Capítulo 1
Durante muito tempo adormeci mais cedo do que gostaria. Não porque, em maior grau do que qualquer mãe, a minha me fizesse deitar em horário adiantado. Às quartas-feiras, dia de jogo, ela até concedia uma tolerância – malandragem materna, pois sabia que eu, no auge dos meus sete anos, levaria-me por conta própria aos braços de Morfeu. Dito e feito: nem bem entrevia o gramado cintilante no televisor, ou antes mesmo, ao simples subir de créditos do fim da novela das oito, sentia pesarem os olhos e depositar-se sobre meu corpo de criança um irresistível desejo de abandono.
Não vou dizer que não lutasse. Bulia, virava, mexia, azucrinava pálpebras e sofás, tudo para postergar o momento em que o sono me embalaria à escuridão sem retorno. Também me aferrava à ideia, como um garoto endividado consigo, de que aquele instante esportivo tinha sido investido por mim durante toda a semana. Em vão: logo, miúdo, macio, cedia. E nesse ceder, à medida que a vida lá fora se apagava aos poucos, obtinha uma espécie rara de deleite: o de quem, exausto de antemão por uma batalha que mal e mal principia, admite para si a derrota que o mundo lhe dá em forma aparente de benefício.
Às vezes, caso uma lasca de vigília me trouxesse de volta à tona, eu notava que lá, no sono, reinava o silêncio. Absoluto silêncio. Também agora, enquanto vejo o corpo de mulher cada vez menor no retrovisor lateral, com o livro na mão, o carro se torna uma câmara silenciosa quando aciono o botão da janela e o vidro me isola de todo ruído externo. Seu braço que acena em despedida, a rua que desliza para trás, as margens da imagem deformadas pelo retrovisor que a enquadra, tudo tem uma cara inegável de filme de drama e combinaria à perfeição com um piano bem sentimental. Deve ser por isso que eu tateio o celular, jogado ali perto do câmbio, até achar, sem tirar um olho da pista que avança, o ícone preto e verde do Spotify. Mas o algoritmo não dá bola para os meus afetos: calha “Enter Sandman”, no aleatório. E me emociono sem saber por quê.
Por quê? Ora, deixar-se levar pela morte não devia ser muito diferente daquele sono. Eu pensava assim. Sei lá. Isso tornava a ideia de morrer mais aceitável. Até hoje não tirei a prova. Mas o que o sono das quartas-feiras me ensinou, sim, é que o futebol, como tudo na vida, é imaginário.
Quem me ouve assim pensa que eu, moleque, me aborrecia com o jogo de bola — daí a incontornável sonolência. Muito pelo contrário: quanto mais o jogo me escapava, mais o amava. E o ponto alto desse amor eram as manhãs em que, antes que o jornal desmentisse minha fantasia, a partida não vista se multiplicava em uma coleção de dribles improváveis e placares impossíveis. Dessas manhãs, frescas e promissoras, aprendi a conceber as partidas como se alguém soprasse, de longe, de leve, um sonho entre os cabelos úmidos das minhas têmporas.
Agora sinto a brisa suave e refrescante do ar-condicionado enquanto o automóvel desliza sem muita pressa pelas ruas sinuosas do bairro residencial. De vez em quando reduzo a velocidade e me inclino em direção ao para-brisa, a fim de espiar as casas suntuosas que se escondem atrás dos muros altos. O sol do meio-dia atravessa a folhagem das árvores também altas e se pulveriza sobre a superfície das coisas em uma infinidade de pontos luminosos de diferentes tamanhos. Esse efeito contribui, não sei bem por quê, para dar um ar de sofisticação a esse bairro afastado do centro de Campinas. Vou me deixando levar assim, na confiança de que o automóvel por si só vai me conduzir à via principal por onde cheguei, até perceber, no replay da paisagem urbana, que estou andando em círculos.
Paro o carro ao notar que, logo adiante, lá está ela, de novo, na frente da casa, conversando com o mesmo segurança que bateu no vidro do meu carro com os nós dos dedos, há pouco menos de duas horas. Paro porque quero evitar a trapalhada que é dilatar um momento já encerrado, como quando nos despedimos de alguém na rua e vamos caminhando na mesma direção. Talvez, também, não queira que o segurança perceba que estou perdido e ria consigo da minha estupidez, ou mesmo dê razão para sua desconfiança de antes, olhando-me passar de novo na frente da casa. Se bem que, pensando bem, é ficando aqui, quieto, que lhe dou razão para desconfiar.
Coisa aborrecida era que nos dias sem jogo, sem tevê, o sono não vinha. Restava ninar-me com o que sabia inventar. Quieto, quietinho, sob as cobertas, eu via, como um trecho de filme que o aparelho desajustado teima em repetir, a cena de um passe ideal, um drible ideal, um lance ideal. Era assim que eu encomendava meus sonhos, com a esperança de que se fizessem, quem sabe, presságios de uma vida gloriosa de jogador. Meu desejo passava, ali, no cinema do teto do quarto, uma, outra, outra vez ainda, apenas ocasionalmente perturbado pelas luzes dos carros que atravessavam o escuro, fatiadas pelo filtro das venezianas. Lá, ele brilhava. Quem? Não sabia. Mas sei que assim o nomeava – ele –, nessa espécie rudimentar de partida que, apenas se jogava, já tomava forma de palavra. Pois não é difícil, hoje, adivinhar que esse outro era uma versão de mim – melhorada, decerto, mas também duplicada pela simples razão de que não me bastava, na pelada imaginária, estar e ser: pois queria também ver – e contar o que eu via.
Vejo no minúsculo mapa do celular o emaranhado de ruas que me encerram, e enquanto digito, no campo reservado ao destino, a palavra Vinhedo, o aplicativo calcula com velocidade impressionante o caminho que eu, por conta própria, levaria uma eternidade para achar. Depois encaixo o aparelho no suporte do console e vou deixando para trás a zona residencial sob as orientações da voz feminina. Vire à esquerda, ela me diz, vire à direita, mantenha-se na Rua Engenheiro Patrício de Melo por duzentos metros. E há um estranho prazer em obedecer sem nenhuma rebeldia a esses comandos e ver o mundo transcorrer lá fora. De vez em quando, nesse transcorrer, vem-me a impressão de que é de fato o mundo que desliza por sob o carro, como se este estivesse parado, suspenso em uma plataforma que coincide exatamente com sua largura e seu comprimento, a poucos centímetros do chão. Mas essa impressão é passageira. Quando finalmente embico na beira da rodovia, vendo crescer as motos, caminhonetes, caminhões, que passam diante de mim com a indiferença de corpos celestes, me sobressalto levemente, e vou dosando o peso dos pés entre a embreagem e o acelerador, aguardando a minha chance. Depois de uma carreta, lá vou eu: dou o bote, subo a marcha, e pego a estrada.
Alguns minutos bastam para me recordar quão tediosas, e por isso mesmo quão adoráveis, são as estradas. Estradas, filas de banco, deslocamentos ordinários nos transportes públicos: foi em ocasiões como essas, planas, monótonas, que eu percebi nos últimos anos que algo daquela invencionice infantil se havia estendido à vida adulta. A bicicleta magistral, o drible primoroso, todo o repertório de jogadas fantásticas que eu via no escuro do quarto, guardei-o como um cacoete, um vício secreto, inconfessável, que mal podia se deparar com um chá de cadeira para pôr as mangas de fora.
E o engraçado é que, como todo jogo infantil, minha compulsão por inventar essas jogadas desconhecia o desenlace. Os lances nunca se encerravam. Daí que eu me pegasse contando e recontando a mesma jogada, sempre inacabada, com mania de melhora.
Recebeu na lateral marcado pelo volante, eu imaginava, deu uma cavadinha com a esquerda deixando pro meia enquanto escapava junto à linha da cal em disparada o meia dominou girou fez o passe em profundidade e no momento em que ele ia dividir com o zagueiro…
Não. De novo.
Recebeu na lateral marcado pelo volante deu um totó de rosca com a esquerda deixando quicar pro meia enquanto escapava junto à linha da cal em disparada o meia de primeira fez o passe com o peito do pé em profundidade e quando parecia que o zagueiro ia chegar antes ele…
Não. De novo.
Antes de receber no grande círculo entre dois marcadores fez que ia pro meio mas deixou passar entre as pernas pra pelota cair com o meia enquanto ele ia em disparada pela linha lateral da cal o meia girou penteou tabelou com o ponta a bola sobrou esticada para ele que estava apertado pelo beque já na linha de fundo e aí…
Não. De novo, e de novo não, e de novo, e não, e não, e de novo.
E o que vejo nessa estrada não difere muito disso: placas, linhas, luzes, postes, a sucessão ritmada da vida em alta velocidade, minimamente variada, mas no fundo tão parecida a si que o fim, se é que há fim, parece sempre empurrado para além da curva, para além do tempo.
E quem sou eu pra falar do tempo? Só houve um homem que soube o que era o tempo, e ele, esse homem, talvez esteja perdido para sempre.
Bobagem. Ali adiante vejo se aproximar a placa verde, no alto da pista, e a moça dentro do celular se antecipa ao que vejo para anunciar que a quinhentos metros eu devo pegar a saída à direita, em direção a Vinhedo. E por mais que eu olhe fixamente para a placa, ainda pequena na distância, ela não obedece a um crescimento contínuo. Em algum momento eu pareço me distrair nos pensamentos — minha infância, meus sonhos de jogador de futebol, a imagem de mulher diminuindo no retrovisor, com o livro na mão, o segurança desconfiado batendo no vidro do meu carro, duas horas atrás, mamãe me pondo para dormir —, porque a placa está grande de repente, a ponto de que eu possa ler, em linhas brancas sobre o verde do fundo, a palavra São Paulo, com sua flecha reta, e a palavra Vinhedo, com sua flecha torta. E minha mão insinua o gesto maquinal de dar seta para a direita quando eu penso que talvez não queira ir a Vinhedo, que talvez não valha a pena, que talvez tudo esteja perdido para sempre. Ou senão tudo, porque tudo é muito, que ele esteja perdido. E durante um instante, que parece durar uma eternidade, a bifurcação se aproxima, minha mão está no ar e não se decide a dar a seta ou voltar para debaixo das cobertas.
Ontem adormeci cedo. Ele, quando dei por mim, e isso já faz muito tempo, já não era eu. Ora, a realidade, cedo ou tarde, suplanta a imaginação. E, se penso no que vi, a realidade supera a imaginação. Pois faz alguns meses que minha mania infantil de inventar jogadas desapareceu. Ontem adormeci cedo por conta própria, porque meu plano era fazer essa viagem, que agora hesito em concluir. Ajustei no celular o alarme para as 06:30. Depois escolhi um alarme bem suave, uma mistura de som de rio com melodia medieval, na harpa. E o que veio, na cama, no escuro, ao cinema dos meus olhos, foi a mesma sequência que me persegue há meses, desde que a vi, como uma charada, como um enigma em forma de futebol: ele, recebendo no grande círculo, no estádio lotado, dando um chapéu no volante com um levíssimo totó na bola, fazendo a volta no adversário, um pouco desequilibrado, e passando para o meia, que amaciou a redonda enquanto ele ia partindo em velocidade em direção à linha lateral, e depois o lançamento, a enfiada no limite do alcance, o drible no lateral, o segundo drible no zagueiro, o terceiro drible no outro zagueiro, o olhar para o goleiro levemente adiantado, a bola que repica na meia lua, os marcadores que vêm fechando em carrinho, a câmera lenta, a perna que dobra, e desdobra, lento, lentíssimo – e o chute.
Capítulo 2
Quando o Bina apareceu na minha vida eu já tinha desistido de ser jogador de futebol.
Difícil dizer em que momento isso se deu. Todo menino sonha em ser jogador – ou pelo menos alguém sonha por ele. No meu caso, meu pai não nutriu grandes expectativas quanto a meu namoro com a bola. Também, sejamos justos, não me desencorajou. Aos sábados de manhã, lembro-me bem, eu ia no banco de trás da Ipanema, contemplando no meu corpo o uniformezinho comprado na loja da Primeiros Passes, que ficava junto à recepção da escolinha. Era por ali, minutos depois, que eu entrava correndo com a mochila a tiracolo, tão feliz quanto medroso, e via meu pai indo embora, acenando pelo vidro aberto do carro.
Da primeira vez é provável que eu tenha me perguntado por que é que ele, como os outros pais, não ficava para me assistir. Nas outras vezes, sujo, suado, eu já aprendera algo dos princípios de vestiário: entrava de volta na Ipanema com a cabeça mais nos chutes a melhorar do que na aprovação da torcida.
Desconfiaria das aulas, meu pai? Talvez. Um dia antes de me matricularem, na hora do jantar, minha mãe trouxe o assunto à roda: e a escolinha, Laerte? Fiquei quieto, com os olhos arregalados e a colher de canja em suspenso, aguardando o parecer do Laerte ali – vulgo papai. E a opinião não foi lá muito animadora. Lugar pra aprender futebol, disse ele, não é na escolinha. É no mundo.
No mundo, claro. E citou Sócrates e Zenons, Casagrandes e Biro-Biros, todos formados craques na faculdade dos terrões e das peladas nas ruas. Difícil discordar. Mas quem eram esses? Eu sabia do Raí, do Cafu, do Palhinha. E esse mundo, dos craques meus ou do meu pai, andava longe do décimo quarto andar, onde pairava o apartamento para o qual a gente tinha se mudado. E no prédio nem quadra havia.
Minha mãe argumentava: o menino quer aprender a jogar. Mal sabia ela que assim, pretensa aliada, me fazia implícito um perninha-de-pau. Pois quem disse que eu precisava aprender a jogar? Futebol, no fundo eu sabia, não era bem uma coisa que se ensinasse – fato que, aliás, deixaria-me em apuros se alguém me perguntasse para que, afinal, eu tanto queria ir à escolinha.
Mas ninguém perguntou. E papai, com um pouco de sono, um pouco de contrariedade, acabou acatando.
A escolinha não durou muito. Não nego que a descrença do meu pai na Primeiros Passes tenha exercido algum influxo em mim. Um completo inimigo da pelota eu não era. Mas, passado uns meses, comecei a pensar que sua desconfiança tinha lá seus fundamentos. Eu me via jogando igual ou pior que antes. Não me ocorria que, à medida que eu me aprimorava no passe, no chute, no drible, também os outros melhoravam. Era como se eu olhasse pela janela, na estrada, e, vendo os outros veículos simulando inércia, não pudesse avaliar quaisquer velocidades. Restava-me, pela fresta da porta, comparar minhas habilidades medianas com o que ouvia do rádio do meu pai, cada vez que ele se debruçava sobre o aparelho para acompanhar os jogos do Corinthians: que fulaninho tinha “o dom da bola”, que beltraninho era “um talento nato”. E seja lá o que significasse nato ou dom, não parecia que esses craques tivessem frequentado escolinha de futebol.
Sem drama, sem choro. Desisti dessa incipiente carreira aos poucos, levado por um caminho arcaico de sabedoria, que é a resignação. No fim desse caminho, divisei um contorno confuso, vagamente promissor. Achei que fosse a felicidade. Era a adolescência.
Na primeira aula de educação física do primeiro ano do Ensino Médio, o professor concedeu um futebolzinho, cortesia de começo de bimestre. Meu nome eu já esperava ouvir na zona média da escalação, que, como de praxe, era feita na base do um pra lá um pra cá, conforme o gosto dos capitães de ocasião: André aqui, Ricardo ali, Thiago pra cá, Leandro pra lá, depois Henrique, Alberto, Josué, Pepê, e Johnny, e Cabeça, e Miguel e… E você, quem é? Como se chama?
O menino novo estava ali, meio sentado nas mãos, sério, de óculos – à parte. Parecia achar qualquer coisa de extraordinário nas instalações da escola, porque olhava por aí, avaliando, ressabiado, sei lá. Tanto é que tiveram que repetir: qual é o seu nome, mano?
Aí ele atinou – mas baixinho: é Bina. Como era? Que falasse mais alto. Bina, ele dizia. Mina? Tina? E meio entre risos, meio entre broncas, queriam saber o nome de verdade. Então ele meteu um sério a mais na seriedade anterior: o nome é Bina mesmo, falou?
Complicado. Fiquei pensando que o tal do Bina não punha na mesa sua melhor carta de intenções. Indispor-se assim na pré-pelada, não sei… Podia também ter inventado um apelido melhor para si, se o caso era de reinventar-se numa escola nova. Mas não. Trouxe aquele Bina sem precaução, jogado assim aos leões. Era feminino demais. Alguém lembrou também que Bina era o nome de um pega-trote. E o Bina, no esquenta para o jogo, foi logo para o centro da roda, de bobinho.
Não dá para dizer sequer que ele fosse ruim. Bina meramente não jogava. Ficava parado, no meio, operando inesperada dignidade. Talvez imaginasse esquivar o papel de bobo ao não tentar pegar a bola. Só que os moleques se adiantavam a isso e iam com a bola até ele, chutando-a de leve para rebater nas suas canelas inertes. E o Bina nada. Em seguida alguém pôs um grau a mais no pontapé. Chutavam nos joelhos, nas coxas, miravam no saco. E a coisa foi escalando num pacto tácito entre a turma. Ninguém falava, só se ouvia o raspar dos tênis no cimento e o baque seco de bola no pé, bola no Bina, bola no pé, bola no Bina. Até que alguém meteu uma bicuda que ia direto para a cara dele, se ele não tivesse rebatido com as mãos.
Não é vôlei não, protestaram. Ele não sabia jogar, o Bina? A molecada ria, ria que só. Depois, o professor dispersou o bobinho. E o André, autor da pernada, veio abraçar o novato, apertando os mamilos com súbita camaradagem: não liga não, Bina, é zueira nossa, beleza?
Durante a partida a chacota afrouxou. Bina perambulou na quadra, desentendido do jogo. É verdade que cuidou para não atrapalhar. O professor até que o estimulou. Achasse, quem sabe, que o recém-chegado perdia apetite de bola por puro acanhamento. Mas era outra coisa. Uma coisa mais solene, mais remota. Seu andar expressava menos timidez do que desprezo – por nós, pelo jogo, pela escola, por tudo. Vá entender. No fim, os derrotados só reclamaram terem jogado com um homem a menos.
Na hora da saída, no portão, vi que o Bina batia papo com o pipoqueiro. Mas sua figura não quadrava com a dos que compravam. A conversa era de outra ordem. Chegavam carros das mais diversas marcas importadas: Mercedes, BMW, Subaru, Land Rover, alguns com motoristas detrás do vidros fumê. Uma renca de pivetes ia embora na perua do tio. Quando já sobravam poucos, eu vi a figura do Bina se afastando sozinha. Ia mais malandro, mais gingado, como se a cada metro longe da escola ficasse mais dono do mundo e largasse a aura de cu de ferro que o cingia. E de repente, ao dobrar a esquina, sumiu.
Vam’bora, ouvi a voz da minha mãe, saindo de dentro da escola. E fomos embora.
*
Quando me vem a recordação dos regressos para casa na Ipanema da minha mãe, tenho a impressão de que é uma colagem de mil fragmentos, cada qual pertencente a um dos incontáveis dias letivos em que frequentei o Colégio Tiradentes. O semáforo vermelho na esquina da Ernesto Almeida Filho com a Barão de Cajati deve ser imagem de uma tarde de agosto de 2004. Minha mãe, protocolar e amorosa, perguntando como tinha sido a aula de matemática, é talvez lembrança de uma certa quinta-feira do verão de 2000. E o fim do trajeto, com o portão xadrez do prédio abrindo lentamente enquanto os pedestres passam em frente ao carro enfiado na calçada, é na certa a estampa de um atardecer específico e caloroso do ano 2001.
A essa reunião de memórias eu dou o nome precário de recordação. Foi assim, eu digo a mim mesmo, talvez porque não tolere o fato de que, no fim das contas, não tenho como reconstituir sequer uma dessas viagens em sua inteireza. À distância dos anos, resta-me proclamar a unidade de um mosaico – e só.
De vez em quando, porém, penso que na verdade terei apagado da memória todas as vezes em que voltei da escola com minha mãe, exceto uma, que é a que recordo com afinco e à qual atribuo ares de reiteração. Eu pego então esse único dia lembrado, o multiplico e o dissemino ao longo da adolescência. Era assim, eu declaro, como se um único dia pudesse dar conta do que é um hábito, uma época, uma vida.
E o que eu posso fazer se, no fim, a vida é mesmo feita de momentos? Naquele primeiro dia de aula de 2003, quando o semáforo da Barão ficou verde, minha mãe me perguntou se a volta à escola tinha sido boa. Na certa me rodeei de generalidades. Grunhi, menti, depois silenciei. Mas, mais adiante, alguma coisa me incitou à prosa com mamãe. Falei – e, na puberdade, qualquer fala equivale a confissão.
Entrou um moleque novo, eu disse. Não sei por que eu disse isso. Falei por falar. Não havia nada que pudesse contar. Eu tinha tomado parte no bobinho, sim, mas sem ênfase, e com gozo diluído na coletividade. Talvez, da boca pra fora, eu só quisesse tornar a coisa mais trivial. Só que, no que eu mencionei o moleque novo, também veio à tona um interesse pela novidade. Não da minha parte, é claro, mas da minha mãe. E esse moleque novo, disse ela, parece legal?
Não sabia. Pergunta odiosa, de resto. Ele tinha uma coisa muito cheia de si, muito metida. Era disso que eu lembrava, junto com a cena das boladas rebatendo no seu corpo. E isso não correspondia com a minha ideia de simpatia.
Sei lá se ele é legal, mãe, eu falei. Ela disse que eu não precisava ficar bravo. Ora, eu não estava bravo. Só não tinha como saber se ele era gente boa ou não. Mas eu não perguntei se ele era legal, ela disse depois, perguntei se ele parecia legal. Eu não conheço o Bina, eu disse, não sei o que ele parece. E tem vontade de conhecer?, ela disse.
Evidentemente minha mãe não entendia muito de amizades. Ou pelo menos tinha uma ideia delas muito, sei lá, a céu aberto. Se eu queria conhecer o Bina? Não era bem assim que funcionava. A gente simplesmente conhecia, depois pensava a respeito. Ou não pensava. Ou não conhecia. E o que me surpreendeu é que quem parecia conhecer algo dele era a mulher ao meu lado, no volante da Ipanema. Bina… Bina… Bina…, rastreava ela a memória, esse não é o filho da Dona Ana?
Talvez fosse – se eu soubesse quem era Dona Ana. O carro foi reduzindo a velocidade até subir a guia rebaixada e parar, em frente ao portão xadrez do prédio. Não quis dar corda para as conversas da minha mãe. Ana, Bina, moleque, bolada – besteira. Tudo besteira.
Depois o portão foi se abrindo, deslizando devagar, como se a vida preparasse alguma coisa secreta detrás do escuro futuro.
Que nada. Depois do portão era apenas a mesma garagem de sempre.
*
No segundo dia de aula, eu entrei na sala e ele estava lá. Sozinho – não por solidão, mas porque ninguém tinha mesmo chegado. Até aquele dia esse momento era meu exclusivo. Eu chegava mais cedo que todo mundo porque minha mãe tinha que entrar no Tiradentes antes dos alunos. A gente se despedia no pátio de entrada e ela ia em direção à biblioteca, enquanto eu largava minhas coisas numa carteira encostada na parede da sala e ficava perambulando por meia hora, até que os colegas fossem chegando, um a um. Quando eu vi o Bina na sala, não sei bem como, eu soube que dali em diante isso seria diferente. Bina tinha se encostado ali na região onde eu costumava sentar. Quando entrei, não disse nada. Nem desdisse: ficou olhando, apenas, não sabia se para mim ou para o nada. Eu não podia, para mim mesmo, ir sentar do outro lado da sala. Então apenas fui. E quando cheguei perto dele, aquela presença ali, parada, me obrigou a um cumprimento. E aí, beleza?, eu falei, e ofereci a mão.
Nisso produziu-se uma grande confusão. Era costume entre a gente, na saudação, dar um tapa e depois um soco. Acho que ninguém tinha informado o Bina a respeito disso. Ele tentou apertar minha mão, como faziam os mais velhos, mas eu já tinha recuado o braço para dar o protocolar soco de arremate. Ficamos enganchados um ao outro, eu puxando o braço para trás e o Bina querendo balançar minha mão. Isso deve ter durado menos de dois segundos, mas se estendeu num mar de constrangimento, que só cabia transbordar no riso. Não sei quem riu primeiro. Ele, eu acho. Do rosto de Bina lembro de um sorriso com a metade esquerda da boca, sem mostrar dentes, contido, sincero. Parecia que ele, sem que eu pedisse, me oferecia alguma coisa, e eu aceitava. Mas não era coisa de se falar. Tanto é que em seguida eu fui embora da sala, fiquei vagando no pátio, e quando entrei de volta na sala já havia um monte de gente, com quem fiquei conversando até o começo da aula. E não nos olhamos mais aquele dia.
Durante os dias seguintes a cena se repetiu, com pequenas variações e uma progressão gradual daquilo que, com algum esforço, poderia chamar de intimidade. Achei que Bina logo incorporaria o cumprimento usual na escola. Nada disso: cada vez que eu entrava na sala de aula e lhe estendia o braço, ele continha minha mão com a força inesperada da sua, determinado a impedir o onipresente tapa-e-soquinho. Nos primeiros dias eu resisti. Tentei impor a saudação ao novato, sob a justificativa de que quem deveria se adaptar era ele. Depois, frente a sua tenacidade silenciosa, da qual ele talvez nem se desse conta, cedi.
Achei que isso seria um problema, por sinal bastante difícil de explicar, se acaso os demais nos vissem nos cumprimentando desse modo ultrapassado. Mas isso não tinha como acontecer. É que toda a primeira etapa da nossa amizade se restringiu a cerca de vinte minutos diários, entre minha entrada na sala e os primeiros indícios de que os demais colegas estariam chegando, durante os quais eu e Bina conversávamos, sentados quase sempre nas mesmas carteiras. Foi ali que eu lhe contei que chegava mais cedo porque vinha com minha mãe, que era bibliotecária no Tiradentes. Foi ali que o emprego da minha mãe explicou a minha condição de bolsista. Foi ali, por fim, que ele deu a entender não só que também era bolsista, mas também que me superava, invertendo a hierarquia invisível na qual, até então, eu me julgava o último colocado: era bolsista integral. Depois, quando o burburinho lá fora anunciava a turma, eu inventava uma sede, uma vontade de mijar, um calor qualquer, e saía da sala antes que me vissem de papo com o Bina.
