CAPÍTULO I
Um golpe rápido invadiu a garganta. O facão, travado no esqueleto, pingava sangue grosso e escuro. O corpo do ricaço jazia ainda morno, derrotado, na mais ampla suíte da fazenda.
Com o coração desacelerando, Pião buscava o quarto da patroa. Ele sabia que se não tivesse matado o latifundiário, a recém-viúva o mataria. Era o mais frágil, estava encurralado. A precipitação da patroa fez com que ele se salvasse, sacrificando o patrão.
No fundo sempre pressentiu que a tragédia faria parte deste romance improvável.
A distância entre os quartos era grande, não maior do que a distância entre os donos da fazenda. Eles dormiam separados havia anos. Não tiveram filhos e o casamento seguia esfriando, sem nunca ter sido realmente quente. Na cidade pequena, o falecido herdeiro havia sido direcionado ao namoro com a filha do prefeito. Era tradição entre os mais ricos arranjar os casamentos dos filhos, evitando o relacionamento entre parentes.
Agora, Elizabeth seria a única herdeira. Ela esperava por isso. Na verdade, arquitetou esta conquista. Para ela era uma questão de merecimento, afinal era mais inteligente que os boçais que mandavam na cidade.
Havia dias que a família de Pião não tinha notícias dele. Viviam do outro lado da cidade, na Fazenda Ônix. Desde que os rumores do romance surgiram durante a quermesse, a situação havia se tornado mais complexa. Temiam pelo pior.
Na Fazenda Alva, a presença de Pião já não causava estranheza, principalmente quando o patrão estava viajando. Os boatos permeavam as conversas furadas, fiadas e corriqueiras.
Pião sempre teve uma vida dura, de muito trabalho e conforto mínimo. Assim como seus pais e seus avós. Tinha dois irmãos, todos peões. Assim como seus muitos tios.
Estava um pouco melhor que os antecessores, pouco o suficiente para perceber a diferença. Melhorava pelo menor número de pessoas habitando os dois cômodos do casebre. Outro tanto pelo melhor acesso à educação e à saúde. Contudo a prosperidade ainda era uma realidade distante. Viviam amontoados em exíguos quadrados de terra, circundados pela infinitude da tradicional Fazenda Ônix.
Desde pequeno, Pião sempre ajudou nas atividades com o gado, com a aragem, na colheita. A alfabetização foi um marco. A kombi velha levava os filhos dos trabalhadores da fazenda em duas viagens. O patrão custeava o transporte.
Além dos barulhos do motor embolado, somados ao escapamento estourado, o carro produzia ruídos conforme os buracos do percurso surgiam. As freadas eram frequentes e às vezes dolorosas. As ripas de madeira faziam parte do ritual após as chuvas. Ajudavam a desatolar e tingiam de barro os uniformes já surrados. Era o único momento de algazarra da molecada. As diminutas manchas eram apreciadas pela maioria dos pequenos passageiros. Peão imaginava serem medalhas, recebidas merecidamente por salvar o tanque que os transportava. Seu irmãozinho, guloso, pensava nos brigadeiros que a avó fez, quando a sobra da ordenha virava leite condensado.
Surpreendentemente os pequenos seguiam sempre calados durante a viagem. O motorista, cunhado do capataz, não era para brincadeiras.
Na escola sentiu que era diferente. Os primeiros dias foram difíceis, não compreendia o que parecia ser fácil. Ouvia com atenção, mas franzia a vista com dificuldade. Tentou desistir, mas a mãe não deixou. A professora trouxe Pião para as primeiras carteiras da sala de aula. De repente tudo ficou claro. Na ótica a miopia foi diagnosticada. O peso do fundo de garrafas passou a acompanhá-lo.
Descobriu um novo horizonte, finalmente passou a enxergar as fronteiras do latifúndio com nitidez. Leitor contumaz, de bula de remédio para carrapato, aos rótulos dos defensivos agrícolas, dos pacotes de biscoito aos versículos, tudo com letrinhas e números o atraía.
Era dos mais calados da turma, contudo passou a construir um mundo interior cada vez mais rico. Via sentido em correlação entre os textos e a natureza da roça. Desenvolvendo sua própria semiótica, intuía sobre o caráter dos colegas, dos parentes e principalmente dos patrões.
A escola oferecia uma certa neutralidade. Os filhos dos trabalhadores rurais estudavam juntos com os filhos dos pequenos comerciantes e dos funcionários públicos. Havia diferença socioeconômica, havia a discriminação racial e de gênero, mas menos agressiva que a das ruas e estradas. Havia falhas, mas o ensino oferecia oportunidades para os mais interessados, capacitados e esforçados. Era um degrau na remota chance de ascensão.
Fingindo-se distraído, garimpava os cochichos dos adultos. Sentia uma dicotomia entre admiração e ódio pelos donos da fazenda. No suor cotidiano, comprovava o desequilíbrio entre direitos e deveres. Não tinha grandes ambições, mas ficava incomodado com as pontas de inveja que sentia. As roupas, os carros, as comidas, os livros dos filhos do patrão.
A biblioteca pública era diminuta e vivia às moscas. Alguns casaizinhos aproveitavam a sonolenta atendente para dar uns amassos. Pião lia dois ou três livros por semana. Sempre antes de dormir, a luz de velas ou no domingo à tarde sob a mangueira, abstraía-se do mundo bruto. Esgotou Monteiro Lobato, Agatha Christie, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues … Acabou por se esgotar rapidamente. As novas obras pingavam lentamente ao longo do ano.
Imerso nas letrinhas, conversava consigo sobre as coisas simples, que acabam se imiscuindo na complexidade nos relacionamentos.
Os professores estavam sempre atarefados e poucas vezes se colocavam disponíveis para aprofundar discussões. Limitavam-se ao mínimo, como que nivelados pelo desinteresse da maioria. A curiosidade de Pião ia se acumulando, até que num lampejo, alguma obra literária abordava a mesma dúvida. A euforia era instantânea. O presente maior era quando o dilema era visto por outro ângulo. Adorava um contraponto e tecia diálogos imaginários com personagens e autores.
Seu ego começou a inflar com as boas notas e, principalmente com a sensação de conseguir ler as pessoas. Sua autocrítica o punia quando errava. Sabia que mais acertava do que errava sobre a previsibilidade do comportamento alheio, porém os poucos erros de avaliação eram sempre gigantescos.
Amadurecia que a superfície era indicativa, mas nunca definitiva sobre o que esperar de uma pessoa. Não era apenas uma questão sobre falsidade ou interesses velados, era principalmente uma questão de complexidade, de detalhes e de dúvidas reais.
Decepcionou-se com uma tia simpática. Havia identificado nela uma bondade similar a que encontrara na avó. Percebeu, contudo, um desvio de caráter significativo. Começou observando no jogo de canastra, onde escondia cartas e aumentava a contagem dos pontos. Piorou ao ver que furtava frutas e porções de mantimentos quando não era observada. Buscou entender os motivos. Matutava se a avó também possuía falhas.
