Sinopse: O assassinato de Camila fragmenta duas famílias amigas. Décadas depois, os sobreviventes tentam conviver com o legado de culpa, amor e silêncio deixado pela tragédia.
O cansaço inexplicável da última semana não foi o bastante para mantê-lo na cama até mais tarde. Melhor seria repousar, quem sabe ver o médico ali pela tarde e pedir algum soro. Qualquer coisa que espantasse a morosidade de um longo resfriado.
Contudo, não podia. Era o primeiro sábado efervescente de maio. Mês das noivas. Mês da Virgem Maria. Ou, simplesmente, um dos meses que menos choviam no Brasil. Pouco importava. Como fotógrafo, Romildo precisava comparecer, depois do almoço, a um casamento.
Os noivos o visitaram em sua casa desesperados na quarta-feira. Cristina e Lúcio. O padre o alertou que precisavam de um favor. Lutou contra as dores no corpo febril para abrir a porta. Eram jovens da igreja que Romildo frequentava. Abriu um sorriso, tentando disfarçar o incômodo. Pacientemente, escutou a história deles.
O noivo tomou a iniciativa. Ela parecia abatida demais para isso. O fotógrafo contratado devolveu parte do dinheiro, avisando de antemão que não iria poder trabalhar no casório e que devolveria o restante no mês seguinte. Sem motivos e sem franqueza no pedido de desculpas.
— Olha, seu Romildo, não temos mais dinheiro para gastar com o casamento e estamos desesperados. Só podemos pagar ao senhor esse valor que ele devolveu.
Romildo, aproximando-se dos seus sessenta e sete anos, fotografava mais pelo hobby do que pela necessidade de sustento. Mil e quinhentos reais. Provavelmente o primeiro profissional recebeu uma proposta maior e o abandonou. Esse valor faria mais falta a eles do que ao militar viúvo e aposentado.
— Pois bem, essa é a minha proposta. — Romildo pigarreou fortemente, engolindo com dificuldade o catarro. — Peguem metade desses mil e quinhentos e doem para uma instituição de caridade daqui. Quanto ao resto, economizem para comer em um restaurante chique na lua de mel de vocês.
A noiva desatou a chorar, dessa vez agradecida, enquanto seu companheiro repetia “Deus lhe pague!”. Gentileza se paga com gentileza.
E por esse pacto firmado, logo após um leve almoço (afinal, um dos pontos positivos de fotografar casamentos é poder arranjar uma boca livre) Romildo colocou uma camisa social preta levemente desbotada, uma calça sarja confortável e um sapatênis e rumou para a Diocese de Formosa, interior de Goiás.
Desde os tempos de quartel, Romildo atuava como fotógrafo. Aprendeu o básico de iluminação e de foco entre formaturas, desfiles, cerimônias, treinamentos e até mesmo cenas de crimes militares.
Quando saiu das Forças Armadas, manteve-se na fotografia. Como o compadre Joca costumava dizer, a pior coisa era ver militar encostado no sofá aos cinquenta anos, coçando o saco, aporrinhando todos ao redor. Transformou as fotos em profissão sem muita ambição. Fez uns cursos caros dizendo para Noêmia que era para melhorar o seu serviço, mas na realidade era pelo amor que tinha ao hobby. A falecida, como costumava confidenciar à comadre Luísa, fingia que acreditava na mesma medida que ele fingia tê-la convencido.
Dentre os cenários que foi contratado para fotografar, casamentos eram os seus favoritos. Noêmia comentava acidamente que ele havia amolecido com o tempo. Ele preferia acreditar que, com os anos, aprendera a apreciar a beleza desse momento. Sim, poderia ser uma grande ilusão. Mas cerimônias de casamento cheiravam a esperança. Depois de tanto viver, Romildo não abria mão da esperança alheia.
Fotografava casamentos com o maior prazer. Mesmo cansado como estava, ele fazia sorrindo. Chegava um pouco depois do noivo. Aproveitava-se daqueles instantes ansiosos para os ajustes finais da câmera, imaginando como ficaria a luz do ambiente depois de uma hora, qual o melhor ponto para pegar as expressões dos noivos enquanto escutavam o discurso da autoridade que realizava a cerimônia.
Então, colocava-se a caminhar pelo espaço, registrando a expectativa geral pela chegada da noiva. Era um jeito dele próprio se distrair. Havia sempre aquele receio hollywoodiano da principal estrela não aparecer. Nunca lhe aconteceu, embora uma pequena inconfessável parte de Romildo desejasse secretamente fotografar o exato instante em que as pessoas recebessem a notícia de que a noiva tinha fugido. Justificava-se alegando que seria um experimento antropológico, mesmo que jamais tivesse nenhuma vontade de estudar antropologia.
Cristina chegou uns 40 minutos depois de Romildo. Ufa. Dentro do tempo ideal para que a ansiedade deixasse de ser um charme para ganhar contornos de irritação, genuíno temor ou maledicência.
Era o primeiro grande momento do casamento. O instante que legitima o fotógrafo estar lá, pegando um pouco do brilho solar da noiva para si. Como combinado anteriormente, Romildo registrou desde sua lenta saída do carro popular cuidadosamente limpo, auxiliada pela já emocionada mãe e um tio tranquilo, quase alheio a tudo, até o momento em que a noiva se coloca no final da fila dos casais de padrinhos e madrinhas.
Pela lente da câmera, Romildo assistiu assistiu à mãe levá-la até o altar. Não chegava a ser uma surpresa isso. Eram bastante semelhantes; um tanto atarracadas, morenas e com sorrisos de orelha a orelha. Caminharam devagar, com os braços entrelaçados, equilibrando-se nos saltos altos e nos acordes da marcha nupcial. Lúcio as aguardava, peito estufado e com brilho no olhar.
A sogra se desfez do enlace com a filha. Abraçou o genro por um tempo considerável. Certeza de que falava algo para ele. Muito provavelmente, desejava que fosse um matrimônio. Talvez, aproveitando a rara oportunidade de estar ao pé do ouvido dele, fizesse um pedido de mãe para que cuidasse, respeitasse e amasse Cristina com toda a força do seu ser. Talvez, embora não combinasse com o perfil dela imaginado pelo fotógrafo, ela o ameaçaria, caso o futuro marido cometesse qualquer deslize com sua filha. Bom, seria o que Romildo faria no lugar dela.
Muito mais por ética fraterna do que por seu ofício enquanto fotógrafo, Romildo registrou aquela interação. Para que Lúcio não se esquecesse daquele momento.
Quando terminou de falar, a mãe abraçou a filha uma última vez. Então, juntou as mãos dos noivos e tomou seu lugar na primeira fileira, logo atrás de Cristina. Romildo a fotografou.
