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Detox Literário.

O Peso do Ruído – Conto (Luã Mendes)

O filtro da passarela fazia o possível, mas o Guaíba de 2125 ainda subia pelo nariz, misturando lodo, metal oxidado e um doce estranho de plástico velho aquecido pelas placas de energia solar sob os meus pés. A cidade flutuava em ilhas de polímero, costuradas por cabos e promessas, e quando o vento vinha do sul, trazia consigo o que restou das ruas: uma sopa espessa e invisível que grudava no fundo da garganta.

O meu trabalho ficava onde a água não ousava tocar ninguém. Chamavam oficialmente de “Mergulho de Frequências”, e a propaganda estatal vendia a função como uma forma nobre de arqueologia digital: resgate de memória, preservação do patrimônio, uma espécie de cura coletiva para os traumas da Grande Subida. Na prática, porém, era apenas uma pesca suja em um necrotério de dados.

Meu módulo de operação ficava no limite extremo do Centro Histórico, uma plataforma reforçada com antenas de baixa frequência e um guindaste fino, cuja vara apontava perpetuamente para o vazio cinzento do rio. Eu nunca entrava na água. Ninguém entrava. O Guaíba tornara-se denso demais, uma massa tóxica de microplásticos, metais pesados e resíduos industriais que haviam transformado o leito em um pântano magnético.

O ritual era sempre o mesmo: liberar o cabo de fibra e nervo sintético, sentindo o carretel girar contra a palma da minha luva háptica. Na ponta, o drone mergulhava no abismo, equipado com bobinas de indução e microímãs de alta sensibilidade. Ele varria o fundo onde antes pulsava um mundo de servidores e roteadores. Quando a bobina “fisgava” algo, não era barulho que eu sentia, e sim pressão.

Uma coceira insistente atrás dos olhos, um arrepio que subia pelo pulso e tentava se infiltrar nas minhas próprias sinapses. A interface no meu antebraço traduzia aquele gosto metálico em linhas de comando:

ANZOL // VARREDURA.

Camada: 9,3 metros.

Assinatura: 2.4 GHz fóssil.

Integridade: 11%.

Os clientes que me procuravam não tinham interesse na precisão técnica dos dados. Para eles, eu entregava o que chamávamos de “pacotes premium”: vinte segundos do último áudio de um parente, a trilha ruidosa de uma conversa de família em um domingo de sol, ou o som abafado de um jogo de futebol vazando de uma janela de um bairro que já não constava nos mapas. As pessoas pagavam fortunas por esse ruído.

A Secretaria de Estabilidade Social incentivava o serviço, rotulando-o como “conforto emocional”, enquanto empresas privadas lucravam com a saudade. Eu, no entanto, sabia que os mortos eram os verdadeiros pilares que sustentavam o que restava do Centro.

Uma vez por semana, a rotina era quebrada pela visita do fiscal. Ele vinha coletar a “cota pública”, memórias devidamente higienizadas que seriam expostas no Museu da Reconstrução. A narrativa, sempre a mesma, polida e heróica: falava de uma evacuação milimetricamente organizada, de coragem diante da adversidade e de uma unidade gaúcha inquebrável. Eu assinava os termos, recebia meus créditos e mantinha o silêncio, cumprindo meu papel na manutenção daquela fantasia flutuante.

Tudo mudou na tarde em que o anzol trouxe algo além de um eco. A notificação surgiu no meu visor com um atraso de milissegundos, piscando em amarelo insistente que parecia sangrar na tela.

ARQUIVO // ÁUDIO.

Data: Maio de 2038.

Origem: Rádio Comunitária (não catalogada).

Integridade: 3%.

O cabo de fibra vibrou na minha mão de um jeito diferente, leve e nervoso, como se houvesse algo vivo tentando se soltar lá embaixo. No fundo do Guaíba, o drone havia encontrado um nó de memória magnética preservado em uma bolha de vácuo acidental. Puxei em ritmo agonizante; se fosse rápido demais, o sinal se rasgaria contra o atrito das águas pesadas; se fosse lento, o lodo magnético engoliria a frequência para sempre.

