EntreContos

Detox Literário.

Manuscritos de um Motorista de Aplicativo, dirigido por (Abel Linklater)

Cena 1

— Nem todo filme precisa começar em movimento. Pode ser brando, desde que ponha o espectador na história.

— Na direita.

— Criar uma ideia de urgência, que prenda quem assiste à cena, é um recurso válido, mas grosseiro, não acha? Aqui?

— Mais na frente. 

— A primeira fala em Uma Odisseia no Espaço, por exemplo, é só no minuto vinte e cinco.

— Aí, obrigado!

— Há toda uma mise en scene. Sergio Leone, então? Já viu a abertura de Era uma vez no Oeste?

— Obrigado pela viagem. 

— Ah, claro! Dinheiro ou cartão?

— Dinheiro, avisei pelo aplicativo.

— Tá certo, só um minutinho. 

Abel abre o porta-luvas, uma série de pertences pulam para fora em desacordo com o interior arrumado do veículo: sacos de salgadinho; um bloco de notas; uma caneta sem tampa, carcomida na beira; lenços de papel amarfanhados. Tateia até apanhar um caixote de madeira, o passageiro consulta o Rolex dourado enquanto mantém a nota de cinquenta dobrada entre os dedos. Abel tira a tampa do que parece um apagador escolar com porta giz, caça uma nota de cinco, dá o troco e agradece.

— Tenta ver os filmes, você vai gostar — Apanha o dinheiro e nota que a tinta do relógio do passageiro está começando a descascar, este murmura qualquer coisa e sai com pressa, batendo a porta do carro e desaparecendo na porta giratória do banco.

— Cagão de merda!

Coloca a nota no apagador, fechando-o com cuidado, só para sentir o prazer de deslizar a tampa no encaixe. Chacoalha a caixa perto do ouvido, as notas poucas e moedas geram um som reconfortante, aproxima ela do nariz. O cheiro de madeira e giz ainda está ali impregnado, assim como as lembranças do antigo ofício e o estresse traumático que o obrigou a trocar o quadro negro pelo carro alugado. Enfia tudo de volta no porta-luvas, suspira e engata para a próxima corrida. 

Cena 2

Sentou-se entre dois bancos vazios marcados desleixadamente com um “x” de fita crepe. Do balcão era possível enxergar a cozinha. Esmaecido no vapor das panelas, o cozinheiro abaixava a máscara antes de gritar ordens às assistentes que, também de máscara no queixo, enxugavam a testa nos braços. 

— Já pediu?

— Coisa rápida, tem?

— Picadinho, filé…

— Picadinho. 

— Bebe alguma coisa?

— Só o picadinho mesmo. 

Antes de cantar o prato de Abel, o garçom atendeu também uma mesa com dois rapazes trajando uniformes de uma companhia de luz. A televisão exibia um programa esportivo.

— Dois parmegianas e um picadinho!

Mapeou pessoas e objetos: as desbotadas paredes azuis findavam num piso branco de rejunte escuro, caixas de garrafas amontoavam-se ao lado do banheiro recepcionado por uma pia que não parava de gotejar. Fotografias penduradas sem muito critério ilustravam pratos e locais históricos da cidade, ambos díspares: do local físico que ornamentavam e do que era servido aos clientes.  Além dos homens da companhia de luz, um casal comia laconicamente enquanto uma senhora, já no final do prato, bebia cerveja no copo americano. Abel apalpou os bolsos da jaqueta, tirou o bloco de notas junto da caneta e escreveu:

Cena do bar

— Vai beber nada mesmo não? — O garçom foi colocando o prato vazio e os talheres sobre a mesa.  Abel afastou o bloquinho para dar espaço. 

— Não, obrigado. 

Serviu também uma salada de folhas murchas com cenoura ralada. Abel rasgou o saquinho de sal, jogou por cima e deu a primeira garfada. 

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O protagonista entra e senta no balcão, o local é sujo e pouco

movimentado, perfeito para negócios escusos. Dois homens em segundo

plano notam sua presença, começam a cochichar. O protagonista pede

uma dose de branquinha apenas aproximando o polegar do indicador,

sugerindo a medida exata que a bebida deve ser servida. A câmera corta

agora para os homens de trás, que começam um diálogo…

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O garçom interrompe novamente a escrita, trazendo arroz, feijão e a carne em cumbucas separadas. Mira desconfiado o bloco na mesa e, por garantia, deixa a comanda rubricada embaixo de um copo vazio. 

— Bom apetite. 

Serviu-se fartamente e passou a tentar captar a conversa entre os rapazes da companhia de luz, entrecortada pelos ruídos da televisão. 

— Japonesa, para ser bonita, tem que ser brasileira! Mais brasileira do que japonesa, né?

— Precisa desse esforço todo pra gostar de mulher?

Abel ri, toma nota:

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Capanga 1: Essa é a encomenda do Osaka.

Capanga 2: É passar o ferro e dar no pé.

C1: Espera ele terminar. Lá fora a gente dá um jeito.

C2: Precisa desse esforço todo para matar um homem?

C1: O sujeito é perigoso, ouvi falar.