A puberdade foi um novo divisor na sua estrada de autoconhecimento. As jovens que eram galanteadas, ora enrubesciam, ora bufavam entediadas. Ficou irrequieto pois não compreendia bem a lógica do jogo da sedução. Buscava nos livros soluções prontas. Não funcionavam. Na metalinguagem da vida, embolava entre autor e personagem.
A timidez, os óculos e até mesmo uma erudição peculiar na sua comunidade, o taxavam de esquisito. Não era feio. Nem alto, nem baixo, os músculos eram bem distribuídos pelo corpo moreno. Frustrava-se frequentemente pela conquista dos colegas. Eram os primeiros beijos. Ele, o melhor da turma, ficou no final da fila.
Junto à descoberta dos prazeres da carne, as drogas surgiam para a meninada. A mais comum era a cachaça, usada pelos parentes, principalmente nos finais de semana e nas festas. Era um dos pontos fracos de Pião. O relaxamento e a coragem de se expor o estimulavam a beber mais. Infelizmente a família era leniente a este respeito. Os exageros passaram a ser mais frequentes.
O apelido que o acompanha até hoje surgiu dos primeiros porres. Pião rodava, bamboleava e caía. Por algum motivo não se arrependia, nem sentia vergonha. Tornava-se menos estranho, como se fosse uma parte da comunidade.
A natureza tomava conta da meninada e os hormônios mostravam atalhos para os namoros. Não era incomum a gravidez indesejada. Quando acontecia se resolvia na faca, ou com mais frequência, no casório dos jovens. Pião conseguiu o primeiro beijo numa festinha para comemorar um batizado. A expectativa era grande.
Não ouviu trombetas e o tempo não parou. Não chegou a ser frustrante. Ao invés da mais bela música, ouviu o estalo de línguas ansiosas. Não havia doçura nos lábios da donzela. A saliva não causava constrangimento. Ouviu o coração da jovem acelerar. Seu corpo reagia aos instintos da maneira prevista. O prazer de sentir as nádegas em suas mãos. O aperto o fazia sentir algo quase indescritível, um equilíbrio entre maciez e rigidez, único. Um raspão do bico do seio da moreninha em seu braço provocou um arrepio delicioso. Dormiu feliz, pensando em calibrar as expectativas futuras, administrando o amor do romance ou da poesia, com o prazer físico do sexo.
Intimidades maiores surgiam moderadamente, muito aquém dos seus anseios. Ouvia ressabiado as histórias da iniciação sexual menos ortodoxas ou previsíveis como zoofilia, incesto ou meinha. Preferiu nunca se aprofundar no assunto. A literatura o entretinha e saciava a curiosidade.
O moço acabou trabalhando no empório da fazenda. As notas altas chamaram a atenção da rica família. Era uma ocupação de meio expediente como jovem aprendiz. Na prática era um faz tudo. Curioso, Pião achava a atividade interessante. Não sentia muita falta da roça. Sabia que a ocupação só seria possível por poucos anos. Certamente seria substituído por outro jovenzinho mal remunerado.
A lojinha era uma mistura de armazém e armarinho. Havia bugigangas e itens de primeira necessidade. Servia principalmente aos trabalhadores da fazenda. As compras eram anotadas num caderninho e o ajuste de contas se dava no pagamento mensal. O patrão também servia de fiador nas compras nas lojas da cidade. Foi assim com os óculos do Pião, pago em suaves prestações. Alguns visitantes aproveitavam para comprar doces, queijos, cachaça e artesanato.
Pião observava os hábitos de compras dos trabalhadores e dos turistas. Enquanto uns eram movidos principalmente pela necessidade, os outros pelo impulso e a indulgência. Uns viam os parcos recursos serem totalmente consumidos até o final do mês, os outros sacavam o cartão de crédito sem culpa.
Pensando bem, o salário modesto não era assim tão menor que o dos seus parentes, principalmente quando se considerava o número de horas trabalhadas. Após alguns meses comprou um celular, modelo simples, que abriu o mundo da internet.
Pião ficou viciado na rede de informações. Jornais, revistas, livros, blogs passaram a ser uma cachaça. Nas horas de folga, ficava sempre às margens do Wi-Fi que conseguia senha. Tornou-se cada vez mais introspectivo, num mundo virtual, conectado aos acontecimentos. Sua avó estranhava o jovem “assistir” TV num radinho diferente.
Fato foi que passou a usufruir menos da literatura, não que a tivesse abandonado. Em contrapartida, era um dos mais bem informados da região. Uma fagulha de ambição gerava uma vontade de prosperar.
Imaginava um safari, um passeio pelas pirâmides, pela Torre Eiffel, ou mesmo Nova Iorque. O fato é que nem ao cinema de Juiz de Fora ele havia conhecido. Por enquanto o mundo dos livros lhe bastava.
Ele vivia em área razoavelmente pródiga, sem miséria profunda, mas identificava-se com os personagens de Vidas Secas e Morte e Vida Severina. As covas rasas e retangulares se acumulavam nos pequenos terrenos. A missa de domingo era o único momento em que convivia com as famílias ricas dos patrões, dos funcionários da prefeitura, do comércio… As castas distribuíam-se entre os bancos da igreja conforme suas posses. Numa cidade separada por sobrenomes, mesmo os mais humildes sentavam-se no lado que lhes cabia: Alva na direita e Ônix na esquerda.
Pião prestava atenção na missa e sabia de cor vários trechos. Não se achava muito religioso, seguia o ritual por inércia. Com tempo sua crença foi se desgastando. Um sermão o marcou:
– Irmãos, o calor está implacável! Como interlocutor direto com o Divino, peço uma doação especial para comprar um ar-condicionado, pois preciso descansar bem.
Pião viu o lado humano do pároco e passou a falar com Deus sem intermediários. A reza o acalmava. Finda a missa, começava a vida real. Os peões eram os primeiros a sair da Igreja. Quase sempre também eram os primeiros a morrer, afinal, eram muitos.
Diferentemente de seus antecessores, os trabalhadores mais jovens passaram a ter direito às férias. Como o dinheiro era escasso, muitos aproveitavam a ocasião para fazer serviços, como pintura de muros, carpir terrenos, pequenas obras. Numa obra de expansão da residência do prefeito, Pião decretou o seu futuro.
Pião trabalhou por empreitada e foi imediatamente assediado pela filha do prefeito. Ela não resistiu aos bíceps e tríceps sarados e arrastou o jovem para o abatedouro. Ele teve receio, afinal, a corda sempre estourava do lado mais fraco. Mas acabou desfrutando de delícias e saliências que nem imaginava existirem.
Elizabeth era ardilosa. Ela tinha um pequeno apartamento que herdara e mantinha alugado. Contudo desde a saída do último inquilino, ela havia transformado o local em uma garçonnière. Usou o carro da governanta, pequeno, discreto e com vidros escuros. Estacionou dentro do prédio e subiu os dois lances de escada.
Pião imaginava o que o esperava. Aceitou automaticamente o convite direto da patroa. Era de praxe dizer sim para os donos da cidade. Contudo, havia errado totalmente na dimensão do evento.
Elizabeth serviu um uísque para eles e foi para um dos cômodos se preparar. Avisou que não demoraria. Pião sorveu a bebida avidamente, aproveitou a proximidade da garrafa e tomou mais uns tragos. Elizabeth o deixou esperando por quase uma hora, uma eternidade. O álcool o acalmava um pouco.
