EntreContos

Detox Literário.

[EM] Marcas no asfalto (Blade Runner de Copacabana)

Aqui estou eu, tentando escrever minhas memórias, como me pediram. Não entendo esse povo, o que a vida de um detetive aposentado desde 2049 tem de interessante. A tela do computador, com o documento de texto em branco, encara-me friamente. Poderia dizer que me encara como Clint Eastwood, mas fazer referência a um filme centenário é muito cafona. Então, me encara como Taylor Joy na bela série que ela fez lá em meados de 2020, algo sobre uma rainha de pernas finas, ou seja lá o que um gambito significa. Lembro que naquela série, a personagem jogava xadrez. E como um jogo de xadrez funciona a polícia nessa cidade. Uma grande peleja de estratégias entre o trabalho investigativo e as forças obscuras que regem a política, o dinheiro, e a própria polícia, em uma eterna briga secreta entre a justiça e o crime, a moralidade e a contravenção, pelo controle da cidade. E o meu lado está sempre em desvantagem…

Pela janela, entra o vento frio do inverno, com a umidade típica de Copacabana. É uma noite escura e chuvosa, como aquela em que o meu derradeiro caso começou. Estava em minha mesa na delegacia, reclamando do ar-condicionado gelado e do computador lento. O marasmo e o silêncio era quebrado pelo chiado das velhas luzes fluorescentes (quem ainda usa isso, por deus). Até que o telefone no gabinete do delegado toca. A apreensão dura alguns segundos, até que ele aparece e fala aquelas palavras que soaram como música para mim naquele momento:

– Rick, pegue a viatura. tem um acidente de carro com óbito na Rua Tonelero.

– Graças a deus, isso aqui está um tédio! – Mal sabia no que eu estava me metendo…

O trânsito caótico de sempre já havia se esgotado naquela hora da noite, e pude chegar rapidamente ao local. O carro, um luxuoso Mercedes Benz, encontrava-se abalroado em um poste de iluminação, o banco do motorista completamente esmagado, assim como o próprio. A jovem ocupante do carona, em estado de choque, era atendida em uma ambulância por dois paramédicos. O sargento Gustavo isolava a cena do crime. Não havia mais uma alma viva naquela rua além desses.

Começo a tentar observar a dinâmica do acidente. As marcas de pneus mostram o ponto onde se perdeu o controle. Procuro alguma pista na cena, mas não há mais nada no local que pudesse indicar os detalhes dos acontecimentos. Checo as identidades das vítimas. Se chamam Raquel e Enzo Guinle. Fecho a parte burocrática e termino o meu  trabalho. Teria que esperar pela perícia no carro e de uma eventual câmera para entender o que estava acontecendo.

Alguns dias depois, nem me lembrava mais de todos os detalhes daquela ocorrência tão banal. Me encontrando novamente em um marasmo na minha mesa, fui interrompido por uma silhueta na porta de entrada da delegacia. Uma mulher belíssima, como que tivesse saído de uma revista ou de um filme. Um corpo alto e esguio, um rosto como uma escultura, maculado pelos cortes e escoriações do acidente, parcialmente escondidos por um batom vermelho, cabelos escuros que caíam sobre o rosto e óculos escuros. Ela então se dirigiu até mim:

– Você é o detetive Rick? Ma disseram que eu deveria te procurar para prestar depoimento.

– Sim. Você deve ser a Raquel. Você era filha do senhor Guinle?

– Eu era esposa dele.

Não posso negar que fiquei surpreso com a resposta. Por mais que eu saiba que é comum que homens ricos se casem com mulheres mais novas, ainda me causa espanto quando presencio isso.

– Então, me diga: o que você recorda daquele dia?

– Só me lembro que estávamos seguindo para casa tranquilamente. O Jarbas estava dirigindo o carro, até que tudo aconteceu. Foi muito rápido.

– Jarbas? – Uma das poucas coisas que ainda estavam na minha memória é que só haviam duas pessoas no local, e o senhor Enzo estava no banco do motorista – Quem é Jarbas?

– Jarbas é o nome do piloto automático. Todos os Mercedes têm esse equipamento.

Isso explica uma parte, mas não tudo. Também sou dono de um Mercedes, embora muito mais antigo e barato. O piloto automático deles é programado para sempre proteger os ocupantes do carro, independente das circunstâncias. Para aquele acidente ocorrer, algo devia ter dado terrivelmente errado.

– A manutenção do carro estava em dia?

– Claro! Enzo sempre gastava uma fortuna, porque só uma oficina na cidade tem a chave para acessar o computador de bordo, e eles cobram o olho da cara. Qualquer pessoa que tentar acessar sem a chave bloqueia o carro. Estávamos até procurando um software pirata para tentarmos fazer a manutenção por conta própria.

– E quando foi a última manutenção?

– Mês passado.