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Encaretou com o que acabara de escrever. Tinha dificuldade com diálogos e, estes, com respostas rebatidas, estilo chanchada, estavam uma verdadeira inhaca. Pensou em Kurosawa, na longa tradição dos gestos e silêncios no cinema. Resolveria de outra forma.

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Um dos capangas aponta com o queixo na direção do protagonista,

o outro concorda meneando a cabeça, o enquadramento volta para

o protagonista em primeiro plano, o copo de branquinha já está

vazio, os dois capangas se mantêm estáticos fora do foco, como

duas sombras à espreita. Uma moça senta ao lado do protagonista,

olha para ele e volta-se para o garçom pedindo um drink, ‘mais uma

chefe?’, o garçom pergunta enquanto serve a moça, ‘A conta’,

‘Dinheiro ou cartão?’, esfrega o polegar e o dedão sinalizando que é

dinheiro. Um dos capangas em segundo plano levanta a mão para

ser atendido, a silhueta do garçom aparece desfocada, atendendo-os,

enquanto o protagonista (enquadrado do tórax para cima), parece

que vai apanhar a carteira, mas na verdade saca a pistola debaixo

da camisa e apoia no balcão; o garçom oculta a vista dos capangas.

A moça toma um susto ao ver a arma, se levanta rapidamente, mas,

antes de partir, engole o drink e sai apressada. Um dos capangas

se levanta afoito com o movimento, o protagonista gira com

precisão no banco e acerta dois tiros certeiros. Gritos, correria, o

protagonista gira novamente para o balcão, coloca uma nota de

cinco embaixo do copo e vai embora do estabelecimento, saindo

do enquadramento. A câmera se mantém estática.

Sobre a parede salpicada de sangue, aparece o título do filme.

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A empolgação pelo trecho o faz parar de escrever. Não tem nome, ainda, mas sabe que surgirá, tem a certeza de que o filme ficará do caralho. Bate a caneta no papel antes de trocá-la pelos talheres e, finalmente, comer. 

A conversa dos rapazes da companhia continuava animada, o casal lacônico deixou o estabelecimento sem rastros e a senhora, já de prato vazio, economizava o restante da cerveja no copo. O garçom trocou para um canal de notícias sensacionalistas.

— Que isso, sou homem até debaixo d’água rapaz.

— Então não disfarça que a dona Sayuri te dá mole. 

— Não dá.

Abel olhou de canto, ainda atento ao diálogo. O rapaz encarou o interlocutor, deu um gole no refrigerante.

— Cê tá com medo, só porque ela é encarregada. Aí fica inventando desculpinha. 

— A gente até já saiu. 

— Filho da…

— Mas — Deixou o dedo em riste — onde se ganha o pão, não se come a carne!

Ambos riram e seguiram cochichando sobre Sayuri, mas o esganiçar do apresentador na televisão impedia entender o restante da conversa. Abel finalizou o almoço, limpou a boca e largou o guardanapo amassado em cima do prato. Na hora de pagar, a atendente do caixa olhou intrigada para a comanda. 

— Não vai beber nada? Uma dose?

Abel olhou para as prateleiras repletas de garrafas de bebidas alcoólicas. 

— Um cafezinho, para viagem. 

Aos golinhos, já no carro, releu satisfeito as anotações do seu roteiro. Teria, contudo, de arrumar algumas conveniências: o garçom tapando a visão dos capangas no momento exato que o protagonista saca a pistola, por exemplo. Arrematou o café e amassou o copinho entre os dedos. Odiava coincidências nos filmes e, fora da ficção, sabia que elas não apareciam para salvar o dia, resolver seus problemas.

Enfiou tudo no porta-luvas, deu partida e voltou a circular.

Cena 3

— Eu queria dirigir filmes, não carros, claro, antes que você faça alguma piada. 

Um largo sorriso feminino se abriu do banco de trás. 

— Riria de qualquer jeito, tonto.

— Essa conversa daria uma cena. Tudo dá um filme!

— Vou querer parte nos direitos!

— Enxergo a vida cinematograficamente. Até tento dirigir como se conduzisse uma câmera, com charme e leveza. 

— Sua mão de fada fez Letícia dormir, senhor diretor.

Pelo retrovisor, espiou a bebê na cadeirinha que dormia de boca aberta, a chupeta a ponto de cair. Sorriu.

— Igual você quando te levei no cinema pela primeira vez, lembra?

— Abel. 

— Era um filme independente, argentino. Não te culpo.

— Por favor. 

— Aquele cinema já estava perigando falir, agora com a crise, capaz de ter fechado de vez. Bora passar em frente? É perto daqui.

—De novo esse papo? Achei que tinha superado, por isso te chamei.

— Desculpa, é difícil. Nós dois, tudo aquilo, foi importante… 

Um homem pediu para limpar o vidro no farol vermelho. Abel negou, mas lhe deu algumas moedas que retirou do apagador. O pedinte gritou um “Deus lhe abençoe” e ao notar o bebê dormindo no banco de trás, pediu desculpas pelo barulho. O carro rodava com maciez nas ruas do centro e a cidade, no final da tarde, estava com um aspecto tranquilo, incomum em outros tempos. A mulher se ajeitou no banco de trás, olhando a janela.

