EntreContos

Detox Literário.

[EM] O estúpido monstro da estupidez (E. Uzinho)

1

O Rui entrou em casa a correr, como era seu hábito. Mesmo quando estava doente, nunca parava de correr. Abraçou-me como se já não me visse há mais de três meses, mas nem oito horas tinham passado desde que o tinha levado à escola. 

– Paiiiiii…

– Ruuuui… – Disse eu, imitando-o. Pousei o meu livro na pequena mesa preta do Ikea. Respirei fundo enquanto ganhava paciência para ouvir as aventuras do dia na escola do meu filho de oito anos. Os olhos faíscavam de energia. O cabelo e a camisola pareciam ter sobrevivido a uma tempestade e demonstravam que o dia tinha corrido bem.

O João entrou em casa. Tinha dezassete anos e começava a ganhar pequenos tufos pretos na cara, aos quais a mãe não achava grande piada. Lúcia entrou logo depois, tornando-se o centro das atenções do Rui. Afastei-me. Uma vez era suficiente para os meus ouvidos. O Rui era uma criança fantástica, mas um tagarela que roçava o limite da paciência. Quando finalmente terminou o relato e desapareceu a correr pelas escadas acima, aproximei-me da minha esposa. Notei no seu olhar o cansaço diário.

– Olá amor. Como correu o teu dia? – Perguntei-lhe, beijando-a.

– Trânsito para ir, trânsito para vir, clientes idiotas, chefes ainda mais idiotas. O de sempre, querido.

– Podias ter casado com o Telmo. Quando nos conhecemos ele já era rico e não tirava os olhos de ti. Assim não tinhas de sair de casa.

– Pois… e ficava gorda e balofa. Prefiro assim. Pobre e elegante.

– Sabia que havia uma razão para me teres escolhido, querida.

Ela fez-me aquele sorriso que só se faz quando se está realmente bem, um sorriso de alma aberta, como dizia a minha avó.

Ao jantar, o João contou que tinha terminado mais um livro de astronomia, o Origens, de Neil deGrasse Tyson.

– Trata das origens cósmicas do Homem – explicou o meu filho mais velho, começando a descrever o livro, como era já hábito dele. Poderia considerar as suas explicações de spoilers, mas o tempo em que eu lia livros de astronomia já tinham acabado há muito. Agora preferia outro tipo de livros, de outros universos igualmente grandiosos – os universos aos quais apenas temos acesso quando lemos os grandes mestres da literatura.

Os jantares andavam sempre à volta de livros, filmes e séries. Não sendo ricos, o pouco dinheiro que sobrava depois de pagar as contas era investido em cultura. Concertos, filmes, workshops de jardinagem, fotografia e vídeo. Tudo o que nos alimentasse o espírito e fizesse crescer.

A partir de abril, nas noites de lua nova íamos no nosso pequeno carro tentar fotografar a Via Láctea num ponto suficientemente afastado da civilização para que o céu fosse escuro. Usava uma máquina fotográfica em segunda mão, que seria motivo de gozo por parte de qualquer apaixonado pela fotografia com mais dinheiro do que eu mas sem as mesmas prioridades. Ficávamos os quatro deitados numa manta, no topo do monte. O João apontava para as estrelas com o apontador laser que o avô lhe dera e dizia o nome, constelação a que pertenciam e a distância à Terra das estrelas principais. O Rui também já sabia o nome de algumas. Parecia que tinha mais um nerd a caminho na família. Quando comentava isso com a Lúcia, ela costumava responder “antes isso do que toxicodependente”. Não havia forma possível de refutar essa afirmação.

2

Quando vi pela primeira vez o monstro, ele estava a sair do quarto do Rui. Parecia um homem de olhos completamente verdes. Em vez de mãos tinha tentáculos e a parte de cima da cabeça era transparente, permitindo ver no seu interior um cérebro minúsculo que palpitava como se de um coração se tratasse. A visão era estranhamente familiar, como se fosse o quinto elemento da família, alguém que visse habitualmente mas de cuja presença só me desse conta agora. Alarmado, abri a porta do quarto e vi que o Rui dormia profundamente na sua cama, por baixo do edredão com motivos do Harry Potter, livro que ele já tinha começado a ler e que exibia orgulhosamente na mesa de cabeceira. O monstro desapareceu de seguida, esfumando-se no ar. Teria sido imaginação minha, pensei. Esqueci o assunto e fui para a sala. Voltei a pegar no Memórias Póstumas de Brás Cubas. Coloquei os auscultadores nos ouvidos e deixei que o soul de Curtis Mayfield me devolvesse a tranquilidade.

De noite, custou-me a adormecer. Parecia que o monstro estava a meu lado, a sorrir para mim e a dizer “Agora é a tua vez. Vais gostar.”. Não gostava de ter pesadelos, especialmente quando ainda tinha os olhos abertos. Decidi ir ao psiquiatra. Receitou-me comprimidos para dormir. Problema resolvido, pensei. Mas não podia estar mais enganado: passados alguns dias começámos a notar alterações no Rui. Deixou praticamente de falar. Pôs o livro do Harry Potter de lado. Pegou no telemóvel e aquele passou a ser o seu mundo, sempre com auscultadores nos ouvidos. A princípio ainda conseguia dialogar com ele, mas depois fechou-se completamente, num autismo voluntário para o qual os médicos não tinham resposta. Passava agora o tempo a ver vídeos no Tik Tok. De tempos a tempos ria-se alto, de uma forma descontrolada. Quando tentávamos tirar-lhe o telemóvel tornava-se agressivo. 

– Deve ser uma fase – disse a Lúcia, mas eu não tinha tanta certeza. Desconfiava que a alteração no comportamento do meu filho tinha a ver com o monstro, que via cada vez mais frequentemente em casa. Mais ninguém o via. Apenas eu. Tentei tirar-lhe uma fotografia, mas não saiu nada. Tentei falar-lhe, pedindo-lhe para que deixasse a minha família. O João, que estava a passar por nós nessa altura, fez-me um sinal de que eu estava a ficar maluco.

– Estou a ensaiar para uma peça do meu grupo de teatro – menti.

– Pois, pois, pai… – disse o João, antes de sair de casa.

Fitei o monstro e tentei empurrá-lo, mas as minhas mãos apertaram o vazio, o que era uma prova de que só existia na minha imaginação. Derrotado, voltei para a sala para acabar o meu livro. O monstro colocou-se atrás de mim com ar trocista e dali não saiu durante o resto da tarde.

3

No dia seguinte comecei a notar diferenças no comportamento do meu filho mais velho. Parecia um autómato, de auscultadores nos ouvidos e sem tirar os olhos do Youtube no telemóvel.

– Bom dia, João. Não vais ficar como o teu irmão, pois não?

Ele não respondeu. Pousou o telemóvel, preparou o seu pequeno almoço e saiu para as aulas, sem tirar da cabeça os auscultadores. A falta de resposta deixou-me mais em pânico do que irritado. Quando regressou, ao final da tarde, não tirava os olhos do telemóvel, vendo vídeos do Tik Tok sem parar.

– João, podes largar essa merda, por favor? Já me basta ter um zombie cá em casa! – gritei. Mas ele não me respondia. O Rui entrou com a mãe, sem tirar os olhos do telemóvel e sem me cumprimentar.

– Lúcia!

– Diz, querido.

– O João ficou igual ao Rui – disse eu, puxando-a para a sala, longe dos nossos filhos. Depois dei-me conta da parvoíce que fizera: os nossos dois filhos não dariam conta da nossa existência nem se dançássemos o Fandango em cima da mesa da cozinha, a mesma mesa onde os dois viam vídeos no telemóvel.

Ela sorriu.

– Estás a preocupar-te demais, amor.

– Estou a preocupar-me demais? Transformaram-se em duas criaturas acéfalas do dia para a noite. Já não leem, não veem um filme. A vida passa-lhes completamente ao lado. Eu via este comportamento nos filhos dos nossos vizinhos, mas nunca pensei que acontecesse connosco. Parece uma epidemia de estupidez.

– É normal, Ernesto. Acalma-te. De aqui a pouco vais dizer que o culpado é aquele monstro de olhos verdes que só tu vês.

Normal. Para a minha esposa, era tudo normal. Nesse momento declarei guerra ao monstro. Procurei na Internet, fui a especialistas. Era geral a constatação de que a geração mais nova se tornara dependente da Internet. Conviviam menos, estavam menos criativos. A vida consumia-se nas 6 polegadas do visor do telemóvel e pareciam ser felizes assim, perpetuamente imaturos. Só eu conseguia ver a verdadeira razão: estava ali, à minha frente. Horrendo, o monstro chamava por mim. Sabia o que ele queria, mas rejeitava liminarmente aceitar a derrota.

4

– Fala-me mais desse monstro, Ernesto. – Disse o comentador na rádio. Aquela era a minha última hipótese. Talvez se expusesse a minha história alguém poderia dizer que também o via. O ridículo era mais do que provável, mas estava disposto a tudo pela minha família.

– Senhores ouvintes, este é o programa Hora da conversa. Estamos aqui com o senhor Ernesto Uzinho, que teve a coragem de vir a público afirmar que tem um monstro em casa que lhe está a transformar os filhos em idiotas.

Olhei para o comentador, enchi o peito de ar e contei a história para o microfone do estúdio da rádio. Passado um breve momento publicitário, a primeira pergunta de um ouvinte fez-se ouvir, alto e bom som. Num tom sério, o ouvinte apresentou-se: – Olá, chamo-me Rogério Saraiva e queria dizer que partilho da opinião do Ernesto… (O meu coração encheu-se de esperança. Alguém acreditava e tivera uma experiência semelhante.) … mas o meu monstro ataca-me as bolachas. É azul… ah, ah, ah…

O ouvinte desligou e seguiram-se outras intervenções semelhantes. Regressei para casa com o eco dos risos nos ouvidos e o coração completamente desfeito. Pensava que estava preparado para mais decepções, mas nada me preparara para ver que a esposa também não largava o telemóvel, sempre a jogar jogos de paciências e a ver vídeos nas redes sociais. Olhei para os três à mesa, durante o jantar, cada um a olhar para o seu telemóvel, e experimentei uma solidão profunda. A um canto, o monstro sorria. Atirei um prato na sua direção, que se estilhaçou contra a parede da cozinha. A Lúcia nem se virou. Limpei os cacos e saí de casa.

Segui em direção ao centro da cidade. Havia um café onde costumava passar algum tempo. Observei que a grande maioria das pessoas por quem passava na rua não tirava os olhos do telemóvel. Pareciam máquinas, completamente abstraídas do que se passava à sua volta. Sentei-me e pedi um café. Até a música ambiente tinha sido alterada para algo mais moderno. Para mim era apenas um ritmo básico e repetitivo, sem alma. Tomei o café e deixei-me ficar durante algum tempo. Li o jornal. Percebi que era o único que o fazia. Todos os outros clientes, das mais variadas idades, olhavam para os telemóveis e tablets. Ninguém conversava. Ninguém sorria para os outros, apenas para as suas máquinas. Percebi que havia uma epidemia de estupidez, que a mesma já devia existir há algum tempo e que eu, por algum motivo que conseguia descortinar, era o único que podia ver a verdadeira razão. Sentado na mesa ao lado, o monstro deu uma gargalhada de prazer, enquanto fumava um cigarro.

Completamente derrotado, regressei a casa. Estava apenas o João, ou a sua sombra, não sei. Tinha saudades das nossas conversas sobre astronomia. Agora, o universo dele implodira para ficar reduzido ao tamanho do visor do telemóvel. Num rasgo de estupidez da minha parte (bolas, também tenho direito, de vez em quando) arranquei-lhe o aparelho das mãos e fechei-me na casa de banho. O João berrava de uma forma animalesca e dava pontapés à porta. Felizmente que não tinha machados em casa, ou aquilo seria um remake do The Shining. Li as últimas mensagens dele. Percebi que falava com a mãe e o irmão. Falavam bem de mim, como antigamente. Uma lágrima escorreu-me pela face. Percebi que não eram eles que estavam errados. Eu é que não pertencia ao mundo deles. Abri a porta do quarto de banho, entreguei o telemóvel ao João, que estava com vontade de se atirar a mim mas ficou logo calmo ao ver o seu brinquedo. Fez-me lembrar o Gollum no Senhor dos Anéis. Só lhe faltou dizer “My precioussss”.

Despedi-me de cada um dos meus livros que tinha na estante da sala. Adeus Saramago, adeus Pessoa, adeus Mia Couto, Dostoevsky e Garcia Marquez. Com um aperto no coração, subi ao quarto. Não precisava procurá-lo, porque ele orbitava à minha volta como as moscas à volta da merda. Era isso que eu me sentia – e só sabia uma forma de resolver o problema: desistindo.

– Estou pronto – disse eu. Senti de imediato que o monstro me hipnotizava com os seus profundos olhos verdes e, depois, o prazer do vazio.

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Informação

Publicado em 9 de agosto de 2021 por em EntreMundos - Monstruoso Mistério Aternativo.