EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Aranea Archivum (Fabiano Dexter)

Aranea Archivum – O Arquivo das Aranhas

Epílogo – Documento Interno DSRHD-NT-000/

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BIBLIOTECA NACIONAL — RJ

DIRETORIA TÉCNICA | COORDENAÇÃO DE ACERVOS

SETOR: DOCUMENTOS SEM RELEVÂNCIA HISTÓRICA DEFINIDA (DSRHD)

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TIPO: NOTA DE TRAMITAÇÃO / AVALIAÇÃO PRÉVIA

CÓDIGO INTERNO: DSRHD-NT-000/∅

CLASSIFICAÇÃO: INDEFINIDA

NÍVEL DE ACESSO: INTERNO (SEM CIRCULAÇÃO)

ORIGEM: NÃO IDENTIFICADA

PROTOCOLO/ENTRADA: INEXISTENTE (NÃO LOCALIZADO)

DATA: [INCOMPLETA] ____/____/____

LOCAL: [GENÉRICO] “RJ / CENTRO”

 

DESCRIÇÃO DO MATERIAL:

— 01 (uma) folha solta, papel comum, sem timbre, sem numeração.

— Sem carimbo, sem marca de registro, sem anexo.

— Encontrada em meio a “materiais sem destinação clara” (lote misto).

 

CONTEÚDO (TRANSCRIÇÃO INTEGRAL):

> Alguns conteúdos não devem circular.

> Não por risco imediato, mas por efeito cumulativo.

>

> Retenção não configura falha.

> Configura método.

 

ASSINATURA:

— Inexistente (sem nome).

— Consta apenas: “F.S.” (iniciais), grafia firme, com sinais de manuseio recorrente.

 

ANÁLISE TÉCNICA (SÍNTESE):

[ ] Valor histórico evidente

[ ] Valor administrativo imediato

[X] Inclassificável no escopo do setor

[ ] Elegível para descarte

[X] Elegível para retorno ao conjunto original (provisório)

 

DESTINAÇÃO / AÇÃO ADOTADA:

— Material devolvido ao conjunto original, sem indexação.

— Sem abertura de processo.

— Sem providências adicionais.

 

OBSERVAÇÕES:

— Recomenda-se manter sob guarda passiva até surgimento de critério aplicável.

— Evitar circulação para não gerar demanda de rastreio/protocolo retroativo.

 

RESPONSÁVEL PELA AVALIAÇÃO:

Nome: ____________________________   Matrícula: __________

Função: __________________________   Data: ____/____/____

 

CARIMBOS / CONTROLES:

[SEM PROTOCOLO]     [SEM REGISTRO DE ENTRADA]     [ARQUIVAMENTO PROVISÓRIO]

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Capítulo 1 — O Setor Esquecido

“Próxima Estação: Carioca. Desembarque pelo lado direito.”

Acordei com o som do aviso do metrô e a sensação incômoda de já estar atrasado, embora não soubesse exatamente para quê. Por alguns segundos, não reconheci o banco rígido nem o balanço do vagão. O aviso sonoro indicava o nome da estação seguinte, mas eu processei de imediato. Levei a mão ao bolso para confirmar o peso usual das chaves e do crachá de um lado e o celular do outro, um gesto automático, aprendido ao longo dos anos, e só então me permiti respirar com alguma regularidade.

O metrô chegara ao Centro, isso eu sabia. Ia todos os dias da semana, no mesmo horário, pelo mesmo trajeto, até que o caminho se tornasse tão previsível quanto um parágrafo já lido e relido diversas vezes. Ainda assim, naquele instante, tive a impressão de ter perdido um trecho da jornada, como se o trem tivesse atravessado a semana inteira sem que eu estivesse presente para registrá‑la.

O rosto refletido no vidro devolveu um homem comum demais para carregar qualquer preocupação específica. Fernando Silva. Nome curto, fácil de pronunciar, facilmente lembrado, facilmente esquecido, e que nunca me incomodou. A verdade é que ele sempre me pareceu uma espécie de escudo contra o mundo, de proteção. Quando trabalhamos em arquivos aprendemos o verdadeiro valor do anonimato. Os documentos mais estáveis são justamente aqueles que menos despertam interesse.

Ainda faltava mais uma estação para eu, então, descer. Observei os outros passageiros apenas porque não valia a pena pegar meu livro, com tão pouco tempo restante na viagem. Pessoas indo trabalhar, mochilas, bolsas, olhares tão vazios quanto o meu. O cheiro metálico do ar-condicionado misturava-se ao de algum perfume barato, provavelmente comprado em um quiosque de alguma estação. Não haveria tempo de dormir, mas a simples ideia de fechar os olhos me causou um leve desconforto, algo próximo de um alerta tardio. Nada com o que me preocupar.

Desci na Cinelândia com o fluxo de pessoas me empurrando escada acima e logo a luz do sol tomou o lugar daquele agradável brilho artificial que apenas as lâmpadas fluorescentes são capazes de fornecer. Felizmente o trajeto até a Biblioteca Nacional é curto e consegui percorrer sem nenhum incidente. Como todos os dias.

Nunca entendi o fascínio dos turistas pelo prédio da Biblioteca Nacional. Sempre tive a impressão de que não se impunha ali pela sua grandiosidade, como o Teatro Municipal, seu vizinho, mas simplesmente pela sua permanência. Parecia estar ali desde sempre e que assim permaneceria até a eternidade.

Era onde eu trabalhava. Era onde guardávamos textos e documentos de valor histórico imensurável e, por extensão, aquilo que não tinha valor algum. Essa segunda parte não apenas era a grande maioria, mas estava sob responsabilidade do minha e de meus colegas.

Meu setor ficava longe da sala de leitura, distante das vitrines e das visitas guiadas. Eu cuidava dos arquivos e documentos sem relevância histórica definida. Materiais que não eram destinados para descarte, mas tampouco justificavam catalogação nobre. Uma categoria incômoda, mantida mais por inércia do que por convicção. Era ali que eu passava meus dias, estabilizando o irrelevante.