— Tudo vazio, é até estranho.

— Pois é Mariana, só tá saindo quem precisa. 

— A escola tem voltado aos poucos, mas vou ficar guardada ainda por causa da Letícia. 

— Seu marido está trabalhando?

— Em casa também — respondeu sem tirar os olhos da rua. 

— Pronto, olha lá! Do seu lado mesmo. 

— O quê?

— O cinema, boba. Faz tanto tempo assim que esqueceu, é?

— Não acredito que você mudou o caminho…Nossa! De dia, assim, com as portas fechadas, parece tão diferente. Não ia reconhecer nunca.

Abel desacelerou para verem melhor o pequeno prédio cheio de pichações, lambe-lambes e anônimas mensagens de socorro. Uma mulher sentada no degrau da entrada anunciava máscaras estampadas, dispostas em um expositor. Pelas grades vazadas, era possível ver a bilheteria e a bombonière despovoadas no interior escuro da construção.

— A cidade é outra durante o dia, assim como nos filmes.

— São Paulo é sempre feia. 

— Depende de quem filma, na verdade. A Nova York de Scorsese não é a mesma de Woody Allen, o mesmo vale pra cá. 

— Você ainda gosta dos filmes desse merda?

Pararam em outro farol. Abel virou-se para encarar Mariana nos olhos, depois Letícia, e falou baixinho, em tom de ameaça.

— Se tiver falando do Scorsese, mando descer do carro agora, com criança e tudo.

Ela riu da brincadeira, o farol abriu e ele seguiu falando. 

— Desculpa, a gente pode continuar a rota agora, precisava passar aqui em frente, aproveitei a oportunidade — Mariana sorriu complacente —Te agradeço pela paciência. Vinha aqui direto antes disso tudo, sabe? Para espairecer, sozinho mesmo. No meio da semana, a sala nunca tinha mais do que cinco pessoas, era uma delícia, sentar na cadeira, assistir um filme, foi o que me ajudou a não enlouquecer. 

Abel deu um longo suspiro. Mariana apertou os lábios, tomou coragem.

— Como você está? Digo, agora?

Ele riu, sem graça. 

— Nada bem, mas tentando. 

— Ainda pode voltar para escola.

Ele riu mais alto, Letícia se mexeu na cadeirinha. 

— Eu já fui exonerado, Mariana. Fiz terapia, voltei, mas toda vez que entrava numa sala de aula pensava que tudo podia ser usado como uma arma para me machucar, que o Movimento guardou minha cara e ia aparecer a qualquer momento, que alguém infiltrado de aluno ia me furar com um canivete, uma caneta, sei lá.

— Exonerado? Mas você é concursado. 

— Sabia que dá pra matar uma pessoa com uma caneta?

Mariana aguardava a resposta.

— Eu que pedi. Não iam aumentar o prazo da minha licença, não aguentei — O carro acelerava na avenida livre, Mariana segurou-se na alça da porta — Não dava pra voltar, não tinha mais nada ali, sem os remédios ainda — seguia acelerando — Você não estava mais lá pra mim também. 

— Abel, cuidado! — Um carroceiro atravessava a faixa de pedestres com lentidão, Abel freou a tempo. Letícia acordou, chorando. 

— Desculpa, o carro pode ser uma arma também, não?

A criança começou a espernear ao se perceber presa à cadeirinha. Mariana remediou colocando um desenho no celular. 

— Ela já viu os filmes do Miyazaki?

— Me deixe em casa, por favor. 

Conduziu em silêncio até o destino, apenas o GPS falava eletronicamente nomes de ruas e sentidos enquanto Letícia, agora, soltava sons de felicidade, interagindo com a tela do aparelho. Mariana manteve os olhos pregados na janela até o final da viagem. Pararam em frente a uma casa de portão baixo e jardim frontal. 

— Perdão. 

— Tudo bem, Abel — tentava desprender Letícia da cadeirinha — Promete que vai procurar ajuda?

— Eu preciso, mesmo — A porta da casa se abriu, um homem saiu, foi até o carro, deu boa tarde e pegou Letícia no colo. 

— Troca ela pra mim, só vou tirar a cadeirinha — o marido obedeceu e sumiu com a criança para dentro. 

— Parece um cara legal — Abel tinha a voz embargada, Mariana não reagiu — Olha, se precisar de outra corrida para te buscar no pediatra, ir no mercado, sei lá, qualquer coisa, pode me chamar de novo, tá bom? 

— Fica bem, Abel — e entrou.

Cena 4

Estacionou em frente à escola em que trabalhava. Abriu o porta luvas, pegou o bloco e a caneta.

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Terá um interesse amoroso? Uma perda que o transformará num

matador de aluguel? Evitar a mulher na geladeira, procurar formas de

trabalhar esse ponto, fugir das coincidências, deus ex machinas. Qual

seu trauma? …

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Olhou o portão da escola, estava fechado. Poderia ter sido convocado para dar aula em qualquer lugar, mas caiu ali, onde Mariana caiu na vida dele também, assim como o engano de ter sido confundido por alguém que devia dinheiro para o Movimento. Invadiram a escola para cobrá-lo, alguma denúncia de aluno insatisfeito. Nunca saberia, mas estava plantada a paranoia, para sempre, talvez. Arriscou mais umas linhas, mas a vista turva o fez desistir. Certas coisas são intransponíveis para a ficção, foi o que pensou. Enxugou os olhos, assoou o nariz constipado e enfiou tudo de volta no porta luvas, menos o apagador, que esvaziou em cima do banco do passageiro. 