Agora eu já tinha pistas para investigar. Naquele momento, acreditei que não extrairia mais nada daquele depoimento. Se fosse o caso de ela ser a culpada, poderia fazer mais perguntas em outra hora, com mais evidências que pudessem me ajudar a conduzir um interrogatório mais completo. É impressionante como essas coisas ainda funcionam hoje em dia. Pedi então o contato da moça e disse que poderia chamá-la a qualquer momento para mais perguntas.

Não muito tempo depois de liberá-la, foi a vez do sargento Gustavo aparecer, entrando de forma apressada e ofegante.

– Que foi, homem? Viu um fantasma?

– Eu, não. Mas acho que o carro viu.

– Oi?

– A perícia disse que o carro ativou um procedimento de emergência para desviar de um obstáculo, e entrou em erro no meio da manobra.

– Então já sabemos a dinâmica do acidente. Devia ter alguém atravessando a rua ali. Você acha mais provável ter sido uma falha de projeto ou…

– Aí que está, Rick – Ele me interrompe de uma forma que não era comum em seus modos – as câmeras dos prédios  em volta não registram Ninguém!

Isso me deixou um pouco confuso momentaneamente. Agora, poderia pensar em duas hipóteses distintas: ou aconteceu alguma coisa na manutenção, ou Raquel estava mentindo, e instalou um software pirata que quebrou o carro. Tento refletir brevemente, mas novamente sou interrompido de maneira estranha pelo sargento, que segura meu pulso e olha fixamente nos meus olhos:

– Foi essa mulher, pode ter certeza! Ela mentiu pra você no depoimento. Com certeza ela sabotou o carro pra matar o velho e ficar com a grana dele.

Essa declaração fele me deixou assustado. Em todos os anos em que trabalhamos juntos, ele nunca tentou interferir no meu trabalho, assim como eu nunca interferi no trabalho dele. Tínhamos uma boa parceria por causa disso. Me levantei da cadeira e fui ao banheiro. Pedi para que ele me esperasse. Ao chegar lá, mandei mensagem para Raquel e disse que precisava falar com ela, e iria até a sua casa. Olhei para o espelho, tentando refletir um pouco sobre a situação. E como se meu próprio reflexo me alertasse, um pensamento cruzou a minha mente: “como ele sabia sobre o depoimento da raquel? Não falei nada sobre para ninguém, nem terminei de registrar no sistema”. Aí eu percebi que tinha algo errado acontecendo. Raquel poderia estar correndo perigo. Mas eu estava aparentemente um passo a frente, pois tal como Sonny Corleone, ele havia dito o que estava pensando para alguém fora da “família”(eu e minha mania de citar filme velho…).

Voltei para minha mesa. Obviamente, o sargento havia ido embora. Procurei algum vestígio de escutas no local, tentando entender como ele pode saber do depoimento. Até que lembrei: hoje em dia ninguém precisa mais plantar nenhuma escuta em lugar nenhum, pois todo mundo carrega um celular, que tem câmera, microfone e GPS. E provavelmente foi possível ler a mensagem que eu acabei de mandar também. Eu precisava agir rápido.

Fui o mais rápido que pude para o endereço dos Guinle: uma cobertura duplex na Avenida Atlântica. No local, avistei uma viatura da polícia militar, a mesma do dia do acidente. Na portaria, o sargento Gustavo saía do elevador:

– Não se preocupe. Já recolhi todas as provas aqui. A dona não estava em casa, mas a polícia já está sob alerta para achá-la.

Precisava achar Raquel antes que fosse tarde. Por sorte, ela estava caminhando pela calçada. Corri até ela antes que o sargeno pudesse perceber sua presença:

– Senhora, você não pode voltar pra casa. Algo está acontecendo.

– O quê?

– Você instalou algum software pirata no carro? Acho que você não me falou tudo.

Como assim? Já te falei que não fiz isso.

– Quem era o seu marido?

– Já te falei tudo o que podia falar! Não irei responder mais nada!

As coisas estavam realmente difíceis sem a cooperação. Por mais que ela fosse uma potencial suspeita, ela também era uma potencial vítima de um futuro crime. Precisava protegê-la, para que eu pudesse ter uma fonte de informação, que seria perdida em uma queima de arquivo. Ordeno que ela procure um local seguro, e ela diz que tem uma tia que mora próximo e que iria ficar lá até as coisas se acalmarem.

A chuva apertou de noite. Os barulhos dos carros na pista molhada, abafados pelas janelas fechadas, era o único ruído no meu apartamento. Eu tentava descansar de um dia cheio. Mas então, a campainha tocou. Sabendo que as coisas não estavam certas, peguei minha pistola e fui até a porta . Mas o que eu vi foi um afigura feminina nada ameaçadora. Agora, sem os óculos, podia ver os belíssimos olhos cor de esmeralda de Raquel.

– Detetive, acho que eu não falei tudo para você.

– De fato.

– Enzo era um empresário do ramo imobiliário. Temos muitos empreendimentos por toda a cidade.

