EntreContos

Detox Literário.

A Arte Alheia (Esopo Mégaira)

Na ocasião em que um grupo de investidores foi recepcionado para avaliar a viabilidade de assumir a concessão do velho museu da cidade, eu, enquanto funcionário lotado no departamento de cultura do município, integrava a comitiva do poder executivo presente no local. Nos encontrávamos por lá o prefeito, o secretário de educação, o coordenador do departamento e eu. A habitação antiga, que era aberta e faxinada semanalmente, ainda guardava o aspecto de casa de vó, conservando os ares que Dona Valentina gravara na atmosfera da construção do período colonial. O prefeito, esperançoso com a privatização dos cuidados com o local, mal conseguia se conter. Apesar de ser um homem de sessenta e três anos, se mostrava, naquele instante, mais ansioso que criança em véspera de Natal. Expressava, na espera pelos visitantes que chegariam da capital, certa inocência interiorana que, somada às ilusões de uma possível continuidade de sua carreira política, se demonstrava em ares quase juvenis.

Depois de um atraso considerável, o grupo de investidores, único interessado dentro do perfil requerido para a concessão, chegou na frente da velha casa em um sedã preto. Um homem alto, vestindo sobretudo azul-marinho e gravata grená, com ares de superioridade, após quase ignorar as formalidades de saudação à comitiva, adentrou o casarão e foi listando observações sobre coisas que faltavam e detalhes que sobravam. Os comentários eram, sem dúvida, dirigidos a nós, representantes do poder público municipal, mas o investidor falava voltando o rosto apenas para os três colegas que o acompanhavam. Apontou o dedo para uma área externa, contígua à velha varanda da casa, e sentenciou que, ali, mandaria construir um deque em torno de um contêiner, onde comercializaria souvenirs, drinks e outras quinquilharias que eu não saberia listar.

Ao chegar no quarto onde eram guardadas peças de artesanato doadas pela comunidade, alguns quadros chamaram especialmente a atenção do grupo de investidores. Segundo um dos homens, que dotava sua fala de um tom professoral, as pinturas tinham características de determinados movimentos artísticos. Parece que podiam muito bem ser considerados trabalhos pós-impressionistas, cubistas, ou algo assim. Questionando acerca da autoria daqueles trabalhos, os investidores foram respondidos pelo coordenador do departamento de cultura de forma rasa: eram obras ligadas a uma fatalidade, uma tragédia. Relatou o caso, superficialmente, mas omitiu o principal. Em consideração à força do sentimento que desperta em mim tocar no assunto, me senti compelido a detalhar melhor o relato. Na fala, fui bastante sucinto, mas, aqui, pretendo aproveitar as folhas em branco para homenagear devidamente a artista, autora das pinturas.

*

Tudo aconteceu há alguns anos. Na época, Valdelice e Zélio mantinham uma banca na feira de produtores locais. Vendiam leite, ovos e algumas hortaliças. Entretanto, devido à sazonalidade da produção e a outros fatores, que, como não me diziam respeito, nunca tomei conhecimento mais aprofundado, a família passava por dificuldades financeiras. O filho do casal, Emílio, demandava cada vez mais recursos, tendo em vista que já frequentava a escola rural daquele subdistrito. Com o encarecimento da cesta básica, tudo foi ficando bem mais difícil. Dependiam de fatores climáticos, já que a alimentação naquela casa acabava vindo majoritariamente do campo: na divisão do serviço, Zélio cuidava da ordenha, das galinhas poedeiras e de alguns porcos para o consumo, enquanto a Val tomava conta da plantação e fazia queijo, manteiga e doce de leite para vender na feira.

Em virtude do aperto econômico, Valdelice procurou informações sobre um meio de ampliar a renda da família, acabou descobrindo um curso de tingimento e pintura em tecido, ministrado na cidade, e se inscreveu, com a intenção de comercializar guardanapos e aventais na banca da feira. Frequentou o curso, que estava previsto para acontecer em oito encontros, realizados nos finais de semana. As primeiras aulas, como tinham o enfoque do trabalho mais voltado à criação de peças de vestuário, acredito que não tenham empolgado tanto a Val. Mas, quando começaram lições sobre pintura à mão livre e com utilização de material alternativo, lembro da vibração dela ao comentar com a Dirce que, enfim, tinha encontrado algo em que era verdadeiramente boa.

