EntreContos

Detox Literário.

Contra a pedra – Poesia (Eraldo Galindo)

Se o tempo devora o tempo
de que somos feitos,
corrói nossos campos,
as flores do jardim,
o corpo, ontem jovem,
agora em ruínas,
por que cantamos?

Se cada dia vivido
carrega a sombra da morte,
se nos falta o ar
e a natureza antes do homem,
se a vida se torna
precária e urgente,
por que cantamos?

Se os heróis da infância
se desfazem,
se o país se cobre de cinzas
e os homens se afastam
uns dos outros,
se o coração já não espera
muito do amanhã,
por que cantamos?

Se nos afundamos
na solidão da noite,
se as estrelas salpicam o céu,
indiferentes ao nosso destino,
se cada manhã
nos devolve à mesma labuta,
por que cantamos?

Se Deus está encarcerado
nos templos,
se os dogmas dos sacerdotes
esmagam a fé,
por que cantamos?

Cantamos o ruído das águas,
o voo incerto dos pássaros,
o dia que morre no horizonte,
a estrela que por um instante
brilha no escuro,
o poeta que canta
contra a pedra bruta da vida.

Cantamos porque cantar
é o que podemos
quando já não sabemos
o que fazer com o mundo.

Cantamos a flor
que rompe o asfalto,
o beijo que inventa o afeto,
o abraço que acolhe
o corpo desamparado,
o riso da criança
que devolve ao mundo
alguma inocência,
o velho que desdenha da morte,
os pés empoeirados nas estradas,
a recusa da inércia,
a recusa da derrota.

Cantamos como se rezássemos
a um Deus desconhecido

em algum lugar do infinito
talvez nos escute

E Então? O que achou?

Informação

Publicado em 8 de novembro de 2026 por em Poesias.

Navegação