Arrancou e, antes da escola ficar para trás no retrovisor, atacou o apagador no grande portão, de modo que ribombou na rua vazia, já tragada pela noite. 

Cena 5

Aguardava o passageiro. Horário de pico, homens fantasiados de importância saíam aos borbotões dos prédios, suplicando por um carro.

— Abel?

— Isaque?

O passageiro entrou, acomodou-se calado e, quando questionado sobre o destino, concordou com um murmúrio. Ainda que estivesse com a fuça enfiada no celular e a cara coberta parcialmente com a máscara, a figura não lhe era estranha. A cada farol Abel o observava pelo retrovisor, com um incômodo próximo de ser resolvido. Notou o Rolex, quase todo tomado de prata, com pequenas ilhas de tintura dourada.

— Assistiu aos filmes?

Sobressaltado, o passageiro se atentou ao motorista. 

— Fiz sua corrida uns dias atrás, lembra? Te deixei naquele prédio mesmo. 

O passageiro apertou os olhos desconfiado, como quem tenta se lembrar. 

— Não, não lembro. É tanta gente né? — Voltou-se para o telefone, colocou os fones de ouvido. 

— É sim…

Cena 6

Madrugada, Abel estaciona o carro, apanha o bloco de notas no porta-luvas e deixa o veículo sem colocar a trava no câmbio. Se atrapalha com as chaves, está ofegante, procura trêmulo o encaixe da fechadura. Abre a porta com um empurrão após girar o trinco. Acende as luzes da cozinha, brancas e incômodas, quase hospitalares, há louça na pia e a geladeira zumbi como um inseto velho tentando alçar voo. Precisa de conserto. Espia pela basculante, não há movimento lá fora. Joga o bloquinho na mesa, arrasta a cadeira e senta-se para ler os rascunhos do dia. Tem o corpo inquieto, o calcanhar não para de bater enquanto balbucia o esqueleto do roteiro comendo o canto dos dedos, até chegar no final.  Tomado de urgência, apalpa a jaqueta procurando a caneta para escrever sua trama.

As mãos param: a caneta não está nos bolsos, nem no porta-luvas. Ele sabe. 

A geladeira engasga seu zumbido, uma pequena mariposa aprisionada na luminária luta pela vida, projetando sombras pelo cômodo. Caça um lápis pela casa, volta à mesa, encara o bloco. Põe-se a escrever

Sete linhas, é o que Abel contempla, estoico. As roupas agarradas ao corpo estão imundas, o odor de suor é forte, sente asco. Levanta abrupto tombando a cadeira, ruma para o banheiro, mais apertado que a cozinha, que o quarto, que o carro ou qualquer canto de sua vida onde possa se esconder. Vomita no vaso, arranca as roupas, o relógio prateado, soluça enquanto liga o chuveiro e, de joelhos, deixa a água quente cair nos cabelos e nas costas, tentando se lavar. 

A mariposa finalmente encontra seu destino mortal, caindo em espiral sobre a mesa, ao lado do bloquinho, das linhas últimas que o compõem com letras vincadas no papel.

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Noite, um carro rasga a estrada. Em um enquadramento interno o

protagonista aparenta cansaço, tem as mãos lanhadas, manchas marrons

e vermelhas na manga. A câmera volta para um take externo, em um

plano aberto, o carro para no acostamento, há pouco movimento, o

protagonista desce, abre o porta malas e retira um corpo que desova na

beira estrada.

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Cena 0

Releu realizado o desfecho que acabara de criar para o seu personagem. O celular vibra.

— Pediatra, 14:30? Sem desvios dessa vez!

— Vou falar de cinema o caminho todo!

— Bom que a Letícia dorme…

Abel sorri e, antes de colocar o sinto, acrescenta umas poucas notas ao seu manuscrito.

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Argumento: professor exonerado, cinéfilo, tenta ganhar a vida

como motorista de aplicativo. A partir de suas próprias

experiências cotidianas e traumas, escreve um roteiro para

exorcizar seus demônios.

Pensar no formato. Filme? Curta? Conto?

Título: Motorista de Aplicativo.

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Enfia o manuscrito no porta luvas, a caneta carcomida. Enfim, começa a dirigir.