Zélio também alterou o semblante no trato com a companheira a partir das aulas de pintura. Na fase inicial do curso, quando Valdelice aprendia sobre tingimento de tecidos, corte e desenho de peças de vestuário, o companheiro passava a impressão de estar mais empolgado. Dizia que as almofadas e aventais que Valdelice vinha aprendendo a confeccionar venderiam como água na feira. Todavia, após os primeiros trabalhos em pintura, nos quais a Val expressou suas emoções como, segundo ela própria, nunca havia conseguido anteriormente, o homem se fechou. As pinturas eram impressionantes, como puderam certificar, tempos depois, os investidores. E o rosto da artista, a essa época, não deixava ocultar o alívio e a plenitude que sentia produzindo aquele material. Quando mostrou à família o primeiro guardanapo pintado – uma verdadeira obra de arte – o filho vibrou como se estivesse vendo o que realmente estava na sua frente: a inauguração do acervo de uma pintora invejável. Zélio, sem conseguir disfarçar o queixo caído, limitou-se a referir, timidamente, que conseguiriam uma boa soma, sem deixar de expressar, contudo, uma crítica quanto ao detalhamento, à quantidade de tinta, ao tempo que se perderia em produção na escala ideal para comercializar.

Apesar de desfazer, de certo modo, do cuidado dispensado pela esposa, Zélio, no dia seguinte à apresentação da primeira obra, mostrou à família um guardanapo, daqueles em branco que Valdelice tinha adquirido no intuito de adornar, com um desenho feito em carvão. Os traços representavam um homem cabisbaixo sentado sobre uma pedra, ou deveriam representar, pois, segundo relatou o Emílio, lembravam uma aranha depois de uma chinelada. O menino acabou gargalhando da tentativa artística de Zélio. Valdelice, por outro lado, não se divertiu tanto assim. A mulher, em um acesso de raiva, reprimiu severamente a desatenção do marido em sujar de carvão o tecido e a falta de consideração com o material adquirido para ser um produto rentável, tendo em vista as dificuldades financeiras que a família passava.

Se Zélio já havia alterado a postura após os primeiros trabalhos de pintura que a Val apresentou, o atrito relacionado à sua tentativa artística serviu para agravar a rispidez com que tratava a família. Por qualquer motivo, descarregava palmadas e xingamentos no pequeno Emílio. Com Valdelice, não abordava nada além do indispensável. Respondia a perguntas de forma monossilábica e jamais iniciava qualquer conversa. Além disso, passava a maior parte do tempo nos galpões, aparecendo em casa somente para se alimentar e para dormir. Em uma semana em que a feira estava suspensa pois a prefeitura utilizaria o espaço cedido aos feirantes para algum evento diverso, Zélio precisou ir até a cidade para a compra dos insumos e mantimentos semanais. Valdelice solicitou que o companheiro trouxesse mais guardanapos brancos, para estabelecer um bom volume de material para exposição e atender aos pedidos na próxima feira, tendo em vista que sua produção já havia conquistado clientela, gerando encomendas. Ao retornar da cidade, no entanto, o carro não continha mais do que os insumos e mantimentos. Zélio se demonstrou envergonhado, jurando ter esquecido completamente a encomenda da esposa.

Constatando o abalo notável na relação do casal, com as férias escolares do Emílio, Val achou por bem vir com o filho e passar um mês na cidade, onde conseguiria estabelecer uma produção maior de produtos, que já estavam se destacando como mais rentáveis do que os outros que eram comercializados na banca da feira. Para isso, minha esposa Dirce, irmã da Val, arrumou um quarto para que ficassem o tempo que fosse necessário. Nesse período, Valdelice adquiriu, além dos guardanapos em branco, algumas telas, e foi quando trabalhou nas obras posteriormente admiradas pelos investidores, assinadas apenas com o apelido “Val”. Ao tratar com Zélio, mantinha a cordialidade necessária para dividirem a banca da feira semanalmente. Conforme se aproximava o final do período de descanso das atividades de Emílio, foi planejando o retorno à casa da família.

