I — ATRÁS DO VIDRO
Chamaram-me Marlim.
Antes disso, fui apenas um corpo pequeno encostado à barriga da minha mãe. Conhecia-lhe o cheiro, o calor e o lugar onde o leite sabia melhor. Era uma labradora preta, de olhos meigos, que nos lavava com uma paciência que eu julgava inesgotável. Quando algum de nós se afastava, puxava-o para junto de si com o focinho.
Éramos três. Dormíamos amontoados, trocávamos dentadas sem força e disputávamos coisas que não tinham importância nenhuma. Uma ponta de pano. Um lugar debaixo da pata dela.
Eu era feliz. Só mais tarde aprendi a dar nome àquilo.
Tinha cerca de dois meses quando nos levaram. Era inverno. A minha mãe percebeu primeiro: levantou-se assim que os homens entraram e colocou-se à nossa frente. Um afastou-a com uma perna. O outro agarrou em mim pela barriga.
Ainda consegui vê-la por cima do braço dele.
Não me lembro do rosto dos homens. Lembro-me dos olhos dela.
Meteram-nos numa caixa. A minha irmã enfiou a cabeça debaixo do meu peito e o meu irmão encostou-se às minhas costas. Ouvimos a nossa mãe do outro lado, cada vez mais agitada. Depois fechou-se uma porta.
Durante muito tempo, continuei à espera de que ela a abrisse.
A viagem pareceu não acabar. O chão tremia, as curvas atiravam-nos uns contra os outros e havia um cheiro que me enjoava. Mais tarde ouvi dizer que tinham sido duas horas. Naquela altura, eu não sabia o que eram duas horas. Sabia que já devíamos estar muito longe.
Quando a caixa voltou a abrir-se, a minha mãe não estava lá.
Estavam luzes.
Luzes por cima, dos lados, refletidas num chão tão brilhante que tive receio de lhe pôr as patas. Levaram-nos para dentro de uma loja e colocaram-nos num expositor de vidro, com uma manta e duas tigelas.
Do lado de fora passavam pessoas sem descanso. Andavam para a frente, voltavam para trás, baixavam-se diante das montras, levantavam-se, falavam com pequenos objetos encostados à orelha.
O bicho-homem parecia viver à procura de alguma coisa que acabara de perder.
Viam-se umas escadas que andavam sozinhas. Ao lado corria água por uma espécie de ribeira feita de pedra. A luz batia-lhe e espalhava manchas nas paredes.
Tudo brilhava naquele centro comercial.
À noite, quando a loja fechava, deixava de parecer bonito.
A minha irmã choramingava. O meu irmão procurava um lugar para esconder o focinho. Eu deitava-me junto deles.
— Tenham calma. Vai correr tudo bem.
Não sei se acreditava. Alguém tinha de o dizer.
Uma noite, como continuavam a tremer, acrescentei:
— Se fosse para nos comerem, já nos tinham vindo buscar.
O meu irmão levantou a cabeça.
— E se estiverem à espera de que a gente cresça?
Não tive resposta. Encostei-me mais a ele.
Durante o dia, os dois ficavam quase sempre num canto. Eu aproximava-me do vidro. Gostava das crianças que se baixavam até à minha altura, das mãos abertas do outro lado, das caras que sorriam quando eu inclinava a cabeça.
Algumas batiam no vidro. Dessas afastava-me.
Outras pousavam apenas um dedo e esperavam. Eu encostava o nariz ao lugar onde estava o dedo.
Foi assim que comecei a conhecer os humanos: um vidro entre nós e a impressão de que quase todos queriam brincar.
A minha irmã foi a primeira a partir.
Levaram-na ao colo de uma menina que lhe fazia festas na cabeça. Ela gania e procurava-nos por cima do braço da criança. O meu irmão ergueu-se contra o vidro. Eu corri de um lado para o outro.
A menina ainda se voltou à porta.
Depois desapareceu com a minha irmã.
Nessa noite sobrou espaço na manta. Nenhum de nós o ocupou.
Ficámos eu e o Amarelinho. Chamava-lhe assim por causa do pelo, de um amarelo torrado que parecia guardar luz mesmo quando a loja estava às escuras. Eu saíra todo à minha mãe.
Durante uns dias, ele deixou de brincar. Depois voltou a puxar-me pelas orelhas. A vida, mesmo dentro de uma caixa, acaba por pedir qualquer coisa aos vivos.
Na tarde em que os Medeiros apareceram, eu estava a acompanhar a mão de uma jovem do outro lado do vidro.
Ela deslizava um dedo devagar e eu seguia-o com o focinho. Quando parava, eu parava também.
Foi então que ouvi:
— É este! Pai, mãe, é este que eu quero!
O rapaz surgiu ao lado dela e bateu com os nós dos dedos no vidro.
Recuei.
— Este preto! Quero este!
Pedro tinha dezasseis anos. Leonor, a irmã, tinha dezanove. Vim a saber as idades em casa, entre aniversários e conversas; naquele dia, eram apenas dois humanos que olhavam para mim de maneiras diferentes.
Ela afastou-lhe a mão.
— Não batas. Assustas os cães.
— Não estava a fazer nada.
Leonor voltou a baixar-se.
Não insistiu para que me aproximasse. Ficou à espera, com a mão pousada no vidro.
Acabei por ir.
Foi a primeira coisa que fez por mim: esperou.
Quando o empregado me tirou do expositor, o Amarelinho levantou-se de repente. Pôs as patas no lugar onde eu estivera e seguiu-me com os olhos.
Tentei torcer-me no colo do homem.
Ainda hoje me lembro dele atrás daquele vidro.
Não sei que nome lhe deram. Não sei se teve um jardim, uma cama ou alguém que esperasse por ele à porta.
Espero que sim.
II — A CASA DOS MEDEIROS
Os Medeiros moravam numa vila junto à serra, a uma viagem de carro do centro comercial.
Nos primeiros tempos, a casa pareceu-me enorme. Havia corredores onde as minhas unhas faziam barulho, tapetes que escorregavam e um quintal com uma figueira. Passei uma manhã inteira a investigar-lhe o tronco. Tantos cheiros num só lugar pareciam-me uma riqueza.
Pedro atirava-me uma bola. Eu ia buscá-la e voltava, orgulhoso, com ela na boca. Ele fazia-me festas e ria quando eu tropeçava nas minhas próprias patas.
Talvez tenha gostado de mim nessa altura.
Prefiro pensar que houve pelo menos alguns dias em que gostou.
O meu nome foi decidido à mesa.
Pedro queria chamar-me Nero. O pai sugeriu Rex sem tirar os olhos da televisão. A mãe disse que qualquer nome servia, desde que eu aprendesse depressa a fazer as necessidades no sítio certo.
— Marlim — disse Leonor.
Pedro torceu o nariz.
— Que nome é esse?
— É o nome dele.
Houve discussão. Depois, uma votação. O pai levantou a mão a favor de Leonor, talvez para conseguir ouvir o telejornal. A mãe acompanhou-o.
Fiquei Marlim.
Mais tarde, no quarto, Leonor encostou a testa à minha.