A primeira frase que emergiu da estática veio torta e cheia de cortes, mas carregava uma urgência que fez o ar do módulo parecer subitamente mais rarefeito.

“…se você está ouvindo, não espere o resgate. Eles não vão vir”.

O som trazia a textura da chuva por dentro, um chiado que não era digital, mas atmosférico. Ao fundo da voz do locutor, ouvia-se o caos: gente falando ao mesmo tempo, o choro abafado de alguém ao longe e uma criança gritando repetidamente o nome de uma mãe que já não parecia estar lá. O locutor respirava rápido, o microfone captando cada arfar de desespero.

“…o Centro está iluminado. Nós vimos as luzes de lá. Aqui está escuro. Disseram pra gente subir pro asfalto, mas a água chegou antes das ordens”.

Um estalo de interferência violento mordeu meus dentes, percorrendo o nervo óptico. Eu sabia que deveria fechar o arquivo naquele exato momento. Aquele tipo de registro era o que a Secretaria classificava como “material desestabilizador”. Ter aquilo em mãos seria o suficiente para derrubar contratos, selar plataformas e fazer pessoas desaparecerem no sistema. A nostalgia era permitida e encorajada, desde que não revelasse as rachaduras na fundação da nossa história oficial.

Entretanto, o anzol já não respondia mais aos meus comandos de segurança. A pressão atrás dos olhos tornou-se uma imagem mental involuntária: ruas de barro que nunca pisei, casas de madeira sendo erguidas pela correnteza, o brilho das luzes do Centro Histórico ao longe, como um farol que prometia salvação e entregava apenas silêncio.

E então, no meio do ruído, surgiram os nomes. O locutor começou a ditar, sua voz falhando mas insistente.

“Anota aí. Anota, por favor, se alguém achar isso no futuro: Dona Celina, da Rua do Trilho. Seu Jorge, do depósito de bebidas. O menino Gael. A família toda do beco que fica atrás da paróquia…”.

A integridade do arquivo despencou para 2%. O resto da informação estava trancado em uma camada mais profunda, sob uma criptografia de operadora antiga e ruído fóssil que nenhum algoritmo comum conseguiria processar sem ajuda. O sistema exibiu um aviso frio na minha pele:

ANZOL // EXIGÊNCIA: Âncora biométrica necessária.

Opções: Base de dados estatal ou Assinatura Neural.

Risco: Perda de memória / Morte digital.

Morte digital era o eufemismo técnico para o que acontecia quando a interface fritava os padrões de sinapses do operador. Poderia terminar como um corpo que respira, que não lembra o próprio nome, ou pior, um corpo assombrado por memórias que pertencem a outros. Olhei para o meu antebraço, para as marcas da tatuagem eletrônica que eu comprara no mercado negro anos atrás, quando a rebeldia ainda parecia ter um propósito. Ela tremeluzia sob a pele, esperando por uma corrente que lhe desse sentido.

Lá fora, o som que eu mais temia cortou o murmúrio do rio: o impacto seco de botas contra a passarela de metal. A patrulha da Secretaria de Estabilidade Social estava ali, e não faziam visitas de cortesia a mergulhadores de periferia. Eu ainda estava com o arquivo da rádio aberto, as palavras de 2038 pulsando no meu visor. Fechei as persianas internas do módulo e desliguei a iluminação de serviço. A única luz no ambiente vinha da tela incorporada à minha própria pele.

Conectei.

O anzol aceitou a minha assinatura neural com fome voraz. Uma agulha de corrente elétrica subiu pelo cabo, atravessou a luva e mergulhou no meu sistema nervoso central. Não senti dor, apenas invasão. Foi como se uma mão invisível e gélida estivesse abrindo todas as gavetas da minha memória, revirando minha infância para encontrar espaço para o que estava vindo do fundo. O áudio da rádio retornou, agora com uma clareza absoluta, e junto com ele vieram sensações que nunca tive: o cheiro de feijão queimando em um fogão a gás, a textura de um rádio de pilha embrulhado em saco plástico para protegê-lo da chuva, o som de sirene que tocava para avisar sobre um perigo que já havia chegado.