Alguns dias antes da retomada das aulas do filho, Valdelice acordou e correu para  a frente de uma tela. Dizia ter sonhado com uma cobra imensa que avançava voraz, tentando morder-lhe os calcanhares e que, não conseguindo, acabava devorando o próprio rabo. Contou, ainda, que, dentro do círculo formado pela cobra que consumia a si mesma, surgiu um enorme olho grego. A partir da ideia, Val expressou seu trabalho em uma  pintura que eu não conseguiria sequer descrever tamanha genialidade. Disse que faltavam uns retoques, mas que conseguiu transmitir na tela as emoções trazidas pelo sonho. Após aquela descarga de sentimentos para o plano estético, depois de contemplar por longos instantes a obra recém-traçada, a artista chegou a comentar conosco que não se sentia segura em levar o Emílio para casa, que percebia Zélio muito abalado ultimamente – preferia ir até a chácara e constatar como estavam os ânimos do marido, antes de retornar permanentemente com o filho. Me dispus a levá-la até o lugar para que não fosse sozinha, considerando sua percepção sobre Zélio. Assim que aceitou, peguei o carro e fomos.

Passando a porteira da chácara, confesso ter sentido um calafrio (que se repete agora, enquanto relato o ocorrido). O lugar parecia largado há muito mais tempo do que o período de ausência da Val. Estacionei o carro na frente da casa e dei uma buzinada curta. Zélio não apareceu. Desci junto com a Val e entramos na residência. Havia desenhos feitos com carvão em todas as paredes da sala. Eram como pinturas rupestres de um ser que teimava em não deixar a caverna. Fitei ligeiramente os olhos dela e percebi a raiva subindo desde suas entranhas. Ela respirou fundo e me pediu que voltasse e aguardasse no carro, disse que iria até o galpão conversar com o marido. Perguntei se não devia acompanhá-la e, séria, ela instruiu que eu apenas esperasse dentro do carro, pois tinha que conversar e se entender com o marido.

*

“Foi um feminicídio” – complementei a resposta do coordenador do departamento de cultura do município aos investidores. Aquele que se postava como líder do grupo questionou, curioso, se o fato teria ocorrido naquela residência e, com a minha resposta negativa, após expressar frustração, perguntou sobre quantos banheiros existiam no museu, voltando a caminhar entre as peças. Como a comitiva deu continuidade à apresentação do lugar, seguimos todos excursionando por dentro da velha construção. Porém, mais para trás, notei que um dos investidores, aquele que apontou características de escolas artísticas no trabalho da Val, conversava, em cochichos, com o coordenador do departamento de cultura. Imaginei que a minha fala tivesse despertado curiosidade, mas que o tom utilizado teria sido ríspido demais para que as dúvidas fossem dirigidas a mim. Concluímos a apresentação.

Passados alguns meses do encontro com os investidores, entrei, por acaso, em um portal eletrônico sobre arte. Ao clicar em um link, encontrei os quadros da Val expostos à venda, por preços exuberantes, com a indicação de autoria a um tal Vasilis Lykaios, de apelido Mégaira, que, supostamente, teria sido um misterioso artista grego, já falecido. Fechei rápido a janela do navegador, com medo que o Emílio entrasse na sala, reconhecesse o traço da mãe biológica e tornasse a se emocionar.

14 comentários em “A Arte Alheia (Esopo Mégaira)

  1. Fabio D'Oliveira
    17 de junho de 2021

    Antes de continuar, acho justo esclarecer como estou avaliando nesse desafio. Além de uma consideração final, guio-me por três fatores: artístico, técnico e criativo. Não estou participando dessa vez, mas decidi ajudar a movimentar os comentários!

    ARTÍSTICO

    Uma personagem é pintora. Uma artística. Mas isso é o bastante para adequar o conto ao tem? Sempre fico dividido quanto a isso. O foco é outro, não a arte em si, apesar dela ter sido um dos catalisadores da tragédia.

    Em forma, o conto é escrito num fôlego, sem pausa e numa narrativa um pouco distante. Não encontrei muito valor artístico em sua forma. Não é belo, apesar de bem escrito.

    Poderia ter explorado melhor a liberdade de mídias desse certame, também. Mas gostei da imagem da capa.

    TÉCNICO

    Boa.

    Está bem escrito, não identifiquei nenhuma falha e tive poucos entraves durante a leitura. Faltou um tempero na narrativa, mas tudo bem. O conto poderia ficar melhor se tivesse uma organização mais cuidadosa, aumentando a quantidade de parágrafos e com algumas quebras de leitura bem aplicadas.

    CRIATIVO

    Normal.

