EntreContos

Detox Literário.

[EM] A ordem dos 13: Universo paralelo (Richard Bach)

Do outro lado da rua, Douglas percebia algo estranho acontecer; muito  incomodado.

— Isso é algum tipo de piada? — Questionava-se, confuso.

Um estranho, acenava e fazia gestos diversos o imitando, em alguns momentos. Douglas não tinha a mínima idéia de quem poderia ser o homem, tampouco enxergava com clareza em meio às pessoas, que passavam com pressa na Avenida mais movimentada de Curitiba. Ocorria tal qual flashes, em que a imagem do imitador, surgia e se ocultava em meio aos transeuntes.  

Douglas levantou o seu braço direito e acenou; obteve o mesmo gesto. Sentindo-se ainda mais incomodado, e com um pouco de raiva do que parecia ser algum tipo de sarcasmo, resolveu atravessar a Avenida, para tirar satisfações.      

Levantou-se, ao tempo que um ônibus de viagem se pôs entre ele e o alvo, o fazendo perder contato visual. Quando o ônibus finalmente saiu, percebeu algo: a tal pessoa que o imitava, havia desaparecido.    

Não soube como reagir e sentiu-se ainda mais perturbado; até um pouco constrangido, pois lhe passou pela cabeça ser um delírio ou algo do tipo. Talvez a pessoa tenha entrado no ônibus; talvez saiu correndo e se escondeu. Tudo era bem estranho, naquele momento insólito. Ainda assim, caminhou para o outro lado e observou atento, buscando encontrar algo; não obteve sucesso. Decidiu então deixar tudo aquilo de lado e ir logo para casa.  

Quando seu ônibus apareceu, ele buscou um lugar vazio; ao encontrar, tirou a mochila das costas e sentou, confortavelmente. Mal ele sabia que uma surpresa ainda maior e assustadora, estava do lado de fora, bem ao lado de sua janela. No momento que Douglas olhou para a plataforma, viu o estranho que havia sumido, encarando-o; segurava uma placa, na qual estava escrito o número 13. Estranhamente, sentiu que respirar estava cada vez mais difícil e a sensação sufocante foi crescendo até que…

Douglas acordou, subitamente, assim que seu despertador tocou o chamando para a vida real. “Caramba! Que sonho mais estranho” , pensou.     

Era mais um dia de sua ‘maçante’ vida. Teria que fazer tudo novamente: o trabalho que não gostava, as pessoas que convivia por conveniência. Não sabia qual tinha sido a última vez, que realmente sentira-se vivo. Ligava a televisão e isso só fazia aumentar o vazio. Programas cheios de sorrisos falsos e propagandas prometendo felicidade infinita, até o próximo produto ser lançado.    

Outra coisa que já não dava mais para ele era a ‘hipocrisia’ humana. Ah! Isso já o tinha cansado há muito tempo. Douglas simplesmente não tinha mais idade e muito menos paciência para atitudes e palavras hipócritas, carregadas de ignorância e egocentrismo; e disso encontramos aos montes nas redes sociais da vida, não é verdade? Dentro e fora do computador. Ultimamente ele se sentia vivendo em meio à zumbis. Filmes, músicas e outros conteúdos rasos, cada vez mais sendo adorados e moldando a grande massa. Dando a falsa sensação de atitude ou liberdade, tão verdadeiras quanto um suco vendido como ‘natural’, porém intoxicado e cheio de conservantes e outros venenos. Douglas sentia-se farto do maquinário e das ‘peças de manobra’.      

Contudo, apesar desse monte de carga emocional(desnecessária, talvez), ele ainda pensava única e exclusivamente no sonho que tivera. Não havia sentido, não havia significado, pelo menos era o que ele achava. “O que minha mente quer me dizer?”, tentava tal qual um psicólogo, analisando seu paciente, descobrir se tinha algum motivo naquilo que experimentara na noite anterior.   

Ao fim de todas as reflexões e ‘corre’ para se arrumar, pegou sua mochila e foi para o trabalho. Pelo caminho, recebeu uma ligação e ficou sabendo da morte de seu tio Inácio. Apesar de ser tio, era uma figura distante e misteriosa; não mantinha contato, mas por algum motivo, estava desejando interferir na vida dele agora. Na verdade, a viúva de Inácio desejava conversar com Douglas. Ele não entendeu muita coisa na ligação, mas pelo pouco que escutou, se tratava de assunto muito sério e de gerações na família.   