Havia, pelo menos, vinte e oito anos que Romildo registrava casamentos. A primeira vez foi como um favor a um coronel, um antigo chefe de seção com quem trabalhou. Mania de militar pedir favor a colegas. Sem graça, não cobrou o serviço. Recebeu elogios pomposos pelas fotos. Outra mania de militar; é difícil saber se são realmente sinceros. Tinha algumas fotos ainda guardadas em sua memória e, modéstia à parte, realmente era um bom fotógrafo.
Conforme caminhava próximo da parede da igreja, longe dos holofotes, constatava o óbvio mais uma vez. A sociedade transformou-se tanto que até a cerimônia de casamento já não era mais a mesma. Assistiu as mudanças através das lentes da sua câmera. Antigamente, as pessoas costumavam prestar atenção no que a autoridade discursava. Ou, pelo menos, fingiam escutar. Hoje, a grande parte mexem no celular, ou registrando elas próprias o casamento ou só fugindo do tédio distraindo a mente com qualquer coisa que surgir na tela. Há ainda aqueles que cochicham entre si. Terríveis! Romildo achava um desrespeito sem tamanho. Nem se importam se atrapalham ou não. São menos, se comparados com o pessoal do celular, mas também são maiores do que o de antigamente.
Obviamente, fotografar também passou por uma metamorfose. Agora, todos têm uma câmera semiprofissional em mãos. Qualquer um pode fazer um retrato decente. Além disso, tirar uma foto espontânea da pessoa parece impossível. Uma convidada estava belíssima, enquanto contemplava a fala do padre. Romildo apontou sua lente e a moça virou-se para ele, vaidosa, fazendo um bico exagerado e o símbolo de paz. Romildo aprendeu a editar no computador as fotos de tanto que ouviu a pergunta “você coloca filtro?”
Os profissionais tiveram que se adaptar e glamourizar o serviço. Um dia, Romildo se matriculou numa oficina de como melhorar seu serviço de fotografia nupcial. Não se assustou por ser o mais experiente da classe. Seus colegas teriam a idade de seus filhos, se estes estivessem vivos. Sua primeira dificuldade foi compreender a linguagem que a professora utilizava. Portunhol era algo com que estava acostumado, afinal, morou na turbulenta fronteira do Brasil com o Paraguai. Agora, as pessoas falam portinglish!
Teimoso, frequentou todas as aulas. No início, debatia com a professora. Será que era necessário oferecer tipos de pacote de serviço? Making of[1]? Workshop[2]? Acompanhar a noiva na sua preparação e fotografar cada instante dela? O único proveito de suas interrupções no tal do workshop foi confirmar algo que Romildo via todo dia no espelho. Estava velho.
E velho tem mania de passado.
Isso foi um pouco antes da pandemia. Na época, só no mês de maio fotografava uns dez casamentos. Alguns anos mais, outros menos. No único pacote que oferecia, numa espécie de protesto principiológico, Romildo tirava umas trezentas fotos. Se fosse um casamento numa igreja bonita, ou com convidados carismáticos, Romildo tirava umas cem a mais. Os noivos ficavam com todas as imagens, não precisava selecionar. Indicava algumas empresas que faziam o álbum. Saía mais em conta e tinha menos aborrecimento. Todos ganhavam.
Havia algumas fotos muito específicas que Romildo gostava de capturar, mas sua favorita tinha um apelido: “novos tempos”. Sempre aproveitava o discurso mais longo do padre, pastor ou juiz de paz para se encaminhar à entrada da igreja. Ali, ajoelhava-se e ajustava o foco da câmera para a altura dos braços dos noivos. Assim, o casal no corredor tornava-se o principal destaque; dependendo do dia e do horário, na Diocese de Formosa, um feixe de luz solar invadia a cerimônia pelo vitral, passando bem próximo das cabeças. O carpete vermelho-bordô estirado combinava com os longos bancos de madeira escura.
Conforme o discurso se aproximava do sim, Romildo voltava para perto do altar. Neste momento, gostava de registrar a expectativa das pessoas pela pergunta tradicional. Quase sempre, as madrinhas e a mãe da noiva (a do noivo chorava com menor frequência) começavam a gotejar em lágrimas contidas, para não borrar a maquiagem. Dessa vez, não foi diferente.
O padre, enfim, finalizava sua homilia. Cuidadoso, Romildo posicionou-se logo atrás, de frente para o casal. Não importava quantas vezes ouvisse a tradicional pergunta, o fotógrafo sentia a mesma felicidade genuína eletrizando o corpo e a mesma expectativa. Ali, diante da Cruz, afastou a vontade antropológica de registrar um não.
Lúcio disse sim para Cristina. Cristina disse sim para Lúcio. O padre abençoou as alianças, símbolos de amor e fidelidade. O casal, com olhos marejados e mãos trêmulas, trocou-as.
— Então, pode beijar sua esposa.
Romildo correu para a entrada da igreja durante os ritos finais. Mais um momento obrigatório em todos os matrimônios para o fotógrafo registrar. Os recém-casados saindo para o início de uma nova etapa na vida. Convidados celebrando, entre gritos, sorrisos, lágrimas e aplausos, por vezes jogando confetes e algumas pétalas de flores. Quase todos os presentes vivendo espontaneamente. Lançava mão do disparo contínuo, o barulho da câmera sendo abafado pela euforia.
Na caravana dos convidados até a recepção, o corpo de Romildo deu sinais de que precisava de um repouso. Uma dor nas costas dificultava sua respiração. Culpou a postura e o peso da bolsa com os acessórios de sua câmera fotográfica.
Permitiu-se ficar apenas uma hora na festa. Avisou Cristina e Lúcio que não estava tão bem. Tiraria as últimas fotos deles com o bolo, além de padrinhos, madrinhas, familiares e iria embora. Mesmo naquele momento de celebração, o jovem casal notou o abatimento contido dele.
— Tudo bem, Seu Romildo! Primeiro, o senhor se alimenta um pouco!
— É, não se preocupa não. Vou pedir para o buffet trazer um caldo de galinha e uns petisquinhos para o senhor.
Gentileza gera gentileza. Festividades também geram gentileza. Logo depois de se empanturrar, finalizou as fotografias. Chegou por volta das vinte horas em casa. Desconsiderou pedir pelo serviço de entrega o podrão que costumava comer no sábado à noite. Tomou um combo de remédios para combater os sintomas da gripe e da indigestão, metendo-se em seguida num longo banho frio.
As fotos do casório haviam ficado excelentes. Cada centímetro de músculo dolorido valeu a pena. Ligou a televisão, colocando num canal de filmes qualquer, preenchendo a sala com algo além da luz amarela-parca do abajur. Atirou-se no sofá e cobriu as pernas com uma manta grossa. Conectou a câmera fotográfica ao notebook, passando para a tal da nuvem as imagens, enquanto bebericava a taça de vinho.
Então, encaminhou as fotos para os telefones dos noivos. Ainda deviam estar celebrando. Jovens, recém-casados, noite de Núpcias, Lua de Mel. Veriam as fotos, talvez, em uns dois dias. Ou quem sabe enquanto esperavam o vôo em Brasília, amanhã pela manhã. Romildo se pegou vendo o celular algumas vezes. “Velho bobo”, imaginando a voz de sua falecida esposa chamando-o, debochada. Tudo bem, ficarão agradecidos, de qualquer jeito. E felizes. Isso que importa.
Romildo reuniu energias para levantar mais uma vez do sofá. Pegou uma garrafa de vinho na cozinha e um travesseiro confortável. Vinte e duas horas ainda. Encheu a taça. Mais uma vez, revisitou seu trabalho. Todos os casamentos, os aniversários, os eventos de Formosa, as viagens e fotos de paisagens, do cotidiano… Tudo cuidadosamente catalogado e atualizado.
As memórias iam e vinham, insatisfeitas. O vinho aliviava sua garganta após uma longa crise de tosse. Estava velho mesmo. Bobo, pensou, rindo-se, enquanto brincava com o cursor em cima da pasta “Família”. Com tanta mania de passado, estava com medo de memórias, logo agora? Doía, sim, mas pelo menos significava que estava vivo. Que viveu! Deveria agradecer aos Céus por essa vida, não é?
Deveria?
Clicou. Sentia uma vontade enorme de chorar. Romildo não lembrava bem em que momento tornou-se imune às lágrimas. Todavia, tão raros eram esses instantes, o fotógrafo buscou logo os registros que evitava todos os dias. 2002? 2003? Não, esses dois anos só tinham festas com a família da Noêmia lá em Fortaleza. 2004 então. Acertou!
Casamento “Aurélio e Camila”.
Lembrava boa parte do casório, exceto depois do jantar, quando uns parentes distantes saíram distribuindo cachaça de jambu para os convidados. Bebeu tanto! Afinal, havia realizado um sonho que nem sabia que possuía. Tinha uma foto que representava bem. Encontrou-a sem dificuldade.
Seis pessoas no centro da foto. Final de tarde ameno num jardim de uma dessas mansões alugadas para festa. O Sol trocava a guarda com a Lua e o Céu refletia o movimento dos astros. O azul escurecia-se, enquanto, ao fundo, alguns feixes solares rosa-alaranjados fugiam em direção ao horizonte em meio a algumas nuvens cinzas. Atrás do sexteto, árvores negras erguiam-se; quase não se percebiam o verde de suas folhas. Era início de maio. Mês das Noivas.
Do lado esquerdo, Romildo, Noêmiae Aurélio, seu filho.
Do outro, Camila, filha de Luísa e João Carlos, seu melhor amigo.
Pais aos lados; oficialmente, enfim, coadjuvantes. Orgulhosos e felizes. Filhos criados para o mundo. Vão criar a família deles, continuando o ciclo natural.
Recém-casados ao centro, abraçados. Vivos, sorridentes, corajosos, com tantos sonhos a cumprir, tantos desafios a serem superados, tantos dias felizes por vir, tantas noites de mágoas e tormentas esgueirando-se.
Podia ser um final feliz. Viveria eternamente nessa memória.
Era o começo de um novo tempo.
Odiava ter que mentir para a esposa. Odiava bater a porta do carro. Logo nas primeiras horas da manhã, já havia feito duas coisas que detestava. Esperava não ter que fazer uma terceira. Sinal de que a quarta-feira não seria fácil.
João Carlos não era cheio de si a ponto de dizer que contava nos dedos as vezes que mentiu para Luísa. Tal qual algumas drogas, uma mentira ali e outra acolá, em doses controladas e pequenas, salvam um relacionamento. Até alegra a pessoa, se bem administrada na ocasião certa (uma surpresa, uma pergunta capciosa sobre aparência). Por isso, era um artifício utilizado com parcimônia. Caso contrário, envenenava irreversivelmente até as mais profundas raízes amorosas.
Então, enquanto a esposa bebericava seu café forte pela manhã, soltou sua mentira bem planejada.
— Amor, hoje eu vou ter que resolver umas pendências do escritório na rua agora pela manhã. Se precisar de mim, você pode me encontrar no celular. — Não a encarou nos olhos, caminhando até a pia para deixar as louças. Tampouco forneceu novos detalhes.
— Tá certo, amor – Ela respondeu num tom modorrento, a mente ainda se assentando no corpo.
João Carlos guardou consigo a história preparada. Beijou o cocuruto de Luísa demoradamente, pedindo desculpas de forma antecipada.
Metódico, antes de entrar no carro, colocou cuidadosamente o paletó na parte de trás do banco do motorista. Para não amassar, justificava. Fez uma careta assustada e surpresa com a própria força com a qual fechou a porta do carro e ligou o motor. Conectou o celular à tela, digitou o endereço desejado em Formosa-GO e colocou uma playlist do Milton Nascimento que seu neto fez para ele.
Uma hora e vinte minutos de estrada aproximadamente. Teria muitas memórias de viagens de carro com a família para preencher a ida.
Quando fizeram a primeira viagem juntos, Joca e Lu tinham pouco mais de dois meses como conhecidos. Era tão recente que ele ainda estava se reacostumando a ser chamado de Joca.
— Não ouço alguém me chamar assim desde que eu era criança.
— Ah, é porque João Carlos é tão sério. — Luísa justificou num encontro depois do expediente, animada pelo quarto copo de cerveja e pela companhia agradável dele. — Te vejo mais como Joca, menos sério.
Ele se lembrava de sentir-se desproporcionalmente ofendido com isso. Nem em seus pensamentos, instante em que se permitia falar consigo na terceira pessoa, João Carlos se chamava de Joca. Joca ficou no Terminal Rodoviário de São Lourenço, junto dos pais e dos irmãos que acenavam para ele enquanto partia para a Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações.
Joca, dito naquele tom docemente faceiro carioca, soava como se Luísa realmente o levasse de uma forma não séria, desimportante e sem valor. Ainda assim, ou melhor dizendo, por algum motivo desarrazoado, algo brioso o fez permanecer e permitir ser chamado de Joca. Conquistaria Luísa.
Desarrazoado também foi o que o motivou a aceitar a viagem dos dois juntos.
Era feriado prolongado no Rio de Janeiro. Dia do Padroeiro da Cidade Maravilhosa: São Sebastião. Vinte de janeiro, uma quinta-feira. João Carlos havia dinheiro contado para os onze dias restantes do mês. Ficaria em casa, descansaria das últimas semanas atribuladas, gastaria uma hora de cada dia para falar com a Luísa e escutaria na rádio o jogo do Flamengo. Se vencessem, compraria uma cerveja para comemorar. Se perdessem, compraria duas para lamentar.
Mas Luísa tinha outros planos.
— Você é de uma cidade lá do sul de Minas, não é? — Ela emendou a pergunta logo depois que contou como havia sido seu dia.
— Sim, lá de Caxambu.
— Que maravilha! Eu imagino que você vai visitar seus pais.
João Carlos havia trocado alguns serviços por favores no quartel justamente para aproveitar um tempo a mais com os seus pais. Entretanto, um cano maquiavélico da cozinha de sua residência tinha outro plano. Estourou belamente, fazendo com que Joca gastasse um dinheiro a mais do que previsto.
Contrariando as dicas românticas de Romildo, alegou que não tinha dinheiro.
— E se eu pagar a gasolina da ida e da volta? Contanto que você me deixe em São Lourenço, na casa de uma colega da faculdade.
Topar aquela proposta era assinar “sou um homem quebrado!” em sua testa. Topar significaria se explicar aos pais e, talvez, até receber dinheiro deles, algo que João Carlos jurou orgulhoso jamais aceitar. Afinal, não era mais Joca. Topar era sinalizar que faria de tudo por ela, mesmo que se conhecessem a dois meses, uma dúzia de acompanhadas até sua casa e uns três selinhos. Logo ela, que não o levava a sério.
Topar também significaria estar com ela por horas. Não topar seria não vê-la.
Topou. Sem mais nem menos. Justificou-se dizendo que assim poderia fazer uma surpresa aos pais. Na manhã seguinte, buscou Luísa na casa dela pontualmente às 8h da manhã. Sua futura esposa exibia o seu então novíssimo traço, meio contrário à sua costumeira eletricidade: uma lentidão apática matinal.
— Pensei que você estaria animada para a viagem.
— Eu tô! Só não achei realmente que você buzinaria às 8h da manhã na frente da minha casa.
Joca calculou a resposta. O militarismo não agradava Luísa. Devido a sua carranca, naquela altura, qualquer chavão militar sobre pontualidade ou obediência a hierarquia poderia arruinar a chance de ela considerá-lo algo sério. Poderia provocá-la, de alguma forma. Sorriu quando encontrou as palavras perfeitas, apressando-se em dizê-las logo, depois de algum tempo de silêncio:
— Desculpa, mas eu estava contando as horas para poder te ver.
Ela o olhou com descrença. Ele sustentou, mantendo o sorriso e dobrando a aposta. A lentidão apática matinal cedeu território. Luísa também sorriu.
— Bom, posso colocar uma música nesse toca-fitas?
— Pode, claro! Elas estão no porta-luvas.
Ela meteu a mão na mochila, revirando o conteúdo.
— Nada, eu trouxe uma ótima. É do seu conterrâneo de coração, tenho certeza que você vai amar.
O som do decenal Chevette 73, Bege Copacabana, iniciou a nostálgica voz de Milton Nascimento. Luísa imediatamente se colocou a acompanhá-lo, enquanto o vento que invadia o interior do carro se juntava para performar um dueto desafinado:
Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
A primeira viagem deles juntos durou umas sete horas. Só para sair do Rio de Janeiro pela Via Dutra foi uma hora e meia. Depois, tiveram também algumas paradas para ir ao banheiro, se alimentar e abastecer. Além disso, o Chevette tinha um charme próprio dele, típico de carro velho; depois de umas duas horas rodando direto, o motor superaquecia e, para não fundir, Joca tinha que pará-lo por alguns minutos, levantar o capô e esperar esfriar.
Estradas o deixavam nostálgico. Após o decorrer das décadas, alguns detalhes talvez tenham sido magicamente alterados pela ufania filtrada que a saudade proporciona.
Nada disso havia sido problema. Lu e Joca preenchiam o meio-tempo se conhecendo, trocando confidências tendo como testemunhas o Velho Chevette, que conseguia se comunicar com eles através de seus rangidos estranhos e da voz do Milton Nascimento, e as curvas da estrada que acompanhavam a sinuosa Serra da Mantiqueira.
Chegaram à casa da amiga da Lu um pouco depois do anoitecer. Joca entrou apenas para ajudá-la com as malas. As colegas ofereceram um prato, já que o jantar ficaria pronto em instantes. Ele recusou, por educação. Não queria atrapalhar.
De mãos dadas, ela o acompanhou até o portão, consciente de que as colegas de faculdade os assistiam.
— Você tem certeza que está bem para pegar a estrada? Fica por aqui, você dirigiu o dia todo!
— Tenho, sim! — Ele sorriu. Dentro da polidez de Luísa, havia genuína preocupação. — Só são uns vinte quilômetros.
Pararam na altura da porta do motorista.
— Então me liga para avisar que chegou bem, por favor.
— Claro.
Qual seria a reação de seu pai quando Joca chegasse tarde da noite, perto de sua hora de dormir, e ainda usasse o telefone para avisar a alguém que chegou bem?
Luísa o abraçou. Desequilibraram-se, amparando-se no Chevette 73. Atrevida, ela sorriu do mesmo jeito que o surpreendeu, enquanto patrulhava a serviço. Quais as chances daquele movimento ter sido premeditado?
Beijaram-se. João lembrava que foi um momento simples. Mas, mesmo sentado ali, num carro extremamente mais moderno e confiável, a sensação do beijo de Luísa atravessava o Espaço-Tempo e repousava molhado em seus lábios carnudos.
Ficaram num enlace por algum tempo considerável. Joca tinha que ir. Ressaltou algumas muitas vezes que não queria. Lu entendia. Ele entrou no carro. Ela se debruçou sobre a janela aberta, esperando o Chevette pegar no tranco, indagando sobre as horas.
Joca balançou o pulso, tentando encontrar algum traço de luminosidade que indicasse o tempo.
— Umas 20h15. Por quê?
— Nada não. Só para facilitar a contagem das horas para te ver de novo. Até domingo de manhã?
— Até.
Joca partiu logo depois, com a sensação dos lábios macios, finos e molhados de Luísa nos seus lábios. Dirigiu até a chácara dos seus pais, alguns minutos afastado de Caxambu, relembrando o sorriso dela. Luísa contando as horas para vê-lo. Ria-se por entre as curvas escuras, com uma confiança poucas vezes vistas.
Os pais ficaram contentes com sua chegada surpresa. Jamais revelou o motivo verdadeiro da visita. No fim de semana, o pai e Joca compartilharam sorrisos de tamanhos diferentes na feirinha da cidade; um ostentava o orgulho pelo filho de caráter e dedicado, enquanto o outro um exibia para os fiéis consumidores do velho Ademir o ar apaixonado.
O tempo da volta, se não lhe falhava a memória, foi mais curto. Geralmente, ir custa mais do que retornar. Até comentou isso com Luísa, ao final daquela primeira viagem, no alto de sua experiência com viagens entre Caxambu e o Rio de Janeiro. Ela não disse muito, limitando-se a apertar sua mão, que repousava em sua coxa, e dar um sorriso de concordância.
Dessa vez, no entanto, retornar custaria algo além de tempo. João somente não sabia o quê. Apertou a parte de cima do volante, na falta das coxas de Luísa.
“Você está a quarenta quilômetros de seu destino”
João Carlos nem precisava da placa que marcava a divisa entre Distrito Federal e Goiás, tampouco do GPS para saber que estava no caminho certo. O trajeto era conhecido. Já havia cruzado a parte planejada de Brasília, as construções fora do plano e agora dirigia por longas estradas retas, margeadas por quilômetros quadrados repetitivos de fazendas. Apoiava-se nas referências apenas para atestar que sua memória continuava intacta e capaz.
Olhou pelo retrovisor; um caminhão aproximava-se com velocidade. Acendeu a seta para direita e guiou o carro. O ar deslocado balançou o automóvel. Nada alarmante. João conferiu sua velocidade. Oitenta quilômetros por hora. O bendito deveria estar, pelo menos, uns vinte mais rápido.
Paciência. Num tempo antigo, antes de Camila, João consideraria aquilo um ultraje. Ser ultrapassado por um caminhão, numa reta longa como aquela? A paternidade transforma alguns.
As primeiras viagens de carro com a filha surtiram o mesmo efeito de tensão de hoje em João. Luísa costumava ir atrás com Camila, acalmando os choros da filha e, quando um pouco mais velha, segurando o saco plástico para que a menina não vomitasse no carro. Quando percebia o marido acelerando mais do que deveria, Luísa tocava no ombro esquerdo dele e recriminava-o com um olhar pelo retrovisor.
Por isso, em retas como aquelas, Joca trocou o desafio; ao invés de ouvir o ronco do motor e testar sua força, buscava manter orgulhosamente a velocidade máxima permitida por Luísa, sem mover a agulha do odômetro.
Milton Nascimento, por meio do som do carro, parecia querer comunicar algo a João. Ele e seu pensamento estavam fora dos ritmos dos instrumentos musicais e da voz do cantor. Conferiu o mapa apenas para ter certeza de que ainda tinha um bom espaço de reta e poderia desviar o olhar por alguns segundos. Tocou na tela do rádio, que espelhava ali a mensagem de Milton. Olhou mais uma vez para a estrada. Nenhuma surpresa à frente:
Há um passado no meu presente
O sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão
Quando bem criança, Camila amava essa música. Achava que era uma ciranda. Toda vez que escutava no carro, pedia para aumentar o som e berrava sua felicidade fora do ritmo e do tom. Se escutasse em casa, tomava as mãos do pai e da mãe, fazendo-os girar em roda.
Céus, foram boas horas escutando essa música até que Joca e Lu descobriram como entreter a criança nas viagens por mais tempo e de forma mais introspectiva.
— Pai, por que as árvores daqui não estão verdes?
— Estamos no inverno, Cacá. Lembra das estações de ano que estudamos na escola?
— Sim.
— Então.
Luísa fingia dormir ao lado de João Carlos. Dor de cabeça depois de trinta minutos de ciranda dentro do carro. Joca e Cacá conversavam com a voz baixa.
— Mas por quê? — Ah, a maravilhosa época dos porquês.
— Filha, você sabe o porquê.
— Sei não, pai… — Camila já havia aprendido a usar o tom meloso de voz para conseguir o que queria. João Carlos, de tão enjoado que estava daquela mania, tinha transformado aquela viagem para a Chapada numa missão para encerrar de vez a manha da filha.
— Sabe sim. Você é muito inteligente.
— Mas não como você…
João matutou um pouco a resposta.
— Um dia você vai ser mais inteligente que eu e a mamãe. Você sabe disso, né?
Camila olhou pelo retrovisor para o pai incrédula. Ele sorriu. Oito anos e já tinha um pendor para competições.
— Como?
— Bom, para você chegar lá você precisa estudar. E não querer a resposta pronta. Você precisa pensar, lembrar…
— Humpf.
— Se, em dez minutos, você me falar o porquê as árvores ficam secas no inverno, papai vai comprar um presente legal para você quando chegarmos.
— Tá bom!
Luísa, discretamente, fez um sinal de joia para o marido. Reencostou-se na porta, grata pelos minutos de silêncio que teria para pegar no sono.
Joca nunca esqueceu o restante da resposta da filha.
— As árvores ficam secas no inverno porque não chove e porque fica frio. Aí elas não têm como beber água da terra.
— Camila, e elas morrem?
— Não! Porque elas são preparadas para esse clima.
— E qual o nome desse clima?
— Clima de deserto!
— Deserto?
— Sim!
— E aqui parece um deserto? Daqueles dos filmes, ou daquela foto minha e da mamãe no Chile?
— Não…
— Por quê?
Camila permaneceu em silêncio, sem responder a pergunta, pensando. Pelo retrovisor, João divertiu-se assistindo ao cérebro dela maquinando. Por fim, ela soltou, emburrada:
— Ai, pai, não sei! Tô de férias, não quero pensar em escola.
Anos depois, pararam numa loja de conveniência, na altura do Deserto do Atacama. Joca e Luísa decidiram celebrar os vinte anos de casados refazendo a viagem de lua de Mel para o Chile. Observava a filha com a mesma culpa que João ainda carregava; o Tempo escorreu por entre suas mãos e ele não percebeu. O corpo de Camila já relutava em perder alguns traços infantis, enquanto o rosto pipocava devido ao conflito hormonal da puberdade.
Luísa tinha ido ao banheiro. A memória da resposta de Camila naquele dia voltou. Contou a história e refez a pergunta. Dessa vez, ela sorriu:
— Porque a Cordilheira dos Andes impede que os ventos marítimos que carregam umidade entrem para o continente. Então, não chove, e o clima árido transforma a região num deserto.
Joca tomou a mão da filha, beijou os seus dedos e disse:
— Já está ficando tão inteligente quanto seus pais.
Sem saber precisar qual, uma placa ao longo do caminho despertou João Carlos daquele estranho transe pavimentado por asfalto e memórias. Formosa estava a poucos quilômetros de distância.
A realidade do motivo da visita, finalmente, começava a se concretizar.
Podia dar meia-volta. Inclusive, seria melhor até para o seu relacionamento com Luísa. Afinal, não chegou perto de fazer algo a que ela fosse extremamente contra. Poderia dizer, se ela descobrisse, que percebeu que era um deslize e ela estava certa. No fim das contas, teria levado mais em consideração a mágoa de ambos do que sua opinião. Então, teria retornado arrependido.
Na realidade, deveria dar meia-volta. Poderia retornar para aquela sinergia inebriante entre as memórias agridoces, os traços da estrada, a vegetação seca do cerrado e as músicas. Estaria seguro lá. Poderia até retornar aos motivos da Luísa para ele não fazer essa viagem. Assim, não iria passar pela estranheza de alguns colegas de farda ao vê-lo. Tinha completa noção de que nenhum deles esperava a presença dele ali. Era o esperado. Qualquer um em seu lugar ignoraria o fato solenemente.
João Carlos passou lotado pela placa “Retorno Brasília DF”. Definitivamente, deveria ter diminuído sua velocidade, colocado seu carro à direita, parado na faixa de rolamento, verificado se vinha algum automóvel nas duas pistas, girado todo o volante para a esquerda e soltado-o, controlado a direção elétrica apenas com a palma da mão esquerda. Assim, estaria de volta à direção da Capital Federal. Chegaria algumas horas atrasado no escritório, mas não teria problema. Afinal, ele era o sócio. Tinha algumas prerrogativas, como por exemplo, não dar satisfações.
Mas aquele fragmento de si, a essência reta de João Carlos, fazia-o permanecer firme.
Marcaria presença no enterro do homem que morreu quatro vezes.
O dilema havia começado no domingo, pela tarde. Heitor e Flávio estavam no clube, curtindo o dia de sol. Luísa havia ouvido falar de uma feira de café especial num shopping caro. Queria também alguns pedaços de queijos e potes de doce de leite artesanal.
João Carlos escutava o barulho do banho, enquanto se distraía com um vídeo no celular sobre alguma banalidade. Insatisfeito pelo tédio de esperar tanto a esposa quanto algo relevante numa rede social, entrou no grupo de veteranos aposentados da Turma de 1983. Lia as mensagens no automático, sabendo que ali não haveria nada de importante: críticas políticas, fake news, piadocas sobre a derrota do Flamengo na noite anterior,fotos de mulheres peladas, comentários sobre como, ainda com sessenta e poucos anos, fariam essa mulher subir pelas paredes. Mais um domingo tranquilo.
Até que as mensagens mais recentes romperam disruptivamente a calmaria. O número de novas mensagens não parava de aumentar. Joca já tinha uma leve ideia do que havia acontecido, num primeiro momento. A cada ano, desde que ingressaram no curso de formação, algum colega de turma morria. Claro, no início era um evento raríssimo, tendo um aspecto de trágica fatalidade. Eram jovens, repletos de energia e saúde. Porém, conforme os anos passavam e a vitalidade ia se esvaindo aos poucos, cada vez mais a morte ia se tornando uma visitante frequente.
Mais um colega que se foi. Em preto e branco, a imagem oval de um velho conhecido. Sorridente, ostentava um olhar de jabuticaba cansado, incrustado por rugas ao redor. Parecia mais velho do que realmente era. O tempo também o castigou como havia feito com João Carlos. O cabelo, outrora cheio e preto, estava ralo e cinza. Embaixo, a legenda clichê anunciando mais um falecimento:
“Queridos colegas de turma, é com imenso pesar que recebemos a notícia da morte de Romildo Chagas Brito, na manhã deste domingo, em Formosa-GO. Nossas condolências aos familiares e aos amigos!”
Então, mais uma onda de mensagens. Alguns repetiam brevemente os seus sentimentos. Outros se articulavam para pagar uma coroa de flores: um era responsável por encontrar as informações do enterro, outro por entrar em contato com uma floricultura, ao passo que um terceiro por organizar financeiramente a operação. Uns fofoqueiros perguntavam indiscretamente como se deu o ocorrido, provocando ilações e reprimendas. Morte morrida ou morte matada? Isso lá é comentário que se faça?! Os colegas mais próximos lembravam, com eloquência, histórias com o falecido.
Num primeiro momento, João Carlos permaneceu imobilizado no sofá. Um duro nó instalou-se em sua garganta. Romildo faleceu. Lágrimas umedeceram a visão. Um dos irmãos que o Exército lhe deu. O sofá, que geralmente o abraçava confortavelmente, tornou-se repulsivo, tensionando-lhe as costas e o pescoço. Pôs-se a caminhar pela sala, juntando as escápulas num tique nervoso. Um dos seus padrinhos de casamento.
João Carlos permitiu-se entrar no automático. Irrompeu no quarto enquanto a esposa colocava com dificuldade um colar de prata. Ela percebeu sua chegada pelo tênis dele.
— Ai, amor, pode me ajudar a… — Luísa se assustou com a expressão perturbada do marido. — Que houve, João Carlos?! Que cara é essa?!
Arrependeu-se assim que formulou mentalmente a frase, em especial porque não tinha como voltar atrás. Conhecia Luísa bem demais.
— Eu estava conferindo as mensagens do grupo dos veteranos e… bom, o Romildo morreu.
A preocupação de Luísa com o marido implodiu, tornando-se em sua singular frieza. Empertigou-se, endireitando-se como uma bailarina concentrando-se para treinar um passo, dando as costas para o marido e voltando sua atenção para uma atividade mais importante.
— Para mim, ele estava morto há muito tempo.
João Carlos suspirou. De certa forma, concordava com ela. Não deslegitimava sua razão, até porque a compartilhava em alguma medida. Romildo já havia morrido antes. Mas, pelas arestas irreparáveis entre as famílias, tinha plena consciência que o melhor amigo zanzava errante por aí com outros fantasmas, sofrendo perdido.
Luísa entrou no closet, borrifou o perfume cítrico e retornou. João Carlos não moveu um centímetro, assistindo sua esposa.
— João Carlos, acha mesmo que eu vou chorar por ele? — Ela estancou, irritada.
— Nem por um instante.
— Bom.
Ela permaneceu se arrumando para sair. Ele sentou na beira da cama.
— Eu contei porque acho que os nossos netos merecem saber por nós, não pelos outros, e optar se vão prestar as últimas homenagens.
— Como se aquele homem merecesse qualquer tipo de homenagem de qualquer pessoa no mundo.
A voz dela tremia. O rosto avermelhou-se, tentando conter a onda de fúria e rancor que brilhava em seus olhos. Sustentaram o conflito no olhar. Luísa não cederia. João sabia que passar por cima da opinião de sua esposa era uma tarefa dura e desgastante. Mas que precisaria ser feita, mais uma vez.
— Mesmo sabendo que ele pode ir, você arriscaria expor os dois?
— Nós estaríamos lá, Luísa.
Não trocaram mais palavras. Luísa saiu sozinha para a feira do café. João Carlos esperou no estacionamento a hora de buscar os netos no clube, calculando a reação deles. Chegou quarenta minutos antes do combinado.
— O avô Romildo morreu. Mal súbito enquanto dormia.
A animação dos meninos por uma tarde repleta de sol, salgadinhos, guloseimas, piscina e futebol foi dizimada assim que os irmãos deram uma pausa na narrativa de como havia sido o dia.
— Vovó já tá sabendo?
— Sim.
— E como ela reagiu? — Flávio completou, encarando João Carlos pelo retrovisor.
— Por ela, vocês não ficariam sabendo. Mas não achei justo com vocês.
Uma música animada imprópria para o momento incomodava. O vento que invadia o carro para refrescar os dois, de repente, tornou-se gelado. Heitor perdeu o olhar na vegetação seca que começava a predominar, enquanto Flávio olhava cabisbaixo para a chuteira suja de poeira. João desligou o rádio e levantou os vidros, antes de continuar com o seu pragmatismo.
— Vocês vão querer ir para Formosa prestar suas homenagens?
Flávio foi o primeiro a se pronunciar:
— Não sei, pai. Eu e o vô Romildo tava muito tempo sem se falar. — João Carlos olhou para ele, enquanto o garoto calculava com cuidado as próximas palavras. — E a minha mãe não ia gostar.
João guardou o argumento. Os netos não precisavam comprar sua briga se não quisessem. Muito menos ele gostaria que passassem por cima da vontade de Luísa, ou pior, abdicassem da própria vontade.
— Vô, o senhor acha que o Aurélio vai estar lá? — Heitor repetiu o cuidado do irmão ao falar. A curiosidade de Flávio fez com que ele se remexesse no banco.
— Ele tem direito. Não tenho como saber se ele sabe ou não. Até onde me lembro, Romildo rompeu com ele.
O rosto de Heitor endureceu.
— Lamento pelo vô Romildo, mas prefiro rezar por ele em casa mesmo.
E assim, João Carlos viajou sozinho para o funeral. Manteve-se afastado dos conhecidos de Romildo. Justificou-se pelo atraso de uns bons minutos. Não queria chamar mais atenção por sua presença, embora João Carlos duvidava que o outrora amigo tivesse compartilhado com qualquer um dos presentes sobre o acontecido. Mesmo do outro lado da moeda, compreendia a vergonha traumática.
A coroa de girassóis e lírios da paz que os colegas de farda enviaram ganhava destaque. “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé”.
João Carlos ousou entrar na capela apenas uma vez, quando o padre anunciou que se aproximava a hora de rezar pela alma do falecido. Alguns dos presentes simplesmente anuíram, lamentosos, com um aceno de cabeça. Não havia parentes próximos de Romildo. Bom, pelo menos não que ele se lembrava. Aurélio, definitivamente, não estava ali.
O corpo do amigo jazia no centro. Em silêncio, aproximou-se. Pôs apenas uma das mãos no caixão, buscando limpar sua mente de todas as mágoas. De olhos fechados, orou para que Romildo pudesse encontrar Aurora e Noêmia. Imaginou o amigo rodeado por sua esposa e por sua filha, crescida e com filhos, enquanto assava churrasco e bebericava uma cerveja gelada, num espaço amplo, com um quintal bem grande e esverdeado. O Romildo que conhecera amaria a ideia de uma eternidade assim. Mas a cena durava.
De uma forma ou de outra, ele sempre chegava. Aurélio.
Algo dentro de si o forçava a retornar para outros momentos. Afastava essas memórias, mas era em vão. Lembrava-se de estarem em lados opostos. Acusações, dores, ressentimentos… Sentia-se enojado. Era incapaz de derramar uma lágrima sequer pelo seu melhor amigo. Era incapaz de não sucumbir ao rancor, nem mesmo no último momento de despedida. Os pensamentos intrusivos profanaram o momento.
Do lado de fora, João Carlos não prestou muita atenção às palavras do padre. Fez-se presente apenas na Ave Maria, a qual podia recitar sem esforço algum. As falas de alguns amigos da igreja e colegas de farda o tiraram de seus pensamentos.
Contaram apenas boas histórias de Romildo. Ele não os culpava. Afinal, além de ser deselegante falar mal dos mortos, João Carlos sabia que o ex-amigo havia feito questão de resguardar o máximo da vida pregressa quando chegou em Formosa com a Noêmia. Pouco mais de quinze anos atrás, as notícias ruins não se proliferavam como acontece agora.
Nem por um minuto considerou fazer uso da palavra para contar uma história que viveu com Romildo. Se fosse forçado, talvez compartilhasse o fato que, se não fosse o empenho do falecido, jamais teria ficado com Luísa. Eram dois jovens sargentos responsáveis por patrulhar o Palácio Duque de Caxias. Luísa estudava Arquitetura na UFRJ e gostava de estudar na biblioteca próxima ao quartel.
A Ditadura (embora, na época, João Carlos e Romildo tivssem sido muito bem orientados a chamá-la de Revolução) já se encaminhava para os finalmente. O clima ainda era tenso, todavia. A ordem dos seus superiores era vigiá-los, pois eram baderneiros em potencial.
Pelo menos duas vezes na semana, João observava-a passar com sua pasta gigante, uma postura impecável e um olhar que, vez ou outra, se voltava para cima.
Romildo adorava tirar sarro da situação, tanto para os colegas de farda quanto apenas entre os dois. João se defendia com silêncio. A melhor das estratégias contra o sarro. Alguma hora, a pessoa se cansava e mudava a piada ou o alvo. Romildo, por sua vez, mudou apenas a estratégia.
— Por que a gente não vai atrás dela hoje, depois do expediente?
— A moça da pasta?
— É. Vocês não se encararam?
— Sim… Quer dizer, acho que sim.
— Acha? Você é um militar treinado, cacete. Um dos melhores da nossa turma. Vai me dizer que não sabe o que é uma encarada?
João Carlos se convenceu. Ele e o amigo foram de bar em bar, lá pelo centro do Rio de Janeiro, numa sexta-feira à noite. Romildo tomava cerveja, enquanto João ficava alerta a qualquer sinal de Luísa. Uma ideia tão ruim, mal planejada e potencialmente perigosa que as ruas boêmias cariocas, por óbvio, abraçaram com muito gosto.
Por volta do terceiro bar, Luísa e alguns amigos da faculdade celebravam algo, já que os universitários não precisam de motivo festivo para beber.
João e Luísa trocaram olhares. Romildo se animou pelo amigo. Pediu ao garçom três cervejas…
— Uma para mim, uma para você e a outra para a mulher da sua vida.
Um guardanapo e uma caneta. Ditou o que João tinha que escrever no papel. Aí, João entregou o bilhete improvisado para o garçom. Os dois amigos assistiram o funcionário do bar caminhar lentamente até Luísa, com a desinteressada elegância de um trabalhador de um bar pé-sujo. O homem cochichou algo no ouvido da jovem. Ela fez uma cara de surpresa. Então, sorriu. Romildo percebeu que o garçom ia apontar para os dois. Deu dois tapinhas com o dorso da mão em João Carlos. Fizeram a melhor pose galanteadora quando Luísa e uma outra amiga encararam os dois militares.
Depois de alguns minutos, o incrível aconteceu: as duas moças se juntaram aos rapazes. O resto era muita história, tramada pelas linhas tortas do destino.
Contudo, João Carlos permaneceu em silêncio. As últimas memórias foram compartilhadas pelos presentes. Era hora do cortejo e o último adeus. Um grupo improvisado de homens, mistos entre amigos da igreja e colegas de farda, conduziu Romildo para o seu leito final.
