EntreContos

Detox Literário.

[EM] Cela 73 (Bet)

— Havia um monstro no Ubirajara Galhardo. 

— Assim julga a sociedade – ameaçou anotar algo no bloco de notas, já com enfado – Para ela, todos os detentos são monstros. 

— Uma criatura, de verdade. 

O homem apertou a tampa da caneta com a boca e se pôs a escrever. Diante do silêncio do entrevistado, fez um gesto para que continuasse. 

— Um preso foi encontrado morto na cela 73, mesmo que ela tenha passado a noite fechada. Até aí, tudo bem, isso nunca foi absurdo. Era só molhar a mão dos guardas que se aprontava o acerto. Eles fingiam trancar a cela e na madruga tudo acontecia. Mas, daquela vez, foi diferente. 

O entrevistado olha para os lados, cochicha. 

— O corpo estava marcado por mordidas, de bicho grande, nas costas, a barriga com rasgo de presa, o bucho pra fora, só de falar, me dá arrepio. 

— Você viu, o corpo?

— O peito tinha um corte profundo, bem aqui – apontou para o lado do coração – Uma das marcas registradas do monstro.

— Uma das marcas?

— Eu trabalhava na cozinha, era apanhado cedo para fazer a entrega do café.  A gente arrumava o desjejum nos carrinhos e passava um pouco depois dos guardas começarem a bater nas grades para acordar os malacos. Lembro do seu Osmar, chefe de segurança, um homem ruim. Ele ia na minha frente fazendo aquele “clang clang” que tanto gostava nas barras de ferro, até que parou na frente da cela 73 e pôs a mão na boca, não aguentou e vomitou no corredor mesmo. 

— E aí, Seu Valdomiro?

— E aí que eu me assustei com a pose do homem e fui empurrando meu carrinho, até ver tudo com meus próprios olhos. O corpo todo fodido, o peito ensanguentado e – olhou novamente para os lados, apreensivo – Castrado!

O entrevistador anotou o termo e coçou as bolas num gesto inconsciente. Ajeitou os óculos que não paravam de escorregar pelo nariz e retomou a vista para Valdomiro, cujos olhos estavam vidrados após proferir a última palavra. 

— Seu Valdomiro?

— Pode pedir mais um café com leite para mim?

— Claro, claro. 

Levantou-se e foi até o balcão da lanchonete. 

— Mais um pingado e outro pão na chapa. 

— Só isso, chefe?

— Uma água com gás também. 

— Empresta a comandinha pra mim. Ou me fala o número. 

O entrevistador deu a comanda na mão do atendente. 

— Sete três. Tá registrado! Um pingado, um pão e uma água. Já levo lá. 

— Com gás, por favor. 

Retornou à mesa, Valdomiro estava com o bloco nas mãos.

— Tá faltando coisa aqui – jogou-o de volta para o dono. 

— Calma, são apenas palavras-chave, para não esquecer na hora de escrever a matéria. 

— Que jornal é esse aí?

— Nova Gazeta. 

— Na cadeia, a gente se estapeava por um quadrinho, revista, livro, um recorte de jornal, até os próprios presos começarem a escrever livrinhos de sacanagem e distribuir por aí, matando o tédio geral. 

O entrevistador ri.

— Isso eu vou anotar, seu Valdomiro. Dá uma reportagem à parte. 

— É, mas começaram a circular histórias sobre o monstro também. Um preso chamado Catiaba, que sabia ler e escrever, amontoava um monte de gente em volta para ler as histórias, cobrava um cigarro por leitura. 

— Catiaba – o entrevistador repetiu o nome enquanto anotava – Era ele quem escrevia?

— Ninguém sabia quem escrevia. Os livros apenas circulavam, o autor usava um nome falso: Bet. O conteúdo era alternado; uma história de putaria e uma história de monstro. Catiaba, é bom falar, morreu logo depois de surgirem os livretos, disso me lembro bem. As histórias continuaram a circular, mas foi difícil achar alguém que lesse como ele. 

