EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Um Homem Ético (Gabriel Kolisch)

CAP 1

O fogo estalava enquanto abraçava as toras secas e consumia aos poucos as beiradas da madeira. A luz  da fogueira iluminava a casa ao lado e o abacateiro antigo que cobria toda a área. A fumaça flutuava pela brisa junto ao cheiro dos pratos que vinham aos poucos de dentro da casa e eram dispostos na mesa do lado de fora. Em volta, a família estendida, amigos e convidados aproveitavam a festa. Um grupo improvisado tocava um xote conhecido e convencia alguns a dançar. Muitos conversavam, contando causos, fofocas e roubando risadas dos ouvintes. Todos comiam em algum momento e tomavam batidas e sucos.

Uma das descendentes da anfitriã, chegou acompanhada da irmã e puxando com o braço, o novo namorado. O rapaz, de outro estado, não estava acostumado com a forma que se celebrava por ali. Com um sorriso amplo no rosto, absorvia tudo, extasiado. A jovem comprimentava cada parente ou conhecido enquanto também apresentava seu par. Ele, interessado por tudo que era diferente de sua vida comum, queria conhecer cada um, experimentar os pratos, dançar os ritmos novos.

– Tio, primos, esse é o Rafael, ele é lá de São Paulo. – A garota falou para os 3 homens sentados num banco observando o fogo. – Rafa, esses são meus primos Bruno e Bernardo, e esse é meu tio Titi.

– Muito prazer – Disse o rapaz apertando a mão dos jovens e do senhor mais velho. – Você é irmão da Maria ou do Alberto?

Um dos primos respondeu antes que qualquer outra pessoa pudesse falar, como era o hábito daquele povo.

– Oxe, aqui tá cheio de tio, tia, e primo que é tudo aprochegado. Não esquente não. O Titi é nosso tio de criação. É parte da família antes de nós todos nascermos.

– Prazer, Rafael, tá em casa. – O tio falou, com um olhar que sorria caloroso e um aperto de mão que abraçava.

Um chamado fez o grupo se virar em direção à porta da casa. – Filhas, vem cá ajudar a tia. – Mirando as irmãs junto de Rafael.

– Já volto, lindo. – Disse enquanto deixava o rapaz e seguia com a irmã para dentro da construção.

O convidado, ansioso para fazer uma boa impressão e se incluir no grupo foi puxar assunto.

– E Titi é de que, Tiago?

A risada dos primos pegou ele de surpresa, ficando sem graça. O senhor percebeu.

– Não, meu nome é Ético. Os meninos tão rindo porque ninguém acerta.

– Ético? Que nome incrível! De onde veio isso?

– Num pergunta que o tio conta hein. – Brincou o Bernardo.

– Ah mas pode contar que eu gosto de história. Um nome poderoso desse deve ter história por trás. – Respondeu o paulista.

O tio se ajeitou no banco. Olhou em volta. Olhou por alguns segundos as labaredas que saltavam aos céus e por fim olhou para o rapaz.

– Um nome desse num foi fácil de ter não, sabe. Pra quem olha hoje, fala que minha sina foi montada com esse nome.

– Rafael, tio, a gente vai comer algo. Té logo. – Os primos se levantaram para escapar da história.

– Trás um suco pro tio, fazendo favor, Bruno? – O tio perguntou e com o aceno do jovem, voltou-se para Rafael. – Tem nome de gente floreado como Fernando ou Arlindo. Tem nome duro como Pedro ou Tulio. Tem nome que vem quase em branco feito Maria ou João. Mas tem nome que carrega promessa. Vitória vive com a vontade dos pais. Esperança carrega uma expectativa enorme. Ético exige da pessoa se conhecer profundamente, entender sua visão das coisas e agir de acordo. Mas isso só quando você sabe o que seu nome significa e que promessa foi feita. Mas minha história não começou assim.

CAP 2

A minha infância toda, vivi na mesma casinha com minha mãe e mais ninguém. Ela nunca casou e depois que eu nasci nunca mais teve namorados. Dizia que a maioria dos homens não prestava. Minha mãe me teve nova e sustentou nós dois trabalhando em um armazém da cidade. A casa ela herdou dos tios que criaram ela. Ela disse que eles me conheceram, mas logo depois morreram de gripe. Minha mãe não era rígida como os outros pais e isso talvez tenha ajudado a me moldar.

Quando era criança ainda, menor que 10 anos, eu achava que meu nome era só mais um nome igual a todos os outros. Para mim, alguns tinham nomes de gente que veio antes como nomes de marechais, padres, ou da bíblia, e outros tinham nomes comuns. Eu não sabia que nomes tinham significado e isso num era importante para um menino. Naquela idade eu só queria ser parte do grupo das crianças, queria ter amigos e ajudar minha mãe quando pudesse.