Durante o dia eu agia como se não o conhecesse, transitando na massa média da sociabilidade escolar. Isso poderia ser algum tipo de crueldade da minha parte. Sim – caso o Bina não me tratasse exatamente da mesma maneira. É verdade que ele tratava todo mundo como se não conhecesse. Ou mais: como se sequer existissem. Mas eu, bem, eu sabia que ele considerava minha existência, e talvez até mesmo o fato de me ignorar durante o dia era prova disso. No fundo eu achava uma generosidade da sua parte não divulgar por aí que mantinha comigo uma espécie, ainda que particular, de amizade. E também, não posso negar, algum tipo de prazer eu obtinha em cultivar, no meio de uma turma tão ruidosa e eventualmente hostil, uma amizade secreta com o novato Bina.
De que, exatamente, eu me incriminaria se os Andrés, os Ricardos, as Júlias e as Janaínas ficassem sabendo que eu me tornava amigo do Bina? Talvez ninguém contestasse se logo de cara eu assumisse isso. Mas, passado um tempo, por sinal curtíssimo, justamente o aspecto sigiloso da coisa se tornou o problema. O único problema, na verdade – ou pelo menos o único com uma forma mais ou menos definida. Depois do acontecido na primeira aula de educação física, ninguém nunca mais destratou o Bina. O episódio, assim isolado, tomou ares de rito de passagem. É verdade que logo depois disso, e sem causalidade aparente, a coordenadora Marli, mulher de seus 45 anos, sempre elegante e dona das palavras, passou por cada uma das salas nos recordando do acolhedor programa de bolsas que o Tiradentes oferecia a estudantes de desempenho exemplar e familiares de funcionários. Na nossa sala, fez questão de pedir a todos uma boa recepção ao novo bolsista da classe, filho de uma querida colaboradora da área de organização e higiene predial. Algumas cabeças se viraram em direção ao Bina quando ela o apontou com um brevíssimo gesto de braço, com a palma voltada para cima, talvez nem mesmo lhe dirigindo o olhar, para não expor o menino em demasia. E, depois disso, ninguém mais mexeu com o Bina.
Seria preferível, contudo, que alguém mexesse um pouquinho? É verdade que o Bina não colaborava. Ao longo dos meses ficou claro que da parte dele não haveria nenhum esforço para se integrar de uma maneira mais amistosa. Sequer havia uma ignorância ostensiva por parte da turma, o que seria, talvez, uma justificativa maior para seu esnobismo. Se um lápis caía perto de sua carteira, ninguém se privava de pedir que ele o recolhesse, nem deixava de agradecer quando o devolvia. Quando éramos obrigados a formar grupos, alguma menina convidava o Bina para fazer parte. Ele aceitava sem qualquer entusiasmo, mas também sem resistência, como se não tivesse alternativa, um pouco dando a entender que, no fim, a menina fazia o convite por compromisso sei lá com o que: valores, moral, culpa, pena, cordialidade. E o pior é que talvez ele tivesse razão.
Não era de se espantar, nesse cenário, que o Bina não colocasse a perder a única chance de amizade que existia ali, mesmo que ela fosse restrita a vinte minutos diários. Um pouco de mim era tudo o que ele tinha. Por outro lado, se ele se importava tão pouco com a opinião e a companhia dos outros, poderia dispensar a minha presença sem nenhum prejuízo para si. Mas não dispensava. Isso significava algo. Cada manhã que eu chegava ele me dedicava um tanto de si que, por ser tão exíguo na oferta ao mundo, ainda que pouco se recobrava de grande valor. A intransigência no cumprimento de mão era quase um presente. O sorriso, meio sorriso que fosse, sem dentes à mostra, era quase uma dádiva, vindo de alguém tão seletivo. E o que ele dizia, bom, nem sempre eu entendia, mas dava na cara que ele era uma pessoa de inteligência acima da média. E ao sugerir que eu tinha condições de entendê-lo, simplesmente me dirigindo a palavra, elogiava-me também, de rebote.
O que ele dizia, eu lembro, era de uma inteligência raivosa. Há quem fique burro por conta do ódio. No caso do Bina era o contrário. O programa de bolsas do Tiradentes, por exemplo, só existia porque a Madame Marli tinha cagaço de que roubassem a bolsa dela. E bancar estudo de filho de faxineira era só pra ficar bem na fita antes de demitirem todo mundo e meterem uma terceirizada. Talvez fosse paranoia, ingratidão. Mas o Bina ia daí pra cima e pra baixo, costurando histórias da quebrada dele lá de Campinas, de onde tinha vindo, com a marca do tênis do Ricardo, o couro do Audi preto do pai do André, os deputados, os juízes, os F-14 da Força Aérea Americana e o escambau. O Bina, não sei por quais meios, parecia conhecer o mundo – e, do mundo, não sobrava pra ninguém.
Não deveria sobrar pra mim também. Talvez sobre mim ele fizesse vista grossa, não sei. Ou quem sabe, menos provável, se iludisse sobre minha condição. Sei que nisso eu o trazia para perto. Amenizava. Falava de futebol, videogame, mulher gostosa. E comecei a levá-lo pra casa.
*
Fiz a maior propaganda do Winning Eleven para o Bina. Batata: no primeiro dia em que ele foi pra minha casa a gente passou a tarde inteira vidrado na frente da televisão. Como eu não tinha irmãos, até então só jogava contra a máquina. Vez ou outra algum amigo tinha ido em casa para jogar, mas nunca houve continuidade na disputa. Já entre eu o Bina, em poucas semanas a jogatina se transformou numa religião.
Ele tinha vocação para a rivalidade, no melhor e no pior sentido. Sem nunca ter jogado antes, logo foi pegando a manha e se igualando a mim. Mas a verdade é que nunca chegou a me superar. Ganhava algumas partidas, mas minha supremacia se mantinha. Isso o irritava. Como o videogame era meu e ele sempre estava lá na condição de convidado, sua irritação nunca alcançava a ofensa declarada. Quando muito, dava bandeira em algumas falas. Cê é muito noia, ele dizia. Viciado pra caralho, hein, resmungava, com uma risada irônica, quase cínica, como se a compulsão atenuasse o mérito da minha vitória. Insinuava também que a sorte pendia para o meu lado. O mais longe que ele podia ir nessas alfinetadas era dando entender que eu só jogava melhor porque tinha o game em casa. Jogando o bagulho o dia inteiro, ele falava, até eu. Aludia a uns conluios impossíveis. Nas disputas de bola, parecia que o videogame facilitava pra mim, que era o dono. Vou pedir pra Dona Ana me arrumar um Playstation, ele falava, quero ver o sacode que ela me dá.
A gente também jogava no cooperativo, nós dois contra a máquina. Era Copa do Mundo, Champions League, Campeonato Brasileiro. Mais tarde, numa versão que o Bina arrumou na 25 de Março, a gente fazia uma mistureba desses campeonatos, cortesia utópica que só o bom e velho piratão concedia. Nessa versão, que era a que a gente mais jogava, o Bina teimava em que a gente jogasse com a Ponte Preta, que era o time dele lá em Campinas. Em São Paulo ele tinha inclinações naturais pelo Corinthians, mas o coração batia forte mesmo pela Ponte. Eu achava engraçado, mas tinha algo de emocionante ver o time de Campinas, que nunca ganhava campeonato algum, no alto da tabela sob o nosso comando compartilhado. Era nós contra os grandes, e nisso a bronca do Bina ficava amenizada e havia espaço para outras coisas.
O Winning Eleven era japonês. A gente achava a coisa mais realista do mundo. Muito perfeito esse jogo, era assim que a gente falava. Mas sentíamos falta da narração em português. Sem a voz que contava os lances, o jogo acontecia – mas acontecia menos. O que inventamos de fazer foi desativar a opção de narração e ficar só com o som da torcida. O som cru da massa virtual, sem o japonês narrador, me lembrou a primeira vez que eu vi um jogo no estádio. Era aí que eu entrava. Com o joystick na mão, eu e o Bina de parceiros, era Ponte Preta contra Real Madrid, Ponte Preta contra Milan, Ponte Preta contra Brasil de 70. E eu narrando. Narrava sem parar, horas a fio. E o Bina reforçava aquilo, que de repente se tornou um pré-requisito da diversão. Se eu parasse durante um minuto ele dava umas olhadinhas de lado, cobrando-me a palavra. Eu logo retomava, e nisso fui aprimorando as expressões. Citava bordões do Galvão, do Silvério, do Silvio Luiz. Aprendi a prolongar a vogal do gol e fazê-lo, assim, mais belo, mais gol. E às vezes, tanta era a atenção que eu dedicava ao relato que até me esquecia do principal, que era jogar.
Depois de um tempo, porém, alguma coisa já não satisfazia. Não do jogo, que ainda teria vida longa entre a gente, mas da minha técnica narrativa. Por mais que eu me aprimorasse na imitação dos timbres, na malandragem prosódica futebolística, algo se mantinha sempre diferente daquilo que eu encontrava nos narradores da televisão. Ao contrário da realidade, no nosso jogo tudo parecia estar sempre no topo da tensão, na iminência do gol. Minha narração tinha que responder a isso que o game nos impunha. Mas eu queria mesmo era que a narração fosse realista. Então tive a ideia de mudar a duração dos jogos. Em vez de cinco minutos cada tempo, como era o normal do joguinho, mudei para 45 minutos. Jogo real, eu queria.
Não vai dar certo, o Bina cantou a bola. E não deu outra. A primeira partida que fizemos nesses moldes, e provavelmente a única, ia já pelo placar de 14 x 9 quando percebi o problema. O Bina só achou graça. Mano, ele dizia, o videogame é muito mais rápido. Os caras fazem de um jeito para que saia tipo 2 x 1, 3 x 2, 2 x 0, tudo isso em dez minutos de jogo. E em dez minutos de jogo de verdade tá quase sempre 0 x 0, sacou?
Sim, eu sacava. Não sacava como, ainda assim, o jogo era tão perfeito. O que havia de diferente? O que era de fato mais rápido? De qualquer forma, nessa ida e vinda eu dei um passo a mais na narração. Voltamos ao jogo de cinco minutos cada tempo, e eu aprendi a enrolar. Aprendi a preencher o tempo com silêncios, volteios, anúncios de verniz automotivo e perguntas ao repórter de campo, que eu mesmo respondia com voz anasalada. E para isso tinha que ignorar lances dos mais perigosos. Que se dane. Deixava rolar. Narrar, no fundo, era menos contar lance por lance do que flutuar num presente cheio de vazios e oscilações. Só precisava estar sempre alerta para agarrar-me à sucessão vertiginosa do jogo quando ele se precipitasse em direção à pequena área.
Às vezes passava da hora e o Bina era obrigado a dormir lá em casa. Quer dizer, ele meio que me obrigava a recebê-lo. Isso, por sinal, fazia a alegria dos meus pais. Lembro que desde a primeira noite o adoraram. Minha mãe foi logo anunciando ao meu pai que ele era filho da Dona Ana, faxineira da escola. Lá em casa isso teve o efeito de anunciar uma ascendência principesca. Eu tive receio de que o Bina ficasse incomodado de ter sua origem assim devassada. Achei que ele pudesse agir com meus pais como agia com os colegas da escola. Mas esse temor não durou nem um minuto. Ele foi logo falando. Meus pais não cabiam em si de tanta indiscrição. Começaram aos poucos. Perguntaram como ele tinha conseguido a bolsa no Tiradentes. O Bina falou que tinha feito prova na escola por três anos, desde que a Dona Ana trabalhava lá, mas que só no último ano tinha passado. Meu pai já exibiu indignação, falando que o mínimo que a escola devia fazer era dar a bolsa logo de cara. Era integral?, ele quis saber. Sim, era integral. Pelo menos isso, falou meu pai. Depois foi avançando. Queria saber de onde ele era. Queria saber como era a favela em que ele tinha crescido. Queria saber se ele não achava ruim ser filho da faxineira no meio de tanta gente rica. E o Bina foi respondendo com a maior naturalidade. Parecia uma celebridade que respondia a uma entrevista pro Jô, pra Hebe Camargo. Parecia que tinha se preparado para aquilo durante toda a vida, sei lá. De onde vinha, naquele garoto até então discreto, quase invisível, essa fome por holofotes?
Durante uma noite a conversa tomou outros rumos. Mas talvez não fossem exatamente outros rumos, apenas uma derivação das conversas anteriores. O assunto deve ter começado com algum escândalo dos jornais. Depois se enveredou para as questões eleitorais. Meu pai começou a explicar como uma coisa tinha a ver com a outra, e que tudo tinha a ver com os banqueiros. Daí fomos parar na Revolução Francesa, nos jacobinos, nas cabeças dos reis rolando guilhotina abaixo. Meu pai se empolgou, pegou uma garrafa de uísque na cômoda da sala e foi percorrendo a História. Falou da Guerra Civil Espanhola. Falou de Maio de 68. Jogava um Zapata aqui, um Che Guevara ali, um Fidel Castro. Daqui a pouco passava por Lênin, Trotsky, Malcolm X, Panteras Negras, Marighella, e por aí vai.
Quando olhei para o Bina, que já tinha aceitado duas doses de uísque que meu pai ofereceu sob protestos da minha mãe, ele estava fascinado. O Bina nunca se deixava arrebatar pelas coisas. Mas naquela noite tinha uma expressão que nunca vi se repetir, e que na certa nunca mais verei estampar o seu rosto. Era o semblante de quem recebia uma revelação, uma designação espiritual. Parecia que toda aquela raiva que ele guardava contida em si encontrava um propósito no palavreado do meu pai. Mas aquilo não o deixava inabalável como sempre, pelo contrário: quanto mais ele se encantava pelo destino revolucionário daquelas figuras, mais alguma coisa de extremamente delicado e frágil se entrevia no aspecto do Bina. À medida que meu amigo se descobria, algo nele se encobria também, como se fosse um preço a pagar pelo conhecimento das coisas.
Acho que, como eu já conhecia a tagarelice do meu pai, não entendia como alguém podia ficar deslumbrado por aquilo. E ainda mais o Bina, que eu julgava tão inteligente. O problema era eu, incapaz de captar o valor da palestrinha? Não sei. Sei, sim, que de vez em quando eu queria perguntar pro meu pai por que é que ele não ia logo pegar nas armas, em vez de ficar papagueando socialismos. Mas não falei nada. Também não queria cortar o barato de ninguém. E, no fundo, o fato de servir de intermediário entre o Bina e algo que ele parecia julgar de enorme valor me enchia de orgulho. Por conta de mim ele tocava uma coisa que talvez permanecesse para sempre longe de suas mãos, e isso me restituía alguma barganha sobre meu amigo – no mais, amplamente autossuficiente.
Mas cá entre nós, disse meu pai, aterrisando: o maior de todos esses caras só podia estar onde? Onde, me fala!, e me cutucava com o cotovelo. Depois abriu os braços e deu um enorme sorriso: no Timão, é claro. É ou não é? No Curíntia, caralho. Tô falando do Doutor Sócrates. Esse cara era foda. Fo-da. A Democracia Corinthiana, puta que o pariu, hein? De tirar o chapéu.
Aí eu me levantei da mesa, deixei o Bina com meu pai e fui escovar os dentes. E quando fechei a porta do quarto para dormir, exausto, o papo já tinha chegado em Muhammad Ali.
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Um dia a coisa se inverteu e eu finalmente fui para a casa do Bina. Ficamos esperando até o fim do expediente da Dona Ana e entramos na Kombi do Seu Osmar, o pipoqueiro que estava sempre na saída do Tiradentes. Aí eu fiquei sabendo que ele era compadre da Dona Ana. Tinha inclusive, pelo que entendi, arrumado o emprego para ela na escola, três anos antes. Ela e o Bina ainda moravam em Campinas nessa época, e o Osmar foi quem conseguiu casa para eles virem para São Paulo, lá na Zona Sul, perto dele. Fez uma arrumação para conseguir a mobília que faltava e tudo o mais. Fiquei ouvindo essa história da boca da Dona Ana, que ia com o pescoço virado para trás, no banco da frente, ao lado do Osmar, que ouvia o relato enfiado num silêncio orgulhoso.
Fiquei imaginando que espécie de compadrice tão dedicada era essa. Do pai do Bina nunca tinha ouvido um A. Nem um B, nem um C. Pelos meus cálculos ele devia ter se escafedido depois que deixou a Dona Ana grávida. E para falar a verdade, quando eu ouvia o título de Dona antes do nome da mãe do Bina, eu bem que imaginava uma senhorinha já entrada em anos, ou pelo menos uma mulher de seus quarenta e cinco ou cinquenta, que nem a minha mãe, que nem a coordenadora Marli. Como a escola era grande e tinha muitos funcionários, eu não tinha ligado o nome à pessoa. Mas a pessoa que ia no banco da frente da Kombi, com um sorriso bonito, uma blusa de alcinha que deixava os ombros à mostra, narrando com erres puxados as reviravoltas da vida na periferia de São Paulo, devia ter ficado grávida do Bina por volta dos dezesseis, dezessete. Quer dizer, tinha pelo menos quinze anos a menos que o Seu Osmar, que já ostentava um bigode pra lá de grisalho.
A mãe do Bina me pareceu tão simpática que eu almejei uma aliança com ela para provocar o meu amigo. Como é que você deixa, eu falei, um filho inteligente como o seu ser pontepretano?
O Bina só deu uma risadinha e olhou pela janela. Aí eu levei um chapéu. Ih, moleque, te orienta, ela falou. Ele aprendeu a gostar da Macaca foi comigo. Ô meu amor, largamos esse playboy aqui na marginal mesmo? Vivo ou morto? Encosta aí, Osmar, vamô ver se ele é grandão mesmo.
Grande eu não era. Mas naquela viagem na Kombi eu senti crescer um negócio aqui no peito, sei lá. Mistura de frio na barriga e euforia, velocidade e cagaço, tudo misturado no zigue-zague que o Seu Osmar ia fazendo com o carro, no lusco-fusco da cidade.
De repente o Bina falou: Osmar, põe aquele meu CD lá. Qual? Aquele novo lá, cê sabe. Disco dois, faixa quatro.
As palavras da música foram vindo, foram vindo. No começo nem música era, era mais um poema mesmo, só a voz. Depois entrou a base. Porra, vagabundo, vou te falar, dizia a música. E foi falando. Eu fui achando que era um papo de um cara meio com ele mesmo. Em seguida saquei que era uma conversa no telefone. A voz do lado de lá contava que não sei quem tinha falado mal do outro, e sei lá o que mais. Sei que falavam de uma coisa que eu não tinha muito por onde agarrar. Um negócio qualquer na música, na Kombi, naquele grupo improvável onde eu tinha me metido, parecia mais inteiro, mais verdade. Mas essa verdade não era minha. Era do mundo do Bina, e disso eu podia pegar só uma beiradinha, talvez.
E de repente a Dona Ana virou pro filho e falou, junto com a música: Bina, acorda, pensa no futuro, que isso é ilusão, os próprio preto não tá nem aí com isso não. O resto ela não lembrava, e ficou dando risada, até que o Bina emendou: Pô mãe não fala assim que eu nem durmo. E logo em seguida: Dinheiro é bom, quero sim, se essa é a pergunta, mas a Dona Ana fez de mim um homem e não uma puta!
Olha essa boca, menino!, ela brincava. Como é que vai falar assim no Colégio Tiradentes?, e fazia bico de dondoca.
Chegamos na casa já era de noite. O Osmar foi para a casa dele e ficamos os três zapeando qualquer coisa na tevê, enquanto ela esquentava um arroz com feijão. Comemos ao sabor da Grande Família, e antes de terminar o Bina tinha ido dormir. Fiquei ali com a mãe do meu amigo, até que o seriado acabou. Ela entrou no quarto e eu fiquei me perguntando onde é que eu ia dormir. De repente ouvi que ela me chamava para dentro do quarto.
Fui entrando na ponta dos pés. Ela estava de costas, na penumbra. Mexia em alguma coisa que eu não conseguia enxergar. De repente se virou e jogou pra cima de mim um lençol e uma mantinha, dobrados. Eu devo ter ficado parado, porque ela em seguida falou: dá aqui, deixa eu te ajudar.
Aí ela estendeu o lençol no sofá da sala e falou que eu podia deitar. Eu obedeci. Achei que já ia embora quando ela parou do meu lado e começou a contar uma história. Por um momento pensei que a Dona Ana estivesse me ninando, contando uma fábula para eu dormir. Ela começou a falar da Macaca. Você sabe por que a Ponte Preta nunca ganhou nenhum campeonato?, ela perguntou. E foi me contando que a Ponte Preta era o clube de futebol mais antigo do Brasil. Não sei se era verdade. Mas isso queria dizer que havia um sutil equilíbrio no mundo do futebol que dependia totalmente da Ponte Preta. E você sabe que o mundo inteiro depende do futebol, não sabe?, ela falou. A Ponte Preta era o time mais antigo, do país mais vitorioso do futebol. E era um time que nunca ganhava nada. Aí morava o segredo: no dia em que a Ponte for campeã, todo o futebol do mundo virá abaixo. E você sabe o que pode acontecer, se todo o futebol do mundo vier abaixo?
Depois ela me deu um beijinho na testa, desligou a luz e entrou no quarto. E eu dormi.
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Você já sonhou em ser jogador?, eu perguntei um dia ao Bina. Ele não me respondeu. Ficou com a cara virada para a tela, a boca entreaberta, enquanto manipulava o joystick. Ser jogador de futebol, eu insisti, já sonhou?
O quê?, ele disse. Que sonhar o que, rapaz. Eu já sou jogador, já sou craque pra caralho. Jogo muita bola, você que não tá sabendo. Olha lá.
Eu olhei para a tela e o bonequinho do Winning Eleven tinha um nome nas costas da camiseta branca e preta: Bina. Camisa 10, é claro. E canhoto.
Não parecia nem um pouco com ele. Pra começar, o joguinho não deixava fazer jogador de óculos. Também, na escolha da pele, saltava do branquelo ao retinto sem passar pela graduação intermediária que coloria o Bina. Mas o que importava? O que valia lá era menos a semelhança do que a crença de que aquilo ali, geométrico, simplificado, era ele: Bina, camisa 10 da Ponte Preta.
Só mesmo no game. Na educação física ele permanecia igualzinho: inerte, desinteressado. Em nenhuma partida durante o recreio ele sequer fez menção de jogar. Não se envolvia. E não se envolveu com nada da festa junina que estava sendo organizada na escola. O meio do ano já tinha chegado. Durante a semana cada um tinha que participar de alguma coisa: montagem das barracas, ensaio de quadrilha, fogueira, bandeirinhas, prendas, comes e bebes, a coisa toda. A escola era enorme, ocupava o quarteirão inteiro. Dava um trabalho do cão. Nisso, até o Seu Osmar foi convocado para trabalhar, fazer uma grana extra. E foi aí que a coisa azedou.
O caso foi chegando a mim assim, devagar. Como o Bina dizia, no diz que me diz. No telefone sem fio. Primeiro ouvi falar de um celular que tinha sumido. Depois não era mais celular, mas um Game Boy novinho em folha, de um nerd do terceiro ano. Mais adiante era o Game Boy mais o celular, que daqui a pouco já tinha virado três ou quatro. Motorola, Nokia, Samsung, sei lá eu. Como é que some assim, do nada? Durante o recreio as salas ficavam trancadas, justamente para não ter problema. E os itens roubados eram todos da mesma sala. E quem é que tinha certeza de que tinha sido roubo? Vai ver essa molecada toda saiu com o celular para o recreio e perdeu as coisas. Vacilo. Vacilo grande. Mas como é que todo mundo perdia o celular junto, no mesmo dia, ninguém explicava.
Aí foram rastrear. Puxaram câmera, que a escola toda era vigiada. Mas não era toda todinha, porque pelo visto ali na sala do ocorrido tinha um ponto cego. Quem fez a rapa já devia saber disso. Então não era coisa de moleque. Até porque, diziam, os alunos do colégio eram todos de família. Que necessidade tinham de roubar celular? Devia ser coisa de gente entendida. Coisa de gente grande. E foram puxando quem é que era de fora. Naquela semana, um monte de gente de fora tinha entrado. Carregador, os caras com as ferragens das barracas, os caras do som, com um monte de cabo e alto-falante possante. Mas ninguém conhecia a escola, e não ficavam muito tempo. Tinha que ser alguém habituado com a zona.
Não lembro bem quando ouvi o nome do Seu Osmar pela primeira vez. Mas daqui a pouco o nome foi ficando mais frequente, mais pronunciado. Seu Osmar, o pipoqueiro? Pois é. Estava fazendo um extra na montagem da festa junina. Sempre achei que era para desconfiar dele, ouvi dizerem. E daqui a pouco disseram também que ele foi parar na sala do diretor, com a Marli e não sei mais quem. Que não era para gerar alarde, não iam chamar a polícia, causar o maior rebuliço. Mas se tinha sido ele, como é que tinha entrado na sala? Seu Osmar não tinha as chaves. Quem tinha acesso às chaves eram os professores, os bedéis, os seguranças. E as faxineiras.
Acho que foi na quinta-feira que eu fiquei sabendo que a Dona Ana tinha sido mandada embora. Juntaram os pontos. Ele tinha indicado ela para trabalhar lá. Sempre viam os dois indo embora juntos, na Kombi do bigodudo. Só podia ser. Mas não era, eu tinha certeza.
Mano, você acha que o Osmar ia meter o louco pra pegar meia dúzia de telefone de boy?, o Bina me falava. Cê é louco. Lá na quebrada ele conhece uma pá de ladrão de carro, uma pá de mano grande do movimento. Uma pá de polícia também, que ele é ligeiro. Os caras são muito cuzão, isso é que é. Escola do caralho, vai se fuder.
A gente saiu junto da aula na sexta-feira. Ele ia no caminho chutando tudo no caminho. Meio de relance, eu vi que ele estava com os olhos marejados. Mas vai ver foi só impressão, a deformação da luz pelas lentes dos óculos. Na quinta-feira ele não foi à escola. A Marli tinha chamado ele pra conversar. Explicou que a diretoria pensou muito no caso e decidiram que o melhor a fazer era manter o Bina na escola. Com bolsa e tudo.
Eu não falei? Eu falei, não falei?, o Bina dizia. Paga a escola pro filho da faxineira e depois manda ela embora. O bagulho é assim mesmo, ó. E a puta da Marli ainda vem de conversa fiada pra cima de mim, que meu futuro é diferente, que a faculdade é isso, que o cu dela é aquilo e o caralho.
Não sei como ele ainda teve pique para ir na festa junina. Falou pra mim que queria dar as caras lá e ver a cara de cagaço dos moleques. E foi. E eu fui junto.
