CAPÍTULO I
Um golpe rápido invadiu a garganta. O facão, travado no esqueleto, pingava sangue grosso e escuro. O corpo do ricaço jazia ainda morno, derrotado, na mais ampla suíte da fazenda.
Com o coração desacelerando, Pião buscava o quarto da patroa. Ele sabia que se não tivesse matado o latifundiário, a recém-viúva o mataria. Era o mais frágil, estava encurralado. A precipitação da patroa fez com que ele se salvasse, sacrificando o patrão.
No fundo sempre pressentiu que a tragédia faria parte deste romance improvável.
A distância entre os quartos era grande, não maior do que a distância entre os donos da fazenda. Eles dormiam separados havia anos. Não tiveram filhos e o casamento seguia esfriando, sem nunca ter sido realmente quente. Na cidade pequena, o falecido herdeiro havia sido direcionado ao namoro com a filha do prefeito. Era tradição entre os mais ricos arranjar os casamentos dos filhos, evitando o relacionamento entre parentes.
Agora, Elizabeth seria a única herdeira. Ela esperava por isso. Na verdade, arquitetou esta conquista. Para ela era uma questão de merecimento, afinal era mais inteligente que os boçais que mandavam na cidade.
Havia dias que a família de Pião não tinha notícias dele. Viviam do outro lado da cidade, na Fazenda Ônix. Desde que os rumores do romance surgiram durante a quermesse, a situação havia se tornado mais complexa. Temiam pelo pior.
Na Fazenda Alva, a presença de Pião já não causava estranheza, principalmente quando o patrão estava viajando. Os boatos permeavam as conversas furadas, fiadas e corriqueiras.
Pião sempre teve uma vida dura, de muito trabalho e conforto mínimo. Assim como seus pais e seus avós. Tinha dois irmãos, todos peões. Assim como seus muitos tios.
Estava um pouco melhor que os antecessores, pouco o suficiente para perceber a diferença. Melhorava pelo menor número de pessoas habitando os dois cômodos do casebre. Outro tanto pelo melhor acesso à educação e à saúde. Contudo a prosperidade ainda era uma realidade distante. Viviam amontoados em exíguos quadrados de terra, circundados pela infinitude da tradicional Fazenda Ônix.
Desde pequeno, Pião sempre ajudou nas atividades com o gado, com a aragem, na colheita. A alfabetização foi um marco. A kombi velha levava os filhos dos trabalhadores da fazenda em duas viagens. O patrão custeava o transporte.
Além dos barulhos do motor embolado, somados ao escapamento estourado, o carro produzia ruídos conforme os buracos do percurso surgiam. As freadas eram frequentes e às vezes dolorosas. As ripas de madeira faziam parte do ritual após as chuvas. Ajudavam a desatolar e tingiam de barro os uniformes já surrados. Era o único momento de algazarra da molecada. As diminutas manchas eram apreciadas pela maioria dos pequenos passageiros. Peão imaginava serem medalhas, recebidas merecidamente por salvar o tanque que os transportava. Seu irmãozinho, guloso, pensava nos brigadeiros que a avó fez, quando a sobra da ordenha virava leite condensado.
Surpreendentemente os pequenos seguiam sempre calados durante a viagem. O motorista, cunhado do capataz, não era para brincadeiras.
Na escola sentiu que era diferente. Os primeiros dias foram difíceis, não compreendia o que parecia ser fácil. Ouvia com atenção, mas franzia a vista com dificuldade. Tentou desistir, mas a mãe não deixou. A professora trouxe Pião para as primeiras carteiras da sala de aula. De repente tudo ficou claro. Na ótica a miopia foi diagnosticada. O peso do fundo de garrafas passou a acompanhá-lo.
Descobriu um novo horizonte, finalmente passou a enxergar as fronteiras do latifúndio com nitidez. Leitor contumaz, de bula de remédio para carrapato, aos rótulos dos defensivos agrícolas, dos pacotes de biscoito aos versículos, tudo com letrinhas e números o atraía.
