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Detox Literário.

O chapéu de passeio do meu avô – Conto (Regina Ruth Rincon Caires)

Naquele último mês, na vila não se falava em outra coisa. Desde que a notícia chegara através do serviço de alto-falante, tornou-se a motivação da vida de todos os moradores.

E não era para menos… A vila havia sido emancipada há pouco tempo, alçara à categoria de município, o primeiro prefeito eleito ainda governava, e agora receberia a visita de uma ilustre candidata à assembleia legislativa do Estado. Se tudo isso, tão novo, tão diferente, já era motivo suficiente para tanto burburinho, imagine uma mulher candidata em pleno início da década de 1960! Fugia muito dos costumes…

Os moradores, assim como as autoridades, tiveram um tempo generoso para cuidar dos detalhes, dos preparativos do evento. A loja de tecidos do Seu Pereira faturou como na época das festas natalinas! As mulheres, cuidadosamente, escolhiam os tecidos e modelos dos seus vestidos, das roupas das crianças, e dos calçados. Os velhos ternos saíram das malas, foram arejados, meticulosamente escovados e passados a ferro. Tudo deveria estar pronto para o grande dia.

Meu avô usaria o seu único e velho terno. Com este terno ele ia a casamentos, batizados, velórios, missas, terços, enfim, era a vestimenta oficial para os grandes acontecimentos da vila. E chapéus, ele possuía apenas dois de feltro e um de palha. O de palha era o que usava na lida diária com os cavalos que puxavam a charrete, instrumento da sua profissão. Usava-o no corte do capim colonião, na escovação dos animais, no corte da crina, dos cascos… Um chapéu de feltro um pouco descorado era seu companheiro diário no trabalho como charreteiro da vila. Agora, o outro chapéu de feltro, que não era novo, mas muito bem cuidado, fazia parte da indumentária única de passeio. Complementava o traje de gala, ou seja, o terno único. Era o chapéu de passeio.   

No sábado, véspera do tão esperado evento, o som do alto-falante, que ia ao ar três vezes por dia, trazia na voz eloquente e animada do locutor, a grande expectativa e convocava cada morador a se tornar um integrante da comitiva que faria a recepção da candidata. E todos os moradores se orgulhavam por isso.

A candidata, da qual me recordo apenas do primeiro nome, Conceição, morava em um município-polo interiorano, era de família tradicional, estudada. Educada para seguir na carreira política. Uma senhora de visão, como se dizia na época. Somado a toda essa expectativa estava o meio de transporte que seria usado para a chegada da candidata. Ela desceria na vila a bordo de um helicóptero! Imagine uma vila encravada no interior do Estado, aonde a energia elétrica acabara de chegar, aonde todas as estradas que lá chegavam e que por lá passavam eram de terra batida, e que possuía, como único meio de comunicação direto com a capital diariamente, o rádio, que acontecimento seria para seus moradores poderem ver de perto um helicóptero! Se os adultos sonhavam com isso, avalie como ficava a imaginação das crianças! Nem mesmo avião cruzava pelos céus daquela vila, e qualquer outra coisa que voasse e que não fosse pássaro, inseto ou pipa, fazia parte apenas do imaginário da grande maioria das pessoas que ali vivia. Eu, particularmente, aguardava aquele domingo com a mesma ansiedade que esperava o dia de Natal para comer peru assado e tomar guaraná.

A praça da matriz, onde o helicóptero pousaria, era formada pelo quarteirão central da vila. Um quarteirão enorme que formava um grande retângulo. A igreja matriz ocupava uma parte da lateral mais estreita, era uma igreja bem acanhada, muito simples. Na lateral oposta ficava um barracão de madeira coberto de telhas comuns, local onde aconteciam as quermesses, as festas domingueiras, as festas juninas, os bailes populares, as apresentações de sanfoneiros, violeiros, cantadores. Nesse barracão a candidata seria recepcionada e ali ficaria um tempinho antes de acontecer o comício. Esse barracão era imenso. Ocupava toda a extensão dessa outra lateral mais estreita, oposta à igreja matriz. Numa das extremidades ficava a cozinha com paredes de tábuas, que abrigava, no centro, um grande fogão de lenha, rodeado por jiraus de madeira com várias torneiras, e muitas prateleiras. Nesta cozinha era preparada e armazenada toda a comida dos eventos.