Cumprimentei o segurança com um aceno quase imperceptível e respondido da mesma maneira. Segui pelo corredor interno, já familiarizado com a mudança de temperatura à medida que me afastava das áreas mais frequentadas. O ambiente mudava à enquanto eu avançava. A iluminação era mantida, mas tanto a temperatura como a umidade caiam de forma gradual pelos corredores e escadas percorridos, mas eu sempre me senti confortável ali.

Durante o caminho revisei mentalmente a lista de tarefas do dia, mais por hábito do que por necessidade, pois não haviam mudado nos últimos anos e certamente não mudariam agora. Revisar caixas recém-transferidas de um depósito auxiliar, atualizar fichas de conteúdo indefinido, responder a um ou outro memorando interno.

Quando cheguei em minha mesa, porém, havia sim algo diferente. Um post-it pregado no meu computador, forma pela qual eu sempre organizei as minhas tarefas e escrito com a minha letra, mas que eu não me lembrava de ter colocado ali. Havia sido incluído sem maiores detalhes, redigido com a pressa característica de toda comunicação interna que ninguém espera acompanhar.

Levantamento preliminar de materiais remanescentes no Andar Inferior não catalogada.

Sem maiores detalhes, citava apenas um “Andar Inferior”, mas o prédio era antigo e tinha vários acessos diferentes que levavam a andares inferiores, mas nenhuma permanecia sem anotação formal. Todos estavam devidamente catalogados, eu tinha plena certeza disso. Afinal, era parte do meu trabalho.

Arquivos não gostam de lacunas, mas elas existem. São como falhas toleradas por excesso de confiança, pela certeza de que tudo foi visto e ninguém, nem mesmo eu, seria capaz de deixar algo passar, por menos relevante que seja.

Retornei à minha rotina e passei a manhã entre caixas, papéis sem data clara, fotografias de eventos pouco identificáveis. Um trabalho exigia paciência, não intuição. Classificar sem interpretar, sem pensar, sem querer entender. O segredo sempre foi manter-se fora do que o documento sugeria e se ater ao que ele realmente mostrava. E eu fazia isso bem.

Perto do meio-dia retornei à minha mesa para almoçar e, ao abrir a gaveta onde guardo os meus talheres, encontrei um memorando que não lembrava ter colocado ali. Leio rapidamente como sempre fiz com todos os que recebo, mas esse era aquele que havia gerado a necessidade de uma lembrança para mim colada no monitor, ainda que eu não tenha nenhuma recordação nem dele nem de ter escrito aquela nota.

No documento nenhuma assinatura ou identificação destacada, ou o motivo da necessidade de catalogar uma nova área ou justificativa de sumiço da documentação anterior. Apenas uma indicação de acesso pelo corredor lateral, escada antiga, uso restrito. Solicitação para verificar o estado do local e informar necessidade de interdição ou limpeza.

Nenhuma indicação de urgência. Ao mesmo tempo não havia nada que justificasse adiamento indefinido. Quanto mais cedo eu começasse, mais cedo terminaria, de modo que eu separei as chaves apropriadas, anotei o horário e segui para o local indicado.

O acesso ficava atrás de uma porta discreta, quase sempre ignorada por quem não precisava dela. A escada descia em linha reta, degraus gastos pelo uso que antecedia minha noção de tempo funcional. À medida que eu descia, o som da biblioteca se dissolvia. Não havia silêncio propriamente, mas uma ausência organizada dos ruídos das pessoas que trabalhavam ali.

A iluminação era suficiente para avançar com cuidado. As paredes exibiam marcas antigas de reparos, em sua maioria malsucedidos. Senti o ar mudando aos poucos, ficando cada vez mais pesado, mais antigo. Não era desconfortável, apenas diferente.

No patamar inferior, encontrei uma porta sem identificação formal. Nenhuma placa. Nenhum número de sala. Apenas madeira escurecida e uma fechadura que cedeu após breve resistência. O espaço interno se revelou maior do que eu esperava. Caixas empilhadas, estantes antigas, mesas deslocadas de seus contextos. Tudo parecia ter sido acomodado rapidamente, como se alguém tivesse preparado a sala e, de alguma forma, nunca tivesse descido ali para trabalhar nem um único dia.

As primeiras teias surgiam nos cantos superiores, nada fora do comum para um espaço pouco usado. Ignorei-as por instinto profissional, afinal, se fosse me preocupar em limpar tudo o que preciso catalogar não seria nada eficiente. Andei até uma mesa coberta por um pano encardido e iniciei o meu trabalho.

Levei algum tempo para perceber a extensão do que havia ali. As teias não se concentravam apenas nos cantos. Atravessavam espaços improváveis, conectando caixas separadas ou envolvendo objetos específicos. Havia método na disposição, ordem no caos, embora eu não conseguisse identificar nenhum padrão lógico ali. Procurei rapidamente e não vi nenhuma aranha de imediato, o que me pareceu estranho, mas imaginei que não estariam acostumadas ao barulho e movimento que eu estava causando ali.

Aproximei-me de uma estante baixa para verificar o conteúdo, mas ao afastar uma das caixas senti algo tocar o dorso da minha mão. Puxei a mão de forma instintiva, pensando que poderia ser alguma aranha, mas não senti nenhuma picada, nenhuma dor. Apenas o contato breve de um fio fino de uma das teias, quase imperceptível. Retirei a mão devagar, mais por cautela do que por receio.

Foi então que a lembrança surgiu. Não como uma imagem nítida, mas como a confirmação de algo previamente esquecido. Um nome. Um rosto jovem demais para aquele espaço. Um registro que eu tinha certeza de nunca ter arquivado e, mais importante, de nunca ter vivido.

Afastei-me da estante e apoiei a mão na parede, buscando alguma estabilidade. A sensação passou tão rápido quanto surgiu, deixando apenas um rastro incômodo, como quando um termo técnico retorna à memória sem contexto suficiente para uso imediato.

Preenchi o Formulário DSRHD-NT-679/2 referente ao Levantamento Preliminar de Materiais de forma objetiva, como sempre fazia, omitindo qualquer interpretação precipitada.

Diversos móveis antigos, necessidade de verificação para possível utilização em outros setores. Caixas fechadas sem nenhuma identificação aparente. Outros materiais diversos embalados também sem nenhuma identificação visível. Organização incomum dos materiais. Presença de teias extensas. Avaliar necessidade de isolamento temporário.

