EntreContos

Detox Literário.

[EM] O lugar da adaga (Lobo Mau)

Preciso contar, dividir, e espero que vocês me digam que não aconteceu, que foi um pesadelo, um delírio, e quem sabe eu acredite. Vou começar pelo dia perfeito, leve e claro, uma quinta-feira, o primeiro dia do recesso entre os semestres da residência médica. Folga muito esperada. Eu ficaria na cama, ociosa, entre livros e filmes. Esse era o plano. Aconteceu, entretanto, que fui tomada por uma saudade inquietante do lugar onde nasci. Então resolvi visitar minha mãe. Ela já me cobrava isso havia sete anos e com mais insistência nos últimos meses. Viajei durante a noite até a capital do Amazonas. Ainda na madrugada de sexta-feira, peguei o barco para Vila Prata, comunidade ribeirinha na floresta. Nas primeiras horas da manhã, eu já reconhecia o ar úmido com cheiro de mato. Desci no velho trapiche e caminhei pelas ruas de terra sentindo olhares em mim. Cumprimentei conhecidos, gente que me viu menina. A casa da minha infância fica no final da primeira rua. É alta para suportar as cheias, como são as outras da beira do rio. Minha mãe estava à porta me olhando com rugas bem marcadas na testa, um lenço branco na cabeça, um vestido estampado e pés descalços. Não avisei, mas creio que ela já sabia da minha chegada. Subi os degraus de madeira e nos abraçamos. Abraço apertado e cheio de força. Ela nunca mediu esforços para me possibilitar estudo na cidade, mas ficou sozinha. Não tenho pai vivo ou irmãos. A casa pouco mudara. A figa de prata,  símbolo de proteção, ainda estava presa à janela da frente. O povo dali sempre temeu algo misterioso, de vida noturna, que vivia nos arredores. Essa ameaça ganhava formas monstruosas na minha imaginação, mas eu nunca havia visto nada de assombroso, até aquele dia.

Conversamos, eu e minha mãe, sobre a vida na cidade, meus planos e sonhos. Ela cozinhou pupunhas e colheu capim-santo para o chá. Os odores trouxeram lembranças e nós lanchamos falando do passado. Eu fiz a pergunta recorrente:

— Por que a senhora não vem morar comigo, mãe?

— Ester, este é o meu lugar — ela respondeu, esfregando os pés no assoalho.

A conversa escorregou pelas horas do dia. A noite chegou com chuva fina.

— É a saída da lua — observou minha mãe.

Fechei os olhos para reconhecer os sons. Pios, zumbidos, assobios, o vento chacoalhando galhos, os pingos no telhado. Talvez a saudade fosse dessa quietude cheia de sussurros.

Estávamos deitadas em redes atadas na varanda quando um homem se aproximou do portão. Baixamos as beiradas das redes.

— Quem é, mãe?

— O Geraldo.

Ele gritou:

― Dona Jeca, vim pedir pela Severa. Ouço gritos dela desde cedo, e a criança não nasce. O parto complicou.

Eu não poderia ignorar o pedido de socorro. Não dormiria. Precisava dar uma olhada na parturiente, afinal, estudava obstetrícia. Tinha lembranças do seu Geraldo, era do grupo da minha mãe, de reuniões e rezas. Coloquei algum material na maleta e entrei no carro. Era um modelo antigo, vermelho, barulhento. Seu Geraldo tentou me fazer lembrar da Severa. Eu só me lembrei da mãe dela, já falecida. Chegamos numa casinha de madeira sem pintura. O entorno era escuro e lamacento. Logo ouvi os gritos da mulher. Senti o vento frio e pensei que deveria ter pego um agasalho.

― Severa, abre a porta. Chegou ajuda, uma médica. Abre mulher ― disse o seu Geraldo por perto da janela fechada.

Só quando eu pedi, ela abriu a porta. Seu Geraldo não entrou. Severa estava nua, com a pele do rosto avermelhada e suada, cabelos cobrindo os seios. Largou-se no chão forrado de panos e entre um gemido e outro, ela disse:

― Tem uma adaga ali em cima.

― Vou examinar você. Se for preciso, vamos para o hospital.

Disse isso só para acalmá-la. O hospital mais próximo ficava a horas de barco.

― A adaga ― ela gritava.

― Severa, nós duas precisamos ficar calmas. Eu tenho uma tesoura para o cordão, não se preocupe. Agora você precisa me ajudar, use essa força para empurrar.

― A adaga — ela insistia.

Ela apertou meu braço. As duas mãos estavam atracadas no meu pulso direito. As unhas roídas, os cantos sangrentos. E ela só gritava: adaga, adaga, adaga.

Uma mulher em surto psicótico e em trabalho de parto. Eu jamais poderia imaginar tamanho desafio. Ela continuava:

― A adaga, pega.

— Concentra na força, Severa. Respira e empurra.

Puxei meu braço até soltá-lo. Com os dentes cerrados, ela prosseguia repetindo a mesma palavra. Fiz manobras para estimular contrações e posicionar o feto, enquanto gotas de suor gelado brotavam no meu rosto. Enfim, aparei a criança. Um menino perfeito. Verifiquei os sinais da puérpera. Mãe e filho estavam bem, ela quase desacordada e ele quieto. O pior havia passado, mas deixar um recém-nascido com a mãe em franca doença mental não seria sensato.

— Escuta, Severa. Seu filho é saudável, mas precisa de cuidados. Ele vai comigo e voltaremos logo.

Ela ficou indiferente, apática. Enrolei o pequenino num pano grosso e saí.

― Seu Geraldo, tem alguém na vizinhança que possa ficar com ele?

― A mãe morreu? — ele perguntou com o rosto trêmulo.

― Não, não, ela vai ficar bem. Tá desorientada, precisa de um tempo pra descansar. Depois volto aqui.

Entramos no carro e seguimos pelo caminho esburacado.

― O senhor sabe do pai? ― arrisquei perguntar.

― Ninguém sabe.

― Ela tem parentes?

― Não. Depois que perdeu a mãe ficou sem proteção.

— Pra onde vamos? — perguntei.

— Pra minha casa.

Não me recordava da mulher dele. Imaginei uma boa senhora de braços esticados para aninhar o bebê. Olhei para o rostinho do inocente, deslizei os dedos nos poucos fios de cabelo. A pele era morena, os traços bem feitos, olhos redondos, vivos, negros; e um ar de sorriso nos lábios.

O farol do carro iluminava uma curta distância do caminho, o resto era breu. A lua estava encoberta. Ainda chovia leve. Balancei a cabeça para esquecer as dificuldades do parto. O carro se arrastava.

― Seu Geraldo, por favor, acelere.

Olhei para ele. As mãos apertavam o volante, os ombros estavam levantados e o pescoço projetado para frente. Os olhos arregalados e a boca travada. Parecia uma estátua de barro rachada.

― Deixe que eu dirija. Passe para o meu lugar e segure o bebê.

Ele ficou calado e me obedeceu, saiu para dar a volta pela frente do carro. Eu acompanhei seus movimentos vagarosos e percebi que o corpo arqueava. Outro para acudir esta noite, pensei. Ajeitei a criança no banco ao lado e saí para ajudá-lo. A lua jogou luz no caminho, mas eu não o via mais. Não havia nada além de terra e árvores.

― Seu Geraldo, onde o senhor está? — passei a gritar seguidamente.

Voltei ao carro. Procurei uma lanterna no porta-luvas. Não encontrei nada além de papéis e de uma faca pesada. Eu precisava seguir sozinha. Meu coração batia rápido, mal coordenado. Fiz a volta no carro. Só pensava em minha mãe. Ela saberia o que fazer. Pisei fundo no acelerador. O motor roncava e pouco respondia. Olhei pelo retrovisor, só escuridão ficava para trás. Busquei coragem na imagem do bebê. Eu via muitos recém-nascidos na maternidade do hospital, nenhum tão bonito. Seus olhos acesos não descansavam. O carro seguia o ritmo vagaroso. Finalmente vi que minha mãe estava na varanda.

— Mãe, o seu Geraldo…— gritei da janela do carro.

— Ele passou correndo por aqui, o covarde.

— É filho dele, mãe?

— Já não duvido de mais nada — ela respondeu.

— Vou acomodar a criança aqui e voltar pra ver a mãe.

— Já tem gente com a Severa, ela vai melhorar. Traga logo o menino. Eu cuido dele.

Ela carregou o bebê e me mandou descansar. Eu precisava mesmo. Agradeci aos céus por não ter acontecido algo pior. Imaginei o óbito da mãe ou do neonato. Os pensamentos doíam.  Enfiei a cabeça embaixo da água fria. Tomei analgésicos e fui para a cama. Devo ter dormido um pouco. Despertei com barulho de louças batendo. Levantei e vi um pouco de luz vindo do outro quarto. Olhei da porta entreaberta. Minha mãe estava de pé e nosso hóspede na cama. Ele pedalava e agitava os bracinhos. Fiquei observando quieta e com um sorriso de alívio, que se desfez quando vi brilhar na mão de minha mãe algo metálico. Num movimento brusco, ela levantou uma adaga e cravou no peito do menino. Um grito pavoroso saiu de mim e se misturou ao uivo de um lobo.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 9 de agosto de 2021 por em EntreMundos - Monstruoso Mistério Aternativo.