Formando o retângulo da praça, uma das laterais maiores abrigava uma figueira imensa, viçosa, e que mesmo com o sol a pino, conseguia cobrir, com sua sombra generosa, parte da rua de pedregulhos, e que oferecia uma área sombreada ainda mais generosa para a praça, onde as crianças podiam jogar futebol, bolinhas de gude, queimada… Ali, naquela sombra, eu passava boa parte dos meus dias.     Ainda na sombra da figueira, na divisa da praça com a rua de pedregulhos, havia bancos rústicos feitos de caibros e vigas de madeira, e neles os mais velhos costumavam sentar para se refrescarem durante todo o dia, até o sol descer por completo, e à noitinha eles abrigavam os casais enamorados.

Na outra lateral maior, que fechava o retângulo da praça central, não havia nada. Apenas a terra vermelha, sem grama, sem calçada, juntando-se à área da rua principal, esta com pouco cascalho e muita terra solta. Por este lado seria finalizado o pouso do helicóptero que traria a candidata. A notícia da ilustre visita se espalhou até mesmo pela zona rural, então era esperado um público numeroso, quase como acontecia na Sexta-feira Santa.

Domingo. Ainda escuro e a cama parecia ter espinhos… Eu não tirava os olhos das frestas da janela de duas folhas que havia no meu quarto. Esperava ansiosamente que a claridade do dia emoldurasse o batente. E enfim, clareou… Pulei da cama, nem conseguia encontrar os chinelos tateando o chão com a sola dos pés. Quando consegui calçá-los corretamente já havia saído do quarto, atravessado o corredor e chegado à cozinha.

Minha mãe, madrugadora, que também ansiava pelo acontecimento do dia, havia coado o café, fervido o leite e a mesa estava posta. Eu estava com uma fome danada, mas fiquei contrariada por ter que me sentar e tomar café como sempre. Queria ganhar a rua o mais depressa possível, mas também avaliei que o dia seria longo e intenso, e que eu precisava forrar o estômago para aguentar a maratona. E me sentei… E comi… Quero dizer, engoli. Nem me lembro de como me vesti naquele dia, do que vesti, do que calcei, mas me lembro da alegria que senti quando, enfim, ganhei a rua.

Era ainda muito cedo mesmo, minha mãe estava com a razão quando argumentou que eu deveria comer com calma. Tudo ainda ia demorar. Subi pela rua principal, aquela que passava ao lado da praça, do lado oposto da figueira. Apenas a padaria estava aberta, e o cheirinho do pão assado saindo do forno era um agrado para qualquer olfato, mesmo estando com o estômago saciado como eu. Não havia qualquer criança por ali. Tudo quieto, muito quieto para o meu gosto. Certamente as outras crianças resolveram ouvir os argumentos de suas mães. Tudo ainda ia demorar.

Faltando um quarteirão para chegar à praça, já era possível ouvir algumas vozes, e aí apertei o passo. Estava ansiosa para ver o que estava acontecendo. Na esquina da sorveteria parei para respirar. A pressa com que caminhei, misturada com a ebulição de ânimo que a espera ocasionava deixaram-me ofegante. E na praça, tudo calmo. O movimento das pessoas chegando para a missa das sete ainda era lento. Apenas no barracão, que seria o centro das atenções, onde aconteceria o comício num palanque improvisado e erguido do lado de fora, havia algumas mulheres fatiando a mortadela. Mortadela que seria usada no recheio dos sanduíches a serem servidos aos moradores que viessem recepcionar a ilustre convidada. Eram dezenas de peças roliças de mortadela a serem cortadas, e os rolos ainda estavam amarrados com barbantes reforçados, como aqueles rolos que eu sempre via dependurados na venda do Seu Chico.

A fornada dos pães encomendada pela prefeitura estaria pronta por volta das oito, e então os pães seriam cortados ao meio, um a um, recheados com as fatias de mortadela, e os sanduíches seriam cuidadosamente colocados em imensas bacias de alumínio, cobertos com toalhas de mesa até serem distribuídos aos moradores. Era sempre assim em todas as festividades. E tudo tinha um gosto tão bom!

Para beber, como sempre, seria servido refresco de groselha. As mulheres já providenciavam vários caldeirões e várias panelas imensas cheias de água. Ficavam ali, tampados, e após o preparo dos sanduíches, os muitos litros de licor de groselha mais o açúcar eram despejados nos recipientes com água, misturados com grandes conchas, e depois o refresco era servido em canecas de alumínio. Não havia copo plástico, não existia nada de plástico. A vila desconhecia a palavra, o material “plástico”, e até hoje não sei se era apenas a vila, ou se ele ainda não existia. Fui conhecer o plástico algum tempo depois…

Durante a comilança, uma equipe de mulheres ficava na cozinha do barracão com a tarefa de lavar as canecas que eram devolvidas pelos moradores conforme iam se fartando. E todo esse processo acontecia de maneira calma, sem pressa, sem tumulto. As pessoas eram ordeiras, mansas, extremamente generosas.