Valeu a pena esperar. Elizabeth surgiu seminua, linda. Um beijo longo o deixou hipnotizado. Nunca mais esqueceria aquela tarde de luxúria. Ela comandava e os seus instintos acatavam integralmente as ordens. Sim, não eram pedidos. Lascívia no ar, virilidade à prova, sensações nunca sonhadas. Fadiga pairando, evaporava rapidamente com o desejo e o prazer, repetindo-se alucinantemente.
Elizabeth usou e abusou do Pião, que consentia e sentia-se um privilegiado. Viveu tão intensamente os momentos que parecia uma obra de ficção. Não imaginava que o êxtase existisse. A ordem final veio seca:
– Vou tomar um banho e partiremos! Você fica na estrada do morrinho.
Em casa, a bucha atritava seu corpo másculo. Aromas e sabores acridoces permaneciam. O doce cansaço era um prêmio. Pensou se alguma vez haveria de repetir aquelas sensações. Comeu a sopa com pão, pela primeira vez deitou-se sem ler.
Elizabeth chegou com a mesa posta. O cabelo molhado foi motivo de arguição. Debochada, alegou que havia chovido. O solo seco e poeira na estrada não confirmavam. Degustou a salada, pulou a carne e refastelou-se com a mousse e um conhaque francês. Dormiu tarde, ansiosa, planejava repetir a experiência da tarde por mais vezes.
Nas semanas seguintes os encontros românticos voltaram a acontecer. Tendo como característica principal, nunca se repetirem as cenas. Elizabeth usufruía do vigor do seu amante como queria. A professora era ora generosa, ora cruel. Pião se adaptava, bom aluno, queria passar nas provas com louvor. Foram semanas únicas para o casal apaixonado.
A experiência sensorial era gigantesca para Pião. Degustou salmão defumado com vodka congelada, sushi e sashimi com champanhe, carpaccio com vinho tinto, tudo harmonicamente combinado. Rejeitou o charuto com conhaque. A fumaça o agredia, trazendo lembrança de queimadas na roça. Havia música, sempre. Pião não era muito tocado por esta arte. Era mais do silêncio e da contemplação. Às vezes no caminho a pé para casa, pensava em ousar e retribuir com uma experiência gastronômica. Ao fim optou por não levar a carne de lata e a cerveja gelada. Achou melhor não arriscar.
Apesar de cuidadosa, Elizabeth gostava de correr alguns riscos. Fazia parte do seu ritual de sedução. Pião era um coadjuvante perfeito. Seguia as determinações com afinco, mesmo quando se sentia inseguro. A recompensa era sempre melhor do que previsto. De alguma maneira a tensão amplificava os sentidos.
Com o fim da obra, restaram apenas fugas após a missa ou na quermesse. Na cidade pequena era impossível manter o segredo. Os boatos cresciam, mas ninguém tinha coragem de alertar o dono da Fazenda Alva.
O último encontro do casal foi pungente. A aparentemente fria Elizabeth externou uma admiração extrema pelo Pião. Fraquejou ao afirmar que estava apaixonada e que precisava dele para ser feliz. Ele sentiu algo inédito, valia algo, não era só braço e força.
O clima de despedida apimentou a tarde, expandindo o desejo e capitalizando o prazer de ambos. Não haveria de terminar assim, ambos sabiam. Ninguém imaginava ainda que o assassinato seria parte da história.
Pião distanciou-se da igreja. Havia um misto de culpa pelo envolvimento com uma mulher casada, com uma revolta por não poder perseguir seus desejos. Optou por uma confissão e surpreendeu-se com a curiosidade do pároco em saber quem era a mulher, cúmplice de seus pecados. Deixou de comungar.
Passou a ler menos. Perdia a atenção e seguia nas redes sociais, navegando nas futilidades. Buscou a pornografia, mas nem de perto suplantava a experiência compartilhada com Elizabeth. Passou a questionar sua vida, lembrou de Sartre e vivia sua náusea.
A cachaça seguia como companheira, às vezes subestimada quando compara com os uísques daquelas tardes. Esperava encontrar Elizabeth, mas nada acontecia. Bebia mais, mais triste ficava.
Elizabeth também sentia um vazio. A rotina da fazenda tolhia a vontade de escrever. Ocupou-se de outros amantes esporádicos, mas nada substituía a vontade de estar com o Pião.
Um dos irmãos de Pião, que temia por ele, sugeriu que se afastasse das tentações. O jovem não era chegado aos livros e sempre ia mal nos estudos. Usufruía da admiração de Pião pela destreza com os números e praticidade no campo. Calculava rapidamente a quantidade de ração, o número de baldes de leite a serem ordenhados e onde estocar os fardos. Pião sempre ouvia com atenção o irmão, porém debochou quanto à preocupação. perguntou se o irmão havia lido Homero, enquanto imaginava ser Ulisses, assediado pela sereia Elizabeth.
O caçula convenceu-o a frequentar o culto ao invés da missa. Assim, distante da rica amante, estaria mais protegido. A eloquência do pastor o impressionou de imediato:
– Irmão, quem doar será abençoado duplamente. Terá a portas do céu abertas e poderá comprar um ar-condicionado.
O calor parecia uma pauta ecumênica na cidadezinha.
Pião se encantou por Elizabeth. Além de amante, era a professora que ele nunca teve. Filha de um prefeito idiota, ela teve a sorte de herdar os genes da mãe, que havia largado o marido para fazer doutorado na Sorbonne.
O amor carnal tornou-se quase secundário. Ele queria ouvi-la. Ser desafiado. Havia algo no modo como ela o fazia pensar que nenhum toque podia igualar.
Adorava o pedido que vinha depois de cada resposta sua — quase um sussurro, mas com o peso de uma exigência elegante:
— Elabore um pouco mais.
Não era um capricho. Era um convite, um estímulo para sua inteligência.
E ele ia, como quem dança no fio da navalha. Cada palavra escolhida a dedo, cada silêncio carregado de significados.
Entre eles, o prazer vinha do pensamento tensionado, da ideia que nascia no atrito. E ali, naquele campo de jogo onde os corpos eram só coadjuvantes, ele se sentia verdadeiramente nu.
Elizabeth sabia do bom nível cultural do Pião. De maneira calculada, para não perder o controle, estimulava que ele trouxesse a pauta da conversa, que abrisse a discussão. Acanhado, muito na dele, quase nada brotava. Ela então buscou desafiá-lo e escrever. Ele não tinha por hábito registrar suas ricas divagações. Ele pediu para ler algo de autoria dela. Não havia texto em português. Ficou a semente de registrar seus pensamentos, contudo ainda soava um pouco ousado demais para um simples peão, por mais que tenha avançado no tabuleiro da vida.
Pião havia visto Elizabeth na missa. Sempre bem-vestida, chamava a atenção nos primeiros bancos. Numa ocasião em que ela fez uma leitura, chegou a ficar excitado, tanto pelo corpo e o rosto da mulher, quanto pela voz segura e aveludada.