— É por causa do Bob Marley. Mas tu és Marlim, à minha maneira.
Eu não sabia quem era o outro. Se ela gostava dele, pareceu-me uma boa escolha.
Leonor tinha uma voz que não precisava de subir para eu a ouvir. Nessa altura trabalhava numa papelaria e estudava à noite para entrar na universidade. Lia comigo deitado junto aos pés e, de vez em quando, baixava uma mão para confirmar que eu continuava ali.
Eu seguia-a pela casa.
Foi isso que Pedro começou a detestar.
Chamava-me do corredor e eu ficava no quarto dela. Atirava uma bola e eu levava-a a Leonor.
Uma tarde agarrou-me pelo focinho.
— Fui eu que te escolhi, ouviste?
Tentei lamber-lhe a mão.
Apertou mais.
A primeira pancada veio pouco depois: um golpe rápido no lombo, dado com um chinelo, porque eu não largara um brinquedo.
Soltei um ganido. Pedro olhou logo para a porta.
Fiquei a conhecer aquele gesto.
Antes de me magoar, verificava sempre se estava alguém a ver.
Começaram a acontecer coisas na casa.
Uma almofada apareceu rasgada no chão. Pedro chamou a mãe e apontou para mim. Eu cheirara o enchimento, mas tinha sido ele a abri-la com uma tesoura.
Noutra ocasião, tirou um sapato do armário e meteu-mo na cama. Quando o pai o encontrou, Pedro já estava ao lado dele.
— Eu bem disse que este cão estragava tudo.
Aprendi que uma coisa podia acontecer à minha frente e tornar-se outra quando ele a contava.
Leonor apanhou-o uma vez a apertar-me uma pata na porta da despensa. Eu tentava puxá-la e ele segurava a porta, muito quieto, a observar-me.
— Larga-o!
Pedro soltou-a de imediato.
Quando a mãe apareceu, já ele dizia que eu ficara preso sozinho.
— Eu estava a ajudá-lo.
— Eu vi! — gritou Leonor.
— Não comeces outra vez com o teu irmão.
Leonor ajoelhou-se junto de mim. A pata latejava. Segurou-a entre as mãos e chorou de raiva.
Nessa noite fiquei no quarto dela.
Quando Pedro passou à porta, encolhi-me.
Ele reparou.
Sorriu.
A partir daí, por vezes, bastava-lhe levantar uma mão. Descobrira que podia divertir-se sem sequer me tocar.
À frente dos outros, chamava-me medricas.
Eu crescia. As patas alongaram-se, o peito alargou, os dentes de leite caíram. Continuava a querer brincar, mas já escutava os passos antes de correr para alguém.
Os de Leonor faziam-me levantar.
Os de Pedro faziam-me procurar uma saída.
III — O COMPRIMENTO DA CORRENTE
Prenderam-me à figueira nessa primavera, antes de eu completar um ano.
Pedro convencera os pais de que me estava a tornar perigoso. Disse que rosnava sem razão, que podia morder uma visita, que um cão daquele tamanho precisava de aprender o seu lugar.
Não contou que me encostara a um canto com o cabo de uma vassoura até eu mostrar os dentes.
O pai fixou uma argola num bloco de pedra enterrado junto da árvore. A corrente que lá prendeu chegava a uma tigela e a um barril de vinho cortado, deitado de lado. Cabia lá dentro se me enroscasse bem.
Leonor chegou e encontrou-me a tentar perceber até onde conseguia andar.
A corrente esticou.
O puxão fez-me tossir.
— Não o podem deixar assim.
O pai disse que era provisório.
A mãe falou dos pelos na casa.
Pedro ficou à janela.
Nessa noite, Leonor levou-me uma manta e sentou-se no chão. Ficou tanto tempo comigo que a mãe veio chamá-la duas vezes.
— Tens uma cama lá dentro.
Ela passou a mão pela corrente.
— Ele também tinha.
Ao longo dos meses seguintes conheci cada palmo de terra à volta da figueira. No verão, o chão aquecia. Quando vieram as chuvas, a água ficou nos sítios mais baixos. A corrente desenhava um sulco à medida que eu me deslocava. Às vezes enrolava-se no tronco e eu perdia metade do espaço.
Leonor desenrolava-a quando chegava.
Pedro aprendera a deixá-la assim.
Se ela estava em casa, havia água limpa e uma mão a coçar-me atrás das orelhas. Quando saía, eu ouvia o trinco da porta e começava a contar os ruídos.
Pedro esperava alguns minutos.
Depois vinha.
Atirava pequenas pedras, primeiro para perto, depois para o corpo. Se eu me escondia no barril, batia-lhe com um pau até o som me obrigar a sair. Se ladrava, abria a janela e gritava que eu estava outra vez a fazer barulho.
Uma vez pôs comida para lá do alcance da corrente.
Passei muito tempo a esticar o pescoço, a raspar a terra, a tentar chegar-lhe com a pata.
Ele ficou sentado no degrau, a comer qualquer coisa de um pacote.
Quando se levantou, pensei que me ia aproximar a tigela.
Levou-a.
Os pais tinham os seus assuntos. Falavam de hotéis, de roupas, do carro de alguém, de uma promoção que não podiam perder. Havia sempre uma razão para saírem depressa.
Quando Leonor lhes mostrava uma ferida, a mãe perguntava:
— E como sabes que foi o teu irmão?
Pedro encolhia os ombros.
Eu olhava para Leonor. Ela olhava para mim.
A verdade estava ali, mas não chegava.
O olho ficou ferido numa tarde abafada do primeiro verão.
Pedro arranjara um ramo comprido. Eu procurava afastar-me da ponta, já sem espaço para recuar. Houve um movimento rápido e uma dor que me atravessou a cabeça.
Não consegui abrir o olho.
Leonor encontrou-me ao fim da tarde, com o focinho encostado à terra. Telefonou para a clínica, insistiu com o pai e, dessa vez, ele levou-nos.
Ouvi discussões por causa da despesa. Pedro disse que eu me espetara sozinho num ramo da figueira.
A vista melhorou com o tratamento, mas daquele lado ficou uma névoa e uma pequena cicatriz na pálpebra. Passei a virar a cabeça para ver melhor quem se aproximava.
Pedro achava graça.
No princípio do outono, Leonor entrou na universidade, noutra cidade. Tinha vinte anos. Eu estava perto de completar o primeiro.
Voltou todos os fins de semana que conseguiu. Quando saía com as malas, eu seguia-a com os olhos até ao portão. Ela regressava para me abraçar, embora a mãe dissesse que já estavam atrasados.
Depois havia dias compridos à espera dos seus passos.
Numa dessas ausências, Pedro enganou-se na distância.
Eu ainda era novo, mas já tinha força. Ele avançava com um pau, tão seguro da corrente que se aproximou mais do que costumava.
Saltei.
O meu peito bateu-lhe no corpo e as patas atingiram-no acima da camisola. Caiu para trás com um grito que eu nunca lhe ouvira.
A corrente travou-me antes de lhe chegar com a boca.
Fiquei a tossir, com a coleira enterrada no pescoço. Ele arrastou-se para fora do meu alcance.