Ao final do dia, voltou para casa e ficou tranquilo, pois ninguém apareceu na estação de ônibus para o amedrontar. A ligação que havia recebido, ainda o incomodava, afinal o que estavam desejando falar com ele? Pegou o telefone e em um nova conversa, marcou um encontro com a viúva do tio.

O sábado amanheceu ensolarado e com cara de novidades. Acordou mais cedo do que o habitual e dessa vez se preparou para um destino completamente diferente; isso o animava (talvez fosse aquela estória de se sentir um pouco mais vivo). Após conferir o endereço, chamou um uber e foi.

O trajeto foi longo e assim que chegou ao local desejado, viu uma imensa mansão. Foi uma sensação estranha, porém ele imaginou que o medo que tentava se apossar dele, na verdade podia ser o prenúncio de um dia incrível. Saiu do carro e seus passos passaram a ser desenhados pelas folhas e a terra do chão.

Caminhando pelo extenso corredor, viu o que parecia um gigantesco jardim, até que chegou ao imenso portão de ferro, no qual havia uma placa e nela estava escrito: ‘Edadeicos Medro 13’. Nesse momento Douglas teve outra sensação, porém esta não foi tão agradável assim.  

Quando finalmente foi recebido por uma pessoa na entrada, sentiu uma insegurança e um cala frio na espinha. O senhor que lembrava uma espécie de mordomo, pediu que o acompanhasse. E assim foi, até encontrar Ivone, a viúva de seu tio, que nunca havia trocado uma só palavra com ele.

A expressão da mulher era séria demais e pediu que ele sentasse. Com um certo incômodo, assim o fez.

— Então você é Douglas; sobrinho e herdeiro de um futuro poderoso e triunfal.

Ele por sua vez, não entendeu nada.

— Futuro triunfal? Como assim? O que vocês desejam?

O senhor com jeito de mordomo trocou olhares com a viúva e ela riu, retomando a conversa em seguida.

— Entendo seu medo e confusão; afinal não é todo dia que um ser ignorante de sua realidade tem a oportunidade de acordar. — O olhar carregado de um mistério assustador, assombrava Douglas.  

— Ignorante? — Questionou de forma ríspida. — Quem a senhora acha que é para falar assim comigo?

— SOU UMA DAS FERRAMENTAS MAIS IMPORTANTES DE SUA HISTÓRIA E SEU MUNDO! — A viúva gritou de tal maneira, que até a quinta geração de Douglas foi capaz de ouvir.

— Eu não conheço você, e isso tudo está me parecendo uma grande loucura! O que meu tio queria falar comigo? Me chamaram aqui porque tem algo que ele queria me dizer… É isso?

Levantando-se vagarosamente, Ivone passou a caminhar pela sala, explicando o motivo da conversa.

— Hoje, você Douglas, desperta para uma nova realidade; a verdadeira realidade.

— Como assim? — Ele perguntava ainda mais confuso.

— Você não sabe muito a respeito de sociedades secretas, certo? — O sorriso dela era assustador e irônico, ao mesmo tempo. 

— Sei pouco a respeito; conheço os Illuminatis, os maçons.

Ivone o interrompeu.

— Balela! Conversa fiada! Pelo visto não sabe nada a respeito de verdadeiras sociedades secretas! Tudo isso que acabou de falar são mentiras, são organizações de fachada, tidas como secretas, mas não são.

Ele ficava cada vez mais confuso.

— Escute com atenção! Seu tio era membro de uma das maiores organizações secretas e fantasma da história. Seu tio teve um poder incomensurável nas mãos! Contudo, ele se foi. A ordem dos 13; já ouviu falar?

— Não.

— É óbvio que não, garoto! Isso sim é uma sociedade, uma ordem secreta! O silêncio possui um poder inimaginável! Temos o controle de meios de comunicação, temos o controle de mídias e artistas! Temos o controle de mentes, ignorantes demais para notar que são peças de toda uma engrenagem!  A política e tudo o mais, que a grande parte da população mundial pensa que manda ou dita o rumo, somos NÓS que comandamos e decidimos!