O sentimento inapropriado para uma igreja o fez sentir-se culpado. Questionava como poderia ser um ofensor a um ambiente tido como sagrado. Ao mesmo tempo acreditava que seus impulsos eram espontâneos, naturais e puros. O desejo não poderia ser pecado.
O conflito abria o apetite para a cachaça das tardes de domingo.
A infância de Elizabeth foi cercada de hipocrisia. Criada na nata da tradicional cidade mineira, desde pequena assistia a busca pela manutenção das posses, a luta por mais influência e as traições e falcatruas.
O pai foi ausente. Envolvido na política local, ocupou a prefeitura algumas vezes, sempre como capacho dos fazendeiros, emulando um poder mais de fachada do que real.
Estudou em um internato conservador. Era estudiosa e inteligente, ao mesmo tempo questionadora e impetuosa. Arquitetava fugas, enquanto conseguia cigarros, bebida e livros proibidos. Sim, tudo que aludisse ao sexo era terminantemente proibido.
Perdeu a virgindade com um amigo da família. Era um homem casado, jovem e discreto. Deixou-se seduzir e não sentiu culpa após a consumação do ato.
Não foi ruim a experiência, mas de alguma maneira ficou aquém do que esperava.
A excitação maior era saber que as perdas do galanteador seriam maiores do que as suas. Ele se arriscou por ela. Sentiu-se desejada e poderosa.
As punições eram tiradas de letra. Elizabeth sempre soube o que quis. Admirava a mãe culta, que dissimulava subserviência ao marido. Entre quatro paredes dominava o marido beócio, enquanto se passava por madame conservadora para a sociedade local.
Assim como a mãe, Elizabeth gostava das artes, principalmente da literatura. Tinha aulas particulares de francês e inglês. O pai não acompanhava as duas, limitando-se a jogar o jogo do poder, onde aparência e relacionamentos são indispensáveis para o sucesso.
Elizabeth tornou-se uma jovem muito culta, a cidade interiorana não era suficiente para ela. Aproveitou o curso de sociologia em Belo Horizonte e o intercâmbio em Paris para viver as aventuras que sonhara.
Teve experiência com as drogas, mas não foi abatida pelo vício. Experimentou o sexo de forma liberal, tendo o cuidado de não expor a sua imagem. Era a verdadeira come quieta.
Entre flertes e amantes, acabou por ter o casamento arranjado com o herdeiro do maior latifundiário da região. Sua mãe tinha a sensação de déjà vu, mais um marido limitado, infelizmente necessário para atender as ambições das famílias.
A mãe de Elizabeth não resistiu e foi viver na cidade luz, voltando a estudar. Elizabeth sentia a falta da mãe, investia seu tempo em ler e escrever, entremeando uns amantes furtivos. Especulava-se na cidadela moderadamente.
Os relacionamentos com o pai e com o marido eram cada vez mais distantes, na mesma proporção em que diminuíam a consideração e a admiração por ambos. No fundo eles haviam sido preparados para desempenhar os seus papéis, o que faziam com excessiva mediocridade.
A vida na fazenda era confortável, os luxos e mimos davam cores ao cotidiano modorrento. A escrita era sua maior alegria. Exercitava seu francês e descrevia sonhos e desejos latentes.
As reflexões sobre o seu papel na sociedade eram constantes. Acabava por evitar conflitos, desenvolvendo cada vez mais a influência e mesmo a manipulação do marido. Ponderava e acabava por aceitar a manutenção do casamento fingido.
Era impossível não comparar sua jornada com a mãe. Ambas fortes, inteligentes e cultas. Contudo foram incapazes de refutar os destinos impostos pelas famílias. Os interesses financeiros e políticos tiveram papéis primordiais no destino das fascinantes mulheres.
Pião não era violento. Quando rezava, pedia perdão por alguma saliência no rio, ou por uma bebedeira maior, nada muito grave. Nunca imaginara que mataria um homem, não qualquer homem, o mais rico da cidade.
O inusitado, o gesto desprovido de escrúpulos, o que não faz sentido à primeira vista — tudo vale, desde que expanda as suas possibilidades. Porque toda decisão, ainda que libertadora, é também um ato de renúncia: abre portas, mas tranca outras para sempre.
No tabuleiro das contas de vidro, tudo é harmonia — mas é o caos da vida que dá cor à alma. De que serve a sabedoria, se não há mundo onde ela possa ser derramada? O jogo é belo, mas estéril. E a decisão, quando chega, carrega o peso das portas que se fecham atrás.
Pião sabia que havia sido manipulado. O facão tão conhecido por ele, não fazia parte do cenário. Elizabeth o havia induzido ao crime e plantado a intriga no marido. Escrúpulos escassos, numa brilhante orquestração, foi uma jogada de mestre.
Deu no que deu: para sobreviver, Pião teve que assassinar o marido traído.
Finalmente ele chegou ao quarto de Elizabeth, chorou arrependido. Perguntou:
– Por que você me induziu ao crime? Por que me disse que ele estava viajando?
Ela laconicamente disse:
– Fiz, um pouco porque queria e muito porque podia.
Pião estava nas mãos da justiça. Manipulado uma vez mais, não conseguia odiar a sua amada. Ela parecia estar acima do bem e do mal. Elizabeth o abraçou carinhosamente, não sendo retribuída. Havia um instinto protetor muito forte naquele ar.
A cidade era assim. Encobriam-se os deslizes dos ricos, punia-se os pobres e tudo seguia como previsto pela cartilha do mal. As evoluções tecnológicas resumiam-se à substituição do radinho de pilha pelas antenas de tv e depois pelos celulares. A tradição trocava de roupagem, mas nunca se modernizava.
Os computadores na sede da prefeitura não eliminaram as filas para pedidos de licenças, alvarás e outras burocracias supérfluas. As agências lotéricas recebiam as hordas dos viciados e dos recebedores dos parcos benefícios das aposentadorias ou bolsas assistencialistas. A modernidade não retirava a morosidade da vida institucional.
A justiça determinaria a punição de Pião. Ele não contava que Elizabeth tinha cartas na manga para evitar o pior. Não por acaso, os matizes da lei acabariam por jogar a favor do assassino. Muito se passou até a chegada da polícia, numa estratégia habilmente orquestrada pela dona da fazenda.
Elizabeth ligou para o pai. O prefeito chegou rapidamente na Fazenda Alva, acompanhado do Pastor e do Delegado Torres. Elaboraram um plano para alegar legítima defesa, sabendo que era forçar demais a barra. As evidências teriam que ficar em segundo plano. Não seria uma exceção num local onde o “sabe com quem você está falando?” sempre esteve arraigado.
Para funcionar, era imprescindível o suporte dos donos da Fazenda Ônix. A negociação não ficou barata. Era época de eleição e o preço do apoio foi estabelecido pelo latifundiário, histórico adversário:
– Eu concordo com a maracutaia, com uma condição. Apoiar o burrinho do meu genro como candidato conjunto das fazendas Alva e Ônix. Será uma grande conquista para a nossa cidade.
O prefeito atual era um reles agregado da família rica, um genro incompetente, direcionado a sugar o Estado ao invés do patrimônio familiar. De alguma maneira a proposta mantinha a tradição, como uma meritocracia reversa.