— Morreu pelo monstro?

— Não. Acerto de contas mesmo, o último, pois tava todo mundo com o cu na mão. Depois disso, veio a chacina. 

— Sobre a chacina, você sobreviveu como? 

— Eu era inofensivo, evitava olhar muita gente, evitava treta. Sabe como é, né? E não dormia com mulher no dia de visita, era daí que o monstro vinha. 

— Estamos falando da mesma coisa?

Valdomiro coçou a cabeça, o garçom deixou o café e o pão na mesa. 

— Minha água?

— Já trago, chefia!

Esperou o atentende sair antes de seguir. 

— Você deve estar falando da chacina de 74, aquela que deu em jornal, reportagem e o caralho. 

— E qual outra seria, Valdomiro?

O garçom deixa a água na mesa, o entrevistador enche o copo enquanto escuta. 

— A chacina de 74 foi para encobrir os mortos, as vítimas do monstro, por isso que ninguém sabe dessa história, ou finge que não sabe, pois tem medo – apoiou os cotovelos na mesa e vergou o corpo para a frente – A verdadeira chacina, doutor, começou em 73. Não esqueça de anotar no seu caderninho aí. 

— O..Ok, Valdomiro.

— Depois que Catiaba morreu, outros corpos foram surgindo, tudo no mesmo estado: estrebuchado, sem coração e sem o pau. Tá me entendendo? Era um por semana, mordido e castrado. O monstro deve ter ficado puto porque com Catiaba morto, as histórias pararam de circular, de serem conhecidas pelos presos. E que assassino, gente ou coisa, não quer ser reconhecido?

— Você tem algum desses livretos?

— Não levei nada de lá, nem queria. Era um inferno, mas lembro algumas histórias, se você quiser saber. Catiaba lia bem, de um jeito que atraía o pessoal, e os contos ficaram aqui – bateu com o dedo na têmpora direita.

— Por favor, me conte. Quer comer mais alguma coisa?

— Uma dosezinha ia bem. Na verdade, duas, mas na hora de sair. Não fico bem quando bebo. Tendo a cair na tristeza.

O entrevistador concordou com a cabeça.

— Essa eu ouvi da boca de Catiaba. Ele apanhou os cigarros dos leitores, enfiou um na orelha e o resto nas calças. A malandragem sentou em roda que nem criança para ouvir a história. Era uma mistura de sacanagem com causo de terror. O monstro, na verdade, seria uma mulher de dia de visita, daquelas que se alternam entre um preso e outro, o que é comum na cadeia. Um chefe banca para um parceiro, ela faz contato, o outro paga pelo serviço, e assim vai indo, até rodar na cama de geral. Uma das mocinhas tava carente de grana, parente doente, filho para criar, ou algo assim, só sei que era problema sério e ficaram devendo pra ela. Ameaçou denunciar um bandidão e, de tanto esperneio, mandaram matar a moça. Ela e a família. 

Valdomiro parou para olhar a metade do seu pão na chapa que já esfriava no prato. Bolinhas de gás estouravam no copo do entrevistador.

— Enfim, doutor. O tempo foi passando, a história quase sumiu, mas aí a primeira vítima, aquela da cela 73, foi encontrada; um dos clientes da dona. Logo depois as histórias começaram a circular nos livrinhos. Era sempre a mesma coisa, a moça surgia pelada na cela, de madrugada. Como um fantasma, atravessava as barras de ferro e fazia sexo com sua presa. Nessa hora, a bandidagem comemorava, ficava eufórica e doida enquanto Catiaba contava em detalhes, tinha uns até que se tocavam. Aí o conto seguia; depois do ato o monstro matava o desgraçado e arrancava o trem dele. Em algumas versões, o monstro enfeitiçava o condenado e, enquanto ele achava que tava mandando ver, ela já tava fazendo a carnificina. Os brutamontes ficavam pianinho nessa hora, não davam um pio, mas voltavam sedentos na semana seguinte, mal Catiaba avisava que Bet tinha aprontado mais uma das suas.

