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Detox Literário.

Em uma perna só – Conto (Pedro Paulo)

Os dois pretinhos fugidos não souberam precisar se primeiro o mundo se inverteu conforme seus pés subiam e suas cabeças iam ao chão ou se foi o roçar da corda esfolando os seus tornozelos o que sentiram de imediato quando foram capturados. E, de fato, discutiriam muito naquele dia, agitando suas mãozinhas algemadas em gestos ofensivos dirigidos de um para o outro, procurando pelo culpado pela captura.

O pior não foi nem a perspectiva de retorno ao cativeiro e os castigos que os aguardavam — por incrível que pareça —, mas sim a compreensão de quem os havia encontrado que, por sinal, não se apresentou só pelo seu enlace-assinatura, mas também pelo anúncio que costumava proferir nessas e em tantas outras capturas pelas quais ganhara fama.

— Mais duas prendas pegas por Tomazzo, o capitão do laço!

Era o único capitão do mato que atribuía um título a si próprio. O único que cunhara um bordão. Em geral, era tomado por piada a divertir citadinos e fazendeiros, mas todos reconheciam nele um autêntico caçador de fugitivos. Mesmo os negros costumavam rir de suas graças, ainda que suas cordas tivessem levado tantos de volta à penúria. Tomazzo, se é que este era o seu verdadeiro nome, era um mentecapto. Um mulato filho de uma negra com um suposto italiano e por isso o rapaz forçava os Zs, os Ss e todos os gestos para reivindicar a sua italianice. Aqueles dois moleques sabiam bem que, como o fazia na praça — para diversão geral — o capitão do mato se gabaria daquela captura durante toda a viagem até a cidade. Levaria pelo menos um dia, já que estavam mato adentro.

O mais velho dos garotos afundava o rosto nas folhas secas para esconder o suspiro de frustração. Foi o mais novo quem se virou para trás primeiro, tomando vista de seu captor.

— Ora, Tomazzo, mas que chapeuzinho besta é esse, menino?

Era um gorrinho vermelho amarrotado, pequeno demais para a cabeçorra do sujeito. Ele o pinçou com o indicador e o polegar de uma das mãos enquanto a outra, a da corda, pousava de leve no peito, como quem se prepara a um anúncio importante.

— Um ignorante como você não saberia! É o que usam em Nice, em homenagem a Garibaldi!

Foi o mais velho quem respondeu:

— Garibaldi, rapaz? Pois assim que a gente chegar na cidade faça favor de nos levar na delegacia pr’eu te acusar que você trai o Imperador.

— A palavra de um pretinho?

— E você é branco, por acaso?

— Não sou é um preto safado que nem você!

Tomazzo roçou o indicador e médio juntos sobre um dos braços. Os dedos correram pela pele escura, mas mais clara do que os desafortunados que prendia. No gesto ainda manteve firme na mão a corda de cativeiro que os detinha. Isso dizia tudo. Os dois fugitivos foram catados do chão como pesca pequena e levados nos ombros do capitão do mato. Era um homem grande e os dois, pequenininhos, ficavam pendurados em cada um de seus ombros. Levaram alguns minutos até chegar na carroça, onde os lançou com uma surpreendente suavidade. Ágil, ali os acorrentou, conectando suas algemas por um elo de ferro no chão da carroça, a qual era coberta por uma lona. A tarde se despedia com um rastro tricolor que já perdia espaço para o negrume estrelado da noite.

Os dois cativos discutiam pelo responsável da situação quando o terceiro prisioneiro enfim se revelou, detido no canto obscuro da carroça.

— Os senhores acham que o carrasco vai chicotear mais qual dos dois vocês concluírem por culpado, é, abestalhados?

Tudo, da revelação, das palavras e da voz, sobressaltou os dois meninos, que no susto se viraram, enfim, para o outro canto da carroça. Como não o tinham visto ali? A carroça era minúscula e ainda havia claridade quando chegaram. Mas era como se esse terceiro garoto estivesse vestido em sombra, o breu projetado ao seu redor, conformando o próprio esconderijo. Ele mesmo era tão preto quanto aquele escuro, mas seus dentes — e os mostrava bem, aparentes em seu sorriso de quem caçoa — seus dentes eram brancos. De uma alvura que brilhava junto de seus olhos, ali luzindo brancos à contraposição de irises tão negras que pareciam se misturar com suas pupilas. O primeiro movimento dele tilintou as correntes que o mantinham preso rente à parede da carroça. Ajeitou-se como podia e, nisto, os dois menininhos abraçados estremeceram ao notarem, juntos e sem sombra de dúvidas, que um fulgor rubro correu pelos olhos de seu misterioso companheiro de cativeiro. Ele falou novamente, em tons de quem toda palavra é uma barganha.

— Os dois são do tamanho e da largura certinha para me arranjarem de volta a minha carapuça que esse paspalhão roubou de mim!

A escuridão em torno dele foi se dissipando feito névoa. Os dois garotos constataram que o patife tinha uma perna só, saída de um calção vermelho cujas bainhas em trapos uma ia com folga até o seu joelho e a outra pairava como se flutuasse, agitada de leve por alguma brisa vinda de canto nenhum. Era como se do lado direito não houvesse sequer a alusão ao que seria uma perna. Não havia nada até a cintura. Os meninos se olharam e depois levantaram cada um uma mão, polegar apontado para o peito. Falaram ao mesmo tempo:

— A gente?

— Se a carapuça serve…

O mais velho tomou a palavra.

— Se fosse fácil fugir, já teríamos fugido.

— E não fugiram uma vez?

— E nos pegaram.

— Mas é que na primeira vez vocês não tinham a ajuda de um especialista.

As duas mãos do perneta estavam atadas em correntes curtas que esticavam seus braços cada um para um lado, conformando uma cruz com o seu corpo pequeno. Daquele modo, ainda abriu um sorriso metido a besta e apontou os polegares para si mesmo. O vento soprou aos ouvidos dos dois garotos como se fiassem as palavras do sujeito. O mais novo questionou, enfim.

— Mas tu também não está preso?

— Bem observado, pequenino. Isto é porque o miserável que conduz as bestas à frente desta carroça é um verdadeiro gênio! Não é qualquer um que desvenda minhas fraquezas e ainda por cima consegue me pegar. Tive sorte que ele não tinha uma garrafa.

— Uma garrafa?

O maior dos dois meninos se aprumou.

— O Tomazzo? Um gênio? Esse aí é um leso, rapaz! E se ele te pegou assim, você é até pior do que ele.

— Ele vos pegou. São uns dois idiotas, então?

— Talvez a gente seja.

O mais novo tocou o seu parceiro com a pontinha do pé, mas ele se afastou. O garoto entendeu e suspirou, baixando a cabeça. Falou baixinho.

— Você disse que a gente ia conseguir.

A resposta só veio quando o menino dormia.

— Acho que eu menti pra ti, moleque. Pra ti e pra mim também.

Estava escuro e Tomazzo havia interrompido a viagem, declarou que fariam acampamento por ali e se acomodou ao lado de uma fogueira acendida entre ele e a carroça. O terceiro prisioneiro perguntou:

— E por que o trouxe para cá?

O menino o olhou com má vontade. Já remoía essa mesma pergunta consigo mesmo. Aproximou-se do moleque preso à parede e meio desajeitado pelos grilhões, levantou a parte detrás da camisa. Esticou-se o máximo que pôde até as costas nuas tocarem as mãos do sujeito. O toque, ele se lembraria depois, foi estranhamente quente. Os dedos do perneta sentiram as cicatrizes do açoite. A isso, o escravo juntou palavras:

— Ele ainda é novo. Não sentiu. Não quero que sinta.

Recolhido de volta ao lado oposto da carroça, encarou o seu misterioso companheiro de grilhões de frente. A luz da fogueira não os alcançava bem dentro da carroça, mas enxergava os seus olhos, agora inconfundível, um fulgor incendiário correndo ali. Brasa.

— Me parece que vocês dois não têm plano muito melhor do que acreditar em mim.

O menino estirou o lábio como quem prova algo azedo

— Acho que não.

O sujeito indicou o prisioneiro que dormia com o queixo.

— Então é melhor acreditar em mim. Pelo bem dele, que seja… basta me ajudar a recuperar a carapuça e não só vou ajudá-los a sair daqui. Pagarei de volta dobrado.

Suspirou.

— E qual é o plano?

 

Tomazzo foi o primeiro a acordar, apenas porque um de seus prisioneiros nunca dormia. E esse mesmo prisioneiro, aquele de uma perna só, dois braços atados a um lado da carroça, saudou seu captor.

— Ti sei svegliato, scansafatishe?

O autoproclamado capitão do mato levantou num pulo, vestiu seu novo chapéu, coçou a barriga e deu uma volta em torno de si mesmo. Então correu para a carroça.

— Ora, mas que loucura?

Três negrinhos o olhavam, os dois últimos que havia pego com receio, mas aquele perneta o mirava com zombaria.

— Ehi, tonto!

                ­— La stupida è tua madre, brutto bastardo!

                — Che italiano terribile! L’hai imparato da un Giuseppe ingaggiato?

                — E dove l’ha imparato un uomo nero come lei?

                — Ora, aí é segredo meu. Está aí na carapuça que roubou de mim e que mal cabe nessa cabeça oca!

Tomazzo pulou para dentro da carroça com inacreditável agilidade para alguém de seu tamanho. Aí os dois parceiros agiram conforme o combinado, unindo sola de pé com sola de pé de modo a deixar as pernas alinhadas bem na frente do pé de seu captor. Do tropeço o homenzarrão caiu ajoelhado e a posição bastou para o terceiro cativo agir. Ainda mais rápido do que Tomazzo, esticou a perna e com o pé, largo, dedos cumpridos e articulados como os das mãos, pegou a carapuça. Em um movimento de improvável flexibilidade a colocou sobre a própria cabeça.

Os dois braços do sujeito amoleceram, emborrachados, e se recolheram para os seus ombros, encurtando-o à perna esquerda como último membro, mas tão rápido como encolheram os braços agora esticaram de novo, apontados para cima. Uma lufada de vento impeliu a lona da carroça aos ares, permitindo que a luz da manhã os alcançasse. Tomazzo se jogou para frente, mas o seu adversário já não estava mais lá. O homem deu de cara com o outro lado da carroça enquanto, acima dele, içado àquela altura com sua única perna, o negrinho de olhos rubro-negros dava uma pirueta graciosa, seu rosto virado para baixo bem quando Tomazzo olhou para cima. O liberto tinha polegares e indicadores de cada mão enfiados em cada lado da boca e, ainda assim, um sorrisão malino no rosto. Assobiou.

O silvo, longe de harmonioso, foi curto, mas estridente o bastante para colocar todos os três que estavam na carroça ajoelhados protegendo os ouvidos. Os cavalos protestaram equilibrados nas patas traseiras e iniciaram o trote. Mas as rédeas já não os prendiam mais à carroça e assim partiram livres para fugir daquele susto. Tomazzo, por outro lado, ao levantar as mãos para tentar tapar os ouvidos, as percebeu acorrentadas nas mesmas algemas em que antes havia prendido o negrinho perneta que, por sinal, só agora havia pousado atrás de si, devagar como uma pena. O capitão do mato não teria conseguido se virar para vê-lo, suas duas mãos o atando de frente para o lado interno da traseira da carroça. Sentiu seus cabelos serem puxados e gritou. Demoraria a constatar que suas madeixas tinham sido atadas em um nó que muito certamente só seria livrado com um corte. Tudo isso os dois meninos viram encolhidos em um canto. O rapaz do gorro vermelho e uma perna só lhes sorriu seu primeiro gesto que não parecia tirar piada à custa deles dois. Aquele sorriso pareceu acolhimento. Ele estalou os dedos e as algemas que os prendiam se abriram com um clique. Saiu da carroça em seus saltinhos curtos e rápidos, os meninos o seguiram. Agora que o viam em pé ele parecia muito maior. Abriu os braços.

— Bem, companheiros, a viagem foi muito boa, mas agora devemos nos despedir, não é mesmo?

Os dois garotos estavam estupefatos demais para responder qualquer coisa. Ele deu as costas e começou a avançar em seus pulos, mas se deteve como quem se lembra de algo, um dedo em riste.

— Porém, todavia, entretanto… eu lhes prometi retribuição em dobro se me ajudassem, não foi mesmo?

O mesmo silêncio assombrado de resposta. Ele já havia se virado para os dois e saltado para perto.

— Os dois são fugitivos, certo? Muito bem, eis a minha oferta: levarei vocês dois para qualquer lugar que pedirem. Basta me dizer e os levarei para lá. Em uma perna só.