Douglas estava ficando um pouco mais assustado e no fundo, imaginava que aquela senhora pudesse ser louca. Contudo, algo fazia sentido para ele. A deterioração da cultura e inteligência; a decadência de muitos sentimentos e valores, como empatia e o próprio amor, que era tratado na sociedade moderna como algo tolo e descartável, ou de forma hipócrita e seletiva. Será que talvez, ela estava falando a verdade? Será que de fato, pessoas ou grupos poderosos e fantasmas, dominavam e mantinham a maior parte da população refém de seus gostos e planos?

Ivone prosseguiu.   

— Você precisa entender o que acontece aqui, afinal vai estar a frente disso tudo em breve também.

— À frente? Eu não quero saber disso. Isso é loucura!

— Loucura é você ser burro dessa maneira! Ser alienado e estúpido! Cale a boca e entenda!

Douglas ameaçou levantar, mas o senhor que o acompanhara sacou um revólver e apontando para ele, o fez mudar de idéia. Sentando-se na cadeira de luxo e de couro, ele voltou a ouvir Ivone.    

Dom Pedro I e a Independência; a revolução francesa; Leonardo Da Vinci com suas mensagens, ocultas em obras mundialmente famosas; Albert Einstein e outras importantes e grandiosas figuras, tiveram participações cruciais atendendo aos nossos planos. Mudamos o rumo da história, sempre da forma que desejamos e quantas vezes foi preciso. Contudo, eles mesmos não sabiam que eram parte de uma engrenagem maior.

— Você não tem a mínima noção do quanto somos grandes, senhor Douglas. — Acrescentou o homem com a arma em punhos. — E saiba que igual a mim, tem mais centenas de olhos espiando o senhor neste momento.

Douglas olhou em torno da luxuosa sala e percebeu várias câmeras no teto, em diferentes pontos.

— E todos nós estamos armados; saiba disso, caso tente fugir de novo.

De uma coisa, Douglas sabia: havia cometido o maior erro de sua vida, aceitando entrar naquele local;

A viúva prosseguiu:

— Você ainda dorme, como todo ser estúpido e ignorante. Não faz idéia do quanto é fácil manipular pessoas iguais a você; não percebe como a maior parte da população não tem senso crítico? Não pensam! Não entende como grande parte desse povo se ataca, feito animais? Trabalhamos na banalização dos sentimentos e a falta de interesse crescente por atividades que requer intelecto, assim como as músicas atuais, em grande número pobres de conteúdo, letras burras e ritmo repetido. As pessoas desejam coisas fáceis de gerir, por isso atente para os sucessos de hoje. Acha que isso é mero acaso?

Douglas nada respondeu. Apenas ouviu a risada da viúva ecoando pelo recinto. Ela prosseguiu:

— Tudo isso é parte de um grande plano! Escritores, músicos, artistas de vários segmentos, vem ao longo dos anos, tentando alertar as pessoas. Eles vem fazendo isso por meio de suas obras, com mensagens em livros, músicas, filmes e por ai vai. Porém, não são levados à sério! A mente vem sendo programada; não levam a sério nem a própria vida, pois nosso plano está funcionando e cada vez mais a alienação institucionalizada e a idiotice como entretenimento, ganham espaço na vida e mente de todos!

— E o que vocês ganham com isso? — Perguntou Douglas.

— PODER! PODER! Temos o controle não porque obrigamos as pessoas a fazer algo, mas porque elas próprias não sabem lidar com o que possuem de mais precioso: a liberdade!

— Vocês são loucos!

— Será mesmo que somos os loucos? — A viúva rebateu. — Será que a loucura é dar comida aos porcos ou é a nossa sociedade que se diz civilizada e evoluída, mas adora a lavagem que recebe, todos os dias? Essa ‘sociedade’ que vive doente e refém da própria estupidez e hipocrisia; o que é loucura para você, Douglas?

— Não sei; a única coisa que eu tenho certeza é que não desejo fazer parte disso. Controlar a mente e o sentimento dos outros, não é normal!