Fechei a porta ao sair. Tranquei-a e subi as escadas lentamente, ajustando o ritmo da respiração para acompanhar o esforço físico mais do que o pensamento persistente que insistia em se inserir onde eu não o havia colocado.

De volta ao andar térreo, a biblioteca mantinha sua forma habitual com as pessoas em trânsito, as mesas ocupadas e os turistas que entram e saem durante todo o dia. O mundo em ordem. Ainda assim, levei alguns segundos antes de seguir para minha sala. Tive a impressão de que algo havia sido registrado sem meu consentimento, como se parte da visita tivesse ocorrido fora do que eu estava apto a lembrar. Ainda que não houvesse nada fora do normal.

Não comentei o episódio com ninguém. Não por uma decisão consciente, mas porque não identifiquei nele nada que merecesse circulação. Às vezes, o gesto mais profissional é não incluir uma informação antes de saber em que categoria ela se encaixa.

Antes de ir embora me sentei em frente ao computador e procurei referências ao Andar Inferior que havia visitado mais cedo. Nada além do memorando recente que seguia em minha mesa. Não havia nenhum histórico de uso contínuo, nenhuma transferência formal. Registrei a lacuna como se registra uma ausência aceitável, confiando que seria preenchida mais adiante, de alguma forma.

Ao final do expediente, deixei o prédio com a certeza de que o dia havia sido comum demais para justificar qualquer inquietação persistente. Ainda assim, enquanto caminhava em direção ao metrô, tive novamente a sensação de ter acordado no meio de um trajeto que já estava em andamento há muito mais tempo do que eu conseguia recordar.

Registrei mentalmente o desconforto. O resto, decidi, avaliaria depois.

Capítulo 2 — O Andar Inferior

Voltei ao trabalho no dia seguinte no mesmo horário, como sempre fiz. Como se a regularidade do trajeto pudesse compensar a impressão incômoda de ter perdido algo no percurso do dia anterior. O metrô seguiu normalmente até o Centro, parando em todas as estações previstas. Ainda assim, ao atravessar a Cinelândia, senti que o prédio da Biblioteca Nacional se apresentava a mim com um leve atraso, como uma imagem que demora a se ajustar ao foco correto.

Não guardei a sensação por não saber onde arquivá‑la.

Passei o crachá, subi a escadaria principal e entrei no prédio junto com o fluxo reduzido dos funcionários. Antes de seguir para minha sala, encontrei Renato no corredor lateral, apoiado numa estante, folheando uma pasta apenas para justificar a sua presença ali.

“Dormiu mal?” perguntou, sem tirar os olhos do fluxo de funcionários que passava em direção aos escritórios.

Respondi que não, embora não tivesse certeza absoluta disso.

Ele então fechou a pasta e me observou por alguns segundos, procurando por algo que não encontrou.

“Você desceu ontem, não desceu?” disse, em tom neutro demais para ser casual.

Perguntei como sabia, já que não havia comentado com ninguém.

“Ninguém desce ali e volta igual” respondeu, dando de ombros. “É estatística informal, minha mera opinião, mas bastante consistente.”

Fiquei em silêncio tempo suficiente para tornar a conversa desconfortável. Renato sorriu, como quem já esperava isso.

“Não estou dizendo que exista algo sobrenatural” continuou. “Só… coisas começam a sair de lugar. Horário, memória, papel que você jura que deixou em cima da mesa e reaparece na gaveta errada. Não consigo explicar, só sei que aquele lugar me incomodava.”

Perguntei se ele já havia descido.

“Não nos últimos anos” disse enquanto me olhava desconfiado. “E prefiro manter assim. Por isso mesmo que passei para você o memorando para o levantamento do inventário lá. Esqueceu?”

Antes que eu pudesse responder, ele recolheu a pasta e se afastou pelo corredor, encerrando a conversa com a naturalidade estudada de quem não pretende ser levado a sério.

Segui para minha sala e iniciei o expediente com as tarefas ordinárias de todo dia, organizando documentos sem data clara e corrigindo registros incompletos. O trabalho mecânico ajudou a estabilizar o pensamento, mas não eliminou a sensação de que uma tarefa paralela permanecia aberta. E eu nunca gostei de deixar nada pendente.

Perto do meio‑dia, reli o memorando sobre o levantamento de materiais do Andar Inferior que eu havia atualizado no sistema no dia anterior. Nenhuma cobrança adicional havia sido feita, nenhuma observação complementar. Isso tornava a atividade opcional o suficiente para ser evitada, mas imprescindível o bastante para não ser ignorada.

Organizei a minha agente e desci após o almoço, levando comigo apenas uma prancheta, o celular e as chaves, ou seja, o estritamente necessário. O corredor lateral parecia ligeiramente mais estreito, embora eu soubesse que isso não era possível. A iluminação permanecia funcional, mas irregular, criando áreas em que a luz parecia não alcançar. Sombras que pareciam não estar lá no dia anterior.

A escada aguardava sem mudança aparente. Desci contando os degraus até perder a contagem, como na véspera, e senti novamente a transição sonora: o desaparecimento gradual dos ruídos humanos, substituídos por um silêncio organizado, quase administrativo, que eu ainda tinha dificuldade para classificar.

A porta de acesso estava intacta, como um marco. Uma barreira. Abri‑a com a mesma chave e entrei.

O espaço parecia responder à minha presença de forma sutil, como um sistema que reconhece acesso autorizado sem necessidade de alerta. As teias pareciam mais evidentes, não por crescimento, mas por definição. Cruzavam o ambiente com precisão, conectando estantes, caixas e mesas sem obedecer a um trajeto aleatório e, mesmo assim, sem ficar no caminho que eu fazia lá dentro.

Parei e observei uma delas de perto. O fio apresentava variações mínimas de espessura, como se tivesse sido tecido em etapas sucessivas, revisado ao longo do tempo. Não havia acúmulo de poeira. Não havia sinais de abandono.

Assim que me afastei da teia vi a primeira aranha. Ela estava imóvel sobre o canto de uma estante baixa, comum em proporção e coloração, era o tipo de aranha que eu esperava encontrar ali, de alguma forma. Não reagiu à minha aproximação. Registrei sua presença sem atribuir significado.