Mas desde pequeno eu tive problemas com os outros garotos. O filho do delegado da região, o único rapaz louro e com pele mais clara do que os outros, se achava importante feito um príncipe e impunha sobre os outros que ele seria o líder do grupo. As brincadeiras seriam decididas por ele, e deveríamos obedecer suas regras, afinal ele era filho do delegado e sabia o que era certo e errado. Ele dizia que poderia punir quem quebrasse suas regras. As outras crianças não se importavam tanto, e até entravam na brincadeira criando hierarquias entre eles.

Eu tinha um grande problema com isso. Não entendia na época, mas o padrão era claro. Eu me irritava com ordens dos professores, com broncas do padre e freiras, com ordens de adultos em geral. Eu tinha um claro problema com autoridade. Quem eles achavam que eram para me comandar? Se nem minha mãe me impunha regras, castigos ou ordens. E portanto não seria um garoto arrogante que se colocaria acima de mim.

Essa postura teve seu custo. Eu ainda brincava com os outros, mas sempre houve uma dinâmica estranha com Alberto, o filho do delegado. Ele fazia comentários hostis contra mim, ou tentava colocar a culpa de falhas ou problemas em mim. Nada disso teve efeito. O que mudou no dia em que encontramos um filhote de carcará caído do ninho.

Nosso líder, julgando o pássaro culpado de vadiagem, exigiu que uma garota do grupo matasse o filhote, jogando ele contra uma árvore. Todos ficaram surpresos, e eu irritado. Quando ela se negou, exigiu que outro rapaz jogasse uma pedra na criatura, ou ele jogaria uma pedra no rapaz. Minha irritação se tornou uma fúria vermelha. Ele queria matar um animal indefeso, e nem teria coragem de fazer isso, queria forçar outros a fazer sua vontade. Outros que claramente não queriam. Apenas para testar seu poder.

– Se alguém machucar ele, vai receber uma pedrada minha! – Eu anunciei. Com a paralisia por surpresa de todos, me aproximei do carcará e peguei ele nas minhas mãos.

– Você é culpado de ser cúmplice de um criminoso, se você não obedecer, vai receber a pena dele! – Disse a jovem autoridade.

Olhando a convicção do garoto, e o medo dos outros, corri de lá com o pássaro em mãos. Ouvi as pedras caindo aos meus lados, recebi algumas nas costas e pernas, e uma na cabeça, abrindo um pequeno corte. Ao menos eles não me seguiram.

Acabei deixando o animal com um criador de cabras que tinha uma coleção de pássaros em gaiolas, algo que nunca entendi, e ele me garantiu de que cuidaria dele até que pudesse voar.

Alberto não deixaria seu reinado ser ameaçado, e por isso eu fui excluído. Além disso, era chamado por eles de É-titica de galinha. Parece uma coisa besta agora, mas naquela idade, ter todos me chamando assim era horrível. E eu, no cúmulo da minha imaturidade, achava que a origem do problema de tudo aquilo era meu nome. Eu sabia que meus enfrentamentos com o garoto também afetavam, mas acreditava que se meu nome fosse Gabriel ou Manuel, nada daquilo estaria acontecendo.

Nem uma palavra disso eu levava para minha mãe. Ela sempre mostrou que adorava meu nome e que havia escolhido ele para mim. Eu não queria deixar minha mãe triste ou decepcionar ela, por isso nunca reclamei dos problemas que o meu batismo me trazia.

Fora que meu nome sempre pareceu ter um efeito nas pessoas mais velhas quando elas me conheciam.  Quando eu respondia qual era meu nome surgiam risadas, caras de surpresa, descrença e até caretas como se chutassem o mindinho em um móvel. Parecia uma piada que eu não conhecia e onde eu era a graça. Para mim, um nome era só um som que toda a gente usa para saber quem é quem.

Por anos eu ignorei as reações. Acreditava que poderia ser algo contra mim. Imaginava que o filho do delegado e as outras crianças poderiam falar mal de mim e quando descobriam que eu era o Ético, enfim conectavam as histórias a um rosto. Eu ja me afastara das crianças da minha idade. A vergonha pelo meu nome me fez ser ainda mais retraído e sozinho.

Essa condição de desconhecimento mudou no dia em que briguei com Pedro, um outro garoto da escola. Ele achou que conseguiria chamar atenção dos nossos colegas jogando fezes de galinha em mim durante o tempo de recriação entre aulas. Me chamando de É-titica, levou um soco no rosto meu, que começou a briga. Poucos minutos depois estávamos os dois no corredor ao lado do escritório do professor. Eu vi o Pedro ser chamado para dentro, e em menos de 10 minutos ser dispensado. Ele saiu fazendo caretas para mim e rindo.

– Ético Alves, pode entrar.

Entrei na sala. Lá dentro, atrás de uma escrivaninha, um homem jovem com cabelo preto penteado para o lado e óculos apoiado no nariz, com uma camisa branca sem um amassado sequer. A sala tinha prateleiras nas laterais com livros idênticos enfileirados, coleções que ele mesmo trouxera, e em sua mesa pilhas de papéis organizadas junto com os materiais do dia a dia. O senhor Daniel Martin, o professor responsável pelas três turmas, e pelos outros dois professores, havia assumido seu posto há pouco tempo. Não tinha feito um ano ainda na cidade. Diziam que ele abandonou a cidade por questões de saúde, e mudou para o campo por isso. Mas eu nunca acreditei.

– Pode se sentar. – ele falou, apontando a cadeira em frente à mesa, sem tirar os olhos dos papéis em suas mãos. Me sentei nela e preparei a cara postura de culpa, mas não de arrependimento.

– Você quer me contar o que aconteceu?

Fiquei chocado com a pergunta. Os outros professores só escolhiam logo me educar com a régua ou uma vara. Não soube reagir.

– Como…como assim?

– Me conte, o que aconteceu para você estar aqui?

– O Pedro jogou cocô de galinha em mim. Eu num gostei e bati nele.

Ele levantou os olhos para me olhar pela primeira vez. Me encarou e largou os papéis, cruzando suas mãos sobre a mesa.

– O Pedro estava errado em fazer isso. Assim como você estava errado em começar uma briga. A violência é uma promessa de dor, sofrimento, conflito e mais violência. Você deveria ter falado com um dos professores.

– Mas se eu deixar eles vão fazer mais. Já me chamam de apelidos.

– Que apelidos? – perguntou o professor marcando sua testa com rugas.

– Me chamam de Patético, Esquelético e É-titica de galinha. – contei, me sentindo humilhado.

– Mas todos esse apelidos são com seu nome.

Olhei para ele sem entender a relevância da observação, como quem diz “é claro”.

– Hm, Ético você sabe o que seu nome significa?

– Como assim, professor?

– Seu nome tem um significado. O meu nome é Daniel, é um nome que está na biblia, mas que significa “o senhor é meu juiz”.

Eu não tinha idéia daquilo, e acho que meu rosto demonstrava isso claramente.

– Você sabia que seu nome tinha um significado? – ele perguntou e fiz que não com a cabeça. – Bom, seu nome é um nome bem incomum.

Com a fala dele, eu meu semblante desmontou um pouco. Era claro que meu nome era pior. Ele novamente, reparou.

– Seu nome é especial. E o significado dele também.

Me animei e logo perguntei. – O que significa, professor?

– Ético é alguém que tem suas ações guiadas por princípios morais. Veja bem, uma pessoa que sempre age com respeito, honestidade, virtude, compaixão, justiça e sempre buscando o bem de todos à sua volta. Ético é alguém que age corretamente sempre. Mesmo quando um professor ou sua mãe não está olhando. Então, jovem Ético, você vê como os apelidos com seu nome são muito toscos ao lado do verdadeiro significado dele?

Naquele momento eu senti a grandiosidade do meu nome. O que antes eu achava que não era nada, se tornou um elemento imenso. Meu nome significava tudo aquilo. E comecei a me questionar se eu também significava tudo aquilo. Fui interrompido pelo professor.

– Eu espero que os alunos dessa escola não usem violência para resolver os problemas. Saiba que eu também espero que eles não façam pirraça dos colegas. Mas de alguém com seu nome, eu espero ainda mais uma outra postura.

Aquele comentário me bateu de forma muito estranha, e na hora eu não me dei conta do porquê.

– Então, Ético, posso contar com você para encontrar outras formas de resolver os problemas?

– Sim, professor Martin.

– Muito bem, você está dispensado, pode voltar para o último período.

Me levantei, agradeci a ele e quando estava saindo pela porta ele chamou uma última vez.

– Ético, sabe o que significa o nome Pedro? – ele falou com um sorriso no rosto.

– Não sei.

– Pedra. Só pedra.

Sorri, fechei a porta e voltei para a aula.