O chefe da polícia vislumbrou uma oportunidade, afinal estava ficando cansado de viver de propinas:
– Vejam bem, eu faço vista grossa com uma condição. Meu caçula é o vice-prefeito da chapa. Já daria um alívio no orçamento.
Também não foi empecilho. O policial vislumbrou uma oportunidade de crescer a influência da sua família no cenário político. Uma mão lavava a outra.
Resolveram sondar o pastor. O pedido dele estava na ponta da língua:
– Precisamos modernizar as nossas instalações. Que tal oficializar a doação de um terreno da prefeitura para construção de mais um templo.
Aí o estratagema e as trocas de favores chegaram ao conhecimento do padre. O defensor maior da moral e dos bons costumes também queria o seu quinhão. Ele fez o seguinte pedido:
– Senhora Elizabeth, diante de tantas posses, o que seria a doação do melhor garanhão para a rifa principal da quermesse? Iria render um bom dinheiro,
Todos atendidos, a viúva fingia tristeza, enquanto Pião tornava-se o capataz da Fazenda Alva, livre de qualquer implicação com o crime. O novo prefeito era um verdadeiro idiota, manipulado pelo filho do policial. A Fazenda Ônix havia ganho esta rodada, graças ao peão ter chegado ao limite do tabuleiro. Tudo normal, como num romance do Jorge Amado, passado num pródigo Sudeste.
Tanto na Fazenda Alva, quanto na Ônix, a prosperidade era mantida com os latifundiários. A peãozada seguia em seus quadradinhos de terra, limitados pelo jogo da vida. Nesta cidade, só o Pião havia chegado mais longe. Agora a cachaça do domingo havia dado lugar ao uísque antes de dormir. O quarto em que dormia era maior que a casa da sua família.
A situação da família de Pião ficou mais complicada. Ele agora tinha papel de destaque na fazenda rival. Havia uma desconfiança em relação aos seus parentes. Não ocorreu uma retaliação imediata, mas Pião arquitetou para trazer os irmãos e primos para a nova fazenda. Os pais e avós ficaram segregados, enquanto mantinham seus lotes de terra. Era um ponto de preocupação permanente. A ascensão social de Pião não era extensiva a seus familiares, contudo ele influenciou para protegê-los.
Pião ainda tinha pesadelos. Não apenas com o assassinato. A cena se repetia, o marido traído, os xingamentos humilhantes do fazendeiro, a tentativa de defender-se, o facão…
Sonhava com Elizabeth, ele escravizado sexualmente. Era consentido, porém via sua situação social de baixa mobilidade. Podia sair da fazenda, mas optava por ficar. Assim era com Elizabeth. Poderia não a obedecer, contudo ela era irresistível.
Acordado, buscava entender o esforço de Elizabeth para inocentá-lo. Ficava feliz por segundos, até identificar o egoísmo, no fundo ela não queria perder o escravo amado. Era mais uma peça no engenhoso plano de poder.
Ele sentia a sua evolução, desde a base sólida na leitura e nos estudos, até a escola da vida. Ele tinha sido um bom aluno. Havia desaprendido os ensinamentos do seu avô, onde não havia dúvidas em fazer sempre o que era certo. Hoje vivenciava uma realidade onde os escrúpulos eram relativizados em função das ambições, dos desejos e dos objetivos.
Pião guardou o facão e mergulhou ainda mais nos livros. Ao ler Maquiavel, percebeu que o jogo do poder na sua cidadezinha era assustadoramente parecido com o da longínqua Itália. Animado, começou a convencer Elizabeth a comprar a Fazenda Ônix. Já estava na hora de mudar o jogo e as suas regras. A ambição passara a fazer parte fundamental da vida, e do futuro, de Pião. A ousadia era necessária para crescer, tentar equiparar-se à amada. Os riscos associados eram surpreendentemente maiores. Infelizmente não era possível deixar o tabuleiro estático.
Uma história que parte de uma boa premissa, cheia de ação.
Pelos elementos, Alva, Ônix, Peão, Dama, Cavalo, Bispo (pastor, padre), quadrados, este deve ter sido um conto para o desafio Xadrez, que foi adaptado para romance, não é? Isso explica muita coisa. Acho que nós, aqui no Entrecontos, nos habituamos a escrever contos e, agora que estamos nos aventurando nas narrativas mais longas, temos lá nossos cacoetes para corrigir. Um deles, é o ritmo.
A narrativa é interessante, porém, como leitora, senti vontade de dizer “ei, calma aí narrador, respira um bocadinho. Conta mais, como assim?”. Sabe, a arte da fofoca? Pois é.
Eu não tenho paciência para assistir ao BBB, mas adoro me manter informada. Pois um dos canais do Youtube que sigo nesses importantes momentos televisivos tem como lema o seguinte: “aqui, a fofoca é organizada, vem que eu te conto tudo com detalhes e em ordem cronológica”. Tudo bem que ordem cronológica num romance não é das coisas mais importantes. Mas, às vezes ajuda.
Preciso dizer que, algumas vezes, me senti meio perdida, precisei reler. O primeiro parágrafo, por exemplo. Demorou para entender que o herdeiro e o ricaço/latifundiário/patrão/defunto eram a mesma pessoa. Está errado não botar o nome do sujeito? Não. É uma escolha entre clareza e mistério. Mas me soou esquisito o cara ser assassinado num parágrafo e, no seguinte, ser chamado de herdeiro. Falecido herdeiro, mas mesmo assim. Eu fiquei pensando, ué, não tiveram filhos, mas em seguida se fala no falecido herdeiro. Eles não tiveram filhos, ou tiveram e o filho faleceu? Ou é de outro herdeiro que estamos falando?
Algumas coisas me fizeram pensar. O narrador se refere a Elizabeth como “a filha do prefeito”. Resultado: para mim ela é solteira. Novamente, foi difícil de entender que ela era a viúva do ricaço/ latifundiário/patrão. Pensei primeiro que ela fosse filha do ricaço/ latifundiário/patrão, que tivesse tramado a morte do pai, depois que ela fosse alguma trambiqueira aleatória, qualquer coisa, menos que ela era a viúva.
Culpa do patriarcado, que se a mulher é casada o marido deve ser mencionado? Com certeza. Lerdice minha? Com certeza também.
Acho que você tem uma boa história nas mãos e, para não perder a ideia, foi escrevendo tudo. Fiquei com a sensação de ter lido uma escaleta e, concluída a leitura, de que você já contou a história toda. Espero que não, e que você tenha guardado coisas para os próximos capítulos.
Enfim, sinto que o texto ganharia muito com uma reorganização. Não precisa ser linear, ordem cronológica, não. Mas para contextualizar as informações. Seria interessante também um respiro, um suspense, um silêncio, de vez em quando. Dar nomes a alguns bois. Dar uma pausa para o leitor conseguir organizar as ideias.
Muito obrigado, Kelly. Realmente usei um dos contos do desafio do xadrez como base. Captei seus pontos sobre ritmo e clareza. Espero acertar na mão nos próximos capítulos.