Durante alguns segundos olhámo-nos sem fazer barulho.
Vi o medo nele.
No dia seguinte mostrou à família os arranhões no peito. Disse que me aproximara água.
O pai apertou mais a coleira.
Pedro passou a manter distância. As pedras tornaram-se maiores.
Na primavera seguinte apareceu com uma arma de ar comprimido. Ao primeiro disparo senti uma pancada ardente no flanco. Corri para o barril, arrastando a corrente. Outro tiro atingiu a madeira junto da entrada.
Fiquei lá dentro até escurecer.
Quando Leonor encontrou a pequena ferida, dias depois, já eu me lambia sem descanso. Levou-me outra vez à clínica e quis saber o que acontecera.
Pedro respondeu:
— Agora também vais perguntar ao cão?
IV — A NOITE DA FIGUEIRA
Nesse verão piorei.
Leonor teve exames e ficou algumas semanas sem vir. Os pais passaram dias fora. Pedro, que já fizera dezoito anos e acabara a escola, dizia que estava a decidir o que queria fazer da vida.
Comigo, nunca parecia ter dúvidas.
No início das férias, Leonor encontrou-me com água suja na tigela, feridas por tratar e o pescoço magoado debaixo da coleira. Tentei recebê-la de pé. As pernas cederam.
Ela deixou cair a mala.
Houve vozes, uma toalha à minha volta, o esforço de me erguerem. Lembro-me de a ouvir dizer:
— Ele vai ao veterinário agora.
A mãe respondeu que não voltava a gastar dinheiro em tratamentos de animais.
— Para outras coisas ajudo-te. Para isto, não.
Leonor ficou em silêncio. Depois ouvi-lhe a voz, baixa e firme:
— Então peço emprestado.
Foi o que fez.
Uma amiga ajudou-a a levar-me. No carro, Leonor manteve uma mão encostada ao meu corpo durante todo o caminho.
Passei uma semana internado.
Havia infeção, febre, feridas que eu já nem conseguia alcançar com a língua. As pessoas de bata mexiam-me com cuidado. Quando precisavam de fazer alguma coisa que doía, seguravam-me sem raiva.
Demorei a habituar-me.
Leonor aparecia todos os dias. Contava coisas das aulas, como fazia em casa com os livros. Às vezes calava-se a meio de uma frase e ficava apenas com a mão na minha cabeça.
Quando comecei a comer sozinho, chorou.
Eu lambi-lhe os dedos. Sabiam a sal.
Voltar à casa dos Medeiros foi pior do que entrar na clínica.
Reconheci a rua. Depois o portão. Encostei-me ao banco do carro e não quis sair.
— Eu sei — murmurou Leonor.
Durante o resto das férias procurou um lugar para mim. Telefonou, falou com amigos, perguntou por acolhimento temporário. No quarto onde vivia durante as aulas não lhe permitiam ter animais. Os lugares que encontrou estavam cheios ou não podiam receber um cão do meu tamanho.
Eu ouvia as conversas sem compreender tudo. Compreendia a maneira como pousava o telefone.
O veterinário registara o meu estado. Leonor tirara fotografias e fizera uma participação. Houve perguntas, uma visita à casa e promessas diante de pessoas estranhas. Nessa altura, as tigelas estavam cheias e o quintal limpo. Pedro nem se aproximou de mim.
Leonor insistia para que me tirassem dali. Não conseguiu uma solução imediata. Continuou a procurar.
Pouco antes de regressar às aulas, confrontou o irmão.
— Se lhe voltas a tocar, não descanso enquanto não te responsabilizarem.
Pedro mudou de voz.
— Está bem, mana. Eu paro.
— Tu não tens de parar de brincar. Tens de parar de o maltratar.
Ele baixou os olhos.
— Às vezes exagero. Já percebi.
Ela precisava de uma solução. Ele oferecia-lhe uma promessa.
Na manhã da partida, ajoelhou-se junto de mim. Uma pessoa estava a tentar arranjar-me acolhimento, disse. Ia continuar a telefonar e a insistir na participação.
Eu encostei o focinho ao pescoço dela.
— Aguenta só mais um bocadinho.
As lágrimas caíram-me no pelo.
Antes de se levantar, segurou-me a cabeça entre as mãos.
— Se ele voltar a fazer-te mal, foge. Rebenta essa corrente.
Olhou para o ferro como se soubesse o impossível que me pedia.
— Eu venho buscar-te.
Pedro observava-nos da janela.
Depois de o carro desaparecer, desceu ao quintal. Parou diante de mim.
— Quando ela voltar, já não te encontra.
Nos dias seguintes deixou de fingir. A água nem sempre aparecia. A comida chegava quando lhe apetecia.
Quando o telefone tocava e a mãe vinha espreitar, Pedro já tinha enchido as tigelas.
— Está ótimo — ouvia-a dizer. — A comer e tudo.
Eu já quase não ladrava.
Completara dois anos quando chegou a grande tempestade daquele outono.
Nessa tarde, Pedro entalara a corrente entre dois paus junto ao tronco, deixando-me sem comprimento para chegar ao barril. Puxei até ficar sem ar.
Ele entrou em casa.
O vento veio primeiro. Sacudiu a figueira, levantou folhas e empurrou chuva para dentro do quintal. Tentei alcançar o abrigo. A corrente esticou antes de o meu focinho chegar à madeira.
Deitei-me junto à árvore.
A água atravessou o pelo. Mudei de posição, mas o chão estava alagado em todo o espaço onde conseguia chegar.
Por trás da janela havia luz.
Pedro apareceu e ficou a olhar.
Não lhe rosnei. Já não tinha forças.
Baixei a cabeça e lembrei-me da minha mãe. Talvez por causa do frio. Recordei-lhe a barriga quente e a maneira como respirava enquanto dormíamos.
Fechei os olhos.
Um trovão sacudiu a casa.
Pouco depois ouvi Pedro ao telefone, abafado pelo vidro. Afastou-se e voltei a ficar sozinho.
A luz que veio a seguir pareceu nascer dentro da figueira.
Houve um estalo brutal, cheiro a madeira aberta e um peso enorme a cair. Encolhi-me. O tronco abriu-se, uma parte da árvore esmagou o barril e as raízes levantaram terra e pedra junto da argola.
Por alguns instantes não ouvi nada.
Depois voltou a chuva.
Mexi uma pata. A outra. Levantei a cabeça.
O bloco deslocara-se. A argola soltara-se da pedra.
Dei um passo, à espera do puxão.
Não veio.
Dei outro. Atrás de mim, o ferro arrastou-se na terra.
Pedro surgiu à janela. Olhei para ele e mostrei-lhe os dentes.
Foi então que ouvi o portão.
— Marlim!
A voz chegou entre o vento e a chuva.
— Anda, querido!
Leonor.
Mais tarde contou-me que tentara falar com os pais e que Pedro, numa provocação, lhe mandara uma imagem minha à chuva. Ela regressara à vila numa boleia, sem esperar pela manhã.
Naquele momento eu não sabia nada disso.
Sabia que estava no portão.