Era dos mais calados da turma, contudo passou a construir um mundo interior cada vez mais rico. Via sentido em correlação entre os textos e a natureza da roça. Desenvolvendo sua própria semiótica, intuía sobre o caráter dos colegas, dos parentes e principalmente dos patrões.
A escola oferecia uma certa neutralidade. Os filhos dos trabalhadores rurais estudavam juntos com os filhos dos pequenos comerciantes e dos funcionários públicos. Havia diferença socioeconômica, havia a discriminação racial e de gênero, mas menos agressiva que a das ruas e estradas. Havia falhas, mas o ensino oferecia oportunidades para os mais interessados, capacitados e esforçados. Era um degrau na remota chance de ascensão.
Fingindo-se distraído, garimpava os cochichos dos adultos. Sentia uma dicotomia entre admiração e ódio pelos donos da fazenda. No suor cotidiano, comprovava o desequilíbrio entre direitos e deveres. Não tinha grandes ambições, mas ficava incomodado com as pontas de inveja que sentia. As roupas, os carros, as comidas, os livros dos filhos do patrão.
A biblioteca pública era diminuta e vivia às moscas. Alguns casaizinhos aproveitavam a sonolenta atendente para dar uns amassos. Pião lia dois ou três livros por semana. Sempre antes de dormir, a luz de velas ou no domingo à tarde sob a mangueira, abstraía-se do mundo bruto. Esgotou Monteiro Lobato, Agatha Christie, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues … Acabou por se esgotar rapidamente. As novas obras pingavam lentamente ao longo do ano.
Imerso nas letrinhas, conversava consigo sobre as coisas simples, que acabam se imiscuindo na complexidade nos relacionamentos.
Os professores estavam sempre atarefados e poucas vezes se colocavam disponíveis para aprofundar discussões. Limitavam-se ao mínimo, como que nivelados pelo desinteresse da maioria. A curiosidade de Pião ia se acumulando, até que num lampejo, alguma obra literária abordava a mesma dúvida. A euforia era instantânea. O presente maior era quando o dilema era visto por outro ângulo. Adorava um contraponto e tecia diálogos imaginários com personagens e autores.
Seu ego começou a inflar com as boas notas e, principalmente com a sensação de conseguir ler as pessoas. Sua autocrítica o punia quando errava. Sabia que mais acertava do que errava sobre a previsibilidade do comportamento alheio, porém os poucos erros de avaliação eram sempre gigantescos.
Amadurecia que a superfície era indicativa, mas nunca definitiva sobre o que esperar de uma pessoa. Não era apenas uma questão sobre falsidade ou interesses velados, era principalmente uma questão de complexidade, de detalhes e de dúvidas reais.
Decepcionou-se com uma tia simpática. Havia identificado nela uma bondade similar a que encontrara na avó. Percebeu, contudo, um desvio de caráter significativo. Começou observando no jogo de canastra, onde escondia cartas e aumentava a contagem dos pontos. Piorou ao ver que furtava frutas e porções de mantimentos quando não era observada. Buscou entender os motivos. Matutava se a avó também possuía falhas.
A puberdade foi um novo divisor na sua estrada de autoconhecimento. As jovens que eram galanteadas, ora enrubesciam, ora bufavam entediadas. Ficou irrequieto pois não compreendia bem a lógica do jogo da sedução. Buscava nos livros soluções prontas. Não funcionavam. Na metalinguagem da vida, embolava entre autor e personagem.
A timidez, os óculos e até mesmo uma erudição peculiar na sua comunidade, o taxavam de esquisito. Não era feio. Nem alto, nem baixo, os músculos eram bem distribuídos pelo corpo moreno. Frustrava-se frequentemente pela conquista dos colegas. Eram os primeiros beijos. Ele, o melhor da turma, ficou no final da fila.
Junto à descoberta dos prazeres da carne, as drogas surgiam para a meninada. A mais comum era a cachaça, usada pelos parentes, principalmente nos finais de semana e nas festas. Era um dos pontos fracos de Pião. O relaxamento e a coragem de se expor o estimulavam a beber mais. Infelizmente a família era leniente a este respeito. Os exageros passaram a ser mais frequentes.