Eu compartilhava a raiva do Bina. Achei aquilo uma injustiça enorme. Mas não sei bem porque o episódio me dava uma sensação de importância. Eu tinha andado no carro do Osmar, tinha dormido no sofá da Dona Ana. Talvez por isso perambulei pela festa sempre na companhia do meu amigo bolsista, vendo como olhavam ele de rabo de olho, estudando. A gente levou na mochila uma garrafa de Balalaika pela metade que fomos tomando na boínha, mocozado. O colégio era grande. O Bina foi chapando. Eu também. Eu tinha levado dinheiro e a gente jogou no tiro ao alvo, na pescaria, mandamos correio elegante pra deus e o mundo, com piroca desenhada. Eu entrei na dele. Não levamos nenhuma prenda. E uma hora, pra matar o goró, a gente foi se afastando pelo campo de futebol. Lá não tinha ninguém. Só uma luz bem fraquinha, meio avermelhada, tremeluzente, iluminava uma barraca diferente, isolada de todo o resto. A gente foi chegando perto e viu que era uma espécie de tenda. Não tinha ninguém por perto. Entramos.
Lá dentro a iluminação era ainda mais soturna, sustentada apenas por duas velas, uma sobre um painel com texto e outra, ao fundo, em cima de uma espécie de bacia de metal que fazia as vezes de poço. A bacia ficava isolada por uns arames que não deixavam que a gente chegasse muito perto. Eu me inclinei lentamente em direção ao painel para ler o texto. Acerte uma moeda dentro do poço, dizia o painel, e seu desejo será realizado.
Que viagem, eu falei, dando risada. Mas o Bina estava sério. Tem moeda aí?, ele me disse. Eu meti a mão no bolso direito e tateei um pedacinho redondo de metal. Abri a palma e era uma moeda de dez centavos. Só tem essa?, ele quis saber. Aí eu pus a mão no bolso esquerdo e tirei uma outra moeda de dez, igualzinha. Era só isso: uma chance para cada.
Bora?, ele falou. Bora. Quem vai primeiro? Fui eu. Não pensei duas vezes, achando a maior brisa louca naquele negócio: quero ser narrador, eu falei, e joguei a minha moeda.
A moeda foi rodopiando lento, lentíssimo, descrevendo um arco sublime no ar avermelhado da tenda, até começar a descer na direção perfeita do poço. Ou quase perfeita. Plim, fez a moedinha, bem na borda da bacia, repicando duas vezes antes de ir parar no chão, do lado de fora. Ainda rodopiou durante uns vinte segundos antes de se estatelar, que nem um corpo morto.
É… Já era o meu sonho, eu falei, e caí na gargalhada. Depois olhei pro Bina. Parecia que toda a bebida tinha evaporado dele. Ele tirou os óculos, fechou os olhos por uns cinco segundos. Depois abriu. Eu olhei a moedinha apoiada no indicador, com a unha do polegar pronta para dar o tiro certeiro.
Então ele falou: eu quero ser o maior do mundo.
O maior revolucionário do mundo.
E jogou a moeda.
Capítulo 3
Hoje de manhã eu ouvi a água escorrer de uma torneira. Em seguida era um riachinho, uma cachoeira, com som de harpa élfica ao fundo. Uma, duas, três vezes. Eu tinha que abrir essa torneira para sair de onde estava. Quatro vezes, cinco. Mas se eu tinha que abrir, como é que já ouvia o som de água? Por sinal, era bom que eu me decidisse logo, senão me mijava ali mesmo. Então fui indo, tateando, deslizando a mão pela mesa de cabeceira, querendo achar a tal da torneira, que de repente virou uma porta. Lá do fundo, liso, toquei o que achei ser a maçaneta, mas era o aparelho – e tudo, harpa, elfo, cachoeira, riozinho, sumiu no silêncio. E quando achei que a porta ia se abrir, abri os olhos.
07:10, dizia a tela.
Até que tudo bem, para minhas pretensões de ontem à noite. Toquei no ícone do Whatsapp e li em seguida uma mensagem dela, com ares proféticos: vc vai vim aqui amanhã de manhã. Embaixo, pequenininho, o horário de envio: 02:14. Às 02:15, outra mensagem: amanhã domingo.
Hoje domingo, ela quis dizer. Hoje já é amanhã, me veio a frase clássica da boemia à cabeça. Mas acho que dessa vez, para ela, era o contrário: amanhã era hoje. Sei lá. Levantei. Fui andando pelo apartamento arrastando as barras dos pijamas. Evitei os interruptores e segui na penumbra.
Em frente ao vaso, enquanto dava vazão à cachoeirinha, fiquei pensando que o ar da mensagem não era bem profético: era autoritário. Vc vai vim aqui amanhã de manhã, ela escreveu. E para falar a verdade, não era ruim obedecer assim.
Tirei a roupa e entrei no box. Tomei alguma distância da ducha e abri a torneira, cuidando para não receber de cara o jato de água fria. Fiquei brincando com o fluxo de água tombando nas palmas das mãos, sentindo a temperatura mudar gradualmente e o ambiente aos poucos ser preenchido por uma massa leitosa de vapor. Enfiei a cabeça na água de olhos fechados. De vez em quando, de relance, eu espiava a realidade do banheiro na penumbra atravessada pelas linhas de água. E assim fui me lavando. Derramei na palma esquerda uma porção gorda de xampu com perfume de lavanda. Espalhei a substância cremosa pelos meus cabelos, massageando, sentindo o volume da espuma se multiplicar sob meus movimentos. Depois enfiei a cabeça de volta na água e ouvi o flop flop dos pedaços de espuma caindo no chão de azulejos. Esfreguei o sabonete de glicerina nos sovacos, nos pelos púbicos. Cobri meu corpo todo de uma fina camada de espuma, que depois vi se dissolver sob o fluxo vertical da água e tomar, lá embaixo, no ralo, um destino misterioso na forma esbranquiçada de um espiral.
Me sequei cuidadosamente e olhei meu contorno borrado no espelho da pia. Esfreguei a mão na superfície lisa para limpar a água condensada e conferir alguma coisa no reflexo. Nada de extraordinário: eu, ali, meus trinta e tantos anos, e uma ressaca ligeiramente fora de foco. Terminei de me secar no quarto, vesti uma roupa confortável: camisa de flanela com manga comprida, calça de lã mais ou menos folgada, que ajustei com um cinto de couro, e, para completar, tênis esportivos sobre umas meias novas, grossas, amarelo ovo.
Fui para a cozinha e deixei a água esquentar enquanto fuçava a geladeira. Achei um quarto de melão comprado na véspera. Cortei uma fatia generosa, separei a polpa com uma faca e piquei a porção sobre uma cumbuca, umedecendo minhas mãos com o suco doce que escorria. Preparei um pão francês cortado ao meio, na chapa, com manteiga abundante.
Quando a água estava a ponto de ferver, peguei o bule de ágata, já um pouco carcomido, e fui despejando lentamente o líquido sobre o filtro com o pó escuro do café. Logo que vi o sol que entrava pela janela, incidindo lateralmente no trio formado por bule, funil e térmica, todos envolvidos por um conjunto de vapores que desapareciam nem bem excediam o feixe de luz, pensei: é outono. Outono, como todos os anos e no entanto sempre novo. Esse efeito de luz enviesada sobre o vapor, que se faz mais visível no frio, é coisa que aprecio nessa mesma cozinha desde muito tempo, e ainda assim sempre me surpreendo cada vez que ele chega, anunciando a passagem dos dias. Onde eu andava com a cabeça, que não o vi chegar? Cada vez que ele revém, revém também a memória da sua última visita, na chegada do outono passado. Uma chegada de estação sempre me traz uma pitada de saudades da sua chegada passada. Mas se também no outono passado eu senti saudades quase idênticas, não sei bem do que é que sinto saudades – se é que saudades são.
Não vi o outono chegar porque andei meio longe de mim nos últimos meses. A prova é a meia dúzia de long necks que estorvavam meu café da manhã. Quando tudo ficou pronto apenas agrupei as garrafinhas em um canto da mesa e dispus prato, xícara fumegante e cumbuca em frente à cadeira, ao lado do notebook. Pensei em espiar o que andei trabalhando ontem, mas desisti da ideia. As tampinhas de cerveja ainda estavam na minha frente. Depois de um gole de café, arrisquei uma tampinha. Pimba: golaço.
Olhei o celular para rever o que ela queria saber. Vc vai vim aqui amanhã de manhã. Duas da matina, ela me escreveu. Vou hj sim, respondi. Lá pelas dez estou aí, completei.
Joguei mais uma tampinha. Bateu no aro da lixeira e foi para fora.
Eu também devia maneirar comigo mesmo. Fazia mais de uma semana que era só chuva. Antes que as nuvens chegassem e impusessem sobre a cidade uma garoinha fina, infinita, o final do verão se estendera em um calor deselegante, como um império em cuja decadência faz sentir mais acentuada sua supremacia. Depois, as massas de ar frio chegaram. Já tinha lido no noticiário. Durante dez dias, o céu, as ruas, os rostos, tudo ficou cinza. De um cinza bonito, que convidava a gente a discernir as coisas sob contrastes pouco enfatizados. Nem tudo é preto no branco. E depois de tantos dias sob essa tristeza úmida, agradável, a previsão do tempo anunciou que no domingo a chuva e as nuvens iriam desaparecer e deixar sobre a cidade o ar luminoso e gelado da nova estação. Ninguém as viu desaparecer. Elas foram embora sorrateiramente, à noite, como se, mais do que nós cansados delas, fossem elas que não aguentavam mais a nossa companhia.
Depois de jogar a segunda e a terceira tampinhas para fora do lixo, peguei no celular para conferir se era isso mesmo. Domingo, segunda, terça. Máximas de 19º aqui, 21º ali. Uma série de desenhos simplificados, todos iguais, da nossa estrela mais próxima, cada um iluminando um dia da semana que entrava, certificavam que alguma coisa tinha mudado. E por um momento eu achei um pouco brutal que a previsão no celular não me deixasse voltar no tempo para conferir as nuvens passadas. O tempo cinza ia embora sem nenhum resquício, verifiquei olhando pela janela, e a certeza de que ele tinha de fato existido era tão sólida quanto um sonho que a gente relembra, à toa, no meio de uma conversa distraída.
Uma tampinha lá dentro e descontei o placar. Mas logo veio a pá de cal: fora, a última, e 4×2 pra eles. Arrematei meu café da manhã e me levantei.
Entrei de volta no quarto, abri o guarda-roupa e, dentro dele, uma caixa de papelão parcialmente rasgada. Dentro dessa caixa havia mais ou menos uma dezena de livros, todos iguais, um pouco brilhantes por conta da finíssima camada plástica que os embalava de maneira muito exata. Peguei um dos livros, fechei a caixa e depois fechei o guarda-roupa. Fiz o gesto de quem ia embora, mas de repente me detive, como naquele antigo jogo da estátua. Depois reabri o guarda-roupa, peguei mais um exemplar de dentro da caixa de papelão e voltei a deixar tudo fechado como antes.
Apoiei os livros na mesa da sala enquanto juntava itens de que precisava para a partida. Chaves de casa, cigarros, carteira, óculos, celular. Tudo nos conformes. Olhei minha gasta jaqueta de couro, forrada de lã. Estava pendurada no mancebo como uma pessoa que houvesse murchado, com o gorro logo acima. Enfiei o gorro na cabeça e vesti a jaqueta, em cujos bolsos fui acomodando os itens um a um. Por último, coloquei os livros, cada um em um dos bolsos laterais. Não poderia tolerar esse peso por muito tempo. Peguei as chaves do carro e saí do apartamento.
Entrei no elevador e apertei o botão SS, que subitamente ficou iluminado por uma luz vermelha. As luzes do painel foram piscando uma a uma: 14, 13, 12, 11, sucessivamente, em um ritmo tão constante que eu poderia fechar os olhos e adivinhar exatamente quando o elevador chegaria ao meu destino subterrâneo. Mas eu fiquei de olhos abertos. Assim que a luz sobre o T desapareceu, a câmara deu um solavanco e a porta automática correu para o lado esquerdo, sumindo na parede. Abri a porta diante de mim e senti o cheiro sujo de garagem. Busquei a chave do carro no bolso e apertei seu botãozinho. Ouvi dois bipes soarem de algum lugar entre dezenas de automóveis e caminhei seguindo o rastro da memória auditiva. Vi um Onix prata e abri sua porta. Acomodei-me no veículo, joguei os livros no banco do passageiro, dei a partida. Manobrei e fui deslizando pela garagem, ouvindo lá fora o barulho dos pneus friccionando-se contra o pavimento. Dei de cara com o portão com padrão xadrez e, assim que apertei o botão do controle preso no parassol do veículo, ele foi se abrindo lentamente, suavemente, e eu vi lá fora o céu azul, sem nenhuma nuvem.
Sim, era outono. E não era verdade que as chuvas tinham ido embora sem deixar rastro. O asfalto ainda conservava uma luminosidade azulada, úmida. Quando o veículo passava por baixo de uma árvore, o movimento do ar fazia estremecer as folhas, que derrubavam sobre o para-brisa poucas, dispersas gotas que ficaram presas nos galhos desde a madrugada. Tudo, sob a incidência da luz ainda baixa das oito e pouco, resplandecia contornado por um véu esbranquiçado, misto de gotículas em suspensão com fragmentos minúsculos de poeira da cidade. No mais, a visão da cidade, que ia mudando ao ritmo contínuo do deslocamento do carro, era absolutamente cristalina e transmitia uma aparência singular de pureza. Grandes blocos de sombra e luz se alternavam dentro do automóvel à medida que eu deixava os edifícios para trás, em paralelo aos poucos carros e motos que me acompanhavam na expedição matutina de domingo.
Logo cheguei à Marginal Tietê. Atravessei o rio para pegar a pista oposta. De cima da ponte era possível ter um lampejo das grandes distâncias em que estamos inscritos. Por um momento eu acreditei que me dirigia a uma viagem cheia de promessas, repleta de paisagens pitorescas à minha espera. Quando a ponte terminou, o veículo desenhou um semicírculo perfeito em volta de um amplo canteiro, ao fim do qual encontrei a pista oposta da Marginal e alcancei maior velocidade. Um pouco à minha direita, o Pico do Jaraguá deslizava em um ritmo lentíssimo, duvidoso, desprovido de qualquer profundidade, como se tivessem erguido, lá longe, uma enorme lâmina de madeira recortada no formato de montanha e colado em sua superfície uma foto de vegetação tropical vista à distância. Nos planos intermediários dessa complexa textura que a viagem ia compondo, corriam postos de gasolina, amplos galpões, centros de conferência, edifícios compridos de serventia duvidosa. E quando essa sucessão me pareceu veloz, percebi que nas proximidades do veículo outras camadas vibravam a frequências ainda maiores: os postes de iluminação, as listras intermitentes na pista, a divisória central da rodovia, formada por uma série aparentemente infinita de hastes metálicas verticais, tudo pulsava, tudo vibrava em uma complexa rede de frequências cuja ativação dependia tão somente do meu deslocamento no carro. Parecia que meu progresso na estrada desvelava um sentido rítmico do mundo que, para quem estava parado, jazia em estado potencial, adormecido. E alguma coisa secreta da realidade era transmitida por esse ritmo.
Quando deixei a Marginal, encaminhando-me, por uma espécie de enviesada continuidade, pela Rodovia dos Bandeirantes, o Pico do Jaraguá se moveu no meu horizonte. O enorme volume verde, vagamente triangular, se deteve bem na frente do meu carro, dando a impressão de que todos os veículos se dirigiam rumo ao colosso com fins de adoração ou sacrifício. Apenas depois de alguns minutos pude perceber que ele se deslocava aos poucos para a esquerda. Finalmente, após algumas curvas suaves e intromissão de árvores, montes, edifícios, obstáculos que impediam a visão da montanha, ela ressurgiu subitamente próxima. A impressão de que era apenas uma lâmina foi desmentida à medida que eu contornava toda sua incontestável lateralidade, depois da qual a cidade parecia ter finalmente acabado. E a viagem propriamente dita começou.
A estrada não ia muito cheia. A pista formava enormes ondas conforme os morros subiam e desciam. Me deixei levar por esse balanço como se induzido a uma espécie de hipnose. O tempo, nesse vaivém, correu também. A entrada para Vinhedo eu devo ter passado sem perceber. Mas não era para lá que eu ia ainda.
Dali a pouco eu vi a placa que dizia Campinas 6 km. Peguei uma saída, reduzi a marcha, fiz o contorno e logo me vi a alguns metros acima da pista que eu acabava de abandonar. O viaduto me levou a uma rua comprida, gradativamente mais arborizada. O ruído difuso da rodovia foi se distanciando. No final da rua comprida eu dobrei à direita e desacelerei ainda mais, a fim de me situar no bairro. Passei por ruas sinuosas, com o feitio labiríntico dos bairros de alta classe, até avistar, ao dobrar uma esquina, a casa.
Passei um pouco do portão da casa, estacionei do outro lado da rua e desliguei o carro. Peguei o celular para conferir as horas: 09:32. Cedo demais. Abri o vidro e peguei um cigarro do maço, no bolso da jaqueta. Acendi e dei pequenos tragos, sustentando-o com a boca, de olhos semicerrados para evitar a fumaça, enquanto guardava de volta maço e isqueiro. Quando liberei minhas mãos, tirei o cigarro da boca e deixei o braço esquerdo para fora da janela, pendurado, soprando a fumaça abundante no ar frio de abril.
Olhei o portão da casa pelo retrovisor do carro. Sim, cedo demais.
Virei para dentro do carro e vi no banco do passageiro os dois livros, um em cima do outro. Reparei que o livro de cima estava com a contracapa para cima, cobrindo parcialmente o de baixo, que tinha a capa para cima. Sem me debruçar sobre os livros, eu não conseguia ler o texto da contracapa. Mas eu recordaria rapidamente, se tentasse. O livro era coberto por uma única foto, em preto e branco, que dava a volta em todo o volume, da capa à contracapa, passando inclusive pela lombada, de modo que o exemplar de cima, embora ocultasse parcialmente a imagem do de baixo, revelava também sua continuidade. Via-se, no livro de cima, um estádio de futebol, lotado, com bandeiras, faixas, indícios de fogos de artifício recentes, tudo fotografado do ponto de vista de alguém na altura do campo. E no livro de baixo, a capa mostrava o resto do estádio e um punho erguido, no plano mais próximo. Acima, em letras vermelhas grandes, o título do livro, mutilado pelo volume de cima: “ma é a bola”.
Terminei de fumar o cigarro e joguei a bituca fora, com um peteleco. Fechei o vidro, me ajeitei na roupa de frio como um pássaro em seu ninho. Então peguei o volume de cima, rasguei o plástico que o embalava e o abri em uma página aleatória.
Capítulo 4
Assim que as coisas começaram a acontecer na vida do meu amigo, eu achei que alguém tinha me enfiado numa novela das mais rocambolescas. Quer dizer, não quando as coisas começaram a acontecer: quando eu percebi que elas já vinham acontecendo.
Olhando de fora, o que veio vindo era pouco verossímil. É verdade que eu talvez pensasse assim porque meu ponto de vista não era de fato exterior. Mas também não podia dizer que olhasse por dentro, ao cerne real dos fatos. Eu era parte daquilo? Eu tinha influenciado o rumo das coisas, ou meramente tivera a sorte – se é que dá para falar em sorte, nesse caso – de testemunhar o nascimento de algo extraordinário?
Sei que, durante um bom tempo, fiquei à espreita, observando. Queria que o Bina desse bandeira de alguma coisa pregressa que explicasse tudo. Queria que, sem que eu pedisse explicações ou arrancasse dele alguma origem, escapassem anedotas, cenas de infância, lembranças onde se teriam fundado o hábito e a aptidão. Mas nada disso aparecia. Meu amigo era opaco. Agia com alegria, sim, mas quase como se nada estivesse acontecendo. Eu pensava que, cobrando satisfações, aí é que eu perdia de vez a chance de saber a verdade. Isso contaminaria seu relato. Preferi não perguntar. E quando achei que essa estratégia era furada – e era –, pareceu-me tarde demais para acessá-lo de maneira franca.
Às vezes, quando eu estava sozinho, a cena da tenda, na festa junina, acabava regressando. Via minha moedinha rodopiando no ar, repicando na beirada da bacia. Lembrava do som metálico do erro, da moedinha girando sobre si mesma, meio endemoninhada, até desabar no chão da barraca. E depois vinha a expressão do meu amigo: seus olhos fechados, a moeda de dez centavos preparada na unha do polegar, o desejo posto em palavra, seus olhos abertos. O Bina queria ser o maior do mundo. Maior o quê? Maior revolucionário – o maior revolucionário do mundo. É mole? Parecia piada. Mas não era. Ou ele blefava em grande estilo. O Bina estava sério, seríssimo. Quando lançou a moeda com um gesto elegante, congelando a mão com polegar e indicador esticados, em mímica de pistola, e a moeda percorreu sua elipse no espaço até descansar bem no meio da bacia, perfeita, redonda, parecia que viesse treinando esse lance durante a vida inteira. Caixa – e quem era eu para dizer que aqueles dez centavos não valiam nada?
A gente saiu da tenda sob uma atmosfera de pacto solene. Vai ver era só a baixa da bebedeira. A demissão da mãe recordava, no plano de fundo, que ninguém estava ali pra brincar. E, se assumimos uma algazarra no embalo da Balalaika, era para mais realçada ficar a seriedade da conjuntura. A fogueira ainda ardia por ali, jogando fagulhas por entre as bandeirinhas balançadas pelo vento. Mas a festa se encaminhava ao fim. Cada um foi para o seu lado, depois.
O depois real, o depois comprido que se esticou até o fim da adolescência e além, só começou para mim após as férias de julho. Eu e o Bina já andávamos para cima e para baixo juntos na escola, à luz do dia. Foi ele que passou a me requisitar no recreio. Para mim, um pequeno embaraço. Não sei bem o cálculo que fiz. Um pouco de pena entrava na conta. Um pouco de vaidade também. Antevia que essa escolha ia tornar minhas outras amizades cada vez mais distantes. Com o Bina no meio, não havia conciliação. Por isso mesmo fiquei meio perplexo quando ele virou para mim e falou: bora, jogar um futezinho?
Assim, sem mais, sem pretensão. E com certa intimidade: futezinho, ele dizia. De onde, não sei – já que nas últimas vezes, parado, austero, ninguém mais alheio à bola eu podia imaginar que meu amigo Bina. Como é que ele se dirigia de bom grado ao papelão? Perguntei: você agora joga bola? E aí ele driblou, maroto: agora não. Tô jogando daqui a cinco minutos.
E foi. E eu fui atrás. Olhei no relógio: sete minutos para o fim do recreio. Quando vi, o Bina já estava arrumando a gente de próximo com mais três, na beira da quadra. Ninguém entendeu. Ninguém proibiu, também. Joguei o meu elementar. Bobear até fiz um golzinho, de rebote. Mas a verdade é que me interessava mais em saber como é que ele se virava nessa roubada que tinha armado pra si.
No começo, nada tinha de diferente daquela lassidão da educação física. Parecia que o Bina só se dignava ao mínimo movimento. O que ele queria? Os meninos do nosso time cobravam atitude, gritavam que corresse, que voltasse, que marcasse. Só que era justo nesse gestual diminuto que alguma coisa acontecia. Algo que roçava o erro, miúdo, imprevisto, emanava do meu amigo como uma cor cinza no meio de outros cinzas, difícil de distinguir. Lembro que uma bola parecia ter rebatido nas suas canelas, mas terminou numa enfiada muito inteligente. Depois, tropicando, ele enganou dois adversários e me deixou na cara do gol. E bem quando o sinal ressoou, o gol da vitória saiu dos pés do Bina, ou melhor, de uma parte entre a panturrilha e a coxa que serviu de baliza para um bate-rebate sem nenhuma lógica.
Cês são sortudos, hein, ouvi que um moleque do outro time falou. E deu um cumprimento com mão de alface, sem olhar. De resto, amenidades. Para todos, só mais um jogo de futebol – embora aquilo que o Bina jogava fosse qualquer jogo, menos futebol.
Não tinha uma gota de suor. Claro, passara a maior parte do tempo em plácida caminhada. Emparelhei com ele na subida para a classe. Golaço, congratulei. Sim: à sua maneira, o tento até parecia inaugurar uma nova e desengonçada beleza. Mas logo eu soube que mentia. Não porque não fosse belo, mas porque não parecesse gol.
Gol é gol, disse o Bina, tão simples quanto vago. E retornou para o seu jeito de sempre, entre as carteiras coladas à parede da sala.
Assim seguiu nos outros dias. A gente ficava proseando por ali, nas imediações da quadra. Eu falava dos livros que andava lendo. Tinha pegado gosto por uns romances enormes. O Bina escutava, com as costas apoiadas num alambrado, as mãos meio enroscadas nos arames. Pode crer, ele dizia. Massa. Eu achava que ele se interessava de verdade, embora não fizesse maiores comentários. Dali a pouco, via que ele esticava o pescoço para trás, igualzinho à Dona Ana. Um trejeito de quem farejava uma presa no ar. Olhava para o futebol. Depois voltava para mim. Como é o nome do escritor?, perguntava. Dostoiévski, eu dizia, Thomas Mann, sei lá. Thomas Mann, da hora, ele falava. É gringo? E virava de novo para a quadra. As mãos apertavam o alambrado como se quisessem conter alguma força. Sim, era gringo. Alemão.
Aí, quando o intervalo ia chegando ao fim, ele largava o alambrado. Jogar bola, vamo lá?, ele me chamava. E a gente ia. E de novo eu testemunhava aquela lentidão assombrosa. Quando a bola chegava perto dele parecia que tudo ficava mais pesado. Só tornava a ficar leve depois que ele, como um passo em falso, soltava a redonda, que rolava, tão precisa quanto indecisa, ao próximo jogador. E isso desequilibrava qualquer partida.
Somados os instantes em que Bina de fato ia para uma dividida, um passe, um chute, durante esses cinco minutos diários, ele deve ter jogado uns cinco minutos durante todo o mês. Mas essa conta é um completo absurdo. Não dá para dizer que ele não jogasse nos momentos de inércia. Mas também alguma coisa mudava completamente quando ele decidia agir. Bina era extremamente avarento. À turma presente na escola, que aos poucos começou a ficar curiosa com o moleque filho da faxineira demitida que sempre acabava decidindo os jogos, concedia apenas uma migalha, um fragmento de futebol. E, ainda que com o correr das semanas os seus gestos tenham ficado mais fluidos, mais contínuos, sua presença o tempo todo hesitava entre não jogar em absoluto e jogar absurdamente bem.