Ao caminhar pelo espaço, senti a mesma impressão do dia anterior: não estava atravessando um ambiente, mas um diagrama. Como se cada deslocamento tivesse sido previsto.

Sobre uma mesa central, havia três pastas abertas. Nenhuma identificação externa. O conteúdo era irregular: listas interrompidas, relatos breves, páginas soltas sem cabeçalho. Em todas, o mesmo padrão. As informações avançavam até certo ponto e cessavam de forma abrupta, como pensamentos arquivados antes da conclusão.

Reconheci imediatamente o modelo de um dos formulários, o Formulário DSRHD-NT-126/8, utilizado para descarte de documentos que não possuíam nenhum tipo de valor para a Biblioteca Nacional.  Era antigo, mas não o bastante para ser estranho. Eu já havia preenchido muitos iguais.

No topo da página, apenas iniciais: F.S.

Fechei a pasta com um cuidado excessivo, desnecessário, e me afastei. A reação foi física, anterior à interpretação. Respirei fundo e voltei à mesa, conferindo datas e referências cruzadas. As mesmas iniciais apareciam em outros documentos e formulários associados a períodos que não correspondiam a nenhum trabalho que eu lembrasse ter realizado ali.

Anotei o achado, por considerá-lo importante. Tudo precisa ser documentado para que possa ser consultado futuramente.

Ao me afastar, recuando, senti o toque leve de um fio no dorso da mão. Diferente do dia anterior, não recuei. O fio se rompeu sem resistência assim que aproximei a minha mão do rosto para ver em mais detalhes. Era praticamente invisível. Registrei a observação, apenas isso.

Mais aranhas tornaram‑se visíveis aos poucos, não por movimento, mas como se tivessem decidido ocupar o campo da minha atenção. Como se estivessem ali o tempo todo, mas apenas agora eu as notasse. Nenhuma avançou. Nenhuma reagiu. A impressão geral era a de um sistema em repouso.

A lembrança surgiu sem aviso: eu naquele mesmo espaço, anos antes, acompanhando alguém menor, alguém cuja presença eu reconhecia sem conseguir nomear. Não havia medo na lembrança. Apenas atenção.

Ela se dissolveu rápido demais para ser retida.

Coloquei então a prancheta embaixo do braço e decidi sair. Fechei a porta e subi as escadas com cuidado, resistindo à vontade de olhar para trás. No corredor superior, o som da biblioteca retomou sua forma habitual.

Encontrei Renato novamente perto da saída, guardando coisas no armário, que não precisavam estar ali. Era como se me aguardasse, de alguma forma. Se soubesse que eu iria estar ali.

“Então?” perguntou, mais uma vez sem me encarar.

“Ainda avaliando” respondi.

Ele assentiu, parecendo satisfeito demais com a resposta.

“Esse é o problema. Aquela parte não gosta de conclusão” disse enquanto fechava o armário e retornava para o seu setor.

Não respondi. Também não pedi esclarecimentos.

Ao chegar em minha mesa atualizei o relatório preliminar no sistema, incluindo observações técnicas e sugestões genéricas de acompanhamento futuro. Nenhuma menção a nomes. Nenhuma conclusão interpretativa. Nenhuma alusão às aranhas.

Ao sair do prédio, observei a fachada como sempre fizera. Nada indicava alteração. Pessoas passavam indiferentes.

No metrô, sentei-me e acompanhei o trajeto sem distinguir claramente cada estação. Ao despertar na Saens Peña, minha parada, tive a impressão de que alguém havia avançado um processo em meu nome e aguardava, pacientemente, a próxima instrução.

Registrei a impressão como faria com qualquer dado sem valor histórico imediato.

Por ora, era suficiente.

Capítulo 3 — O Primeiro Fio

Nos dias que se seguiram, mantive distância do Andar Inferior sem necessidade de decidir isso conscientemente. A rotina retomou seu curso habitual. Casa, metrô, trabalho, metrô e casa. Mesas ocupadas em silêncio disciplinado, demandas internas redigidas com a economia de quem não espera resposta imediata. Nada indicava urgência. Nada exigia retorno àquele espaço. Ainda assim, percebi que passei a organizar o tempo de forma a deixar uma lacuna ao final da tarde, como se houvesse uma tarefa pendente cuja duração eu preferisse não estimar.

Não desci durante três dias. A sensação de estar procrastinando aparecia algumas vezes ao fundo de minha mente, sem nunca tomar a frente. Nunca se mostrar de verdade.

Nesses dias, notei pequenas falhas no cotidiano que, isoladamente, não justificariam registro. Um livro devolvido ao lugar correto me pareceu familiar demais. Um formulário que eu não lembrava de ter preenchido surgiu completo sobre a mesa, com caligrafia reconhecível. Ao conferir o sistema, encontrei arquivos atualizados com precisão, sem marca temporal clara que os vinculasse a uma ação concreta da minha parte.

Era como se ações tivessem sido realizadas sem que eu estivesse presente. Ou como se não tivessem sido arquivadas de forma correta para uma consulta futura.

Não considerei isso alarmante. Trabalhar com acervos costuma produzir esse tipo de confusão retrospectiva. Às vezes, executamos tarefas no automático e só nos lembramos delas quando o resultado exige verificação.

Na sexta-feira, encontrei Dona Celina sentada nas escadarias de pedra em frente à biblioteca. Não esperava vê-la ali. Até então, sua presença me parecera incidental, um dos muitos elementos humanos que orbitam prédios públicos sem pertencer a eles. Ela observava o fluxo de pessoas com atenção concentrada, como se acompanhasse um movimento invisível ao restante dos passantes. Como se esperasse alguém.

Cumprimentei-a de forma educada, preparado para seguir adiante. Ela se levantou enquanto eu passava e segurou meu braço com mais firmeza do que eu esperava.

“Você voltou lá” disse, sem tom acusatório.

Concordei, porque negar teria exigido esforço desnecessário.

“E tocou” completou ela.

Perguntei no que, exatamente.