O apelido que o acompanha até hoje surgiu dos primeiros porres. Pião rodava, bamboleava e caía. Por algum motivo não se arrependia, nem sentia vergonha. Tornava-se menos estranho, como se fosse uma parte da comunidade.
A natureza tomava conta da meninada e os hormônios mostravam atalhos para os namoros. Não era incomum a gravidez indesejada. Quando acontecia se resolvia na faca, ou com mais frequência, no casório dos jovens. Pião conseguiu o primeiro beijo numa festinha para comemorar um batizado. A expectativa era grande.
Não ouviu trombetas e o tempo não parou. Não chegou a ser frustrante. Ao invés da mais bela música, ouviu o estalo de línguas ansiosas. Não havia doçura nos lábios da donzela. A saliva não causava constrangimento. Ouviu o coração da jovem acelerar. Seu corpo reagia aos instintos da maneira prevista. O prazer de sentir as nádegas em suas mãos. O aperto o fazia sentir algo quase indescritível, um equilíbrio entre maciez e rigidez, único. Um raspão do bico do seio da moreninha em seu braço provocou um arrepio delicioso. Dormiu feliz, pensando em calibrar as expectativas futuras, administrando o amor do romance ou da poesia, com o prazer físico do sexo.
Intimidades maiores surgiam moderadamente, muito aquém dos seus anseios. Ouvia ressabiado as histórias da iniciação sexual menos ortodoxas ou previsíveis como zoofilia, incesto ou meinha. Preferiu nunca se aprofundar no assunto. A literatura o entretinha e saciava a curiosidade.
O moço acabou trabalhando no empório da fazenda. As notas altas chamaram a atenção da rica família. Era uma ocupação de meio expediente como jovem aprendiz. Na prática era um faz tudo. Curioso, Pião achava a atividade interessante. Não sentia muita falta da roça. Sabia que a ocupação só seria possível por poucos anos. Certamente seria substituído por outro jovenzinho mal remunerado.
A lojinha era uma mistura de armazém e armarinho. Havia bugigangas e itens de primeira necessidade. Servia principalmente aos trabalhadores da fazenda. As compras eram anotadas num caderninho e o ajuste de contas se dava no pagamento mensal. O patrão também servia de fiador nas compras nas lojas da cidade. Foi assim com os óculos do Pião, pago em suaves prestações. Alguns visitantes aproveitavam para comprar doces, queijos, cachaça e artesanato.
Pião observava os hábitos de compras dos trabalhadores e dos turistas. Enquanto uns eram movidos principalmente pela necessidade, os outros pelo impulso e a indulgência. Uns viam os parcos recursos serem totalmente consumidos até o final do mês, os outros sacavam o cartão de crédito sem culpa.
Pensando bem, o salário modesto não era assim tão menor que o dos seus parentes, principalmente quando se considerava o número de horas trabalhadas. Após alguns meses comprou um celular, modelo simples, que abriu o mundo da internet.
Pião ficou viciado na rede de informações. Jornais, revistas, livros, blogs passaram a ser uma cachaça. Nas horas de folga, ficava sempre às margens do Wi-Fi que conseguia senha. Tornou-se cada vez mais introspectivo, num mundo virtual, conectado aos acontecimentos. Sua avó estranhava o jovem “assistir” TV num radinho diferente.
Fato foi que passou a usufruir menos da literatura, não que a tivesse abandonado. Em contrapartida, era um dos mais bem informados da região. Uma fagulha de ambição gerava uma vontade de prosperar.
Imaginava um safari, um passeio pelas pirâmides, pela Torre Eiffel, ou mesmo Nova Iorque. O fato é que nem ao cinema de Juiz de Fora ele havia conhecido. Por enquanto o mundo dos livros lhe bastava.
Ele vivia em área razoavelmente pródiga, sem miséria profunda, mas identificava-se com os personagens de Vidas Secas e Morte e Vida Severina. As covas rasas e retangulares se acumulavam nos pequenos terrenos. A missa de domingo era o único momento em que convivia com as famílias ricas dos patrões, dos funcionários da prefeitura, do comércio… As castas distribuíam-se entre os bancos da igreja conforme suas posses. Numa cidade separada por sobrenomes, mesmo os mais humildes sentavam-se no lado que lhes cabia: Alva na direita e Ônix na esquerda.
Pião prestava atenção na missa e sabia de cor vários trechos. Não se achava muito religioso, seguia o ritual por inércia. Com tempo sua crença foi se desgastando. Um sermão o marcou:
– Irmãos, o calor está implacável! Como interlocutor direto com o Divino, peço uma doação especial para comprar um ar-condicionado, pois preciso descansar bem.
Pião viu o lado humano do pároco e passou a falar com Deus sem intermediários. A reza o acalmava. Finda a missa, começava a vida real. Os peões eram os primeiros a sair da Igreja. Quase sempre também eram os primeiros a morrer, afinal, eram muitos.
Diferentemente de seus antecessores, os trabalhadores mais jovens passaram a ter direito às férias. Como o dinheiro era escasso, muitos aproveitavam a ocasião para fazer serviços, como pintura de muros, carpir terrenos, pequenas obras. Numa obra de expansão da residência do prefeito, Pião decretou o seu futuro.
Pião trabalhou por empreitada e foi imediatamente assediado pela filha do prefeito. Ela não resistiu aos bíceps e tríceps sarados e arrastou o jovem para o abatedouro. Ele teve receio, afinal, a corda sempre estourava do lado mais fraco. Mas acabou desfrutando de delícias e saliências que nem imaginava existirem.
Elizabeth era ardilosa. Ela tinha um pequeno apartamento que herdara e mantinha alugado. Contudo desde a saída do último inquilino, ela havia transformado o local em uma garçonnière. Usou o carro da governanta, pequeno, discreto e com vidros escuros. Estacionou dentro do prédio e subiu os dois lances de escada.
Pião imaginava o que o esperava. Aceitou automaticamente o convite direto da patroa. Era de praxe dizer sim para os donos da cidade. Contudo, havia errado totalmente na dimensão do evento.
Elizabeth serviu um uísque para eles e foi para um dos cômodos se preparar. Avisou que não demoraria. Pião sorveu a bebida avidamente, aproveitou a proximidade da garrafa e tomou mais uns tragos. Elizabeth o deixou esperando por quase uma hora, uma eternidade. O álcool o acalmava um pouco.
Valeu a pena esperar. Elizabeth surgiu seminua, linda. Um beijo longo o deixou hipnotizado. Nunca mais esqueceria aquela tarde de luxúria. Ela comandava e os seus instintos acatavam integralmente as ordens. Sim, não eram pedidos. Lascívia no ar, virilidade à prova, sensações nunca sonhadas. Fadiga pairando, evaporava rapidamente com o desejo e o prazer, repetindo-se alucinantemente.
Elizabeth usou e abusou do Pião, que consentia e sentia-se um privilegiado. Viveu tão intensamente os momentos que parecia uma obra de ficção. Não imaginava que o êxtase existisse. A ordem final veio seca:
– Vou tomar um banho e partiremos! Você fica na estrada do morrinho.
Em casa, a bucha atritava seu corpo másculo. Aromas e sabores acridoces permaneciam. O doce cansaço era um prêmio. Pensou se alguma vez haveria de repetir aquelas sensações. Comeu a sopa com pão, pela primeira vez deitou-se sem ler.
Elizabeth chegou com a mesa posta. O cabelo molhado foi motivo de arguição. Debochada, alegou que havia chovido. O solo seco e poeira na estrada não confirmavam. Degustou a salada, pulou a carne e refastelou-se com a mousse e um conhaque francês. Dormiu tarde, ansiosa, planejava repetir a experiência da tarde por mais vezes.
Nas semanas seguintes os encontros românticos voltaram a acontecer. Tendo como característica principal, nunca se repetirem as cenas. Elizabeth usufruía do vigor do seu amante como queria. A professora era ora generosa, ora cruel. Pião se adaptava, bom aluno, queria passar nas provas com louvor. Foram semanas únicas para o casal apaixonado.