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Ilustração: Esperando o sinal, Rodrigo Yudi Honda

12 comentários em “Manuscritos de um Motorista de Aplicativo, dirigido por (Abel Linklater)

  1. Elisabeth Lorena
    9 de junho de 2021

    Manuscritos de um Motorista de Aplicativo, dirigido por (Abel Linklater)

    “O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo . O medo me miava. “João Guimarães Rosa

    Olá Linklater. Saudações ao seu mano famoso. Seu conto não precisa de resumo, a sinopse, ou melhor, argumento, que deixou aberta ao final dá conta da atividade.
    Dito isso, vamos às considerações gerais sobre texto, estrutura, personagens, tema, enredo, espaço, tempo e linguagem.
    O texto é bom, estruturalmente traz duas posições de narração, a real e a imaginária, sendo que para os acontecimentos do imaginário, ou na sua língua de cinema, guia de roteiro, fez a opção acertada por uso de itálico. É conto e alcança o tema com os sonhos do protagonista em ser roteirista/diretor de cinema ou Literatura, uma vez que em seu argumento afirma a possibilidade de filme e conto. Perfeito.
    Enredo bem elaborado. Gostei muito. Tempo, espaço e ritmo bem executados. E o ritmo vai criando uma harmonia junto ao tempo e juntos dão conta toda a ambientação do conto. E o ambiente transpassa a ideia de espaço aberto-fechado, indo para os elementos que caracterizam o protagonista interna e externamente: Angústia, ansiedade, desconexão com a realidade, violência urbana e escolar, pânico, solidão e esperança. Olhando de relance, sem conhecer a história por traz de Abel, ele parece apenas um paciente psiquiátrico com monomania. Impressão que é absorvida quando vemos como ele é e está de fato.
    Narrador: Tão bom que quase esqueço que é ele quem está contando o caso.
    Personagem: Um artista em crescimento/incubação que tenta usar um princípio da arte, que chamo amadoristicamente de “exercício da alma”. Através de suas experiências e dores ele vai criando seu texto. Adélia Prado disse uma vez que conhecer o sofrimento cedo a fez “tirar beleza” da dor e, para curar seus traumas, o ex-professor está fazendo exatamente isso.
    Os aspectos psicológicos são delineados através da incursão de passageiros em seu carro, cada um acionando uma memória de dor. A ex-namorada/colega de trabalho retoma o ponto do relacionamento e da agressão sofrida. O desconhecido/conhecido Isaque retoma o ponto da perseguição e o medo do Movimento retoma.
    Mais adiante, quando há a sugestão da morte do passageiro, Freud surge para mostrar, através de Abel, que a experiência artística focada em violência tem relação com o psiquismo e é através do fazer artístico que o ser humano realiza seus desejos inconscientes.
    Pausa para respirar: A cena em que ele sofre depois de mais um instante de crise de ansiedade é antológica. Ao falar do relógio, associando ao sentimento de perseguição anterior e desconfiança do passageiro e posterior sumiço da caneta, fica a impressão que o corpo que ele abandona na sua cena imaginária é na verdade real. A frase “As mãos param: a caneta não está nos bolsos, nem no porta-luvas. Ele sabe”. Só que se realmente perdeu a caneta foi quando lançou o apagador na porta da escola.
    Cena memorável também porque abandonar o apagador aqui tem dupla simbologia. Ele se desliga da escola e da dor da perda da profissão e da mulher amada e, segundo, atirando o objeto na escola pode ser visto também com o contra ataque ao Movimento e ao aluno que ele desconfia que, descontente, o entregou.
    Outro momento alto no texto é posterior à sua chegada ao lar. Vale dizer que quase todas as características de crise de pânico e ansiedade estão postas no texto. Da sensação de perigo à fuga.
    Sensação de perigo: “Espia pela basculante, não há movimento lá fora.” O formigamento pode ser visto no calcanhar que bate e no tremor ao sair do carro. Palpitações e Inquietude: corpo inquieto, dificuldade para acertar a fechadura. Calor, calafrio e sudorese: “As roupas agarradas ao corpo estão imundas, o odor de suor é forte, sente asco”.
    A sensação de aprisionamento e necessidade de fuga acontece também na cena do banheiro e o banho e as lágrimas são a busca da saída do desespero.
    O despersonalizar está ligado ao seu excesso de fuga da realidade. Em nome da arte, mais ainda assim, fuga. Sempre é ele o protagonista das cenas que imagina.
    Não vou considerar o pseudônimo como narrador, mesmo havendo a homonímia já que uma vez aberto o anonimato do Desafio, deixa de constar seu nome. Dito isso, vamos a ele, o narrador. Em sua narração há momentos que fica ao lado de Abel. Por exemplo, quando o passageiro Isaque faz a segunda viagem utilizando o serviço de aplicativo, o narrador diz: “Ainda que estivesse com a fuça enfiada no celular”. Essa fala transparece o sentimento de Abel, que sente a ameaça nas atitudes do passageiro.
    Ainda na narração, há momentos de ouro. Ao substituir uma oração simples por uma metafórica. Em vez de dizer que a passageira sorriu, diz: “um largo sorriso feminino se abriu no banco de trás”. Uma informação lírica! Outra fala traz aos transeuntes uma informação psicológica que lembra a síndrome de pequeno poder. Ao falar dos funcionários do banco, diz que eles são “homens fantasiados de importância”. É uma amostra do encaretamento social, ops, mascaramento. Não deixa de ser uma crítica velada, mas contundente.
    A descrição do motorista como professor se dá antes de dizer claramente, a narrativa dá conta do ambiente típico do profissional do Ensino: “uma série de pertences pulam para fora em desacordo com o interior arrumado do veículo”. Que professor que não leva consigo uma sacola plástica dobrada para levar o lixo para ser dispensado em lugar próprio? Ou não tem a bolsa compartimentada de tudo o que vai precisar um dia. E o porta giz como troca-moedas é o máximo, tanto de informação do profissional quanto da pessoa.
    Quando sabemos que ele é um professor com sonhos de cineasta e que ganha a vida como motorista de aplicativo, a ação de indicar os filmes ganha outra proporção. Professor é que indica livros, pinturas ou filmes e depois cobra do aluno, como ele faz com o passageiro. E mesmo suas conversas desconexas com o usuário do aplicativo faz mais sentido. Que docente não consegue conversar sobre um tema e orientar ou se orientar em outro?
    O que tenho a acrescentar sobre minha percepção do texto? Que gostei mais do que imaginei a princípio.
    Boa sorte no Desafio.