Ao longo do dia todo não conseguia parar de pensar no meu novo nome. Ele não havia mudado, era o mesmo desde quando eu nasci. Mas agora com todas essas palavras por trás ele era muito maior, diferente, mais rico. E ao longo do dia, conforme fui ignorando provocações de outros garotos, fui entendendo que ele parecia também mais pesado.

Após o final do dia na escola, durante o caminho para casa, três garotos vieram me importunar, me chamando pelos nomes de sempre e ameaçando jogar pedaços de galho em mim. Peguei uma pedra e ameacei eles, fazendo eles irem embora. Nesse dia senti o peso do meu nome na minha mão, em outro dias eu teria jogado a pedra para me defender. Mas como poderia alguém com meu nome agir assim?

A cada passo nesse trajeto familiar, eu me afundava mais com o peso de Ético em meus ombros. Como podiam cinco letras serem tão extensas? Um nome tão grande e com tanta regra em uma criança, não me parecia justo. Se fosse o nome de um adulto eu até entenderia. Quem ia querer ter um nome desses? E então me deparei com uma nova pergunta. Por que minha mãe colocou um nome desse em mim?

Fui para casa decidido a descobrir.

CAP 3

O sobrinho de Ético se aproximou com um copo de vidro alaranjado cheio de alguma bebida e um prato com alguns bolinhos fritos, empanados em açucar e canela.

– A tia mandou. – Falou Bruno – E mandou eu resgatar o Rafael se o tio tiver te alugando.

– Obrigado, filho. – Ético respondeu ao pegar, com calma, o copo e prato, e apoiar ambos ao seu lado no banco. – Se o rapaz quiser encontrar a Maria, pode ir, não tem problema.

– De jeito nenhum, seu Ético. Você parou no meio da história. Eu num posso ficar sem saber como continua.

– Bom, a Maria ta lá na cozinha vixe, eu vou lá avisar que você vai estar aqui.

– Obrigado, Bruno, avisa ela que acabando eu encontro ela. Vamos, seu Ético, pode continuar.

O jovem se afastou e retornou aos outros convidados da festa que brincavam, conversavam e dançavam por ali. Separados da festa, mas ainda próximos, seguiram o jovem visitante e o velho.

– Rapaz, você falou que parei no meio da história, mas não, esse ainda é o começo. E num tem porque você ficar aqui de companhia pra mim.

– Pode confiar que eu to realmente interessado em saber porque sua mãe escolheu seu nome.

– A historia ainda vai longe. mas eu vou te contar. – Tomou um gole do suco, apreciando a doçura da fruta fresca. Pegou o prato com uma mão, e com a outra selecionou o bolinho mais bem frito, trouxe até sua boca, posicionando a fritura para tirar o máximo de satisfação da mordida e partindo ele em dois fechou os olhos soltando um som de satisfação. Ofereceu o prato ao jovem que pegou um doce e comeu, sentindo a quentura do bolinho recém feito.

– Muito bem, eu estava falando do professor da escola, certo?

– O senhor estava sofrendo de saber o peso do seu nome e foi pra sua casa descobrir porque sua mãe te deu esse nome.

Um sorriso acompanhado de uma expressão melancólica surgiu no rosto do idoso. A mistura de amor e da dor da saudade.

– Bom, eu fui para casa de minha mãe descobrir.

 

CAP 4

Cheguei em casa e minha mãe estava na horta colhendo folhas de couve e quiabo que estavam em produção. Cheguei decidido a enfrentar ela, a arrancar a verdade de tudo, não importasse como ela reagisse. E logo que ela abriu um sorriso ao me ver chegando, me desarmou e me rendeu.

– Olá meu menino, como foi seu dia? Ajuda a mãe, vai lavando esses que já peguei. – Entregou os frutos do trabalho e me abraçou. Ela era uma mulher muito amorosa. Nunca tive motivo para reclamar disso.

– Foi bom – respondi enquanto despejava tudo em uma bacia com água – mas mãe, eu tinha uma pergunta pra você.

– Pois pode falar, o que tem aí nessa cabecinha?

– Mãe, hoje eu fui pra sala do professor Daniel. – Fui interrompido pela minha mãe, surpresa com a situação.

– O que o senhor aprontou? Ta brigando na escola?

– Tá tudo certo mãe, não deu problema nenhum. – Ela continuou me analisando, desconfiada, com os olhos de mãe que consegue ler suas crias. – Mas ele me contou o que significa meu nome. – Disse e encarei ela.

A postura e feição de minha mãe mudaram na hora. De suspeição direto para uma enorme rigidez. O tom de brincadeira se tornou sério e ela realinhou sua postura.

– Ah é meu filho? O que ele te disse que significa?