A experiência sensorial era gigantesca para Pião. Degustou salmão defumado com vodka congelada, sushi e sashimi com champanhe, carpaccio com vinho tinto, tudo harmonicamente combinado. Rejeitou o charuto com conhaque. A fumaça o agredia, trazendo lembrança de queimadas na roça. Havia música, sempre. Pião não era muito tocado por esta arte. Era mais do silêncio e da contemplação. Às vezes no caminho a pé para casa, pensava em ousar e retribuir com uma experiência gastronômica. Ao fim optou por não levar a carne de lata e a cerveja gelada. Achou melhor não arriscar.
Apesar de cuidadosa, Elizabeth gostava de correr alguns riscos. Fazia parte do seu ritual de sedução. Pião era um coadjuvante perfeito. Seguia as determinações com afinco, mesmo quando se sentia inseguro. A recompensa era sempre melhor do que previsto. De alguma maneira a tensão amplificava os sentidos.
Com o fim da obra, restaram apenas fugas após a missa ou na quermesse. Na cidade pequena era impossível manter o segredo. Os boatos cresciam, mas ninguém tinha coragem de alertar o dono da Fazenda Alva.
O último encontro do casal foi pungente. A aparentemente fria Elizabeth externou uma admiração extrema pelo Pião. Fraquejou ao afirmar que estava apaixonada e que precisava dele para ser feliz. Ele sentiu algo inédito, valia algo, não era só braço e força.
O clima de despedida apimentou a tarde, expandindo o desejo e capitalizando o prazer de ambos. Não haveria de terminar assim, ambos sabiam. Ninguém imaginava ainda que o assassinato seria parte da história.
Pião distanciou-se da igreja. Havia um misto de culpa pelo envolvimento com uma mulher casada, com uma revolta por não poder perseguir seus desejos. Optou por uma confissão e surpreendeu-se com a curiosidade do pároco em saber quem era a mulher, cúmplice de seus pecados. Deixou de comungar.
Passou a ler menos. Perdia a atenção e seguia nas redes sociais, navegando nas futilidades. Buscou a pornografia, mas nem de perto suplantava a experiência compartilhada com Elizabeth. Passou a questionar sua vida, lembrou de Sartre e vivia sua náusea.
A cachaça seguia como companheira, às vezes subestimada quando compara com os uísques daquelas tardes. Esperava encontrar Elizabeth, mas nada acontecia. Bebia mais, mais triste ficava.
Elizabeth também sentia um vazio. A rotina da fazenda tolhia a vontade de escrever. Ocupou-se de outros amantes esporádicos, mas nada substituía a vontade de estar com o Pião.
Um dos irmãos de Pião, que temia por ele, sugeriu que se afastasse das tentações. O jovem não era chegado aos livros e sempre ia mal nos estudos. Usufruía da admiração de Pião pela destreza com os números e praticidade no campo. Calculava rapidamente a quantidade de ração, o número de baldes de leite a serem ordenhados e onde estocar os fardos. Pião sempre ouvia com atenção o irmão, porém debochou quanto à preocupação. perguntou se o irmão havia lido Homero, enquanto imaginava ser Ulisses, assediado pela sereia Elizabeth.
O caçula convenceu-o a frequentar o culto ao invés da missa. Assim, distante da rica amante, estaria mais protegido. A eloquência do pastor o impressionou de imediato:
– Irmão, quem doar será abençoado duplamente. Terá a portas do céu abertas e poderá comprar um ar-condicionado.
O calor parecia uma pauta ecumênica na cidadezinha.
Pião se encantou por Elizabeth. Além de amante, era a professora que ele nunca teve. Filha de um prefeito idiota, ela teve a sorte de herdar os genes da mãe, que havia largado o marido para fazer doutorado na Sorbonne.
O amor carnal tornou-se quase secundário. Ele queria ouvi-la. Ser desafiado. Havia algo no modo como ela o fazia pensar que nenhum toque podia igualar.
Adorava o pedido que vinha depois de cada resposta sua — quase um sussurro, mas com o peso de uma exigência elegante:
— Elabore um pouco mais.
Não era um capricho. Era um convite, um estímulo para sua inteligência.