Não demorou muito e as badaladas do sino da igreja ecoaram. Era o aviso de que a missa das sete ia começar. A missa das nove fora cancelada em virtude do evento. Eu sabia que se fosse para a igreja e acompanhasse a missa, a hora passaria mais rapidamente, mas não me animei. Queria ficar ali, perto do barracão, e acompanhar todo o movimento da chegada dos moradores.

Os primeiros que chegaram foram os da zona rural. Famílias inteiras eram transportadas em carrocerias de caminhão, em carretas puxadas por tratores, em carroças, em charretes, e muitos homens chegavam montados a cavalo. Todas as pessoas chegavam vestidas em suas melhores roupas, trajes domingueiros, e com certeza muitos pés reclamavam do castigo dos calçados novos, do couro duro e ainda não amaciado pelo uso. Mas valia a pena!

A essa altura, os bares já estavam abertos, principalmente a sorveteria que ficava na esquina da praça. Ali as mulheres e crianças refestelavam-se! Era um sorvete de palito atrás do outro. Só se escutavam as vozes desesperadas das mães preocupadas com os pingos de sorvete nas roupas domingueiras das crianças. Afinal, a festa começaria dentro em pouco, e se não se cuidassem chegariam a ela com as roupas em estado deplorável! Meus olhos acompanhavam tudo. E meus ouvidos também… Conforme os minutos passavam, o movimento dentro e fora do barracão se intensificava. O sol brilhava firme e pressagiava um dia muito quente, com poucas nuvens, e tudo levava a crer que a sombra da figueira seria disputada por muitos.

As autoridades da vila, na sua maioria, estavam participando da missa prestes a terminar. Na verdade já deveria ter acabado, mas o padre, experiente e acostumado com festividades, com certeza dispensou um tempo maior na homilia, talvez o dobro do tempo que costumeiramente dispensava. O sermão deve ter sido extenso! E agora deveria estar se prolongando nos avisos que são dados ao final do ritual domingueiro. Tudo cuidadosamente estudado para que os fiéis não voltassem para suas casas após a missa, mas para que se juntassem à multidão que se aglomerava na praça.

Meu avô, todo paramentado, chegou. Passei rapidamente por ele, tomei-lhe a bênção, e, de mansinho, deslizei por entre as pessoas.

E a multidão foi adensando… Já passava das nove horas, a chegada da candidata estava prevista para as dez, portanto, a expectativa ia crescendo na mesma proporção em que a praça ia sendo tomada pelo povo.

De forma generosa, os sanduíches começaram a ser distribuídos, principalmente para aqueles moradores que vieram dos sítios em redor da vila. Bastava pedir para qualquer pessoa da equipe que estava na cozinha do barracão, e seria prontamente servido. Eu não sentia fome alguma, apenas uma ansiedade galopante que formigava todo o meu corpo. Faltava pouco…

Na vila a força policial era ínfima. Não havia necessidade de muito aparato, as pessoas eram tranquilas, não havia perigo nem violência. Eu me lembro de dois milicos que ajudavam em todos os eventos, não mais que isso. E agora não era diferente. Estes nossos dois heróis estavam na praça, cuidadosamente uniformizados, e calmamente explicavam aos moradores que deveriam deixar livre o espaço central da praça para que o pouso do helicóptero fosse possível. Não havia cordões de isolamento, nem delimitações da área do pouso. Tudo era organizado apenas com o pedido do famoso “um passinho pra trás”. E as pessoas atendiam… Formou-se, então, uma enorme clareira no centro da praça, espaço suficiente para o pouso da aeronave.

Finalmente, dez horas… Na praça, a multidão toda olhava para cima. As mulheres e crianças usavam as mãos em conchas como toldos para os olhos, e fitavam o céu. Para os homens era mais simples. O uso sistemático dos chapéus, alguns com abas generosas, evitava a claridade excessiva que incomodava os olhos, ofuscando a vista. E as cabeças estavam todas jogadas para trás, os rostos expostos ao sol, e os olhos procurando avidamente o objeto voador que traria a candidata.