  2. Mauricio Piza (@mtplopes)
    9 de junho de 2021

    O texto é bem escrito e atende ao tema do desafio. A alternância entre o roteiro escrito e as cenas é realmente interessante.
    Como já foi dito aqui, o texto carece de uma maior revisão, principalmente de pontuação.
    Falta um ponto em: “Põe-se a escrever(.)”
    Algumas das expressões soam um pouco forçadas e com escolhas de palavras que são corretas porem deselegentes.
    A geladeira zumbi, já indicada poderia ser: o zumbido da geladeira ou ela zune. “Apanha o dinheiro e nota” pode ser “Apanha o dinheiro e repara” evitando a imagem ambígua na palavra nota.
    “…descascar, este murmura…” pode ser um ponto “descascar. Este murmura”
    “um casal comia laconicamente” soa super estranho… “um casal lacônico comia” ainda vai. Entendo que isso foi para não repetir o lacônico em “o casal lacônico deixou o estabelecimento sem rastros”. “Um casal comia em silêncio” é bem mais direto e condizente com o tom coloquial do texto. Aqui, aliás, se vê bem a imagem estranha se formando na cabeça do leitor: o que é exatamente um estabelecimento sem rastros, ou que rastro que podia se esperar que alguém deixasse em um bar? Eu recomendaria uma limpada geral nessas expressões que parecem ser tentativas de deixar o texto mais “literário”, mas que, na verdade, somam muito pouco na história.
    De resto, parabéns pelo texto e boa sorte!

  3. claudiaangst
    8 de junho de 2021

    Olá, Linklater, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = Roteiro de cinema. O tema do desafio foi abordado com sucesso.

    R = Revisão = poucas falhas
    atacou o apagador > tacou o apagador
    sou homem até debaixo d’água rapaz > sou homem até debaixo d’água, rapaz.
    É tanta gente né? > É tanta gente, né?
    Pois é Mariana > Pois é, Mariana
    porta luvas > porta-luvas
    antes de colocar o sinto > antes de colocar o cinto

    T =Trabalho de escrita/narrativa = Interessante o recurso de inserir pedaços de um roteiro de filme no meio da narrativa. É como se uma história fosse sendo construída dentro de uma outra, resultando em camadas da trama principal. O personagem Abel dirige seu carro e também todas as cenas reais e imaginárias da sua vida. Por meio de diálogos, o texto ganha agilidade e torna a leitura muito fluída.

    E = Então, autor[a] = Leitura agradável, instigante, que nos faz experimentar a sensação de assistir a um filme.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  4. Fernanda Caleffi Barbetta
    7 de junho de 2021

    Olá, Abel, seu texto é bom, tem agilidade, fluidez. Gostei dos diálogos. Personagens bem construídos.
    Muito boa a sua ideia de intercalar a história com a dramaturgia escrita pelo personagem (apesar de nem sempre estar estruturada como texto dramatúrgico, compreendo que eram apenas anotações).

    O final, que acabou sendo um paradoxo… não sei se consegui entender exatamente a sua ideia, a cronologia dos fatos…

    A partir do momento em que aparece Mariana, o conto muda bastante, parecem até dois textos diferentes, escritos em momentos distintos.

    Apenas a cena 1 está no presente. Sugiro padronizar.

    Tem dificuldade com diálogos e escreve uma dramaturgia… ficou estranho isso.

    “Uma moça senta ao lado do protagonista, olha para ele e volta-se para o garçom pedindo um drink, ‘mais uma chefe?’, o garçom pergunta enquanto serve a moça, ‘A conta’, ‘Dinheiro ou cartão?’, esfrega o polegar e o dedão sinalizando que é dinheiro”, aqui ficou confuso o garçom questionar sobre o drink na hora em que a moça pede o drink… tive que reler para entender esta fala.

    “— Um cafezinho, para viagem” – ?
    “vou ficar guardada” – ?

    O carro rodava com maciez nas ruas do centro (vírgula) e a cidade

    “— Desculpa, o carro pode ser uma arma também, não?” – essa fala não soou natural

    atacou o apagador – tacou

    É tanta gente (vírgula) né?

