EntreContos

Detox Literário.

Cores do Caos (Fofoquinha)

Eu vi o nascimento das cores, e elas só nasceram porque eu vi.

Preta e branca não foram criadas, sempre estiveram lá. Quando eu fechava os olhos, era preto; quando eu abria, branco. É fácil de entender. Ninguém se atreveria a criar a ausência, tampouco a totalidade.

Eu estava lá quando Ele criou o pincel cósmico e esfregou as cerdas no próprio pescoço. Daquele ato suicida surgiu a primeira cor: o vermelho; cor que encarnou o desejo. Tinha amor e ódio em seu espectro, dois sentimentos antagônicos que fizeram O Universo rodar. Todas as coisas que surgiram ali, naquela brancura infinita, eram vermelhas. Não foi do barro que veio o homem. Foi do vermelho sangue. Posso provar o que estou dizendo: as primeiras células do embrião são sempre vermelhas, porque o sangue nada tem a ver com a morte. Os povos maias sabiam de tudo isso. Não foi por acaso que eles decidiram adorar o sol.

A última gota de sangue que saiu do pescoço Dele revelou a cor laranja, e foi o brilho do laranja que deu origem ao sol. Até hoje não consigo entender como aquela gota tão pequena e pouco pigmentada foi capaz de gerar tanto calor e alegria. A energia contagiante daquele sol sorridente foi a responsável pela metamorfose da Terra. Porém, até mesmo o sol, esta fonte de felicidade genuína, às vezes chora. As primeiras lágrimas do sol que caíram sobre os continentes fizeram surgir o ouro, que quase cegou os meus olhos com a intensidade inebriante do amarelo.

Todo mundo sabe que a cor amarela enriqueceu a Terra; mas nem tudo é belo no amarelo. Para criar os monumentos da arquitetura suméria, a humanidade precisou aprender a transmutar o próprio suor em ouro. Ele fez questão de ensinar. Afinal, todos os templos e zigurates dourados foram erguidos em homenagem aos filhos e filhas Dele. Todos os imperadores e reis nasceram em palácios amarelos; cresceram sobre o privilégio de um solo dourado. O problema da cor amarela é que ela nunca foi abundante. Poucos a tinham, muitos a desejavam. E infelizmente, na maioria das civilizações, o amarelo das coroas estava apenas sobre cabeças repletas de tirania. Eu fiz questão de intervir naquelas injustiças. Estive presente no pensamento do povo; concedi a esperança necessária para mudar a Ordem das coisas. E a esperança foi a responsável por enaltecer o valor da cor verde.

O que é necessário para imaginar uma realidade diferente? A resposta sou eu mesma. Eu não sou a esperança, mas caminho sempre ao lado dela. Adoro ver os olhos da humanidade sendo preenchidos pela frequência harmoniosa da cor verde; quando isso acontece, as mentes caóticas recebem a coragem necessária para superar as incertezas e seguir em frente. Mas não se engane, não fui eu que criei a cor verde. Ela já estava presente na obra de arte Dele.

O verde surgiu na quarta pincelada cósmica, depois que Ele enfiou o pincel no nariz. As cerdas melecadas depositaram a cor verde sobre o solo da Terra, que foi de onde germinaram as primeiras plantas. São as plantas as verdadeiras donas do verde. Elas sempre foram a materialização da esperança, pois fizesse chuva ou fizesse sol, continuavam crescendo. Antigamente, as árvores cresciam muito mais do que crescem agora. Elas tinham o desejo de tocar os céus para agradecer pessoalmente ao sol pelo dom da vida. Falar das árvores me deixa um pouco nervosa, porque quando olho para o topo de suas copas, vejo a cor que eu mais odeio…

O azul significa tudo e nada ao mesmo tempo. Ele é a cor da ilusão. Artistas costumam pintar esta cor em suas obras quando querem enganar os outros. Eu sei que o céu não é azul, mas mesmo assim, o enxergo azul. Miserável cor da angústia existencial! Também odeio o céu; essa “coisa” indiferente que limita as minhas ideias. Minha imaginação se esvai sempre que olho para o azul, porque eu não consigo me lembrar como Ele criou essa cor. E para afastar essa angústia, eu fecho meus olhos e faço o que sei fazer de melhor: imaginar. Toda vez que começo a imaginar algo, eu enxergo a mais magnífica das cores.