— Mas, onde entra a chacina de 73? Nada saiu no jornal, os corpos, como ninguém ficou sabendo?

— Você nasceu ontem, doutor? – Valdomiro se pôs a rir, enquanto o entrevistador encolhia os ombros – Naquela época, o que acontecia na cadeia ficava por lá. Que milico queria saber de dar na tv que tava morrendo gente esquartejada no xadrez? Se liga. Lá fora tava tudo lindo, e era isso que os jornais mostravam. 

— Faz sentido, me desculpe. 

— Seguinte, depois que Catiaba morreu, um por um dos que dormiram com a moça começaram a morrer, e logo os livros voltaram a circular, contando a história de cada um dos ataques. Acontece que, perto da virada para 74, encontraram morto o porco do Osmar, o chefe de segurança. Que ele era cheio de esquema com as primas e os detentos, todo mundo já sabia, mas o cara morrer assim, largado e castrado no meio do pátio, foi demais. 

— No meio do pátio?

— Tinham suspeitas que ele que havia mandado passar o Catiaba, porque tava dando um alvoroço danado esse negócio de historinha de monstro e sacanagem, o que atrapalhava a segurança. Fora que Catiaba tava faturando um bom com os cigarros. A gente ia ficar bem. 

— Como?

Valdomiro apanhou o pão e chuchou no café com leite, também já frio. Mastigou sem pressa antes de seguir. 

— Doutor, fizeram de tudo para encobrir a morte do Osmar. A gente morrendo que nem mosca por causa de doença, fome, acerto de contas, e nada de intervirem. Foi só matar um guardinha que deram jeito de acusar uns presos mais perigosos pela morte do cara. O Estado teria que pagar uma indenização fodida para a família do verme, aí começou o reboliço. Osmar era de fora da cidade, já não ia voltar para casa até o final de semana. A desculpa perfeita, pronto. Executaram uns detentos, provocaram outros, uma facção viu chance de ganhar poder na cadeia, outra quis se defender, tava formado o cenário para o caos. 

— Três de Janeiro de 1974. 

— A polícia entrou, fez um banho de sangue e tudo aquilo que você já sabe. Osmar foi dado como morto na rebelião, o único guarda, acho, até porque não me estendi mais nessa história depois que passou. Aí os jornais chegaram, porque foi um troço grande, difícil de encobrir.

— Eu era um menino ainda, lembro que voltei do futebol na rua e meu pai estava assistindo na tv. 

— E aí?

— Disse que era tudo bandido, que tinha que morrer mesmo. 

— Ele e o país inteiro. 

— Só sei que, naquela idade, fiquei chocado com as imagens. 

— Seu pai era policial, doutor?

— Escrivão – respondeu baixando a cabeça.

— E você virou jornalista por quê? 

— Não sou como meu pai. Queria…Bom, acho que trocamos de lado na entrevista – O entrevistador deu um riso nervoso e tomou mais um gole d’água. Valdomiro o encarou sério, até cair numa gargalhada alta. 

— Tá certo, doutor, tá certo. 

— Pode me chamar de Jefferson, por favor, seu Valdomiro. 

— O que mais quer saber, Jefferson?

— Só se estiver à vontade. Como sobreviveu?

— Ao monstro? Evitando as mulheres, as tretas. As histórias de Catiaba me bastavam para matar o tempo, ele contava com encanto, uma voz doce, sabe? Ainda que fossem atrocidades. Foi duro depois que partiu. Já à chacina de 74, tentei me esconder na cozinha quando o clima começou a ficar tenso, mas sobraria para mim, porque ali, quando tem rebelião, é que malandro vai se armar de faca, garrafa, garfo, o que tiver.

— Entendo.

— Pode soar estranho, mas a cela 73 era vista como mau agouro até pelos guardas. Depois da primeira morte ali, ficou vazia e aberta. Só uns depravados que aproveitavam para dar uma rapidinha com os travecos do presídio. Lá me enfiei num canto escuro e aguardei pelo pior, ali, onde gente morreu e gozou, deu e comeu. Fiquei e só saí na hora que a polícia reuniu todo mundo no pátio.