    A história tem sua importância e gostei muito da realidade transportada para ela. A inveja do marido ao enxergar a esposa encontrar-se na arte. Os detalhes enriquecem a trama. Vemos que ele tentou ser reconhecido de alguma forma, mas virou chacota e foi repreendido. A mulher se mostrou egoísta, focando apenas nela, mas de certa forma, não está completamente errada. Somos os responsáveis por nossa felicidade. Gosto dessas nuances, pois mostra como não existe um lado mal e um lado bom. São pessoas, com seus erros e que cometem atrocidades. Faltou amor no marido. E falto cumplicidade na esposa. Faltou um pouco de tudo. E retratando o assassinato de mulheres por seus companheiros, condenável em qualquer situação, não tendo desculpa para isso, lembra o leitor de um tema muito importante.

    Gostaria que a forma fosse melhor, para abordar melhor as nuances dessa situação tão triste.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O conto é bom.

    Entrega uma mensagem importante, a lembrança de um problema social que enfrentamos hoje. Apesar de não ter gostado muito da forma e ter uma leitura um pouco travada, é um bom texto.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no certame.

  2. Luciana Merley
    15 de junho de 2021

    A arte alheia

    Você escolheu um bocado de boas ideias e tentou agrupá-las num conto só (num texto curto), e talvez, esse tenha sido o problema da sua construção. Vamos aos detalhes:

    Coesão – Pois, é. Aqui está o grande problema do seu texto. O título fala de apropriação indébita de obras de arte, mas, o texto toma o rumo da história familiar trágica da mulher, entremeada por vários outros mega sentimentos como frustração, ressentimento do marido, inveja, incompreensão e egoísmo da mulher, abuso infantil, assassinato….enfim. É muito assunto para um texto tão curto. O desenvolvimento das ideias não me pareceu tão bom. Apesar de você~e ter escolhido um narrador cotidiano, em segunda pessoa, fiquei com aquela impressão desconfortável do – aí aconteceu isso, e depois isso…aí ele fez assim, e aí, e aí…Além disso, o narrador dá um pulo da sua linguagem quando solta um “feminicídio”. Se tivesse usado o termo assassinato (dizem não ser mais adequado, no que sinceramente não vejo real diferença), teria soado mais natural ao seu narrador.

    Ritmo – A falta de coesão, de objetivo com o texto, interfere diretamente no ritmo, uma vez que o leitor tem que ficar indo e vindo em busca da “corda” que o conduzirá até à compreensão. O início já foi desperdiçado, na minha opinião, uma vez que você delongou em ambientação e caracterização que não diretamente ligadas ao um possível cerne da história. Penso que iniciar inserindo o leitor diretamente no dilema é sempre um caminho melhor par atrair sua atenção.

    Impacto – Foi naturalmente prejudicado por tudo que já relatei até aqui. O final, em especial, me pareceu muito corrido e inacabado. Como se o autor tivesse enchido o saco do próprio texto”. A inserção do termo “feminicídio” pareceu forçada, por destoar da linguagem casual (de causo) do narrador. Assim como a inserção do assassinato da mulher, da forma como foi inserida, também pareceu encomenda para demandas de movimentos sociais. São assuntos muito relevantes de se tratar, mas, refiro-me aqui exclusivamente à forma como isso foi desenvolvido no texto.

    Parabenizo pela ideia e espero ler outros textos de sua autoria. Grande abraço.

  3. gisellefiorinibohn
    15 de junho de 2021

    Olá, Esopo Mégaira! (Mégaira é difícil de falar, hein? Mégaira… Mégaira… hmm, difícil…)

    Então… olha, não sei direito o que dizer, mas sei que vou acabar dizendo muito hahaha…

    Achei a ideia bem legal: a arte entrando sorrateira na vida da família, a descoberta do talento, o ciúme gerado pela mediocridade, o enlouquecimento, o crime, a apropriação indevida das obras. Tudo prometia um contaço, mas, ao menos pra mim, ficou na promessa.

    Era coisa demais pra ser desenvolvida, e faltou acertar a mão no tom. A escolha do narrador não foi muito feliz, a linguagem é muito “burocrática” (como exemplo, a formal expressão “tendo em vista” apareceu em três parágrafos próximos), e o que deveria ser o clímax – o crime – ficou meio que jogado ali. O fim também foi tão abrupto que me pareceu ter havido um erro no envio do conto.

    Quanto à parte técnica, é um conto muito bem escrito, com poucas falhas de revisão, algumas já mencionadas em outros comentários, logo, não repetirei. Espero que não se importe com mais estes meus apontamentos.

    – Há muitos casos de pronomes iniciando a oração. Isso não me incomoda em absoluto em textos informais, mas com a linguagem escolhida aqui ficou inconsistente. Alguns exemplos:

    “Nos encontrávamos por lá o prefeito, o secretário de educação, o coordenador do departamento e eu.”

    “Apesar de ser um homem de sessenta e três anos, se mostrava, naquele instante, mais ansioso que criança em véspera de Natal.”

    “Expressava, na espera pelos visitantes que chegariam da capital, certa inocência interiorana que, somada às ilusões de uma possível continuidade de sua carreira política, se demonstrava em ares quase juvenis.”

    “Me dispus a levá-la até o lugar para que não fosse sozinha, considerando sua percepção sobre Zélio.”

    – Já disse em outros comentários que sou a louca do “que”. Por isso, peço desculpas antecipadamente e corrijo este seu aqui:

    “Entretanto, devido à sazonalidade da produção e a outros fatores DOS QUAIS, como não me diziam respeito, nunca tomei conhecimento mais aprofundado, a família passava por dificuldades financeiras.”

    – Aqui foi a primeira menção à Dirce. Eu fiquei “Ahn? Quem é Dirce?”. Mais tarde você explica que era a esposa do narrador. Acho que esta explicação deveria ser feita neste trecho:

    “Mas, quando começaram lições sobre pintura à mão livre e com utilização de material alternativo, lembro da vibração dela ao comentar com a Dirce que, enfim, tinha encontrado algo em que era verdadeiramente boa.”

    – Duas vezes “conversar com o marido”, e perto demais uma da outra:

    “Disse que iria até o galpão conversar com o marido. Perguntei se não devia acompanhá-la e, séria, ela instruiu que eu apenas esperasse dentro do carro, pois tinha que conversar e se entender com o marido.”

    Outra coisa estranha foi a opção pelo artigo definido em alguns momentos antes do nome próprio Val. Ficou inconsistente porque não se manteve ao longo do texto com outros nomes nem com a própria Val. Mas pode ser só chatice minha. Sou dessas.

    “… na divisão do serviço, Zélio cuidava da ordenha, das galinhas poedeiras e de alguns porcos para o consumo, enquanto a Val tomava conta da plantação e fazia queijo, manteiga e doce de leite para vender na feira.”

    Resumindo: é um conto bem escrito, criativo, com uma premissa bem legal. Mas não me agradou muito a forma como ele foi desenvolvido.

    De qualquer maneira, parabéns e boa sorte no desafio! 🙂

  4. Kelly Hatanaka
    14 de junho de 2021

    Olá, Esopo.

    Uma bela história, bem contada, com personagens muito bem delineados.

    Impossível não se emocionar com esta narrativa, com a ideia de uma arte que constroi e que destroi, muito bem ilustradfa na figura do Oroboro do sonho de Val. Para Val, a arte construiu. Para Zelio, foi uma força destruttiva ao se aliar às suas frustrações.

    No fim, o dinheiro tomou posse do talento alheio.

    Parabéns!
    Kelly.

  5. Fernanda Caleffi Barbetta
    10 de junho de 2021

    Olá, Esopo, seu texto é bom, o enredo é muito bom, os personagens foram bem trabalhados.

    O conto é muito bem escrito e eu percebo que houve um cuidado muito grande com a escolha das palavras. Porém, em alguns momentos, foi justamente este cuidado excessivo que tornou a narrativa um pouco artificial… é como se, durante a leitura, eu pudesse perceber a mão do escritor.

    Faltou valorizar um pouco mais no texto a questão do assassinato da artista, que foi apresentado muito de passagem. Você cita logo no início que houve uma fatalidade, uma tragédia, gerando uma expectativa, mas a história demora a chegar neste ponto e, quando chega, pouco se desenvolve.