A cor violeta sempre me trouxe todas as respostas que eu precisava. Foi por causa dela que descobri o que é o espírito; qual é a minha missão; e porque estou presa no lado direito do cérebro deste humano. Um dia, ele morrerá; e eu migrarei para outra mente. Graças ao meu espírito, novos quadros em branco serão coloridos pelo pincel cósmico Dele; pois as cores do Caos são eternas, assim como eu também sou. Sem mim, nada teria sido criado.

Porque todas as formas de vida nascem das cores, e as cores, vidas são.

13 comentários em “Cores do Caos (Fofoquinha)

  1. Kelly Hatanaka
    12 de junho de 2021

    Olá Fofoquinha.

    Gostei de seu texto, despretencioso e poético. Eu o compreendi como uma brincadeira, uma rápida provocação e gostei muito.

    Entendi o “Ele” como um deus ou força criadora, algo do tipo, sem, necessariamente, ter qualquer conotação religiosa/criacionista. Poderia ser o Big Bang. Agora, quanto ao narrador, fiquei na dúvida. Seria a vida? Talvez fosse a Arte. Acertei?

    Sua escrita é fluída e agradável, e este, mais um ótimo texto.

    Parabéns.
    Kelly

  2. Elisabeth Lorena
    9 de junho de 2021

    Cores do Caos (Fofoquinha)
    Sobre Texto, estrutura, personagens, tema, enredo, espaço, tempo e linguagem

    Olá, fofoquinha.
    Seu texto cairia como uma luva no Desafio da criação. Aqui não consegui fixar bem o tema, embora sugira ser Pintura. Mas mesmo a título de sugestão. Desculpe minha ignorância.
    Estrutura: bem, de conto não é, embora seja uma história.
    Personagem: Não consigo perceber. Acho que aqui como em outro texto do Desafio um narrador em terceira pessoa ou até um personagem coadjuvante daria conta de dar mais ao texto. Talvez.
    Como disse, tive dificuldade demarcar o tema, embora haja uma citação “au passant” sobre pintores usarem a tinta azul para enganar. Outra informação que poderia dizer sobre arte está em: “Graças ao meu espírito, novos quadros em branco serão coloridos pelo pincel cósmico Dele; pois as cores do Caos são eternas, assim como eu também sou. Sem mim, nada teria sido criado.” Entretanto, como tanto Ele quanto o narrador-personagem não são bem delineados, tenho dificuldade de dizer o que é essa arte desse Ele e assim, não tive como definir seu tema.
    Essa coisa de lilás lembrar alma é interessante, Na minha infância os caixões tinham essa cor. Para mim era cor de uma flor de jardim que já não vejo mais: Hortênsias.
    A linguagem é boa. O tempo é corrido fora de nossa realidade, portanto pode ser considerado como uma experiência de insólito ficcional voltado para a criação. isso porque o narrador-personagem cria sua narrativa de forma segura, aceitando como verdade as interferências mágicas do suicídio Dele e dando ao ambiente narrativo a ideia de que essa criação é parte inerente desse mundo em que vive.
    Boa sorte no Desafio.