CRÍTICA APÓS LEITURA DO CAPÍTULO I
Esse capítulo tem uma ambição temática clara e uma matéria-prima muito rica, acho que talvez seja o tema/linguagem/narrativa mais próximo da literatura brasileira raiz nesse desafio. A história de Pião carrega em si algo genuinamente brasileiro, esse retrato da imobilidade social atravessada por um golpe do destino, e há momentos em que o texto consegue fazer isso respirar com vida própria. Mas há também alguns ajustes estruturais que eu gostaria de sugerir.
A construção da infância de Pião é o trecho mais sólido do capítulo. A kombi velha, as ripas de madeira no barro, os óculos pagos em prestações pelo patrão, a biblioteca quase vazia onde ele devorava tudo que havia, a percepção precoce das castas distribuídas nos bancos da igreja. Tudo isso tem concretude, tem observação de mundo, e cria um personagem com história antes de ter enredo. O detalhe do irmão mais novo pensando em brigadeiros enquanto Pião imaginava medalhas de guerra é uma das imagens mais bonitas do texto (Eu acho que você pode usar mais disso nas próximas etapas, quando você vai para descrições mais poéticas e imagéticas, o texto brilha!), e o sermão do pároco pedindo ar-condicionado como intermediário de Deus tem um humor preciso e amargo que gostei, funciona.
Elizabeth também tem potencial. A linhagem da mãe que foi para a Sorbonne, a garçonnière, a frieza calculista do “fiz um pouco porque queria e muito porque podia”. Ela é interessante quando o texto a deixa agir em vez de explicá-la.
Mas eu vejo um problema estrutural no capítulo que pode ser facilmente corrigido na etapa 2, colocando enxertos e diminuindo o ritmo de um modo geral: é que parece que o capítulk conta o romance inteiro em uma única respiração. Nascimento de Pião, infância, adolescência, primeiro beijo, descoberta da leitura, empório, Elizabeth, o caso, o assassinato, o julgamento, a ascensão social, os pesadelos, o Maquiavel, os planos futuros. Tudo isso em sequência, num ritmo de sumário que raramente desacelera para deixar uma cena pousar. O leitor não tem tempo de habitar nenhum momento, porque o texto está sempre correndo para o próximo. O assassinato, que deveria ser o evento mais carregado da história, acontece e é explicado quase de passagem. A cena da primeira tarde com Elizabeth, que poderia ser memorável, é resumida em parágrafos que listam sensações sem deixar nenhuma delas existir de verdade. Acho que na segunda etapa poderia ser bom você dar mais palavras a esses eventos!
Relacionado a isso, o texto alterna entre dois modos narrativos que não se integram bem. Em alguns momentos há descrição cênica genuína, com diálogos e imagens concretas. Em outros, o narrador sobe para um nível ensaístico, quase de análise sociológica, e começa a explicar o que o leitor já estava entendendo pelas cenas, achei que algumas exposições poderiam ser evitadas. O trecho sobre as evoluções tecnológicas na cidade, os computadores da prefeitura e as agências lotéricas, é um exemplo: é observação válida, mas chega num momento em que o enredo precisa de tração, e o texto para para fazer sociologia. Essa voz ensaísta é interessante quando surge como tempero, mas quando domina, a ficção some. Pode ser uma escolha 100% consciente sua, Cyro, e eu respeito se for isso. Estou apenas dando minhas impressões como leitor médio que sou.
Uma coisa que, para alguns leitores, poderia precisar ser ajustada na segunda etapa é o foco narrativo. O capítulo começa em terceira pessoa próxima de Pião, depois entra na cabeça de Elizabeth por páginas inteiras, depois volta para Pião, depois se torna quase onisciente para descrever a articulação política da cidade. Essa mobilidade pode funcionar num romance, mas precisa de transições que sinalizem ao leitor onde está pisando. Aqui as mudanças de foco chegam sem aviso e criam desorientação. Eu, particularmente, gostei disso. Bastante até. Acho que deu um estilo muito interessante ao texto e à voz narrativa. Mas isso pode incomodar alguns leitores mais tradicionais.
Um último ponto: os dois parágrafos filosóficos sobre o tabuleiro de contas de vidro e as portas que se fecham chegam num momento de alta tensão narrativa, logo antes de Pião entrar no quarto de Elizabeth após o assassinato, e interrompem completamente o fluxo. São reflexões interessantes, mas despejadas no lugar errado, talvez seja interessante colocar um enxerto antes disso na segunda etapa.
O material aqui é bom A história tem carne, tem crítica social, tem dois personagens com potencial real. Talvez falte confiar que o leitor vai entender sem que o narrador explique, e confiar que as cenas precisam de duração para criar impacto. Esse capítulo por vezes parece um esboço completo de um romance, não o primeiro capítulo dele. A segunda etapa é a chance de desacelerar, de escolher os momentos mais importantes e habitá-los de verdade.
Parabéns pelo bom trabalho até então!
Muito obrigado pelos detalhados comentários! São muito úteis. Tentarei recuperar alguns pontos nos próximos capítulos.
Olá, Cyro!
Consegui tirar um tempinho pra fazer uma análise mais detalhada do seu texto que, por sinal, eu curti demais. Espero que seja útil. Os comentários são feitos em terceira pessoa porque são resultados de anotações que agora trago para cá. Segue:
O texto do Cyro tem uma vantagem grande sobre vários dos outros: há história. Muita história. Ele começa com assassinato, volta para a formação de Pião, mostra infância rural, alfabetização, leitura, desejo de ascensão, sexualidade, religião, trabalho, encontro com Elizabeth, manipulação, crime, conluio político e ascensão social. Isso é material de romance.
O problema é que quase tudo aparece em modo comprimido. A narrativa informa acontecimentos poderosos, mas raramente fica tempo suficiente dentro deles para que virem cena. O leitor entende a trama, mas nem sempre sente a transformação dos personagens.
Isso não é uma condenação. É até uma notícia boa: ele não precisa inventar outro enredo. Precisa expandir o que já tem. O maior acerto: a abertura
A abertura é forte. Começar com o facão no corpo do latifundiário, o sangue, Pião procurando o quarto de Elizabeth e a consciência de que foi manipulado cria um gancho imediato. Isso coloca o leitor dentro de uma pergunta dramática clara: como esse peão chegou ao assassinato do dono da fazenda?
Esse começo funciona melhor do que uma abertura cronológica tradicional. O romance ganha tensão antes de explicar o passado. É uma boa escolha.
O problema vem logo depois: em vez de alternar essa tensão com cenas do passado, o texto entra em uma longa reconstrução biográfica. Essa reconstrução é interessante, mas muito acelerada. A energia do assassinato se dilui antes de ser explorada.
Pião é um ótimo protagonista
Pião tem potência. Ele não é apenas “o peão seduzido pela patroa”. Ele é um trabalhador rural leitor, míope, introspectivo, observador, socialmente deslocado, sexualmente inexperiente, ambicioso em formação, dividido entre comunidade, erudição e desejo de ascensão.
A parte da miopia é muito boa porque funciona como símbolo sem ser forçada: quando ele passa a enxergar melhor, também começa a enxergar as fronteiras do latifúndio, as diferenças de classe, as pessoas, os patrões, os livros e as oportunidades. Isso poderia render uma cena inteira.