Depois de uns meses, os moleques começaram a falar que o Bina era cagado. Claro, ele não tinha postura de quem jogava. Tudo nele era mole, tudo nele era frouxo. Não havia nada daquele aprumo firme dos outros que jogavam bem. Cada vez que uma jogada que saía dos seus pés tinha sucesso, parecia fruto da sorte. Ele dava corpo, como ninguém, ao espírito que a gente nunca tem certeza se de fato habita o futebol, que é o acaso. Mas como é que o acaso sempre favorecia o Bina? Ele, com aquele andar displicente, não podia reclamar mérito nenhum suas jogadas. E se havia mérito, que mérito era esse, de que até outro dia ninguém tinha nenhum sinal?
O Bina ainda tinha seu nome relegado às últimas posições da escalação na educação física. Ricardo, André, Thiago, Alberto, Leandro, Johnny, Diguinho, Josué, Cabeça… Bina, Miguel, Pepê. Não era mais o último, mas isso já vinha acontecendo desde que Dona Ana fora demitida. Talvez evitassem deixá-lo por último por uma espécie de condescendência, que ninguém declarava. Mas entrava no balanço um receio difundido. De um jeito ou de outro, o Bina tinha ficado ali com a pecha de filho de bandido. Isso incutia medo na molecada, um medo mesclado a uma admiração por um mundo além dos muros da escola e dos condomínios. Havia o agravante de que, afinal, ele não tinha ido embora. Marli e companhia, quem sabe, tinham só blefado ao sugerir que ele permanecesse no Tiradentes. A real é que não havia clima para ele ficar. Ela achou que eu ia querer cair fora por conta própria, o Bina me disse. Aí o Tiradentes se livrava do problema sem nenhuma culpa. Só que ele apostou mais alto: ficou, e nisso se tornou um problema. Ele, que despachava as matérias com a maior tranquilidade antes, passou a ir mal. Dali até o fim do ano a coordenação o chamou algumas vezes para conversar. Eles sabiam que as notas não baixavam por incapacidade. Era uma provocação, um deboche. Mas como poderiam acusá-lo disso? Sequer reprová-lo podiam, pois ele se mantinha ali, sempre na berlinda do boletim, e assim passou para o segundo ano.
Lembro que no começo do segundo ano o Bina apareceu sem óculos. De um dia para o outro parou de usar. Não preciso mais dos óculos, ele me falou. Não ia mais enxergar nada do que era escrito na lousa. Ele se destituiu completamente do aspecto de cu de ferro. Mas o engraçado é que começou a passar as aulas todas lendo. E lia livros que pegava emprestados da minha casa.
*
É necessário que as histórias já se tenham passado. Poderíamos até dizer que, quanto mais se distanciam do presente, melhor corresponderão à sua qualidade essencial e mais adequadas serão ao narrador, este mago que evoca o pretérito. Isso eu lia, na sala de casa, em voz alta, no prólogo do livro que eu tinha em mãos – verdadeiro catatau. E depois continuava: No entanto, não será o caráter de antiguidade de uma história tanto mais profundo, perfeito e lendário, quanto mais próximo do presente ela se passar?
Eu lia para o Bina na esperança de que ele me ajudasse a entender aquilo que não entrava na minha cabeça. Não encontrava sentido. Parecia contraditório. E ele não dava muita bola.
Tem esse outro do mesmo autor, falei, sobre um cara que faz um trato com o diabo para compor uma música dos infernos. Quer dizer, isso dizia a orelha. Esse eu não tinha lido ainda. Que brisa, disse o Bina, sem tirar os olhos do outro setor da estante, onde ficavam os livros de filosofia e ciências sociais. Depois me empresta?, emendou.
Claro que eu emprestava. Aquela história era a cara dele. Deixei o volume em cima da mesa, perto da sua mochila, para que ele não esquecesse quando fosse embora.
Em seguida, meu pai chegou e viu que o Bina estava fuçando na área de política. Logo serviu sua dose de Chivas e desandou a discorrer, entregando volumes e mais volumes para o meu amigo. E foi um tal de Manifesto Comunista, de Livro Vermelho, de Que fazer, de Proudhon, e Bakunin, e Malatesta… O Bina podia ficar com eles por quanto tempo precisasse, meu pai garantia. E logo vi que o romance que emprestei não ia caber na mochila surrada pendurada ali na cadeira.
Era em vão que eu tentava trazer meu amigo para perto da literatura. A vida já é muito louca, ele dizia. Acho que para ele nada que pudesse ser imaginado ia além do que já acontecia. Uma pena. Mas essa frustração não diminuía nossa amizade. Na verdade, não eram exatamente os interesses que nos uniam, mas uma espécie de fidelidade. Não a nós mesmos, mas a alguma coisa intangível que nos excedia, incluía, e que almejávamos alcançar. Um tipo de fidelidade, por sinal, que pouco tinha a ver com confiança. Dessas noites em casa eu inclusive às vezes pensava que Bina era interesseiro. Ele ia em casa para jogar o Playstation, para comer bem, para pegar os livros do meu pai que eu sabia que não seriam devolvidos. Talvez meu pai mesmo soubesse desse destino da biblioteca. Dizia que eram empréstimos sem prazo definido. De mim, ou pelo menos daquilo que eu julgava meu, o Bina não se interessava. Mas, se se interessasse, eu não continuaria achando que era, afinal, por interesse?
Restava-me, com o que tinha, forçar uma dependência qualquer. Depois de um tempo, os cinco minutos de futebol no recreio se expandiram para a totalidade do intervalo. Isso para o Bina. Eu fui parando de jogar. Em compensação, falei com o pessoal do grêmio e arrumaram um megafone. Aquilo passou a ser minha missão de vida no intervalo. A quadra era margeada, do lado oposto ao alambrado, por uma pequena arquibancada de três níveis. No nível mais alto eu armava minha precária tribuna de imprensa. Não vou negar que minha vocação fez a alegria de muitos colegas durante os vinte e cinco minutos de lapso da vida escolar que o recreio representava.
Estamos aqui na Arena Tiradentes, eu narrava, para mais uma edição do clássico Segundão contra Terceirão! Oferecimento Cantina da Tia Cleusa, o melhor pão de queijo do Tiradentes – e também o único. Tudo pronto para o início, apita o árbitro e… rola a bola! O Segundo começa no ataque pela direita com Ricardo. Ricardo avança, procura o drible, mas sai o zagueiro e despacha para fora. Bola do Segundo. Cobra o lateral mas o Terceiro recupera. Lançamento em profundidade para Matheuzinho. Matheuzinho trabalha, tenta pelo meio, João Paulo está marcado, a bola escapa e sobra perto da linha lateral com Bina. Bina carrega puxando o contra-ataque. Thiaguinho na marcação. Bina penteia uma vez, penteia de novo e passa! Dispara em velocidade, tem André na ponta e Ricardo que escapa pelo meio mas ele prefere ir sozinho. Passou por mais um! Vai entrar na área, puxou pra direita, parou, driblou, ajeitou, bateu… Na traaave! E a torcida vai à loucura na Arena! O que foi isso, minha gente? E segue o jogo…
Quantos chapéus, quantos rolinhos, quantos gols sob a minha voz vi o Bina fazer naquela quadrinha, são incontáveis. Não porque não saberia quantos foram: apenas não saberia contar de novo aquilo que vi acontecer na minha frente. O futebol improvável do Bina eu só podia relatar no momento exato do jogo. Depois, aquela ascensão parecia irreal. Era impossível, do nada, começar a jogar daquele jeito. Com certeza eu exagerava ao narrar. Mas isso era porque o Bina era exagerado. Às vezes eu pensava que não era eu que narrava o que ele fazia, mas ele que jogava o que eu narrava. Fiquei um dia doente e faltei à aula, com febre. No meu delírio, e na falta do megafone, achei que o Bina não estaria jogando, que teria voltado a ser um perna de pau. Só que isso eu não tinha como explicar, sequer a mim, que dirá a ele. Quando voltei ele jogava ainda melhor. Em pouco tempo, no Colégio Tiradentes não tinha pra ninguém em matéria de bola. E isso se aliou à celebridade do Bina na escola, já existente porém sinistra, de forma perturbadora e irremediável.
Se era inconcebível passar da água pro vinho de um dia para o outro, então o assunto só se explicava por meio do segredo. O Bina devia ter escondido o jogo durante todo esse tempo. Era a única explicação. Eu vivia sondando o meu amigo, porém a prova de que houvesse uma vida pregressa que justificasse seu talento confirmaria um enorme temor: havia algo dele que eu não podia acessar. Bina teria ocultado algo não só de todo mundo no Tiradentes, mas de mim também, seu único amigo ali. Ele não confiava em mim – e isso era motivo para que eu também não confiasse nele. Fala a verdade, você joga bola desde pequeno – essa frase, que poria tudo à prova e tudo a perder, nunca pude dizer, e isso ia formando uma pasta na minha garganta, um alimento de consistência desagradável, árduo de deglutir.
Às vezes eu variava a tática, achando que de través fosse mais fácil obter informações. Passei a frequentar sua casa e sua vida sem restrições. Olhava a mãe. Imaginava que Dona Ana pudesse ter mudado um tanto desde que as coisas foram se revelando para mim, como se para ela também fosse algo novo. Mas ela só queria saber se ele estava fazendo a lição de casa, se escovava os dentes três vezes por dia, se quando voltasse tarde ia telefonar para ela não ficar preocupada. Ou, quem sabe, seguisse inabalável apenas porque há muito tempo estava acostumada à singularidade do filho. Eu bem poderia olhá-la longamente, detidamente, e de fato a olhava: jamais poderia saber se o Bina tinha mudado ou se aquilo ali diante da gente era seu mesmo e velho filho de sempre.
*
No domingo vamos para Perus, ele me disse um dia. Assim, sem novidade. E sem costume. Estávamos já no terceiro ano, se me lembro bem. A gente se encontrou cedo na Barra Funda. Ele ia com uma mochila a tiracolo, dessas de atleta. Disse que o Osmar tinha arrumado para ele. Depois tomamos um ônibus que foi se deslocando pela cidade calma do fim de semana de manhã. Fazia um dia bonito. Escolhemos os assentos elevados do ônibus, o Bina na janela e eu no corredor. Como não havia trânsito, o motorista dirigia com uma velocidade considerável, o que contribuía para aumentar o ruído do motor, já por si barulhento. Não quisemos competir com esse barulho. Deixamos o silêncio das palavras ocupar o espaço entre a gente. O Bina abriu a janela de correr e voltou o rosto para a paisagem urbana. Eu fiquei olhando para a cidade também, mas vendo o rosto meio de perfil do Bina no primeiro plano. Seus cabelos cacheados balançavam com a força do vento que entrava pela janela, e ele apertava os olhos quando uma rajada mais forte entrava no veículo. No que ele estaria pensando? No que eu estaria pensando? A cidade voava. Cruzamos o rio. Os prédios foram diminuindo de tamanho, dando lugar a galpões, sobrados antigos, oficinas de portões fechados que davam aos bairros o mistério tranquilo das coisas humanas desprovidas dos homens. Quase ninguém na rua. Depois de uma ladeira comprida, demos num terreno de muro branco, com mato saindo por entre as brechas da ruína.
O Bina caminhava pelas instalações do terrão como se fosse sua casa. Cumprimentou uns moleques da nossa idade. Reparei que o cumprimento deles era um tapa e um soco, do mesmo jeito que o pessoal fazia na nossa escola. A mim não cumprimentaram dessa forma. Na verdade, ninguém me cumprimentou. O Bina foi andando na minha frente e não fez questão nenhuma de me apresentar. Eu não sabia que ele já conhecia as pessoas de lá, não me preparei para esse momento. E todo o tempo em que durou a partida no campo de várzea, eu fui um fantasma, invisível, anônimo, calado.
Ver o Bina jogando no espaço vasto do futebol de campo dava outra medida do seu talento. Sua lentidão elegante se adequava perfeitamente ao ritmo que o campo impunha. Não é que ele não alcançasse grande velocidade. Quando era necessário, o Bina, com passos compridos que mal pareciam tocar o chão, era mais veloz que qualquer um naquele terrão. É que todo o resto parecia demorado quando ele participava da jogada: o rolar da bola no gramado repleto de falhas, os adversários deslizando no chão enquanto tentavam em vão desarmá-lo, a poeira que subia cada vez que seu corpo, indicando uma direção, tomava outra, e se dissipava no ar quente da manhã de domingo em milhões de partículas marrom claro.
De toda aquela partida, cujo resultado me escapa à memória como se me driblasse, não me admiraram particularmente os dois gols que o Bina marcou, um de voleio e outro dando um totó sutil por cima do goleiro, mas um lance sem nenhuma consequência, no meio do campo. Houve uma disputa na área, e o zagueiro, para aliviar, deu um bico muito alto. A bola subiu dezenas de metros, numa trajetória praticamente vertical. Vi que o Bina, embora estivesse na região para onde a bola se dirigiria ao cair, sequer levantou o rosto. Foi caminhando lentamente. E no exato momento – se é que esse momento existe – em que a bola parou de subir mas ainda não tinha começado a descer, ele também parou. Foi um instante infinitesimal. Eu recordo esse momento como uma fotografia. Por um átimo microscópico, parecia que a gravidade, iniludível e universal, tinha sido abolida ali – e apenas ali, no campinho de várzea do bairro paulistano de Perus.
Depois a bola caiu. E veio se dirigindo a poucos metros à frente do Bina, que não esboçou nenhuma reação. Um adversário se aproximou rapidamente por trás dele, para a disputa. E apenas quando a bola estava a poucos metros do chão, o Bina se ergueu, como se levitasse, e aguardou o impacto do corpo inimigo. Justamente esse impacto impulsionou seu corpo em direção à bola, que morreu no seu peito com a maior suavidade do mundo. E o adversário, que tinha feito todo o esforço, desabou no chão, pedindo uma falta que sabia não haver.
Na saída encontrei meu amigo rodeado pelos companheiros de time. Faziam a maior festa para ele. Ouvi que falavam de uma peneira do Corinthians que ia rolar. Uns falavam que isso era viagem, que era todo mundo muito velho ali. Já tinha passado o tempo de ser jogador. Só se fosse de gato.
Falou aí, gatão, brincaram. Eu ri, por cortesia. Não tinha muito o que contribuir. Queria que o momento acabasse logo. Queria falar com o Bina sobre o jogo, jogo que aquela turma, falando assim, tornava um acontecimento um pouco ordinário. Me levantei, fiz menção de ir. Aí o Bina me olhou. E aí, me disse, vamos nessa?
E fomos. Falou, Bina, diziam pra ele. Falou, mano, pra mim. No fim, o craque do jogo ia embora comigo. E dali a uns duzentos metros, quando já não dava muito para regressar, eu falei: se você quiser ficar com seus manos aí, de boa, eu vou embora sozinho. Meus manos?, o Bina perguntou. Os caras do time, eu falei. Ah, os caras, ele disse. E depois estalou a língua e deu aquele sorriso só com a metade da boca. Os caras são firmeza, mas tá ligado como é. Eu não tava ligado. Como era? E o quê?
Jogador, mano, ele disse. Os manos que jogam bola são tudo… – e fez um gesto de cabresto, as duas mãos balançando junto às laterais do rosto – cabecinha, tá ligado? Só cabeça pequena.
Pode crer, eu disse. E durante a volta não falamos nada sobre o jogo.
*
Bina, Thiago, André, Ricardo, Alberto, Josué, Leandro, Johnny, Diguinho, Pepê, Cabeça, Miguel… Do meio pro fim do terceiro ano o Bina já era o primeiro a ser escolhido em qualquer futebolzinho que pintasse. Às vezes até faziam Bina e mais dois contra a rapa, ou começavam a partida com dois gols de diferença. Não era nunca ele quem propunha esses desafios. Mas topava. Havia quem torcesse o nariz para isso. Mais adiante, esses mesmos se renderam à bola que viam o Bina jogar e estimulavam essas disputas. Durante as partidas reinava um apaziguamento, uma comunhão confusa, em que Bina era o sacerdote, e os demais, efêmeros fiéis. Sabiam que não teriam outra chance de bater bola com alguém daquele nível. E essa liturgia durava o que durava: depois, suados, cada um ia para o seu canto. Isto é, todos para um lado e o Bina para o outro.
Bem que tentaram romper essa brecha. Passaram a chamar o Bina para as festinhas. Uma ou outra menina, das mais bem avaliadas, quis se engraçar com meu amigo. Ele respondia que morava longe. Isso não era um problema, ele podia dormir na casa de alguém, mais perto do centro. Nesse caso o Bina tinha um almoço de família. Ou jantar, ou viagem a Campinas, ou imprevisto qualquer, que surgia assim premeditado, sem rudeza, mas também sem concessão. Numa dessas, até tentei amolecê-lo. Quem sabe, por meu intermédio, ele cedesse. Nada. Inventou que tinha que estudar para não perder o ano. E era verdade – mas só meia verdade.
Era tudo isso orgulho, sua negação? Às vezes, depois das partidas, assim que se despedia da turma, eu o via acabrunhado. Cê tá bem, mano?, eu perguntava. Estava só cansado. Claro – mas não duvido que um desejo de estender a companhia palpitasse nele, sem que sequer, detrás da recusa, tão remota, tão entranhada, pudesse saber que havia, espinhoso, um desejo. De fato, já era tarde. Não fora amigo de ninguém lá atrás, no primeiro ano. Com que jeito ficaria de conversa com a galera agora, na metade do terceiro? Com que cara abdicaria de ser ele mesmo como se mostrou, desde o início, a todo mundo?
De todo modo, pouco importava: cedo ou tarde, o universo iria acabar. Dali a alguns meses, tchau tchau Tiradentes, nosso mundinho. Isso para quem fosse aprovado. E quem não fosse aprovado não ia ficar ali de qualquer jeito. Era preciso escolher um caminho – ou pelo menos inventar um caminho para tranquilizar o pessoal em casa.
Narrador de futebol, filho?, dizia minha mãe. Que ideia de jerico… Quer dizer, não que seja ruim, mas você podia pensar numa coisa mais, assim, não sei… Você não quer fazer faculdade?
Que faculdade, mãe? Eu tô saindo finalmente da escola e você quer me enfiar numa outra escola?
Aí ela se exaltou: eu não tô querendo te enfiar em lugar nenhum. Mas eu não vou estar aqui o tempo todo pra trazer comida e você sonhando em ser locutor de futebol. É narrador, mãe, eu falei. Ainda emendei: e quando você não estiver aqui, meu pai vai estar. Seu pai, é?, ela disse. Então você vai querer ficar igual seu pai, sem trabalho e bebendo o dia todo? E vão viver como, de conversa mole? De filosofia e locução de futebol? Francamente.
É narração, eu gritei, quando ela entrou no banheiro, batendo a porta.
Mais tarde ela voltou, miudinha. Filho, murmurou, eu fiquei pensando aqui. Se você quer trabalhar com esse negócio, por que… por que você não faz Jornalismo?
Ok. Só que Jornalismo na USP era dificílimo de passar. Não ia rolar. E minha mãe não ia querer ver a bolsa de estudos no Tiradentes acabar pra pagar faculdade privada. Não lembro de onde apareceu um manual do vestibular. Devem ter entregado na escola. Fiquei folheando. Devia ter alguma coisa parecida com Jornalismo, mas mais fácil. Administração, não. Biologia não, Ciências Sociais beleza, mas não. Direito, impossível, Enfermagem não, Física não, nem Geografia, nem Geologia, História, Lazer e Turismo, Letras… Letras?
Fiquei analisando a página, namorando a grade curricular. Letras. Ia levar uns quatro ou cinco anos. E parece que para entrar não era um negócio de outro mundo. Em uns dois ou três anos dava para eu ir achando meu caminho de narrador, trancar o curso, pegar um estágio na televisão, no rádio, sei lá. Por enquanto apaziguava minha mãe. Uma faculdadezinha, por que não? Taí, Letras.
*
Os jogadores entram na quadra para a última partida da temporada. A torcida vai à loucura. As flâmulas se agitam na arquibancada do Tiradentes. Os craques se alinham para a foto do pôster. Depois tomam suas posições, está tudo pronto para a bola rolar… E apita o árbitro!
Assim eu imaginei minha última narração ao megafone no Colégio Tiradentes, sob a luz de dezembro. Ia me despedir em grande estilo. Ia, pela última vez naquela escola, colocar em palavras o futebol do Bina, que na certa jogaria tudo e mais um pouco para deixar uma imagem tão fugaz quanto inesquecível na lembrança de quem ele tanto desdenhava, mas que tinha sido, apesar de tudo, seu público, sua torcida.
Nada disso. No último dia de aula eu estava completamente rouco. Deve ter sido o porre que tomei na festa de formatura, dias antes. O Bina não foi à festa, nem deu as caras na última semana. Sem ele, foi como se o jogo não houvesse. Não apareceu porque conseguiu cumprir uma missão quase impossível: ser desaprovado no último ano da escola.
Não sei o quanto isso o afetava. A verdade é que ele devia estar com a cabeça em outra coisa. É que mais improvável do que tomar bomba no terceiro ano foi a notícia que ele me deu assim que nos encontramos. Passei, ele falou. Passou no quê?, eu queria saber. Lembra daquela peneira do Corinthians?, ele disse. Passei. Começo a treinar lá no ano que vem.
Capítulo 5
Depois da indicação à Bola de Ouro de 2018, o camisa 10 do Olympique de Marselha começou a ser assediado pelos gigantes europeus com um ímpeto jamais visto. O prêmio maior da noite deu continuidade, como se sabe, à alternância entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Mas estar entre os dez melhores, para o enfant terrible brésilien, foi toda uma façanha, já que vestia a camisa de um time que estava longe de ser considerado um dos maiores do planeta. Com uma receita anual de pouco mais de € 113,1 milhões, o Olympique não chegava a ser um nanico, mas também não passava perto dos papa-títulos em que atuavam o argentino e o português. Só para se ter uma ideia, em 2018, ano em que o Olympique de Marselha quase bateu o Real Madrid na final da UEFA Champions League, entraram nos cofres do campeão europeu nada menos que € 750,9 milhões. E o Barcelona de Messi não ficava muito atrás: € 690,4 milhões foram arrecadados entre bilheteria, merchandising, direitos de imagem e muitos outros (sem falar nos montantes não declarados durante certas transações duvidosas… Mas isso é assunto para outro livro!).
Na verdade, outros pesos-pesados já tinham tentado contratar o craque antes disso. O Chelsea, lá em 2014, ofereceu € 25 milhões ao espanhol Rayo Vallecano para levá-lo a Londres, valor mais tarde considerado baixo, que muitos atribuíram à ausência do jogador na Copa do Mundo do Brasil. Assunto polêmico; mas, seja como for, em 2014 o negócio com o Chelsea não avançou – e os ingleses devem ter ficado com a pulga atrás da orelha quando, no ano seguinte, a transferência do Rayo Vallecano ao Olympique foi selada por um valor bem menor.
A gente já contou em um capítulo anterior as desavenças públicas com a CBF, que deixaram o clima para a convocação pra lá de ruim no fatídico ano do 7×1. Não dá para dizer que eram águas – ou mágoas – passadas, pois, durante todas as Eliminatórias para a Copa da Rússia, o jogador também ficou de fora das listas de Tite. Teriam a derrota para a Bélgica em 2018 e, acima de tudo, o vexame do Mineirão sido evitados com sua presença? Isso a gente nunca vai saber. O que sabemos é que, de uma Copa a outra, a ausência na Seleção já não influenciava no montante que os donos do jogo estariam dispostos a tirar do bolso para ter o craque brasileiro. Em 2016, seu segundo ano na França, foi a vez de os príncipes árabes partirem para o ataque. O Al-Hilal, clube controlado pela nata da monarquia saudita, ofereceu a bagatela de US$ 43 milhões ao time de Marselha para levar o jogador, que a essa altura, aos 28 anos, já não era considerado nenhum garoto. Dessa vez a resposta veio em um tapa com luva de pelica: “Eu topo ir para o Al-Hilal”, disse Benilson na coletiva de imprensa após um empate contra o Lyon, “mas com a condição de que os príncipes abdiquem da teocracia fajuta que sustenta uma das maiores desigualdades sociais do planeta e iniciem a transição para um Estado minimamente democrático na Arábia Saudita. Estou falando só de democracia, nada de outro mundo”.
Não é preciso saber muito de política internacional para adivinhar que o negócio não foi para frente.
Com essas negativas anteriores, o mercado da bola não apostava muitas fichas em uma transferência que envolvesse a principal figura do time francês, que, por sinal, sempre dispensara intermediários nas negociações, sentando ele mesmo à mesa, no máximo na companhia de seus advogados, frente a eventuais interessados em contratá-lo. O fato é que empresários e investidores não sabiam muito como compreender a trajetória no mínimo peculiar de Benilson pelo continente europeu. O singelo Rayo Vallecano e Olympique de Marselha pareciam, segundo a opinião geral difundida na mídia, clubes muito aquém de seu talento. “Um enorme desperdício de futebol”, chegou a declarar Florentino Pérez, o todo-poderoso do Real Madrid, acerca das escolhas do canhoto brasileiro. E completou: “Como é que esse garoto pretende ganhar algum campeonato importante assim?”.
É claro que os jornais, sedentos por polêmica, ecoaram a frase do espanhol durante toda a semana. Benilson teve que rebater: “O senhor Pérez deveria saber que o futebol é como a guerra”, disse, durante uma entrevista ao Canal+. “Mais importante do que vencer, é saber quem está a seu lado na batalha. E eu tenho um apreço enorme pelas torcidas de todos os clubes que defendi”.
Com esse panorama, as credenciais de um vice-campeonato europeu e a indicação ao topo do futebol mundial, no fim de 2018 tudo levava a crer que Benilson teria vida longa no Olympique de Marselha. O namoro com a torcida ia de vento em popa. Parecia que quanto mais a mídia francesa bufava contra sua relação quase visceral com o Virage Sud do Stade Vélodrome, mais essa paixão se exacerbava. No dia em que saiu nos jornais que Benilson andava frequentando as reuniões do Commando Ultras 84, voaram acusações diversas. Demagogia, barbaridade, rebeldia sem causa. Nada novo: desde o começo de 2017 se arrastava uma campanha da extrema direita para enquadrar as atividades extra-campo do jogador como – pasmem – “associação ao terrorismo”. Coisa pouco diferente do que já tinha acontecido na Espanha e que culminou no tristemente célebre episódio da emboscada de Madrid. Apesar da forte rejeição de parte da sociedade francesa, Benilson não se abalava. Durante os três anos em que atuou em Marselha, parecia ter encontrado seu lugar no mundo.
Algo, porém, mudou em 2019.