Dona Celina soltou o braço e ajeitou o casaco fino, apesar do calor da manhã. Olhou nos meus olhos e entendeu que minha pergunta era honesta. Não havia desvio algum de objetivo.

“No que segura” respondeu. “No que junta as coisas pra não se espalharem.”

Esperei que desenvolvesse. Ela não o fez. Limitou-se a olhar novamente para o prédio e depois para mim, como se a conversa tivesse dados suficientes com os quais eu deveria trabalhar. Permaneci imóvel, plácido, aguardando.

“Nem todo mundo sente” acrescentou, por fim. “Alguns passam a vida inteira desviando. Outros… reconhecem. É perigoso quando reconhece.”

Agradeci pela advertência sem saber a quem ela se destinava, se era a mim ou a ela mesma, e terminei de subir as escadarias, passei o crachá e segui para a minha mesa. Para o trabalho. Durante boa parte da manhã, a fala permaneceu suspensa em algum lugar da memória, sem se fixar em nenhuma categoria útil.

Desci naquela tarde.

Não houve preparação deliberada. Apenas recolhi as chaves corretas e informei à coordenação que faria um levantamento complementar antes do fechamento do relatório. Ninguém pediu detalhes. Ninguém ofereceu companhia.

A escada me recebeu como antes, conservando o mesmo número indeterminado de degraus. A porta cedeu sem resistência. O espaço, porém, não parecia idêntico ao que eu deixara. À primeira vista, tudo permanecia no lugar. Em atenção prolongada, percebi pequenas alterações que haviam ocorrido nas conexões. Notei fios reposicionados, trajetos reduzidos. Era como se o sistema tivesse sido revisado de alguma forma.

Aproximei-me da mesa central. As pastas continuavam ali, agora organizadas de forma diferente. Uma delas estava fechada, com uma etiqueta manuscrita presa por um fio claro. Não havia título, apenas uma data. Antiga demais para ser ignorada e recente demais para ser plausível.

Ao tocar a pasta, senti imediatamente a diferença. O contato com o fio não produziu surpresa. Houve uma breve pressão, não física, mas perceptiva, seguida de algo que só posso descrever como alinhamento. A lembrança veio inteira dessa vez, completa, sem fragmentação.

Eu estava ali quando criança, segurando a mão da minha mãe. O espaço era menor então, ou eu era. Havia caixas empilhadas, menos teias, mais poeira. Lembro do tom firme com que ela dizia para não me afastar. Lembro de ouvir meu nome, não como chamada, mas como verificação. Fernando. Como se precisasse confirmar que eu ainda estava ali.

A lembrança não trouxe uma emoção clara, apenas uma sequência organizada de fatos que se encaixavam com precisão excessiva, ordenada como pastas em um arquivo. Afastei a mão da pasta e o fio se reacomodou sozinho, reconectando-se a outro ponto com delicadeza.

As aranhas, então, tornaram-se visíveis em maior número. Distribuíram-se ao longo das estantes, imóveis, posicionadas como nós de sustentação. Observei que nenhuma ocupava espaços redundantes. Cada uma parecia corresponder a uma função e estava dedicada a ela.

Não senti medo. Apenas anotei mentalmente como dado relevante.

Abri a pasta com cuidado. Dentro, encontrei relatos breves, incompletos, semelhantes aos outros, reconhecendo facilmente a escrita. Não era idêntica à minha atual, mas suficientemente próxima para não exigir explicação alternativa. Havia anotações sobre “ajustes necessários”, “material sensível”, “transferência parcial”. Nenhum contexto. Nenhuma assinatura.

Fechei a pasta e permaneci em silêncio por mais tempo do que pretendia. O espaço parecia acomodar minha presença com naturalidade crescente. Não havia urgência. Nenhuma sensação de invasão. Apenas a impressão persistente de que eu havia retomado uma função interrompida.

Senti então um fio tocar minha mão novamente. Não reagi, apenas aguardei. Permiti o contato por alguns segundos a mais. A lembrança seguinte surgiu sem esforço: eu mais velho, preenchendo formulários semelhantes aos que agora reconhecia, e alguém, que não consigo recuperar, me explicando que certos materiais não podiam ser descartados nem consultados. Apenas mantidos.

Retirei a mão com cuidado visando garantir a integridade do fio, que não se rompeu.

Registrei o máximo que pude, embora soubesse já naquele momento que parte considerável do ocorrido resistiria à linguagem administrativa. Ao sair, fechei a porta sem trancar. O gesto me pareceu adequado, embora não soubesse justificar por quê.

No corredor superior, encontrei Renato novamente. Ele me observou por alguns segundos, como se esperasse confirmação de algo.

“Achou o que estava procurando?” perguntou.

Respondi que ainda não.

Ele assentiu. Não pude identificar se estava satisfeito ou preocupado.

“É assim mesmo” disse. “Aquilo nunca entrega tudo de uma vez.”

No metrô, de volta para casa, examinei as mãos em busca de marcas. Não havia nada visível. Apenas a sensação persistente de que uma linha havia sido traçada entre dois pontos que, até então, eu acreditava desconectados.

Registrei a sensação. Ainda não sabia em que categoria.

Capítulo 4 — Registro Inexistente

Na manhã seguinte, acordei antes do despertador, com a sensação pouco confiável de já estar atrasado. Não era um atraso mensurável, afinal o relógio do celular confirmava que ainda havia tempo suficiente. Era algo próximo de um prazo interno que eu não lembrava de ter estabelecido. Permaneci deitado por alguns minutos, revisando mentalmente o percurso até o trabalho como quem confere uma lista já verificada, procurando por falhas.

No metrô, tentei reler os e-mails do dia anterior no celular. Os arquivos estavam ali, salvos corretamente, com as datas de envio claras e coerentes. Ainda assim, tive dificuldade em reconhecer o tom da escrita. Os termos eram técnicos, contidos, mas havia uma economia estranha nas explicações, como se eu tivesse deliberadamente evitado esclarecer um ponto que, àquela altura, já conhecia. Não era comum que eu deixasse registros incompletos. Isso sempre gerava trabalho posterior.