– Disse que meu nome é um monte de coisa. Que é ser a pessoa mais correta que tem. É ter respeito, honestidade, ser correto. Mãe, nem ninguém é assim.

– Meu filho, seu nome é lindo, e ele seu. Vem, vamos pra dentro.

Ela esvaziou a água da bacia e a carregou cheia de legumes e verduras para dentro da nossa pequena casa, apoiando na mesa. Depois se sentou em uma cadeira e puxou outra para que eu sentasse, em frente à ela.

– Filho, você se lembra que sua mãe morava antes em Morro Verde, né?

– Sim, antes de eu nascer.

– Exato, filho. Morro Verde é perto daqui, mas é uma cidade bem maior. Eu mudei pra lá com minha irmã, procurando trabalho. Conseguimos emprego ajudando em uma casa de farinha. Depois de um ano, ela casou e se mudou, e eu segui por lá. Na cidade, também tinha um cinema pequeno. O cinema sempre tinha um filme novo por mês e pessoas de cidades vizinhas faziam a viagem para ver o que tinha em cartaz. Na época o trabalho me pagava e me dava um quarto, então eu tinha poucos gastos, meu prazer era ir ao cinema e ver os filmes que chegavam lá. Um dia, entrou no cinema O Cavaleiro Andaluz. Foi meu filme favorito, filho. Ele contava a história desse homem, Carlos Alves, que se vestia todo de vermelho e saía montado em seu cavalo branco lutando de espadas contra o banqueiro tirano da cidade e seus capangas, e salvando os moradores da região. Na época eu me apaixonei por ele. Eu sei que é coisa besta, mas era um homem lindo e que era muito correto, ajudava os outros, era bondoso e tudo isso. – Minha mãe pareceu um pouco envergonhada, se endireitando novamente – Tanto que fui ver esse filme quase todo dia que o cinema abria, eu fiquei encantada e quis aproveitar enquanto pudesse. Um homem que se colocava pronto para se sacrificar pelo que era certo, para salvar os outros, para fazer justiça. Um homem heróico. Num tinha disso da cidade que eu vim, nem em Morro Verde, e nem aqui pra te falar. Durante o filme, existia um amigo do cavaleiro que em uma cena disse “Não existe ninguém tão ético quanto você”.

– Mãe, Carlos Alves é o nome do homem nesse filme?

– Sim, filho.

– Então meu pai não se chama Carlos Alves.

– Se chama sim, meu filho. Ele é seu pai. Eu me apaixonei por ele, fui quase todo dia naquele mês ver ele. E no final do ano você nasceu. Eu queria que você fosse tão bom quanto o seu pai, tão ético quanto o amigo dele disse ele ser. E resolvi te dar esse nome: Ético Alves.

– Mãe não tem como eu ser filho de um homem em um filme.

– Mas você é.

– Você sempre pediu pra eu num perguntar sobre meu pai, pra deixar isso pra lá. Eu não sabia que era por isso mãe. Meu pai não é um cara num cartaz.

Levantei irritado e fui embora da casa.

Como podia minha mãe acreditar que eu era filho de um ator que nunca nem pisou na mesma cidade que ela. Eu nem ligava de saber quem era meu pai. Já tinha crescido sem ele, e era uma coisa comum com outras crianças que eu conhecia. Minha mãe podia ter só me falado que engravidou de alguém que conheceu e teve que me criar sozinha. Foi o que aconteceu no final mesmo. Mas essa história do filme foi demais pra mim. E só naquele momento me vi pensando novamente no meu nome.

Ela decidiu me dar esse nome para que eu fosse igual ao cavaleiro. Forçando essa promessa de que eu seria, como o amigo do personagem falou “o homem mais ético”. Que direito ela tinha de colocar algo assim em mim? Colocar esse peso de que eu seria essa pessoa ideal, ou eu decepcionaria todos que me conhecessem, minha mãe e meu nome.

Enquanto andava na beira do córrego me peguei pensando que, a única pessoa que poderia estar à altura do nome que minha mãe colocou em mim, era uma pessoa de mentira. Alguém de um filme, de uma história. Não era uma pessoa de verdade. Não dava para alguém ser assim de verdade, então porque eu deveria tentar ser?

CAP 5

Eu ainda sentia o calor da raiva por todo o corpo. Cada vez mais me sentia feito de idiota por nunca ter sabido o significado do meu nome. Carregando e usando ele por aí com tantas pessoas, que sabiam o que eu estava dizendo e nunca me contaram. Só eu estava por fora disso. Segui andando com raiva. As estrelas estavam aparecendo no ceu aos poucos, entregando suas presenças, ainda descobertas de nuvens.