Meu Deus, como doía o pescoço! Se pudesse deitar no chão seria mais fácil, mas não havia espaço. Sentia no meu calcanhar, a ponta do pé do outro morador que estava atrás. Isso mesmo, a multidão era compacta!

Bem perto do palanque, as autoridades estavam perfiladas. O prefeito, o vice, os vereadores, o padre, o juiz de paz, o oficial do cartório, o diretor da escola, o médico do posto de saúde, as esposas e filhos. Todos com suas roupas impecáveis, calçados engraxados e reluzentes, chapéus das melhores marcas. Tudo fora preparado com muito esmero.

E bem perto do palanque estava o meu avô. Orgulhoso, imponente dentro do seu único terno, cuidadosamente escovado e passado pela minha avó, empinando no alto da cabeça o seu chapéu de passeio.

Passei os olhos por todos, eu estava na fileira da frente e via, privilegiadamente, a grande clareira em forma de círculo no centro da praça. De repente um ruído pôde ser ouvido. Era um barulho que se assemelhava à batida de asas de um bando de pássaros. As pessoas, eufóricas, mesmo antes que o helicóptero aparecesse no céu, apenas com o ronco do motor, aplaudiam, sapateavam de alegria.

E ele surgiu… Lá no alto, muito alto, como um pontinho preto no céu… E foi ficando maior, e maior, até que pôde ser visto detalhadamente. Era preto, com duas listras amarelas nas laterais. Fez um sobrevoo do outro lado da praça, acima da grande figueira que se alvoroçou toda. Conforme sobrevoava a figueira, seus grandes galhos se vergavam e balançavam incontrolavelmente, num espetáculo maravilhoso e assustador. Nunca vira nada igual, nem mesmo naqueles terríveis dias de tempestade e ventania! Os moradores estavam extasiados! Aplaudiam incessantemente, as mãos estavam vermelhas e quentes, e os pés incontroláveis.

O piloto fez várias manobras subindo e descendo com a aeronave, encantando os olhos de todos. De repente, subiu, passou bem alto sobre a igreja, e foi baixando lentamente, conforme avançava em direção à multidão.

Como a rua principal estava totalmente tomada pelas pessoas, não sei se o piloto não viu, ou se não foi avisado de que ali havia muita terra solta, a aeronave foi passando sobre a multidão e levantando uma nuvem de poeira vermelha que impedia as pessoas de abrirem os olhos ou respirar. De repente tudo ficou vermelho, só se viam espirais de poeira e chapéus rodopiando no ar.

O piloto, percebendo a situação embaraçosa, subiu novamente com a aeronave, e tentou entrar pela outra extremidade, onde a praça embicava com a sorveteria. Mas, de nada adiantou. Outra nuvem vermelha de poeira se ergueu juntando-se à primeira, e os chapéus que ainda estavam nas cabeças rodopiaram no ar. Foi tudo tão rápido e espantoso que todos ficaram sem ação, não conseguiam raciocinar. As pessoas se agachavam, tentando fugir do vento e da poeira. Nada mais podiam fazer porque o vento era tão forte que não havia como correr.

O piloto fez várias tentativas desastrosas de pouso, ora de um lado, ora de outro, e a praça durante alguns minutos virou uma nuvem de pó, uma bolha vermelha. Eu estava quietinha na linha de frente, agachada e tampando o nariz com as mãos em concha, o que me permitia respirar com certo conforto.

Quando finalmente o piloto pousou a aeronave no centro da praça, e a porta lateral foi aberta, a candidata apareceu e levou um choque com o que viu mais de perto. A praça era o caos instalado. Quem não estava agachado, estava em pé se debatendo e sacudindo a roupa coberta de terra vermelha. Outros, desesperadamente tentavam limpar os óculos para que pudessem enxergar e entender o que havia acontecido. Os homens, assustados e incrédulos, com as mãos na cabeça, tentavam organizar as ideias, os pensamentos, tentavam decidir que rumo tomar, para qual lado sairiam em busca dos chapéus. Havia chapéus espalhados pela praça toda. Eram centenas e centenas… Debaixo da figueira, o chão estava forrado de chapéus, todos cobertos de pó vermelho, e assim, vistos de longe, pareciam todos iguais. O problema é que não eram…

Aí foi o corre-corre. Os homens iam pegando os chapéus do chão, um a um. Cada um dava uma batida com eles nos joelhos para pelo menos enxergar se a cor conferia com o que era seu, colocava na cabeça, caso não servisse, se não fosse a sua medida, jogava novamente o chapéu no chão e saía à cata de outro… Um caos.