– Isso eu já sei. Já pude constatar. O que mais?

– Ultimamente, ele estava construindo um edifício aqui em Copacabana. Mas o Serginho queria cobrar uma taxa e Enzo não queria pagar.

Todo mundo conhecia o Serginho, o miliciano que domina a maior parte da Zona Sul e cobrava taxas absurdas. Ele também tinha muitas conexões na polícia e na política.

– Então, detetive, eu acho que ele deve ter sabotado de alguma forma o carro porque nós não pagamos as taxas.

– É uma hipótese. Me diz uma coisa: como era o relacionamento de vocês?

– Era um pouco difícil. Ele era muito distante e concentrado no trabalho. Aquele dia era o aniversário dele. Quis fazer uma surpresa e o levei para um restaurante. Na volta, estava tudo indo bem, e achei que teríamos finalmente algum momento de intimidade. Mas aí tudo aconteceu.

Pela primeira vez, não reclamei de alguém tentar se meter no meu trabalho. Era algo estranho. A presença de uma mulher no meu apartamento não acontecia há anos, desde que fiquei viúvo. Percebia que, desde então, estava como aquele carro: sempre no piloto automático. O piloto automático me acordava de manhã, me levava ao trabalho e me trazia de volta à noite. Então, Raquel me deu uma chance de mudar. E eu prontamente aceitei:

– Então, ainda abem que estou aqui, protegida, com você.

A levei para o quarto. E por alguns instantes, esquecemos de todo o caos ao redor. Nada estava no piloto automático.

No meio da noite, acordamos com barulhos na porta. Raquel fica então absolutamente apavorada.

– O que está acontecendo?

– Calma, fique aqui.

Antes mesmo que eu saísse do quarto, a porta veio abaixo e três elementos entraram atirando. Um dos tiros atingiu meu braço de raspão. Rapidamente, alcancei a pistola e respondi os tiros, matando todos. Ao verificar se ainda ofereciam algum risco, vi que um deles era o sargento Gustavo. Matar um colega de trabalho é triste, mas ele havia se voltado contra mim. Porém, logo sou obrigado a voltar ao quarto com o chamado de Raquel.

Ela havia sido atingida no ombro. Nada muito grave, mas estava sangrando e precisava de atendimento. Fiz um curativo rápido e a levei até o carro. Enquanto íamos até o hospital, o piloto automático guiava o carro enquanto eu tratava dos ferimentos. Até que subitamente ocorreram coisas.

O carro fez uma curva brusca, como se desviasse de algo, e depois entrou em erro, desativando o piloto automático. Consegui reagir rápido e retomei o controle, mas pouco pude fazer. O impacto me livrou do pior, mas a alta velocidade e o ângulo foram fatais para Raquel. Por mais que me doesse, não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-la. Por mais que meu trabalho lide frequentemente com a morte, essa doeu.

Ensanguentado, com dor e encharcado com a chuva, segui a pé até a oficina. Estava determinado a acabar de uma vez por todas com aquilo e evitar mais mortes. Pulei uma janela aberta nos fundos e fui até um terminal. Pude descobrir que não usavam o software original, mas sim um software pirata que instalava um rastreador, e o carro podia ser acessado remotamente a qualquer momento, e que a rede da oficina estava conectada a um conhecido capanga de Serginho, que mesmo na cadeia continuava ativo.

Antes que eu pudesse desligar o terminal e sair dali, um alarme toca e vários capangas apareceram atirando para todos os lados. Detrás de um carro, consegui revidar, derrubando dois deles. Um terceiro deu a volta por trás, mas consegui desarmá-lo e imobilizá-lo. Usando-o como escudo, segui até a janela e escapei . Precisava chegar rapidamente à delegacia para entregar as provas, Já que agora eram claros todos os detalhes do crime. Mas não podia arriscar: ao invés de chamar um táxi, peguei o metrô.

– Parabéns, detetive! – O delegado me recebeu com um abraço e um sorriso incomum – Mais um caso solucionado. No final não passou de um acidente. Trágico!

– Do que você está falando?

– Ora, de tudo o que aconteceu. Agora venha, vou assinar a sua aposentadoria.

– Delegado, você está cometendo um erro. Podemos pegar um dos criminosos mais perigosos do país agora mesmo.

– É para a sua segurança, Rick. E não fale assim do meu chefe, senão eu mudo de ideia e você vai para a lista de desaparecidos.

Esgotado com o cansaço e a dor, não consegui mais me segurar e desmaiei.

Agora estou aqui, escrevendo o que consigo lembrar (e o que posso falar) dessa história. A minha aposentadoria me protegeu de alguma retaliação, pelo menos por enquanto. Agora, vou ter que fazer uma pausa. Estou cansado. E tem alguém tocando a campainha…

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 9 de agosto de 2021 por em EntreMundos - Monstruoso Mistério Aternativo.