O cortejo que acompanhou a descida do caixão se desfez aos poucos, logo depois que os funcionários começaram a jogar terra. João foi um dos primeiros a dar as costas. Caminhava sozinho pelo cemitério, focando no ressoar dos próprios passos no asfalto em vez do barulho seco de areia batendo na madeira. Sentia a cabeça tentando processar os pensamentos, mas nenhum permanecia.
Um toque no ombro o despertou do torpor.
— Não esperava vê-lo aqui, João.
Cumprimentou a pessoa de forma protocolar. Reconhecia-o de algum lugar. Nestor, um daqueles militares andarilhos que passavam dois anos na seção de auditoria jurídica de um quartel.
Tragédias se marcam pelo não dito. A curiosidade de Nestor não era grande o suficiente para nomear o ocorrido entre Romildo e João Carlos. João fingia que havia acostumado com esse limbo. Conformou-se; não havia adjetivo que definisse. Era o jeito de tocar em frente que conhecia.
Ainda assim, o olhar do colega intrigava-se:
— Éramos colegas de turma, né? Antes de tudo, éramos amigos.
João Carlos desconhecia o porquê de se justificar para Nestor. Sobretudo, o porquê de estar ali. O que ele tinha a ver? Ainda assim, explicou-se. “Éramos amigos”. Seria o suficiente? Talvez, de alguma forma, esperava sepultar de vez os fantasmas que Romildo carregava. Até o momento, nem mesmo ele tinha uma resposta.
— É um ótimo homem, capitão. Te admiro! No seu lugar, não sei se conseguiria.
Retribuiu o abraço longo e os tapinhas nas costas de Nestor. Ele despediu-se, com os olhos marejados. João sorriu sem jeito, prendendo a repulsa dentro de si. A reação de Nestor era genuína. Tragédias engrandecem quem não as vivencia. De repente, se contasse para os presentes sua relação com o morto, João Carlos viraria, no imaginário geral, um homem extremamente bom e misericordioso, como Jesus Cristo havia nos ensinado. O padre contaria sua história de perdão e a redenção do fiel Romildo. Amém!
A ideia embrulhou-lhe o estômago e ressecou suas vias aéreas. A seca do Planalto Central já havia começado. Comprou uma garrafa d’água numa quitanda próxima dali e rumou para o carro. Assim que o ar condicionado começou a refrigerar seu refúgio, fechou as janelas e puxou o celular. Perdido entre tantas conversas, depois de muitos anos, a mesma imagem do sorridente e sofrido Romildo jazia colorida ao lado de seu número de telefone, nunca salvo por João. Encostou na tela, entrando na conversa de mensagem única. “Contato visto por último no dia 16/05/2025, às 22h17”.
A data do áudio foi registrada oito anos antes. Era uma daquelas madrugadas nas quais João Carlos despertava assustado, com os instintos voltando à noite da tragédia. Quase sempre por volta das duas horas da manhã. Ouviu a mensagem pouco tempo depois. Nunca teve coragem de responder.
Apertou o áudio e o seu carro vocalizou arrastadamente um Romildo mais novo, bêbado, envergonhado e choroso:
“Joca, desculpa te incomodar à essa hora, irmão. Saí com uns conhecidos e bebi demais ali na vendinha… Geralmente era a Noêmia que me escutava, mas ela não está mais aqui. Tenho muito para te dizer, mas eu sei que você e a Luísa… Enfim, não adianta pedir perdão e eu entendo a distância que precisamos ter. No lugar de vocês, eu teria feito o mesmo. As pessoas dizem que não tenho culpa pelo que ele fez. Não tem um dia que não me sinto responsável, Joca. Naquele dia, eu morri a segunda vez na minha vida; a primeira foi quando Aurora partiu e agora, que a Noêmia se juntou a ela… só tem eu agora, esperando a minha vez. Tudo que peço é para ver os garotos e você e a Luísa uma última vez”
João Carlos saiu de Formosa com um peso nas costas e uma leve pressão na cabeça. Quem dera pudesse responsabilizar o banco do carro, como fazia com o antigo Chevette. Ou culpar as longas horas de viagem. Mas, na realidade, não podia. Nem sabia lidar com o fato.
Seu melhor amigo, Romildo, o homem que morreu quatro vezes, faleceu condenado ao ostracismo.
Quando chegou do trabalho, no meio da tarde, Luísa escutava apenas o silêncio de sua casa. Nos últimos dias, era o tom constante dos ambientes. O motor do filtro ecoava pela cozinha, enquanto, no quintal grande, alguns pássaros piavam mensagens importantes. Uma viga, provavelmente, rangeu, assentando o lar da família.
Os netos espalharam folhas, livros e canetas, riscando os papéis e teclando a tela dos tablets, compartilhando a mesa de jantar para os estudos. Um começando o Ensino Fundamental II, o outro finalizando o Ensino Médio e encaminhando-se para a faculdade.
— Muito bom ver vocês estudando.
Heitor limitou-se a levantar o rosto e cumprimentá-lá com um riso amarelo. Já Flávio foi mais falante.
— Papai já chegou.
— Ué, ele falou que passaria o dia na rua.
— Ele disse que tava com enxaqueca.
Luísa deu um muxoxo.
— Sabe se ele tomou algum remédio?
Os dois netos negaram com a cabeça.
Luísa subiu as escadas com cuidado. Foi até o banheiro, pegou o remédio de enxaqueca e o de pressão. Tirou o relógio que aferia os batimentos cardíacos e entrou no quarto escuro e silencioso, exceto pela respiração controlada.
João Carlos estava deitado, ainda com as roupas do trabalho.
— Os meninos falaram que você tava com enxaqueca. Trouxe remédios. — João permaneceu quieto. — Quer verificar essa pressão?
— Pode ser.
Luísa sentou-se na beirada da cama, enquanto relembrava as orientações de Heitor. O colchão macio entregava os movimentos do marido. Sentiu que ele se acomodava. Prendeu o relógio em seu pulso e tocou na tela.
— Dia estressante no trabalho?
João ficou em silêncio. Luísa notou a diferença entre suas posturas; ela ereta e firme, como sua mãe a ensinou, ele, arqueado, com um peso invisível nas costas. Os dois se entreolharam. Havia apenas filetes de luz passando pela persiana. Então, Luísa percebeu a dor do marido.
Joca mentiu para ela.
Abraçou-o. Ele retribuiu, entregando-se. Escutou seu soluço estrangulado. Acariciou o cocuruto do marido. Podia dizer que estava tudo bem. Podia perguntar como havia sido. Podia mentir. Mas não conseguiria mentir. Assim como não conseguiria não se importar com João Carlos. Beijou a bochecha dele demoradamente.
O silêncio seria o suficiente.
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[1] making of = refere-se aos bastidores de uma produção
[2] workshop = uma atividade de aprendizagem ativa e prática que reúne um grupo de pessoas com um objetivo comum, geralmente relacionado a uma área específica de atuação.
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