Em maio, a poucos meses da abertura da janela de transferência, veio a bomba, durante uma mesa-redonda: “Passei três anos maravilhosos aqui na França, e só tenho a agradecer. Não a Deus – e espero que Ele me perdoe por isso. Agradeço a quem fez isso possível, a essa torcida incrível que me acompanhou nas vitórias, nos empates, mas principalmente nas derrotas”. Aqui, a voz de Benilson ficou embargada e ele pausou por um momento. Depois prosseguiu: “Mas chegou o momento de buscar outros voos. Voos mais altos ainda, se é que isso é possível”.
Claro que era. Ou pelo menos foi assim que os gigantes da Europa entenderam. Voos mais altos só podia significar, finalmente, que o craque estaria disposto a defender as cores bilionárias de algum clube grande. E, de preferência, as mais bilionárias.
Agora, o que motivava uma mudança de rumos naquele momento? O que faria um jogador no auge de uma carreira brilhante, ainda que marcada por inúmeras polêmicas, e em plena lua de mel com o clube em que estava, escolher outro brasão para defender? À boca pequena – ou não tão pequena assim –, falou-se de uma proposta irrecusável. Falou-se afinal que o craque, que tanto alvoroço tinha causado em outros tempos ao declarar – quem não se lembra?– que a renda anual dos jogadores de elite só não era mais escandalosa que a dos empresários que os vendiam, tinha sossegado o facho e ficaria quietinho com os milhões que lhe cabiam. Falou-se, enfim, que o mundo da bola era o mundo da grana, e que, mais cedo ou mais tarde, não havia nada a se fazer contra isso. Mas os motivos que levaram Benilson a dar um novo passo na sua trajetória futebolística eram muito diferentes do que podiam prever os mais perspicazes cronistas da bola.
A temporada 2018-2019 chegou ao fim. Julho começou, e logo a tão aguardada janela de transferência estava aberta. Os cartolas esfregaram as mãos. Na Inglaterra, chegaram a cravar como certa a ida ao Manchester City de Pep Guardiola. Do outro lado do Canal da Mancha, corriam boatos de que ele ia ficar mesmo na França, mas juntando-se a Mbappé, Neymar e companhia, estrelas do Paris Saint-Germain, então turbinado pelos petrodólares do Catar. Barcelona, Bayern de Munique, Inter de Milão e Liverpool pareciam ainda estar no páreo. As fichas corriam alto nos principais sites de bet do mundo. E qual não foi a surpresa – e decepção para muitos – quando Benilson apareceu numa live, de óculos escuros e jaqueta Adidas vermelha, para anunciar que a partir da temporada seguinte cruzaria o
Toc-toc.
Toc.
Segui correndo os olhos pela página, distraído da leitura. Pensei ter ouvido algo.
Toc.
Toc-toc-toc.
Olhei para a esquerda e vi, através do vidro, a face de um homem. A boca em movimento e o traje um pouco formal, que só agora percebia, me fez pensar em um telejornal, com o aparelho no mudo. Em seguida, o dono do rosto deixou ver sua mão, que fez repetidas vezes um gesto com a palma voltada para baixo, como se batesse uma bola de basquete invisível. Apertei o botão com a mão esquerda, e o vidro foi descendo devagar, com um ruído suave. O final da janela, perfeita linha horizontal, percorreu o rosto do homem como se o escaneasse, ou, ainda, como se o sujeito emergisse de um líquido perfeitamente cristalino.
Bom dia, ele me disse. Me olhou nos olhos brevemente, e depois notei que ele vistoriava, com falho disfarce, o interior do veículo. Achei que ele tivesse perdido alguma coisa.
Negativo, ele falou. O homem vestia um sobretudo preto, talvez excessivo para o frio tropical. A cabeça, em compensação, expunha à intempérie uma calva brilhante, que dava a impressão de que o sujeito polisse o crânio com grande frequência.
Reparei que o senhor estacionou o veículo aqui na rua, ele disse. Errado ele não estava. O que é que tem?, eu quis saber. Não tinha nada. Eu que o desculpasse. Mas ele era orientado a averiguar qualquer movimentação suspeita.
Não sei bem por que, aquela conversa de movimentação suspeita me encheu de vaidade. O senhor mora aqui no bairro?, está de visita?, de passagem?, ele quis saber. Estava esperando a hora certa de entrar, eu falei, apontando para a casa, um pouco atrás de mim. O senhor é parente?, veio visitar?, ele dizia. Sim, por assim dizer, eu era visita.
Em seguida ele tirou um walkie-talkie de algum lugar do sobretudo e tomou distância do carro. Falou no aparelho uma vez, mas parece que ninguém respondia. Falou de novo e nada. Se aproximou de novo do carro com o rádio no ouvido. E isso aí?, ele perguntou. Apontava para o livro nas minhas mãos.
Eu tinha deixado o polegar direito marcando a página, pouco antes do final do volume, antes de fechá-lo, assim que o segurança me pediu para abrir o vidro. Precauções inúteis, fechar e marcar, que davam à leitura um ar de coisa ilícita. Deslizei o polegar para fora das páginas, como se apagasse as pistas, e ergui o livro em direção à janela. Ele tirou o rádio da orelha. Fiquei olhando o estádio em preto e branco, na parte de trás, enquanto via os lábios do homem repetindo muito sutilmente os dizeres da capa, com o cenho franzido. Quando terminou de ler, seu rosto desanuviou. Quase sorriu.
Na escuta, falaram pelo rádio. Ele saiu de perto do carro mais uma vez e disse palavras incompreensíveis. Dali a pouco se aproximou e quis saber meu nome. A conversa pelo rádio seguiu. O senhor aguarda um minutinho, faz favor, ele falou.
Antes que o minutinho acabasse eu peguei o maço e acendi um cigarro. Soprei a fumaça fazendo argolinhas, que tentava em vão fazer passar uma por dentro da outra no ar limpo do outono recente. Vi que o segurança me olhava de vez em quando.
Quer um cigarro?, ofereci. Ele disse que não. Pensei em retomar a leitura, mas isso seria, no máximo, outra vaidade. Já sabia como continuava. Não fuma ou não quer?, perguntei, abusado. Aí o homem, à sua maneira, se abriu. Disse que tinha parado. Fazia tempo? Doze anos. Promessa? Que nada. Um dia decidi parar. O ser humano, quando quer uma coisa, vai lá e faz.
Eu olhei a fumaça azulada saindo da brasa do meu cigarro. Achei que o homem estava errado. Mas vai ver eu é que não era muito ser humano.
Ouvi o ruído grave do celular vibrando. Pq vc não falou que tava na frente hahaha, dizia a mensagem dela. Pensei em mostrar ao segurança, para ele conferir que não tinha nenhuma movimentação suspeita da minha parte. Mas era tarde.
QAP rua, soou no rádio. Positivo, meu segurança falou. Vou liberar, tá ok? Positivo. Pode entrar, ele falou pra mim.
Joguei a bituca ainda em brasa no asfalto e liguei o carro. Manobrei com cuidado pela rua arborizada. Quando acabei de dar a volta vi que o homem de sobretudo estava na frente do portão da casa, que deslizava para a esquerda por efeito de algum maquinário invisível. Sua mão agora se aproximava e se distanciava do corpo do homem, várias vezes, como se o abanasse vagarosamente contra um calor impensável. Obedeci ao segurança e fui entrando com o veículo pela passagem que o portão deixava. Quando o automóvel já tinha penetrado o bastante no terreno, apareceram outros homens de sobretudo, mas dessa vez com carecas menos brilhantes. Um deles indicou que eu tinha que prosseguir um pouco mais com o carro, por onde imaginei ser o caminho de um estacionamento. Em seguida, por uma porta lateral da casa, saíram dois lindos cães pastores, grandes, de pelagem branca, com manchas cinza e bege, aparentemente muito felizes com o grande acontecimento que era a minha chegada. Os animais me seguiram até o que intuí ser o estacionamento, por conta dos três ou quatro carros de luxo que jaziam emparelhados, como outros bichos, só que adormecidos. Peguei o livro, abri a porta, e os cães faziam a maior festinha para mim, como se fôssemos velhos conhecidos.
Paçoca, Mandela!, ouvi que ela gritava. Deixa ele em paz, Mandela! Fui seguindo a voz que rogava pela tranquilidade de seus cachorros. Desculpa por chegar tão cedo, eu falei, assim que distingui a figura da Dona Ana, ainda um pouco longe, no último degrau de uma pequena escada que subia da área externa para a casa. Fui chegando perto, vendo que ela sorria intensamente. E quando cheguei mais perto reparei que ela, ao mesmo tempo em que sorria, chorava.
Capítulo 6
O rosto da Dona Ana, por volta dos trinta e cinco, eu teria todas as razões do mundo para achar que fosse o rosto de uma mulher fora de cogitação. Alguns professores do curso de Letras, por exemplo, beiravam os quarenta. Lá dos meus vinte, recém-completados, eram quase anciãos. Mas Ana – que mais de uma vez vetou que eu lhe chamasse de Dona –, talvez porque chorasse, talvez porque sorrisse, ou porque fizesse as duas coisas ao mesmo tempo, remoçava ao meu lado, deixando que eu achasse seu rosto um pouco mais próximo que de costume, um pouco mais ingênuo. Por um instante, flagrando, meio de viés, a emoção estampada em sua cara, eu esquecia quem eu era, para ela. E esquecia que ela era a mãe do meu amigo.
Meu amigo não nos via. Não estava por perto. Ia, digamos, a uns cinquenta metros de nós, trotando, de braços abertos, em direção ao alambrado que circundava o campo do Pacaembu, e ao abraço da Fiel. Um pouco tarde, ao seu estilo, estreava no profissional. E com um gol de empate contra o Goiás, aos quarenta do segundo, no sufoco. A bola tinha sobrado na entrada da área. Dois marcadores fecharam, achando que ele ia descer o pé. Mas o Bina só esperou a bola quicar – e depois, o tapa: a redonda foi indo, dengosa, com cara de que não era bem isso, até bater, de preguiça, na trave, e ir pingando pra morrer na bochecha da rede, do outro lado.
O que aquela mulher me abraçou, ao sair o gol, não está no almanaque. Um enlace suado, sincero, que me balançava para cima e para baixo ao sabor da arquibancada. Veio para coroar uma série de apertos nos meus braços, nas minhas mãos, nas minhas coxas, cada vez que seu filho disputava um lance do jogo. Ela frisava esses beliscos com o apelido do moleque, xingando a si mesma, dando pito. Porra, Bina. Puta que o pariu, Bina. De vez em quando alguém da torcida olhava, não sabendo quem fosse. Se olhassem um pouco mais, achariam que o tal do Bina era eu. Dona Ana agarrava o que havia por perto. E eu permitia, querendo, aqui comigo, confundir aquele êxtase com outro tipo de emoção.
De confusão já bastava o cenário. Quem diria que eu, são-paulino, iria de bom grado me enfiar no meio da turma rival? Minha cara nada camuflava. Adivinhava olhares cismados, por aí, alvinegros. Me obriguei a cantar o hino. Pura paranoia. Para a Dona Ana, nenhuma questão. Falava alto. Comparava a torcida do Corinthians com a da Ponte, sem temores. Claro que isso era menos grave que o meu crime. Cada vez que a conversa parecia rumar para minhas predileções tricolores, eu trocava de assunto.
Olha lá! – O quê?, ela respondia. O quero-quero. Tem outro ali. Deve ser um casal.
Isso ainda no intervalo. Feitas as contas, a vida de infiltrado valia a pena. Compensava andar pelo estádio com essa mulher mais velha, sob os olhos multitudinários de tudo quanto era gavião, enroscando seu braço no meu para que a gente não se perdesse no meio da massa inimiga. E o gozo do sigilo se estendia ao banco de reservas. Se me perguntassem, jamais diria que aquele de colete neon, ajeitando o meião, era meu amigo. Preferia o segredo, a gostosa conjunção do anonimato com o ingresso cortesia da direção do clube.
Será que no segundo tempo ele entra?, eu perguntei. Mas é lógico que entra, falou a Dona Ana. Ele não é doido de não pôr o Bina, esse técnico aí.
Eu tampouco seria, com ela falando assim. Metia medo, Dona Ana. Não sei se a ouviram. Mas lá pelos vinte subiu a placa com o número 19 do meu amigo, que entrava no lugar do 11, vaiado.
Até ali, eu bem que tinha resistido. Depois, ficou impossível não torcer. O Corinthians penava uma derrota azeda, em casa. Caía pelas tabelas. O Bina entrou endiabrado. A torcida entendeu a que ele vinha. Ou então foi a força do povo que empurrou meu amigo para infernizar a área rival. Quando ele acertou a trave a torcida explodiu. Arrepiei. Timão, eô, Timão, eô, quase quis cantar. Calei. Deixei entalados, na glote, os gritos – mas só os que louvavam meu rival. Me autorizava a estímulos genéricos: vamo, caralho, eu berrava, e não poupei esforços no comprido uhhh quando o Bina enfiou pro atacante quase deixar tudo igual. E lá na frente, aos quarenta, quando o Bina empatou, gritei gol como quem nascesse de novo. Só parei quando, no rosto da Dona Ana, vi aquela mescla de choro e riso, transbordante, incompreensível. Uma coisa de criança, parecia. E, no pouco que durou o gol, sonhei, disparatado, que me cabia cuidá-la.
Vai pela sombra, garoto, ela falou, entrando no táxi, sem olhar pra mim. Pensei que sobrava lugar no banco de trás, quando ela chamou o carro. Não para ir muito longe, afinal eu morava nas redondezas. Mas pelo menos um pouquinho mais daquilo eu queria esticar. Daquilo o quê? O jogo tinha acabado. E vai saber quando o Bina ia ter outra chance.
Tomei uma maria mole na Charles Miller. Peguei outra dose e fui bebericando no caminho. A realidade queria voltar a seu lugar. Mas eu não queria que voltasse. Fumei um cigarro no pátio do prédio, antes de subir. E quando entrei no apartamento, meu pai dormia no sofá, sob a voz em volume baixinho dos caras da Sportv, comentando a estreia do garoto que tinham subido da base pra tentar salvar o time do Parque São Jorge da degola.
*
De manhã, numa meia ressaca, ouvi explicarem a desmedida. Húbris era a palavrinha, que o professor garatujava na lousa em meio a um sem número de conceitos antigos, ásperos. Parece que, cedo ou tarde, o herói que passasse do ponto levava um pedala-Robinho dos deuses para voltar ao seu lugar de homem. Só que, enquanto a pena não vinha, era o povo quem pagava o pato. Acho que ele estava falando da tragédia do Édipo.
Ainda bem que não temos mais deuses, falou um palhacinho. A classe achou graça. O professor também. Mas depois disse que hoje em dia os deuses não faziam falta: a gente mesmo se incumbia de cortar as asas dos audaciosos.
Eu não pegava muito a pertinência dos estudos clássicos. Era tudo grandioso, tudo um mundo de proporções infladas. No primeiro semestre fechei com um seis. No segundo reprovei por falta. Por isso recursava a matéria no segundo ano da faculdade, que ia levando em paralelo com o estágio na Placar. Gostava mesmo da disciplina de literatura moderna. Mas palatável, mais ao alcance. E, se alguém se dava mal nas histórias – e sempre se dava –, era mais por humana mesquinharia do que por capricho divino.
Também ficava complicado juntar o que aprontavam no Olimpo com as coisas daqui. A verdade é que tudo parecia meio dissociado naquela época. Na entrevista para a Placar, que um conhecido dos meus pais arrumou pra mim, contei que queria trabalhar com narração esportiva. O Elias, meu futuro chefe, deu um sorriso simpático, largo, me explicando que ali era uma revista, trabalhavam com reportagens, entrevistas, editoriais. Tudo escrito, é claro. Até fiz um teste de redação. Tema: “uma partida inesquecível”. Escrevi sobre a final da Libertadores de 1994, que o meu São Paulo perdeu nos pênaltis para o Vélez Sarsfield. Contei tudo, tim-tim por tim-tim, com riqueza de detalhes e minúcia de emoções. O Elias, mais tarde, quando avisou que a vaga era minha, disse que o texto estava muito bom. Adorou que eu tivesse escrito sobre a derrota do meu time. Era palmeirense, o Elias. Gente boa. Agradeci. Só não contei que na verdade eu não tinha visto nada daquele jogo, porque peguei no sono na frente da televisão.
Quando começou o estágio, só fiquei indo pra cima e pra baixo, levando papel pra fulano assinar, tirando xerox de sei lá o quê, passando recado. De vez em quando, como muito, via o vulto de algum ex-jogador, que aparecia por lá para uma matéria do túnel do tempo, essas coisas. Dava para intuir que a revista era uma porta para o mundo dos bastidores da bola, de coisas que não se viam no estádio e nas transmissões. Mas, para abrir essa porta, era preciso um não sei quê, uma cara de pau. E, nos corredores da redação, eram tantas as portas que eu nem saberia qual delas me levaria ao caminho da narração.
O importante é que você está no meio, minha mãe me dizia. Está fazendo contatos. Isso não significava muita coisa. Era uma vida paralela, que pouco tinha a ver com o fato de eu ser amigo da última revelação do Corinthians. Sim, ao longo do segundo semestre de 2007 o Bina foi entrando com maior frequência nas partidas. Esse moleque promete, diziam uns. Outros falavam que não ia dar em nada, que era a maior enganação, ou que só parecia jogar bem porque o resto do time era de puros cabeças de bagre. Que fosse. Eu, como não tinha contado para os colegas logo de cara que o conhecia, evitava contar mais tarde. Pareceria inventado. E se parecesse? Sei lá. Talvez o problema fosse que os mundos se encontrassem. Vá saber o que podia explodir desse encontro. Então guardava para mim, imaginando, com temor e prazer, o dia em que toparia com o Bina no elevador da editora, com o Elias de cicerone.
O lado bom é que caía um dinheirinho na conta. Meu primeiro dinheiro. Minha mãe ficava tranquila com o fato de eu estar estudando e trabalhando. Imagina, agora que seu pai está doente, você sem fazer nada?, ela falava. Se ela soubesse que, tirando as camadas da faculdade e do estágio uma por uma, como uma cebola, não sobraria nada no núcleo, quem sabe ela não se tranquilizasse tanto. Eu também não queria ficar tanto tempo em casa, com meu pai daquele jeito. Quando chegava tarde da noite, minha mãe já estava dormindo. Entrava no apartamento na ponta dos pés. Ao pisar no banheiro ouvia a voz dele, remota, pungente, que me chamava. Oi, pai, eu respondia. Ele não dizia palavra, mas eu sabia que tinha de comparecer à sala. Que foi? Não era nada. Ficava ali em silêncio um minuto, com a vinheta sonífera do Jornal da Globo de fundo. E quando eu me movia para ir embora, ele puxava assunto: e o Bina, hein?
E o Bina, afinal? Pergunta simples – mas, para mim, cabia um monte de coisa naquelas palavrinhas. E aquele seu amigo pobre, ele queria dizer, que vinha aqui toda semana na época da escola, jogar videogame, pegar meus livros emprestados, agora que está ficando famoso por conta do futebol não tem mais tempo de vir aqui na casa desse corinthiano velho que gostava tanto dele, ou é você quem está com vergonha de mostrar seu pai todo fodido para seu amigo com quem supostamente você tem uma intimidade de longa data?
Mais ou menos isso. Ou nada disso, na real. Uma grande raposa, meu pai. O que eu podia dizer? Ah, não sei, a gente não tem se visto muito, eu falava. Nem verdade, nem mentira. Eu, na companhia da Dona Ana, olhava ele, semana sim, semana não, no estádio, lá longe. Ele é que não me via muito.
Na tela desfilavam mísseis minúsculos, pontos brilhantes na noite de alguma Arábia por aí afora. Tem que abrir o olho, seu amigo, meu pai dizia, sem tirar a vista da guerra. Que queria dizer? Tinha que ficar esperto. Ele está entrando em um mundo muito perigoso. Muita maracutaia, muita negociata. Canalha é o que não falta.
E que mundo não seria perigoso de se entrar? Acho que ele é esperto, pai, eu falei. Ele assentiu com a cabeça, lentamente.
É um filho da puta. Um grandessíssimo filho da puta, ele disse. Quem? Esse aí, e apontava, com o nariz e com desdém, para o apresentador do telejornal. Mas se era assim, por que é que ele via essa merda todo dia? A gente precisa saber, ele respondia, o que é que eles andam espalhando por aí. Precisa saber o que dizem os inimigos.
Pode crer. E me olhou, sondando, sorrindo, de leve. Demorava. Eu fiz menção de ir.
Faz um favor?, ele falou. A garrafa, ali, dentro da cômoda. Pega para o seu pai? Eu bufei, sutil. Não vai fazer mal, você bebendo assim? Assim como?, ele perguntou. Doente, eu disse. Ah, isso, ele suspirou. Não precisa estar doente para a bebida fazer mal. Aliás, tudo faz mal. Você tinha que implicar com o William Waack aí na tevê, que faz bem mais mal que a bebida.
E eu ia, meio escondendo a risada, pegar o uísque. Pega um copo pra você, ouvia a voz doente, lá atrás. Não, obrigado, eu respondia. Entregava um copo pro meu pai, dedo e meio, muquirana. Depois pegava minha dose e ia pro quarto beber sozinho.
*
Parece um mano meu, é voz de homem. Eu não consigo ver quem me chama, é tipo a voz do Guina – não, não, não, o Guina tá em cana. Será?, ouvi dizer que morreu, sei lá. Por aí ia, mais ou menos assim. E a gente – de Audi A3, que nem no Need for Speed, vendo a cidade lá fora, luzes neon na noite de São Paulo, rap no som possante –, a gente ia junto com a rima. Janela aberta, braço pendurado para fora, um pigas queimando ao vento. Avenida Henrique Schaumann, depois a curva, entrando na Sumaré. E o ponteiro do Audi tremendinho, nervoso.
Pela primeira vez eu vi o sistema aos meus pés, falava a voz. O Bina, desde que o conhecia, só ouvia esse som. Não ia deixar de ouvir agora que estava de nave nova. Tinha passado em casa lá pelas oito da noite. Não avisou sobre o carro. Só ligou e mandou eu descer em vinte minutos, que ele estava passando. Era folga dele, tinha jogado na véspera. Segunda-feira – e a gente na contramão do mundo, procurando um bar, uma boate, sei lá. Ou só andar por aí, na boa, no banco de couro do Audi preto.
Passamos debaixo do viaduto da Dr. Arnaldo. O metrô piscava sobre as nossas cabeças. Virei para dentro do carro e perguntei: quando foi que você tirou carta?
Pegamos uma ladeira até chegar à avenida, lá no alto. Olhei a torre da Cultura, à direita. Mano, o Bina falou, dirigir não tem nada a ver com tirar carta.
Errado não estava. Fiquei pensando que eu tinha que ter aproveitado para treinar direção um pouco antes, aí quem sabe o Bina deixava eu pegar um pouquinho no carro novo dele. Agora que minha mãe tinha vendido a Ipanema para pagar as contas não dava mais para aprender. E tirar carta nem sentido fazia.
A gente chegava perto da Paulista e as antenas se esticavam rumo ao escuro da noite. Quanto tinha aquela lá, a grandona? Cem metros? Duzentos? Vish, sei lá, o Bina falou. Também, pensei, se me entregassem um número, não ia explicar nada sobre a grandeza. Bem louco, eu falei. Aquela ali é da Band. Tem da Gazeta também. E se pá aquela é da Jovem Pan.
Por mim, ele zoou, com aquele sorriso de boca esquerda, podia derrubar tudo. Imagina só, as torres todas caindo, desmoronando. Bora? Aí sim ia ser bem louco.
Só ia. Fiquei fascinado com o plano terrorista do meu amigo. A gente deu risada. Mas aí, depois, lembrei que numa dessas sobrava pro Elias, que era gente boa, apesar de palmeirense. Talvez sobrasse pra mim, também.
Na verdade, tá pra sair logo mais, ele disse. O quê? A carta. Minha carta de motorista.
O Bina pisou fundo no Audi. Subiu o som, no talo. Lembro que um dia o Guina me falou, falava a letra, que não sabia bem o que era o amor. Era habilidoso ao volante, meu amigo. Descemos a Consolação, demos uma volta, passamos em frente ao Love Story. Será? Acho que não. Não tinha nada a ver.
De repente ouvi tiros. Tiros na gravação. A história na letra terminava mal. Na verdade, já tinha começado mal. A gente parou no semáforo e uma viatura encostou no nosso carro. Os caras ficaram encarando, bicudos. Iam falar para a gente encostar. Começou outra música. Onde é que abaixa o som?, eu falei. Não, mano, disse o Bina, interceptando minha mão. Se abaixar a cabeça é aí que eles montam em cima. E subiu um pouquinho o volume. O farol abriu, a viatura seguiu do nosso lado, que nem uma escolta. Os caras não tiravam o olho. Até que chegamos a outro sinal fechado. Os homens cantaram pneu e foram embora.
A gente deve ter dado rolês desse tipo umas quatro ou cinco vezes naqueles meses de 2007. Não sei lembrar. De longe, parece sempre o mesmo rolê, único, entre a maravilha e a inconsequência. Nunca deu em nada. E no que poderia dar? Encontrar umas gatas, quem sabe. Entrar numa balada e pagar de malandro, eu e meu amigo boleiro. Nada. O Bina só alardeava esses quereres. Lá, dentro dele, era uma solidão, só, ou o desejo de tê-la mais para si. Comigo, claro, seu cúmplice – sequer seu confidente. Pouco ou nada ele permitia escapar do que pretendia na vida, no carro, na Europa. Sim, a ida à Europa ele deixava vazar, muito de leve. Vou cair fora, meu parceiro, falava. Não era uma ascensão, um beijo da fortuna. Ia cair fora, como um desacerto, ou como se estivesse dentro de uma jaula da qual fosse preciso fugir, sem que soubesse ao certo o que ou quem havia do lado de lá. Enquanto isso não acontecia, ao sair do carro de volta para casa, sozinho, eu ficava com a sensação de não levar nada em mãos, daquelas noites. E tinha a certeza de que esse vazio do tempo com o Bina na noite paulistana era o centro do mundo, a coisa mais valiosa que me acontecia.
Pode ser que ele falasse assim porque as coisas no Corinthians não iam bem. Quer dizer, não iam bem para o time. O Bina de repente tinha passado de promessa recém-trazida das categorias de base à última esperança de que o clube não amargasse seu primeiro rebaixamento no Campeonato Brasileiro. A situação em novembro era complicadíssima. O Corinthians vinha de uma sequência sofrível de derrotas e precisava ganhar a maioria dos jogos para não cair. Ainda não tinham jogado a toalha porque o Bina sempre tirava um coelho da cartola. Mas com os cartolas mesmo, pelo que se dizia, a coisa não andava às mil maravilhas.