E ele ia, como quem dança no fio da navalha. Cada palavra escolhida a dedo, cada silêncio carregado de significados.
Entre eles, o prazer vinha do pensamento tensionado, da ideia que nascia no atrito. E ali, naquele campo de jogo onde os corpos eram só coadjuvantes, ele se sentia verdadeiramente nu.
Elizabeth sabia do bom nível cultural do Pião. De maneira calculada, para não perder o controle, estimulava que ele trouxesse a pauta da conversa, que abrisse a discussão. Acanhado, muito na dele, quase nada brotava. Ela então buscou desafiá-lo e escrever. Ele não tinha por hábito registrar suas ricas divagações. Ele pediu para ler algo de autoria dela. Não havia texto em português. Ficou a semente de registrar seus pensamentos, contudo ainda soava um pouco ousado demais para um simples peão, por mais que tenha avançado no tabuleiro da vida.
Pião havia visto Elizabeth na missa. Sempre bem-vestida, chamava a atenção nos primeiros bancos. Numa ocasião em que ela fez uma leitura, chegou a ficar excitado, tanto pelo corpo e o rosto da mulher, quanto pela voz segura e aveludada.
O sentimento inapropriado para uma igreja o fez sentir-se culpado. Questionava como poderia ser um ofensor a um ambiente tido como sagrado. Ao mesmo tempo acreditava que seus impulsos eram espontâneos, naturais e puros. O desejo não poderia ser pecado.
O conflito abria o apetite para a cachaça das tardes de domingo.
A infância de Elizabeth foi cercada de hipocrisia. Criada na nata da tradicional cidade mineira, desde pequena assistia a busca pela manutenção das posses, a luta por mais influência e as traições e falcatruas.
O pai foi ausente. Envolvido na política local, ocupou a prefeitura algumas vezes, sempre como capacho dos fazendeiros, emulando um poder mais de fachada do que real.
Estudou em um internato conservador. Era estudiosa e inteligente, ao mesmo tempo questionadora e impetuosa. Arquitetava fugas, enquanto conseguia cigarros, bebida e livros proibidos. Sim, tudo que aludisse ao sexo era terminantemente proibido.
Perdeu a virgindade com um amigo da família. Era um homem casado, jovem e discreto. Deixou-se seduzir e não sentiu culpa após a consumação do ato.
Não foi ruim a experiência, mas de alguma maneira ficou aquém do que esperava.
A excitação maior era saber que as perdas do galanteador seriam maiores do que as suas. Ele se arriscou por ela. Sentiu-se desejada e poderosa.
As punições eram tiradas de letra. Elizabeth sempre soube o que quis. Admirava a mãe culta, que dissimulava subserviência ao marido. Entre quatro paredes dominava o marido beócio, enquanto se passava por madame conservadora para a sociedade local.
Assim como a mãe, Elizabeth gostava das artes, principalmente da literatura. Tinha aulas particulares de francês e inglês. O pai não acompanhava as duas, limitando-se a jogar o jogo do poder, onde aparência e relacionamentos são indispensáveis para o sucesso.
Elizabeth tornou-se uma jovem muito culta, a cidade interiorana não era suficiente para ela. Aproveitou o curso de sociologia em Belo Horizonte e o intercâmbio em Paris para viver as aventuras que sonhara.
Teve experiência com as drogas, mas não foi abatida pelo vício. Experimentou o sexo de forma liberal, tendo o cuidado de não expor a sua imagem. Era a verdadeira come quieta.
Entre flertes e amantes, acabou por ter o casamento arranjado com o herdeiro do maior latifundiário da região. Sua mãe tinha a sensação de déjà vu, mais um marido limitado, infelizmente necessário para atender as ambições das famílias.
A mãe de Elizabeth não resistiu e foi viver na cidade luz, voltando a estudar. Elizabeth sentia a falta da mãe, investia seu tempo em ler e escrever, entremeando uns amantes furtivos. Especulava-se na cidadela moderadamente.
Os relacionamentos com o pai e com o marido eram cada vez mais distantes, na mesma proporção em que diminuíam a consideração e a admiração por ambos. No fundo eles haviam sido preparados para desempenhar os seus papéis, o que faziam com excessiva mediocridade.