Avancei.
A porta das traseiras abriu-se e Pedro atravessou-se no caminho.
— Para onde pensas que vais?
Parei. A corrente ficou estendida atrás de mim. Entre nós já não havia uma distância que ele pudesse medir com segurança.
Dei um passo na sua direção.
Pedro recuou.
Eu conhecia-lhe o cheiro melhor do que o de qualquer outro homem. Agora tinha-lhe o corpo ao alcance.
— Marlim, não!
A voz de Leonor fez-me virar uma orelha.
Pedro tropeçou no degrau.
— Olha para mim, querido. Estou aqui.
Olhei.
Ela estava ajoelhada junto ao portão aberto.
Atrás de Pedro apareceram os pais. Falavam ao mesmo tempo. Queriam saber por que motivo estava eu solto, por que regressara Leonor, o que acontecera à árvore.
Passei por ele.
Quando cheguei a Leonor, as pernas tremiam-me. Ela abraçou-me com cuidado e senti-lhe as mãos pararem nas minhas costelas.
— Meu lindo…
Enterrei o focinho no casaco dela.
Procurou o fecho que prendia a corrente à coleira. Precisou de tentar duas vezes.
Ouvi o clique.
O ferro caiu.
— Vamos sair daqui — disse. — A minha amiga está ali à frente, no carro.
Mas ouvi Pedro atrás de nós.
Bastou a voz dele.
Soltei-me dos braços de Leonor e atravessei o portão. Ela chamou-me, primeiro com surpresa, depois com aflição.
Eu já corria.
Olhei uma vez para trás e vi-a na entrada. Voltei a olhar na esquina. Ela avançava pela rua, debaixo da chuva.
Quis voltar.
Um trovão rebentou por cima das casas. A voz de Pedro chegou do quintal e o meu corpo decidiu antes de mim.
Corri.
Atravessei uma rua, depois outra. A água saltava debaixo das patas. Os portões batiam com o vento.
Continuei até deixar de ouvir aquela casa.
A voz de Leonor veio comigo durante muito mais tempo.
V — UM LADRÃO DE ALTO GABARITO
Nos primeiros dias, a liberdade soube-me a água das valetas.
Bebia onde podia, dormia onde me deixavam e acordava ao menor ruído. Se alguém levantava um braço, encolhia-me antes de perceber o que tinha na mão.
Continuava à espera do puxão da corrente.
Às vezes corria sem necessidade, só para confirmar que conseguia.
A fome veio depressa. Descobri que os cheiros das cozinhas não alimentavam ninguém.
Foi outro cão que me deu a primeira refeição.
Estava preso junto a um barracão. Era velho, tinha o focinho branco e uma tigela com restos de arroz. Parei do lado de fora da rede.
Ele olhou para mim, depois para as minhas costelas.
— Cabe aí o focinho?
Havia um buraco junto ao chão.
— Talvez.
Empurrou a tigela com a pata.
Comi tão depressa que me engasguei.
— Devagar. Isso já não foge.
Quando terminei, fiquei a olhar para o fundo vazio.
— E tu?
— Já comi.
Mentia. Percebi pela maneira como seguira o último grão de arroz.
Voltei lá algumas vezes. Nem sempre tinha alguma coisa para dividir. Quando não tinha, ficávamos deitados, cada um do seu lado da rede.
Havia outros como ele. Uma cadela de orelhas caídas deixava-me comer enquanto vigiava a porta da casa. Um cão pequeno, que fazia um barulho desproporcionado ao tamanho, avisava-me quando o dono se aproximava.
Também conheci os que não compreendiam por que motivo andava eu na rua.
— Tenho comida e um teto — disse-me um cão preso a uma casota verde. — Quero lá saber do que está para lá do portão.
A corrente era curta. Para beber, tinha de contornar um pneu.
— Nunca te apetece sair?
— Para acabar como tu?
Não insisti.
Afastei-me com fome, mas afastei-me.
Nos dias seguintes atravessei campos, segui caminhos e deixei para trás as ruas que Leonor percorria à minha procura. Só soube dessas buscas muitos anos depois.
Encontrei abrigo num prédio abandonado, na margem de outra povoação. Faltavam janelas e havia sacos de cimento endurecido num canto. Atrás de uma escada descobri um lugar seco.
Levei para lá um pedaço de cartão.
No dia seguinte fui buscar outro.
Foi nessa altura que comecei a roubar.
O primeiro grande golpe aconteceu num domingo. O cheiro chegou antes de eu ver o quintal: carne, gordura a derreter, fumo.
Espreitei por cima de um muro baixo.
Um homem estava diante de uma grelha. Tinha acabado de pousar um naco de carne e voltou-se para responder a alguém dentro de casa.
Não pensei no crime.
Pensei no almoço.
Saltei o muro, agarrei a carne e saí pelo mesmo sítio. O calor queimou-me a boca, mas não larguei.
Atrás de mim ouvi uma palavra que Pedro usava muito.
Depois ouvi várias.
Corri até ao prédio e enfiei-me no meu canto. Pousei a carne no chão e fiquei a olhar para ela, ainda a deitar vapor.
Foi o melhor almoço de que me lembrava.
Quando ouvi vozes na rua, já só restava um pedaço.
— Foi para estes lados!
Espreitei por uma abertura na parede. O homem da grelha vinha com outros dois. Um transportava uma arma.
Baixei-me imediatamente.
Tinha roubado o almoço a um homem. Parecia-me excessivo que viessem agora transformar-me no jantar.
Fiquei imóvel até muito depois de deixarem de se ouvir.
O pedaço que sobrara soube-me pior.
O frango foi um trabalho mais limpo.
Uma senhora saiu de uma churrasqueira com um saco na mão. Pousou-o num muro para procurar qualquer coisa na mala.
Eu passava precisamente naquele momento.
O saco estava aberto. O frango estava inteiro.
Há encontros que não se repetem.
Meti o focinho, agarrei o que pude e fugi. O papel veio atrás de mim durante uns metros, preso numa asa, até se rasgar.
A senhora gritou. Alguém se riu.
Eu já ia longe, com a boca a arder e uma felicidade que quase me fez esquecer o medo.
No prédio comi e dormi.
Começava a tornar-me um ladrão de alto gabarito, embora sem vocação para partilhar os lucros.
Mas a fome torna-nos atrevidos. E o atrevimento faz-nos regressar a sítios onde já nos viram.
VI — RAIO
Vivia havia algumas semanas na rua quando ouvi um ramo partir-se num terreno junto às últimas casas.
Virei a cabeça.
Reconheci o homem da grelha. Ao lado dele estava o da arma, já a levantá-la.
O disparo apanhou-me no movimento de fugir.
Senti a margem de uma orelha abrir-se numa dor quente. Recuperei o equilíbrio e corri.
Outro tiro bateu na terra. O seguinte perdeu-se na vegetação ao meu lado.
Não olhei para trás.
À minha frente erguia-se uma encosta coberta de árvores. Havia caminhos, mesas de piquenique e clareiras. Mais acima, a mata adensava-se e ligava-se às serras do interior.
Subi por ali.