Esse moleque é muito sem noção mesmo, falavam na redação. Onde já se viu, mal largou as fraldas e agora inventou de mandar recado pro Andrés Sanchez, dizendo que quer sentar pra discutir o futuro do clube? Vai levar um corretivo, isso sim. Mas era isso mesmo que ele tinha falado?, queriam saber. Segundo gente de dentro do clube, sim. Não dava para saber ao certo. Intriga da oposição, consideraram. Podia ser, afinal Sanchez tinha acabado de assumir a presidência, numa eleição pra lá de acirrada. Fofocas e boatos em seu estado mais puro.
Pelo menos esse garoto tem alguma personalidade, coisa rara em jogador, defendeu o Elias. Que personalidade?, rebateu um colega de bigode, se ele não dá entrevista nenhuma, não foi no Milton Neves, não foi no Avallone, nem no Cartão Verde ele deu as caras? E tem mais: jogador tem que saber jogar bola, não tem que apitar em gerência de clube e debater com cartola. Joga bola e cala a boca.
Falavam alto na redação. Entre esse alvoroço, eu ia vendo, com alguma graça, meu amigo disputado como um boneco de pano, pra lá, pra cá. Puxando mais forte, pode ser que rasgasse. Mal imaginavam que, se me perguntassem, eu poderia resolver a questão num minuto. Fiquei com esse pensamento dando piruetas na cabeça, em meio à balbúrdia. E quando o silêncio deixou uma brecha, o pensamento, como se tropeçasse, me escapuliu: eu conheço ele, falei.
O quê?
Conheço o moleque, é meu amigo. De repente consigo agendar uma entrevista.
Pairou um silêncio gigante. Todos os olhos na sala pousaram em mim, sérios. O ar ficou demorado. Eu tinha que dizer algo mais. Mas não disse. Só fiquei mais sério que eles. Até que a coisa foi se quebrando em precipitação. Ha, aqui. Haha, ali. Hahahaha, desmoronando, doído, hilário. Hahahahaha, eu ria junto, como se enfim concedesse o absurdo da minha tirada ao meu público gargalhante.
Vai agendar uma visita!, o de bigode gritou. Porra, Elias, você escondendo o talento do seu estagiário? Ele blefou até o fim, hein. Já jogou truco, garoto? Amigo de jogador, fala sério!
Eu balançava a cabeça, modesto. Era engraçado, claro. Eu queria o quê, afinal? O pessoal foi dispersando. E o sorriso na minha cara durou mais do que deveria durar, postiço, afetado. Me debrucei sobre uns papéis, meus afazeres.
Talvez eles estivessem certos, os colegas. Não porque eu delirasse. Meu amigo jogador existia, isso era incontestável. Mas o que era isso de ter um amigo? E o que era isso de existir? Se eu contando ninguém cria, era porque eu mesmo não cria muito. Os romances mais fantasiosos que me faziam ler na faculdade, perto do que eu testemunhava, perdiam brilho. Lembro de uma aula sobre o Grande Sertão, já quase no fim do semestre. Isto é, não lembro nada, porque passei a aula inteira rememorando a cena da noite anterior, no Pacaembu, que revinha em lances duvidosos, como um sonho: eu, como sempre naqueles tempos, sob os apertos aflitos da Dona Ana, e o Corinthians empatando com o Atlético. Dureza. O Bina fez o que pôde. Mas não estava numa grande jornada. Na metade do segundo tempo foi substituído.
Esse daí já tá com a cabeça na Espanha, falou um corneta ao nosso lado. Pra quê? Dona Ana virou o bicho. Cê tá maluco das ideias, meu amigo?, ela dizia. Se não fosse esse moleque, o Corinthians já tava na Série B faz muito tempo. Depois enfiou o dedo na cara dele. Fala mais uma merda do garoto e eu volto aqui e arrebento a tua cara, esbravejou.
O cara ficou pianinho. Quase tiveram que separar. O jogo acabou com um rumor lúgubre, misto de tristeza e indignação. E eu, que durante a aula recordava com um pouco de nojo ter torcido pro rival, fantasiava, numa criatividade ao contrário, que tudo isso não passava de imaginação. A figura da Dona Ana, magrinha, feroz, bonita, mentira. O Bina, boleiro, distante, amigo, mentira. E só regressei desse faz-de-conta invertido quando cheguei na redação e o Elias me chamou de lado.
E essa história do outro dia? É amigo do cara ou não é? Dei de ombros, estiquei o beiço de baixo. Sou, falei. É mesmo?, ele quis saber. Mesmo. Então que arrumasse essa entrevista de uma vez, que ninguém na cidade conseguia conversar com o craque.
Não foi difícil marcar. Liguei pro Bina, contei a situação. Expliquei que ia me ajudar bastante no trabalho. Beleza, ele disse. Posso dar seu número pro Elias?, perguntei. Podia. E uns dias depois, quando eu chegava na redação, o Elias me viu passar e gritou, inclinando para trás na cadeira de rodinha: e o seu amigo, camarada, não tem staff não? Não tem agente? Você me deu o número do celular dele, rapaz!
Achou a maior graça. Não sei se era errado. O caso é que o Elias me contou que eles tinham marcado a entrevista pra dali a uma semana. Um café. Fácil, afinal. Anota aí na sua agenda, ele disse em seguida. Por quê? Ué, começa o serviço, termina o serviço. Você vai comigo na entrevista, completou.
Aquela semana passou demorada. Dois, três, cinco dias. Seis. Oito, nove, onze dias a semana tinha ganhado, de delonga em delonga, de desculpa em desculpa. Era uma sessão extra de fisioterapia para recuperar a pancada na derrota pro Vasco. Era não sei que ação de publicidade com a Nike. Era a concentração para o jogo decisivo contra o Grêmio. Tudo isso o Bina dizia para o Elias. Para mim ele falava que na terça ia chover, ou que na quarta era calor demais, e quando eu caía em mim, ouvia a voz dele mais grave, mais remota: ô, mano, preciso desligar. E o telefone ficava mudo.
Depois veio o pretexto absoluto: o Corinthians caiu. O imponderável aconteceu. Na rua, nas bancas de revista ou jogo do bicho, na voz do cobrador da linha 856R, eu gozei, testemunhando a zoeira com os gambás. No íntimo, achei que a entrevista tinha ido pra cucuia. Mas eis que, dois dias depois do rebaixamento, o Bina marcou com o Elias um encontro na quarta-feira. Dessa vez não adiou.
Chegamos no café por volta das 16h. Escolhemos uma mesa na calçada e pedimos dois expressos. Fumamos um cigarro. Fumamos outro. 16h30. Mais um expressinho?, o Elias convidou. Aceitei. As xícaras chegaram e substituíram as sujas. Fiquei encarando o pequeno morro de açúcar, afundando no redemoinho marrom claro da espuma. Olhei para o Elias e ele estava com o celular na orelha, sobrancelhas apertadas. Ouvi que do aparelho saía o som intermitente da ausência: tuuu… tuuu… tuuu. Nada.
Puta merda, meu chefe falou. Terminamos o café, comprei um maço de Hollywood na banca ao lado. 17h. Vou ao banheiro, falei.
De dentro do café eu espiei para fora. De lá o Elias não me via. Amigo, eu disse, tem como usar o telefone? Eu pago a ligação. O rapaz me olhou de viés, esfregando uns talheres. Usa aí.
Alô. Oi, Ana, sou eu. Oi, querido, tudo bem?, ela falou. Estava tudo bem. Mas queria saber se o Bina estava lá. Ele saiu, ela respondeu. Disse que tinha uma entrevista. Entendi, eu respondi. Eu olhei para fora e achei que houvesse alguma movimentação na nossa mesa. Passou um tempo. Está tudo bem por aí?, Dona Ana perguntou. Sim, claro. É que a entrevista era comigo, expliquei. Ué, ela disse, e desde quando você precisa marcar entrevista com o Bina? Pois é, parece que agora precisava. Não é comigo, é para a revista, esclareci. Você está trabalhando numa revista?, ela quis saber. Eu estava. Pensei que você soubesse, que o Bina tinha te falado. Ah, menino, ela suspirou, esse moleque não me conta nada.
Espiei para fora, mas não consegui ver direito. Dona Ana, eu falei, vou desligar. Ele deve estar chegando.
Voltei para a mesa em seguida. Lá, só o Elias, no terceiro café, comprando bala de uns moleques de rua. Mijo comprido, ele brincou. A tarde caía, no ar derradeiro de dezembro. 17h30. 17h45. E um silêncio se esticava para dentro da noite de verão.
Cê tá de brincadeira, o Elias rosnou. Cê tá de sacanagem comigo, falou, e deu uma pancada na mesa, que fez tilintar as colherinhas nos pires. Quem estava de sacanagem?, fiquei pensando. Na sequência, ele pediu a conta e fomos cada um para o seu lado.
*
No fim de janeiro, cada vez que passava um avião, eu me pegava achando que meu amigo estaria lá dentro. Seria uma viagem interminável pelos céus. Eu podia desculpar esse Bina ausente entre nuvens, porque lá não pegava sinal de telefone, não havia correios, nem computador para ele me mandar um e-mail, um gesto qualquer da despedida que ficou faltando.
Por um lado, sua partida foi um alívio. A vida se simplificou. Também, se ele falasse comigo, não teria muito o que dizer. Vai lá, rapaz. Arrebenta. Mostra para eles como é que se faz. Bobagens. E, mesmo se tentasse, me falharia a voz. Por essa época, fiquei rouco por mais de duas semanas. Não era o frio, não era uma virose. Fui no jogo do São Paulo, estreia do Campeonato Paulista. Meu time, campeão nacional no ano anterior, estava em lua de mel com a torcida. Precisava pôr minha voz à prova. Tentei acompanhar os cânticos, mas a voz não estava à altura de mim. Se eu tentasse mais, pode ser que alguma coisa se rasgasse na minha garganta. Mas se eu não tentasse, era como acatar que um pedaço da minha linguagem estava quebrado, talvez irremediavelmente.
Segui a vida. Do Corinthians rebaixado, na cidade, via poucas, esparsas camisas vestindo torcedores orgulhosos, mesmo com o clube no fundo do poço. Lembro de ficar olhando, sobre o preto listrado de branco, nas costas de um rapaz no ônibus, o nome do jogador que passou por lá tão brevemente no ano de 2007 e não vestiria mais essas cores. Benilson, diziam as letras. Aquilo não fazia nenhum sentido. Porque, por mais que nos uniformes, nos jornais, nas transmissões em televisão aberta ou pay-per-view todo mundo o chamasse de Benilson, meu amigo ia continuar, para mim, com o nome vago e um pouco incompreensível de Bina. E esse meu amigo, esse meu Bina, quando partiu para jogar na Europa eu tive a certeza de que não veria nunca mais.
Que alívio foi esse segundo capítulo. O primeiro foi bem difícil de atravessar, mas o restante fluiu muito bem. Com um ritmo bom, trazendo interesse aos poucos sobre a história.
Pra mim, a prosa rebuscada do começo atrapalhou mais a leitura do que contribuiu. Acho que principalmente nos 4 primeiros parágrafos, depois fluiu melhor. Lendo o 3º e 4º parágrafo eu chequei se tinha pulado algo. Trechos como “pois sabia que eu, no auge dos meus sete anos, levaria-me por conta própria aos braços de Morfeu.“ e “Também me aferrava à ideia, como um garoto endividado consigo,”, “uma lasca de vigília”, travam a leitura por demandar refletir ou decifrar como essas as coisas se relacionam.
Alguns questionamentos me parecem um pouco forçados também. Estranhar a rapidez de um gps achar um caminho. Só seria estranhado por alguém que não conhece. Ou quando ele se questiona “E quem sou eu para falar do tempo?” parece estranho, afinal nem é um tema em que se espera qualquer conhecimento técnico ou experiência.
Uma opinião bem própria, é de que por eu não me importar com futebol, acho as passagens de descrição de jogo e jogadas bem tediosas.
Em geral achei que fica bem claro para onde a história está indo, os personagens estão interessantes e bem construídos, as motivações vão se mostrando claras. Fiquei bem interessado em continuar a acompanhar a história.
Valeu pela leitura, Gabriel. Vou levar em consideração suas observações sobre o capítulo 1.
Sobre aquilo que você chamou de questionamentos forçados, bom, eu entendo que um papel interessante da literatura é tornar questionável aquilo que nos parece óbvio ou costumeiro. Sobre o tempo, especificamente, você diz “que nem é um tema em que se espera qualquer […] experiência.” Como não? Quer dizer que as pessoas comumente não tem experiência com o tempo? Elas vivem como então, à parte dele?
Sobre “demandar refletir”, bom, acho que esse é um dos principais papeis da literatura. Entendo que a realidade não está “dada”, ela é algo a se “decifrar”, para usar o seu termo. Acho que as leituras que foram mais gratificantes na minha vida exigiram de mim um esforço, muitas vezes enorme, e eventual releitura para entender o que estava acontecendo. Mas bom, essa é a minha postura diante do que leio. Você tem a sua, e acho muito valioso o seu testemunho para que eu possa compreender onde meu texto agrada mais ou menos a um leitor que preza pela fluidez. De verdade te agradeço, embora você, como outros aqui, tenha me colocado um enorme problema: devo ceder, em nome da boa avaliação, ao gosto de leitores cuja expectativa em relação à literatura difere muito da minha ou devo ser fiel a mim mesmo, assumindo o desinteresse que meu estilo suscita? Questão complexa de lidar.
Obrigado mais uma vez.
Primeiro de tudo acho que você tem que escrever pra você mesmo. Eu no máximo to tentando trazer alguma perspectiva que possa ser um ponto cedo pra você.
Eu curti o capitulo 2, enquanto o capitulo 1 foi arrastado. Mas se é o que você quer construir, eu acho que tá certo. To só te dando mais “ferramentas”, nesse caso percepções, pra tomar suas decisões mesmo.
Sobre a questão de tempo, acho que não ficou claro. Como todo mundo tem diretamente experiência com tempo, é muito estranho, pra mim, alguém dizer que não seria alguém para falar dele. Então eu concordo com sua resposta ao comentário, e por isso que estranhei.
Sobre a parte de decifrar e refletir, não foi sobre investigar entendimentos, disputar percepções ou fazer pensar. Foi o uso de combinações que, na minha percepção, não encaixam muito. E de novo, se você quer gerar isso, acho que acertou em cheio. A lasca de vigília serve como exemplo pra mim, na lógica dela não ser física, e portanto gerar um estranhamento que me fez travar a leitura e perder o ritmo.
Nada do que comentei é necessariamente negativo ou nada assim. Eu inclusive me considero um leitor menos experiente e autor ainda mais. E acho que vc deve levar isso em consideração.
Mas acima de tudo, acho que vc deveria seguir a sua escrita, nem que seja na primeira passada.
Brilha muito!
Excelente texto, Martim.
A narrativa é precisa e apresenta os detalhes necessários. Os personagens são bem desenvolvidos, estando envoltos nos encantos do futebol e dos vídeogames.
A escolha dos jogadores pelos capitães ilustra a meritocracia, o compadrio e a maldade dos seres humanos, presente desde a infância.
A roda de bobinho e a inércia do Bina frente às agressões são retratadas de maneira muito real. Lembrou-me a minha infância, a do meu filho, e tantos outros amigos ou colegas.
As diferenças sociais são evidenciadas com muita ponderação, o que particularmente eu aprecio.
A sua prosa é profunda e bem elaborada. Há um olhar crítico ao longo do texto, onde enxergo ser possível selecionar trechos para gerar uma série de crônicas.
Boa sorte nos próximos capítulos.
Cyro, obrigado pela leitura! Que legal saber que minha escrita ressoou na sua experiência. Fiquei pensando aqui no que você falou sobre as crônicas. Eu adoro crônicas (fico até esperando um Entre Crônicas por aqui…).
Vamos ver como a coisa segue!
Bina | Autor(a): Martim Butcher
Fase de Leitura: Capítulos 1 e 2
Data: 25 e 26/05/2026
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
“Bina” nos apresenta um romance sobre a relação de amizade entre Bina, um garoto da periferia de São Paulo, e Laerte, um garoto da classe média, ambos estudantes-bolsistas de um colégio de elite.
capítulo 1= não gostei. Capítulo 2 = muito bom, espero que continue assim
Honestamente, eu esperava mais futebol. Uma história sobre um jogador de futebol, quem sabe?
Enfim, saudações Rubro-Negras!
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Martim, li poucos textos seus para cravar “essa é uma obra do Martim!”. O que posso afirmar, no entanto, que eu percebi muito talento para escrever: ótimo vocabulário, construções de frases, uso de figuras de linguagem, capacidade para deixar implícitos subtextos.
Ah, e parágrafos enormes… Não me leve a mal, sou hater… Mas entendo que faz parte do seu estilo, o leitor também precisa ter jogo de cintura.
Ao mesmo tempo que eu acho que o autor conseguiu, em certos detalhes, reconstruir bem os tempos de escola, eu percebi que em outros detalhes a ambientação dá uma sapateada. Por exemplo, no capítulo 1, quando Laerte está lá dirigindo e imaginando as cenas de futebol, são descrições um tanto genéricas e até mesmo imprecisas (quando li, eu até pensei, realmente você personagem não joga futebol):
“Recebeu na lateral marcado pelo volante deu um totó de rosca com a esquerda deixando quicar pro meia enquanto escapava junto à linha da cal em disparada o meia de primeira fez o passe com o peito do pé em profundidade (aqui, quando eu imaginei a cena, eu sei que a bola foi para o mato, porque um passe de peito de é um chute…) e quando parecia que o zagueiro ia chegar antes ele…”
Já em outros momentos, eu percebo muito mais a voz eloquente do autor do que a do personagem. Talvez o maior exemplo disso seja a diferença de escrita entre o primeiro e o segundo capítulo. Talvez, com o desenvolvimento da narrativa, haja uma explicação para isso, não sei.
Bom, sendo sucinto e pragmático, gostei muito mais do capítulo 2 do que o capítulo 1. É um trecho dinâmico, focado, real, lúdico, com um estilo que parece capaz de sustentar história com excelência. Por sua vez, o capítulo 1, me soou forçado, longo, até um pouco pedante (perdão pelo adjetivo).
Já que estamos falando de futebol, eu imagino o capítulo 2 como um autêntico ponta driblador, que entre erros e acertos, golaços e furadas inacreditáveis, encanta o torcedor, enquanto o capítulo 1 é aquele jogador pragmático, de cintura dura, que os dados estatísticos são maravilhosos, mas tem um estilo de jogo básico.
Bina tem tudo para ser um personagem e um romance interessante. Será necessário, entretanto, ter um bom jogo de cintura para conduzir essa história
Givago, muito obrigado pela leitura e apontamentos. Sua disposição para ler os romances todos da brincadeira sem participar como escritor é admirável e generosa.
Adorei as observações. Claro que me senti afagado pelos elogios, mas prezo ainda mais as suas críticas. De fato, o capítulo 1 é problemático. Eu já intuia isso antes da entrega, e o seu olhar, assim como o de outros leitores, confirmou e deu forma a esses problemas. Pretendo, lá no fim do processo, escrever outra versão mais afim ao tom geral do romance, que é mais pé no chão, gingado, brasileiro – e futebolístico. Há, sim, uma justificativa retroativa para o pedantismo letrado do narrador, mas não creio que seja indispensável. Espero que você me acompanhe nesse romance para ver se lá na frente isso faz sentido. Acho que sobretudo se trata de um ajuste de tom nesse capítulo, não de conteúdo. Veremos.
Ótimas críticas a trechos pontuais. As repetições de fato devem ser suprimidas. O passe de peito de pé, bem, acho que não precisa ir parar no mato. Com jeitinho, poxa, rsrs. Palavras estrangeiras em itálico prefiro dispensar. Entendo a convenção, mas aqui sinto que ela quebraria a fluidez da voz. Por esse mesmo motivo escolho o discurso direto sem quebra de parágrafo nem nenhum sinal gráfico. Isso me dá a vantagem de alternar entre direto, indireto e indireto livre sem romper o fluxo verbal. Enfim, uma questão de estilo de que não abro mão.
saudações tricolores paulistas
olá, Martim! Se eu estiver vivo,
lerei seu segundo trecho! Paz!
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Atenção: esta é uma análise gerada por Inteligência Artificial, no contexto do presente Desafio, com base em fontes selecionadas pelo Autor.
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O texto “Bina”, de Martim Butcher, inicia-se como um mergulho memorialístico que utiliza o futebol não apenas como esporte, mas como a substância primária da imaginação de uma criança de sete anos que, ao ver os créditos da novela, já sente o “irresistível desejo de abandono” ao sono. A narrativa evolui para a construção de uma amizade complexa e semiclandestina entre o narrador e Bina, um menino “sério, de óculos — à parte”, que ingressa como bolsista integral no Colégio Tiradentes. O cenário alterna-se entre o ambiente escolar elitista, o apartamento de classe média do narrador e a periferia da Zona Sul de São Paulo, para onde viajam na Kombi do Seu Osmar ao som de raps que revelam uma “verdade que não era a minha” para o narrador. O trecho inaugural culmina em uma nota de revolta e desejo de grandeza existencial, após a mãe de Bina, Dona Ana, ser injustamente demitida sob suspeita de furto.
Essa obra conecta-se com o leitor através de valores universais como a alteridade, a busca por pertencimento e a descoberta da injustiça social. Como aponta Alain de Botton sobre Proust, o valor de um romance reside em identificar percepções que reconhecemos como nossas, embora não fôssemos capazes de formulá-las sozinhos. O leitor identifica-se com o “mar de constrangimento” do cumprimento de mão falho entre os meninos, um detalhe prosaico que Butcher eleva à categoria de “dádiva” de intimidade. Há uma honestidade brutal ao descrever como a amizade é mantida em segredo durante o horário escolar por conveniência social, refletindo o que Elena Ferrante define como a “desordem da amizade feminina” (aqui transposta para o universo masculino), marcada por instabilidade e sentimentos de inferioridade.
Sob a ótica psicológica e filosófica, o texto suscita questionamentos sobre a construção da identidade através do “Outro”. O narrador admite que o “outro” de seus sonhos era uma versão de si mesmo duplicada. Bina funciona como o “sujeito impenetrável” de Lacan, cujo desejo o narrador tenta decifrar: “O que ele dizia, bom, nem sempre eu entendia, mas dava na cara que ele era uma pessoa de inteligência acima da média”. Filosoficamente, Bina encarna o que Kierkegaard descreve como a “atitude irônica”, sorrindo para não chorar diante da destruição de sua individualidade pelo sistema de bolsas da escola. Bina despreza o jogo e a escola, operando uma “inesperada dignidade” ao se recusar a ser o “bobinho” da turma, mesmo quando fisicamente agredido pelas boladas. O texto questiona: é possível manter a integridade ética em um sistema que te “acolhe” enquanto descarta sua origem (a mãe)?
Tecnicamente, o arco narrativo é bem construído ao utilizar o futebol como metáfora da vida. O narrador aprende que narrar é “menos contar lance por lance do que flutuar num presente cheio de vazios”. Isso ecoa a premissa de Hemingway de que a escrita deve “fazer a vida ser real”, inserindo o “ruim e o feio” junto ao belo. A construção dos personagens é sólida; Bina não é um herói idealizado, mas alguém com uma “inteligência raivosa”. O uso da linguagem é preciso, capturando a transição do vocabulário infantil para a percepção das “camadas de significação” sociais. As metáforas são orgânicas: o videogame Winning Eleven torna-se uma “religião” onde Bina pode ser o “camisa 10” que a realidade social e física (os óculos e a cor da pele) lhe nega.
O texto tem forte afinidade com “Huckleberry Finn”, de Mark Twain, obra que Borges e Hemingway consideravam fundamental para a literatura moderna. A dinâmica entre o narrador e Bina remete à relação entre Huck e Jim: a jangada é substituída pela Kombi do Seu Osmar e pelo sofá da Dona Ana, espaços onde o preconceito social é suspenso em favor de uma verdade humana mais profunda. Diverge, contudo, das narrativas de formação clássicas ao flertar com o que Dunker chama de “lógica do condomínio” brasileira — o isolamento das elites e a segregação da periferia que Bina tenta romper não com submissão, mas com revolta.
Entre as qualidades do texto, destaca-se a capacidade de capturar o “grão do real” em cenas cotidianas, como a descrição da Dona Ana: “com um sorriso bonito, uma blusa de alcinha que deixava os ombros à mostra, narrando com erres puxados as reviravoltas da vida”. A força do diálogo entre Bina e o narrador é autêntica e foge do didatismo. Contudo, um possível defeito reside na figura do pai do narrador, que beira o clichê do intelectual de esquerda que “papagueia socialismos” sem agir. Embora Butcher use isso para dar “barganha” ao narrador sobre Bina, a “palestrinha” do pai pode soar cansativa se não for melhor integrada à ação dramática nas próximas etapas.
Em suma, “Bina” estabelece um começo potente para um romance que se propõe a ser uma “escrita da verdade”, como defende Ferrante. O autor demonstra domínio ao equilibrar a nostalgia da infância com a crueza da desigualdade social, terminando este primeiro capítulo com um “salto” no abismo: o desejo de ser o maior revolucionário do mundo em uma tenda soturna de festa junina. É um texto que, se mantiver a temperatura de suas “feridas ainda infectadas”, tem tudo para incendiar o leitor.
CRÍTICA APÓS LEITURA DA PRIMEIRA ETAPA
Como fui cobrado, li tudo de uma vez e fui fazendo anotações para comentar. kk então, lá vai: é interessante como o romance tem uma voz narrativa dual, ora poética, ora crua.
A estrutura de memória e presente simultâneos que você construiu no primeiro capítulo é tecnicamente sofisticada e funcionou bem para mim. O narrador adulto no carro, perdido no bairro residencial de Campinas, e o menino das quartas-feiras que adormecia antes do jogo existem no mesmo espaço sem que o texto precise demarcar fronteiras rígidas entre eles. Isso é difícil de fazer sem que o leitor se perca ou o autor se perca, e você sustenta com segurança. A frase sobre o futebol ser imaginário, dita depois da imagem do sono e da morte que se aproximam, é uma abertura muito boa. Quero ver amis construções imagéticas como essa.
O Bina do segundo capítulo é uma criação genuína, lembrou-me um pouco o Francisco do romance da Claudia (Não em personalidade, mas em força de criação). O ritual dos vinte minutos antes dos colegas chegarem, a saudação trocada, o cumprimento de mão que o Bina recusa mudar e que o narrador acaba cedendo, tudo isso é construção de personagem pela ação sem precisar da psicologia explícita.