Andando e sentindo o riacho, não queria conversar com ninguém. Percebi que estava indo na direção do criador de cabras que ficou cuidando do filhote de passaro que eu resgatei. Resolvi ir lá ver como ele estava.

Ouvi de longe o som típico de lá. Quase que um ruído, ao se juntarem tantos cantos de pássaros. Cheguei na casa dele. O velho se chamava Armindo e morava sozinho no casebre. Vi ele lado de fora arrumando ARMADILHAS de passaro com alguns gravetos, arames e seu canivete em mãos. Na sua boca, um cigarro de palha ascendia sua ponta com cada tragada.

– Boa noite, seu Armindo.

– Hã? – Ele se voltou pra mim surpreso por qualquer presença além de suas aves. – Oi, garoto, tá fazendo o que por aqui?

– Eu vim ver como ta o pássaro que eu trouxe.

–Ah, o Carcará. Ele está aqui. – Ele seguiu para dentro da casa e mostrou uma gaiola com uma caixa feita de folhas de palmeira dentro. – Ele ta crescendo bem, se alimentando direito.

– Você acha que ele vai ficar bem?

– Ah vai sim, não pegando nenhum bicho nesse tempo agora, deve ficar bem. Sempre depende se o filhote vai conseguir se adaptar bem sem ter a mãe e o pai. Mas se ele se alimentar certinho, é só uma questão de tempo.

– Ah que bom.

– Pode ficar tranquilizado, jovem. Eu já sou sabido de passarinho, e esse aqui vai ficar bem. Você fez bem de trazer pra cá, depois que ele tinha caído.

Um silêncio estranho ficou ali por trinta segundos.

– As outras crianças iam machucar ele, só porque o idiota do filho do delegado mandou.

– É, ta errado. – Ele falou com o incômodo no rosto, talvez até traços de nojo e raiva. – Você salvou ele. Fez muito bem. É assim que as pessoas deviam tratar os bichos, sabe.

Fiquei em silêncio, só conseguia pensar na promessa do meu nome. Eu resgatei o passaro por mim própria vontade ou porque essa é a pressão da promessa de minha mãe? Sou eu ou o Ético?

– Ético? – Ele me cortou o pensamento ao me chamar. – Você quer alimentar o carcará?

– Não, seu Armindo, eu to indo já. Só quis ver ele. Obrigado.

– Num tem nada não. Sempre que quiser ver ele, é só passar.

Andei mais pela noite. Conforme a fome aparecia, eu pega algumas mangas nos pés da rua e comia. Depois de algumas horas, percebi que estava mais tranquilo e sem destino. Resolvi voltar para casa. Demorei quase outra hora e quando cheguei, apesar do lampião aceso na sala, minha mãe já tinha se deitado. Eu comi as mandiocas com feijão que ela deixou na mesa e fui dormir também.

No dia seguinte, quando acordei, ainda ouvia minha mãe pela casa, preparando o nosso café e almoço para sua marmita. Fingi que não acordei e fiquei na cama. Ela fingiu acreditar e me deixou lá.

Quando ouvi ela saindo de casa, me sentei na cama. A raiva tinha diminuído, porém ainda me sentia traído, me sentia manipulado, forçado. Me levantei e de forma lenta e arrastada segui com minha rotina de sempre. Me vesti, comi, limpei e guardei tudo, fechei a casa e fui pra escola. Mas esse dia não seria como os outros, esse seria um dos meus piores.

CAP 6

O período na escola passou sem que eu me desse conta. Minha cabeça estava mergulhada na conversa do dia anterior. Minha cabeça havia formado um cartaz com minha imaginação e ele parecia ter sido grudado por dentro dela toda. Fiquei repassando a conversa com minha mãe pela cabeça várias vezes, tentando entender como ela não via as coisas do meu lado.

Eu repassei centenas de conversas, pessoas quando me conheceram, referências ao meu nome. Eu só conseguia imaginar todos rindo, me julgando, me cobrando.

Eu estava simplesmente irritado com ela, com meu nome e com minha vida até então. Peguei minhas coisas de forma automática, mas devo ter feito isso de forma lenta e arrastado, porque quando me preparava para sair da sala, uma garota me abordou. Naquele momento percebi que só havia restado nós dois lá dentro.

Ela estava com a respiração acelerade e uma expressão de quem sente dor, com as sombrancelhas contraídas para cima. Seus olhos não conseguiam olhar nos meus e ela agarrava seus materiais na frente de seu corpo.

– O que foi? – Eu perguntei.