O sangue escorria-me junto ao pescoço. As pernas tremiam e o ar parecia não chegar ao fundo do peito. Mesmo assim continuei.
Só parei quando já não havia casas à vista.
Encontrei uma árvore enorme, com uma cavidade aberta na base do tronco. Cheirei a entrada: terra húmida, madeira velha, nenhum animal.
Enfiei-me lá dentro.
Passei muito tempo a tremer. Durante a noite acordei com ruídos que ainda não sabia reconhecer.
De manhã, havia um focinho diante do meu.
Era enorme.
Abri os olhos e deixei de respirar.
O animal observava-me de fora. Tinha o pelo cinzento, o peito largo e uma cicatriz a fechar-lhe um dos olhos. O outro permanecia fixo em mim.
Um lobo.
Tentei encolher-me para dentro de uma árvore que já não tinha espaço para me oferecer.
— Estás vivo? — perguntou.
Pareceu-me uma pergunta pouco tranquilizadora.
— Estou.
— Então por que cheiras a morto?
Não soube responder.
Aproximou o focinho da minha orelha. Mostrei-lhe os dentes por instinto.
Parou. Esperou. Depois recuou o suficiente para me deixar sair.
Não saí.
— Estás ferido.
Demorei a permitir-lhe que se aproximasse outra vez. Quando me tocou, estremeci. Lambeu com cuidado o sangue seco em redor do rasgão, sem insistir quando eu me afastava.
— Foi um homem?
Olhei para o olho fechado dele.
— Foi.
Não perguntei pelo seu.
Ainda não.
Chamava-se Raio.
Nesse dia deixou-me um pedaço de coelho junto à entrada. Fiquei à espera de que se afastasse.
— Podes comer.
A carne estava crua. Cheirei-a várias vezes.
— Não gostas?
— Não conheço o cozinheiro.
Raio soltou um sopro pelo nariz que mais tarde aprendi a reconhecer como riso.
A primeira dentada custou. A segunda também. À terceira, a fome resolveu o assunto.
— Há mais como tu? — perguntei depois.
— Há.
Olhei para a mata.
— Sabem que estou aqui?
— Ainda não.
Pedi-lhe que não dissesse nada. Prometi ir-me embora assim que quisesse.
Raio observou-me.
— Hoje descansas.
Foi o nosso primeiro acordo. Eu chamei-lhe um trato. Na verdade, era apenas o meu medo à procura de uma maneira educada de falar.
Raio voltou no dia seguinte. E no outro.
Nem sempre trazia comida. Às vezes aparecia só para verificar se eu continuava na árvore. Ensinou-me onde havia água e os caminhos a evitar durante o dia.
Quando a orelha começou a fechar, seguimos para o interior. Ao fim de alguns dias, a coleira gasta que ainda trazia cedeu num ramo. Deixámo-la ficar.
Caminhávamos ao anoitecer. Durante o dia procurávamos abrigo. Raio parava muitas vezes para escutar e eu aprendi a parar com ele.
O mundo estava cheio de coisas que eu nunca soubera ouvir: um pássaro a mudar de ramo, patas pequenas debaixo das folhas, o silêncio que ficava quando alguma coisa maior se aproximava.
Certa noite perguntei-lhe pelo olho.
— Uma armadilha — respondeu.
Esperei.
— Consegui sair.
Não acrescentou mais nada.
Também eu tinha coisas que só conseguia contar aos bocados.
Falei-lhe de Leonor. Da corrente. Do barril.
Quando lhe contei que alguns cães preferiam continuar presos, Raio ficou calado.
— Achas que são parvos?
— Acho que têm medo.
— Eu também tinha.
— Ainda tens.
Era verdade.
Raio nunca pareceu precisar que eu fosse mais corajoso do que era.
Talvez tenha sido por isso que comecei a ganhar coragem.
VII — A MARGEM DA ALCATEIA
A amizade fez-se de pequenas coisas.
Raio descobriu que eu tinha jeito para encontrar restos deixados pelos humanos, embora torcesse o focinho quando lhe apresentava pão.
Eu descobri que dormia sempre com o lado do olho fechado virado para um tronco ou uma pedra.
Passei a deitar-me desse lado.
Na primeira vez, levantou a cabeça. Na segunda, deixou-se ficar. À terceira, já adormecia antes de mim.
Uma noite, depois de eu o avisar da aproximação de homens num caminho que não conseguia ver, encostou-me o ombro.
— Mano, tu és mesmo um cachorro boé da fixe.
Não sei onde aprendera aquilo. Tinha percorrido mais lugares do que gostava de admitir.
— Cachorro? Sou quase do teu tamanho.
— Quase é uma palavra muito confortável.
Dei-lhe uma dentada sem força na pata. Ele empurrou-me com a cabeça.
Foi a primeira vez, desde a casa de Leonor, que brinquei sem esperar uma pancada.
Pouco depois disse que tínhamos de falar da alcateia.
— Não posso continuar a desaparecer sem explicações.
Senti o estômago apertar-se.
— Vou-me embora.
— Não foi isso que disse.
Acompanhei-o até uma elevação de onde se via um vale. Havia lobos entre as árvores.
O corpo inteiro pediu-me que fugisse.
Raio ficou ao meu lado.
— Deixa-me falar primeiro.
Uma loba cinzenta aproximou-se. Tinha as pernas compridas, o peito claro e uma maneira de olhar que não desperdiçava tempo.
— Trouxeste um cão.
— Reparei — respondeu Raio.
Ela contornou-me.
— Cheira a casas.
Eu estava coberto de terra e semanas de mata. Mesmo assim, aquilo pareceu ofendê-la.
— Já cheirei pior.
A loba voltou a cabeça.
Raio tossiu para esconder o riso.
Chamava-se Tempestade.
Pareceu-me um nome muito bem escolhido.
O chefe era um macho grande, com os primeiros pelos brancos no focinho, chamado Granito. Raio disse-me depois que eram quase da mesma idade e que tinham atravessado juntos muitos invernos.
Granito aproximou-se sem rosnar. Senti a importância que os outros davam ao espaço em redor dele.
Raio explicou onde me encontrara.
Granito cheirou-me. Permaneci quieto.
— Sabes caçar?
— Ainda não.
— Sabes seguir?
— Estou a aprender.
Olhou para Raio. Depois voltou a olhar para mim.
— Ficas na margem. Não te aproximas das crias. Não disputas comida.
Não era um acolhimento caloroso.
Para mim, era uma porta entreaberta.
Aceitei.
Nos primeiros tempos fui sempre o cão.
O cão não sabia andar sem partir ramos. Entrava na água no sítio errado. Cansava-se cedo numa perseguição comprida.
Tinham razão em muita coisa, o que tornava as observações ainda mais desagradáveis.
Eu tinha força, mas a força não me ensinara a viver ali. Farejava bem, mas confundia rastos. A vontade de ajudar fazia-me avançar quando devia esperar.
Raio corrigia-me sem espectadores.
Tempestade fazia-o onde calhava.
— Vais avisar a mata toda?
Eu acabara de pisar um ramo.
— Estava a verificar se ainda partia.
Ela não se riu.
Mas as orelhas mexeram-se de uma maneira suspeita.
Aprendi a observá-la. Antes de avançar, parecia já ter escolhido onde colocaria as três patas seguintes. Também reparei que olhava muitas vezes para trás para confirmar se os mais novos acompanhavam.
Não lhe disse que reparara.
VIII — UM LUGAR ENTRE ELES
O primeiro a desafiar-me foi um macho novo chamado Ferro.
Começou por me tirar um pedaço de comida. Afastei-me. Estava sozinho entre eles e não queria pôr Raio em dificuldades.
No dia seguinte empurrou-me quando eu bebia.
No outro veio procurar-me enquanto descansava.
— Os cães dormem muito.
Abri um olho.
— Experimenta. Talvez te melhore o feitio.
Avançou.
Eu já conhecia a diferença entre uma ameaça e o instante em que se tornava ataque.
Baixei o corpo. Ferro passou-me demasiado por cima e rodei sobre as patas, usando o peso para o desequilibrar. Caímos os dois. Procurou o meu pescoço, mas agarrei-lhe o pelo junto ao ombro e empurrei-o contra a terra.
Recebi uma dentada no alto da pata.
Não larguei.
Quando senti o corpo dele ceder, afrouxei a boca e afastei-me.
Ferro levantou-se sem olhar para ninguém.
Fui deitar-me longe, a fingir que a pata não latejava.
Tempestade aproximou-se mais tarde.
— Podias tê-lo ferido a sério.
— Ele já tinha percebido.
Observou-me por um instante. Depois deitou-se a alguns passos.
Foi a primeira vez que escolheu ficar perto de mim.
Houve outros desafios, ao longo das estações. Nunca saí de nenhum sem dor. Numa ocasião coxeei vários dias. Noutra, um macho vindo de um grupo vizinho abriu-me o pelo acima do ombro.
Mas nenhum conseguiu expulsar-me.
Aprendera a medir distâncias preso a uma árvore. Sabia esperar e perceber pelo corpo de outro o momento em que avançaria.
Também conhecia o pânico. Quando o sentia no adversário, recuava antes de o obrigar a lutar por desespero.
Raio dizia que eu pensava demasiado.
Granito começou a chamar-me para junto dele nas deslocações e quando os mais novos se afastavam.
Eu reconhecia cedo o cheiro dos humanos. Distinguia o homem que passeava do que procurava alguma coisa. Conhecia o ruído das portas dos carros, o toque de metal numa vedação, o silêncio estranho de uma aproximação cautelosa.
Uma manhã encontrei cheiro de homem num caminho usado pela alcateia. Havia folhas remexidas num lugar demasiado arrumado.
Parei.
Granito vinha atrás. Não avancei, mesmo quando se aproximou.
Raio contornou o sítio e descobriu um laço.
Mudámos de caminho.
Nessa noite, Granito deixou-me comer perto dele.
Não houve discurso.
Os outros perceberam.
Tempestade deixou de me chamar cão. Começou a chamar-me Marlim.
Fomos ficando juntos nas vigílias. Ela ensinava-me os percursos difíceis e eu mostrava-lhe coisas do mundo dos humanos que preferia nunca ter aprendido.
Certa vez perguntou por Leonor.
Contei-lhe como esperara por mim diante do vidro.
— Gostavas de voltar a vê-la?
Demorei a responder.
— Gostava que soubesse que estou vivo.
Tempestade encostou o focinho ao meu pescoço.
A partir daí, quando havia espaço para nos deitarmos lado a lado, nenhum de nós escolhia outro lugar.
Na primavera seguinte nasceram os nossos primeiros filhos. Ao longo dos anos vieram outros: mais de uma dúzia chegou a correr por aqueles caminhos. Nem todos ficaram. Alguns partiram quando cresceram; outros formaram família em vales vizinhos.
Reconhecia-os pelo cheiro muito depois de deixarem de parecer crias.
Tempestade dizia que tinha demasiada tendência para os tratar como pequenos.
Talvez tivesse.
Queria que fossem livres. Só me custava vê-los ir.
IX — O HOMEM DO QUINTAL
Eu tinha sete anos quando um vigia veio procurar Granito e lhe falou de três homens com armas.
Estávamos no fim do verão. Havia quase cinco anos que fugira da casa dos Medeiros.
Os homens tinham deixado o carro para lá do parque de merendas, na margem do território. Traziam uma garrafa que passava de mão em mão e falavam alto, sem cuidado com o vento.
Um deles era Pedro.
Soube mais tarde, por Leonor, que continuava a arranjar trabalhos que duravam pouco. Gostava de caçar onde não podia e de disparar sobre o que lhe surgisse pela frente. Naquela tarde, tinham ido à procura de lobos.
O pai mudara algumas coisas. Começara a frequentar a igreja e recebera o padre à mesa. Falava menos de carros e roupas caras. Tentara conversar com o filho sobre a maneira como tratava os outros.
Pedro escutava enquanto lhe convinha.
Depois saía e fazia o mesmo.
Eu não sabia nada disso quando o vigia chegou.
Descreveu os homens, o lugar onde tinham parado e os gritos de um deles.
Um som rouco escapou-me do peito.
Granito voltou-se.
— Conheces algum?
Avancei na direção do vento e procurei o cheiro.
Debaixo do vinho, do suor e do metal, estava ele.
O corpo reconheceu-o antes de eu conseguir pensar. Voltou a porta da despensa. Voltou a sede. A ponta do ramo junto ao meu olho.
Granito pôs-se à minha frente.
— Tu ficas aqui.
— Não.
A palavra saiu-me com os dentes à mostra.
Os outros ficaram imóveis.
— Vais desobedecer-me?
Baixei os olhos.
— Não. Mas deixa-me ir convosco. Conheço aquele homem.
— Estás a tremer.
Estava.
— Sei quando vai avançar. Sei quando tem medo.
— E consegues parar quando eu mandar?
Lembrei-me de Leonor ajoelhada à chuva.
— Consigo.
Granito manteve o olhar em mim.
— Vens ao meu lado.
Não fomos todos. As crias ficaram longe. Granito mandou acompanhar os homens pelas margens do caminho, sem aproximações. Queria dar-lhes espaço para regressarem.
A certa altura ouvi uma gargalhada.
Pedro estava mais pesado e tinha barba, mas os movimentos impacientes eram os mesmos.
Parei entre duas árvores.
Podia ter continuado escondido.
Mas queria que soubesse.
E queria, com uma vontade que me doía, que levasse o meu nome até Leonor.
Dei um passo para o caminho.
Pedro voltou-se.
A garrafa parou a meio do movimento. Ficou a olhar para o meu pelo preto e para o olho que ele próprio ferira. Inclinei a cabeça para o ver melhor, como fazia no quintal.
— Marlim?
Ao ouvir o nome, avancei mais um passo.
Pedro empalideceu.
A orelha rasgada era uma ferida que ele nunca me vira. O resto, porém, conhecia-o bem demais.
Atrás de mim surgiu Granito. À esquerda moveu-se Raio. Mais longe apareceram outros dois.
Um dos amigos começou a recuar. O outro tentou levantar a arma, perdeu o equilíbrio numa raiz e disparou para o alto.
O estrondo fez-nos afastar.
Quando voltei a olhar, os dois corriam para o carro.
Pedro ficou sozinho.
Tentou chamá-los. A voz saiu-lhe fina.
Avancei.
Encostou as costas a uma árvore. Havia um cheiro novo no ar. Baixou os olhos para as calças e apertou as pernas, como se pudesse esconder o que acabara de acontecer.
Quis chegar mais perto.
Granito atravessou-se no meu caminho.
Não rosnou. Não precisou.
Pedro deixou cair a arma.
— Quieto, Marlim. Quieto, lindo.
Nunca me chamara aquilo quando eu precisava.
Granito afastou-se para um lado, deixando livre o caminho de regresso.
Pedro demorou a perceber. Olhou para a abertura, depois para nós. Deu um passo. Ninguém o seguiu.
Ao segundo, começou a correr.
Raio veio encostar-se ao meu ombro.
— Acabou?
Olhei para o lugar onde a arma ficara caída.
— Aqui, acabou.
Pedro contou a história de maneira diferente.
Segundo ele, os lobos tinham-no cercado e só não o haviam morto porque soubera enfrentá-los. Os amigos tinham fugido, o que servia para mostrar a coragem dele.
Quando falou com Leonor, acrescentou:
— Estava lá o teu cão. O Marlim. Com os lobos.
Ela ficou em silêncio.
— Não brinques com isso.
— Estou a dizer-te. Reconheci-o. Até o olho é o mesmo.
Leonor ouviu até ao fim.
Não confiava no irmão. Mas a maneira como ele descrevia o meu olhar ficou com ela.
X — A MENINA DO BALOIÇO
Granito morreu nesse inverno, num lugar abrigado acima do vale. Já nos deixava conduzir as deslocações longas e descansava enquanto os outros caçavam.
Não houve uma manhã em que todos acordássemos com uma organização nova.
Houve trabalho por fazer. Crias para acompanhar. Comida para encontrar. Perigos que não esperavam pelo fim da tristeza.
Começaram a procurar-me. Primeiro Raio, depois os outros.
Tempestade ficou ao meu lado.
Foi assim que passei a conduzir a alcateia.
Na primavera seguinte eu tinha oito anos. Leonor tinha vinte e sete, era casada e mãe de Margarida, que fizera cinco. A menina nascera no ano seguinte à minha fuga e crescera a ouvir falar de mim.
Por causa do relato de Pedro, Leonor começara a passear com a família no parque de merendas. Não esperava encontrar-me. Ainda assim, observava a mata com uma atenção que antes não tivera.
Numa dessas tardes, um vigia veio procurar-me depois de falar com Tempestade.
— Há uma pequena humana no parque. Talvez seja a menina das tuas histórias.
Abri os olhos.
Eu contava muitas vezes a história do vidro e da mão pousada do outro lado.
— Está num baloiço. Tem uma mulher a empurrá-la.
Levantei-me.
Os anos tinham passado por Leonor como por mim. A jovem da loja já não podia ter o aspeto da criança que ele descrevia.
Mesmo assim, alguma coisa me puxou para o caminho.
Levei dois companheiros. Antes de ver o baloiço, senti o cheiro.
Parei tão bruscamente que um quase esbarrou em mim.
Era ela.
O cheiro estava diferente. Trazia outros lugares, outra casa, outras pessoas.
Mas era ela.
Avancei entre duas árvores. Vi primeiro a criança, com as pernas esticadas à espera de mais um impulso.
Atrás estava Leonor.
O meu corpo estremeceu.
Ouvi-a dentro de mim, à chuva:
Anda, querido.
Depois:
Foge.
Baixei a cabeça e soltei um ganido.
— Chefe? — chamou um dos lobos. — Há perigo?
— É ela.
Olhou para a mulher.
— A tua menina?
— Sim. Fiquem aqui.
O outro aproximou-se.
— Vais sozinho?
Olhei para Leonor. A filha ria.
— Esta nunca me fez mal.
Afastei-me deles.
Foi Margarida quem me viu primeiro.
— Mãe, olha. Parece o cão das tuas histórias.
Leonor segurou as correntes do baloiço e voltou-se.
Ficámos a olhar um para o outro.
— Marlim?
Baixei a cabeça. Abanei a cauda.
Ela levou uma mão à boca.
— Não pode ser.
Dei um passo. Depois outro.
Quando lhe encostei a cabeça às pernas, senti-lhe as mãos procurarem-me o pescoço. Passaram pela pele onde a coleira deixara marcas e pela orelha rasgada.
Ajoelhou-se.
— Estás vivo. Meu lindo, estás vivo.
Lambi-lhe a cara. Sabia ao mesmo sal.
Por momentos fui outra vez o cachorro no quarto dela, à espera de que baixasse a mão.
Margarida aproximou-se.
— É mesmo ele?
Leonor tentou responder, mas a voz falhou.
Cheirei a mão da menina.
Trazia Leonor nela.
Deixei que me tocasse na cabeça.
Os meus companheiros moveram-se entre as árvores. Leonor viu-os e puxou Margarida para junto de si.
Encostei o focinho à sua mão, depois olhei para eles. Pararam à distância.
Não os chamei para as carícias. A confiança que eu tinha levara anos a nascer; a deles precisava do seu tempo.
Leonor percebeu que não avançavam.
— O Pedro tinha razão — murmurou.
Foi a primeira vez que a ouvi dizer aquilo.
Por acaso, também era a primeira vez que ele merecia.
O marido estava junto à mesa do piquenique. Aproximou-se quando ouviu a filha e parou ao ver-me. Leonor explicou entre lágrimas e risos.
Antes de se irem embora, voltou a ajoelhar-se.
— Procurei-te durante tanto tempo.
Encostei a testa à dela.
Falou-me das ruas por onde andara, dos avisos que deixara, das pessoas a quem perguntara por um cão preto. Eu não conseguia explicar-lhe por onde tinha passado.
Fiquei apenas mais perto.
Depois olhou para a mata.
— Vives ali?
Virei as orelhas ao ouvir Raio chamar ao longe.
Ela acompanhou-me o movimento e passou-me a mão pelo peito.
— Está bem.
Quando me afastei, deixou-me ir.
À entrada das árvores voltei a cabeça. Estava de pé junto da filha.
As duas acenaram.
XI — OS ANOS QUE NOS RESTAVAM
Voltaram no fim de semana seguinte.
Eu também.
Quando o movimento diminuía, Leonor caminhava até ao mesmo lugar. Se estava perto, ia ter com ela.
Nem sempre aparecia. Havia dias de caça, crias doentes, deslocações longas. Outras vezes sentia pessoas a mais e ficava escondido.
Leonor nunca entrou na mata à minha procura. Sentava-se, falava com Margarida e esperava. Depois regressava a casa.
Com o tempo, alguns lobos habituaram-se à presença das duas. Raio foi o primeiro a deitar-se perto.
Margarida queria tocar-lhe.
Ele olhou para mim.
— A pequena também é tua?
Pensei no assunto.
— Um bocadinho.
Deixou que lhe passasse a mão pelo dorso.
Tempestade demorou mais. Aproximava-se, cheirava o ar e voltava para as árvores. Um dia sentou-se ao meu lado enquanto Leonor me fazia festas.
Não precisou de se aproximar mais.
Eu tinha ali o que julgara impossível juntar.
Raio morreu dois invernos depois do reencontro. Já era muito velho. Nos últimos dias caminhava pouco. Deitava-me junto do lado que não via e ele adormecia encostado a mim.
Na última noite levantou a cabeça.
— Ainda aí estás, mano?
Toquei-lhe no focinho.
— Estou.
Voltou a pousar a cabeça.
Fiquei.
Durante muito tempo, ao mudar de lugar para dormir, procurei espaço para ele.
Quando completei doze anos, já não recuperava das grandes deslocações como antes. Entreguei a condução da alcateia a um dos nossos filhos.
Não era o mais forte.
Era aquele que sabia esperar pelos outros.
Continuei a acompanhá-los enquanto consegui. Depois passei a descansar mais, num abrigo relativamente próximo do caminho para o parque.
Se os humanos tivessem conhecido o meu antigo trabalho, talvez me chamassem secretário de Estado dos assuntos internos. Apartara discussões, fora buscar distraídos e tentara impedir que os mais novos confundissem coragem com estupidez.
Na velhice pude enfim dormir sem tantas interrupções.
Tempestade ficou comigo. Tinha o focinho branco e procurava os lugares onde o sol demorava mais tempo.
Partiu quando eu já contava catorze anos. Nessa primavera deixou de querer acompanhar os outros. Quando perdeu o apetite, soube que se aproximava alguma coisa que eu não conseguia afastar com força nem astúcia.
Deitámo-nos num lugar abrigado.
Encostou o corpo ao meu.
Não tivemos necessidade de dizer muito.
Depois dela, o vale pareceu maior.
Margarida crescia. Perdeu dentes, ganhou altura, deixou o baloiço para os mais pequenos. Sentava-se no chão e contava coisas que eu não compreendia por inteiro.
Reconhecia-lhe as alegrias. As tristezas também.
Leonor tinha algumas linhas novas no rosto.
Eu demorava cada vez mais a levantar-me.
Num dos encontros, fez-me entrar no carro e levou-me a um veterinário. Já não se discutia dinheiro à minha frente. Examinaram-me, deram-me tratamento e fui com ela para casa.
Nessa noite fiquei deitado junto à porta do quintal, com o focinho virado para a serra.
Leonor sentou-se ao meu lado.
Ao amanhecer levou-me de volta ao parque. Abriu a porta do carro e ficou à espera.
Saí devagar. Antes de entrar na mata, voltei para lhe tocar na mão.
Nas visitas seguintes trazia os medicamentos e fazia os cuidados que lhe tinham ensinado. Depois deixava-me regressar aos meus.
Por vezes eu dormia tanto que sonhava com todos os lugares da minha vida na mesma noite. A barriga da minha mãe ficava ao lado da árvore de Raio. Leonor abria o portão e Tempestade esperava do outro lado.
Nunca sonhava com a corrente sem acordar.
XII — A ÚLTIMA VISITA
Cheguei aos dezassete anos.
Não sei como. Muitos dos que tinham corrido comigo já não estavam no vale. O corpo pesava-me, a vista enfraquecera e os sons chegavam de mais longe.
Os meus filhos e netos traziam-me alimento. Um deles ficava perto durante a noite.
Naquele inverno piorei. Primeiro deixei comida. Depois custou-me beber. Havia manhãs em que as patas não pareciam minhas. Levantava-me, dava alguns passos e precisava de voltar a deitar-me.
Num dia melhor tentei seguir para o parque. Cheguei à primeira subida e parei.
Voltei ao abrigo.
Na semana seguinte nem consegui tentar.
Eu não contava os fins de semana. Sabia que passara demasiado tempo desde a última vez que sentira as mãos de Leonor.
Numa manhã de fim de inverno, consegui sair.
O meu filho acompanhou-me. Caminhei devagar, parando junto às árvores até a respiração assentar.
Outros vieram atrás.
Não olhei para saber quantos.
Ao aproximar-me do parque, ouvi vozes.
Margarida já tinha catorze anos. A voz quase não era a da criança do baloiço, mas reconhecê-la-ia em qualquer lugar.
— Vamos, mãe?
Houve um silêncio.
Depois Leonor respondeu:
— Vamos.
Tentei apressar-me.
As folhas mexeram-se debaixo das minhas patas.
Ela voltou-se.
Vi-lhe o rosto mudar.
— Marlim.
Parei por um instante. Precisava de chegar até ali e já não sabia se o corpo me deixaria.
Leonor veio ao meu encontro.
Dei os últimos passos e deixei-me cair junto dela, com a cabeça sobre os seus pés.
As mãos estavam logo em mim.
— Meu querido.
Margarida ajoelhou-se do outro lado.
Ouvia-as chorar.
Quis lamber-lhes as mãos, mas até isso custava. Levantei a cabeça o suficiente para ver Leonor.
Os olhos continuavam meigos.
Segurou-me o focinho com o cuidado de sempre. Depois sentou-se no chão e acomodou-me a cabeça no colo.
Desta vez não me pediu que aguentasse.
O ar entrava cada vez mais devagar.
Por entre as árvores senti aproximarem-se os meus. Leonor viu-os, mas não se afastou.
Margarida manteve uma mão no meu peito.
Já quase não sentia o chão.
Senti os dedos de Leonor atrás da orelha.
— Descansa, meu grande amigo.
Tentei abanar a cauda.
Não sei se consegui.
A última coisa que reconheci foi a mão dela.
EPÍLOGO
Marlim morreu com a cabeça no colo de Leonor, seis fins de semana depois da sua última visita.
Ela permaneceu sentada muito depois de lhe deixar de sentir a respiração. Margarida abraçava-a por um ombro e chorava sem esconder o rosto.
Nenhum dos lobos se aproximou mais.
Ficaram entre as árvores.
Quando mãe e filha se levantaram, um macho de pelo escuro avançou alguns passos. Parou junto do corpo, baixou o focinho e cheirou-o demoradamente.
Depois ergueu a cabeça.
O primeiro uivo atravessou o vale.
Outros responderam, de lugares que Leonor não conseguia ver.
Ela apertou a mão da filha.
O marido veio buscá-las e ajudou a levar Marlim. Nessa tarde, sepultaram-no num terreno da família, na margem da vila, voltado para a serra. Leonor tirou-lhe do pelo uma folha seca antes de se despedir.
Durante semanas continuou a ouvir os lobos.
Às vezes, ao anoitecer, saía para o quintal e ficava à escuta. Não sabia se aqueles uivos eram por ele. Não tinha como saber.
Mas lembrava-se de Marlim atrás do vidro. Da cabeça encostada às suas pernas. Do peso tranquilo que lhe ficara no colo no último dia.
E demorava sempre mais um pouco antes de entrar.
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