A cena da Kombi com o Seu Osmar e a Dona Ana é um dos momentos mais vivos do texto. A mãe que ficou grávida aos dezesseis e narra as reviravoltas da vida, o rap que entra de fundo sem que o narrador consiga agarrar inteiramente porque é um mundo que não é o dele, o Bina cantando junto, a frase sobre a Dona Ana ter feito dele um homem e não uma puta. Você deixou esse mundo existir sem romantizá-lo e sem exoticizá-lo (Esse verbo existe?), que é a armadilha mais comum quando um narrador de classe média narra a vida de um personagem de outra origem. A beiradinha que o narrador pode pegar daquele mundo é uma das frases mais honestas do romance.
O pai do narrador e a noite de uísque com Zapata, Che Guevara e Sócrates é engraçada e exata, especialmente porque o narrador vê tudo com aquele tédio de filho que já conhece o repertório e ao mesmo tempo percebe que o Bina recebe aquilo como revelação (Lembrou-me um pouco de Big Fish, do Tim Burton). A tensão entre esses dois olhares sobre a mesma cena é um dos momentos de maior inteligência da etapa.
A festa junina e o episódio da demissão da Dona Ana acontecem sem alarde, quase de passagem, mas foi uma desaceleração que eu particularmente curti, coube bem.
O poço de moedas no final do segundo capítulo é a imagem que o romance vai precisar carregar por muito tempo, e você a construiu bem. O narrador que pede para ser narrador e erra o poço. O Bina que fecha os olhos, tira os óculos, e pede para ser o maior revolucionário do mundo. A assimetria entre os dois desejos diz tudo sobre os dois personagens e sobre o que o romance vai precisar investigar.
O primeiro capítulo, com toda a sua beleza, é também o mais hermético da etapa (Voltamos a essa palavra, hein?). A mulher que diminui no retrovisor com o livro na mão, o segurança que bateu no vidro, a hesitação na bifurcação da estrada, o ele que pode estar perdido para sempre: o leitor tem muito pouco para se agarrar. O texto confia tanto na atmosfera que por alguns momentos a narrativa se fecha sobre si mesma. Funciona como abertura de um romance que vai explicar retroativamente o que está em jogo, mas vai precisar que as revelações cheguem com certa urgência nos próximos capítulos, senão a opacidade do começo começa a parecer afetação em vez de construção. Entende o que quero dizer? Eu cito isso como uma “dica” para a segunda etapa.
O narrador ainda é mais lente do que personagem. Ele observa o Bina com uma acuidade extraordinária, sente o peso das coisas com precisão, mas ainda não sei o que ele quer de verdade, o que o move além da admiração pelo amigo. A história que está sendo contada parece ser principalmente a do Bina, e o narrador, por enquanto, existe para viabilizá-la. Isso pode ser uma escolha deliberada, mas se for, vai precisar de alguma fissura que mostre o que o narrador esconde de si mesmo além da autoironia sobre o desejo de ser narrador. Em termos de estrutura narrativa (Ironicamente), o narrador está deslocado ainda.
Um ponto menor: algumas frases no primeiro capítulo têm uma qualidade ligeiramente mais elaborada do que a voz do restante do texto, como se o estilo escorregasse por um instante para um registro mais ensaístico. Não é grave, mas vale atenção na revisão.
APANHADO GERAL
O romance é surpreendente e tem qualidade. Tem uma escrita literária consistente, um personagem secundário que rouba todas as cenas em que aparece, e uma estrutura de memória que promete uma revelação que o leitor já quer ver. Em minha opinião, a pergunta que o romance precisa responder agora é sobre o narrador: quem é esse homem no carro, o que ele perdeu, o que o Bina representa para ele além da admiração de adolescente por um amigo mais inteiro. A moeda que errou o poço é uma ferida aberta. O romance vai ser tão bom quanto a coragem de explorá-la. MAs, são apontamentos e direcionamentos de um leitor que pode acabar se surpreendendo com outra direção.
Parabéns!
André!
Pesei um pouco na cobrança, né? Foi mal… Mas bom, acabou dando certo, você fez uma leitura e tanto. Te agradeço muito.
Quanto às cenas destacadas positivamente, apenas te digo que fico muito feliz que elas tenham chegado a você dessa forma. A gente se esforça né, rsrs.
O que ficou aqui me azucrinando a cabeça foram certos problemas relativos ao protagonismo nesse romance. Você é um leitor muito perspicaz e colocou o problema de forma bem clara. Olha, pelo que escrevi já da segunda parte, sinto de informar que vou te decepcionar um pouco! As respostas sobre o narrador não virão em breve. Me chamou a atenção que você tenha chamado o Bina de personagem secundário, porque para mim ele é francamente o protagonista. De forma mais ou menos consciente, acho que tomo como modelos romances em que quem narra é muito menos interessante do que uma outra figura, que lhe causa espanto, admiração, amizade, ódio etc. Penso em Ishmael, que narra Ahab e a baleia; o narrador de Dr. Fausto (que inclusive cito na segunda entrega), que narra a história do amigo músico genial, Leverkuhn; e tantos outros. Entendo que para um romance “de herói” nesses moldes é preciso atenuar um pouco o protagonismo de quem olha. Em si, meu narrador não tem nada muito interessante, exceto, justamente, a construção de seu olhar.
Isso não quer dizer que ele não deva ter um arco próprio. Essa necessidade você aponta muito bem, e eu mesmo não a tinha percebido tão claramente. Obrigado por isso. Pelo que já escrevi, esse arco irá se desenhando, mas de forma lenta e sem ênfase. Haverá surpresas relativas ao narrador, sim, mas acho que mais pela administração formal do que pelo conteúdo das peripécias. Espero que o risco de afetação não se confirme. De fato, o capítulo 1 é um pouco hermético (eita palavrinha…). Não pretendo sustentar isso por muito tempo, mas em alguns momentos me dirijo conscientemente à criação de situações pouco claras. Bom, não dá pra falar muito mais, porque estou com a parte 2 na cabeça. Espero te encontrar lá!
Valeu, mais uma vez.
Olá, Martim! Tudo bem?
O começo do seu romance é bem enigmático, meio nebuloso e etéreo. Com o protagonista adulto dirigindo e lembrando as reminiscências da meninice… eu não curto nada sobre futebol e coisas futebolísticas, mas consegui entender o que o futebol era para o prota. Antes de dormir, quando era criança, não inventava jogadas de futebol, mas sim aventuras, e depois, na adolescência, romances, e na vida adulta, invento possíveis roteiros de livros que jamais escreverei. É a vida. Gostei bastante disso!
Quando o Bina entra na história, fica tudo mais concreto, menos nebuloso, e vamos entendendo melhor o protagonista, seus sonhos, seus ideais, suas crenças.
Os personagens todos tem voz própria, e é muito difícil fazer isso direito. A cena do caminho até a casa do Bina ficou perfeita nesse sentido.
Você nos apresenta tudo com calma, sem pressa, com uma escrita leve, fácil, cheia de personalidade. Fica muito gostoso de ler.
Apesar de não ter ideia de para onde vai o seu romance, estou curiosa para acompanhar.
Parabéns por ter encarado esse desafio!
Até a próxima etapa!
Priscila, fiquei surpreso que você tenha achado a leitura leve e fácil! E é um ótima surpresa, porque em geral eu me acho tão intrincado, sempre correndo o risco do pedantismo…
Fiquei feliz que você tenha reconhecido personalidade nas vozes. Dá um trabalho e tanto fazer isso né…
É tão engraçado ler que você “não tem ideia de para onde vai o [meu] romance”, porque aqui na minha cabeça está tudo planejado, rsrs. Acho que isso é um bom indício de que não estou dando tanta bandeira antecipada dos desenvolvimentos. O risco, talvez, seja de tornar a coisa por demais nebulosa. Mas acho que o mais nebuloso já foi, que era o capítulo 1.
Espero te ver na continuidade!
Obrigado.
Porra… que leitura incrível, cara. Foi mal começar o comentário com o palavreado assim mas… porra! Gostei demais, demais mesmo, da leitura. Cara, que escrita gostosa, que leitura redondinha, leve, profunda, descontraída. Soa muito natural, daquele tipo de texto que te envolve, te coloca num cantinho e conta uma história que faz perder a noção do tempo. Você escreve bem demais. E a história contada aqui ajuda: anda lenta, bem devagarzinho. Tem basicamente apenas o narrador e Bina como personagens, o que dá bastante espaço para os dois serem muito bem trabalhados, além de dar espaço para que o leitor crie um laço com eles.
O domínio da linguagem também é incrível. O primeiro capítulo tem um tom mais sério, soturno, narrado por um adulto, alguém que olha para trás na vida assim como olha para o retrovisor do carro, e se perde em nostalgias da infância e dúvidas do amor. Esse primeiro capítulo estabelece o personagem principal, e levanta um monte de perguntas. Quem é a mulher no retrovisor? Será que ele teve, realmente, algum futuro no mundo do futebol? O que aconteceu com os seus pais?
E daí começamos o capítulo dois, todo na infância do narrador. Aqui a linguagem vai para um tom mais infantil, menos poético e mais sincero. Informal sem ser cru. Acerta direitinho, e eu me senti ouvindo mesmo o relato de uma criança. E daí ainda nasce outra pergunta: e o Bina? Ele não está lá no primeiro capítulo, nas lembranças, na vida adulta do narrador. Se não está lá, o que aconteceu com ele? E o que aconteceu também com Ele, o jogador de futebol nos sonhos e na imaginação fértil do narrador?
Bina é um personagem incrível. Fica claro que o texto é a história de Bina contada pelo ponto de vista do narrador, que também é parte integrante da narrativa. O texto fica assim, indo e voltando, a importância de um personagem não tirando o peso do outro. Mas Bina realmente rouba a cena: é morador de favela, mas não é caricato. Fala no gingado correto, mas só com quem confia. Em meio que não se encaixa, é quieto, reservado. Mas em meio que se identifica, é solto, único.
Texto bom demais. Notei uns três errinhos de revisão mas nem me dei ao trabalho de anotá-los, são coisa boba, erro de digitação. Gostei também do estilo direto da escrita, fala misturada com parágrafo, sem se preocupar com muita formalidade nos signos da literatura. Tive que reler um ou outro trecho porque quando há três ou quatro personagens envolvidos na conversa, a coisa toda fica um pouco embaralhada. Mas, no geral, a leitura correu muitíssimo bem.
Estou muito curioso e empolgado para ler as próximas partes!
Marco, obrigado demais pelos elogios! Dá um alento e tanto saber que o que escrevi gerou esse prazer do lado de lá.
Agora, isso me gera um problema também… O problema da expectativa! Hahahaha. Bom, se tudo correr bem, os próximos capítulos vão te agradar também. Pelo menos quanto ao estilo, acho que encontrei um, e pretendo manter isso, com algumas nuances, como você verá. O capítulo 3 (o primeiro da próxima entrega), que já escrevi, será um desafio, nesse sentido. Mas acho que é o momento de experimentar. Em último caso, depois cortamos, vamos polindo.
É isso, obrigado mais uma vez.
Olá, Martim. Enfim aqui para o meu comentário descompromissado sobre a sua obra.
O que alguns relataram nos comentários como sonho, na minha leitura me veio como uma sensação de ilustração japonesa, ou uma narrativa mais conforme ao que na minha experiência é a literatura do médio oriente. Sendo mais precisa, seu texto me remeteu ao Orphan Panuk que li tempos atrás. Não é necessariamente mais lento, mas sem dúvida menos apressado do que uma narrativa ocidental, mais contemplativo talvez.
Não me importo que seu protagonista não tenha nome, a minha também não tem, e não achei que ele se chamasse Laerte. Também, para uma leitora como eu, uma introdução misteriosa como a sua, engaja mais que afasta do texto. A indeterminação para mim funciona como suspensão narrativa, tanto em livros como em filmes. No caso do seu texto, o primeiro capítulo criou uma atmosfera, uma moldura, que introduz traços da psiquê e das inquietações do narrador e algumas pistas dos motivos que o movem.
No segundo capítulo, o narrador nos apresenta o Bina que dá nome ao romance, e eu mergulho na sua história. Anotei dois pontos de atenção enquanto lia, ambos relacionados à forma.
O primeiro é o que eu vou chamar uma irregularidade nas escolhas lexicais que me causou estranhamento. Anotei o seguinte exemplo quando lia: “largasse a aura de cu de ferro que o cingia”. Pra mim as palavras aura e cingia não combinam com a expressão cu de ferro numa mesma frase. Acho que essa minha percepção dialoga com o que o Gustavo chama “excesso de correção gramatical” no comentário dela. A ver. Fica o ponto de atenção para sua reflexão.
Outra coisa foi, por acaso, um parágrafo em que me percebi atentando para as repetições do pronome “eu”. Não sou de observar essas coisas, mas já tive a orelha puxada pelo mesmo motivo por uma revisora. Segue o trecho.
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No segundo dia de aula, EU entrei na sala e ele estava lá. Sozinho – não por solidão, mas porque ninguém tinha mesmo chegado. Até aquele dia esse momento era meu exclusivo. EU chegava mais cedo que todo mundo porque minha mãe tinha que entrar no Tiradentes antes dos alunos. A gente se despedia no pátio de entrada e ela ia em direção à biblioteca, enquanto EU largava minhas coisas numa carteira encostada na parede da sala e ficava perambulando por meia hora, até que os colegas fossem chegando, um a um. Quando EU vi o Bina na sala, não sei bem como, EUsoube que dali em diante isso seria diferente. Bina tinha se encostado ali na região onde EU costumava sentar. Quando entrei, não disse nada. Nem desdisse: ficou olhando, apenas, não sabia se para mim ou para o nada. EU não podia, para mim mesmo, ir sentar do outro lado da sala. Então apenas fui. E quando cheguei perto dele, aquela presença ali, parada, me obrigou a um cumprimento. E aí, beleza?, EU falei, e ofereci a mão.
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Não li seu texto pensando em revisão, nem sei se essa repetição acontece em outros trechos, mas como acendeu uma luzinha na minha leitura, fica ai o ponto de atenção.
Percebi que você traz muitas referências temporais na narrativa, me chamaram atenção. Confesso que não fiquei preocupada em situar sua história no tempo, mas a insistência nas referências me soaram um pouquinho forçadas. A ver.
No mais, gostei imenso do seu texto. Gosto do seu narrador observador em primeira pessoa, a lá Great Gatsby. Seu protagonista tem muita presença física, o que eu chamo de “carne”, e o Bina é um personagem, embora mais esquemático porque visto pela lente do protagonista, muito cativante. As cenas em geral são bastante vividas, com destaque para a do aperto de mãos, muito boa. Adorei o gancho que você plantou no final dessa primeira parte e fiquei com muita raiva de ter que esperar mais de um mês para ver o que mais vai rolar na sua história.
Elisa! Muito obrigado pelos comentários. Fiquei muito contente de saber que o que escrevi te sucitou uma experiência menos apressada. Eu prezo muito isso. Não li o Orphan Panuk, mas minha mãe leu e me recomendou muito, hahaha. Tem um livro dele me esperando para algum dia.
Ilustração japonesa, adorei isso. E meio oriente. Acho que um dos meus modelos é o Kiarostami, sabe? Nos seus filmes e em outros livros que aprecio, o enredo está dissolvido no fluxo da experiência e da consciência. Há repetições, descrições que não estão em função direta do enredo. Acho que pretendo narrar um pouco assim, com baixa tensão, em baixa temperatura. A história vai sendo captada por pistas. Até acho que isso vai ficar mais explícito na segunda entrega.
Obrigado demais pelos apontamentos. A repetição de eu é certamente algo a se corrigir (e uma espécie de ato falho, eu diria). Vou prestar atenção na questão das referências temporais. O tempo é um elemento central na macroforma desse romance (isso vai ficar mais claro na entrega seguinte). Talvez por isso eu tenha medo de perder o controle sobre ele. Já sobre a aura de cu de ferro, entendo que não combine, mas justamente há uma busca por coadunar estilo elevado com estilo baixo. Isso tem a ver com a formação do narrador, como expliquei ao Gustavo. Espero que isso se justifique retroativamente (assim com várias coisas), por isso gostaria de retomar essa discussão lá na frente para ver se faz sentido pra você.
Muito obrigado mais uma vez.
Este começo está promissor. Parece um fio embolado que precisa ser desatado, um fio de Ariadne que vai conduzir para fora do labirinto.
Ler este texto é como emergir de um sonho. Achei muito pertinente e significativa a menção a Enter Sandman. Por vezes, tive a impressão de sair de um sonho para outro, e deste para outro.
Nada parece muito real ou concreto, toda a narrativa construída a partir de vapor e lembranças. O tempo também é fugidio. Tive dificuldades em me situar temporalmente. Tive a impressão de que a história se passava nos anos 80, por conta da Parati e dos jogadores de futebol cujos nomes reconheci. Mas daí, celulares são roubados. Epa. Não são os anos 80.
A própria estrutura do texto, indo e voltando no tempo reforçam esta sensação de irrealidade.
No começo, o protagonista está dirigindo, deixou uma mulher em um lugar, depois passou novamente por ela. Ele é motorista de aplicativo, ou deu uma carona a alguém? Dali, ele parte em direção a Vinhedo, uma viagem planejada desde a véspera. Quando chega ao acesso à cidade, sente-se tentado a passar batido.
Entramos, então em suas lembranças, de quando conheceu Bina. Neste momento, me questionei se Bina seria o Tyler Durden do protagonista. Aliás, qual o nome do protagonista? Laerte? Ou Laerte é o pai? O único momento em que o nome surge, é na boca da mãe, perguntando da escolinha. E quem responde é o pai. Fiquei com isso na cabeça, que Laerte seria o nome do pai.
Minhas duas perguntas até agora: quando se passa a história, tanto a dos meninos quanto a do tempo presente, e qual o nome do protagonista?
Voltando a Bina, ele não é, como sugerido pelas minhas ideias amalucadas, um ser imaginário. Ele é real e representa, dentro do mundo “meio protegido-meio outsider” do protagonista, a realidade, o mundão.
Considero o protagonista um outsider porque, sendo bolsista, ele não é exatamente do mesmo mundo privilegiado dos demais alunos, que voltam para casa de motorista particular. Percebe-se nele um desejo de se adequar àquele mundo. E Bina, na minha opinião, é o convite para virar as costas a eles e conhecer o mundo real.
Esta primeira parte termina com a injustiça, o roubo dos celulares sendo atribuído à mãe de Bina e a seu Osmar e à reação dos meninos. No protagonista, nada parece mudar de fato. Ele quer ser narrador, o que já se mostrou antes. Mas Bina quer ser revolucionário.
E aí, o que vem em seguida?
Gostei muito deste começo onírico, fugidio e desses personagens instigantes.
Como prometido, venho trazer a análise técnica do seu texto. A conversa está em terceira pessoa, pois a análise foi redigida antes de trazer pra cá.
Retomando o Capítulo 1, acho importante esclarecer melhor minha impressão inicial. O problema, para mim, não é simplesmente o protagonista não ser nomeado logo de saída. Há romances que sustentam muito bem esse tipo de escolha. O problema é que, neste caso, a ausência de nome vem somada a outros elementos de indeterminação: título provisório/vago, pouca clareza sobre quem é a mulher deixada para trás, pouca definição do conflito imediato, presença tardia de Bina e uma abertura muito apoiada em divagações sobre sono, futebol, infância, morte, estrada, GPS e imaginação.
Vejo uma unidade temática no capítulo: o futebol como imaginação, o sono como entrega/derrota, a estrada como suspensão, o GPS como obediência, a jogada inventada como repetição sem desfecho e a bifurcação como imagem de uma decisão que o narrador hesita em tomar. Isso mostra elaboração formal. O capítulo não é aleatório. Mas, como abertura de romance, ele me parece mais preocupado em instaurar uma atmosfera de inteligência e melancolia do que em criar um pacto narrativo claro com o leitor.
A cena presente — o homem dirigindo, saindo de uma casa, perdido em Campinas, cogitando ou não seguir para Vinhedo — poderia ser forte. Há uma mulher no retrovisor, um segurança desconfiado, uma viagem planejada, uma hesitação diante da estrada e a menção a um “ele” perdido para sempre. Só que essas informações aparecem fragmentadas e soterradas por reflexão. Em vez de o mistério crescer como tensão, ele se dissolve em formulação ensaística.
Também acho que a repetição das jogadas imaginárias tem função formal, porque encena a própria compulsão do narrador por recomeçar, corrigir e narrar. Mas, como experiência de leitura, ela alonga demais uma ideia que já havia sido compreendida. O recurso é coerente, mas o efeito é cansativo.
Então, quando eu disse que o capítulo me parecia deslocado para romance, era nesse sentido: não porque romance precise ser simples, linear ou imediatamente explicativo, mas porque uma abertura precisa oferecer algum tipo de necessidade de continuação. Aqui, eu vejo linguagem, tema e intenção; o que me faltou foi tensão narrativa suficiente para me fazer querer seguir por desejo, não por obrigação do desafio.
O Capítulo 2 é melhor que o primeiro em termos de fluidez. Ele tem cenas mais reconhecíveis, personagens mais concretos, uma progressão temporal mais fácil de acompanhar e um conflito social mais nítido: escola elitizada, bolsistas, classe, humilhação, amizade secreta, futebol, videogame, mãe funcionária, pipoqueiro acusado, injustiça institucional e desejo de grandeza. Isso já é mais narrativo do que o Capítulo 1.
Mas o problema central permanece: a narrativa não confia na cena. O autor narra um acontecimento e, em seguida, o recobre com reflexão, hesitação, interpretação retrospectiva, comentário sociológico ou formulação bonita. Quase tudo chega ao leitor filtrado pela inteligência adulta de Laerte. O resultado é que o capítulo parece ter bons materiais narrativos, mas eles são constantemente domesticados pela voz ensaística.
Há uma história forte aqui: um garoto de classe média/bolsista conhece Bina, um aluno ainda mais vulnerável socialmente; Bina sofre humilhação, resiste de forma silenciosa, cria uma amizade secreta com Laerte, entra na casa dele, encanta-se com o discurso político do pai, leva Laerte para sua própria casa, depois vê sua mãe ser demitida injustamente após uma suspeita envolvendo o pipoqueiro Osmar. Isso tem romance. Isso tem conflito. Isso tem classe, desejo, vergonha, fascínio, culpa, formação. O problema é que o texto demora demais para deixar esses elementos respirarem como ação. O maior problema: Bina é título, mas não é centro dramático
Ele é central como objeto de fascínio, mas não como sujeito narrativo.
Tudo que sabemos dele vem pela consciência de Laerte. Bina é descrito como enigmático, digno, raivoso, inteligente, altivo, seletivo, revolucionário em potência. Só que isso chega menos por ações próprias e mais por interpretação do narrador. Laerte diz o que Bina “parecia”, “talvez” sentia, “devia” pensar, “dava a entender”, “significava”. Esse acúmulo cria uma aura, mas também impede Bina de existir plenamente.
O efeito problemático é que Bina vira uma espécie de espelho sofisticado para Laerte: por meio dele, Laerte pensa futebol, classe, infância, culpa, masculinidade, privilégio, desejo de narrar, desejo de pertencer. Isso pode ser uma escolha legítima, mas até agora cria uma contradição: o romance se chama “Bina”, mas o verdadeiro centro é a consciência de Laerte diante de Bina.
Se isso for deliberado, o texto precisa assumir melhor essa assimetria. Se não for, há um problema estrutural sério. O narrador é refinado, mas também autocentrado
Laerte é um narrador culto, articulado e capaz de boas formulações. Mas, para o romance, isso vira uma faca de dois gumes. Ele pensa demais sobre tudo, e quase sempre pensa bem, com frase lapidada, imagem elegante, digressão organizada. O risco é que a voz fique mais interessante para o próprio narrador do que para a história.
Exemplo: a amizade secreta com Bina é um material ótimo. Há vergonha, classe, cumplicidade, covardia, desejo de exclusividade, medo do olhar dos outros. Mas o texto comenta tanto essa amizade que o leitor sente menos o constrangimento do que a explicação do constrangimento.
O mesmo vale para o episódio do “bobinho”. A cena é forte: os colegas chutam a bola no corpo de Bina, escalando a agressão até quase acertarem o rosto. Isso deveria ter um peso brutal. Mas a narração logo transforma a cena em leitura de dignidade, desprezo, rito de passagem, integração escolar, dinâmica de bolsa. A violência existe, mas é absorvida pelo raciocínio. O texto tem bons episódios, mas estrutura inchada
O capítulo tem uma sequência de blocos:
O material é rico, mas parece uma novela inteira comprimida em um capítulo. O problema não é exatamente “acontece pouco”; é o contrário: acontece muita coisa, mas quase tudo em modo retrospectivo, resumido e interpretado. O texto avança por blocos de memória, não por cenas com tensão presente.
O final do poço dos desejos é o momento mais forte porque finalmente há uma cena com símbolo, conflito e promessa: Laerte deseja ser narrador; Bina deseja ser “o maior revolucionário do mundo”. Esse final é bom. O problema é o custo de chegada até ele.
O texto ganha vida quando Bina aparece. Antes disso, a parte da escolinha e da desistência do futebol é bem escrita, mas parece repetir o problema do Capítulo 1: memória, futebol, pai, infância, imaginação, resignação. Serve como base temática, mas demora a entregar tensão.
Quando Bina surge, a narrativa finalmente ganha contraste. Ele traz diferença social, mistério, atrito, silêncio, humilhação, orgulho. O texto passa a ter algo em jogo. Isso sugere uma falha de calibragem: talvez o capítulo devesse chegar antes nele, ou fazer a introdução de Laerte ser mais curta. A linguagem é boa, mas o virtuosismo pesa
Não dá para dizer honestamente que o autor “escreve mal”. Ele escreve bem. Tem domínio de frase, ritmo, vocabulário, ironia e construção de memória. O problema é outro: ele parece escrever bem demais o tempo todo, inclusive quando a cena pediria sujeira, atrito, simplicidade ou brutalidade.
Há trechos em que o acabamento literário cria distância emocional. A voz quer interpretar a experiência antes que o leitor a sinta. Isso gera um efeito de texto autoconsciente: a narrativa parece sempre saber que está sendo literária.
Esse é um ponto forte para conto ou crônica memorialística. Mas, no desafio, como primeira entrega de romance, o risco é afastar o leitor que espera mais conflito encarnado e menos narrativa ensaística.