– É… É o…

Sua expressão começou a mostrar medo, o que teve o mesmo efeito em mim.

– Conta o que aconteceu.

– O Alfredo. Ele descobriu onde você deixou o filhote do pássaro. Ele falou pros outros que vai lá matar ele e depois vai levar pra te mostrar.

Antes de ela terminar a frase eu já estava correndo para fora da sala e atravessando a escola. O caminho direto para a casa do Armando era simples, era quase uma reta, e ele morava há menos de um quilômetro dali. Eu só conseguiria chegar antes se corresse. Então eu corri com tudo que podia. Pouco depois de sair da escola, larguei minha mochila que caiu na terra fofa, ela estava me atrasando.

Corri com toda a energia que tinha dentro de mim, eu não ia me perdoar se visse o animal morto. Eu não ia perdoar o Alfredo.

Passei de metade do caminho, mas por conta do matagal em volta do caminho, não dava pra ver mais de 50 metros à frente. Quando estava chegando, e já via o grande eucalipto que ficava a beira da casa dele, por cima do matagal, vi o grupo de garotos andando e gargalhando alto.

O grupo estava tão distraído com as piadas, que não me ouviu se aproximando. Eles só me perceberam, quando eu estava a poucos metros. O que permitiu que Alfredo apenas se virasse para mim com uma cara de surpresa. Eu me joguei para cima dele. Ele sem tempo de reação só conseguiu levantar os braços para segurar os meus. Eu caí em cima dele e ele caiu no caminho. A poeira se levantou e o resto dos garotos deram alguns passos se afastando. Eu já não estava pensando. A minha frustração e pavor de chegar tarde demais aumentaram durante o caminho todo, e na hora eu só conseguia desferir socos no Alfredo.

Na hora pensei que era minha raiva e o medo dele que estavam me dando a vantagem na luta. Não era e só fui perceber depois.

Ele levantava os braços como se estivessem pesados, tentando empurrar minha cara. Para cada empurrão, eu conseguia dar um soco nele e jogar o braço para o lado. Os companheiros do lado gritavam, mas eu não prestava atenção. Não iam me afetar ou me ofender. O Alfredo conseguiu colocar um dedo no meu olho. A dor aumentou minha ira. Peguei a cabeça dele, com uma mão de cada lado e empurrei contra o chão. Fiz isso mais três ou quatro vezes, não sei ao certo. Mas só parei quando percebi que na terra corria um fio vermelho.

Larguei a cabeça dele. Naquele instante, apareceu que minha cabeça reproduziu os últimos segundos para que eu pudesse finalmente prestar atenção. Porque na primeira vez, eu não reparei no som que a cabeça dele fez ao bater no chão, quando caiu. Não entendi o porque de seus braços e movimentos lentos. Não registrei que as outras crianças gritavam que ele tinha batido a cabeça, que um olho não estava abrindo, que eu ia matar ele, que estava sangrando mais. Eu não percebi nada disso, até que paramos.

Assustado recuei as mãos. Pulei para trás. Me levantei e dei mais um passo para longe do corpo ali estirado. Ele não se movia. O sangue que se revelava por detrás de sua cabeça só aumentava, pulsando.

Uma das garotas saiu correndo gritando ajuda com terror na voz. Os outros dois garotos que ficaram não sabiam o que fazer. Olhavam para mim com medo de eu me aproximar, e olhavam para o jovem no chão.

– Você matou ele. – Disse um deles.

– O pai dele vai te matar. – Disse outro.

“Eu matei dele. O pai dele vai me matar.” eu pensava. O que eu senti naquele momento foi talvez o maior pavor que já senti. Eu enfrentei muita coisa na minha vida, mas como criança, parece que o medo e as consequências são maiores.

Eu fugi. Corri disparado pelo caminho que fiz. Não ouvi nenhum comentário atrás de mim e conforme me afastei deles, só ouvi em minhas orelhas, os tambores do meu pulso. “O que eu fiz?” me questionava. Pouco depois entendi que estava indo em direção ao centro da vila. Parei e desviei o caminho. Atravessei uma rossa de milho e um pasto. Decidir ir em direção a um velho paiol abandonado. Lá eu ia poder pensar e esperar tudo passar.

Cheguei na velha construção. Vazia e apenas com alguns animais que resolveram habitar ali. Pássaros, aranhas e ratos. O mato largado e alto em volta me escondia bem. E conseguia ver até longe em todas as direções.

Me sentei e respirei, tentando recuperar o fôlego e me acalmar.

– Eu matei ele. Eu matei alguém. Minha mãe… Eles vão me matar.