A lista de nomes continuou, implacável, e no meio dela, ouvi o meu próprio sobrenome. Aquele que eu sempre usei como uma identidade vazia revelou-se eco de uma escolha do passado. A imagem projetada na minha mente era nítida: um homem com um documento molhado na mão, o rosto endurecido pela burocracia, dizendo à minha mãe que a evacuação tinha prioridades geográficas. O Centro primeiro. Os outros, talvez depois. Vi o bairro onde nasci ser apagado dos planos de resgate com um simples risco de caneta em um tablet administrativo. Testemunhei o silêncio sendo fabricado em tempo real.

Mais do que decodificar, o anzol estava usando meu cérebro como armazenamento de emergência. À medida que o arquivo se aproximava do fim, sentia partes de mim desaparecendo para dar lugar àqueles nomes. Uma tarde de sol na minha juventude foi apagada para salvar o nome de Dona Celina. O rosto da minha primeira namorada dissolveu-se para que eu pudesse guardar a localização exata da Rua do Trilho. Do lado de fora, a fechadura eletrônica da porta começou a girar sob o comando do código mestre dos agentes.

“Inspeção de rotina”, anunciou uma voz amplificada e neutra.

A última frase do áudio de 2038 atravessou meu crânio: “…se eles apagarem a gente, pelo menos que a água guarde”.

Eu não tinha como fazer o upload para a rede pública; os filtros da Secretaria o destruiriam em segundos. Não havia discos físicos ali. Tudo o que eu tinha era o meu corpo. Ativei o protocolo clandestino da tatuagem subdérmica, convertendo os dados em padrões de pigmento eletroativo que se moviam sob a minha derme como vermes negros de tinta e eletricidade. A gravação queimava, uma dor surda que transformava cada nome em uma cicatriz interna.

Quando a porta finalmente se abriu, os agentes me encontraram sentado no escuro, suando frio, com o braço brilhando em pulsos lentos de luz azulada e negra. Dois agentes entraram, protegidos por máscaras filtrantes e crachás anônimos.

“Você acessou material não autorizado e de alta periculosidade”, disse o mais alto, a mão pairando sobre o taser.

Tentei me esconder. Levantei o braço, exibindo a tatuagem que ainda se transformava sob a pele.

“Isso aqui não vai pra rede de vocês. Não vai pro museu de mentiras. Nem vai ser vendido como pacote de nostalgia”, afirmei, e minha voz soou estranha para mim mesmo, carregada de uma gravidade que vinha de séculos atrás. “Isso vai comigo. Agora, eu sou o arquivo”.

O agente hesitou. Sabia que para deletar aquela informação, precisaria deletar o hospedeiro, e matar um mergulhador oficial em serviço dentro de uma plataforma do Centro gerava um tipo de “ruído” administrativo que a Secretaria detestava.

Aproveitei o breve instante de hesitação e me lancei para fora, correndo pela passarela de polímero. O Guaíba rugia lá embaixo. No limite do setor, parei para recuperar o fôlego, sentindo o ar sem filtro castigar meus pulmões. Olhei para o horizonte, onde o sol se punha, um laranja doentio atravessando camadas de poluição e vapor. O reflexo na água parecia uma cicatriz dourada que cortava o estado de ponta a ponta.

Meu braço pulsou com força. Um nome acendeu sob a pele: Gael. Depois outro: Rua do Trilho. Mais do que dados, eram vidas reivindicando o direito de existir na memória de alguém.

A patrulha parou a alguns metros de distância, esperando o momento certo para me cercar sem testemunhas, mas já não estava mais com medo. Sentei-me no bordo da plataforma, as pernas balançando sobre o abismo tóxico, e deixei que o vento do sul batesse no meu rosto. Pela primeira vez na vida, eu não era apenas alguém pescando ruídos para os outros. Havia fisgado a verdade, e ela pesava mais do que a cidade inteira.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 11 de junho de 2026 por em Contos Off-Desafio e marcado .

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