Oi, Luã,
Obrigado pelos comentários, você foi cirúrgico, de verdade. Olha, eu bem que gostaria de incorporar suas críticas, mas se eu fizer isso, acho que não sobra nada do romance. E para falar a real, acho que não sobra muito de mim como escritor. O que consigo fazer é isso aí: narrar por mediação, pôr em cena a linguagem e a consciência que tentam em vão captar o outro e a experiência (e por isso os apagam), e mais meia dúzia de malabarismos sintáticos. Não acho que seja grande coisa, mas é o que tenho. Talvez soe pretensioso porque eu escrevo bem. Talvez o fato de eu escrever bem prometa uma boa literatura, e por isso a decepção seja maior. Escrever bem não tem nada a ver com fazer boa literatura, eu sei, mas sou também prisioneiro dessa habilidade. Eu não saberia escrever de outro jeito. Pretendê-lo seria desonesto comigo (e com o leitor).
Mais uma vez agradeço pela dedicação nesse comentário. Não vou te prometer que o livro vá melhorar, porque o que escrevi para a segunda entrega, de certo modo, é ainda pior. Mas sobre isso a gente conversa lá na frente.
Buenas ami, irei compartilhar minha singela opnião do que mais me pegou no texto: O que mais me chama atenção no texto é essa sensação de que os adultos estão ali, mas ao mesmo tempo não estão de verdade. Eles aparecem, falam, interferem, mas não parecem ocupar totalmente o espaço, é como se fossem meio borrados, meio distantes. Isso me lembrou muito a atmosfera de História do Olho do Georges Bataille. Lá também existe essa sensação estranha: os adultos existem, mas não organizam nada, não sustentam a realidade. Eles são quase como uma névoa, um fundo meio instável, enquanto a experiência principal acontece em outro nível, mais íntimo, mais sensorial.
Aqui acontece algo parecido. A mãe, o pai, a escola, os adultos em geral, nenhum deles parece realmente “segurar” o mundo. Quem segura é a imaginação do narrador, as memórias, os sonhos, as repetições. Isso dá uma sensação meio solta, meio flutuante, como se tudo pudesse se desfazer a qualquer momento.
Já a parte da “versão melhorada” de si mesmo, é quase como criar outra pessoa. Esse “ele” que joga melhor, que faz os lances perfeitos, não é só o narrador idealizado, é uma duplicação mesmo.
E tem um detalhe importante: o narrador não quer só ser esse outro, ele quer ver esse outro e contar o que ele faz. Ou seja, ele se divide em dois, um que vive e outro que observa, quando o sujeito já não dá conta de ser só um, ele cria outro para ocupar esse espaço.
Só que aqui isso aparece de um jeito mais silencioso, mais cotidiano. Não é um drama explícito, mas dá pra sentir uma espécie de vazio por trás ,como se o narrador nunca estivesse totalmente dentro da própria vida, sempre um pouco de fora, assistindo.
No fim, essas duas coisas se juntam:os adultos que não sustentam o mundoe o narrador que precisa inventar uma versão de si para preencher esse espaço
E isso deixa o texto com essa sensação estranha e bonita ao mesmo tempo, meio sonho, meio memória, meio coisa que nunca terminou de acontecer. PS* Eu imaginei todas as cenas como se fosse um roteiro de um filme do Bergman, (provavelmente pelo fato da foto ao incio do texto me lembrar uma cena do filme A Hora do Lobo)
Olá, Canibalismo,
Pô, que legal ler suas impressões, ainda mais sendo de alguém que não está participando do desafio. Obrigado demais pela leitura. Fiquei até me perguntando se a gente se conhece de algum lugar, mas não né?
Enfim… Você colocou em palavras algo que eu acho que venho tentando fazer, mas nunca formulei dessa maneira: narrar como se o narrador não estivesse dentro da própria vida. É um pouco o que penso que ocorre quando o sujeito se aproxima demais da ficção, ou quando a ficção ameaça dar conta do espaço incompleto que a realidade sempre deixa.
A História do Olho, nossa, gosto muito. Li naquela edição que tinha uma foto lindíssima na capa. E li meio de virote numa noite, então tenho uma lembrança completamente fragmentária do livro. Mas parece que algo ficou dessa leitura na minha escrita, pelo que você apontou!
Esse filme do Bergman não conheço, vi outros dele, mas esse não.
Obrigado pela leitura uma vez mais!
Abraço
Acho meio impossível a gente se conhecer, dado ao fato de que só saio de casa pro trabalho e do trabalho pra casa rsrs
Eu amo a história do olho, achei na biblioteca do centro cultural do bairro em que morava, e além de ter achado o nome fantástico a capa é icônica. É uma fotografia do Man Ray, eu também li de uma vez em uma madrugada aleatória da minha adolescência…
Olá novamente!
Para não dizer que ignorei completamente a sua resposta ao meu comentário anterior, li o começo e parei, pois vi que era mais um texto grande e repetitivo. Havendo tempo e oportunidade, posso dar uma olhada e respondê-lo, já que o meu compromisso é primeiramente com o texto e não com o debate em si.
Terminei de ler a sua primeira entrega e a opinião negativa sobre ele continua. Agora houve apenas um ajuste dos motivos para esta impressão ruim.
Enquanto no primeiro capítulo temos divagações e palavras bonitas que aparentemente não levam a lugar nenhum. Nem ao destino que o personagem colocou no GPS. No segundo, temos uma narrativa mais fluida e mais envolvente, ainda que seja muito nichada para quem se identifica com o contexto do narrador, o que não é o meu caso.
Este não é o meu último comentário ao seu texto, apenas o compartilhamento da experiência de leitura logo após a realizada desta. Então, se você está sentindo falta de análise mais aprofundada, ela ainda vai acontecer. Contudo, não sei se vai valer tanto a pena no seu caso, já que o problema é mais de conteúdo do que de forma, mas enfim, continuando o relato sobre o segundo capítulo…
O personagem que dá título ao romance até agora é um coadjuvante. Não sei se você tem planos de colocar a história narrada sob a perspectiva dele, mas seria talvez a salvação dessa história caso isso acontecesse.
O que vi até agora foi uma narrativa comum heteronormativa contada sob a perspectiva de um homem branco. Acho que crítico como você é, deve saber que já passamos da fase em que isso tipo de conteúdo possa ter algum apelo popular. Será que os demais homens desta categoria teriam vontade e paciência pra ler uma história de escrita tão refinada? Tenho minhas dúvidas.
Caso haja uma reviravolta e se desenvolva uma relação amorosa entre Laerte e Bina talvez haja alguma redenção em todo o sacrifício que o autor impõe ao leitor até chegar nisso. No fim das contas, a história só começa a ficar interessante quando o Bina entra nela, então nem me surpreende que o protagonista ficou tão interessado por ele. Pena que ele continuou sendo apenas coadjuvante na narrativa.
Resumindo: está bem escrito, é razoavelmente aceitável para o público ao qual se destina (o qual ainda não descobri qual é), mas eu pagaria pra ler isso? Jamais!
Ah, como defesa prévia das possíveis lamentações: por que a maioria dos garotos que sonha em ser jogador de futebol nunca chega lá? (Revirar de olhos nesse clichê) Resposta: porque eles alimentam a ilusão de que são bons apenas jogando “pelada”. Então se você quer realmente ser profissional, dê mais duro e prove que você é tão bom quanto diz.
Até a próxima, abraço!
Luã, te respondo aqui à sua última resposta porque o site não permite tréplica. Espero que você veja.
Sobre o que eu disse (“me pergunto o que você anda lendo — ou não lendo”), de fato passei do ponto aí. A fala foi desrespeitosa e não contribui para uma relação produtiva. Quero te pedir desculpas por isso. Também acho que você foi um tanto desrespeitoso e depreciativo em alguns momentos, inclusive desqualificando gratuitamente a fala de uma pessoa que não tinha nada a ver (no grupo de whatsapp). Acho importante dizer isso; depois, é com você decidir o que vai fazer com isso.
Considero algumas de suas observações muito pertinentes e seria uma pena descartá-las por conta das depreciações. Digo isso porque confio que a gente pode se esforçar para restituir a segurança do nosso espaço de troca, que em mais de um momento pareceu ameaçada (por responsabilidade de ambos). Penso que um objeto tão frágil quanto um romance em construção requer um espaço minimamente seguro para ser exposto. E, se entendi bem a proposta do EC, cabe a todos zelar por essa segurança.
Seguimos.
Olá, Martim, cá estou para falar sobre seu texto, sobre a abertura do seu romance. Confesso que criei alguma expectativa quando li na diagonal, ao postá-lo com os demais do nosso Entre Romances. Isso porque o tema de fundo, pelo menos este, do início, me atrai bastante, que é a vontade que todos nós (eu, pelo menos) já tivemos de ser jogador de futebol. Como alguém que nasceu nos anos 1970 e foi criança nos anos 1980, influenciado pelo Flamengo do Zico, pelo Corinthians do Sócrates e pelo Inter do Falcão, não me era possível conceber outra profissão, mesmo quando tudo (ou melhor, a realidade) apontava para o lado oposto… Mas, fazer o quê? A gente precisa aprender a se decepcionar e, de repente, essa constatação é algo que nos faz crescer, perceber que o mundo é bem diferente do que a gente, aos dez ou doze anos consegue imaginar. Na verdade, até escrevi um conto sobre esse tema, no já distante ano de 2015, depois revisado, no Desafio Cotidiano (aliás, um desafio excelente, diga-se de passagem).
Bem, estou divagando. Fato é que histórias de amadurecimento, de percepção da realidade, de fragmentos de memória que vão se somando aos poucos, ainda mais quando se misturam a vida adulta com a vida de criança, acabam sempre me contagiando, talvez pela facilidade de identificação, talvez por nostalgia. Niccolò Ammaniti e John Boyne são mestres nisso, além do Khaled Hosseini, autores de quem eu leio até lista de supermercado.
O lado bom é que a leitura acaba fluindo fácil, mas o lado não tão bom é que eu acabo elevando as expectativas lá para o alto. E, sabendo já da sua habilidade diferenciada para escrever, devo acrescentar que o sarrafo foi parar na estratosfera haha
Pelo que entendi até o momento, temos aqui um sujeito, Laerte é nome, que parece trabalhar como motorista de aplicativo (parece porque não fica claro, uma opção deliberada sua, como autor) que relembra a infância, quando tinha dificuldades para dormir e que, nas insônias de todas as quartas-feiras, imaginava-se como um craque da bola. Como aconteceu comigo, o pequeno Laerte logo se dá conta de que talvez não seja assim tão bom, mas algo diferente ocorre durante essa percepção, que é o encontro com Bina, um garoto por quem ele sente um misto de curiosidade e admiração justamente por ser alguém que não está levando a vida (ou as pessoas que o cercam) muito a sério.
Nesse início, quando a amizade deles começa a se formar, quando ocorre essa relação meio escamoteada, “conheço-não-conheço-Bina”, acabei me lembrando do “Olhai os Lírios do Campo”, do Veríssimo Pai, que, você sabe, tem como protagonista o filho de um faxineiro que ganha uma bolsa na escola em que o pai trabalha e fica constrangido quando o encontra. Aqui não se chega a tanto, embora haja vergonha por parte do Laerte em revelar aos colegas que mantém uma relação de amizade com o garoto esquisito.
De qualquer forma, entre eles, as diferenças culturais e sociais não atrapalham em nada. Logo estão frequentando a casa um do outro, se acabando de jogar Winning Eleven e por aí vai. No fim, há a situação de injustiça, com a mãe de Bina sendo acusada indevidamente de participação num furto de celular. Laerte, por certo, fica indignado, mas é Bina que, talvez influenciado pelo pai de Laerte, parece descobrir sua real função no mundo: tornar-se uma espécie de Che-Guevara pontepretano.
Dá para perceber uma amizade forte se formando entre os meninos, algo que o episódio de injustiça leva a se acentuar, mas, se é para fazer algum exercício de futurologia, arrisco a dizer que acabará colocando a relação deles à prova – ou pelo contribuindo para isso.
O gancho com o Laerte do futuro, motorista de aplicativo que coloca “Vinhedo” no GPS, permanece obscuro, sem muitas pistas ainda, mas acredito que não vai demorar a aparecer. O que é ótimo para segurar o leitor (este leitor, pelo menos).
Bom, até o momento posso dizer que a prosa me agrada bastante. A narração é segura, fluida, competente. Não pesquei erros ortográficos ou gramaticais. Nem tentei, na verdade, já que fiquei absorvido pela história. Os diálogos são naturais e as situações são bem montadas, resultando num texto maduro.
Não posso deixar de comentar, em todo caso, sobre o que não curti tanto assim. No início, me parece haver um excesso de correção gramatical. Vou tentar explicar melhor: no geral, a trama tem um aspecto de história do cotidiano, o que, a meu ver, demanda uma prosa mais informal. No início, até Laerte encontrar Bina, a narração escapa ao informalismo, com diversas passagens em que os pronomes são utilizados de acordo com a norma culta (e em desacordo com o jeito popular de falar). “Perdia-me”, “Contava-me”, acabam dando ao texto um ar erudito desnecessário, que não combina com o restante. Esse problema desaparece depois que Bina se firma na história, mas até então parece poluir desnecessariamente os parágrafos.
Outra coisa que me incomodou (e aí, de repente, o problema sou eu mesmo) foi a ambientação. Quando se mencionam diversos jogadores do Corinthians (Sócrates, Zenon, Biro-Biro), além do carro Parati, na minha cabeça vieram os anos 1980. Além disso, saber que aquela realidade vinha da lembrança de quem, hoje, é motorista de aplicativo, só fez reforçar essa constatação inicial. Mas, eis que de repente, vem à tona o ano de 2003 e adjacentes… Fiquei confuso.. Ué? Não eram os anos 1980? Logo a história se firmou no século XXI e vi que, de fato, os anos 1980 estavam fora da jogada. Bem, ainda que a falha possa ser minha, de meu viés nostálgico, talvez fosse uma boa ideia trocar a marca do carro – tipo um corsa, um uno mille, um gol. E, melhor ainda, mencionar jogadores do Corinthians do fim da década de 1990, como Neto, Ronaldo, Tupãzinho…
Mais um detalhe – e esse é bem pontual – é a frase “Mas naquela noite tinha uma expressão que nunca vi se repetir, e que na certa nunca mais verei estampar o seu rosto”. Me parece (“parece-me” não kk) que há certa redundância nela. Se ele nunca viu a expressão se repetir, obviamente nunca mais a verá estampada no rosto do sujeito, né?
Enfim, tirando essas firulas, digo que no geral a história me agrada bastante. Dizem que em literatura todos temos um tipo de leitor ideal. Pelo menos no que se refere a esse texto, assim me considero. Tenho certeza de que vou apreciar os próximos capítulos. Parabéns e boa sorte no desafio.
Gustavo! Parece que dei sorte em te ter como leitor, hein? Para mim é ótimo, até porque seus comentários foram cirúrgicos, em detalhes que podem melhorar o romance. Esse lance da contextualização da década é importante sim, eu achei que não ia ficar dúvidas, mas relendo entendi que o texto indica anos 80, por causa dos jogadores citados. Esses jogadores são referência para o pai, que imagino nascido em 1960 (aliás, é o pai que se chama Laerte, conforme o único diálogo em que esse nome aparece; mas entendo que esteja ambíguo e vou ajustar, porque minha intenção é que o narrador não seja nomeado nunca). Estou pensando em uma solução para preservar esses nomes de jogador e já contextualizar nos anos 1990/2000. Gostei da sugestão do nome do carro (eu pensei em Parati porque minha família tinha uma nessa época, mas de fato não é tão típica como Corsa, como você bem sugeriu).
“Mas naquela noite tinha uma expressão que nunca vi se repetir, e que na certa nunca mais verei estampar o seu rosto”. A primeira oração se dirige ao passado; já a segunda, ao futuro. Não é a mesma coisa. Mas de fato, dá pra melhorar. Vou reelaborar.
Por fim, muito pertinente o comentário sobre a correção gramatical. Não foi algo muito consciente e estou considerando ajustar conforme seus conselhos. Olha, por enquanto vou manter como está, porque há uma razão para que o narrador se expresse desse jeito, uma razão que mora no seu desenvolvimento como personagem e que já está cantada na primeiríssima frase do livro, a qual contém uma intertextualidade com um clássico moderno. Não vou explicar mais para não dar spoiler. Mas quando a gente chegar lá no fim, retomamos esse ponto.
Ah, achei engraçado uma coisa que você entendeu “errado”, mas não vou esclarecer agora, porque o avanço do romance já vai fazer isso, espero.
Valeu demais pela leitura!
Valeu, Martim. Acho que a parte mais legal desse desafio vai ser a troca de experiência e de impressões durante o desenvolvimento da história. Perceber o que está funcionando bem e o que pode funcionar ainda melhor. Fico feliz por fazer parte do amadurecimento da trama do Bina e do seu amigo Laerte Junior kk E, lógico, espero ser surpreendido. Em frente!!
Olá, Martim!Ao longo deste mês, farei comentários de acordo com o fluir da minha experiência de leitura. A seguir, apresento as impressões iniciais sobre o capítulo 1.
É perceptível que você se preocupa muito com o estilo. Às vezes até parece que a forma é mais cuidada do que o conteúdo. Isso é muito bom para textos de narrativa curta, mas para o projeto que estamos propondo, talvez não seja a melhor escolha.
Digo isso como leitor ávido que sou, mas do tipo que não gosta de se sentir “enrolado” pelo autor. Para alguns dos ditos “clássicos”, é possível fazer concessões e dar a oportunidade da descoberta, mas para quem ainda não tem o trabalho conhecido, esse tipo de abordagem é motivo suficiente para ser descartado antes que você sequer tenha dito a que veio. E este é o ponto.
Vivemos na era do audiovisual e você deixa bem claro que entende esse contexto nas várias referências que cita em sua narrativa. Isto significa que, gostando ou não, a maioria das pessoas já não tem níveis de tolerância adequados a conteúdos muito complexos, muito menos de forma escrita.
Que fique bem claro que não estou dizendo que você deva abandonar temas difíceis ou mudar completamente o seu estilo. A questão é saber o lugar de cada coisa para evitar frustrações desnecessárias.
Sobre o que você escreveu em si: até agora não sei nem o nome do seu protagonista. O título da obra é vago demais e não há nenhuma referência neste primeiro sobre o que se trata essa história. Daí você pode pensar: “ah, mas se eu publicasse um livro, haveria uma divulgação e as pessoas saberiam o contexto”. Só que a realidade não é bem assim. A maioria escolhe pelo título ou pela imagem. Algumas vão ler avaliações e outras vão dar a oportunidade de ler os primeiros parágrafos.
Aonde quero chegar com tudo isso?
Se você não diz a que veio nos primeiros minutos que foram dedicados à leitura da sua obra, infelizmente as chances de alguém continuar são mínimas.
Texto bem redigido, sem dúvida, mas deslocado nesse tipo textual. Aqui serei obrigado a ler o próximo capítulo e compartilhar como foi, mas em outro contexto deixaria pra ler outro dia “se desse”.
De todo modo, parabéns pela iniciativa e sigamos.
Abraço!
Luã, ou Toni, ou Luis… Fiquei com vontade de te responder porque a dinâmica do desafio nos impõe a convivência a longo prazo. Você vai ter que aturar minha escrita, e eu as suas críticas, caso pretendamos seguir nesse jogo (falando assim até parece reality show rsrs). Então é bom que essa relação seja produtiva, não é?
Você falou de frustração. Sim, seu comentário me frustrou. Confesso que sempre desejo que quem me leia goste do texto. Mas o que mais me frustrou foi que você se pautou muito pouco no texto para expressar o que achou. Quase não há análise concreta do que escrevi, à exceção do título (vago, concordo; faltou eu dizer que era provisório) e da menção à falta de nome do protagonista (sobre isso, me pergunto o que é que você anda lendo – ou não lendo! – para que isso seja tratado como obrigação nas páginas iniciais de um romance…). Mais problemático do que isso, deu pouquíssimo espaço para suas impressões pessoais, amparando-se, em vez disso, em uma realidade pública que é, antes de mais nada, amplamente sujeita a disputa. Aí vem o cerne do meu incômodo.
Você diz que “a maioria” não tolera isso ou aquilo por conta da era audiovisual, que “a maioria” irá se comportar desta ou daquele maneira diante do meu livro, como se te coubesse, aqui, o papel de representante de um público. É uma pena, porque, nesse movimento, você aliena suas impressões pessoais em nome da defesa de um ponto de vista que, de resto, é bastante discutível. Ora, como disse Deleuze, a maioria não é ninguém. E ainda assim, como entidade fantasmática, é extremamente opressora. Deus me livre de escrever para a maioria – e com isso não estou rejeitando obras de alcance vasto entre o público. Quero dizer que o que escrevo se destina a pessoas, seres individuais, que podem, acaso, ter gostos parecidos com os “da média”, mas que estão sempre capazes de ser alguma coisa além do que o poder lhes destina. O poder toma muitas formas, e uma delas, bastante comum no mercado de arte, vem na forma de supostos críticos que olham produções minimamente vanguardistas com desconfiança porque destoam daquilo que eles estabeleceram como “próprio para o povo”. Com isso, terceirizam sua opinião. Se você fosse meu editor e estivesse preocupado com lucros, entenderia sua preocupação. Mas aqui, dessa forma, me soa paternalista, condescendente para com o público, como se você dissesse “Olha, não escreva assim. Eu, que sou escritor, até consigo entender, mas o público, tsc tsc tsc, ele não consegue.” Eu, pelo contrário, embora ache o conceito de público extremamente problemático, acredito na formação do público, acredito no desafio, no risco e, sobretudo, no fracasso.
Não há literatura relevante que não flerte com o fracasso, disse Saer. Claro que isso não é fácil de viver. Publiquei um livro que passou, como diz o Bolaño, sin pena ni gloria (um dos contos, por sinal, se chama “Introdução ao fracasso”). Mas e daí? Eu tenho uma poética a perseguir, e acho isso mais importante do que o aplauso imediato (se a vaia é duvidosa, o aplauso o é mais ainda) Não sei que ideia você tem de romance para crer que certas coisas não cabem no gênero. Acredito que você tenha repertório para saber que romance pode ser muito mais do que a imediatez do mundo atual quer nos fazer crer (digo isso baseado em “Antes do Vinco” e “Jogo da Vida”, ambos ótimos). E, no fim, acredito que você vai gostar do meu romancezinho em formação (lembrei aqui que você me deu nota 10 no desafio de microcontos, hehehe). Seguimos!
Olá, Martim!
Primeiro, só uma sugestão simples: pode escolher qual dos nomes me chamar, pois ficar um tanto estranho chamar todos de uma vez. Apesar dos heterônimos, a personalidade aqui é única.
Pensei sinceramente em te deixar sem resposta, mas acho importante esclarecer alguns pontos, porque me parece que você respondeu mais a uma versão ampliada da minha crítica do que propriamente ao que eu escrevi.
De fato, meu comentário inicial não pretendia ser uma análise técnica exaustiva do capítulo. Eu disse logo no começo que faria comentários conforme o fluxo da leitura, e aquele era um primeiro contato, uma impressão inicial. Ainda assim, discordo que ele tenha sido pouco pautado no texto. Apontei elementos concretos: a vagueza do título, a ausência de uma referência mais clara ao eixo da história, o fato de eu sair do primeiro capítulo sem saber sequer o nome do protagonista e, sobretudo, a sensação de que a elaboração formal se sobrepõe à condução narrativa. Você pode discordar da importância desses pontos, claro, mas eles não surgiram de uma abstração externa ao texto.
Também acho que houve um deslocamento na sua resposta. Em nenhum momento eu disse que o protagonista precisa obrigatoriamente ser nomeado nas primeiras páginas de um romance. Isso seria uma leitura muito literal do meu comentário. O problema não é “não ter nome”; o problema é que, somado ao título vago e à falta de um pacto narrativo mais evidente, essa escolha reforçou minha sensação de indeterminação. Há romances que podem passar páginas sem nomear personagens e funcionam muito bem. A questão é que, no seu caso, essa ausência não produziu mistério, densidade ou tensão — produziu apenas distância.
Sobre a “maioria”, talvez eu pudesse ter formulado melhor, mas também não acho justo transformar minha observação em uma defesa paternalista de um público incapaz. Não foi isso que eu disse. O que afirmei é que existe, sim, um contexto contemporâneo de disputa de atenção, e que isso afeta a recepção de qualquer obra, inclusive literária. Apontar esse contexto não significa escrever “para a maioria”, nem reduzir literatura a mercado, nem defender uma arte domesticada. Significa apenas reconhecer que o leitor também faz escolhas, e que uma abertura excessivamente fechada, quando ainda não há vínculo entre leitor e obra, pode afastar antes mesmo que a potência do projeto apareça.
Você invocou Deleuze, Saer e Bolaño para defender o risco, o fracasso e a recusa do aplauso imediato. Eu não tenho nenhuma discordância abstrata em relação a isso. Também acredito em literatura de risco. Mas a questão aqui não é se o romance pode ser complexo, experimental ou avesso à imediatez. Pode, evidentemente. A questão é se este capítulo específico, dentro desta proposta específica, conseguiu transformar essa complexidade em experiência de leitura instigante. Para mim, até aqui, ainda não. Essa é a crítica.
Também não disse que certas coisas “não cabem” no romance. O romance é provavelmente o gênero mais elástico que existe. Cabe quase tudo nele. Mas caber no gênero não significa funcionar automaticamente como narrativa. Uma escolha formal pode ser sofisticada e, ainda assim, não produzir engajamento. Pode ser deliberada e, ainda assim, não ser eficaz. Pode ter repertório por trás e, ainda assim, soar mais preocupada em afirmar uma poética do que em criar uma necessidade real de continuação.
O ponto central da minha crítica foi esse: senti mais projeto de estilo do que promessa narrativa. Isso não é uma condenação da sua escrita, nem uma sugestão para você abandonar sua poética. É apenas a minha experiência como leitor diante do primeiro capítulo. E, dentro da dinâmica do desafio, acredito que essa experiência também seja legítima.
Por fim, acho que frases como “me pergunto o que você anda lendo — ou não lendo” não ajudam muito a tornar a conversa produtiva. Eu não questionei seu repertório; questionei o efeito do texto em mim. Podemos discordar com firmeza, mas prefiro que a discussão permaneça no campo da obra, não em insinuações sobre a formação ou as leituras de quem comenta.
Li o capítulo seguinte com abertura para mudar de impressão, como já aconteceu muitas vezes em outras leituras. Mas, neste primeiro momento, mantenho meu ponto: há qualidade formal, há ambição literária, mas a abertura ainda me parece excessivamente autocentrada na forma e pouco generosa na criação de um vínculo narrativo com o leitor.