Também é forte a ideia de ele ler qualquer coisa: bula de remédio, rótulo, versículo, literatura, depois internet. Isso cria um protagonista com uma inteligência não institucionalizada, formada por restos, fragmentos, observação e desejo de compreender. É muito mais interessante do que um “peão ingênuo” comum.
Mas o texto precisa mostrar mais essa inteligência em ação. A narração diz que ele lê pessoas, que erra, que desenvolve uma semiótica própria, que conversa mentalmente com autores. Tudo isso é bom, mas seria mais forte se aparecesse em cenas: Pião interpretando mal alguém, acertando uma previsão, discutindo uma leitura, sendo subestimado por um patrão, surpreendendo Elizabeth com uma resposta.
Elizabeth é ótima, mas ainda está esquemática
Elizabeth tem potencial para ser uma personagem excelente: culta, frustrada, sexualmente livre, manipuladora, presa a uma estrutura patriarcal que ela aprende a usar em benefício próprio. A relação dela com Pião pode ser o eixo mais forte do romance.
O melhor trecho envolvendo os dois é o momento em que ela pede: “Elabore um pouco mais.” Ali, a sedução deixa de ser só sexual e vira intelectual. Pião não deseja apenas o corpo da patroa; deseja ser visto por ela como mente. Essa é uma chave excelente.
O problema é que Elizabeth ainda aparece muito descrita por fora: “ardilosa”, “inteligente”, “culta”, “calculada”, “fria”, “manipuladora”. O texto afirma bastante quem ela é. Agora precisa demonstrar.
Ela não pode ficar apenas como femme fatale rural. Se for só a mulher rica que seduz o peão e o usa para matar o marido, a trama fica previsível. O que pode torná-la grande é a contradição: ela também é produto da estrutura que manipula. Ela é vítima do casamento arranjado, mas também beneficiária brutal do sistema. Ela admira Pião, mas o escraviza. Ela o salva, mas porque quer possuí-lo. Isso já está no texto, só precisa de mais cena e menos resumo.
O tema de classe é o centro do romance
O título “Entre Quadrados” funciona bem porque dialoga com vários elementos: os lotes pequenos dos trabalhadores, o tabuleiro social, as fazendas Alva e Ônix, o jogo de poder, o Pião como peça, o limite físico e simbólico dos pobres.
Essa metáfora é muito boa. O romance pode crescer muito se assumir esse tabuleiro como estrutura. Pião atravessa casas que não deveriam estar disponíveis a ele: a escola, o empório, o quarto de Elizabeth, a sede da Fazenda Alva, o lugar de capataz, talvez depois o poder sobre a Fazenda Ônix.
A crítica social também é clara: igreja, pastor, prefeito, delegado, latifundiários, casamento arranjado, conluio, impunidade, punição seletiva. O texto tem uma veia satírica boa, quase de crônica política do interior. A negociação depois do crime — prefeito, pastor, delegado, padre e latifundiário tirando proveito da morte — é ótima em concepção.
Só que essa parte também foi resolvida rápido demais. O conluio poderia ser uma das melhores cenas do capítulo. Cada figura deveria ter voz, corpo, interesse, medo e cinismo próprios. Do jeito atual, a sequência é divertida e crítica, mas parece um relatório espirituoso da corrupção local.
O ritmo é o principal problema
O capítulo contém, pelo menos, três unidades narrativas:
Cada uma dessas partes poderia sustentar um capítulo completo. Como ele juntou tudo, o texto fica cheio de boas ideias que passam rápido demais.
Não é questão de “encher linguiça”. É o contrário: ele precisa deixar os acontecimentos renderem o que prometem. A cena do primeiro beijo, a descoberta da biblioteca, a primeira ida à garçonnière, a confissão com o padre, a última conversa com Elizabeth antes do crime, a negociação política e a primeira noite de Pião no quarto maior que a casa da família — tudo isso pede desenvolvimento.
A linguagem tem bons momentos, mas oscila
A escrita dele é envolvente e tem boas formulações. O texto tem frases com força, especialmente quando trabalha imagens de tabuleiro, quadrados, fronteiras, leitura, desejo e ascensão.
Mas também há trechos em que a narração fica explicativa demais. Expressões como “a cidade era assim”, “tudo seguia como previsto pela cartilha do mal”, “a tradição trocava de roupagem” dizem diretamente a tese. Funcionam como síntese, mas o romance ganharia mais se essas ideias fossem encarnadas em ação.
Há também uma oscilação entre registro literário, sociológico, satírico e melodramático. Essa mistura pode ser uma marca boa, mas precisa de controle. Quando ele vai para a sátira política, o texto ganha humor; quando vai para o erotismo, ganha tensão; quando vai para a formação intelectual de Pião, ganha densidade. O desafio é fazer essas camadas conversarem sem parecerem blocos colados.
Pontos de revisão objetiva
Eu indicaria alguns cuidados bem práticos:
Para concluir: acredito que você tenha em mente um projeto claro do que está por vir, mas espero que essas contribuições possam ajudá-lo a tornar o trabalho ainda melhor. É importante considerar isso para além do EntreRomances.
Até a próxima, abraço!
Olá, Cyro, tudo bem?
Vamos às considerações sobre a sua obra literária.
A narrativa me remeteu ao tema Xadrez, afinal temos peões, uma dama (Elizabeth é nome de rainha), um rei assassinado, cavalos, bispo (pastor). Fazenda Ônix e Fazenda Alva têm relação aos oponentes em um tabuleiro de xadrez. E o próprio título traz a ideia do quadriculado do jogo. Aliás o termo “tabuleiro” é usado uma ou duas vezes no texto.
Gostaria de saber mais sobre os personagens Elizabeth e Pião, não consegui me apegar muito a eles. Em alguns momentos, fiquei confusa sobre a personalidade do Pião, e Elizabeth me pareceu muito rasa, precisava ganhar mais camadas. A caracterização ficou muito tênue, poderia trabalhar mais nessa questão.
Diálogos sempre são bem-vindos, pois agilizam a leitura e tornam mais natural algumas cenas retratadas. Os diálogos aqui estão bem construídos, são críveis. Não vi grandes falhas nesse ponto.
O que me preocupa é como se dará a extensão do enredo. Há fôlego e material para continuar a narrativa? Porque talvez você, autor, tenha lançado mão de muita informação, reviravoltas, romance, etc. já logo de início.
É um novelão? É drama mexicano?
Pitacos quanto à revisão/coesão da obra:
A sua história prende a atenção, isso é fato. Quero saber o que acontecerá com Pião, se Elizabeth vai se dar bem no final, enfim, a fofoca toda. Espero que tenha guardado algumas surpresas para as próximas etapas. Com alguns ajustes, o seu romance vai ser um sucesso.
Aguardo os próximos capítulos.
Comentários excelentes! Obrigado pela revisão. Espero que nos próximos capítulos os personagens fiquem mais ricos e que a trama torne-se mais interessante.
Entre Quadrados] | Autor(a): [Cyro Fernandes
Fase de Leitura: Capítulo 1
Data: 10/05/2026
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
“Entre Quadrados” nos apresenta a história de Pião e Elizabeth, um casal de uma cidadezinha do interior (que interior?) que, apesar das diferenças sociais, se envolvem em um tórrido relacionamento amoroso. O romance tem uma pegada regionalista política (tal qual Jorge Amado e outros romancistas da geração de 30) que me agrada bastante.