 

CAP 7

A noite chegou e eu seguia apavorado. Eu só consegui ver o corpo dele na minha mente, caído sem responder. Eu me culpava por ter batido a cabeça dele contra o chão mesmo quando ele estava caído.

Minha imaginação seguia me mostrando cenas em que eu era preso na frente da cidade toda, chamado de assassino e criminoso. Cenas da minha mãe humilhada por todos os amigos e conhecidos dela, e chorando por ver o que eu fiz. Arrependida de ter me dado esse nome. Arrependida de ter me tido.

Eu nunca achei o delegado boa gente. Ele se gabava na cidade de seu tempo no exército. Constantemente queria deixar claro que ele era a lei na cidade. O filho dele era igual ao pai.

A cena do sangue por detrás da cabeça de Alfredo me assolou novamente.

Ele devia ter falado de mim para seu pai. O delegado, em um crime onde seu filho é a vítima e eu sou o criminoso, não vai ter pena alguma. Era possível que até atacasse minha mãe. “Eu matei ele.”

Minha cabeça passou por esse ciclo ou variações dele por horas sem parar. A última claridade do sol já havia ido embora, eu não via sinal de pessoas procurando por mim ainda. Sem lampiões ou lanternas.

Eu me sentia cansado, minha mente estava exausta e minha barriga estava vazia. Algumas centenas de metros de onde eu estava, tinha uma mangueira, mas eu não tive coragem de me aventurar para fora do paiol, caso alguém me visse.

Naquele momento, somente com a pouca luz da lua, que não vou me lembrar qual era, e das estrelas, eu conseguia ver a árvore e tentar subir nela. Se alguém viesse perto com alguma luz, eu veria de longe.

Subi na árvore me ralando todo, já que não conseguia perceber bem onde estavam meus apoios. Era melhor do que cair de lá. Comi quatro mangas ali em cima, e pensei que em qualquer outro dia minha mãe e eu estaríamos jantando. Na hora pensei que ela ficaria preocupada comigo e logo o medo do delegado voltou. Será que ela preferiria que eu voltasse ou que eu ficasse vivo?

Eu estava há horas no velho paiol. Em nenhum momento me passou pela cabeça voltar lá. Eu achei que eles já teriam me encontrado até então, mas nada. “Talvez por conta do meu nome estão esperando que eu me entregue”, eu pensei. Mas se fosse o caso, talvez não esperassem que eu esmagasse a cabeça de outra criança em uma pedra.

Se já faziam piadas com meu nome antes, imagina depois disso tudo. Eu já imaginava eles dizendo “Ético, a pior pessoa”.

E eu só voltava a pensar como todo o problema começou com esse nome degraçado. A maldição desse nome. A promessa dele. A expectativa inalcançável.

Se eu tivesse me livrado dele, poderia ter me livrado da minha situação atual.

E então a idéia surgiu. Talvez mais alimentada pelo desejo de sobreviver ao delegado do que por me livrar do meu nome.

Decidi que não me importaria com meu nome. Negaria tudo o que ele me cobrava e me exigia ser. E fugiria de lá. Eu não tinha outra opção se quisesse escapar do revólver do delegado.

“Seria o melhor para todo mundo” eu tentava me convencer enquanto criava um plano.

CAP 8

Ético interrompeu sua história e terminou de tomar seu suco. Corrigiu levemente sua posição sentado no longo banco, se mantendo encostado nele. Seu ouvinte, observava seus movimentos esperando que retomasse a história.

– Rafael, você tem certeza que quer ouvir mais? A história piora muito antes de melhorar.

– Meu amigo, eu achei que ia ouvir uma passagem rápida do porquê desse nome, mas agora você me fisgou nessa história. Se você não se importar eu to aqui querendo ouvir tudo.

– Em geral quando eu conto eu pulo umas partes, tiro outras. Até para não influenciar as crianças.

– Não faça isso… claro se não se importar. Eu realmente quero ouvir. Seu Titi – Ele falou sem muita segurança de qual nome usar.

O velho percebeu e abriu um sorriso. Olhou em volta, apoiou seu copo no banco e comeu um dos bolinhos açucarados.

– O garoto, o que aconteceu com ele? E sua mãe?

O homem continuou mastigando e olhando nos olhos do rapaz. Rafael esperou, se reconfortou na cadeira em que estava e esperou.

– E se eu te disse que eu nunca mais soube?

– Sério? Não é possível.

– Vamos continuar de onde eu parei. A minha fuga e o que veio em seguida.

E Então? O que achou?

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Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G2, Entre Romances e marcado .