    Nossa, que medo da geladeira zumbi kkkk… só uma brincadeirinha aqui pq li assim e me assustei.

    antes de colocar o sinto (cinto)

  5. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá. Gostei do conto, ou não fosse eu um apaixonado pelo cinema. Por outro lado, já fiz algumas experiências como argumentista e gostei, mas gostei ainda mais de dirigir o que eu próprio escrevia. Há um sentimento de realização pessoal muito forte quando se passa da palavra para a quase-realidade cinematográfica. Vi isso espelhado neste seu conto, no qual um ex-professor trabalha como motorista de um serviço tipo uber, conversando com os clientes sobre cinema e imaginando os seus próprios argumentos. No final é revelado que o argumento era o da sua própria vida e pelo que é comentado fica no ar a possibilidade de tudo não passar de uma alucinação de um esquizofrénico (e aqui já estou a “fazer um filme”, como se diz aqui em Portugal quando algum empola uma situação, levando-a para o campo do hipotético.
    Em termos de linguagem, achei o texto bastante fluído, se bem que tenha alguns excessos de vernáculo que não se ajustam ao estatuto do personagem como ex-professor (pelo menos dos professores que conheço).

  6. Leonardo Philipe
    2 de junho de 2021

    Olá, Abel! Obrigado por compartilhar Manuscritos de um Motorista de Aplicativo conosco ♥️

    Texto eficiente, contempla o tema. A ideia de inserir a escaleta no próprio conto é criativa, ainda que não seja original.

    – PONTOS POSITIVOS: A troca da narrativa é interessante. Para descrever cenas mais amplas, a escaleta, para tratar das questões mais íntimas do protagonista, a prosa.

    Transmite bem as angústias de um homem hétero citadino.

    – CONSIDERAÇÕES: Difícil criar empatia pelo protagonista. A história é ordinária (sem grandes problemas até aqui), porém, carece de uma motivação que não seja tão intimista.

    “sorriso feminino” – Sorriso tem gênero? Não considerei o melhor adjetivo, soa um tanto sexista (a ironia aqui é que combina bem com a voz do protagonista).

    “antes de colocar o sinto” – Não seria cinto?

    É um trabalho bem escrito, tem domínio evidente da gramática, mas por ser tão intimista (e longo), a leitura engasga.

    Parabéns e boa sorte na sua carreira! ☮

  7. antoniosbatista
    1 de junho de 2021

    Ambientação= No tema- Cinema.

    Escrita= Boa.

    Enredo= Tão boa a descrição que eu copiei e colei aqui: Argumento: professor exonerado, cinéfilo, tenta ganhar a vida como motorista de aplicativo. A partir de suas próprias experiências cotidianas e traumas, escreve um roteiro para exorcizar seus demônios.

    Considerações Gerais= Achei a história do cotidiano muito bem escrita, com um mote interessante, o que foi raro neste desafio. Fala de uma coisa que eu também gosto muito que é a construção de um filme, começando pelo argumento, a criação do roteiro, fotografia, enquadramento e tudo mais.

    Boa construção do personagem, excelentes diálogos, também gostei da estrutura, definindo roteiro escrito pelo motorista e a narração da história principal. Um ou dois errinhos não tiram o brilho da obra. Boa sorte.

  8. Regina Ruth Rincon Caires
    30 de maio de 2021

    Manuscritos de um Motorista de Aplicativo, dirigido por (Abel Linklater)

    Comentário:

    Um texto que, quando a leitura acaba, fica aquela sensação de: “li um conto ou vi um filme?”. Que domínio danado pra conduzir uma trama!

    Parabéns pelo trabalho! Confesso que textos deste naipe trazem melancolia, mas são valiosíssimos. A cabeça do autor pode ser louca, mas a do leitor não fica atrás! Pelo pseudônimo, olhe só, imaginei o autor; tentei descobri-lo entre os colegas: Abel é o técnico português do Palmeiras, e Linkliter, por sua vez, é sobrenome de Richard Linklater, cineasta e escritor. Ligando os pontos, conhecendo alguém que aprecia os dois, acho que sei quem escreveu!!! Será?!

    A história do motorista, ex-professor, é tocante. Seus sonhos, a realidade dura, o encontro/desencontro com Mariana, tudo isso prende o leitor. As anotações criadas a partir da imaginação, as ideias pinçadas do cotidiano e reconstruídas no roteiro são curiosas. A realidade (?) me fisgou.

    O autor faz uso de palavras, dentro do contexto, pouco vistas em textos corriqueiros: bloco de notas, caixote de madeira, díspares, lambe-lambes, basculante, lanhadas. O uso de “inhaca” foi diferente. No texto, senti falta de algumas vírgulas, mas não ofuscou o encanto.

    Abel Linklater, parabéns pelo trabalho! Seu texto é muito bom!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  9. gisellefiorinibohn
    28 de maio de 2021

    Gostei muito, muito deste conto! Achei ágil, diálogos naturais e certeiros, a estrutura interessantíssima. É o tipo de conto que a gente lê rápido, flui fácil, prende a atenção. Curti o desfecho também.