  3. Fernanda Caleffi Barbetta
    8 de junho de 2021

    Olá, Fofoquinha,
    Seu texto é bastante criativo e enigmático.
    No meu entendimento, o narrador é a criatividade, mas não entendi muito bem o porquê de a criatividade falar sobre a criação das cores… ok, você escreve o que quiser, mas acho que faltou um sentido nesta sua escolha, ao menos para mim.
    Trechos como “Quando eu fechava os olhos, era preto; quando eu abria, branco” tratando-se da criatividade, ficou um pouco incoerente.
    Dizer que esfregar as cerdas do pincel no pescoço seria um ato suicida foi um pouco exagerado.
    Gostei da forma como falou do azul, a cor da ilusão, que está lá e não está.
    Não encontrei erros gramaticais.

  4. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá. Vou dar nota máxima a este seu texto porque não posso dar 11. Está perfeita a forma elegante e criativa como refaz a Génese do ponto de vista das cores, com alguma malícia à mistura (ainda não me refiz da impressão visual que a criação da cor verde me causou… ). Ao contrário de outros textos que encontro, o/a autor/a criou um texto simples, sem grande subjectividade mas passando uma ideia complexa: as cores têm vida própria e consciência. Um/a autor/a com menos experiência teria começado a divagar no meio do texto, perdendo o leitor num emaranhado de possíveis sentidos. Optando por uma linguagem clara, permite que o leitor se concentre no cerne da ideia.

    • Jorge Santos
      8 de junho de 2021

      (Afinal, talvez possa dar 11… será que dei?)

  5. claudiaangst
    2 de junho de 2021

    Olá, Fofoquinha, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = a criação das cores. Tema do desafio abordado.

    R = Revisão = não encontrei lapsos que me chamassem a atenção.

    T =Trabalho de escrita/narrativa = Linguagem clara, bom ritmo e fluidez. A narradora pode ser a criatividade, ou a inspiração, alguém que estava presente no momento da criação. Um texto curto com um tom poético.

    E = Então, autor[a] = achei um conto competente, mas que não explorou muito o assunto como um conto, ficando com um ar de crônica ou um breve ensaio. A ideia é interessante, mas poderia ter sido melhor desenvolvida como um conto.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  6. Leonardo Philipe
    2 de junho de 2021

    Olá, Fofoquinha! Obrigado por compartilhar As Cores do Caos conosco ♥️

    Estava esperando alguns comentários específicos antes de comentar o seu texto, mas parece que eles não virão por agora; então, bora lá!

    Eu tive apenas uma reação enquanto lia o seu conto: rir. Evidentemente é um texto que não se levou nem um pouco a sério, e é “despretensioso” em relação à escrita, de fato. Porém, parece ter elementos que, aqui na minha terra, chamamos de: “pega besta que se acha muito inteligente”.

    Parece apropriado acrescentar no seu trabalho um sol sorridente, que com certeza saiu do Teletubbies, em um desafio o qual o regulamento cita o cruzamento entre um Cenobita e um Togemon (mas que, no momento das avaliações, adota uma postura de supremacia intelectual). É uma imagem que parece ter sido inserida de caso pensado justamente para gerar piadas que permitissem o autor rir da piada em cima da piada. Quase um Inception, menino!

    – PONTOS POSITIVOS: Parece que você analisou bem o público a quem o texto é destinado, e fez de tudo para agradar!

    – CONSIDERAÇÕES: Há muitos elementos aqui inseridos que requerem um saber prévio, e quando autoras e autores fazem isso, matam a capacidade de interlocução do texto, gerando interpretações confusas, pouco proveitosas para construir relações entre autor e leitor (que é um dos objetivos da literatura), ao invés de pregar e palestrar um intelectualismo que não cabe.

    É um conto que não está dentro dos parâmetros da Academia Brasileira de Letras do Facebook, infelizmente. Seu trabalho é incapaz de proporcionar interações saudáveis, que não sejam baseadas em conflitos vazios e trocas de frustrações.

    Seu texto é horrível para interlocução, chega até a ser inconsequente.

    Porém, parabéns! ☮

  7. Fheluany Nogueira
    30 de maio de 2021

    O texto discorre sobre o significado, a energia das cores, remetendo o leitor ao mundo espiritual. Pareceu-me a tentativa de escrever um mito que explicasse a origem do planeta com Deus usando as cores e estas personificadas.

