EntreContos

Detox Literário.

[EM] Juruparitinga (Pajé)

Planalto de Piratininga, 1621.

Constância estava seguindo o rastro do monstro há três luas. Sem descanso, sem parada e obstinadamente, embora, de fato, ela não tivesse alternativa. Sem nada nem ninguém no mundo, era melhor seguir sempre em frente, seguindo os passos de Otto, seu grande cão cinzento, do que pensar em Félix e em Martina. Instintivamente, passou a mão por sua coxa direita. O rasgo se fechara há dias, mas a dor estava sempre presente. Uma dor fantasma.

Otto parou, ergueu o focinho e farejou o ar. Em seguida, olhou para Constância, que entendeu. Eles estavam na direção certa, mas não estavam perto de alcançá-lo, ainda. O céu começava a escurecer, um tom alaranjado vindo do Oeste, a noite começando a cair, fria. Constância julgou melhor parar e descansarem. Haviam percorrido um bom caminho e estavam cansados. Acendeu uma fogueira, quebrou um pedaço de pão velho e comeu sem vontade. Otto estava satisfeito dos pequenos lagartos que caçou no caminho e deitou-se próximo ao fogo.

O pão tinha gosto de sangue.

Era um alívio estar no planalto. Foram quatro dias fazendo a difícil subida da Serra de Paranapiacaba, através do Caminho do Padre José, sempre debaixo de chuva e rodeada pela forte cerração. Um caminho difícil, lamacento, escorregadio. Constância seguia sempre, um pé diante do outro, a cabeça baixa, queixo travado. Movida pela força do ódio. Lembrava-se das pequenas vilas ao longo do rio Cubatão. Em todas elas, havia cópias de si mesma, cada qual chorando seus mortos. O mesmo ocorria nas aldeias indígenas. O monstro não fazia distinções. Eram todos carne.

Durante a subida, a comida acabou e as forças a abandonaram. Um pequeno comerciante, que também subia a serra, encontrou-a e repartiu um pouco de seu pão. Mas não seria suficiente, ela sabia.

Afastou essa lembrança, com desprezo.

Constância tentava não dormir. Seu sono não lhe trazia descanso. Houve um tempo em que ela dormia despreocupada, cuidava de seus afazeres, planejava o futuro.  Quando ela tinha uma vida. Agora, ela sentia-se vagar pelo mundo, vazia. Ela pensava, muitas vezes, se o monstro teria incubado algo dele dentro dela, quando rasgou sua perna, algo que minava sua humanidade. E, enquanto lutava para não dormir, sabia que seria em vão, que, em breve, ela seria tragada pelo sono e este a levaria de volta para o passado.

***

— Mamãe.

A mãozinha estendida em sua direção, a voz risonha.

— Quero ir com você.

— Hoje não, meu amor. — Tinha pressa em lavar a roupa no rio, muita coisa a fazer em casa, antes de anoitecer. — O papai precisa de ajuda para consertar a rede dos peixes. Ajude ele.

— Tá bom… — Obediente, seguiu em direção a Félix, que acenava para ela, sentado na porta da casinha.

Na próxima vez em que os viu, ao voltar correndo do rio, seus gritos ainda ardendo em seus ouvidos, estavam em pedaços. O monstro arrancava o que restou de Martina dos braços sem vida de Félix. Constância pulou para cima do monstro, empunhando o facão que sempre carregava junto ao corpo. Golpeava a esmo, cega de dor, deve tê-lo acertado, pois havia uma poça de sangue esverdeado e viscoso no chão, ao lado de seu sangue. Nem percebeu que ele havia rasgado sua coxa. Outros homens da vila chegaram correndo, armados de facões e foices e o monstro fugiu, liberando Martina.

***

Acordou, atordoada. Eram apenas dois sonhos que povoavam suas noites. Um, em que revivia a última vez em que viu Félix e Martina vivos, consertando juntos a velha rede de pesca. Nestes, sempre via o monstro como um borrão claro, sem definição, embaçado pelo ódio e pela dor. Outro, em que o tinha diante de si, esperando por ela, como se ansiasse por sua lâmina. Nestes, via-o com todos os detalhes. O rosto, semi-humano, com olhos vermelhos, sem pálpebras e sem nariz, a bocarra cheia de negros dentes pontiagudos, o corpo grande e deformado, cheio de ângulos estranhos, a pele branca como leite, viscosa e gelada. O cheiro de podridão. Sempre acordava antes de lhe enfiar a espada no peito. Será que ele tinha um coração? Talvez fosse mais seguro cortar lhe a cabeça. Precisava lembrar disso.

Quando o comerciante percebeu o que ela fazia, mal teve tempo de esboçar reação. Sua cabeça rolou para um lado, o saco de provisões, para o outro, e foi a comida que ela seguiu. Não sentiu remorso. Fez o que era necessário para sua vingança.

Após apagar as cinzas da fogueira com cuidado, seguiu caminho. Apesar de grande, o monstro parecia se mover lentamente e, ainda nas proximidades da Vila de São Vicente, tinham se aproximado dele, a ânsia de vingança de Constância aumentando sua pressa. Porém, a subida da serra foi difícil e o monstro abriu distância. Agora, já no planalto, avançavam com mais facilidade novamente. Otto seguia na frente, farejando. Constância ia atrás, com sua mandíbula travada e seus passos pequenos. Andava leve e em silêncio, como lhe ensinara a mãe índia. Pensava nela, agora, e em tudo o que lhe ensinara sobre a mata e sobre a guerra. Em todas as histórias que lhe contara e da mais aterrorizante de todas, a que ela chamava de demônio branco: Juruparitinga. Seria esse demônio o monstro que caçava?

No final do dia, chegaram a uma casa solitária. Na porta, uma velhinha ralava mandioca.

— Boa tarde.

— Tarde — a velhinha respondeu, sem sequer levantar a cabeça.

— A senhora viu algo estranho por aqui, estes dias?

A pergunta foi feita num tom desnecessariamente cauteloso. A resposta foi direta.

— Fala do demônio branco? Ele foi pra lá, faz umas três horas…

— Três horas? Imaginei que ele estivesse mais longe… A senhora teve sorte dele ter passado direto!

— Ele deve estar parando para se alimentar mais vezes. Ele faz isso, quando está morrendo. E não foi sorte. — A idosa sorria.

— Morrendo? — Será que seu ataque o ferira mais profundamente do que imaginava?

— Morrendo. Ele morre. Tem que morrer para outro nascer.

— A senhora parece saber muito sobre ele.

A velhinha ergue os olhos e a avaliou com atenção.

— Claro que sei. Meu povo contava muitas histórias sobre ele e, quando menina, ouvi todas. E você, que também tem sangue índio, esqueceu?

— Só ouvi uma história sobre o Juruparitinga, sobre sua sede de sangue e de como ele não morre nunca.

— Ele morre sim. Só que nasce de novo. Sempre tem um Juruparitinga no mundo.

Constância observou a casinha, muito pequena. A velha parecia morar sozinha. Como se tivesse ouvido seus pensamentos, a idosa disse:

— Moro sozinha aqui. Só eu e Deus.

— A senhora disse que não foi sorte ele ter passado direto. O que foi, então?

A luz do sol rareava rapidamente.

— Venha, menina, vamos entrar. À noite, e com o Juruparitinga tão perto, é melhor estar entre quatro paredes.

Constância entrou. Otto ficou de guarda do lado de fora. A casinha tinha um só cômodo e nenhum móvel. Sentou-se no chão, à frente da anciã, que lhe oferecia um copo de água enquanto perguntava:

— Esse facão que você carrega, não é só pra abrir trilha, não é?

— Não. Eu vou matá-lo.

Ela riu, uma risada grasnada que irritou Constância.

— Qual a graça?

— Ele não pode ser morto, menina tonta!

— A senhora disse que ele morre.

— Ele morre, mas não pode ser morto.

— Eu o ataquei, arranquei sangue dele, vou cortá-lo em mil pedaços, quero ver se ele não morre.

— Você o cortou e ele deve ter sarado em poucos dias. Só precisou se alimentar mais vezes.

Constância se lembrou das vilas ao longo do Rio Cubatão. Ele tinha atacado em todas elas. A velhinha prosseguiu:

— Meu conselho é: deixe-o ir. Chore seus mortos e deixe a vingança para trás.

— Nunca.

— A maldição do Juruparitinga é que quem o persegue se torna seu igual.

— Eu jamais serei igual a ele. Só quero justiça. Reparação por tantas vidas inocentes.

— É mesmo? Ou você, tal como ele, já ganhou gosto por sangue?

Constância estava com raiva. Como aquela velha não via que suas intenções eram puras? O pão tinha gosto de sangue. Ela prosseguiu:

— Ouça com atenção: quem persegue o Juruparitinga, se iguala a ele. É essa a maldição. Você se acha justa e não percebe que está cada vez mais parecida com ele. Você se sente mesmo humana?

Era humana. A cabeça do comerciante rolou. Ela a cortou como manteiga. A velha continuou:

— Se o Juruparitinga está atacando mais vezes é porque está morrendo. Ele sente que seu sucessor está próximo. Vá embora, menina, vire as costas e volte por onde veio.

— A senhora está errada. Nunca serei como ele. Ele é um monstro, não tem misericórdia. Eu vou matá-lo, vou exterminar esse mal da Terra.

— Teimosa! Você não vai conseguir matá-lo com facão, só vai aumentar seu apetite e causar mais mortes.

— Ele tem que morrer de alguma forma.

— Ele morre quando um sucessor está pronto; o velho Juruparitinga parte. O novo, então, se alimenta e dorme por 400 anos. Ao despertar, recomeça sua caçada.

A velha hesitou por um tempo, pareceu pesar pós e contras, confabulou consigo mesma e, por fim, desembrulhou um tecido poeirento que estava a um canto e revelou uma lança negra.

— Ele não pode ser morto. Mas esta lança, feita há muito tempo, de uma estrela caída, pode mantê-lo adormecido. Sou a última da minha tribo e a sua guardiã. Se a lança a aceitar, ela é sua.

Constância tocou na arma e a sentiu queimar sua mão. A anciã balançou a cabeça.

— A lança a rejeita. O ódio já começou a consumir sua alma. Você não pode empunhá-la.

A lança queimava, mas ela também exercia uma atração irresistível sobre Constância. Ela desejava a lança, mais do que tudo.

— Dê-me.

— Não! Menina tonta, não entendeu nada do que eu disse? Esta arma não é para você.

— Se é esta a arma que entorpece o demônio, preciso dela. Enquanto ele dormir, eu o mato.

— Não é assim. — A velha fez menção de guardar a lança.

Constância partiu para cima dela, tentou retirar a lança de sua mão. Lutaram muito brevemente, uma luta desigual. Sem pensar duas vezes, Constância puxou seu facão e cortou a garganta da velha. A lança queimava em sua mão e, sem culpa, ela se sentia vitoriosa, mal registrava a dor da queimadura.

Do lado de fora da casa, uma movimentação chamou sua atenção. Algo foi atirado contra a porta. Otto gania, mas ela não teve tempo de ir ver o que acontecia. A porta se abriu de repente e o grande vulto branco e disforme entrou. Constância agarrou a lança em brasas, com força, a pele queimada aderindo ao metal. Otto agonizava em meio a uma poça de sangue.

Mas, ao contrário do que esperava, o demônio branco não a atacou. Quedou diante da porta, o vulto bloqueando a escuridão da noite, as feições horripilantes iluminadas pela luz da única vela da casa. Os olhos sem pálpebras viram a velha morta e a bocarra sorriu torto. Inesperadamente, ele falou:

— Vejo que você está pronta.

Por um instante, Constância ficou paralisada. Não pensou que aquele monstro falasse.

— Falo, claro. — Disse ele, respondendo às palavras não formuladas. — Pois se um dia fui como tu. Agora que meu fim se aproxima, torno a lembrar.

Constância não estava ali para conversar. Arremeteu contra o monstro empunhando a lança que queimava, mas não consegui atingi-lo. A lança voou longe, como se tivesse atingido uma pedra.

— Tu deverias ter ouvido a guardiã. Ela disse que a lança não a aceitava.

As mãos de Constância estavam em carne viva. Agora aquele monstro a devoraria.

Mas, para sua surpresa, o demônio caiu, como se a força que o movia o abandonasse de súbito. Ao cair, ele transfigurou-se num homem, um guerreiro de uma tribo antiga, que Constância não reconheceu e que foi, pouco a pouco, se fazendo em pedra e se desfazendo em pó. Quando o pó foi carregado pelo vento, uma fumaça escura tomou a forma do Juruparitinga e invadiu suas narinas.

A última coisa que Constância sentiu foi uma dor lancinante, enquanto seus ossos se alongavam e deformavam, suas pálpebras se desfaziam, sua boca se rasgava em muitos dentes pontiagudos e uma fome de sangue crescia em suas vísceras.

Fraca, faminta, levantou-se com dificuldade. Ansiava por carne fresca e viva, mas o cão e a velha iam servir, por enquanto. Depois, um longo sono de 400 anos antes de voltar a caçar nestas terras de São Paulo de Piratininga.

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Informação

Publicado em 9 de agosto de 2021 por em EntreMundos - Monstruoso Mistério Aternativo.