Cheguei à Biblioteca cedo demais para encontrar alguém no setor. Aproveitei o silêncio para acessar o sistema interno e iniciar uma busca mais ampla. Digitei meu nome completo com a intenção de encontrar registros vinculados a empréstimos, autorizações antigas, qualquer coisa que justificasse a familiaridade crescente com o Andar Inferior. O sistema retornou o esperado: histórico funcional correto, datas consistentes, progressões discretas. Nada além do esperado. Nada além do previsível.

Mas algo ainda me incomodava. Havia lacunas a serem preenchidas, informações desencontradas. Refinei a busca. Incluí apenas as iniciais. F.S.

O resultado foi mais extenso do que eu esperava.

Havia referências dispersas em documentos administrativos antigos, muitos deles anteriores à minha entrada formal na instituição. As iniciais surgiam em campos de revisão, em notas de rodapé sem assinatura clara, às vezes associadas a expressões como “verificação pendente” ou “ajuste necessário”. Nenhum dos registros atribuía autoria direta. Eram menções funcionais, como se as iniciais designassem não uma pessoa, mas uma etapa do processo.

Abri um dos arquivos digitalizados. O documento se referia à reorganização de setores de acesso restrito, décadas atrás. A página que continha as iniciais estava incompleta, com parte do texto ausente, como se tivesse sido recortada antes da digitalização. Não havia indicação de perda acidental. A ausência parecia deliberada.

Senti o desconforto habitual de quem encontra uma lacuna onde não deveria existir. Sistemas arquivísticos toleram erros, mas não gostam de vazios sem justificativa. Os sistemas são consequência de seus gestores, seu espelho.

Anotei os códigos de referência e iniciei uma busca física correspondente. As caixas indicadas estavam armazenadas em uma das áreas menos acessadas, próximas ao meu próprio setor. Levei uma delas até a mesa e comecei a conferência com atenção redobrada. O conteúdo era fragmentado: relatórios parciais, correspondências internas sem resposta, formulários preenchidos até a penúltima linha.

Em mais de um documento, reconheci a mesma caligrafia que havia visto no Andar Inferior. Uma escrita semelhante à minha, mas menos contida, com menos preocupação em manter padrões. A comparação não produziu reconhecimento imediato, apenas a impressão incômoda de conexão.

Folheando uma pasta quase vazia, encontrei um envelope interno sem identificação externa. Dentro, havia uma única folha dobrada em quatro. O papel era antigo, mas bem conservado. Abri com cuidado excessivo.

O texto era curto, redigido em tom administrativo, sem marcas pessoais. Referia-se a um “processo de manutenção de materiais sensíveis” e mencionava a necessidade de “continuidade funcional independente de designação nominal”. No campo reservado à assinatura, havia apenas duas letras.

F.S.

Fechei o envelope e permaneci imóvel por mais tempo do que considerei produtivo. Não havia ali informação suficiente para qualquer conclusão objetiva, mas a insistência das iniciais começava a extrapolar o intervalo aceitável de coincidência.

Procurei Renato no início da tarde, encontrando-o na sala de digitalização, entretido em reorganizar uma pilha de documentos já organizados.

“Você já reparou se há muitos registros antigos incompletos no sistema?” perguntei, com cautela.

Ele me olhou por cima dos óculos, avaliando a pergunta como quem mede o esforço da resposta. A intenção da pergunta.

“Incompletos, sim, claro” respondeu. “Inexistentes, não. Pelo menos não oficialmente.”

Perguntei o que queria dizer.

“Existem coisas que sempre aparecem sem registro anterior” explicou. “Não constam como criadas, transferidas ou doadas. Só… estão ali. Como se tivessem escorrido entre uma etapa e outra.”

Mencionei as iniciais.

Renato não sorriu dessa vez.

“Evite uma caça a siglas” disse, baixando a voz. “Já tentaram antes. Dá a impressão errada de que aquilo tudo pode ser resolvido com nome próprio. E uma sigla pode ter vários significados.”

Perguntei quem havia tentado.

Ele voltou ao trabalho, ou pelo menos ao que estava fazendo, sem responder diretamente.

“Se você encontra algo que não consta como entrada, não registra como falha” acrescentou. “Registra como permanência. O sistema aceita melhor.”

Afastei-me sem insistir. Não havia nada a ganhar com pressão verbal. O conselho, embora pouco explícito, soava prático demais para ser ignorado.

Passei o restante do expediente organizando materiais com método excessivo, como se a ordenação de pequenas coisas pudesse compensar a indeterminação crescente das maiores. Evitei descer novamente. O simples pensamento do Andar Inferior produzia uma sensação de retenção, não de procrastinação, mas de adiamento funcional.

Antes de ir embora, fiz uma última verificação no sistema. Algumas das buscas que eu realizara pela manhã já não retornavam os mesmos resultados. Não haviam desaparecido por completo, mas surgiam agora associados a códigos neutros, sem iniciais visíveis. Registros mais limpos, menos específicos. Burocráticos.

Considerei a possibilidade de erro técnico, mas descartei-a. O padrão de alteração era consistente demais para ser aleatório.

No caminho de volta, sentei-me no metrô e observei meu reflexo no vidro. O rosto devolvido continuava sendo o meu, reconhecível e funcional. Ainda assim, pela primeira vez, tive dificuldade em associá-lo às iniciais recorrentes sem sentir uma leve resistência, como se o nome completo tivesse sido acrescentado àquela identidade em algum momento posterior. Como se o documento, após arquivado, tivesse sido alterado.

Registrei a impressão, embora não tivesse categoria adequada para ela. Afinal, o objetivo do arquivamento é a manutenção da história, não sendo mais possível a sua alteração.

Naquela noite, sonhei que preenchia formulários intermináveis em uma sala sem portas. As caixas se organizavam sozinhas, e os nomes eram substituídos por letras. Acordei com a certeza desconfortável, porém precisa, de que alguma coisa estava sendo mantida em funcionamento e que isso dependia menos da minha vontade do que eu estava disposto a admitir.

Anotei o sonho antes que fugisse da minha memória. Não por seu conteúdo, mas por sua recorrência potencial.

Ainda havia muito a verificar.

Capítulo 5 — Dona Celina

Passei a notar Dona Celina com maior frequência depois disso, embora não soubesse dizer com precisão quando ela deixou de ser uma figura ocasional para se tornar presença regular. Às vezes estava sentada nas escadarias de pedra em frente à biblioteca, outras vezes caminhava lentamente pela calçada, sempre no mesmo trecho, como se aquele recorte da cidade lhe pertencesse por direito tácito. Não parecia ter um objetivo ou destino certo. E não abordava ninguém além de mim. Essa seletividade me incomodava mais do que qualquer insistência explícita.

Na quinta-feira seguinte ela me aguardava junto à entrada, de pé, apoiada em uma bengala que parecia mais simbólica do que necessária. Me aguardava, certamente, sabendo como funciona a minha rotina e meus horários.

“Você está demorando mais para subir” disse. “Isso começa assim.”

Perguntei a que se referia. Ela inclinou a cabeça levemente, como quem avalia se a pergunta veio da falta de conhecimento, entendimento ou mero deboche.

“Quando a gente volta de lá o caminho de volta nunca tem o mesmo tamanho” continuou.

Não corrigi o pressuposto contido na frase. Negá‑lo exigiria uma clareza que eu já não tinha. Em vez disso, perguntei há quanto tempo ela frequentava aquele espaço. Dona Celina sorriu de forma breve, sem humor.

“Eu não frequento. Eu fico de vigília. É diferente.”

Descemos lado a lado a escadaria, mantendo uma distância respeitosa, e paramos ao lado de modo a não atrapalhar o fluxo de funcionários e dos poucos turistas que se aventuravam naquela manhã. O movimento da Cinelândia seguia normalmente, ônibus, passos apressados, vozes se sobrepondo. Ali, aquela conversa não chamava atenção. Talvez isso fizesse parte do método.

“A senhora trabalhou aqui?” perguntei.

“Não, mas trouxe alguém que trabalhou” respondeu prontamente.

A frase ficou suspensa entre nós, sem complemento imediato. Aguardei, mas Dona Celina parecia satisfeita com a ambiguidade, com a dúvida que gerou em minha mente.

“Meu marido” acrescentou depois. “Auxiliar. Nunca teve cargo fixo. Fazia o que precisava ser feito quando ninguém queria fazer.”

Perguntei se ele havia trabalhado no Andar Inferior.

“Ele não o chama assim” corrigiu. “Ele dizia manutenção. Palavra boa. Parece provisória.”

Ela olhou para o prédio com atenção renovada.

“Seu problema” disse, voltando-se para mim “é que você lembra demais do que não devia e de menos do que devia sustentar.”

Resisti à tentação de pedir esclarecimentos técnicos. Com ela, perguntas diretas pareciam produzir versões menos confiáveis do que o silêncio atento. Apenas aguardei enquanto preparava o local onde as novas informações seriam armazenadas.

“As aranhas gostam de rotina, mas não gostam de improviso tardio. Quando alguém volta depois de muito tempo, elas precisam refazer o trabalho” continuou.

Perguntei em que consistia esse trabalho, sem saber ao certo como processar aquilo, em que categoria.

“O que sempre fizeram” respondeu. “Manter as coisas no lugar certo, não necessariamente no lugar real. Elas fazem o possível.”

Houve uma pausa longa o bastante para que eu considerasse encerrar a conversa. Dona Celina, no entanto, retomou antes que eu pudesse fazê-lo.

“Você não é o primeiro Fernando, nem será o último” ela continuou.

Senti um desconforto imediato, não pelo teor da frase, mas pela naturalidade com que ela foi dita. Ela pareceu não notar, ou pelo menos não se importar já que seguiu falando.

“O nome ajuda. Nome comum passa melhor. Não cria rastro grosso.”

Perguntei o que havia acontecido com os outros.

Dona Celina balançou a cabeça, negando o enquadramento da pergunta.

“Não aconteceu, continuou acontecendo” ela corrigiu.

Empertigou-se com um esforço calculado, apoiou-se na bengala e soltou um breve suspiro. Antes de se afastar, colocou algo pequeno em minha mão. Um pedaço de papel dobrado, amarelado pelo tempo.

“Se for descer de novo, não toque duas vezes no mesmo fio sem saber o que está perdendo” disse enquanto se virava para partir.

Tentou sair sem despedidas adicionais, mas a chamei antes que se afastasse por completo.

“Por que me avisar?” perguntei.

Ela virou levemente o rosto, apenas o suficiente para responder.

“Porque, se você cair, o prédio fecha de vez. E isso dá muito trabalho depois.”

Observei-a se afastar lentamente, dissolvendo-se no fluxo de pessoas como alguém que já concluiu sua parte. Abri o papel com cuidado. Dentro, havia apenas um endereço antigo, escrito à mão, e uma data que coincidia com a mais antiga das encontradas nas pastas do Andar Inferior.

Guardei-o no bolso sem decidir o que faria com a informação. Naquele momento, percebi que minha relação com os registros havia mudado. Já não se tratava apenas de preservar o que existia, mas de reconhecer o que insistia em permanecer apesar de toda tentativa de organização.

Subi para o trabalho com atraso discreto. Ao longo da tarde, revisei materiais repetidas vezes, mas minha atenção retornava constantemente à conversa. Dona Celina não falava como quem adverte ou ameaça. Falava como quem repassa instruções mínimas antes de se afastar de uma função que já não lhe cabe.

Ao final do expediente, considerei descer novamente. Não o fiz. Ainda não. A informação precisava de intervalo para se acomodar. Arquivos não respondem bem à pressa.

Em casa, examinei o papel mais uma vez antes de guardá-lo entre documentos pessoais que eu raramente consultava. A data parecia correta. O endereço, reconhecível. Algo em mim assentiu à sua inclusão ali, como se aquele fosse o local apropriado havia mais tempo do que eu estava disposto a admitir.

Deitei-me com a sensação persistente de que uma transferência estava em andamento. Não de posse, mas de responsabilidade. E que, gostasse eu ou não, estava em vias de aceitar a designação.

Registrei o dia de forma sucinta antes de dormir.

Haveria descidas futuras.

Capítulo 6 — O Livro

Não desci no dia seguinte.