Embora seja um dos meus temas favoritos, eu não gostei do trecho. Tenho a sensação que li o (longo) resumo de uma ideia muito boa.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Modelagem de Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Cyro, pessoalmente, li poucos textos seus, então eu não diria que conheço seu estilo para dizer quais são suas características. Mas, seus textos têm algo que me agrada e que apareceu neste trecho que é uma narrativa honesta. Você não tem pudor de trabalhar com a zona cinzenta da humanidade (haja vista Sítio Rubi Cintilante e Sessão Dupla). Isso retorna aqui e eu acho positivo.
Por outro lado, outros deslizes seus retornaram também, como uma escrita pragmática, neutra, dura, que relata, mas não atiça o imaginário do leitor. Um novo traço negativo que eu acho que precisa ter atenção são essas referências a outros livros e autores da Literatura e da Filosofia. Não sei, usar uma vez ou outra tudo bem, mas me pareceu demais.
Por fim, acho que senti falta do Cyro dos microcontos. O Cyro ousado, que mistura poesia e prosa, que brinca com o imaginário do leitor e esbanja jeito com as palavras.
Irregular. Acho que o enredo, de uma forma geral, caminha para um imaginário já fixado na mente do leitor. O universo do campo, das cidades do interior, com disputas por terras e etc. Há um ar bastante tradicional nessa história (Fazenda Alva, Fazenda Ônix, capataz). Por outro lado, algumas escolhas do autor buscam situar essa narrativa na contemporaneidade. Ainda assim, embora seja uma escolha interessante e necessária, penso que o próprio autor se prende no que ele conhece do campo, deixando a ambientação num limbo.
O resultado final, dentro desse aspecto, é uma ambientação estranha. Wi-fi e internet na fazenda, o Pião lendo Vidas Secas, Cartão de Crédito, armázem e armarinho, uma mulher largando o marido para ir fazer doutorado para Sorbonne…
Convém lapidar melhor essa questão.
Aliado a isso, eu realmente não gostei da forma apressada que foi contada essa história. Digo em termos de narrativa: tudo muito abrupto, tudo muito já entregue ao leitor, resumidamente. Por exemplo: “A mãe de Elizabeth não resistiu e foi viver na cidade luz (Aqui as iniciais deveriam vir em maiúsculo), voltando a estudar. Elizabeth sentia a falta da mãe, investia seu tempo em ler e escrever, entremeando uns amantes furtivos (quais?). Especulava-se na cidadela moderadamente (quem? Como? Pião sabia disso).
Os relacionamentos com o pai e com o marido eram cada vez mais distantes, na mesma proporção em que diminuíam a consideração e a admiração por ambos. No fundo eles haviam sido preparados para desempenhar os seus papéis, o que faziam com excessiva mediocridade (de que forma? Há alguma memória que Elizabeth possua que exemplifique isso?”.
A vida na fazenda era confortável, os luxos e mimos davam cores ao cotidiano modorrento (por exemplos, que luxos, que mimos?). A escrita era sua maior alegria. Exercitava seu francês e descrevia sonhos e desejos latentes (que sonhos? Que desejos).”
Esse trecho contém nuances interessantíssimas da psiquê da personagem, mas elas são sintetizadas em trechos concisos e pragmáticos. O que prende o leitor a uma história é justamente o diabo dos detalhes. Por exemplo, de todos os caipiras trabalhadores, porque raios Elizabeth escolhe o Pião como seu amante? É só o biceps e o triceps (sendo que ele é descrito como feio e pouco atraente)? Nem um cheiro? Nem um olhar lascivo?
Não gostei. A intenção e a ideia da trama são muito boas. Infelizmente, a execução deste trecho está aquém, o que é uma pena. Espero que você desenvolva melhor essa narrativa e traga mais o seu talento com as palavras.
Muito obrigado pela revisão detalhada.
Espero que nos próximos capítulos o desenvolvimento seja melhor.
Olá, Cyro.
Impressões gerais.
É um começo promissor, com bases firmes no realismo. Gostei da história, do personagem Pião, que cresce através de sua inteligência e curiosidade, não sendo o típico matuto clichê. Eu tive, contudo, a impressão de que o texto correu e que houve muito “contar” e pouco “mostrar”. Senti falta de mais diálogos também.
Qualidade da escrita
Ortografia, pontuação, etc.
O texto é muito bem escrito. Notei pequena variação temporal, pretério perfeito e imperfeito no mesmo parágrafo, sem justificativa (tempos diferentes de ações).
Dois parágrafos consecutivos perto do final são claramente aforísticos e deslocados do restante do tecido narrativo: “O inusitado, o gesto desprovido de escrúpulos…” e “No tabuleiro das contas de vidro…”. São bonitos isoladamente mas funcionam como interrupções – o narrador para a história para filosofar em voz alta, algo que o resto do texto evita e que aqui quebra o tom.
Diálogos
São poucos, mas estão bons, parecem falas de gente de verdade, funcionam bem.
Personagens
Pião e Elizabeth são bem construídos. Os outros personagens ficaram bem secundários.
Enredo
A história é rica, se desenvolve bem. O desenvolvimento de Pião, desde sua origem humilde enquanto galga cultura e maturidade é o ponto alto da trama. O assassinato planejado talvez por Elizabeth é bacana também, o que casou bem com a citação sobre Maquiavel. Espero pela continuação da história.
Ah, não vi tanta “saliência” assim, hehe. Feito citaram no Whatsapp.
Abraço!
Muito obrigado pelos comentários! Nos próximos capítulos a saliência seguirá presente, com moderação.
Olá, Cyro!
A minha intenção era ler apenas o primeiro capítulo, mas daí cheguei ao final e só tinha ele. Confesso que estou curioso para saber o que você vai trazer nas próximas etapas.
Não sei se aconteceu aqui um caso de “ejaculação precoce”, mas o fato é que você entregou MUITO conteúdo com poucas palavras. Este capítulo 1 poderia ser dividido em pelo menos 3 partes, expandindo aquilo que você já trouxe.
A história é muito boa e sua escrita é envolvente, mas a sensação que fica é que foi uma experiência “apressada”, entende? Sei que para o público ao qual esse tipo de texto se destina é importante que a linguagem seja dinâmica, mas o refinamento que você traz na escrita (alguns trechos com citações magníficas inclusive) pede que você dê mais detalhamento das ações que estão sendo narradas.
Se der tempo, depois trarei outro comentário analisando mais detalhadamente. Esta é apenas a minha primeira impressão após a leitura. Gostei do que li, só que fiquei com vontade de “mais”. Isso poderia ter sido feito nessa rodada, já que você utilizou apenas metade do limite de palavras, porém isso pode ser solucionado em uma futura revisão ou mesmo na continuação.
Parabéns pelo belo trabalho!
muito obrigado! É um incentivo para que siga escrevendo! Juntei 3 capítulos por falta de tempo. Não consegui detalhar mais. Espero que consiga seguir prendendo a atenção