Se o tempo devora o tempo
de que somos feitos,
corrói nossos campos,
as flores do jardim,
o corpo, ontem jovem,
agora em ruínas,
por que cantamos?
Se cada dia vivido
carrega a sombra da morte,
se nos falta o ar
e a natureza antes do homem,
se a vida se torna
precária e urgente,
por que cantamos?
Se os heróis da infância
se desfazem,
se o país se cobre de cinzas
e os homens se afastam
uns dos outros,
se o coração já não espera
muito do amanhã,
por que cantamos?
Se nos afundamos
na solidão da noite,
se as estrelas salpicam o céu,
indiferentes ao nosso destino,
se cada manhã
nos devolve à mesma labuta,
por que cantamos?
Se Deus está encarcerado
nos templos,
se os dogmas dos sacerdotes
esmagam a fé,
por que cantamos?
Cantamos o ruído das águas,
o voo incerto dos pássaros,
o dia que morre no horizonte,
a estrela que por um instante
brilha no escuro,
o poeta que canta
contra a pedra bruta da vida.
Cantamos porque cantar
é o que podemos
quando já não sabemos
o que fazer com o mundo.
Cantamos a flor
que rompe o asfalto,
o beijo que inventa o afeto,
o abraço que acolhe
o corpo desamparado,
o riso da criança
que devolve ao mundo
alguma inocência,
o velho que desdenha da morte,
os pés empoeirados nas estradas,
a recusa da inércia,
a recusa da derrota.
Cantamos como se rezássemos
a um Deus desconhecido
em algum lugar do infinito
talvez nos escute
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