A vida na fazenda era confortável, os luxos e mimos davam cores ao cotidiano modorrento. A escrita era sua maior alegria. Exercitava seu francês e descrevia sonhos e desejos latentes.
As reflexões sobre o seu papel na sociedade eram constantes. Acabava por evitar conflitos, desenvolvendo cada vez mais a influência e mesmo a manipulação do marido. Ponderava e acabava por aceitar a manutenção do casamento fingido.
Era impossível não comparar sua jornada com a mãe. Ambas fortes, inteligentes e cultas. Contudo foram incapazes de refutar os destinos impostos pelas famílias. Os interesses financeiros e políticos tiveram papéis primordiais no destino das fascinantes mulheres.
Pião não era violento. Quando rezava, pedia perdão por alguma saliência no rio, ou por uma bebedeira maior, nada muito grave. Nunca imaginara que mataria um homem, não qualquer homem, o mais rico da cidade.
O inusitado, o gesto desprovido de escrúpulos, o que não faz sentido à primeira vista — tudo vale, desde que expanda as suas possibilidades. Porque toda decisão, ainda que libertadora, é também um ato de renúncia: abre portas, mas tranca outras para sempre.
No tabuleiro das contas de vidro, tudo é harmonia — mas é o caos da vida que dá cor à alma. De que serve a sabedoria, se não há mundo onde ela possa ser derramada? O jogo é belo, mas estéril. E a decisão, quando chega, carrega o peso das portas que se fecham atrás.
Pião sabia que havia sido manipulado. O facão tão conhecido por ele, não fazia parte do cenário. Elizabeth o havia induzido ao crime e plantado a intriga no marido. Escrúpulos escassos, numa brilhante orquestração, foi uma jogada de mestre.
Deu no que deu: para sobreviver, Pião teve que assassinar o marido traído.
Finalmente ele chegou ao quarto de Elizabeth, chorou arrependido. Perguntou:
– Por que você me induziu ao crime? Por que me disse que ele estava viajando?
Ela laconicamente disse:
– Fiz, um pouco porque queria e muito porque podia.
Pião estava nas mãos da justiça. Manipulado uma vez mais, não conseguia odiar a sua amada. Ela parecia estar acima do bem e do mal. Elizabeth o abraçou carinhosamente, não sendo retribuída. Havia um instinto protetor muito forte naquele ar.
A cidade era assim. Encobriam-se os deslizes dos ricos, punia-se os pobres e tudo seguia como previsto pela cartilha do mal. As evoluções tecnológicas resumiam-se à substituição do radinho de pilha pelas antenas de tv e depois pelos celulares. A tradição trocava de roupagem, mas nunca se modernizava.
Os computadores na sede da prefeitura não eliminaram as filas para pedidos de licenças, alvarás e outras burocracias supérfluas. As agências lotéricas recebiam as hordas dos viciados e dos recebedores dos parcos benefícios das aposentadorias ou bolsas assistencialistas. A modernidade não retirava a morosidade da vida institucional.
A justiça determinaria a punição de Pião. Ele não contava que Elizabeth tinha cartas na manga para evitar o pior. Não por acaso, os matizes da lei acabariam por jogar a favor do assassino. Muito se passou até a chegada da polícia, numa estratégia habilmente orquestrada pela dona da fazenda.
Elizabeth ligou para o pai. O prefeito chegou rapidamente na Fazenda Alva, acompanhado do Pastor e do Delegado Torres. Elaboraram um plano para alegar legítima defesa, sabendo que era forçar demais a barra. As evidências teriam que ficar em segundo plano. Não seria uma exceção num local onde o “sabe com quem você está falando?” sempre esteve arraigado.
Para funcionar, era imprescindível o suporte dos donos da Fazenda Ônix. A negociação não ficou barata. Era época de eleição e o preço do apoio foi estabelecido pelo latifundiário, histórico adversário:
– Eu concordo com a maracutaia, com uma condição. Apoiar o burrinho do meu genro como candidato conjunto das fazendas Alva e Ônix. Será uma grande conquista para a nossa cidade.