Ela prosseguiu:

— As grandes ordens e sociedades fantasmas existem por um motivo: pessoas são incapazes de lidar com o poder e gostam, em sua grande maioria, do controle exercido sobre elas. Você pode roubar tudo delas, mas se souber como fazer, dando em troca migalhas, esmolas, elas ficam felizes e ainda agradecem! — Outra risada ecoou por toda sala. — Falta acordar, deixar de ser estúpido! Eles não enfrentam a realidade, pois ‘acordar’, requer coragem, e isso dói! Vivemos em uma sociedade de zumbis. Ratos hipócritas! E como bons zumbis que são, criamos doenças que acabam por gerar medo e um controle ainda maior; você não faz idéia do quanto faturamos com isso. Nossas ordens e sociedades criam o problema e lucram com a solução, compreende?

Douglas já estava farto de ouvir tudo aquilo.

— Acontece que nem todos são burros e eu sou um deles.

— Como assim? — Pergunta a viúva, sem saber ao certo o que pensar.

Ao final da frase, ele levanta já com uma pistola que havia retirado da mochila, a qual não foi conferida por total descuido e com um tiro certeiro, perfura a cabeça do homem que o havia recepcionado.

— Vocês se acham muito espertos, não é? — Douglas pergunta, em tom irônico. — Como podem deixar passar um agente investigativo e uma mochila, pela porta desse local nojento? Agora você vem comigo…

— Acaba de assinar sua sentença de morte, seu verme! — Ela diz, sem demonstrar nenhum sinal de medo ou nervosismo; sabia que o ‘grande irmão’ os vigiava agora e para qualquer lado que fossem, Douglas estava encrencado.

Passaram pela grande porta da sala e agarrando a viúva pelo pescoço, Douglas se pôs a caminhar por um corredor sombrio. Ele havia mudado o caminho pelo qual chegara até ali de propósito, imaginando que estaria livre do grande irmão, mas foi um engano. Toda a casa estava sendo vigiada, e ele temia a morte ainda mais agora.  

— Vou ver você pagar pela sua burrice; ainda há tempo de mudar e ser dono de tudo isso. — Disse a viúva.

— Cale a boca sua louca! Eu não sou um doente psicopata, feito vocês!

O medo ia intensificando-se até atingir um nível quase insuportável de estresse. Ainda assim, o passo seguia firme. Chegaram a um enorme salão, assim que o sinistro corredor teve fim; olhou o redor e percebeu  que além de câmeras, agora, caixas de som estavam em toda volta. Uma voz passou a ecoar e era ainda mais assustadora que a da viúva.

— Você é um ser ignorante e tolo; eu sabia que não ia adiantar de nada falar a verdade, pois sua raça já está cega e dormindo há muito tempo. Seu tio não morreu; eu o matei, e como sabia que você é um provável problema no futuro, vou acabar com sua vida também.

— Quem é você?! — Perguntou Douglas, furioso.

Um senhor surgiu, sendo auxiliado por uma bengala. O passo era vacilante, porém a voz era de um cão raivoso, pronto a atacar.

— Não quero perder mais tempo. Matem ele!

No salão haviam quatro portas e todas abriram, revelando homens fortemente armados com fuzis e metralhadoras. O som foi estarrecedor e as balas perfuraram todo o corpo de Douglas. Ele caiu, ao mesmo tempo em que fitou o rosto do homem que nunca ia saber quem era, mas que imaginava comandar muita coisa. Um ser inescrupuloso e que fazia qualquer coisa por poder e luxo. Enquanto Douglas ia apagando para seu sono eterno, um pensamento lhe ocorreu: talvez a vida seja tão vazia e tão sem graça para muitos, pois o que temos muitas vezes, é exatamente o que esse tipo de gente monstruosa deseja. O que temos muitas vezes, são mentiras e a podridão de grupos corruptos e marginais, que ninguém vê o rosto, mas que controlam e ditam as regras do mundo.  

O silêncio tem um poder inimaginável e ao sair da sala, o homem e a viúva comemoraram, dando vida longa à Ordem Fantasma dos 13. Aquele que conhece a verdade, muitas vezes perde a liberdade, pois a liberdade e a verdade, juntas, confrontam muitos interesses e o que acontece em uma sociedade fantasma, permanece nela.  Um mundo paralelo, no qual pessoas saem para fazer compras ou lanchar e ali próximo pode existir uma pessoa ou um grupo, que comanda e controla, sem que ninguém se dê conta disso. Parece um pensamento distante, porém o mais assustador, é que pode estar mais próximo do que imaginamos.            

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Informação

Publicado em 9 de agosto de 2021 por em EntreMundos - Monstruoso Mistério Aternativo.