    O texto é fluido, a leitura é prazerosa, mostra domínio da Língua, mas para que uma narrativa seja considerada um conto, alguns elementos são muito importantes: personagens, narrador, tempo, espaço, enredo e conflito — difíceis de serem identificados aqui. Poderia dizer que há uma pegada muito sentimental, de quem ama a pintura, e que isso atrapalhou o enredo, mas gostei da teoria apresentada.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio! Abraço.

  8. antoniosbatista
    29 de maio de 2021

    Ambientação= De certa forma, no tema, Pintura, ou, Artes Plásticas.

    Escrita= Normal. Correta.

    Enredo= Metáfora sobre a criação do mundo feito através de uma pintura.

    Considerações Gerais= O argumento é bom. Há algumas discrepâncias, porém, insignificantes. Certos detalhes são ilógicos, mas não são ilógicas as metáforas? Elas são aceitas como obras criadas pela imaginação. Você usou pouco mais de 700 palavras, poderia ter estendido mais a sua história, pois em comparação com a Criação Do Mundo pela Bíblia, ficou faltando ainda bastante coisas. O mundo foi feito em 7 dias. ( No início, a Terra era vazia, sem forma, sem cores…) De qualquer forma é um bom Boa sorte.

    • antoniosbatista
      29 de maio de 2021

      …um bom conto. Boa sorte.

  9. Luciana Merley
    28 de maio de 2021

    As cores do Caos

    Um conto sobre a origem das cores e sua relação com algum ser divino.

    Coesão – O tema é claro: a pintura. O que não ficou claro para mim é QUEM narra em primeira pessoa. Uma divindade? Uma parte da estrutura cerebral? Um Espírito? A consciência? A criatividade? A ausência da indicação de narrador, personagens e ambiente tornou o enredo irreconhecível para mim. Desculpe.

    Ritmo – Um texto curto, gramaticalmente bem escrito e que flui com facilidade.

    Impacto – Não posso afirmar que gostei do seu conto pelo fato apontado no primeiro item. Tenho muita dificuldade com textos muito enigmáticos. Penso que o texto poderia ter um narrador-personagem bem definido e assim conheceríamos o mundo em que ele narra. Isso não foi possível. E essa parte da “meleca” ficou muito destoado do restante da linguagem. Desculpe se não compreendi como deveria. Um abraço.

  10. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: há uma associação entre o criacionismo teísta e a pintura.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = achei o conto um tanto proselitista na defesa do criacionismo teísta.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa.

    E = Então, autor[a] = Apesar do comentado no item “R”, a verdade é que gostei do conto. Está bem escrito e realiza de maneira criativa uma associação entre o criacionismo teísta e a pintura, cada cor encontrando uma explicação, significado e origem.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  11. thiagocastrosouza
    26 de maio de 2021

    Resumo: Um narrador, que me parece ser a Criatividade, tece reflexões sobre a origem das cores e seus significados.

    Comentário:

    Fofoquinha, achei o conto bastante despretensioso. O tema do desafio foi contemplado, mas poderia ter sido melhor desenvolvido. Não enxerguei um enredo propriamente dito, mas uma série de reflexões com analogias que não considerei as melhores, não me soaram profundas, não me fizeram levantar a cabeça e pensar sobre o que estava sendo dito no conto. A ideia de transformar algo abstrato em personagem é muito boa, e pode gerar criações promissoras. Há uma sensação de literatura infantojuvenil com mitos cosmogônicos; algumas me vieram à mente: As Cores dos Pássaros, de Lúcia Hiratsuka, e A Raiva, de Blandina Franco e José Carlos Lollo. Em ambas, cores e sentimentos são personificados em favor da narrativa, trazendo temas morais de maneira sutil. Vale a consulta.

    Boa sorte no desafio!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.