    enquanto funcionário lotado (locado) no departamento
    uma produção maior de produtos (tiraria o “de produtos”)

    preços exuberantes – exorbitantes

  6. Jorge Santos
    7 de junho de 2021

    Olá Esopo Megaira. Dei-me ao trabalho de investigar a origem do pseudónimo, um hábito antigo desde que estou no Entrecontos – quantas vezes os textos não ganham outros sentidos apenas revelados pelo pseudónimo? Não foi o caso do seu, cuja leitura é linear. Megaira é, na tradição grega, uma das filhas de Gaia e Urano. Na tradição romana, é uma das fúrias. Também conhecida por Megera, o nome aplica-se bem a este texto, que fala do deteriorar das relações de um casal que está a passar por dificuldades económicas. No final, o marido acaba por matar a mulher, num episódio de violência doméstica tristemente comum. Gostei das ideias base do texto, da caracterização das personagens e dos diversos confrontos que aparecem: além do confronto entre o casal, temos o confronto entre o entendimento da arte como resultado de um acto apaixonado e da arte como bem de consumo. Como ponto negativo, creio que o texto poderia ter mais fluidez.

  7. Elisabeth Lorena
    7 de junho de 2021

    A Arte Alheia (Esopo Mégaira)

    Meu Deus! Que raiva desse conto! Ódio mortal!
    Texto e estrutura, perfeitos. Conteúdo muito bem trabalhado. Tema abordado com precisão. Enredo trabalhado de forma magnífica, com a introdução de personagens e ações muito interligadas à importância da trama. Nesse quesito é mais um conto do Desafio que trabalhou bem a caracterização de personagens.
    Em lugar de tempo analisei a narrativa como um todo, já que isso abrange tanto os tempos – cronológicos e psicológicos – quanto o espaço e credibilidade. Assim, o conto tem uma realidade interna que, em alguns instantes, captura o leitor como um campo magnético. Entretanto, há quebras que não funcionam. A primeira é a mudança de ritmo da narrativa tanto no início quanto ao final. Ambas poderiam ser melhor trabalhadas. Principalmente a que se refere ao Feminicídio. Talvez se essa parte fosse mais observada e a morte da mulher fortalecesse o texto.
    Pontuei isso porque a leitura fica extremamente magnética quando o perfil de Zélio começa a ser descrito. O contraste entre ele e a artista é fenomenal. Então, ao levá-la para fora do convívio dele e no retorno, mostrar que ele enfim desatinou, diminui o fluxo e a força do crime. É quando o caudal de emoções que vinha junto cai por terra e a narrativa é interrompida. Como se a morte da mulher não tivesse importância para a narrativa,.
    Quanto ao crime: Feminicídio sim, mas executado por um desatinado. Toda a construção do cenário que é encontrado ali, a devastação além do tempo do afastamento da mulher retrata mais a alma em desespero do Zélio que suas pretensões assassinas. O crime como é posto, fica facilmente inimputável pela loucura – Art, 26, Código Penal. E tira a força e a denúncia do uxoricídio.
    O afastamento da mulher pode ser caracterizado como uma medida cautelar de segurança auto imposta, já que estava estranhando as atitudes do marido e, o sonho que ela tem e que dá origem à sua obra de arte revela isso. Para a Psicanálise o sonho é a forma que o cérebro encontra para elucidar as complicações cotidianas que afetam a mente. Com a chegada do fim do descanso a mulher volta a focar no estranhamento do homem e o cérebro tenta limpar as memórias e ela sonha.
    Ao matá-la o homem se complica, ou seja, devora-se, afinal há as complicações legais referente ao cometimento do crime e sua condenação que estão para além do texto.
    Entretanto, se o marido a mata – alcança seus calcanhares – não a destrói, sua obra sobrevive. O monstro de fora do sonho, Mégaira, é quem causa sua destruição ao tomar para si a autoria de sua obra.
    Agora vamos à causa de meu ódio.
    O narrador, que por acaso tem por sobrenome/apelido Mégaira, nos conta que alguém usurpou a propriedade intelectual e artística da Val. Sabemos, ainda por esse contador de histórias, que o vacilão que cometeu esse crime tem o mesmo nome. Por ser um pseudônimo, quando abrir autoria minha análise cairá por terra, eu sei, mas não confio na frase: “Fechei rápido a janela do navegador, com medo que o Emílio entrasse na sala, reconhecesse o traço da mãe biológica e tornasse a se emocionar.” Esse medo estende-se ao fato de não ser descoberto? Indago, mas para mim é uma pergunta retórica. Parece que aquela conversa ocorrida de modo mais afastado acabou mudando o caso a seu favor. Morta Inês, ops, Valdelice, o marido recolhido ao xadrez, usurpar o lugar da artista não seria difícil. E, por desencargo de consciência adota-se Emílio e vida que segue.
    Aqui, suponho, claro, porque como o usurpador agiu está também além do texto, o narrador ao afirmar que a conversa com o representante da secretaria da cultura foi feita distante dele, cria um álibi para si.
    Gostei dos nomes do usurpador da obra alheia. A jogada com Mega, Lacaio e vacilo mexeu comigo. Na minha cabeça esse ser é um mega mitomaníaco com síndrome de pequeno poder (Lycaios) e um grande vacilão que deve ser imediatamente denunciado. Será que Emílio demora crescer?
    Analisando o texto, um filme vem à minha memória, The Usual Suspects, 1995, no Brasil, “Os Suspeitos”. Na película o criminoso muda toda a narrativa para sair dela inocente. E consegue sair pela porta da frente da Chefatura de Polícia, sendo descoberto só depois que já não pode ser apanhado. Saí desse conto com a mesma sensação de impotência com que fico ao terminar de rever Kevin Spacey se safar.
    Sucesso no Desafio.

