou-se no chão, abraçada ao caderno. Fechou os olhos e se encolheu, desejando que tudo não passasse de um sonho.

*************

Quando acordou, Elisa percebeu que já era de manhã. Estava em seu quarto, deitada na cama, vestindo o pijama de crisântemos de que tanto gostava. Uma luz suave penetrava pela janela, denunciando os primeiros raios de sol. Devia ser bem cedo.

Pulou no chão e foi correndo até a biblioteca. A estante estava no lugar onde sempre esteve. Junto à parede, sem qualquer fresta ou espaço. Mesmo assim, ela colou o rosto na base. Conseguia enxergar lá atrás, mas não viu buraco algum. Um misto de decepção e alívio bateu-lhe no peito.

Quando virou-se, viu papai parado na porta.

Ele também estava de pijamas e com o cabelo todo bagunçado. Tinha acabado de acordar, dava para ver.

“Bom dia, Elisa”, disse ele, com um ar misterioso. “Ainda está braba comigo?”

Não. Ela não estava braba. Queria abraçá-lo e beijá-lo. Não havia mais bronca ou desapontamento.

“Eu tenho uma coisa para você”, disse ele, estendendo a mão.

Elisa mal pôde acreditar. Era um livro. Um livro de lombada amarela.

Ela se encheu de alegria. Saltou para o colo de papai e deu-lhe o maior abraço do mundo. Não precisava dizer mais nada.

Saiu apertando o livro junto ao peito. Não o abandonaria jamais. Já sabia do que se tratava, mesmo sem ter lido. O livro de Ana. Elisa compreendia, agora, o que a vida havia lhe reservado. Era hora de começar a escrever.

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2 comentários em “O Livro de Elisa – Conto (Gustavo Araujo)

  1. Evelyn Postali
    21 de janeiro de 2017

    Que coisa mais incrível! Comecei e não parei. Uma história sensível, bela, doce. Eu associei com Alice no Pais das Maravilhas, nessa passagem. Também relacionei ao Diário de Anne Frank. Mas por coisas muito minhas. Gostei de como conduziu a história. Coerente. A sua linguagem é fluída, certinha, mas muito rica!

  2. Jussara Castro Araujo
    28 de janeiro de 2014

    Amei o conto, à princípio pareceu-me bem familiar, e a seguir mergulhei no conto de Elisa como se tudo que ela estivesse vivendo no sonho, era mais que real…Parabéns filho!!

E Então? O que achou?

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Publicado às 9 de julho de 2011 por em Contos Off-Desafio e marcado .