    Mas eu gosto de um pouco mais de lirismo, e isso achei que ficou faltando. Mas não é exatamente um problema; entendi que foi sua proposta.
    Uma coisa que me chamou a atenção foi este trecho:

    “assim como o engano de ter sido confundido por alguém que devia dinheiro para o Movimento. Invadiram a escola para cobrá-lo, alguma denúncia de aluno insatisfeito.”

    Achei que você colocou dois argumentos meio incompatíveis aqui. Ou o confundiram com outra pessoa, ou algum aluno insatisfeito fez uma acusação falsa. As duas coisas juntas não fizeram muito sentido pra mim. Mas talvez eu tenha entendido mal; não seria a primeira vez.

    Quanto à parte técnica, é um texto muito bem escrito. Só me saltaram aos olhos algumas falhinhas de revisão, em especial aquelas envolvendo vírgulas (sou a louca da pontuação, essas coisas costumam me incomodar hahaha).

    Aliás, a pontuação é meio peculiar, o que me faz pensar que já sei de quem é este conto! 😊

    Como as falhas não foram consistentes – às vezes estavam certas -, imagino que apenas passaram batido na revisão.

    Vocativos:
    Que isso, sou homem até debaixo d’água rapaz.
    Pois é Mariana, só tá saindo quem precisa.

    Expressões negativas:
    É sim…
    É tanta gente né?
    Vai beber nada mesmo não?

    Aqui passou a falta do hífen:
    e enfiou tudo de volta no porta luvas

    E este “sinto” que deveria ser “cinto”, sinto muito:
    Abel sorri e, antes de colocar o sinto

    Como disse antes, porém, nada disso compromete: é um conto excelente, dos melhores que li até agora. Parabéns e boa sorte!

  10. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: o protagonista é um roteirista amador. O próprio conto possui estrutura de filme.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = O ponto mais alto do conto acaba sendo o mais baixo: de repente (cena 0) tudo deixa de ser real – uma pena, pois o protagonista estava tão verossímil, tão humano, tão real.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é excelente.

    E = Então, autor[a] = Achei o conto muito caprichoso. Para além da virada (cena 0), que alguns podem considerar sensacional, o conto vence pela atenção aos detalhes: a estrutura na forma de filme, em obediência aos auspícios do protagonista; a escolha do título e das imagens; os destaques com itálicos. O protagonista (motorista e ex-professor) é muito real, muito palpável, muito bem construído; senti seu drama, angústia, desespero e solidão (por isso lamentei tanto a possibilidade, levantada na Cena 0, de ele não ser real, de ser apenas um personagem – por que, entrecontista, por que fizeste isso comigo?!). Parágrafos curtos, muitos diálogos, muita ação/movimento tornam o texto muito fluido.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  11. Fheluany Nogueira
    27 de maio de 2021

    O resumo já foi feito pelo próprio autor e pelo comentarista anterior (“professor exonerado, cinéfilo…)

    O pseudônimo me levou a Richard Linklater, um diretor e roteirista de cinema cuja originalidade é um grande diferencial dos demais. Seus filmes tem um aspecto humano, com roteiros naturais e realistas. Assim é esta narrativa aqui, estruturada em cenas e poucos apontamentos sobre emoções, divagações e memórias do protagonista, cenas de ficção e outras do cotidiano do taxista. Ao contrário do esperado, o cinema não traz a catarse desejada.

    O autor mostra experiência na escrita, mas acredito que que o seu público-alvo é pequeno. O estilo é complexo, resultando em uma leitura travada que distancia o leitor da trama narrada.

    A meu ver, o conto tem uma história interessante e uma premissa poucas vezes explorada. Gostei muito do estilo e narrativa. No entanto, a narrativa com flash backs e flash forwards acaba atrapalhando um pouco a percepção do todo.

    No geral, posso dizer que os prós superam os contras, e apesar de não ter me impressionado muito, ainda considero o texto sólido e tecnicamente ajustado ao desafio.

    Parabéns e boa sorte no desafio! Abraço.

  12. thiagocastrosouza
    26 de maio de 2021

    Resumo: Nas palavras do autor: “professor exonerado, cinéfilo, tenta ganhar a vida como motorista de aplicativo. A partir de suas próprias experiências cotidianas e traumas, escreve um roteiro para exorcizar seus demônios.”

    Comentário:

    Linklater, gostei desse curta/conto dividido em cenas. Há mais mostrar do que contar, embora o narrador faça pequenas intervenções sobre o estado emocional do protagonista, tudo acontece com calma. A ideia de um motorista de aplicativo ressentido com o mundo me lembrou TaxyDriver, o que convém já que a arte focada aqui é o cinema, sendo o próprio Scorsese citado na trama. Acompanhamos pedaços desse protagonista que definha a cada cena, até, pelo que se entende, sucumbir de vez para criar a ficção que tanto deseja. Diferente de outros contos, a arte, apesar de alimentada pelo cotidiano do protagonista, não consegue exercer seu papel libertador. Porém, na “cena 0”, ao meu ver, insere mais uma camada de metalinguagem ao conto (já presente pelo fato de ser sobre um motorista que escreve um roteiro), e dá certo vigor e esperança de que, na verdade, o conto todo é uma ficção maior, preenchendo a história de mistérios e incertezas.

    Parabéns e boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.