O mais novo sorriu, saltitou, olhou para o companheiro, puxando-o pelo pulso.

— E aí? E aí? Para onde vamos?

O mais velho tentava abrigar o rosto entre os próprios ombros.

— Eu não sei, maninho. Eu nunca saí daqui.

— Diz um lugar, é só dizer um lugar.

— Eu não conheço outro lugar que não aquele.

O mais velho não derramava lágrimas, chorava na voz, mas o mais novo já dava a ver que começaria o choro. O Saci o tocou no ombro. Curvava-se para frente, pairando sobre o rapaz. Todo o assombro nele sumia. Eram agora apenas três libertos aprendendo a liberdade.

— Me diga. Por que não quer voltar para lá?

O mais novo enxugou o rosto.

— Porque… porque lá é muito ruim. Lá tratam a gente mal, não é nem feito bicho, é feito coisa, de dar e vender. Lá eles castigam a gente quando a gente não faz o que dizem, quando a gente não pensa o que dizem, não age como é pra agir, feito as coisas deles. Lá eles batem, cortam, matam a gente. Lá a gente não tem chance nenhuma, lá a gente é carne no açougue.

O grito veio do fundo, misturado com o tilintar das correntes.

— Eu vou pegar vocês!

O Saci Pererê olhou para os meninos.

— E dele, o que querem que eu faça?

Os dois se entreolharam, jogaram os ombros.

— Não faz mal. Deixa o coitado assim não, ele não tem muita culpa.

— Bons garotos.

O negrinho perneta girou o dedo em riste e entremeio ao gesto as chaves das correntes se chocaram rodopiando ao redor daquele dedo. No mesmo movimento as atirou por cima dos dois garotos, o chaveiro descrevendo um arco perfeito até se chocar com a cabeça de Tomazzo, que xingou.

— Eu vou te pegar, perneta safado!

— Nós nunca mais nos veremos, Tomazzo.

— Graças a deus.

O Saci se voltou ao rapazinho, enfim.

— Certo. Para trás, tudo do ruim e do pior. E então… para onde você quer ir? O que você quer que tenha nesse lugar novo?

O menino juntou as mãozinhas e as olhou bem. Mirou um pássaro pousado num galho. Sorriu. Era lindo como só a inocência das crianças consegue ser.

— Quero um lugar bom pra gente. Um lugar que todo mundo se trate bem e que todo mundo se respeite. Quero um lugar que mãe possa ficar com filho e que criança não tenha que pegar trabalho pesado e possa brincar que nem criança. Quero um lugar que ninguém seja tratado mal só por ser diferente. Quero um lugar de amor. Um lugar que não cabe mal nenhum, que a gente só possa ser feliz.

— Hum… muito bem, muito bem. E quer mais alguma coisa?

O molequinho rodou os olhos ao redor e os deteve acesos no seu interlocutor.

— Quero que a gente possa tomar sorvete nesse lugar! Eu ouvi dizer que é muito bom.

O mais velho, enfim, começou a chorar. Seu pequeno companheiro se sobressaltou.

— Falei algo de errado?

O outro se acercou dele, abraçou-o, colando sua testa na dele. Sorriam juntos.

— Não falou não.

O Saci Pererê se assomou sobre eles, mirou os olhos do menino. A confirmação do mas velho o havia empoderado. Seus olhinhos eram firmes, convictos. O da carapuça quis confirmar:

— Um lugar que a gente só possa ser feliz?

Os dois negrinhos libertos o olharam e fizeram que sim. O sorriso daquela criatura de sorrisos era, por fim, de satisfeito. A brisa rumorejou e depois se fez vento a urrar nos ouvidos dos dois, que não romperam o olhar, abraçados, sorridentes. As folhas dançavam ao redor, o redemoinho os cercava e fazia de tudo para além do vento um borrão, um tempo-espaço esquecido, uma miséria que ficava na lembrança, uma imprecisão de um futuro que com toda certeza seria bom. No centro do redemoinho, no último instante, no pulo da liberdade, o Saci Pererê lhes disse, a voz perfeitamente límpida naquele alvoroço:

— Essa é a resposta certa.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 6 de novembro de 2026 por em Contos Off-Desafio e marcado .

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