— Quanto tempo ficou lá?

— Algumas horas, não sei ao certo, até um guarda me achar e me arrastar. Vi uma porção de corpos no caminho, furados e arrebentados, jogados nos corredores. Um monstro muito mais letal havia passado pelo presídio: o Anjo da Morte.

Valdomiro fez uma arminha com os dedos e fingiu um disparo na direção de Jefferson. Continuou.

 — Depois disso, interditaram o lugar e, dois anos depois, fecharam de vez o Ubirajara Galhardo. Cada um foi prum canto diferente, em penitenciárias menores do interior, mas isso você já sabe. 

— Ainda tem contato com alguém dessa época?

Valdomiro demorou-se num suspiro. 

— Não. 

— Entendo. 

— Cumpri pena e, desde então, tenho tentado sobreviver. 

Jefferson calou diante daquele homem. Valdomiro era um senhor de gestos lentos e melancólicos, mas cheio de violência reprimida. Parecia, fosse-lhe lançada uma palavra mal colocada sobre os tempos de xadrez, que cometeria um homicídio como os que disse ter testemunhado. Jefferson olhou as anotações em seu bloco de notas e elas não passavam de rascunhos soltos. No final, apesar de interessante, a fonte promissora que arranjara não lhe deu mais do que uma história conspiratória de monstro, o que não serviria para publicar na Nova Gazeta, nem agradaria o diretor pé no saco que queria uma matéria “originalíssima” sobre os trinta anos do massacre, nada da ladainha disponível no antigo prédio da penitenciária, que se tornou um museu ufanista, como todas as instituições públicas do país. Se limitou a agradecer e cumprimentar Valdomiro, que lembrou o jornalista, antes deste se despedir definitivamente.

— Não se esqueça das minhas doses!

Assim o fez, pagou a comanda e tomou o ônibus para o centro, mergulhado em pensamentos. Osmar, Bet, o monstro, os livros, o próprio Catiaba. Qual seria seu verdadeiro nome? Valeria uma visita na antiga penitenciária Ubirajara Galhardo? Faria contato com colegas do falecido pai, escrivão da polícia civil, que tinham acesso a antigos laudos, processos e fotografias dessa época, disponíveis por uma boa molhada de mão?

O que Jefferson não sabia ainda é qual história contaria na matéria, e que a única evidência que receberia dos fatos, semanas depois, seria o atestado de óbito de Osmar Russo, chefe de segurança no tempo do massacre. Causa mortis: não naturais. Homicídio. Incisões na caixa torácica, dilaceramento de ossos e cartilagens feito por objetos perfurocortantes, decepamento de membros, entre eles, o pênis, assim como marcas de mordidas profundas espalhadas pelo corpo. O legista não se prolongou na descrição, pois, à serviço do exército, apenas o essencial bastaria para preservar o Estado.

Em visita tardia ao Ubirajara Galhardo, Jefferson encontrará vincado nas paredes da cela 73, em meio a nomes e mensagens de presos anônimos, uma inscrição que lhe chamará atenção: “Na cela 73, C.V foram felizes”. Em vão, tentará refazer o contato com o ex-detento, que sumiu da cidade, não se sabe para onde.

No entanto, ainda naquela noite, ainda na lanchonete, com Jefferson alheio a caminho do centro, Valdomiro recebeu sua dose dividida em dois copos americanos, como havia pedido. Tomou a primeira num único gole e encaretou com a ardência da bebida. Colocou o copo vazio na mesa e, com muita delicadeza, apanhou o outro, ainda cheio, erguendo-o no ar. 

— À sua memória, Catiaba, meu amor, meu contador de histórias. Da sua, sempre sua, Bet.

Bebeu.

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Informação

Publicado em 9 de agosto de 2021 por em EntreMundos - Monstruoso Mistério Aternativo.