Essa decisão não teve forma deliberada. Apenas executei as tarefas habituais com atenção suficiente para manter o dia funcional e evitei pensar no Andar Inferior como quem evita um termo impronunciável numa língua, conhecida ou não. Era possível trabalhar sem acessar aquele espaço. Sempre fora. A diferença agora era saber que ele existia para além do que constava nos registros e que, de algum modo, essa existência me incluía.

O expediente transcorreu sem incidentes dignos de nota, ou seja, um dia como todos os outros da minha vida antes de descer ao Andar Inferior pela primeira vez. Atualizei fichas, respondi a solicitações protocolares, devolvi materiais às prateleiras corretas. Ainda assim, precisei conferir o relógio com mais frequência do que o habitual, como se aguardasse uma interrupção previamente acordada.

Ela não veio.

No meio da tarde, recebi uma solicitação simples da coordenação: verificar uma chave antiga encontrada numa caixa de materiais inservíveis. Muitas portas do prédio já não tinham uso definido, ou haviam sido modernizadas de alguma forma, e chaves surgiam com regularidade, destacadas de suas funções originais. Cabia a mim identificar, sempre que possível, a que fechadura pertenciam.

A chave era pesada e apresentava desgaste incompatível com as utilizadas nas áreas atuais. Se abrisse alguma porta não seria nas áreas comuns, frequentadas por funcionários e turistas, seria em áreas mais antigas. Seu peso parecia confortável em minha mão e se acomodou facilmente em meu bolso. Levei-a comigo até o corredor lateral por mera economia de deslocamento. Não planejava descer, mas quando dei por mim estava na escada, contando os degraus novamente.

No Andar Inferior, percebi imediatamente que aquela não era uma das chaves funcionais do setor. Estava prestes a subir quando notei, à direita, uma segunda porta, menor, recuada, quase oculta pelo alinhamento irregular das paredes. Eu não lembrava de tê-la visto antes. Isso, por si só, não era conclusivo. Aquele espaço parecia produzir omissões seletivas.

A chave encaixou.

A porta abriu com resistência mínima, como se tivesse sido usada recentemente, apesar da camada de pó antigo que cobria a maçaneta. O espaço além era menor do que o arquivo principal e mais organizado. Estantes estreitas acomodavam um número reduzido de caixas, todas numeradas à mão. As teias ali eram menos visíveis, não por ausência, mas por integração. Os fios acompanhavam as linhas das prateleiras, reforçando sombras, sustentando peso sem que se percebesse imediatamente o suporte.

No centro da sala, sobre uma mesa baixa, repousava um único volume encadernado em couro escurecido. Não havia título na capa. Nenhuma identificação externa. Apenas marcas de uso acumulado, como se tivesse sido manuseado por muitas mãos em intervalos longos demais para permitir desgaste contínuo.

Toquei o livro com cuidado. Nenhuma sensação imediata se seguiu. Abri-o.

As primeiras páginas continham registros técnicos, redigidos numa grafia antiga, porém legível. Tratavam de manutenção estrutural, conservação de materiais sensíveis, decisões administrativas tomadas “em caráter excepcional”. Não havia nomes completos. Apenas iniciais recorrentes, variáveis, como se a função fosse mais importante do que quem a exercesse.

Avancei.

Em páginas posteriores, o tom se alterava sutilmente. As anotações deixavam de se referir à estrutura física e passavam a tratar de conteúdo. Não documentos específicos, mas ocorrências. Situações descritas sem contexto externo, mantidas ali por necessidade operacional, não por valor histórico reconhecido.

Em uma dessas páginas, encontrei o que procurava. Ou o que havia sido preparado para ser encontrado.

Um documento solto, inserido entre registros de outra época. O papel era espesso, quase quebradiço, com marcas d’água que não consegui identificar de imediato. A data estava inscrita no topo, em tinta já esmaecida.

17 de outubro de 1810.

Li duas vezes para confirmar. A Biblioteca Nacional, como instituição naquela forma, ainda não existia. O prédio sequer havia sido projetado. Mesmo assim, o texto fazia referência clara a um local físico, descrito com precisão inquietante: paredes de pedra, ambientes subterrâneos, necessidade de contenção e continuidade.

O conteúdo era breve, mas categórico. Falava da importância de manter determinados registros fora do fluxo comum, independentemente de reformas, mudanças administrativas ou transferência de sedes. Mencionava a necessidade de que alguém assumisse a função de guarda sempre que possível. Não havia a descrição de alguém específico, mas era ciata a necessidade de alguém adequado.

No final, não havia assinatura. Apenas uma observação lateral, escrita em grafia menor, quase como comentário posterior.

“O edifício muda. A função permanece.”

Fechei o documento com mais cuidado do que o necessário e o devolvi ao volume, mantendo a posição exata em que o encontrara. Tive consciência clara de que aquele material não havia sido colocado ali para consulta casual. Também compreendi, com igual clareza, que sua preservação não obedecia às mesmas regras dos demais acervos.

Ao sair, tranquei a porta menor e guardei a chave em minha gaveta, junto com a que levava ao Andar Inferior. No sistema, não registrei sua compatibilidade com nenhuma fechadura ativa. Anotei apenas que não fora possível identificar a função original e que o descarte já havia sido providenciado, conforme o Padrão.

O mundo parecia intacto, seu funcionamento normal. Ainda assim, ao caminhar em direção à saída, tive a impressão incômoda de que algo fora encerrado com precisão excessiva, como um formulário concluído fora da vista do responsável final. Devidamente assinado, carimbado e arquivado para nunca mais ser consultado.

No caminho para casa, pensei no documento de 1810 e no modo como se encaixava sem esforço na sequência de eventos recentes. Antigo demais para ser coincidência. Atual demais para ser apenas curiosidade histórica. Aquilo não fora preservado por engano. Tampouco por esquecimento.

Registrei mentalmente a conclusão provisória de que o que eu havia encontrado não era antigo no sentido comum da palavra. Era contínuo.

Naquela noite, antes de dormir, revisei o nome completo sob o qual eu trabalhava, repetindo-o em silêncio como quem verifica uma etiqueta antes de classificá‑la definitivamente.

Fernando Silva.

Nome comum. Função em aberto.

O Acesso estava encerrado. A partir de agora seria iniciada a catalogação.

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G4, Entre Romances e marcado .