    • Elisabeth Lorena
      7 de junho de 2021

      PS. Só uma coisa: Quando eu digo ódio mortal é o efeito em mim. Gostei muito do conto.
      Voltei para esclarecer isso porque agora a pessoa precisa falar tudo claramente se não quiser ser cancelado.
      kkkkkkkkkkkk
      Mentira, Voltei só porque quis esclarecer mesmo.
      E boa sorte e fui.

  8. claudiaangst
    4 de junho de 2021

    Olá, Esopo, tudo bem?

    Farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = Pintura. O tema do desafio foi abordado com sucesso.

    R = Revisão = Pequenos deslizes como iniciar frases com os pronomes oblíquos:
    – Nos encontrávamos por > sei que parece que fica estranho, mas eu usaria o recurso de inserir alo antes do NOS para resolver a questão. > Por lá nos encontrávamos
    – Me dispus a levá-la > Logo me dispus a levá-la > Prontamente me dispus…
    – reprimiu severamente a desatenção do marido > repreendeu/censurou severamente…

    T =Trabalho de escrita/narrativa = O início do conto pareceu-me mais moroso, mas à medida que a narrativa avançava sobre a vida do casal, o ritmo foi melhorando. O problema foi justamente essa falta de coesão, o contraste de uma narrativa mais distante e a intimidade que o relato necessitava para trazer mais emoção ao leitor.
    O pseudônimo traz uma referencia a Esopo – lembrei-me de uma das suas fábulas que fala das uvas verdes – quem desdenha quer comprar – quando o Zélio tenta diminuir a arte da mulher.

    E = Então, autor[a] = Um conto que me conquistou lá pelo meio, mas que me perdeu com a falta de um clímax na morte de Val. Talvez a intenção tenha sido de dar mesmo um corte abrupto para impactar o leitor, mas para mim não funcionou tão bem. No entanto, o conto tem muito potencial a ser desenvolvido.

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  9. Leonardo Philipe
    1 de junho de 2021

    Olá, Esopo Mégaira! Obrigado por compartilhar A Arte Alheia conosco ♥️

    Conto bem escrito, que trabalha a relação entre a obra de arte da protagonista, um feminicídio e o pseudônimo escolhido.

    – PONTOS POSITIVOS: Escrita refinada, sem muitas firulas. Os parágrafos mais longos combinam bem com o modelo de um relato, em que geralmente os personagens falam bastante antes de tomar uma pausa.

    – CONSIDERAÇÕES: Transformar relatos de terceiros em conto é um risco enorme, pois fica difícil transmitir a emoção das personagens; e foi exatamente isso que, na minha opinião, aconteceu com seu conto. Ele ficou monótono, sem grandes nuances emocionais, por causa da escolha do narrador.

    Por se tratar do relato de um feminicídio, senti falta de frases impactantes a respeito deste tema. As críticas sociais estão trabalhadas apenas nas entrelinhas, o que é uma pena, porque poderiam ter enriquecido o texto.

    Faltou um tantinho de inspiração até mesmo para as cenas finais. Há muitas elipses que poderiam ser substituídas por descrições mais intrigantes, mais misteriosas, uma vez que seu conto flerta um pouco com o Romance Policial.

    Ainda assim, é um texto muito bem escrito, e a leitura flui bem.