De longe eu via o desespero do meu avô. A cabeça descoberta, os ralos fios de cabelos brancos, empoeirados, e a testa grande exposta aos raios do sol brilhava pouco devido a uma pequena camada da terra vermelha grudada pelo suor. Virava de um lado para o outro, nem sabia o que fazer. De repente eu o vi entrar na multidão que catava chapéus, depois, desapareceu das minhas vistas.

A candidata, constrangida, acenava timidamente com a mão em um cumprimento encabulado, mas ninguém prestava a menor atenção. Neste momento, as famílias ajudavam na procura do chapéu do pai, do marido, do tio, do avô… Era um corre-corre na praça que ninguém se entendia!

Os cabelos da mulher do prefeito, que antes da chegada do helicóptero estavam arrumados num grande coque no alto da cabeça, mostrando o capricho da cabeleireira em desfiar os fios para darem mais volume, o cuidado em organizar tudo num belo coque e fixar o penteado com laquê, agora, depois do episódio, estava uma calamidade. O vento excessivo provocado pelas hélices do helicóptero havia desfeito o coque, e as mechas de cabelo, antes desfiadas, se erguiam para o céu como um ninho de guaxe, desfeito. E se isso não bastasse, ela ainda estava coberta de pó. Que cena deprimente, ridícula! O prefeito tentou ajudar passando a mão na cabeça dela por várias vezes para abaixar aquele chumaço, mas foi em vão… Para abaixar aquilo só mesmo lavando os cabelos!

A confusão na praça durou cerca de meia hora. As pessoas estavam desorientadas, decepcionadas, e algumas estavam bem nervosas. Principalmente os homens. Muitos ainda não tinham encontrado o chapéu, resmungavam, praguejavam, e olhavam desconfiados para os chapéus que estavam nas cabeças daqueles que julgavam ter encontrado o chapéu certo.

Ainda não tinha cessado completamente o tumulto quando a candidata iniciou o comício. No palanque, as autoridades não escondiam o constrangimento. Todos estavam num estado deplorável, exceto a candidata que presenciara tudo de dentro do helicóptero. Ninguém ouviu nada do discurso da candidata, nem quando ela passou a palavra para o prefeito, ninguém prestou atenção a nada. As falas foram como monólogos sem plateia. O tino de ninguém estava ali… Ninguém mais queria comer sanduíche, nem tomar refresco. Na boca, a terra vermelha fazia os dentes rangerem.

E o comício acabou… Conforme as pessoas iam descendo do palanque, os dois milicos de uniformes cinzas, agora cobertos de terra vermelha, tentavam abrir espaço para que a candidata pudesse retornar ao helicóptero. Aí, percebido isso, foi uma correria geral. Ninguém queria presenciar a decolagem. Outra vez a nuvem de terra vermelha, o rodopio dos chapéus no ar… E todos corriam em busca de um abrigo, fora da área da praça.

Eu corri para a sorveteria, mas muitas pessoas, como foi contado depois, saíram em tão desabalada carreira que conseguiram chegar às suas casas antes mesmo do helicóptero decolar.

Após a partida da candidata, ainda havia chapéus no chão, e ainda havia homens catando, sacudindo o pó e os experimentando. Enfim, o evento se tornou uma calamidade. Foi tão triste que ninguém mais quis falar sobre isso. Nunca mais se falou no ocorrido. Todos se calaram… E o mais impressionante é que nunca foi comentado se a candidata obteve algum voto na vila ou não. Nada nunca foi falado.

Meu avô, que tanto se preparou para a recepção daquele dia, que teve seu chapéu de passeio arrancado da cabeça pelo vento provocado pelas hélices do helicóptero, um velho português, bravo, turrão, mal-humorado, sistemático, nunca se conformou com o ocorrido.

Na sala da casa dele havia um mancebo de madeira, e ali ficavam o guarda-chuva e seus dois chapéus de feltro: o de uso diário e o chapéu de passeio. Diariamente ele se sentava na cadeira da sala, ao lado do rádio, de frente para o mancebo. Ali ouvia, todas as noites, os programas de rádio. Depois do ocorrido, ele sempre espreitava o chapéu de passeio no alto do mancebo, e falava com a mesma convicção que aquele chapéu, apesar de idêntico, não era o dele.

Durante muito tempo, silenciosamente, continuou tentando identificar o seu chapéu na cabeça de outro morador da vila.

E ele morreu, seis anos depois, sem mudar o discurso.   

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Informação

Publicado às 6 de agosto de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .