— Desliga, vai!
— Ah, não, desliga você…
— Desliga você primeiro.
— Não consigo…
— Já é quase uma da manhã…
— Não tem problema, o bom é que nesse horário a gente só paga um pulso pela ligação telefônica. Está com sono, é? Ou não quer mais falar comigo?
— Não, bem ao contrário. Falar com você me fez ficar acordada até agora…
— Pra mim também, ouvir a sua voz é tudo de bom. Vai fazer o quê? Assistindo alguma coisa na Sessão Coruja?
— Não, não posso ligar a televisão a essa hora aqui, vai incomodar o povo. E você?
— Estou aqui, falando com você. E com a televisão no mudo!
— Tá sozinho?
— Sozinho, claro! E doido pra te ver…
— Pois é. Logo, logo, a gente se vê. Que tal um sorvete no shopping?
— Primeira coisa a fazer, com certeza.
— (…)
— O que que foi, tudo bem aí? Ouvi um barulho…
— Desculpe. Pediram pra eu falar mais baixo, está incomodando eles. Mas sabe como é, eu me empolgo quando falo com você, e o tom da voz vai subindo…
— Vamos falar baixinho, então. Imagine que eu estou falando bem pertinho, falando direto na sua orelha…
— Ah, que gostoso… vou até pôr meus brincos, só para depois ter que tirar… hahaha…
— Ah, deixa disso, a essa altura, eu fico só imaginando você…
— Shhhh! Não fala alto não, que alguém aqui pode escutar.
— Acho melhor você desligar, então. Eu não tenho coragem.
— Eu não. Desliga você, vai!
— Só se a gente desligar junto. Vou contar até três…
— Tá bom.
— Um…
— Dois…
— (…)
— Está aí, ainda?
— Você também não desligou.
— Não consigo.
— Tá bom, eu vou desligar agora, hein?
— Então, tá.
— Um beijo, querida.
— Outro, querido. Até logo.
Desligaram os dois, praticamente ao mesmo tempo. Ela caminhou até a cama, penteou os cabelos brancos no escuro e deitou-se para dormir na enfermaria coletiva do hospital. Ele, sozinho na sala de televisão do apartamento onde moravam, ficaria acordado até mais tarde. Na tela da Sessão Coruja, Doutor Jivago, coberto de neve até os bigodes, tentava atravessar sozinho a estepe deserta e gelada da Sibéria. A cada passo, a esperança de chegar mais perto de sua casa de Varykino. Lá onde ela deveria estar esperando por ele, também. O tempo que fosse.
Oi, Daniel
Dois pontos sobre seu conto: primeiro, menção ao filme Doutor Jivago sempre é bem-vinda, mesmo que meu nome não seja por causa do filme. (Ainda acho a versão do nome com G mais bonita do que com J)
Para quem não assistiu o filme, ele é completamente oposto ao que são os filmes de hoje. Vale a pena tentar ver. Interessante também perceber que o filme não figura como mera referência. Ele tem um papel fundamental, já que os protagonistas também passam por longos anos afastados. Neste sentido, é uma forma muito comum de amantes afastados se apoiarem em obras literárias, filmes, músicas e etc para manter a chama acesa.
Sobre o seu conto, acho muito difícil escrever uma história principalmente por diálogos. é necessário habilidade para preencher com subtexto. Sinto que isso aconteceu aqui. O leitor percebe o fator ridículo do amor (Fernando Pessoa foi extremamente feliz nessa poesia), um tempo mais distante, menos tecnológico.
Quem quer dá um jeito.
Obrigado pelo conto de amor e por tudo que conseguiu transmitir em poucas linhas.