    Parabéns! ☮

  10. antoniosbatista
    30 de maio de 2021

    Ambientação= No tema- Pintura.

    Escrita= Excelente.

    Enredo= Médio.

    Considerações Gerais= O conto tem uma ótima narração. É interessante até certo ponto, tudo bem escrito e descrito, a construção do cenário interiorano, mas do meio para o final, perde força, tanto nas ideias quanto na narração. O final me decepcionou, não me surpreendeu. O mote do conto é fraco; os investidores sacaneando a Val. Simples assim e uma coisa comum. Boa sorte.

  11. Fheluany Nogueira
    30 de maio de 2021

    A narradora acompanha a concessão de um museu e conta a história dos trabalhos abandonados em um dos cômodos do museu. Ao final, as mesmas pinturas estão super-avaliadas e apresentadas como de outra autoria. A narradora tenta esconder a situação para que o filho da verdadeira artista (entendi que era o marido dela) não sofra com a fraude.

    Do grego, Mégaira(o pseudônimo) é uma mãe muito malvada e desnaturada; no conto é o nome de quem usurpou o trabalho artístico alheio — sugestivo.

    O texto tem, para mim a cara de um relato, muito contado e pouco mostrado e que pretende passar uma emoção que não consegui sentir, apesar de notar certa ironia e crítica social embutidas, trazendo questões como machismo, plágio, venda de patrimônio público, descaso com os pequenos artistas locais e o anonimato deles.

    No todo, a trama me agradou, criativa e inesperada, com várias histórias em uma e aproveito para parabenizar-lhe pelo conto e desejo sucesso na classificação. Abraço.

  12. Anderson Prado
    27 de maio de 2021

    Olá! Tudo bem?

    Seguindo os passos da melhor revisora de todos os tempos, a dileta Claudia Roberta Angst, farei considerações sobre seu conto na forma de A-R-T-E:

    A = A arte em si = A arte aparece com sucesso no conto: uma personagem é uma pintora.

    R = Razões para ODIAR o conto (porque sou desses) = Parágrafos longos sem diálogos: a leitura se arrasta.

    T = Trabalho de escrita/narrativa = A escrita é boa: está bem encaminhada.

    E = Então, autor[a] = Não foi uma leitura chata, mas também não foi uma leitura ruim. Assim, foi um texto morno, o que não sei se chega a ser bom ou ruim. O enredo é um tanto inocente, sobretudo pela forma como a arte alheia teria sido usurpada (tudo poderia ter se dado de maneira mais sutil).

    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio!

  13. thiagocastrosouza
    26 de maio de 2021

    Resumo: Pensando em aumentar a renda, Val participa de oficinas de pintura e se descobre como uma talentosa artista. Seu sucesso, porém, incomoda pessoas próximas, levando-a para um destino trágico, assim como o de suas obras.

    Comentário: Esopo Mégaira, tive altos e baixos lendo seu conto. A ideia de discutir o desapreço pela arte local, quando não a comercialização do patrimônio público é um tema atual e necessário. Decidir colocar um funcionário público como narrador dessas tensões foi uma decisão acertada, pois acompanhamos o conflito a partir dos olhos de quem tem poucas opções de ação, o que nos gera frustração. O texto é bem escrito e não percebi erros de revisão. Minha crítica é apenas ao tom muito sequencial que deu à trama, que não me permitiu me aproximar desses personagens. Entendi a história de Val, seus problemas com o marido e o crime que cometeram contra ela, mas a forma seguida que decidiu narrar os fatos tornou o miolo do texto muito impessoal. É um ponto difícil de resolver, eu sei, ambientar, tornar a história apetecível, apresentar os acontecimentos de maneira dinâmica. O conto possui material para isso; o enredo tem substância, atualidade e pode impactar o leitor com seus acontecimentos. Creio que você se aproximou desse tom no fechamento, do qual gostei muito, pois vemos a angústia, o receio e o desconforto do protagonista com o destino das obras de Val e a consequência desse descaso na saúde emocional de Emílio. Nesse ponto, compartilhei a frustração com o narrador, coisa que não consegui no desenvolvimento.

    Como o desafio permitia um número maior de palavras, o definhar de Zélio, o nascimento e crescimento de sua inveja, o carvão como símbolo da caverna, da prisão, poderia ter sido tratado com mais calma, e a morte de Val, mais sentida.

    Boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 24 de maio de 2021 por em Artes.