O prefeito atual era um reles agregado da família rica, um genro incompetente, direcionado a sugar o Estado ao invés do patrimônio familiar. De alguma maneira a proposta mantinha a tradição, como uma meritocracia reversa.
O chefe da polícia vislumbrou uma oportunidade, afinal estava ficando cansado de viver de propinas:
– Vejam bem, eu faço vista grossa com uma condição. Meu caçula é o vice-prefeito da chapa. Já daria um alívio no orçamento.
Também não foi empecilho. O policial vislumbrou uma oportunidade de crescer a influência da sua família no cenário político. Uma mão lavava a outra.
Resolveram sondar o pastor. O pedido dele estava na ponta da língua:
– Precisamos modernizar as nossas instalações. Que tal oficializar a doação de um terreno da prefeitura para construção de mais um templo.
Aí o estratagema e as trocas de favores chegaram ao conhecimento do padre. O defensor maior da moral e dos bons costumes também queria o seu quinhão. Ele fez o seguinte pedido:
– Senhora Elizabeth, diante de tantas posses, o que seria a doação do melhor garanhão para a rifa principal da quermesse? Iria render um bom dinheiro,
Todos atendidos, a viúva fingia tristeza, enquanto Pião tornava-se o capataz da Fazenda Alva, livre de qualquer implicação com o crime. O novo prefeito era um verdadeiro idiota, manipulado pelo filho do policial. A Fazenda Ônix havia ganho esta rodada, graças ao peão ter chegado ao limite do tabuleiro. Tudo normal, como num romance do Jorge Amado, passado num pródigo Sudeste.
Tanto na Fazenda Alva, quanto na Ônix, a prosperidade era mantida com os latifundiários. A peãozada seguia em seus quadradinhos de terra, limitados pelo jogo da vida. Nesta cidade, só o Pião havia chegado mais longe. Agora a cachaça do domingo havia dado lugar ao uísque antes de dormir. O quarto em que dormia era maior que a casa da sua família.
A situação da família de Pião ficou mais complicada. Ele agora tinha papel de destaque na fazenda rival. Havia uma desconfiança em relação aos seus parentes. Não ocorreu uma retaliação imediata, mas Pião arquitetou para trazer os irmãos e primos para a nova fazenda. Os pais e avós ficaram segregados, enquanto mantinham seus lotes de terra. Era um ponto de preocupação permanente. A ascensão social de Pião não era extensiva a seus familiares, contudo ele influenciou para protegê-los.
Pião ainda tinha pesadelos. Não apenas com o assassinato. A cena se repetia, o marido traído, os xingamentos humilhantes do fazendeiro, a tentativa de defender-se, o facão…
Sonhava com Elizabeth, ele escravizado sexualmente. Era consentido, porém via sua situação social de baixa mobilidade. Podia sair da fazenda, mas optava por ficar. Assim era com Elizabeth. Poderia não a obedecer, contudo ela era irresistível.
Acordado, buscava entender o esforço de Elizabeth para inocentá-lo. Ficava feliz por segundos, até identificar o egoísmo, no fundo ela não queria perder o escravo amado. Era mais uma peça no engenhoso plano de poder.
Ele sentia a sua evolução, desde a base sólida na leitura e nos estudos, até a escola da vida. Ele tinha sido um bom aluno. Havia desaprendido os ensinamentos do seu avô, onde não havia dúvidas em fazer sempre o que era certo. Hoje vivenciava uma realidade onde os escrúpulos eram relativizados em função das ambições, dos desejos e dos objetivos.
Pião guardou o facão e mergulhou ainda mais nos livros. Ao ler Maquiavel, percebeu que o jogo do poder na sua cidadezinha era assustadoramente parecido com o da longínqua Itália. Animado, começou a convencer Elizabeth a comprar a Fazenda Ônix. Já estava na hora de mudar o jogo e as suas regras. A ambição passara a fazer parte fundamental da vida, e do futuro, de Pião. A ousadia era necessária para crescer, tentar equiparar-se à amada. Os riscos associados eram surpreendentemente maiores. Infelizmente não era possível deixar o tabuleiro estático.
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